ZERO TOLERANCE (1994)

De vez em quando a produtora PM Entertainment, especializada em filmes de ação de baixo orçamento, que fez a alegria da moçada nos anos 90, conseguia atrair um ator relativamente mais renomado para um papel principal em uma de suas fitas. Em ZERO TOLERANCE, de Joseph Merhi, eles conseguiram o grande Robert Patrick. O sujeito nunca chegou a se tornar um astro, mas sempre teve um certo respeito pelos admiradores de cinema de gênero, sobretudo naquele momento, em meados dos anos 90. Obviamente que ser o vilão de um dos melhores filmes de ação de todos os tempos, dando vida ao T-1000 de O EXTERMINADOR DO FUTURO 2 (91), de James Cameron, contribuiu bastante pra isso. Mas mesmo em outros trabalhos, Patrick sempre demonstrou talento, carisma e aquele “olhar” peculiar que se precisa ter para ser um verdadeiro herói de filme de ação… ou o vilão, como na maioria dos casos de Patrick. hehe!

Em ZERO TOLERANCE Patrick interpreta o agente do FBI Jeff Douglas, que tem a tarefa de escoltar o traficante Ray Manta (Titus Welliver) de uma prisão mexicana de volta aos Estados Unidos. Manta, tendo à sua disposição as vantagens de ser membro de um sindicato de traficantes poderosos, consegue atrapalhar um bocado o trabalho dos agentes do FBI, preparando uma emboscada no trajeto de escolta e fazer com que a família de Jeff seja sequestrada para coagir sua libertação. O problema é que após conseguir o que queria, a mulher e os filhos do protagonista são mortos sem piedade. Agora, sem nada a perder, Jeff parte em uma boa e velha caçada humana para derrubar as cabeças do cartel, uma por uma.

A partir daí, ZERO TOLERANCE se torna uma típica jornada de vingança com os desenvolvimentos habituais que esse tipo de trama exige. Nada fora do comum, apesar do diferencial em ter um ator acima da média como Robert Patrick encarnando esse homem em fúria. O filme acaba tendo uma carga de emoção dramática mais intensa para o tipo de filme que temos aqui. Quem já se enveredou pelo universo dos filmes de ação da PM tá acostumado a sentar para assistir a um bagulho sem esperar os melhores exemplos de atuações ou tramas intrincadas, ninguém vai ver um filme da PM esperando ver algo do nível de um Orson Welles ou Ingmar Bergman. O que geralmente temos é uma trama direta, que justfique tiroteios e explosões, uma direção competente pra sequências de ação e um ator brucutu que possa chutar habilmente todos os meliantes que encontrar pela frente.

Neste caso, um ator sólido como Robert Patrick é o que torna ZERO TOLERANCE especial. Patrick é um ator que consegue colocar sentimento na tela, podemos vê-lo perdendo as esperanças com a vida e sendo despojado de tudo o que possui. Com suas emoções inundando, descarregando sua dor, bem como o ódio, em seus desafetos. Patrick sabe como se comportar em um filme como este e realmente eleva o filme, trazendo algo para o roteiro padronizado e um toque de personalidade onde poderia não haver nenhum.

Outra escolha de elenco interessante foi Mick Fleetwood como um dos vilões da parada. Parece que os realizadores queriam ter Donald Pleasance, mas na ausência do grande ícone que foi Pleasence, o baterista do Fleetwood Mac foi uma escolha acertada. Ainda no elenco, Titus Welliver acaba tendo bom destaque como o sinistro Manta, o principal alvo do herói. Miles O’Keeffe, que também contribuiu bastante como action hero de filme de ação vagabundo em outras oportunidades também desempenha um bom vilão, com uma certa carga moral. E o filme ainda conta com a presença de Jeffrey Anderson-Gunter, mais uma figura reconhecível do cinema de ação B.

Mas o ponto principal é que ZERO TOLERANCE entrega o que promete. Em termos de ação, como esperado do grande Joseph Merhi na direção, ele faz tudo ao seu alcance para que seu filme pareça um blockbuster de 100 milhões de dólares, repleto daquelas explosões amareladas caracteríticas dos filmes da PM, tiroteios minimamente elaborados e frenéticos, nos mais variados cenárrios e ambientações, e com um belíssimo trabalho dos dublês. Ou seja, diversão garantida.

Veredito: ZERO TOLERANCE tem um enredo legal, um filme de vingança com um bom peso dramático; um herói convincente vivido por um ator que adiciona um toque de classe, capaz de quase levá-lo a acreditar que o filme poderia ter estreado num cinema em 1994, ao invés de ir parar direto nas prateleiras de locadoras; temos vilões odiosos e ação em abundância. O que mais você poderia querer? Ok, o filme é um pouco lento às vezes, mas quando a ação começa, é uma paulada, dá conta de alegrar o coração dos que vibram com pequenos filmes de ação.

E lembrem-se, quando virem esse logo antes de um filme, a chance de os próximos 90 minutos serem de pura diversão é praticamente uma certeza:

O CHEFÃO DE NOVA YORK (1973)

Revi O CHEFÃO DE NOVA YORK (Black Caesar), blaxploitation fundamental dirigido pelo grande Larry Cohen, para gravar mais um episódio supimpa do podcast Cine Poeira. Mas resolvi escrever algumas coisinhas também porque tava com saudade de postar algo sobre blaxploitation aqui no blog. E retomo ao tema em grande estilo porque é um dos meus filmes favoritos do subgênero. Tem uma boa história e direção cheia de energia de Cohen, uma trilha sonora fodida de James Brown (uma das raras que fez pra cinema) e atuação magistral de Fred Williamson, que interpreta um filho da puta cruel, uma espécie de atualização black motherfucker do anti-herói do cinema de gangster dos anos 30.

Obviamente que muitos relacionam O CHEFÃO DE NOVA YORK como o PODEROSO CHEFÃO do blaxploitation e até entendo a comparação. O filme do Coppola tinha ganhado a notoriedade que todos sabemos no ano anterior e qualquer filme de máfia que viesse em seguida ficaria à sua sombra. Mesmo um produto de baixo orçamento e mais apelativo como este aqui. O protagonista chega até a passar por um cinema onde o título do filme de Coppola pode ser lido na marquise. Mas tirando um detalhe ou outro, a influência maior de Cohen era realmente o cinema de gangster da Warner Bros. da década de 30. O próprio título original, BLACK CAESAR faz analogia a LITTLE CAESAR, de Mervyn LeRoy, estrelado pelo Edward G. Robinson, e baseado num dos grandes cássicos da literatura policial, escrito por William R. Burnett.

Então o que temos aqui é clássica trama de ascensão e queda. Seguimos Tommy Gibbs (Williamson), desde o tempo em que ele era engraxate no Harlem, executando tarefas para criminosos brancos em 1953 (que mais parece 1973, mas isso pouco importa), até atingir os degraus mais altos do mundo do crime em 1972. Cohen não se atenta aos detalhamentos dessa escalada de Tommy ao poder. Ele decide matar um sujeito que tava com a cabeça à prêmio, arranca a orelha da vítima e joga no prato de spaghetti do chefão local, pra ganhar respeito. E logo em seguida já estamos ouvindo a voz de James Brown entoando Paid The Cost To Be A Boss enquanto Fred Williamson imponente caminha pelas ruas do Harlen como o fodão dos fodões.

Cohen estrutura todo O CHEFÃO DE NOVA YORK com cenas chaves e elipses temporais sem qualquer concessão. Dias, meses e anos se passam num simples corte. E não demora muito já estamos ouvindo novamente James Brown com Ain’t It Cool to Be a Boss, enquanto Tommy assume o controle de todo o sindicato do crime, à base de balas e muito sangue derramado. Há uma sequência espetacular dos homens de Tommy invadindo um almoço italiano à beira da piscina com a nata da máfia, em LA, sendo sumariamente executada, com corpos ensanguentados boiando, e um plano detalhe genial de um frango assado sendo estourado à tiros. Desses momentos mágicos do cinema de exploração.

Como toda tragédia narrada sobre a conquista do poder, algo tem que dar merda. A arrogância de Tommy, sua ganância e sede de controle acaba por decretar sua queda. Perde a mulher, é corneado pelo amigo de infância – e parceiro de negócios – ele logo é percebido como um “negro branco”, seguindo os mesmos passos dos mafiosos italianos que estavam ali antes dele, sem ajudar os pobres e necessitados. Seus homens começam a ser abatidos, seu território fica ameaçado. A única coisa que o mantém são determinados cadernos de registros, uma folha de pagamento contendo nomes de altas figuras corruptas da política e polícia. O CHEFÃO DE NOVA YORK chama a atenção em manter as emoções em estado de ebulição. A dor do homem negro de não poder pertencer ao establishment sem se sentir um estranho. Mas as ideias peculiares de Cohen sobre justiça e moralidade são a de que criminosos são caras violentos, que destroem tudo ao seu redor, sejam lá de onde vieram, sejam negros ou brancos. Ainda assim, o filme atende aos medos e fantasias do público alvo e dá uma voz sobre a indignação dos negros e sua rixa contra a sociedade americana de uma forma bem convincente.

Rodado em apenas algumas semanas e com a câmera grosseira e marginal no estilo de guerrilha de Larry Cohen, o John Cassavates do cinema grindhouse, O CHEFÃO DE NOVA YORK tem vários momentos impressionantes. Dos encontros singelos do protagonista com seu pai, às cenas estilizadas com espaços com fundos negros para mascarar com maestria o baixo orçamento. Ou filmando nas ruas lotadas de Nova York sem autorização, com os transeuntes olhando pra câmera ou assistindo a performance genial de Fred Williamson. Sobretudo no terceiro ato, quando Tommy é gravemente ferido pelos pistoleiros de seu maior inimigo, o policial corrupto e racista McKinney (Art Lund), e anda vários quarteirões cambaleando com o bucho cheio de sangue.

O encontro final com McKinney é outro desses momentos impagáveis que prova a maestria dramatúrgica de Cohen. McKinney aponta uma arma para Tommy e não consegue resistir de provocá-lo exigindo um engraxate para rebaixá-lo ao máximo, para mostrar ao protagonista quem ele é, de onde veio, antes de matá-lo. Mas Tommy consegue se desvencilhar e esmurra McKinney repetidamente com a caixa de engraxate. O anti-herói negro esmagando a cabeça do vilão branco com uma caixa de engraxate não poderia ser simbolismo mais antológico para um clássico do blaxploitation.

Atordoado, Tommy retorna ao Harlem de sua infância, nos escombros dos prédios onde viveu, e acaba atacado num beco vazio por uma gangue de adolescentes que o espanca até a morte. Claro, com o sucesso do filme Cohen tratou de decidir que Tommy não morreu, e no mesmo ano lançaram a continuação, INFERNO NO HARLEN (Hell Up in Harlem).

No elenco, algumas figuras a se destacar. Gloria Hendry é um espetáculo, embora sua personagem, esposa de Tommy, careça de um desenvolvimento mais interessante. Ela só vai ganhar mais força lá pro final do filme. Art Lund é realmente ameaçador como McKinney. E a pequena participação de James Dixon, um habitual de Larry Cohen, é bacana como pistoleiro do policial corrupto.

Com bom ritmo, boa dose de ação, muito tiro e sangue, e um personagem principal realmente cool, O CHEFÃO DE NOVA YORK é um dos grandes da safra blaxploitation, ocupando um lugar próximo a clássicos como COFFY, SUPERFLY, SHAFT e outros exemplares que tornam o subgênero essencial aos interessados em exploitation. Quem se depara com esse petardo, nunca vai esquecer o poder, a força da natureza, o monumento que é Fred Williamson (curioso que o personagem foi pensado originalmente para Sammy Davis Jr…). Nem da genialidade de Larry Cohen como diretor, roteirista e produtor. E esse aqui tá longe de ser um de seus melhores trabalhos. De qualquer forma, altamente recomendado. Para quem está iniciando pelas plagas do blaxploitation, O CHEFÃO DE NOVA YORK é definitivamente um dos mais importantes a conferir.

E assim que o episódio do Cine Poeira estiver disponível, compartilho por aqui.

MORTAL KOMBAT no Cine Poeira

O episódio desta semana do CINE POEIRA é sobre esse clássico absoluto da infância de muitos que acompanham o podcast e o blog. Dos amantes de filmes de artes marciais aos fãs de video games que perdiam um bom tempo (e dinheiro da padaria) nos fliperamas da cidade ou nos Super Nintendos e Mega Drives de suas casas. Estamos falando da adaptação cinematográfica de MORTAL KOMBAT (1995), um dos jogos fundamentais da rapaziada nos anos 90 e um dos filmes de ação/fantasia/pancadaria dos mais legais que surgiram no período. Discutimos todos os detalhes do filme e também da divisão de opiniões que se tem sobre o seu diretor, Paul W. S. Anderson (RESIDENT EVIL).

Para ouvir, é só procurar o CINE POEIRA no seu tocador de podcast favorito ou basta dar o play abaixo:

AMERICAN SAMURAI (1992)

A franquia AMERICAN NINJA era um sucesso no fim dos anos 80 e início dos 90, já estava no seu quarto filme em 1992 e o diretor Sam Firstenberg, que realizou os dois primeiros (e também dois filmes da trilogia iniciada por ENTER THE NINJA: REVENGE OF THE NINJA e NINJA III – THE DOMINATION), concentrou-se em americanizar outra figura icônica da cultura japonesa: os samurais. Obviamente o filme recebeu o título de AMERICAN SAMURAI. O resultado não é do mesmo nível dos melhores trabalhos do Firstenberg, mas até que não é mau, dá para o gasto.

David Bradley, que também deu sua contribuição na franquia ninja (estrelou o terceiro, o quinto e participou do 4 ao lado de Michael Dudikoff), é Drew Collins, um americano que perde os pais num acidente de avião no Japão e é adotado por Tatsuya (John Fujioka), um mestre das artes marciais local, que lhe passa os ensinamentos dos samurais em pleno século XX. Curioso que Fujioka interpreta praticamente o mesmo personagem em AMERICAN NINJA, quando ensina ao órfão Joe Armstrong (Dudikoff) alguns movimentos de ninjitsu.

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A principal distinção entre AMERICAN SAMURAI e AMERICAN NINJA, no entanto, é a presença de Kenjiro (Mark Dacascos, num de seus primeiros papeis no cinema), o filho biológico do mestre Tatsuya, que também teve seu aprendizado samurai, mas sofre insanamente de ciumes pelo seu irmão adotivo.

E a coisa vai de mal a pior com o pobre Kenjiro, como podemos ver na cena em que Tatsuya escolhe Drew, apesar do seu seu sangue ocidental, como o guardião que irá manter a honra da família possuindo uma famosa espada sagrada para os samurais. Kenjiro até tem um bom argumento de que, como o filho biológico, com sangue japonês correndo nas veias, deveria ter sido o escolhido. Só que seu argumento perde um pouco de ímpeto quando ele revela uma grande tatuagem nas costas e anuncia que ele é agora um membro da Yakuza, a famigerada máfia japonesa, que todo mundo conhece…

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Passam-se os anos, Drew está morando na América e tem a espada sagrada exibida com bom gosto em uma caixa de vidro na parede de seu apartamento. Pelo menos até que um grupo de assassinos da Yakuza invada o seu recinto, atire nele e roube a espada… E enquanto Drew está deitado morrendo, ele começa a ter visões psicodélicas dele enfrentando seu irmão, que está usando algum tipo de máscara demoníaca, num combate de espadas mortal. Mas aí o diretor Firstenberg sai de seu transe achando que é um diretor de cinema arthouse experimental e se lembra que é um cineasta de fitas vagabundas de luta… Volta ao filme com Drew utilizando as misteriosas técnicas orientais aprendidas com seu mestre para arrancar a bala do bucho! Quem precisa de seguro de saúde quando você é um mestre samurai?

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Meses depois, Drew viaja como repórter – sua profissão, quando não é samurai nas horas vagas – para Turquia, em companhia de uma fotógrafa (Valarie Trapp) para investigar algumas mortes envolvendo um estilo muito específico de corte de lâmina, que ele suspeita que seja Kenjiro com a tal espada roubada. Chegando ao local, não demora muito para o nosso herói samurai cair nas armadilhas de seu irmão e se vê forçado a lutar em um torneio de artes marciais.

Entra em cena aquele estilo batido de “filmes de torneio” que infestavam as locadoras no início dos anos 90, reunindo lutadores com todos os tipos de estereótipos e variações de luta em combates sangrentos. Aqui a coisa é meio bizarra, meio medieval… Os caras parecem selvagens de outras épocas que resolveram desenterrar para este torneio, como vikings, piratas, bárbaros do oriente… E, obviamente, um americano do Texas, com chapéu de cowboy.

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Até que em termos de confrontos, temos algumas sequências bem legais e violentas, nisso o Firstenberg manda bem. As cenas de luta definitivamente compensam um pouco certa estupidez do roteiro e uma falta de ritmo, que é um autêntico convite ao sono até chegar até a este ponto da trama. Mas um dos principais problemas de AMERICAN SAMURAI começa já na escolha do ator central. David Bradley até possui alguns filmes bacanas no currículo, como os filmes da série CYBORG COP e HARD JUSTICE. No entanto, em alguns veículos ele se comporta como uma mosca morta no piloto automático. É o que acontece um bocado por aqui, que até possui um material que outros atores da sua categoria teriam aproveitado mais, como um Loren Avendon ou Billy Blanks. Mesmo nas suas sequências de luta o sujeito demonstra uma certa preguiça e parece não se interessar muito em balançar uma espada samurai em torno de uns oponentes a cada 5 ou 10 minutos…

Quem acaba se destacando é Dacascos, embora não tenha muito tempo de tela. Podiam ter utilizado bem mais seu personagem, já que no começo, por exemplo, ele se revela como um Yakuza. Por que não explorar esse núcleo dele em algum tipo de negócio de drogas na Turquia? Alguma cena em que um grupo de policiais tenta prendê-lo e ele demonstra seu poder sádico pra cima dos policiais? Bom, o que resta ainda vale. Mesmo o Dacascos se resumindo a fazer caretas consegue mais interessante que Bradley no filme inteiro.

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Mas talvez a maior sacada de AMERICAN SAMURAI é a ideia do confronto entre irmãos. Afinal de contas, é sempre melhor ver o herói ressentido com a perspectiva de ter que matar um próprio membro da família do que apenas vê-lo fatiar um homem de negócios malvado de óculos escuros e fora de forma. Mas não me entendam mal, Drew ainda vai em frente e perfura o bucho de seu irmão na sequência final, apesar de ser uma das lutas de espada mais estranhas que já vi… É anti-climática, tem um diálogo sobre “ser o melhor” que aquela altura pouco importa, e quando o confronto começa, acontece muito rápido, são pouquíssimos os planos que vemos os dois atores no mesmo quadro. Claro, fica evidente também, pela montagem, que costuraram trechos e cenas de outras lutas pra dar a ilusão de terem Dacascos e Bradley lutando, quando é perceptível que algo deu errado e nem filmaram a sequência com os dois…hehe!

AMERICAN SAMURAI não encontrou o esperado sucesso para merecer uma sequência, diferente da franquia AMERICAN NINJA, que teve quatro continuações. Mas realmente nem os mais alucinados fãs do gênero vão lamentar por isso. É provável que numa sessão, com um grupo de amigos e algumas latas de cerveja, tirando sarro do filme, ele funcione. Há algumas coisas bizarras e involuntariamente engraçadas acontecendo aqui e ali, mas não tenho certeza se posso recomendá-lo por esses méritos. Como filme de ação e artes marciais não é grandes coisas, mas diverte e pelo menos é melhor que AMERICAN NINJA 5.

TRANS-EUROP-EXPRESS (1966)

Segundo longa de Alain Robbe-Grillet como diretor, depois de L’IMMORTELLE (1963), embora já fosse famoso no período como o roteirista de O ANO PASSADO EM MARIENBAD (1961). E assim como no filme de Resnais, TRANS-EUROP-EXPRESS é um desses experimentos com a narrativa e com nossas percepções. O que temos aqui é um filme de Alain Robbe-Grillet chamado TRANS-EUROP-EXPRESS sobre um roteirista/diretor interpretado por Alain Robbe-Grillet que está planejando um filme chamado TRANS-EUROP-EXPRESS.

Calma, explico: Três pessoas embarcaram na linha Trans-Europ-Express em Bruxelas, são figuras ligadas a cinema (um produtor, um roteirista/diretor e uma roteirista), e começam a trabalhar em ideias para seu próximo projeto. Será um filme chamado “Trans-Europ-Express”, um thriller, com premissa ambientada no trem. Quando eles notam o astro de cinema francês Jean-Louis Trintignant no mesmo vagão, decidem que ele fará o papel principal, de um traficante de drogas chamado Elias. E a partir daí somos colocados numa posição na qual realidade e “fantasia” vão se cruzando. É o ator Jean-Louis Trintignant que estamos acompanhando ou Elias, o traficante de drogas?

Dos três indivíduos ali imaginando o filme – que de forma instantânea assistimos – o produtor é interpretado por um dos produtores reais de TRANS-EUROP-EXPRESS, o roteirista/diretor é o próprio Alain Robbe-Grillet e a roteirista é encarnada por sua esposa, Catherine Robbe-Grillet. De vez em quando decidem que uma determinada cena não funciona, então a cena que acabamos de assistir é descartada. As cenas também são revisadas. A história muda conforme assistimos.

É uma ideia interessante, uma trama de pistas falsas, não há certeza de quem está jogando e quem está sendo manipulado. Elias precisa comprar uma mala vazia e depois trocá-la por outra, contendo drogas. Mas ele acaba pegando uma mala sem a mercadoria… A gangue para a qual ele trabalha está testando-o. Ele recebe uma arma, mas não pode usá-la. Recebe uma série de instruções enigmáticas que o levam a percorrer toda a cidade da Antuerpia. Mais malas aparecem e desaparecem. Senhas misteriosas são trocadas.

Uma das malas contém os pertences pessoais de Elias, coisas que ele leva consigo quando viaja. Uma escova de dentes, navalha, seu pijama e… Uma corda e corrente. Estamos num filme de Alain Robbe-Grillet, então é óbvio que Elias carrega uma corda e uma corrente. Elementos sadomasoquistas são encontrados em todos os filmes e livros escritos por Robbe-Grillet e refletem seus próprios gostos e os de sua esposa (que era dominatrix e foi a autora de alguns dos mais famosos romances S&M). Em TRANS-EUROP-EXPRESS isso não é diferente e não surpreende quando temos situações e diálogos como, por exemplo, quando Elias conhece uma jovem prostituta chamada Eva (Marie-France Pisier). Ela o convida a ir para sua casa e ele diz que não está interessado em sexo, só está interessado em estupro. Ela garante que não haverá problema, mas terá um custo extra. Sorte que ele tinha as correntes e a corda com ele.

Durante a trama de TRANS-EUROP-EXPRESS, Elias não sabe em quem confiar ou para quem exatamente está trabalhando. O espectador também não sabe. E nem mesmo os três cineastas que estão criando a história, já que estão escrevendo no decorrer do processo. Um personagem pode ser um membro de uma gangue, mas eles podem mais tarde decidir que ele é na verdade um policial. Os desempenhos não são muito convencionais, se alternam entre o teatral, ou bastante monótonos, ou são exagerados… Porque, afinal, os roteiristas ainda não decidiram sobre as personalidades. Trintignant desempenha seu papel como uma marionete, fazendo a si mesmo, que interpreta um traficante de drogas numa trama que está sendo desenvolvida em tempo real…

Como a maioria dos filmes de Robbe-Grillet, TRANS-EUROP-EXPRESS contém uma porção generosa de excentricidade. Há algumas ceninhas de nudez, alguns elementos de submissão feminina, imagens que têm apelo e ajudam nas bilheterias (e que conseguiu fazer com que o filme fosse banido no Reino Unido). A sequência da dançarina nua no palco giratório (filmada no lendário cabaré Crazy Horse em Paris) é particularmente curiosa e, para os padrões de 1966, deve-se dizer que ela revela uma quantidade boa de pele nua. O tipo de coisa que tornou os filmes e a literatura de Robbe-Grillet polêmicos. Só pra ter uma noção, o livro mais perturbador que já li na vida foi escrito por Robbe-Grillet: Um Romance Sentimental, lançado em 2007. Depois de ler esse livro, nada mais te choca. No caso de TRANS-EUROP-EXPRESS a coisa ainda é branda e funciona, adicionando um toque extra de estranheza e surrealismo. Um filme em que todas as obsessões de Robbe-Grillet se juntam com sucesso sem chocar. Pelo menos para o público atual…

Embora TRANS-EUROP-EXPRESS compartilhe um pouco de alguns temas com L’IMMORTELLE, que eu preciso rever, ele também marca uma mudança de direção no tom – é um filme muito mais divertido, mais bem humorado e exuberante em comparação com seu filme de estreia. Robbe-Grillet está se divertindo e parece querer que o espectador também aproveite o filme e os procedimentos desse “projeto em andamento”. Vale uma conferida.

BIGFOOT (1970)

A minha queda por filmes ruins me faz chegar aos níveis mais sombrios da incompetência cinematográfica. Acabo vendo cada coisa que é difícil de acreditar… Mas no caso de BIGFOOT quem resiste a um poster como esse?

Obviamente que nada de tão espetacular assim acontece no filme, não vamos esperar um pé-grande levantando uma motocicleta pro alto. Esse tipo de arte é realizada antes mesmo das filmagens começarem, como material pra conseguir investimento para a produção. E apesar da bela imagem acima, os realizadores não conseguiram convencer muito não… O orçamento que conseguiram, pelo visto, é ridículo! Mas mesmo assim seguiram em frente e hoje temos esse filme chamado BIGFOOT para assistir… Só não sei se isso é bom ou ruim.

Agora, “O maior filme de monstros desde King Kong!‘”? “O filme mais realista e horripilante de todos os tempos.“? Não tenho ideia de que tipo de droga que essas pessoas usam pra fazer esses elogios, mas seja lá o que for, eu quero um pouco! Para assistir BIGFOOT e gostar no nível desses caras só se tiver com muito tóxico na cabeça…

O filme começa com uma loura voluptuosa (Joi Lansing, em seu último papel no cinema antes de sua morte prematura de câncer) embarcando em um pequeno avião monomotor e decolando para… não faço ideia. Mas também não importa, porque numa reviravolta brilhante do roteiro escrito pelo próprio diretor, Robert F. Slatzer, e James Gordon White, algo dá errado no meio do vôo e ela é forçada a saltar do avião de paraquedas. Já no chão, no meio de uma floresta, acaba sendo atacada e capturada por um grande monstro peludo!

Enquanto isso, os vendedores ambulantes Jasper (a lenda do cinema de horror John Carradine) e Elmer (John Mitchum, irmão do ator Robert Mitchum) estão dirigindo pela floresta até chegarem numa pequena loja de conveniência à beira de estrada. Enquanto tentam vender seus produtos, Jasper e Elmer pedem cerveja ao dono do local, mas a loja acaba de ser limpa por um grupo de motoqueiros que está passando pela área para fazer o que quase todos os motoqueiros fazem nos filmes no início dos anos 1970: beber cerveja e dançar na floresta.

Um dos motoqueiros, vivido por Christopher Mitchum, filho de Robert Mitchum (sim, existem dois membros do clã Mitchum neste filme), se separa do grupo por algum tempo pra ficar mais à vontade com sua namorada. Depois de tropeçar em um inusitado cemitério de pés-grandes, acaba nocauteado por uma das criaturas. Acorda e descobre que sua garota foi sequestrada. Agora são duas belezinhas sequestradas pelos monstros. O motoqueiro volta ao armazém para telefonar às autoridades e, ao ouvir sua história sobre a existência de tal criatura, um autêntico Pé-grande, o velho Jasper vê cifrões em seus olhos e sai com Elmer para capturar a criatura e faturar uma grana.

Se serão capazes de resgatar as mulheres também, pouco importa… Aliás, e isso é uma das coisas mais bizarras de BIGFOOT, ficamos sabendo que as duas moças são mantidas prisioneiras numa caverna onde vive uma “comunidade” de Pés-grandes, cujos integrantes pretendem acasalar com as capturadas para preservar a espécie… Hahaha!

Pois é, BIGFOOT aparentemente possui todos os elementos para ser um filme da categoria “tão ruim que chega a ser bom“, mas em vez disso é apenas “tão ruim que é só ruim mesmo“. A trama, a partir desses acontecimentos, vira um grande NADA. Entra num estágio de monotonia que mesmo os fãs mais dedicados de cinema exploitation não vão conseguir encontrar muitos atrativos por aqui.

A premissa de monstros querendo acasalar com mulheres sequestradas e sendo perseguidos por uma gangue de motoqueiros realmente poderia render algo bem mais interesante, mas o resultado é pobre de forma lamentável em todos os sentidos. E até o nível de violência e nudez é zero. Existem poucas coisas mais tristes neste mundo do que um filme de exploração que não tem coragem de explorar nada daquilo que realmente enche os olhos dos fãs do gênero.

Como ponto positivo de BIGFOOT, temos John Carradine em cena numa boa participação, embora claramente trabalhando no modo “quero receber meu pagamento no fim do dia“, mas ainda assim à léguas acima da maioria dos outros atores. Christopher Mitchum é outro destaque nas atuações, mas num sentido oposto ao de Carradine, entoando suas falas com todo o entusiasmo de um paciente em coma. Consigo me divertir com isso… Já os Pés-grandes, apesar de serem ridículos, não são assim tão precários quanto se espera para o nível da produção. Obviamente que ainda dá pra perceber que são pessoas em fantasias peludas de loja de dez centavos, que é algo que eu adoro. Mas não tem jeito, BIGFOOT é chatíssimo, demora muito para as coisas acontecerem. E quando finalmente acontecem, não vale o tempo de espera… Assista por sua conta e risco.

MANIAC COP no Cine Poeira

Esta semana, no podcast CINE POEIRA, a gente bateu um papo sobre o clássico cult oitentista MANIAC COP, de 1988. Dirigido por William Lustig e escrito por Larry Cohen, o filme é sobre um policial, que também é um maníaco assassino, vivido pelo lendário Robert Z’Dar, que vai transformar as ruas de Nova York num verdadeiro caos urbano! E vai ter que encarar pelo caminho umas figuras como Tom Atkins, Bruce Campbell, William Smith, Richard Roundtree e Laurene Landon. Um festival de violência, assassinatos e perseguições num filme imperdível.

O podcast pode ser ouvido na plataforma de sua preferência (Spotify, Anchor, Castbox, iTunes e diversos outros), basta buscar pelo Cine Poeira. Ou, se quiserem, é só dar o play no tocador abaixo. Espero que gostem.

O retorno de JCVD… De novo?

Sempre que se anuncia um trabalho mais “ousado” com o envolvimento de Jean-Claude Van Damme, inicia-se também a velha expectativa em torno de um possível “retorno” do belga aos holofotes do cinema de ação. E para quem não sabe, isso aconteceu diversas vezes ao longo das últimas duas décadas. No final deste mês, Van Damme vai estrear na NetFlix, com toda pompa do streaming mais famoso da atualidade, com O ÚLTIMO MERCENÁRIO, de David Charhon, e de novo o tema vem à baila…

Acho que o assunto “o grande retorno de Van Damme” apareceu com força pela primeira vez foi em 2008. O sujeito já estava há alguns anos fazendo seus filmes direto para o mercado de home video, e o interesse do mainstream tinha chegado ao fim, deixando apenas os aficcionados por cinema de ação e fãs do ator acompanhando sua carreira. O saldo não era negativo, tivemos vários exemplares de boa qualidade, alguns mais outros menos (alguns horríveis, obviamente), embora um Van Damme grisalho e calejado tivesse assumido um registro mais maduro de seus personagens. Foram-se os chutes rodados e filmes mais focads em combates corporais, a idade lhe obrigou a mudar o estilo de ação que fazia. O otimismo dominante acabou substituído por papéis mais sombrios. Van Damme interpretou de gângster violento à policial de moral duvidosa demonstrando excelentes atuações, e conseguia, de vez em quando, trabalhar com bons diretores: Ringo Lam, Isaac Florentine, e um pouco mais tarde, numa boa colaboração com John Hyams.

Mas foi com JCVD que Van Damme realmente surpreendeu as pessoas. Ele se viu em um filme com sensibilidade, fazendo uma versão ficcional de si mesmo, num pathos sincero e autêntico. Um filme honestíssimo, em que por duas ocasiões, Van Damme quebra a quarta parede para se dirigir ao público e falar do fundo do coração sobre seus demônios interiores, em monólogos intensos. E para além desses momentos, Van Damme se entrega num ótimo desempenho fruto da sua evolução como ator e deposita tudo nesse veículo que não era o típico filme de ação que estávamos habituados a vê-lo.

Lembro como as pessoas começaram a se perguntar se teríamos um renascimento da carreira de Van Damme. Não apenas como um homem de ação, mas como um ator legítimo. Ele poderia fazer papéis dramáticos, ser cômico, poderia fazer coisas interessante que muitos de seus contemporâneos de ação não foram capazes de fazer, exceto, talvez, Sylvester Stallone – o maior ator, no sentido dramático, entre os brucutus do cinema de ação. Van Damme poderia seguir os passos de um Liam Neeson, ou surfar na onda, mais tarde, de um JOHN WICK. Por que não?

No entanto, bom, essa revolução nunca aconteceu. O mais próximo disso foram os trabalhos com o Hyams na série SOLDADO UNIVERSAL, que apesar de serem obras-primas modernas do cinema de ação, continuaram sendo produtos de nichos, para fãs do ator ou de obcecados por ação. Nenhum grande estúdio se interessou em trazer Van Damme de volta, como era discutido na época.

Em 2010, Van Damme acabou se envolvendo num projeto pessoal, THE EAGLE PATH, ou FULL LOVE, ou seja lá o título que você tenha ouvido falar. Filme que há mais de uma década espera para ver a luz do dia. Escrito, dirigido e estrelado pelo próprio Van Damme e nunca lançado. Acho que o sujeito quer ter o seu próprio THE OTHER SIDE OF THE WIND

Como nada disso vingou em termos de “retorno aos holofotes do cinema de ação”, a carreira do sujeito se resumiu em voltar a fazer filmes de ação de baixo orçamento. O que não tenho muito do que reclamar, tivemos bons filmes dessa safra, mas havia uma sensação muito clara de que Van Damme estava sendo desperdiçado, que poderia fazer mais e não fazia. Personagens pelos quais o drama não era forte o suficiente para mostrar o quão bom Van Damme poderia ser.

Mais algumas falsas auroras aconteceram. Estamos em 2012 e OS MERCENÁRIOS 2 trouxe Van Damme de volta à relevância cultural pop. Ele rouba a cena num filme recheado de ícones do cinema de ação, como o vilão Jean Vilain, mas que no fim das contas acabou não fazendo muita diferença em seus trabalhos subsequentes. Filmes como 6 BULLETS e SWELTER definitivamente não são o tipo de veículos renascentistas que Van Damme merecia.

Tivemos a série JEAN-CLAUDE VAN JOHNSON em 2016, que eu acabei não vendo, mas sei que era outro estudo auto-referente que dialogava com JCVD. A série não passou da primeira temporada, foi cancelada e logo depois, mais filmes de ação de baixo orçamento acumulando na filmografia do homem, como os péssimos KILL ‘EM ALL e BLACK WATER

2018 teve LUKAS, também conhecido como THE BOUNCER, um retorno de Van Damme à sua querida Bélgica, num filme que mesclava boas sequências de ação, certo valor artísitico, com uma entrega dramática mais pesada. Um belo filme que, infelizmente, foi pouco visto, mas que poderia representar alguma mudança na carreira do homem. Seu filme seguinte, WE DIE YOUNG, eu ainda não vi, mas parece ser outro filmeco de ação de baixo orçamento. Então, voltamos à estaca zero.

Enfim, chegamos no momento atual. Ser produzido por streamings é uma via na qual muitas figuras em declínio tem se redescoberto, onde muitos heróis de ação do passado podem ser melhor servidos, onde um público mais amplo os aguarda. E agora Van Damme vai aproveitar disso com O ÚLTIMO MERCENÁRIO. A julgar pelo trailer, tem o tipo de valor de produção que ele não obteria no padrão DTV atual. Filmado em sua língua nativa, o filme parece ter o equilíbrio certo entre ação, comédia, nostalgia e auto-referência. Exatamente o tipo de filme que Van Damme deveria ter feito depois de JCVD. Antes tarde do que nunca.

Mas O ÚLTIMO MERCENÁRIO vai ser o ressurgimento de Van Damme? Se a audiência comparecer e o filme for sucesso, talvez ele faça mais alguns filmes com a Netflix, talvez até com mais oportunidades de mostrar que se tornou o ator talentoso que é. Mas, querem saber? Acho que a essa altura da careira dele, pouco importa. Eu mesmo não me importo. Claro, seria bom vê-lo tendo destaque novamente em filmes de ação de grandes estúdios, mas a gente sabe que daqui a pouco ele volta a fazer pequenos filmes de ação. Ou talvez se arrisque em mais uma produção ousada com esperança de renascimento. Mas o resultado é sempre o mesmo: o que temos é uma das figuras mais interessantes da história do cinema de ação, com uma das filmografias mais malucas, cheias de altos e baixos e tentativas frustradas em busca de algo melhor. Mas que renderam por si só grandes obras.

O que importa mesmo é que O ULTIMO MERCENÁRIO vem aí e eu vou ser o “primeiro da fila” a conferir.

THE AMUSEMENT PARK (2019)

Em 2018 fomos agraciados com THE OTHER SIDE OF THE WIND, filme inacabado de Orson Welles que conseguiu, através dos esforços de alguns indivíduos e da Netflix, ver a luz do dia. Naquele mesmo ano, noticiou-se a descoberta de mais um tesouro perdido, um filme do então recém falecido George A. Romero, um dos maiores mestres do horror americano, filmado ainda nos anos 70 e que nunca foi lançado. Esse filme era THE AMUSEMENT PARK.

Em 1973, a Igreja Luterana contratou Romero – aparentemente sem ter visto nenhum de seus filmes (o sujeito já havia realizado três longas, incluindo o clássico A NOITE DOS MORTOS VIVOS) – para comandar uma produção institucional sobre a situação dos velhinhos, dos abusos e preconceitos que pessoas em idade avançada sofrem na sociedade. O que ele entregou, uma obra alegórica de horror, surrealista, com uma narrativa de pesadelo, deixou a Igreja tão chocada que acabou arquivando o material. THE AMUSEMENT PARK foi considerado perdido até 2018. Encontrado, restaurado, chegou a passar em festivais em 2019 (tornando a data oficial) e foi lançado essa semana no serviço de streaming Shudder.

Estrelado por Lincoln Maazel, que está no icônico filme de Romero, MARTIN (77), THE AMUSEMENT PARK abre com um monólogo do ator direto para a câmera, nos dando uma introdução do tipo Rod Serling (criador de ALÉM DA IMAGINAÇÃO), antes que nossa história comece. Assim que o “espetáculo” inicia, o espectador se sente imediatamente lançado em um mundo surreal e estranho. Maazel, agora vestindo um terno branco, adentra em uma sala branca, todo otimista, mas vê a si mesmo também na sala, sentado em uma cadeira, sujo e derrotado. O velho avisa à sua versão otimista para não passar pela porta e ver o mundo lá fora, mas o homem otimista diz que gostaria de ver por si próprio. E assim ele entra num parque de diversões. Um parque comum, familiar, mas que serve de alegoria para a sociedade apodrecida que Romero aborda.

O que se segue a partir disso é uma representação surreal da angustiante existência dos idosos no convívio em comunidade, usando situações cotidianas de um parque de diversões como versões paralelas do mundo real, num crescente de paranóia e horror.

Uma montanha-russa assume o ritmo de um pesadelo. Uma tentativa de almoçar termina em humilhação. O velho acaba sendo espancado por motoqueiros e, quando tenta encontrar os primeiros socorros, é maltratado por uma tenda médica sem alma… E por aí vai. A gota d’água vem quando o velhote encontra sua primeira conexão – uma menina, fazendo um piquenique com sua família, que pede a ele para ler uma história – interrompida de forma dolorosa…

Ao final, o velho está em frangalhos, de volta à sala branca. E sua versão limpinha e otimista retorna com seu ávido desejo de se aventurar lá fora. Mais um ciclo de sofrimento que se inicia…

Quer THE AMUSEMENT PARK tenha ou não o efeito pretendido pela igreja Luterana, algo que incitasse as pessoas a serem mais atenciosas com os mais velhos, hoje isso pouco importa. Romero criou um pequeno filme poderoso (53 minutos), digno de comparação com qualquer um dos tormentos alucinógenos do cinema psicodélico dos anos 70, ou uma versão mais extrema de um episódio de ALÉM DA IMAGINAÇÃO. Sentimos muita falta dos talentos de George A. Romero, que morreu em 2017, e ao menos temos a oportunidade de apreciar um trabalho inédito. Um filme que, ainda hoje, talvez não agrade qualquer público, mas cuja existência e inclusão na filmografia de Romero merece a celebração.

DUPLA EXPLOSIVA (2017)

Este ano teremos a continuação de DUPLA EXPLOSIVA (The Hitman’s Bodyguard), um filminho de ação bem bacana que chegou aos cinemas em 2017, mas que quase ninguém deu muita bola. Não que merecesse tantos aplausos, é o típico filme de ação trivial, mais batido que bengala de cego, trabalhando dentro de uma fórmula tão usada, mas tão usada, que é impossível enumerar os clichês, mas que no fim as contas diverte o espectador que só quer gastar um tempo dando risadas com Samuel L. Jackson e ver uma alta contagem de corpos em tiroteios frenéticos e perseguições deflagradoras… Então, estou animado com a continuação.

Este primeiro foi dirigido por Patrick Hughes, o australiano que realizou OS MERCENÁRIOS 3, e é estrelado pela improvável dupla Ryan Reynolds e o citado Samuel L. Jackson. DUPLA EXPLOSIVA segue a tradição clássica dos buddy movies, esgotando todas as suas possibilidades, combinando esses dois personagens extremos opostos que acabam forçados a trabalhar lado a lado para atingir seus objetivos. Ou seja, manter a pele intacta, como é a maioria dos casos… Pensemos na fase áurea desse subgênero para ter uma referência, pensemos em Shane Black, em 48 HORAS, na série MÁQUINA MORTÍFERA, INFERNO VERMELHO, FUGA À MEIA NOITE… E DUPLA EXPLOSIVA, apesar de não acrescentar quase nada ao subgênero, não faz feio no nível de diversão que proporciona.

A trama é simples, mas funciona. Reynolds é Michael Bryce, um guarda-costa de primeira linha que viu sua carreira descer a ladeira quando um de seus protegidos foi assassinado debaixo do seu nariz, sob sua proteção. Agora, os únicos trabalhos que consegue são os que ninguém mais quer. Ansioso para recuperar seu status, acaba aceitando a missão de proteger um assassino profissional sob custódia, Darius Kincaid (Samuel L. Jackson), que é uma testemunha vital no julgamento de um ditador sanguinário de um país qualquer do leste europeu (vivido pelo grande Gary Oldman).

Ao longo do caminho, as personalidades dos dois sujeitos se chocam: Kincaid é emoção explosiva, impulsivo, mas com um grande caráter, um sujeito que eu sentaria num bar e pagaria uma cerveja numa boa, enquanto Bryce é estritamente regimentado, arrogante e um verdadeiro babaca, embora seja bom naquilo que faz; Bryce protege os clientes e o trabalho de Kincaid é eliminá-los. E por conta disso, os dois possuem uma série de desavenças de longa data. E a essência de DUPLA EXPLOSIVA não é apenas esses dois homens sendo perseguidos por assassinos, matando quem entra em seus caminhos, para um deles testemunhar num tribunal… Mas sim como essas duas personas totalmente diferentes interagem e descobrem a si mesmo numa jornada de redenção.

Redenção que foi também para o diretor Patrick Hughes, que acabou entrando numa barca furada em 2014 com o terceiro capítulo da série OS MERCENÁRIOS, um autêntico fiasco… Só que Hughes vinha de uma estreia classuda e badass em sua terra natal, um filmaço policial anti convencional chamado BUSCA SANGRENTA, que me surpreendeu bastante na época. E eu tinha certeza que poderia esperar mais do sujeito fora de um projeto tosco como OS MERCENÁRIOS 3.

A sua redenção veio com DUPLA EXPLOSIVA, que embora o plot básico seja só um fiapo e uma desculpa para a dinâmica entre os dois protagonistas, o diretor mantém as coisas vivas, com muita energia e sequências de ação espetaculares, tiroteios elaborados e longos planos sequências de lutas realistas e viscerais que remetem ao que Keanu Reeves faz em JOHN WICK. Como na briga de Reynolds contra um brutamontes numa loja de ferragens. As cenas de perseguições de carros também são um primor, incluindo uma que se passa nos canais de Amsterdã que me deixou com olhos grudados na tela.

É incrível como a ação de JOHN WICK vem influenciando cineastas interessados no gênero atualmente. Vejo como algo positivo. Este ano tivemos NOBODY, que comentei recentemente, outro belo exemplar influenciado pelo filme estrelado por Keanu Reeves, e na ocasião disse que eu não tenho problema com essas imitações contanto que continuem fazendo filmes divertidos como este aqui. Me lembra um pouco aquela fase em que diretores americanos casca-grossas do início dos anos 90 imitavam o John Woo…

Além disso, DUPLA EXPLOSIVA possui várias sacadas engraçadíssimas, Reynolds e Jackson estão hilários, carismáticos, o que também ajuda a elevar o material. O velho Samuca, óbvio, se destaca mais, soltando seus habituais “motherfucker’s” a cada dois minutos. Salma Hayek também chama a atenção em todas as cenas em que aparece, como a esposa de Kincaid, o que inclui uma certa sequência romântica ao som de Hello, de Lionel Ritchie, que é impossível um fã de musicas bregas oitentistas ficar indiferente.

Tirando o fato de ser um bocado mais longo do que deveria (praticamente duas horas, num filme que tem pouca história pra contar), DUPLA EXPLOSIVA prova que não é preciso ser tão original para o resultado ser divertido. Um filme que não quer inventar a roda, mas trabalha as fórmulas desgastadas do gênero com bom humor, cumprindo exatamente o que promete, que é ser um filme de ação exagerado, sem vergonha e violento. E ainda conta com o carisma e a química de seus dois protagonistas, Reynolds e Jackson, em estado de graça.

Acredito que vai ser engraçado ver essa dupla retornando numa continuação, que vai se chamar DUPLA EXPLOSIVA 2 – E A PRIMEIRA-DAMA DO CRIME (Hitman’s Wife’s Bodyguard), fazendo referência à personagem de Salma Hayek. Vai ser dirigido novamente por Patrick Hughes, vamos ter a adição de Antonio Banderas e Morgan Freeman no elenco e tem estreia marcada para o mês que vem, em julho, no Brasil.

VAN DAMME em dose dupla no CINE POEIRA

Tenho sido meio desleixado com a divulgação do Cine Poeira, o podcast que eu e mais duas figuras, o Luiz Campos e Osvaldo Neto, temos mantido há mais de um ano e que já está na terceira temporada. Mas como o episódio desta semana está mais que especial, faço aqui a recomendação. Porque não falamos apenas de um filme de Jean-Claude Van Damme, falamos de DOIS filmes do belga mais querido entre os fãs de cinema de ação: A COLÔNIA (1997) e GOLPE FULMINANTE (1998). Ambos os filmes são dirigidos pelo mestre de ação de Hong Kong Tsui Hark. Comentamos as duas produções e refletimos, entre outras coisas, sobre a veia autoral de Hark e da importância de JCVD para a popularização do cinema de Hong Kong.

O podcast pode ser ouvido na plataforma de sua preferência (Spotify, Anchor, Castbox, iTunes e diversos outros), basta buscar pelo Cine Poeira. Ou, se quiserem, é só dar o play abaixo. Divirtam-se.

Netflix: SEM PERDÃO (2017)

A qualquer hora dessas eu precisava chegar no diretor ex-dublê Ric Roman Waugh, um sujeito que há tempos me parece ser desses talentos subestimados a ser descoberto no cinema americano. Único filme de Waugh que tinha visto até agora era FELON, de 2008, um drama de prisão com Val Kilmer e Stephen Dorff bem melhor que o esperado. E que guarda algumas semelhanças com SEM PERDÃO (Shot Caller), seu filme de 2017 que está na Netflix há um tempão e adiei pra caramba, mas finalmente conferi essa semana. Sob a insistência também do meu velho companheiro de Cine Poeira, Osvaldo Neto (que foi quem me apresentou também FELON na época).

Waugh começou a dirigir ainda nos anos 90, e tem até filme com o Dwayne “The Rock” Johnson, O ACORDO. Mas SEM PERDÃO que parece ter sido seu grande trunfo na carreira. Logo depois se reuniu com o ator Gerald Butler já rendendo duas produções mais abastadas, ANGELS HAS FALLEN (que já é a terceira parte de uma franquia de ação iniciada com INVASÃO À CASA BRANCA, de 2013) e GREENLAND. Não vi nenhum dos dois ainda, mas aparentemente vem mais coisas da dupla por aí… E depois de ver SEM PERDÃO e perceber que o cara é bão mesmo, vou atrás desses aí.

Sobre SEM PERDÃO, a trama começa com a liberdade condicional de um condenado chamado “Money” (o dinamarquês Nikolaj Coster-Waldau, que ficou mais conhecido pelo seu papel em GAME OF THRONES). O filme segue suas atividades pós-prisão, que inclui a sua participação em uma negociação de armas militares russas roubadas do Afeganistão, e intercala a narrativa com flashbacks de sua antiga vida e como acabou na situação que está.

Dez anos antes, “Money” era Jacob Harlin, um corretor da bolsa de sucesso, pai de família honesto, com uma esposa (Lake Bell) e um filho pequeno. Depois de jantar fora com um casal de amigos, Jacob se distrai no volante com uma conversa e fura o sinal vermelho causando um baita acidente. Seu amigo no banco de trás acaba morrendo e desde que tomou umas duas tacinhas de vinho, acaba acusado por homicídio culposo. Faz um acordo judicial e é condenado a um par de anos, mas a partir do momento em que pisa na penitenciária, a realidade é outra. É um universo paralelo cujo sistema transforma o indivíduo da pior maneira, como já vimo em muitos filmes por aí. E para garantir a sua segurança, Jacob se alinha com uma gangue de supremacistas brancos. E logo está transportando drogas lá onde o sol não brilha e até matando sob ordens dos líderes da gangue.

Depois de se envolver em um motim, sua sentença é estendida, a coisa complica, e ele constrói um muro ao seu redor, cortando o contato com o mundo exterior, incluindo sua esposa e filho. Mas agora ele está livre. Quero dizer, livre em partes, porque o sistema sai com ele. E a conexão com certos poderes que fez na prisão, sobretudo com um sujeito chamado The Beast (Holt McCallany), um influente chefão da porra toda, não vai deixar o cara sair e fazer o que quiser. Ele ainda faz parte da “família”, querendo ou não.

Parece um melodrama de prisão padrão, mas além de evitar cair na armadilha do proselitismo, Waugh constrói SEM PERDÃO como um surpreendente e amargo estudo de personagem, sobre um homem que descobre da pior maneira possível o estrago que o sistema prisional faz a um indivíduo. E que precisa usar de todos os meios, morais e amorais, para permancer vivo – e manter os seus a salvo.

E o principal motivo de tudo funcionar tão bem é Coster-Waldau num personagem forjado com grandeza detalhista e trágica, e a atuação poderosa do sujeito, uma das melhores performances dos últimos anos no cinema americano e que passou completamente batido por quase todo mundo. No elenco, além dos já citados, ainda temos Jon Bernthal, Jeffrey Donovan e uma pequena participação de Benjamin Bratt com um bigodão.

Não fosse uma gordurinha aqui e a ali (o filme perde muito tempo com o personagem do policial da condicional vivido por Omari Hardwick) SEM PERDÃO talvez merecesse ainda mais elogios. Mas é um grande filme, desses que poderia ser mais conhecido e lembrado. Acho que a rapaziada que está familiarizada com tipo de filme que prezamos aqui no blog vai curtir. E ainda dá tempo. Tá na Netflix pra quem quiser ver.

INFILTRADO (2021)

Existem dois diretores Guy Ritchie na minha opinião, aquele que surgiu lá nos anos 90 como uma imitação britânica de Quentin Tarantino, fazendo crime movies envolvendo o univero da máfia e o submundo das gangues na Inglaterra, e temos aquele que pro final dos anos 2000 começou a fazer super produções sob a batuta de grandes estúdios. Não acho nenhum dos dois grandes diretores, mas o “primeiro” Guy Ritchie pelo menos me agrada, faz um trabalho bacana, rendendo uns filminhos divertidos como SNATCH, PORCOS E DIAMANTES, REVOLVER e, mesmo tendo Tarantino como influência óbvia, era autoral. Enquanto o “segundo” Guy Ritchie só entregou produtos genéricos e/ou medíocres como a franquia SHERLOCK HOLMES e REI ARTHUR (o seu ALLADIN eu não quis nem arriscar). A exceção talvez seja THE MAN FROM U.N.C.L.E., que é legalzinho.

INFILTRADO (Wrath of Man) é o novo trabalho do homem. Do, ainda bem, “primeiro” Guy Ritchie. O que não quer dizer que temos um filme genial ou algo parecido. Mas é um thriller de ação decente, pra sentar no sofá com os pés pra cima, tomando aquela coca-cola gelada enquanto assiste de boas… Trata-se do remake de um filme francês de 2004 chamado LE CONVOYEUR, que menciono só pela informação. Não vi, então nem me proponho a fazer comparações.

Aqui temos Jason Statham interpretando H, um homem que é contratado para dirigir carros-fortes cheios de dinheiro que estão constantemente sendo roubados. Ele posui um background violento que vai sendo revelado aos poucos no decorrer de uma narrativa cuja estrutura é toda costurada, cheio de flashbacks e personagens secundários, como é característico do diretor, mas para todos os efeitos é um filme mais centrado numa trama de vingança protagonizada pelo personagem de Statham. É também uma obra mais sombria e moralmente ambígua na maior parte do tempo, deixa de lado o humor peculiar pelo qual os filmes de Ritchie também são geralmente conhecidos.

A medida que INFILTRADO avança, a coisa vai ficando mais interessante, com algumas boas sequências de ação e um clima tenso que se constrói no último ato, uma sequência de assalto à central dos carros-fortes. Embora tenha um bocado de gordura que poderia ser eliminada e não acrescente nada ao gênero, é um filme sólido e que conseguiu ao menos me prender. Gosto do Statham, ainda que fazendo mais do mesmo por aqui, o elenco ainda tem Josh Hartnett, Holt McCallany, uma pequena participação de Andy Garcia e vários rostos reconhecíveis. O destaque vai para o filho do Clint, Scott Eastwood, que já provou que nunca vai chegar aos pés do pai, mas que em determinados tipos de papéis pode funcionar muito bem, como é o caso aqui.

Enfim, INFILTRADO tá longe de ser o meu favorito do diretor, mas fico feliz que aos poucos Guy Ritchie tem priorizado ser aquele “primeiro” diretor que mencionei lá em cima, fazendo esses filmes menores de ação e crime… Inclusive, seu trabalho anterior, THE GENTLEMEN, não é nada especial, mas também não foi nada mal. Claro que o primeiro estúdio que balançar uns milhões de dólares na sua frente o sujeito não vai resistir de fazer uma super produção, mas espero que não deixe de continuar voltando às origens de vez em quando.

Agora fiquei com vontade de conferir o filme original…

Infelizmente, não faço ideia se INFILTRADO já tá diponível em algum streaming por aqui…

NOBODY (2021)

Bob Odenkirk ganhou fama como o advogado esperto e picareta Saul Goodman, de BREAKING BAD, cujo personagem chama tanto a atenção que acabou ganhando um seriado próprio para chamar de seu (BETTER CALL SAUL). O cara é muito bom ator, isso não tenho dúvidas, mas acho que ninguém (sem trocadilho com título original deste filme aqui) esperava que a essa altura do campeonato teríamos um filme com Odenkirk pagando de action hero, ao estilo Liam Neeson… Para um filme que se chama NOBODY, acertaram em cheio na escalação do sujeito.

Odenkirk é um homem aparentemente comum, pai de família, mas que guarda um passado violento envolto às sombras. Ele parece estar entediado, o casamento não anda lá essas coisas, crise da meia idade batendo, se sentindo impotente com sua vida vazia e monótona se repetindo dia a dia, como é mostrado na eficiente edição do começo do filme. Então, quando alguns gangsters russos vêm atrás dele e de sua família depois de determinados eventos, ele aproveita a oportunidade para liberar seu antigo “eu” acompanhado de mais um conjunto de habilidades especiais.

Óbvio que neste momento não vou resistir de fazer comparações com JOHN WICK. Quem já viu o filme estrelado por Keanu Reeves já nota as semelhança quase de imediato. E na verdade NOBODY foi escrito pelo mesmo roteirista de JOHN WICK, Derek Kolstad, e um dos produtore é David Leitch, que co-dirigiu JOHN WICK, então não tem pra onde fugir, as semelhanças estão lá de maneira explícita sem qualquer esforço em virar o disco. O que não acho negativo. Não prezo tanto assim por originalidade em toda merda que se faz por aí. Claro, uma obra que possua essa qualidade acaba se sobressaindo… Mas contanto que façam filmes legais, não me importo que copiem JOHN WICK na cara dura… E NOBODY é bem divertido nessa lógica.

E, bom, se vc asssitiu ao trailer de NOBODY sabe que não é pra esperar algo que traga luz à reflexões profundas e filosóficas da alma humana. Ninguém tá esperando um Bergman, um Antonioni. O que dá pra esperar é Bob Odenkirk socando e trocando tiros com pessoas. E o filme entrega isso: Bob Odenkirk socando, matando pessoas e explodindo coisas (e pesoas) por 90 minutos. O que tá bom demais pra mim.

A direção de NOBODY é daquele russo maluco que há uns anos fez aquele filme de ação em primeira pessoa, HARDCORE HENRY, que na época eu achei um tanto enjoativo pela proposta “100% visto pelos olhos do protagonista”. Uma revisão hoje não faria mal. Mas pode esperar. O nome do sujeito é Ilya Naishuller e acho que nessa narrativa mais convencional até que mandou bem. Ele não leva o material a sério, consegue trabalhar bem com os atores e cria sequências de ação bem coreografadas e cheia de mortes criativas. A sequência da pancadaria no ônibus, com Odenkirk encarando uns cinco sujeitos (entre eles o grande Daniel Bernhardt e Alain Moussi) tá entre as melhores do ano. E o tiroteio final é um barato. Tá certo que você sente que vai dar tudo certo, que praticamente nenhum dos heróis sofre qualquer ameaça real nas trocas de tiros, não tem peso dramático nenhum, mas não deixa de ser divertido. E poder ver Christopher Lloyd, o bom e velho Doc Brown de DE VOLTA PARA O FUTURO, carregado de espingardas e escopetas, mandando chumbo pra cima de mafiosos russos é uma imagem linda.

Bob Odenkirk consegue se sair muito bem, o que não é nenhuma surpresa. Mas a participação de Lloyd sim, essa eu não estava esperando que fosse tão legal. Ele é responsável por alguns dos melhores momentos do filme. No elenco ainda temos a musa dos anos 90 Connie Nielsen, o rapper fã de Shaw Brothers RZA e um russo de nome longo fazendo um daqueles vilões surtados típicos que adoramos: Alexei Walerjewitsch Serebrjakow.

NOBODY não é perfeito, está longe de ser um grande filme (como é o caso do próprio JOHN WICK), mas é agradável, me diverti bem com ele. Sem contar com aquele detalhe de que possui apenas 90 minutos de duração. Para um filme de ação atual, além de raro, chega a ser um frescor.

Netflix: ARMY OF THE DEAD (2021)

Nada contra o Zack Snyder, ainda tenho curiosidade e perco meu tempo vendo os filmes que lança. Mas já faz um bom tempo que o sujeito não faz algo que presta. Lembro que curti WATCHMEN (carece de revisão) e desde então pouca coisa salva… Só aí já passa de uma década. O último embuste foi o tal Snyder Cut da LIGA DA JUSTIÇA, 4 horas da minha vida jogadas no lixo. Mesmo assim, resolvi encarar seu novo trabalho, a mega-produção da Netflix ARMY OF THE DEAD, que me deixou até animado, prometia, pelo trailer, ser uma espécie de ONZE HOMENS E UM SEGREDO com zumbis, um conceito bacana e, enfim, achei que pudesse render algo interessante também por ser o retorno do Snyder ao subgênero zombie movie, já que seu primeiro filme é o bom remake de DAWN OF THE DEAD, de George A. Romero.

Assisti a ARMY OF THE DEAD, portanto, na firmeza, de coração aberto, sem preconceito. Não deu outra: é mais um exemplar decepcionante do cara, mais um filmeco todo errado… Saudades de WATCHMEN.

Depois que um surto de zumbis infecta Las Vegas, a cidade inteira é cercada e a zumbizada vive de boas lá dentro. Ninguém entra, ninguém sai. Mas a trama é sobre o ex-herói de guerra interpretado pelo grandalhão Dave Bautista, que é contratado pelo dono de um cassino bilionário, vivido Hiroyuki Sanada, para montar uma equipe com a missão de ir a Vegas infestada de zumbis, entrar no cofre de seu cassino e retirar $200 milhões de dólares que ficaram lá. É tudo dinheiro extra, o seguro já cobriu as perdas do ricaço. Ele só quer tirar um a mais… Mas será realmente só isso? O tempo torna-se uma questão essencial: o presidente dos EUA ordenou, sabe-se lá porque, que Vegas fosse varrida do mapa com uma bomba nuclear em quatro dias – quando seria exatamente 4 de julho… Acho que o Trump ainda estava no cargo no universo que o filme se passa.

Durante um tempinho o filme consegue dar aquela enganada e mantém o interesse – o prólogo e créditos iniciais são ótimos; a ideia de que toda a merda da infecção de zumbis se dá por conta de um boquete é engraçada; temos o tigre zumbi de Siegfried & Roy; e Snyder não economiza na hora da ação e violência. Mas ARMY OF THE DEAD tem 146 minutos de duração e simplesmente colapsa num amontoado de personagens, subtramas, clichês estúpidos, situações idiotas e escolhas que tornam o filme intragável (toda e qualquer situação envolvendo a personagem da filha do Bautista, por exemplo, tira qualquer possibilidade desse filme ser bom).

Há uma sequência que Snyder atinge os extremos, vai do céu ao inferno, da excelência à mediocridade, quando certa personagem rodeada de zumbis precisa agir para sobreviver, numa sequência de ação excepcional (prova que o diretor, quando quer, manda bem), para logo em seguida, essa mesma moça acabar encurralada, sem escapatória e sem ajuda, mesmo com os companheiros a 1,5 metro de distância, podendo atirar nos zumbis. Em vez disso, os caras ficam olhando ela morrer. Eu confesso que fiquei sem entender… O filme mostra de forma clara que os amigos dela estavam literalmente a poucos metros dela e não fizeram nada. Que troço idiota. Até aqui ARMY OF THE DEAD ainda parecia, no mínimo, decente. Mas depois dessa cena, a coisa foi ladeira abaixo.

Por exemplo, há momentos de ARMY OF THE DEAD que prenunciam coisas legais, mas que acabam frustrando as expectativas simplesmente porque… porque sim. Em determinada cena, ficamos sabendo que todos os zumbis mortos queimados voltam à vida quando chove. Ah, então vai ser incrível, quando chover mais tarde e houver uma enorme horda de zumbis! Isso nunca acontece… Temos esse personagem que carrega uma serra circular gigante? Vai ser maneiro vê-lo fatiar zumbis! Não, isso não rola também. Então vamos arriscar TODA a missão para salvar essas moças das quais ninguém dá mínima para o gran finale do filme? Aposto que vai ser frenético e épico, mal posso esperar para ver! Ah, que pena, nem sequer ficamos SABENDO o que aconteceu com as mulheres que foram salvas. Snyder deve ter esquecido de mostrar. Foi tudo em vão. Não serviu para um caralho!

Enfim, acho que já dá pra ter uma noção da desgraça, uma pequena amostra da coleção de bobagens que é. Daria para preencher vários parágrafos só com as cagadas que Snyder fez por aqui. O pouco prazer que pode ser encontrado em ARMY OF THE DEAD – algumas sequências de ação, visual, efeitos especiais, o conceito dos zumbis “inteligentes” – não supera nem remotamente a grande quantidades de estupidez e decepção. Roteiro, Snyder, você precisa de um roteirista. Dos bons. Mas, aparentemente, a rapaziada tem curtido essa porcaria, já estão planejando continuações, prequels e séries animadas desse universo. Fiquem à vontade. Eu paro por aqui.

MEDO X (2003)

Esse era o único filme do dinamarquês Nicholas Winding Refn que me faltava. Resolvi essa questão, assisti finalmente MEDO X (Fear X), primeiro filme de língua inglesa do diretor, um trabalho menos reverenciado do cara, menos até que seus filmes realizados na Dinamarca, PUSHER (96) e BLEEDER (99), mas que, na verdade, trata-se de uma experiência atmosférica e sensorial forte. A gênese do tom e estilo que Refn faz atualmente em filmes como ONLY GOD FORGIVES (13), THE NEON DEMON (16) e na série TOO OLD TO DIE YOUNG (19), com sua câmera onipresente, ritmo moroso, estética carregada e que possui uma performance grandiosa de John Turturro, coisas que transformam isso aqui em algo fascinante.

Ainda não tão hiperestilizado quanto os novos Refn’s, substituindo as paletas de cores vibrantes por corredores sujos e paisagens infernais e sombrias, Refn mal move a câmera em MEDO X, a mantém estática, muitas vezes em ressonância com a imobidlidade de Harry (Turturro), enquanto ele se senta em silêncio avançando pelas fitas VHS de segurança na esperança de encontrar pistas sobre o assassinato de sua esposa.

Uma vez que Turturro se aprofunda no coração do mistério, fazendo check-in em um hotel avermelhado que parece saído de um filme de David Lynch, o clima vai ficando mais pesado, a atmosfera dos quartos e corredores apertados se tornam as paredes da mente de Turturro, onde frequentemente o filme adentra e revela uma bolha vermelha com um rosto protuberante desesperado para escapar, além de manchas e imagens abstratas… Já disse que o filme lembra muito Lynch? O significado desse tipo de coisa eu não sei, mas em conversa com meu amigo Osvaldo Neto, do Cine Poeira, a conclusão é que a intenção é foder com a nossa mente mesmo… E consegue.

É uma pena que na metade de MEDO X o roteiro resolva sugerir algumas exposições. Preferia ficar mais tempo no escuro com o mistério. A primeira metade, onde as coisas não estão muito claras nem para o personagem do Turturro em sua busca, é absolutamente brilhante. Tantas perguntas, tantas cenas arrepiantes sem respostas. O filme não fica ruim, mas assim que a trama deixa a busca de Harry e nos apresenta ao personagem de James Remar, que está ótimo, dá uma quebrada no andamento e ficamos sabendo demais, estamos um passo à frente de Harry e o mistério dá uma diluida.

O filme entra no eixo novamente para um “gran finale“. Mas, claro, ao estilo do Refn, anti-clímax, quebrando qualquer expectativa. Do tipo que te prepara para algo espetacular e te joga um balde de água fria. Para quem já está familiarizado com o cinema de Refn, a coisa pode funcionar melhor. Mas esse final realmente é um ponto bastante discutível entre os detratores do filme. Eu, particularmente, adoro o desfecho e em como isso acentua a lógica do filme ser mais sobre a obsessão do protagonista por resposta do que a resposta em si.

E não vou dizer que MEDO X foi uma bela surpresa, porque eu sempre espero algo de alto nível do diretor, que é dos meus favoritos em atividade. Mesmo num trabalho de início de carreira. E o cara evoluiu bastante de lá pra cá, mas este aqui não deixa de ser um experimento admirável e muito imersivo, um interessante thriller psicológico. Infelizmente, foi um fracasso e levou a produtora de Refn à falência. O sujeito só foi recuperar a grana com o sucesso das duas continuações de PUSHER, que são outras pérolas da filmografia do dinamarquês.

SEM REMORSO (2021)

Não sou nenhum especialista na obra de Tom Clancy e o único livro dele que tenho é o CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO. Mas sempre tive interesse nas adaptação de sua obra para o cinema e pelo protagonista, Jack Ryan – vivido por figuras como Alec Baldwin, Harrison Ford, Ben Affleck e vários outros em diversos filmes… SEM REMORSO (Without Remorse), de Stefano Sollima, não tem o Ryan, mas é a mais nova aventura do “universo Tom Clancy” a chegar às telas… No caso, nas telinhas. Originalmente programado para chegar aos cinemas no ano passado, o filme teve sua data de lançamento adiada várias vezes por conta da atual situação mundial até que a Paramount entregasse a coisa para o streaming da Amazon.

Baseado num best-seller de mesmo nome que Tom Clancy lançou em 93, SEM REMORSO serve como origem para o personagem John Clark (Michael B. Jordan), um integrante das operações especiais da CIA que foi interpretado por Willem Dafoe em PERIGO REAL E IMEDIATO (94) e por Liev Schreiber em A SOMA DE TODOS OS MEDOS (02). A trama é chichezenta, um thriller de vingança com Clark e vários SEALs se tornando alvos de assassinos russos como retaliação por uma missão anterior em Aleppo. A esposa grávida de Clark acaba se tornando vítima, o que faz do sujeito, dedicado militar, que é uma verdadeira máquina de matar, ficar obcecado por vingança, sem nada a perder.

Já vimos esse tipo de coisa mil vezes, mas nas mãos de alguns realizadores badasses da atualidade – sobretudo o roteirista Taylor Sheridan (do filmaço A QUALQUER CUSTO) e o diretor Stefano Sollima (de SICARIO 2: DIA DO SOLDADO, e que é filho do grande diretor italiano Sergio Sollima) – SEM REMORSO acaba compensado pelas várias e intensas sequências de tensão e ação – a queda do avião, por exemplo, é um primor e todo o impasse que ocorre num determinado prédio com uns snipers no terceiro ato demonstra que Sollima herdou o talento do pai pra esse tipo de coisa: direção sem firulas, com uma secura admirável, sem arestas… É quase uma ação old school. Na tela, somente o que precisa estar, e basta.

Michael B. Jordan tem muita presença como herói de ação. No bom elenco ainda temos Jamie Bell, Guy Pearce e uma belezinha chamada Jodie Turner-Smith.

No geral, SEM REMORSO pode não ser nenhuma maravilha, mas é eficiente como thriller de ação, diverte e prende a atenção com facilidade. E se isso aqui for o início de algum Tom Clancy Extended Cinematic Universe podem sempre contar com a minha audiência.