QUATRO FILMES DA SHAW BROS.

TEMPLO DA LOTUS VERMELHA
(Temple of the Red Lotus, 1965)
dir: Hung Hsu Teng

Sinopse: Jimmy Wang Yu interpreta um jovem espadachim que parte numa jornada de vingança, procurando os assassinos de seus pais, e também em busca de uma amiga de infância que foi prometida como sua noiva. Quando ele chega no local, descobre que a família da noiva pode ser um bando de bandidos e começa a investigar a história por trás da rivalidade que eles têm com os monges no Templo da Lótus Vermelha.

Primeiro filme wuxia em cores da Shaw Brothers, meio que inaugura uma era de ouro do cinema de kung fu da produtora, o que por essas razões históricas já seria recomendável pra quem realmente tem interesse a entrar de cabeça nesse cinema e perceber sua evolução.

Porque de resto TEMPLO DA LOTUS VERMELHA não é grandes coisas. O drama é fraco e pesado, tem pouca ação (e quando acontece é rápida, sem muita criatividade, acho que a coisa ainda viria a melhorar nos anos seguintes nesse departamento), a jornada do herói, vivido por Jimmy Wang Yu, soa um bocado enfadonha, sem graça – a longa sequência que ele tem que fugir do castelo com sua companheira, enfrentando irmã, tia, mãe e avó da moça, uma de cada vez, é bem ridícula e me fez soltar altos bocejos…

Mas não deixa de ser legal ver alguns rostos que viriam a fazer sucesso pela Shaw na década seguinte, como Lo Lieh e Tien Feng. Nos créditos ainda aparecem nomes como Liu Chia-Liang e Yuen Woo Ping.

O filme faz parte de uma trilogia, formada por ainda por AS ESPADAS GÊMEAS (65) e A ESPADA E O ALAÚDE (67) que em algum momento vou acabar assistindo. Todos dirigidos por Hung Hsu Teng, mas confesso que depois deste aqui fiquei com preguiça.

THE OATH OF DEATH (1971)
dir: Pao Hsueh-Li

Sinopse: Três heróis tornam-se irmãos de sangue para lutar contra a tirania dos invasores tártaros. Um deles decide se infiltrar entre os inimigos e acaba ganhando uma posição de destaque. Não demora muito, fica evidente que o sujeito gostou da posição de poder e está disposta a sacrificar qualquer coisa e qualquer pessoa para mantê-la, incluindo seus irmãos de sangue.

Um dos filmes mais curiosos que vi da Shaw Bros. Um exemplar de espadachim que se alterna entre uma trama melodramática levada muito a sério e um filme excêntrico de artes marciais, bem puxado para o exploitation, mostrando muito sangue e selvageria, mas também um bocado de sexo e nudez fornecida por Ling Ling uma das estrelas residentes da Shaw.

Pao Hsueh-Li pode até não ser um Chang Cheh – as lutas são filmadas muito de perto, editadas com desleixo em alguns momentos, sem muita preocupação com a coreografia – mas ele se dedica tanto a transformar essas sequências num banho de sangue que fica difícil não elogiar os esforços. E os contextos que as batalhas ocorrem, mais a variedade de armas utilizadas deixa tudo ainda mais divertido. Os trinta segundos finais, um duelo onde um dos personagens centrais tem uma perna decepada por um chicote (!!!) e continua lutando para enfiar o braço no peito adentro de seu adversário é um dos momentos mais insanos que já vi num filme da Shaw… Só não esperem uma abundância de lutas durante o filme, a parte dramática realmente toma um tempo grande de projeção, com situações do tipo “amigo roubando mulher de amigo” e etc… Mas se você entrar na história e chegar inteiro até os minutos finais, não vai se decepcionar.

No elenco, temos Lo Lieh fazendo papel de herói desta vez e o grande Tien Feng. Mas vale reparar na pequena participação de Bolo Yeung como um dos soldados malvados.

THE MAGIC BLADE (1976)
Dir: Chor Yuen

Sinopse: Dois espadachins rivais unem forças para evitar que uma lendária arma mortal, chamada Peacock Dart, caia nas mãos do mestre das artes marciais, Sr. Yu, e de seu malvado submundo do crime.

Esse aqui é daqueles filmes que beira a perfeição. Ti Lung com sua espada giratória é o fodão dos fodões. É o Clint Eastwood do Wuxia, numa jornada de sangue, honra, contra os ardis de uma sociedade secreta, na busca em trazer justiça ao mundo, sem qualquer recompensa de volta. É também uma jornada cheia de MacGuffin’s que o roteiro, um fiapo de história, faz brotar do nada só para fazer a ação continuar surgindo na tela. No caso, a busca pelo tal Peacock Dart, que não pode de jeito nenhum cair nas mãos do velho mestre das artes marciais que comanda uma sociedade de assassinos.

Estamos diante de um filme de espadachim da melhor qualidade possível. E a ação é maravilhosa, tem aos montes, a criatividade do diretor Chor Yuen parece não ter fim na elabroação dessas cenas e na relação que a ação estabelece com os espaços, os mais variados cenários, ambientes e locações, num belo trabalho de manipulação cênica. A sequência final é daquelas que parecem capazes de reproduzir o equilíbrio cósmico do universo!

Lo Lieh, e Lily Li estão no elenco, além de outras figuras… Enfim, pra quem entra na vibe de ver filmes de artes marciais da Shaw Bros. um atrás do outro, como eu tô fazendo neste início de ano, tudo o que pedimos é mais filmes como THE MAGIC BLADE, uma dessas experências raras de imaginação sublime e um senso de aventura fabuloso que já de cara se tornou um dos meus favoritos da Shaw.

EXECUTIONERS FROM SHAOLIN (1977)
Dir: Liu Chia-Liang

Sinopse: Chen Kuan Tai é o protagonista aqui, liderando os sobreviventes do massacre no Templo de Shaolin pelas mãos do sacerdote Pai Mei, encarnado pelo Lo Lieh. O grupo se disfarça numa trupe de artistas de ópera e entre suas viagens, Hung conhece Yung Chun (Lily Li). Os dois se casam e têm um filho, mas Hung acaba sendo morto depois de tentar se vingar do massacre no Templo encarando Pai Mei duas vezes ao longo dos anos. O filho deles, Wen Ding (Wong Yu), une então o kung-fu do Tigre de seu pai com o kung-fu da garça da mãe para enfrentar Pai Mei, que teve seu ponto fraco descoberto por Hung.

Como qualquer filme dirigido pelo grande Liu Chia-Liang, a pancadaria rola pra todo canto. Já começa com uma participação de Gordon Liu, que enfrenta uma vários soldados manchu para dar cobertura para o grupo de Hung. Mesmo cravado de flechas o sujeito dá trabalho. É curioso como tudo por aqui possui um controle sobrenatural das artes marciais: política, religião, família e até o sexo. Logo depois de se casarem, Chen Kuan Tai tem que se esforçar para abrir as pernas de Lily Li… E isso não é numa alegoria, ela literalmente usa técnicas de artes marcias para manter as pernas fechadas e só vai liberar se o marido conseguir “destravar” a moça! haha!

Um dos grandes destaques do filme é Pai Mei, um dos vilões mais desgraçados que Lo Lieh já viveu, com seu ponto fraco que possui relação temporal e muda de lugar no seu corpo à medida em que relógio avança. O cara é quase indestrutível… E ainda tem um lance bizarro dele esconder os testículos contraindo a barriga e prendendo o pé dos adversários entre as pernas! Sensacional! E sim, muita gente vai se lembrar de Pai Mei como o personagem que Quentin Tarantino colocou em Kill Bill para treinar Beatrix Kiddo. Mas quem já tá mais familiarizado com o cinema de kung fu sabe que o personagem existe faz teeempo…

Exibido nos cinemas nacionais como OS CARRASCOS DE SHAOLIN.

FAVORITOS DE 2020

Chegou aquele momento tradicional do blog, um TOP 20 com os filmes que pessoalmente e por diversos aspectos mais me agradaram durante o ano que passou. Confesso que não foi muito fácil compor a lista, foi um ano estranho para lançamentos e vocês sabem que não sou nenhum devorador de filmes recentes e procuro ver apenas o que julgo essencial. Mas fiquei bem satisfeito com os vinte filmes que elegi como meus favoritos do ano. O critério principal foram as produções recentes conferidas no ano de 2020, mas com margem de até um ano. Ou seja, filmes de 2019 que acabei conferindo só em 2020 estão elegíveis.

Vamos à lista:

20. JIU JITSU (2020), de Dimitri Logothetis

19. RESGATE (Extraction, 2020), de Sam Hargrave

18. LET HIM GO (2020), de Thomas Bezucha

17. BRONX (2020), de Olivier Marchal

16. FIRST LOVE (2019), de Takashi Miike

15. COME TO DADDY (2019), de Ant Timpson

14. DEPRAVED (2019), de Larry Fessenden

13. THE DEBT COLLECTORS (2020), de Jesse V. Johnson

12. CAPONE (2020), de Josh Trank

11. O OFICIAL E O ESPIÃO (J’Accuse, 2019), de Roman Polanski

10. SERTÂNIA (2019), de Geraldo Sarno

09. ALONE (2020), de John Hyams

08. POSSESSOR (2020), de Brandon Cronenberg

07. SIBERIA (2020), de Abel Ferrara

06. TOMMASO (2019), de Abel Ferrara

05. A COR QUE CAIU DO ESPAÇO (The Color Out of Space, 2019), de Richard Stanley

04. O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO (2019), de Kiyoshi Kurosawa

03. RICHARD JEWELL (2019), de Clint Eastwood

02. CHASING DREAM (2019), de Johnnie To

01. DA 5 BLOODS (2020), de SPIKE LEE

O SILÊNCIO DO LAGO (1988)

O SILÊNCIO DO LAGO (Vanishing, no título em inglês, ou Spoorloos, no original em holandês) é um bom ponto de partida para conhecer a obra do diretor George Sluizer. Não que ele seja um diretor essencial para se conhecer, mas vai que alguém se interesse… No entanto, O SILÊNCIO DO LAGO, esse sim, vale a pena. É seu filme mais famoso e fez um baita sucesso internacional no período, ganhou status cult e chegou a ter um remake americano em 1993, dirigido pelo próprio Sluizer e que ainda não vi, mas aparentemente não conseguiu o mesmo resultado (cometeu o velho pecado de mudar o final original para um mais otimista…).

O filme é uma divagação sobre considerar a vida cotidiana salva e segura até que seja alterada por uma desgraça em um único instante. Saskia (Johanna der Steege) não esperava encontrar Raymond Lemorne (interpretado pelo falecido Bernard-Pierre Donnadieu) em um ponto de parada de uma rodovia lotado de viajantes. Ela não esperava encontrar um homem que se descobriu psicopata ainda jovem e passou anos ensaiando o momento em que sequestraria uma mulher aleatória. Lemorne exibe o verdadeiro mal, mas consegue esconder sob a pele de respeitável empregado de classe média, casado com uma esposa devotada e duas filhas. Depois de várias tentativas fracassadas, o sujeito consegue drogar e sequestrar uma mulher – que por acaso é Saskia. O que ele planeja fazer com sua vítima após o sequestro é um segredo sabiamente mantido do público até os momentos finais do filme.

O namorado de Saskia, Rex (Gene Bervoets), é um pouco ingênuo no início, mas quando Saskia simplesmente desaparece debaixo do nariz de dezenas de pessoas, dá-se início ao seu processo de transformação. O SILÊNCIO DO LAGO também é sobre violência inesperada e aleatória que pode acontecer em qualquer lugar – até mesmo em uma loja de conveniência visivelmente “segura” em um posto de gasolina lotado de famílias no meio do dia. É assustador. E a forma como Sluizer conduz tudo isso é algo belo, de alto calibre, desde a tensão inicial da sequência do túnel, passando pelo jogo de gato e rato entre Rex e Lemorne, até o aterrorizante final – quando Rex faz uma aposta arriscada para descobrir o que realmente aconteceu com Saskia.

Stanley Kubrick chamou O SILÊNCIO DO LAGO de o filme mais assustador que ele já tinha visto e procurou Sluizer para discutir como ele editou o filme. O que faz bastante sentido, já que o suspense é todo construído sobre a necessidade de saber o que realmente aconteceu com a moça sequestrada. O que deve ter causado um bocado em Kubrick, um homem que claramente tinha uma curiosidade voraz. E assim como seu sequestrador, O SILÊNCIO DO LAGO é cuidadoso com suas revelações, aumentando a tensão em um ritmo desconfortável e lento, mas deveras perturbador. Sluizer usa essa curiosidade do público como uma arma à seu favor, criando um vínculo simpático com Rex e uma fascinação obsessiva por Lemorne. E a conclusão é sem dúvida um dos finais mais enervantes do cinema de horror dos anos 80.

VIGILANTE FORCE (1976)

VIGILANTE FORCE é um desses petardos que só poderia ter saído nos anos 70 ou primeira metade dos anos 80, com a ressaca de tudo que rolou nos EUA durante esse período. Produzido por Gene Corman (irmão do grande Roger Corman), foi, no entanto, o pau pra toda obra da Corman Factory, George Armitage, que esteve na origem do projeto, tendo escrito o roteiro e dirigido. Ok, um “pau pra toda obra” não muito prolífico como diretor se olhamos para a carreira de Armitage de mais de quarenta anos e só sete filmes dirigidos, mas que merece o “apelido”. Sujeito trabalhou como ator, escreveu diversos roteiros, dirigiu e frequentemente era produtor de seus próprios filmes, dando uma bela contribuição ao B Movie americano.

E um bom exemplo de sua filmografia é VIGILANTE FORCE. O cenário é Elk Hills, uma pequena cidade na Califórnia que passa por um período problemático, com um alto índice de criminalidade pelas ruas somado aos fins de semana celebrados com badernas e cadeiras voando nos bares locais. Povoado de trabalhadores de uma petroleira, sabe? Moçada com sede tanto de cerveja quanto de sangue e violência. A cidade tem se tornado um local pouco atrativo para quem almeja um bocado de paz. E Ben Arnold (Jan-Michael Vincent) só gostaria de desfrutar da vida com seus negócios, sua namorada, cuidar da filha… Mas constantemente se depara com tiroteios à céu aberto. Homens que não hesitam em sacar suas armas para assaltar e atirar nos policiais locais que intervêm. Em suma, a lei e a ordem foi banalizada e a força policial não tem a mínima capacidade para encarar a bandidagem.

A única solução parece ser encontrar reforço. E Ben joga ao grupo de conselheiros da cidade (formada pelo prefeito, o xerife, o dono do banco, etc) uma ideia que pode ser a solução ideal: pedir ajuda ao seu irmão, Aaron Arnold (Kris Kristofferson), que voltou recentemente do Vietnã e tem trabalhado como segurança numa cidadezinha a alguns quilômetros de distância. Aparentemente, a coisa tende a funcionar. Aaron é um cara durão, badass, que saberia lidar com a situação que a cidade se encontra. Além disso, ele contrata seus velhos companheiros veteranos do Vietnã e não demora muito esse bando está usando uniforme e agindo pelas ruas da cidade. E em um local como este, onde andar por aí com um rifle parece tão comum quanto levar seus filhos para passear, esses “mercenários” se passando por homens da lei acabam dando conta do recado.

Até que a vaca vai pro brejo…

Aaron e seus comparsas cruzam certos limites e começam a usar seus uniformes para assassinar desafetos, ganhar dinheiro de forma ilícita e se tornar os reis do crime local. O que provoca um conflito entre irmãos difícil de resolver… E um embate de Kris Kristofferson vs Jan-Michael Vincent é só o que precisamos pra ser feliz num filme B de ação setentista.

George Armitage não parece muito determinado em acertar o tom do filme, mas há algo tão sincero nessa tentativa de ir além de um simples filme de ação que, mesmo mantendo uma cara de B Movie, cinema grindhouse, com momentos dignos de um exploitation americano – como a sequência da briga de galo, por exemplo, e tudo que se desenrola ali – VIGILANTE FORCE consegue também trabalhar alguns temas bem interessantes. É um drama policial de ação com tudo o que temos direito, desde tiroteios, brigas, perseguições e explosões – o final lembra as sandices exageradas de um DESEJO DE MATAR III, que é algo maravilhoso, com excepcional trabalho de dublês – mas ao mesmo tempo trata-se de um conto amargo sobre poder, que lança um olhar sobre uma era pós-Watergate e Guerra do Vietnã, da reabilitação de veteranos que adquirem, no meio de uma guerra, outros valores sob o jugo da bandeira americana. Uma América cujos valores são tão deturpados que chega a ser difícil confiar em alguém. Até mesmo num irmão.

E nesse desencontro de tons, VIGILANTE FORCE chega num equilibrio esquisito, mas bem bacana, entre ser esse crime movie exploitation e uma obra de teor social. O resultado é estranhíssimo, com um ritmo bizarro, mas cheio de boas sacadas e reflexões em meio à situações de exploração. Além de contar com as belas atuações de Kristofferson – que tá assustador – e Jan-Michael Vincent, que deixa o filme ainda mais divertido. Destaque também para as personagens femininas de Victoria Principal e Bernadette Peters. E não deixem de notar a pequena participação do grande Dick Miller como pianista de um bar.

PLANETA DOS MACACOS (2001)

Recentemente, antes de ficar quase dois meses sem postar nada por aqui (esses últimos meses de 2020 estão fodas), me aventurei a peregrinar a série de filmes PLANETA DOS MACACOS. Escrevi sobre os cinco filmes clássicos, mas fiquei devendo os mais recentes que foram surgindo ao longo das décadas… Nos últimos anos até apareceu uma nova trilogia, cujo último filme eu nem cheguei a ver. Mas dessas refilmagens/reimaginações/continuações, o que eu realmente aprecio, apesar da fama ruim que possui, é o PLANETA DOS MACACOS de 2001, dirigido pelo Tim Burton.

A história não é exatamente igual a do original de 1968. Tim Burton chamou de “reimaginação” da mesma história (lembrando que o original é baseado no romance La Planète des Singes, de Pierre Boulle). Neste PLANETA DOS MACACOS também temos um astronauta americano caindo num estranho planeta onde humanos são a sub-espécie escravizada por uma população de macacos tiranos e militarizados. A nave de Leo Davidson (Mark Wahlberg) cai no planeta depois de sair de uma tempestade magnética durante uma busca mal sucedida a um simpático chimpanzé utilizado como cobaia em missão de reconhecimento. Com a sua experiência “avançada”, Davidson será o líder de uma revolução contra os símios, tendo como aliados um grupo de humanos primitivos, mas que já falam um bom e velho inglês para se comunicar, diferente dos humanos dos primeiros filmes originais. Há também dois macacos “progressistas” na luta pela igualdade entre as espécies. Um deles interpretado pelo grande Cary-Hiroyuki Tagawa, o Yoshida, vilão de MASSACRE NO BAIRRO JAPONÊS.

O elenco, aliás, é um dos principais destaques do filme: Helena Bonham Carter, Paul Giamatti, Michael Clarke Duncan, Kris Kristofferson, até Charlton Heston, o astro do filme original, aparece. Desta vez maquiado de macaco. Quem rouba a atenção de todos, no entanto, é Tim Roth como General Thade, um chimpanzé militar sádico, comandante do exército que quer ter controle sobre a civilização dos macacos, numa atuação entre o exagero e a expressividade aterradora que eu curto bastante.

Wahlberg é tecnicamente o protagonista de PLANETA DOS MACACOS, mas além desse baita elenco povoando o filme, as verdadeiras estrelas aqui são as maravilhosas criações de Rick Baker, um dos maiores maquiadores de Hollywood. E até hoje, passados praticamente vinte anos do lançamento, o resultado por aqui ainda é de impressionar. Ao contrário do original, os movimentos dos personagens macacos, seus maneirismos e até expressões faciais são muito mais parecidos com os de símios reais. Lembro que foi bastante divulgado na época que o treinamento corporal dos atores para recriarem os movimentos de macacos foi um trabalho árduo. Mas o resultado na tela chama a atenção. Especialmente porque Burton se preocupa bastante em explorar detalhes cotidianos dos símios, que é uma das melhores coisas do filme.

Uma coisa que PLANETA DOS MACACOS de 1968 conseguiu, além de marcar toda uma época e dar início a uma franquia lucrativa com mais quatro filmes e duas séries de TV, foi de trazer à tona idéias pertinentes sobre o estado das coisas daquela época (ameaça nuclear, política, racismo). Visto por esse lado, essa versão de Tim Burton até tenta lançar um olhar sobre algumas destas questões, em especial sobre igualdades e o militarismo da era Bush, ou seja sobre a estupidez do militarismo; e nesse sentido, PLANETA DOS MACACOS não deixa de ser um filme político. Mas ao mesmo tempo não me parece muito interessado em se aprofundar em nada disso. Acaba se saindo mais como um divertido filme de ação/sci-fi, extremamente bem feito e com Burton dirigindo com consciência da responsabilidade que tem em mãos.

Quero dizer, o sujeito era um dos diretores mais interessantes de Hollywood na época e fica evidente do início ao fim a pressão que colocaram pra cima dele com essa “reimaginação”. Na própria mecânica do filme, na sua incapacidade de ousar, percebe-se que Burton não teve muito espaço para imprimir traço reconhecível do seu estilo, buscando respeitar o material original e não ferir os sentimentos das fanzocas da saga. PLANETA DOS MACACOS poderia ter sido dirigido por qualquer diretor competente do período que o produto final não seria muito diferente. Não tô dizendo que o filme é totalmente genérico, a mão do diretor para o tipo de aventura que ele cria aqui até carrega um bocado de sua assinatura, mas acredito que está bem longe do autorismo do sujeito que apropriou-se do universo de Batman e deu-lhe toda uma identidade pessoal. Esse Tim Burton, e o de ED WOOD, EDWARD MÃOS DE TESOURA, MARTE ATACA, A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA, é que não parece estar aqui.

Sinto um pouco disso no quesito “ação”, que resume-se basicamente a um corre-corre que não chega a empolgar muito. A batalha final e todo o ato que se desenrola a partir dali já desperta maior interesse… Chega a lembrar o Burton de antes. Mas, tirando esses detalhes de autorismo, o trabalho de Burton como artesão de estúdio é impecável, feito na medida para respeitar o filme de 68. Mas fico imaginando o que um Paul Verhoeven faria com esse material. Com certeza ia rolar uma “aproximação” mais íntima entre Wahlberg e a Bonham Carter de macaca que ia arregalar uns olhos. Seria genial. Por aqui, só um flerte distante, o máximo que Burton conseguiu…

De qualquer forma, é uma pena que boa parte do público não tenha curtido essa versão. É um filme divertido, mas que a rapaziada não embarcou, em especial pelo desfecho surpresa, que é tão bom quanto o do original (sem o mesmo impacto, claro). Lembro que me surpreendeu muito na época e me deu esperanças de que tivessem continuações a partir dalí, mesmo dirigidas pelo Burton… Frustrante que nunca tenha rolado. Esse PLANETA DOS MACACOS acabou sendo seu último grande filme na minha opinião. Sei que nem todo mundo pensa assim, mas a partir daqui foi só ladeira abaixo. Não consigo gostar de quase nada que ele dirigiu depois, e o que gosto é com certa distância, com ressalvas (SWEENEY TODD, O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES e SOMBRAS DA NOITE). Já vi e revi vários e não me descem.

Mas PLANETA DOS MACACOS valeu a pena. Valeu na tela grande, na época do lançamento, pelas maquiagens, efeitos especiais, o elenco fantasiado de macacos e um senso de aventura bem legal, e valeu a pena rever agora pela primeira vez depois de tantos anos.

SEAN CONNERY

Sean Connery talvez tenha sido o primeiro ator “sério” que eu comecei a acompanhar melhor quando era moleque… Lembro que eu tinha uns 7, 8 anos quando vi O NOME DA ROSA, típico filme que eu não daria a mínima na época, mas quis ver porque era com ele.

E pode ter influenciado o fato de ser o primeiro Bond e eu ter visto coisas como OS INTOCÁVEIS, INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA e HIGHLANDER ainda muito cedo… O cara ainda fez o melhor filme de ação da carreira do Nicolas Cage. E dezenas e mais dezenas de papéis icônicos e que formaram a base da minha cinefilia.

Gênio demais. Que descanse.

CINE POEIRA S02E01: MATADOR DE ALGUEL (1989)

Estamos oficialmente de volta para a segunda temporada lá no CINE POEIRA! Depois de uma breve pausa, eu, Luiz Campos e o Osvaldo Neto retornamos às atividades para alegrar o coração do fiel ouvinte e amantes de cinema de gênero, de cinema badass, de chute na cara, tiro, porrada e bomba e uns filmes de horror e sci-fi de vez em quando.

E pra coroar este retorno, conversamos sobre um clássico definitivo entre os formadores de caráter: MATADOR DE ALUGUEL, vulgo ROAD HOUSE (1989), dirigido por Rowdy Herrington, um filme que nos ensina a viver. Pancadaria em bares, música boa, camaradagem, a dor não machuca, e o leão-de-chácara PHD em Filosofia mais badass da história do cinema, imortalizado por Patrick Swayze. Ainda no elenco, Kelly Lynch, Sam Elliot, Ben Gazzara e muito outros.

Escute agora mesmo este primeiro episódio da segunda temporada do CINE POEIRA aqui mesmo no blog:

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SEXTA-FEIRA 13 (1980)

Mês de outubro, clima de Halloween, etc, aproveitei para revisitar SEXTA-FEIRA 13, o clássico slasher que tá completando 40 anos em 2020. Já fazia umas duas décadas que não assistia, mas guardava boas lembranças. Então fiquei feliz de ter essa impressão confirmada agora. Não acho nenhuma obra-prima, mas é um horror bem eficiente e, levando em conta o seu contexto, a coisa se torna especial, estamos mexendo com as raízes do subgênero slasher por aqui…

Claro, PSICOSE pode ter plantado a semente; BAY OF BLOOD, de Mario Bava, e BLACK CHRISTMAS, de Bob Clark, serviram de base e muita inspiração; e HALLOWEEN deu o pontapé inicial. Outros filmes surgiram no meio do caminho que de certa forma dialogam com o subgênero (MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, por exemplo). Então é evidente que SEXTA-FEIRA 13 não criou nada do zero. Mas é fascinante perceber como o diretor Sean S. Cunningham e o roteirista Victor Miller pegaram todos os ingredientes possíveis desses filmes anteriores, misturaram e conceberam a alma do slasher movie, um produto final de pureza absurda, estabeleceu todos os clichês do gênero. Provavelmente um dos mais copiados de todos os tempos. HALLOWEEN pode ser um filme melhor em vários sentidos. Esse sim, uma obra-prima. Mas SEXTA-FEIRA 13 é o filme definitivo quando se trata de slasher movie.

Essa revisão deixou ainda mais evidente como SEXTA-FEIRA 13 é um filme muito bom. É direto, a trama é simples, mas gosto do seu primitivismo. E como foi tão copiado ao longo das décadas, fica a impressão até de um filme meio genérico – tirando a reviravolta no final, ele nunca sai do formato narrativo que estabelece desde o início. Mas quando você para e pensa que a coisa aqui ainda tava em sua gênese, é incrível.

E é interessante como a memória às vezes engana, o filme não é tão violento quanto eu lembrava e, apesar disso, não senti falta de algo mais brutal. Obviamente temos algumas ceninhas gráficas de violência com muito sangue e corpos perfurados, rasgados e decepados para dar aquela alegrada e poder elogiar o trabalho fenomenal de Tom Savini – especialmente na cena da morte de Kevin Bacon (único no elenco jovem que conseguiu desenvolver uma carreira depois?). Mas em comparação com slashers posteriores, é suave.

Mas como disse, não senti falta de mais violência, acho que compensa o trabalho atmosférico, a câmera em “primeira pessoa” que observa furtivamente o grupo de jovens que em breve vão virar presunto… E o cenário que é estabelecido captura perfeitamente o terror mágico das florestas, com a chuva cintilante caindo em Crystal Lake, cada vez mais descendo às trevas. Chega num ponto que não se vê merda nenhuma na tela, de tão escuro, mas ao mesmo tempo é precisamente iluminado para que se veja o que é necessário. Está no nosso DNA, sabemos que é preciso ficar perto do fogo, da luz, e fingir que não há nada lá fora nos observando. Mas a gente sabe que a qualquer momento uma lâmina bem afiada pode surgir pra cortar a nossa jugular… Esse é o poder de SEXTA-FEIRA 13.

Mas peraê? Até gora não falei do maior ícone da série SEXTA-FEIRA 13! Talvez o principal motivo da franquia durar tanto tempo. Na verdade, é provável que seja o maior ícone do slasher movie de uma forma geral. Acho que não chega nem a ser um spoiler o que vou dizer, mas se você, por algum motivo, nunca teve notícias sobre o primeiro SEXTA-FEIRA 13, esteve em coma nos últimos 40 anos ou chegou agora no planeta terra vindo de marte, sugiro que não leia o próximo parágrafo antes de ver o filme.

O fato é que neste primeiro filme, o inigualável Jason Voorhees, com sua inconfundível máscara de hóquei, não é exatamente um personagem, ele é “o motivo” de todas as mortes… Não ficamos sabendo muito da história do Acampamento Crystal Lake, apenas que é chamado de “Camp Blood” por causa de alguns assassinatos que rolaram no passado (mostrados logo no início do filme) e tentativas de reabrir o acampamento falharam. No final do filme, Betsy Palmer aparece como a lunática Pamela Voorhees, que começa a falar sobre o garotinho que se afogou no local e revela que era seu filho, Jason. Ela culpa os conselheiros do local por não cuidarem do moleque o suficiente, e totalmente surtada confunde qualquer filho da puta que cruza seu caminho com os conselheiros. E é isso, essa senhorinha é quem de fato perfura, corta e decepa os vários personagens de SEXTA-FEIRA 13.

Inclusive, um dos pontos altos é a luta final entre a final girl do filme, Alice (Adrienne King) e Pamela Voorhees. Elas realmente partem pra grosseria, rolam no chão, dão pancadas, é uma briga bem digna. Mas não demora muito, Alice decepa a cabeça da velha com um facão, o que é algo que já torna SEXTA-FEIRA 13 obrigatório… Não é sempre que vemos uma senhorinha simpática de suéter tendo a cabeça cortada.

Agora tenho que rever a parte 2, que a única coisa que lembro é que, agora sim, teremos Jason em todo seu resplendor para mais uma contagem de corpos, apesar de ainda ser sem a máscara de hóquei… Vamos ver como se sai hoje. Se for tão divertido quanto este aqui, já fico no lucro.

ALONE (2020)

Para quem se interessou minimamente pelo cinema de ação dos últimos quinze anos, o nome JOHN HYAMS deveria soar familiar. Filho do diretor Peter Hyams (OUTLAND, CAPRICÓRNIO UM), o sujeito entrou na cena com alguns dos melhores e mais ousados exemplares recentes do gênero: as continuações altamente badasses de SOLDADO UNIVERSAL, contando ainda com a presença dos atores originais, Van Damme – com quem seu pai havia trabalhado nos anos 90 (TIMECOP e MORTE SÚBITA) – e Dolph Lundgren. Davam a impressão de bons cartões de visitas de Hyams para abocanhar projetos mais ambiciosos, talvez sob a batuta de algum grande estúdio. Talento e potencial o cara demonstrou. Mas acabou não acontecendo…

Apesar da positiva recepção que seus filmes de ação tiveram, Hyams passou os anos seguintes na televisão, produzindo e dirigindo uma série de zumbis, Z NATION, e seu spin-off na Netflix, BLACK SUMMER. Seu longa seguinte só foi sair em 2018, uma comédia que passou batida e quase ninguém viu, chamada ALL SQUARE. Eu mesmo não parei pra ver… E aparentemente o cara tava se afastando de tudo o que queríamos dele.

No entanto, eis que nesse estranhíssimo ano de 2020, John Hyams está de volta. Tá certo que ainda não é com algo exatamente na mesma linha dos seus filmes de ação, infelizmente, mas ao menos ele retorna com um material bem interessante, que é ALONE, um pequeno survival horror film muito bem executado, demonstrando que o sujeito não perdeu a mão.

Na trama temos Jessica (Jules Willcox), uma mulher se mudando para sua cidade natal para recomeçar após uma tragédia em sua vida. Acaba tendo uns transtornos com um carro preto na rodovia, dirigindo agressivamente e aparentemente a seguindo. Eventualmente, ela conhece o motorista do carro (Marc Menchaca), que está tentando ser legal, parece inofensivo, mas continua aparecendo nos lugares que Jessica encosta o seu veículo. O que acaba não sendo muita coincidência. O Homem realmente tem planos nada agradáveis pra ela… Até que a moça finalmente sai da estrada por conta de um pneu misteriosamente furado e o sujeito aproveita pra aparecer e deixar suas intenções bem claras. Agora, Jessica terá que retirar forças sabe-se lá de onde para sobreviver tanto dos perigos da floresta quanto do homem que certamente a matará se tiver a chance. Vai enfrentar frio, chuva, ferimentos, a ameaça de um psicopata, tudo isso enquanto sua própria vida já está em pedaços.

Composto por uma série de blocos, cada um com seu próprio título e particularidades diferentes, ALONE não é o tipo de filme que vai reinventar a roda, não vai jogar uma nova luz de genialidade ao gênero ou subverter suas convenções. É basicamente mais uma trama de sobrevivência como milhares que existem por aí. A diferença é que é feito com tanta habilidade, personalidade e confiança que acaba se destacando da concorrência. É ter um diretor do calibre de Hyams por atrás das câmeras, que pega esse material tão manjado e transforma em puro prazer visual, em um exercício formal despojado (uso criativo do foco, das lentes, da luz, dos espaços), consegue criar uma experiência realmente tensa e exaustiva.

O trabalho com o elenco também é muito bom. Ambos atores centrais, Willcox e Menchaca, chamam a atenção (não conhecia nenhum dos dois). Mas ainda temos uma participação mais que especial do grande Anthony Heald (O SILÊNCIO DOS INOCENTES).

No entanto, é um filme que realmente pertence a Willcox. Seguimos cada movimento de sua personagem do início ao fim, sentimos o esforço de continuar lutando, continuar sobrevivendo. É uma mulher a princípio perdida emocionalmente (ficamos sabendo mais tarde os motivos de sua desestabilização), que se transforma e demonstra uma força interior real. E Willcox se entrega no papel com uma expressividade no olhar muito forte. E o público realmente torce por ela, como se estivesse na mesma situação. Quando chega o confronto final entre Jessica e seu caçador, sente-se como se estivesse dando cada soco, cada chute por ela…

E essa sequência é um deleite, quase dá pra matar a saudade do cinema físico que Hyams realizou no início da carreira…

Em última análise, ALONE lança um olhar para o horror de ser uma mulher que é assediada e atacada por um homem. Mesmo antes de as coisas se tornarem ameaçadoras, o Homem (que não tem nome no filme, sua identidade não importa) não a deixa em paz, apesar de seus pedidos para que o fizesse. É só uma questão de tempo, demonstra o filme, até que a coisa descambe para a violência.

Altamente recomendado, ALONE é desses filmes a não se perder este ano. E esperamos que John Hyams não demore pra vir com mais surpresas como essa. Quem sabe aquele projeto da refilmagem de MANIAC COP, com a produção do Nicolas W. Refn, que haviam anunciado há uns anos?

A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS (1973)

Último filme da franquia clássica. Aqui a coisa dá uma derrapada, meio que despiroca… Num mau sentido.

A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS se passa no máximo poucas décadas depois de A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS. Nesse intervalo, a Terra foi dizimada por um holocausto nuclear, mas não vemos isso acontecer. Fuén! Uma decepção para os fãs que sempre quiseram ver como a estátua da liberdade foi parar naquele estado do primeiro filme… Os macacos evoluíram num tempo récorde: já falam e raciocínam normalmente, algo que deveria acontecer em milênios, e temos até uma raça de humanos mutantes pós-nucleares que vivem sob as ruínas de LA.

Mas a falta de lógica temporal é o menor dos problemas de A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS. A história é ruim, os personagens, com exceção de um ou outro, parecem cansados da própria série; tudo parece desenrolar às pressas, com um ritmo desconjuntado, acaba não tendo nada muito marcante… O clímax é o mais sem graça possível (tanto a batalha final entre humanos e macacos quanto o duelo de Caesar contra um desafeto em cima de uma árvore).

Na trama, Caesar (novamente Roddy McDowall) lidera uma pacífica comunidade mista de macacos e humanos, mas seu modo de vida está ameaçado tanto por dentro quanto por fora da comunidade. Não apenas o General Aldo (Claude Akins) e seu exército de gorilas estão conspirando para derrubar Caesar, mas o governador Kolp (Severn Darden), que lidera a tal raça de mutante, decide atacar o acampamento.

Caesar quer conhecer mais sobre seu passado, sobre seus pais, então resolve fazer uma jornada com MacDonald (Austin Stoker) – não o mesmo MacDonald do último filme, mas o irmão do personagem, porque Hari Rhodes não retornou para o seu papel – e um orangotango chamado Virgil (um dos poucos personagens que salva), até as ruínas de Los Angeles onde estão os arquivos gravados dos depoimentos de Cornelius e Zira lá do terceiro filme. O problema é que dão de cara com os mutantes que vivem lá e desencadeia uma guerra.

Isso é basicamente o que temos de interessante no enredo. O resto é pura embromação. A maior parte do filme é bastante pálida. Há uma cena na qual o filho de Caesar é assassinado pelo general Aldo e não senti absolutamente nada pelo moleque… O filme não constrói nada de interessante sobre o personagem. Não constrói nada também sobre as motivações para o conflito entre macacos e o que resta dos humanos.

Fica evidente logo de cara que a Fox já não parecia muito interessada na franquia (apesar de TODOS os filmes da série terem sido sucessos comerciais) e reduziu consideravelmente o orçamento. Os realizadores tiveram que suar para criar algo. A grande batalha do título se resume nuns gatos pinga… Quero dizer, macacos pingados atirando de um lado para outro contra uns humanos que avançam leeeeentamente de carros, motos e um ônibus escolar em direção à comunidade, tudo filmado sem tensão e emoção alguma. E olha que o diretor é o mesmo J. Lee Thompson do filme anterior, cuja batalha final é épica!

Enfim, um balde de água fria depois de revisitar os outros filmes e ser surpreendido positivamente… E o que é aquele final, com a estátua de Caesar escorrendo uma lágrima? Decepcionado com o capítulo final da série, talvez? Até eu quase chorei de tão constrangedor… Nem John Huston fantasiado de macaco salva alguma coisa. Um fim amargo para uma série que ainda me fascina.

A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS (1972)

Depois que Cornelius e Zira foram mortos em FUGA DO PLANETA DOS MACACOS e descobrimos que seu bebê (Milo no filme anterior, mas aqui chamado Caesar) está seguro no circo de Armando (Ricardo Montalban), a história avança para vinte anos depois, quando a catástrofe de escala mundial anunciada no último filme – e que é determinante para a evolução dos macacos na mitologia da série – já aconteceu.

Trata-se de uma praga, altamente contagiosa – trazida na espaçonave que Zira e Cornelius usaram para vir do futuro – exterminou toda a população de cães e gatos da terra. Os humanos eram imunes, mas os pobres pets foram varridos… E assim, os símios começaram a substituir os animais domésticos. No entanto, quando as pessoas perceberam o quão inteligentes e rápidos em aprender as coisas são os macacos, eles foram adquirindo certas funções na sociedade, com trabalho braçal, todos na cidade usam macacos como empregados nos mais variados tipos de negócio…

Mas o tratamento é aquela coisa, estão sempre acorrentados e caso se comportem mal, são espancados. Caesar, agora com vinte anos e interpretado por Roddy McDowall (que em dois dos filmes anteriores fez o pai, Cornelius), não suporta a crueldade contra os macacos e acidentalmente solta um grito de revolta no meio da multidão. O ato o torna perigoso para o governo, que ainda se lembra do que Zira e Cornelius disseram anos atrás sobre o futuro da humanidade.

Armando e Caesar fogem, mas o humano acredita que assumir a culpa e se entregar pode melhorar a situação. Assim o faz, mas a interrogação é intensa, com tecnologia que impede Armando de mentir, portanto ele comete suicídio para esconder o que sabe sobre Caesar.

Enquanto isso, o pobre macaco falante acaba escondido dentro de um centro de treinamento de símios e mais tarde se torna o animal de estimação do governador. Ao mesmo tempo, planeja não apenas vingança contra o que fizeram com Armando, mas também uma revolução da sua espécie contra os humanos.

Questões de política racial sempre girou em torno dos filmes da série d’O PLANETA DOS MACACOS, isso é óbvio. Mas em nenhum momento essas relações raciais foram tão explícitas quanto em A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS. A revolta dos macacos remete aqui aos motins de Watts; os personagens exibem pensamentos claros sobre a libertação racial; temos o papel do governador Breck (Don Murray), que é um racista abjeto; temos Caesar, cuja liberdade, por qualquer meio necessário, reflete os aspectos mais extremos do nacionalismo negro…

E no fim vemos a coisa acontecer, o ponto de virada de toda a mitologia da série, além de temos uma das melhores, quiçá a melhor, sequência de ação de toda a franquia. Uma invasão épica do exército de primatas, minimamente organizado, carregando armas brancas e de fogo, às instalações governamentais, eliminando qualquer humano, estraçalhando tudo o que não os representa. J. Lee Thompson é o diretor da vez, mestre do cinema físico, de ação clássica, e conduz o caos com uma energia impressionante e deflagradora.

Mas existem dois desfechos de A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS. A versão que foi exibida nos cinemas em 1972 é bastante esperançosa e positiva, com os macacos encontrando a liberdade por meio da luta armada, ao mesmo tempo em que também mostram a seus captores humanos uma clemência que nunca foi-lhes dada. Com Caesar basicamente dando aquele ponto de vista da esquerda moderada, de que a libertação é necessária, mas podemos fazê-lo sem violência?

No final, um dos membros bonzinhos do governo, MacDonald (Hari Rhodes), que ajudou Caesar em determinado momento, tenta convencê-lo a parar de levar sua revolução para um caminho de violência e Caesar está prestes dar o sinal para que seus gorilas espanquem Breck até a morte.

Num primeiro corte do filme, Caesar não lhe dá ouvidos; Breck é brutalmente assassinado pelos gorilas enquanto Caesar fica orgulhoso entre a fumaça de uma civilização que está queimando. É desolador, um aceno à natureza inescapável da violência e destruição, que acaba por estar na sintonia niilista do restante da série.

Mas o público de teste da época não curtiu muito. Ficaram horrorizados. Todo o discurso sobre a crueldade e destrutividade que reside na natureza humana dos filmes anteriores estava tudo bem… Explodir o planeta terra com uma bomba atômica? Sem problema! A execução brutal dos simpáticos protagonistas do filme anterior? Que mal há nisso? Agora, uma alegoria sobre o movimento dos direitos civis e negros, com a revolta numa escalada de violência contra o homem branco? Isso não, de jeito nenhum!

Bom, como não havia orçamento suficiente para refazer o final, por meio da edição e diálogos adicionais conseguiram mudar as coisas. Caesar está prestes a matar Breck, apesar dos protestos de MacDonald, quando de repente Lisa, a macaca namorada de Caesar grita “Não!” Ela é a primeira macaca a falar e usa sua voz a serviço da paz. E assim Caesar muda de ideia. É um final muito mais suave. Todos os filmes anteriores tiveram situações levadas para uma crise, e a lógica era a de que ninguém consegue lidar com essas crises. Pela primeira vez na série, a crise é evitada; a mudança é feita, mas sem recorrer ao extremismo (apesar de todo derramamento de sangue).

No entanto, no lançamento em blu-ray do filme há alguns anos, resolveram incluir uma versão “unrated” que possui o final do corte original, terminando com Caesar sinalizando para que os gorilas arrebentassem o governador. E foi nessa versão que revi o filme ontem. Não quero entrar em polêmicas, mas pessoalmente prefiro este final aqui…

E olha, de uma forma geral me surpreendi bastante com o filme. Roddy McDowall tem sua melhor performance na série. E a forma direta e rápida que as coisas acontecem por aqui e a intensidade do último ato são coisas que realmente me fascinam. É provável que A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS seja o meu favorito logo depois do clássico de 68. Agora é rever o quinto e último capítulo, A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS (73), pra ver como se sai hoje em dia…

FUGA DO PLANETA DOS MACACOS (1971)

Após o desfecho de DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS, não havia lá muita necessidade de continuar a franquia. Mas arrumaram um jeito de seguir em frente… O resultado não é apenas uma sequência BIZARRA, mas o que mais surpreende é o fato de que FUGA DO PLANETA DOS MACACOS é também muito bom!

Três chimpanzés, Cornelius (Roddy McDowall), Zira (Kim Hunter) e o Dr. Milo (não faço ideia), de alguma forma botam pra funcionar a nave afundada no lago no primeiro filme e voam para fora do planeta antes que a Terra seja explodida. Devido à enorme onda de choque, eles são enviados de volta no tempo até 1973.

A primeira metade de FUGA DO PLANETA DOS MACACOS é de uma leveza graciosa; Cornelius e Zira, os amados chimpanzés que co-estrelaram os dois filmes anteriores, são tratados como celebridades neste período onde macacos falantes é algo que não se vê todo dia. Com direito até a uma montagem divertida deles fazendo compras nas melhores lojas de Beverly Hills.

Mas quando o conselheiro científico do presidente do EUA, Dr. Hasslein (Eric Braeden), descobre que Zira está grávida e que eles vêm de um futuro onde os macacos dominam o homem, o sujeito decide que o bebê deve ser abortado e o casal submetido à procedimentos cirúrgicos para que não tenha mais a possibilidade de reprodução.

FUGA DO PLANETA DOS MACACOS acaba tendo o final mais sombrio e desagradável de toda a franquia (e isso quer dizer muita coisa, já que o filme anterior termina simplesmente com a Terra explodindo). No clímax, Cornelius, Zira e o recém-nascido (que deram o nome de Milo, em homenagem ao terceiro chimpanzé que mencionei no início, mas que morre ainda no começo do filme) se escondem em um cargueiro abandonado. Hasslein os encontra e não perde tempo pra atirar. Primeiro nas costas de Zira e depois no bebê chimpanzé.

O pacífico Cornelius, em um acesso de raiva, atira em Hasslein antes de ser morto a tiros por policiais. Cornelius cai do convés superior do barco, morto, enquanto Zira rasteja até o bebê Milo e o joga no mar.

Pesadíssimo…

Há um momento ainda no final que alivia um pouco o aspecto niilista – Zira trocou seu bebê quando estava se escondendo no circo administrado por Armando, vivido por Ricardo Montalban. O verdadeiro bebê Milo está seguro e FUGA DO PLANETA DOS MACACOS termina com o pequeno chimpanzé dizendo sua primeira palavra: “Mamãe”.

FUGA DO PLANETA DOS MACACOS não é apenas devastador porque todos os personagens que somos simpáticos – e que serviam até de alívio cômico nos filmes anteriores – são brutalmente executados a tiros. Mas também porque, como no anterior, o filme julga que nunca seremos uma espécie melhor e é impossível manter as convicções morais diante de determinadas situações. Até Cornelius, um dedicado ativista pela paz que teve problemas por ajudar Taylor (Charlton Heston) a fugir das autoridades no clássico de 68, acaba se tornando um assassino no final.

Desta vez a direção é de Don Taylor, sujeito cuja carreira esteve mais ligada à televisão e no cinema nunca passou de um diretor bate-estaca de estúdio, sem muita personalidade. Outro filme dele que já comentei por aqui foi A PROFECIA II. Mas, para o tipo de filme que é FUGA DO PLANETA DOS MACACOS o sujeito conduz bem as coisas.

E apesar de ser um bom capítulo para a série, ainda prefiro o segundo filme, com todo seu senso de aventura e, claro, de ridículo também, que deixa tudo mais divertido. O primeiro, obviamente, continua imbatível. Agora é rever o quarto, A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS (72), pra ver como se sai hoje em dia…

DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS (1970)

DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS (Beneath the Planet of the Apes) continua praticamente após a revelação icônica do primeiro filme. Taylor (Charlton Heston) e sua amiguinha, Nova (Linda Harrison), viajam para a Zona Proibida e o sujeito de alguma forma desaparece. Enquanto isso, outro astronauta, Brent (James Franciscus), pousa no planeta para encontrar Taylor. Mais tarde, ele aprenderá sobre a diferença entre os pacíficos chimpanzés – especialmente na figura de Cornelius (Roddy McDowall, no primeiro filme e David Watson neste segundo) e Zira (Kim Hunter) – e os violentos gorilas; encontrará as ruínas subterrâneas da cidade de Nova York (recriadas de forma impressionante); e vai se deparar com um grupo de mutantes que usa seus poderes psíquicos para controlar seus oponentes.

Na trama, acompanhamos essa jornada de Brent. Enquanto os gorilas estão decididos a irem à guerra com quem quer que viva na Zona Proibida. Há uma cena que faz referência à contracultura dos anos 60, com os pacíficos chimpanzés protestando contra os planos dos gorilas.

O filme também faz uma sátira interessante sobre a glorificação da guerra, por conta dos mutantes que adoram, literalmente, uma bomba nuclear chamada Alpha-Omega, com força para destruir o planeta inteiro. A sequência do culto à bomba, com palavras de adoração e cânticos ao artefato é tão ridícula, mas tão ridícula, que fica impossível pra mim não achar divertido.

O clímax de DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS ocorre nas ruínas da Catedral de São Patrício; depois de finalmente conseguirem atravessar as armadilhas ilusórias que sempre os afastaram, os gorilas furiosos simplesmente matam todos os mutantes que encontram pela frente.

Brent consegue encontrar Taylor e ambos acabam envolvidos no fogo cruzado. Nos últimos instantes, Brent leva uma saraivada de balas dos gorilas e Taylor… Bom, Charlton Heston teve uma única exigência quando retornou para esta sequência, a de que este seria o seu último filme na série, não queria saber de voltar para mais filmes de PLANETA DOS MACACOS. E os realizadores atenderam seu desejo da melhor maneira possível: no meio do tiroteio, Taylor pede ao Dr. Zaius (novamente interpretado por Maurice Evans) para que acabe com o derramamento de sangue, mas o orangotango se recusa, dizendo que o homem é responsável pela destruição de si mesmo. Em retaliação, o moribundo Taylor aperta o botão do Juízo Final e pimba, DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS termina com a narração:

Em uma das incontáveis bilhões de galáxias no universo, encontra-se uma estrela de tamanho médio, e um de seus satélites, um planeta verde e insignificante, agora está morto.

Mais uma vez, temos aquele clima de niilismo instaurado. Não há esperança e a destruição é simplesmente inevitável. Vindo em um momento em que o mundo estava em uma situação de crise constante – final dos anos 60, início dos 70 – DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS não oferece nenhum conforto. Também não é papel do cinema oferecer esse tipo de coisa, apesar de Hollywood ser mais inclinada à finais otimistas. O interessante da série de filmes d’O PLANETA DOS MACACOS é que a coisa é exatamente o oposto disso. Pelo menos os dois primeiros…

Desta vez, a direção ficou sob a responsa de Ted Post. Bom artesão, diretor do tipo “pistoleiro de aluguel”: atira bem, mas não deixa nenhum rastro. Mas fez um dos melhores filmes da série Dirty Harry, MAGNUM 44. As cenas de ação se destacam – a fuga de Brent lutando contra um gorila em cima de uma carruagem em movimento; o sangrento confronto de Brent com Taylor numa cela, quando ambos estão sendo controlados mentalmente pelos mutantes; todo o caos final… Pra esse tipo de coisa Post não decepciona.

Mas no fim das contas não é tão bom quanto ao original. Difícil se igualar, especialmente com a boa dose de momentos ridículos envolvendo os mutantes telepatas, mas ainda assim é bem divertido. Vou rever o terceiro filme, FUGA DO PLANETA DOS MACACOS (71), pra ver como se sai hoje em dia…

O PLANETA DOS MACACOS (1968)

Deve ser a milésima vez que assisto ao clássico O PLANETA DOS MACACOS (Planet of Apes) original, de Franklin J. Schaffner. Tinha gravado da TV num VHS nos anos 90 e quando era adolescente não me cansava de rever este e as continuações… Até hoje, se bobear, este aqui ainda é um dos meus sci-fi de cabeceira. Mas já fazia uns bons quinze anos que não revia… Continua uma belezura. As continuações eu não sei. Precisava rever pra lembrar.

Mas este primeiro foi considerado um dos filmes de ficção científica mais fortes e influentes de seu tempo, um fenômeno que além de desencadear as quatro sequências, gerou também uma série de TV, desenhos animados, toneladas de memorabilia, parodiado até pelos Trapalhões no clássico O TRAPALHÃO NO PLANALTO DOS MACACOS, de 76, dirigido pelo J. B. Tanko.

O filme foi baseado em um romance francês chamado La Planète des Singes, de Pierre Boulle, e produzido como o projeto de estimação Arthur P. Jacobs, que lutou durante anos para que o filme pudesse existir. Acabou produzindo todos os 5 filmes da série original. Para o roteiro, foi contratado o criador de The Twilight Zone, Rod Serling, e, como era seu modo habitual de adaptação, mudou muitos elementos do livro, incluindo a adição do icônico final… E se for parar pra pensar, até que as coisas meio que se desenrolam como um episódio prolongado de The Twilight Zone

A história começa no ano de 1973. Uma tripulação de astronautas liderada pelo Coronel George Taylor (Charlton Heston) cai em um planeta remoto depois de ficar em hipersono por 2.000 anos em uma expedição espacial. Uma vez fora da nave, os membros restantes da tripulação eventualmente tropeçam em uma sociedade na qual a evolução aparentemente se inverteu: os macacos são altamente inteligentes, pensam, falam, têm até sua própria hierarquia social. Os macacos assumiram o papel da espécie dominante, enquanto os humanos são “animais” irracionais.

Subjugado e temido por seus captores por ser o primeiro humano com o poder da fala, Taylor luta para escapar com a ajuda de dois simpáticos cientistas chimpanzés, Cornelius (Roddy McDowall) e Zira (Kim Hunter). Sua luta leva a um dos finais mais impactantes da história do cinema.

O PLANETA DOS MACACOS acaba sendo uma espécie de reflexo da turbulência que foi os anos 60 em vários sentidos. O filme ataca e satiriza várias questões dominantes na consciência pública – guerra fria, direitos civis, etc. Embora a alegoria pareça simplista hoje, ainda não prejudica o poder do filme.

Grande parte do sucesso de O PLANETA DOS MACACOS pode ser atribuída também ao prazer que traz aos olhos (os primeiros trinta minutos de filme são um espetáculo Fordiano das paisagens do deserto, dignas dos mais belos westerns), os elementos visuais, o surpreendente trabalho de design de produção, os cenários, a maquiagem de John Chambers, que muito mereceu seu prêmio especial da academia. Embora primitiva para os padrões atuais, a maquiagem dos macacos foi uma conquista incrível de sua época. A direção de Schaffner é bem segura e até ousada em alguns momentos, especialmente em sequências de ação, com bons movimentos e trabalho com os ângulos.

Os elogios também podem ir para algumas performances notáveis ​​dos atores-macacos. McDowall e Hunter brilham em seus aparelhos faciais, assim como Maurice Evans como um dos melhores vilões da ficção científica do período, Dr. Zaius. Já Charlton Heston está magistral, engole o cenário com sua presença física, com toda sua desenvoltura, realmente dá tudo de si. É uma dos meus desempenhos favoritos do homem…

Vale destacar também a presença de Bob Gunner (que é quase um sósia do Sean Connery) e Jeff Burton, os astronautas que sobrevivem na expedição, mas que não duram muito tempo no planeta. Dianne Stanley, a astronauta que morre ainda no hipersono só faz praticamente uma ponta… Seria interessante ver como seria se uma mulher tivesse a possibilidade de participar da aventura dos astronautas nos primeiros 30 minutos de filme. Mas acharam mais fácil eliminá-la logo de cara até porque há a cena da cachoeira na qual os atores ficam nus para nadar e acho que em 1967, 68, um filme comercial de ficção científica ainda não estava muito preparado para mostrar uma mulher nadando sem roupa com seus companheiros de trabalho… O que é uma pena. Mas ainda do lado feminino, destacamos a presença da Linda Harrison, como uma das nativas humanas e que voltaria no segundo filme.

Ainda sobre o final, com o personagem de Heston se deparando com a Estátua da Liberdade em uma praia deserta devorada pelo tempo, por mais óbvia a metáfora, acaba sendo dessas imagens marcantes que nunca vai sair do imaginário cinéfilo. Tão copiada e parodiada, até hoje impressiona. Imaginem então o público da época, que ainda vivia com o temor contínuo de uma guerra que envolvessem bombas nucleares. O filme acabou reverenciado e estudado por gerações por sua mensagem atemporal sobre a crueldade e destrutividade que reside na natureza humana. E esse final de O PLANETA DOS MACACOS sintetiza tudo isso.

Vou rever o segundo filme, DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS (70), pra ver como se sai hoje em dia…

CPC-UMES FILMES – OUTRO LANÇAMENTO DE SETEMBRO

Além do lançamento em Blu-Ray de GUERRA E PAZ este mês, a CPC-UMES Filmes está lançando ainda em setembro, em DVD, o filme ELES LUTARAM PELA PÁTRIA, de 1975, também do diretor Serguei Bondarchuk, cujo centenário se completa em 25/09.

Baseado em romance do Nobel de Literatura Mikhail Sholokhov e indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes, o longa reconstitui os três dias de retirada de um regimento do Exército Vermelho em direção à Stalingrado, em julho de 1942, sob a ótica de três soldados de origens diferentes: um engenheiro agrônomo, um mecânico e um mineiro. 

ELES LUTARAM PELA PÁTRIA já está em pré-venda no site da CPC-UMES FILMES (clique aqui para acessar) e em breve estará também nos sites das lojas parceiras da distribuidora. Não deixe de seguir a CPC-UMES FILMES nas redes, Facebook e Instagram, para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos em DVD e Blu-Ray.

ANDREI RUBLEV (1966)

Segundo longa-metragem de Andrei Tarkovsky, depois de A INFÂNCIA DE IVAN (que aliás ainda não vi), mas já com um alcance épico impressionante, uma beleza onírica de encher os olhos. Tinha assistido a ANDREI RUBLEV há uns quinze anos num daqueles DVDs toscos lançados pela Continental, então imaginem o que foi a experiência de rever agora no blu-ray lançado recentemente pela CPC-UMES Filmes. Obrigado, CPC-UMES Filmes, tá uma coisa linda de se ver, três horas de pura contemplação. É só o que preciso de vez em quando…

Para quem não conhece ainda, a história de ANDREI RUBLEV foca em trechos da vida do pintor de ícones do século XV, o sujeito do título, Andrei Rublev (Anatoliy Solonitsyn, que voltaria a trabalhar com o Tarkovsky em SOLARIS, O ESPELHO, STALKER…), através de uma série de capítulos elípticos, que formam uma espécie de meditação sobre arte, religião, misticismo, poder e o que mais você sentir no caminho…

ANDREI RUBLEV começa com um prólogo enigmático que mostra um homem escalando uma torre de igreja e escapando do local em um balão de ar quente. À medida que a câmera adota seu ponto de vista, voamos com ele sobre a terra, cidades e rios antes que a coisa toda despenque. As imagens da região deserta e aquosa vista de um ponto de vista muito alto e o movimento virtuoso e fluido da câmera são guias perfeitos para o universo poético do filme que vamos assistir nas três horas seguintes.

O artista Andrei Rublev é desenhado como um homem atormentado por seu talento e pela forma como é usado pelos poderosos. Chamado para decorar uma igreja, ele não consegue iniciar os trabalhos porque se recusa a assustar as pessoas pintando o tema O Juízo Final, encomendado pelo Príncipe local. Em vez disso, decide representar A Festa, título de um capítulo anterior do filme, no qual Rublev se depara com foliões pagãos nus; Rublev sente repulsa e fascinação pelos rituais, cujos eventos e encontros (especialmente com uma pagã) desafiam repetidamente a concepção de fé do sujeito, e parece que, neste caso, ele aprende algo, decidindo que a arte religiosa deve ser uma celebração alegre e não uma ameaça de punição.

O filme acaba sendo uma jornada espiritual do personagem e há impulsos religiosos por toda parte, como na cena em que Rublev discute com Teófanes, o Grego (outro pintor do período e que foi mentor de Rublev), enquanto acontece uma representação da crucificação ambientada em uma Rússia coberta de neve. O tema da traição de Judas também percorre todo o filme. Fica muito evidente nessa discussão com Teófanes, mas principalmente no contraste de Rublev com um de seus companheiros monges, Kyrill (Ivan Lapikov), que embora sábio, tem ciúmes do talento de Rublev.

O tema da traição também aparece na rivalidade do Príncipe com seu irmão. Ao saber que os homens que trabalharam em seu palácio estão agora a caminho da casa de seu irmão para fazer uma decoração ainda mais bonita, o Príncipe os deixa ir apenas para serem emboscados traiçoeiramente numa floresta e terem seus olhos perfurados. A imagem dos homens sem com sangue escorrendo de suas órbitas, tateando pela floresta, é uma das mais memoráveis ​​do filme. Mais tarde, o irmão do príncipe se alia aos tártaros contra seu próprio povo no saque da cidade de Vladimir, numa sequência de ataque e terror medieval de tirar o fôlego.

E Rublev participa passivamente de todos os eventos, sem qualquer tipo de atitude; Não é um herói, não tem voz, é apenas um homem angustiado, às vezes indeciso, que, em grande parte do filme, nada faz a respeito da violência e das injustiças que testemunha. Isto é, até que ele reage para proteger uma garota com deficiência mental a quem ele se apegou durante o ataque infernal à Vladimir. Por ter matado um soldado inimigo, posteriormente Rublev expiará seu violento ato por meio de um voto de silêncio e uma recusa em pintar.

Só o espetáculo da extraordinária determinação de um garoto, filho de um falecido fabricante de sinos, o fará mudar de ideia. A luta épica do garoto para engendrar o sino, o içamento do enorme artefato até a torre e o primeiro som de seu toque são conduzidos de forma quase documental, um filme à parte, mas totalmente hipnotizante, realizado com a maestria descomunal de Tarkovsky.

Aqui vem a ideia do papel do artista e do propósito da arte: tendo visto a alegria que o sino do menino deu às pessoas, Rublev decide voltar a pintar.

Embora ANDREI RUBLEV seja sobre um pintor de ícones, quase nunca o vemos realmente pintando ou o seu trabalho. Até o final, quando Tarkovsky resolve mostrar uma série de imagens dos ícones reais de Andrei Rublev, com suas cores contrastando com o preto e branco enevoado do resto do filme (Tarkosvky usaria o contraste entre monocromático e colorido novamente em SOLARIS e STALKER).

ANDREI RUBLEV foi lançado em DVD e blu-ray pela CPC-UMES Filmes há poucos meses. Recomendo dar uma checada lá no site deles pra quem ainda mantém esse prazer de colecionar mídia física. A qualidade da imagem e som do filme tá impecável. Não deixe também de curtir a página da CPC-UMES FILMES no Facebook e instagram para ficar por dentro das novidades e os seus próximos lançamentos em DVD e Blu-Ray.

CRIME SEM SAÍDA (2019)

Eu já tava bem interessado em ver CRIME SEM SAÍDA (21 Bridges), mas acabei deixando passar. Com essa morte do Chadwick Boseman que pegou todo mundo de surpresa, foi o primeiro filme que veio à mente para homenageá-lo. Que me descupem os fãs de PANTERA NEGRA e outros filmes da Marvel, mas às vezes tudo o que preciso é de um thriller policial classudo que parece saído dos anos 90… E CRIME SEM SAÍDA dá conta do recado.

Boseman é o detetive de homicídios da NYPD Andre Davis, desses incorruptíveis, que diz que ser policial está no seu DNA. Mas que é pintado como “gatilho solto” pela rapaziada da corregedoria por conta do alto número de bandidos que eliminou no cumprimento do dever. Todas as ocorrências foram consideradas justificadas, mas há sempre um foco constante sobre ele por conta disso e também por um histórico familiar muito forte: era moleque ainda quando seu pai, um oficial respeitado e altamente condecorado, foi morto em ação. Seus superiores acham que esse trauma talvez seja a resposta para o seu alto número de meliantes despachados.

Mesmo assim, Davis é chamado para investigar um tiroteio no Brooklyn que deixou oito policiais mortos após o roubo de um enorme estoque de cocaína no porão de uma vinícola. Os dois autores da façanha são veteranos de guerra que agora trabalham como mercenários: Ray Jackson (Taylor Kitsch) e seu relutante cúmplice Michael Trujillo (Stephan James). Jackson se revela um matador sangue frio e foi quem realmente matou todos os policiais, enquanto Michael tentava sem sucesso conter a situação. Agora eles são forçados a descarregar toda a coca que puderem pegar, lavar o dinheiro e sair da cidade.

O problema é que Davis já mandou trancar Manhattan, interditou todas as 21 pontes (que é o título original da bagaça) que levam à ilha e os agentes do FBI dão a ele até 5h30 da manhã para encontrar os assassinos antes que eles assumam o caso. Por ordem do capitão McKenna do 85º distrito do Brooklyn (J.K. Simmons), Davis terá a detetive de narcóticos Frankie Burns (Sienna Miller) como parceira, e eles partem pra descobrir onde estão Jackson e Trujillo.

No entanto, quanto mais Davis se aprofunda nos detalhes, mais as coisas parecem cheirar mal. Várias questões envolvendo a participação da polícia no caso deixam o detetive com a pulga atrás da orelha…

Já deu pra perceber que estamos em terreno conhecido por aqui. Quem já viu meia dúzia de filmes de policiais corruptos consegue matar algumas questões facilmente. CRIME SEM SAÍDA não faz muito suspense sobre quem são policiais corruptos e alguns parecem ter isso estampado na testa. Mas o roteiro de Adam Mervis e Matthew Michael Carnahan (THE KINGDOM) não tá muito interessado em prezar por originalidade e alguns diálogos e situações dão aquela sensação de “putz, já vi isso em outro filme”. O que realmente importa por aqui é a tensão de como as coisas se desenrolam, numa única noite, num ritmo que mantém o espectador ligado do início ao fim.

Ajuda muito CRIME SEM SAÍDA ter um protagonista tão sólido em Chadwick Boseman, o cara manda muito bem. Realmente perdemos um herdeiro de um Denzel Washington… O elenco de apoio também é muito bom e vale a destacar a pequena, mas simpática, participação Keith David (ELES VIVEM) como um chefe de polícia.

A direção é do veterano da TV Brian Kirk (BOARDWALK IMPIRE, GAME OF THRONES), que faz um bom trabalho em manter o ritmo e a tensão das coisas em ponto de bala. Sabe também onde colocar a câmera para filmar tiroteios e perseguições bem feitas. A sequência do tiroteio no assalto do início, que resulta nos oito policiais mortos, por exemplo, é ótima e muito bem conduzida, mostra que o sujeito não tá pra brincadeira. Belo trabalho também do diretor de segunda unidade, o grande coordenador de dublês Spiro Razatos (VELOZES & FURIOSOS 8 e vários filmes da Marvel, onde deve ter topado com os Irmãos Russos, que são produtores deste aqui).

CRIME SEM SAÍDA não tem nenhuma pretensão além de entreter como um exemplar de thriller policial bastante competente. Como eu disse, não há nada de muito original, mas não deixa de ter bons momentos de tensão e ação e boas atuações. E ainda não vai ser a despedida de Chadwick Boseman das telas, aparentemente deixou um trabalho completo, que deve estrear ainda este ano. O rapaz tava indo bem…