MEDO X (2003)

Esse era o único filme do dinamarquês Nicholas Winding Refn que me faltava. Resolvi essa questão, assisti finalmente MEDO X (Fear X), primeiro filme de língua inglesa do diretor, um trabalho menos reverenciado do cara, menos até que seus filmes realizados na Dinamarca, PUSHER (96) e BLEEDER (99), mas que, na verdade, trata-se de uma experiência atmosférica e sensorial forte. A gênese do tom e estilo que Refn faz atualmente em filmes como ONLY GOD FORGIVES (13), THE NEON DEMON (16) e na série TOO OLD TO DIE YOUNG (19), com sua câmera onipresente, ritmo moroso, estética carregada e que possui uma performance grandiosa de John Turturro, coisas que transformam isso aqui em algo fascinante.

Ainda não tão hiperestilizado quanto os novos Refn’s, substituindo as paletas de cores vibrantes por corredores sujos e paisagens infernais e sombrias, Refn mal move a câmera em MEDO X, a mantém estática, muitas vezes em ressonância com a imobidlidade de Harry (Turturro), enquanto ele se senta em silêncio avançando pelas fitas VHS de segurança na esperança de encontrar pistas sobre o assassinato de sua esposa.

Uma vez que Turturro se aprofunda no coração do mistério, fazendo check-in em um hotel avermelhado que parece saído de um filme de David Lynch, o clima vai ficando mais pesado, a atmosfera dos quartos e corredores apertados se tornam as paredes da mente de Turturro, onde frequentemente o filme adentra e revela uma bolha vermelha com um rosto protuberante desesperado para escapar, além de manchas e imagens abstratas… Já disse que o filme lembra muito Lynch? O significado desse tipo de coisa eu não sei, mas em conversa com meu amigo Osvaldo Neto, do Cine Poeira, a conclusão é que a intenção é foder com a nossa mente mesmo… E consegue.

É uma pena que na metade de MEDO X o roteiro resolva sugerir algumas exposições. Preferia ficar mais tempo no escuro com o mistério. A primeira metade, onde as coisas não estão muito claras nem para o personagem do Turturro em sua busca, é absolutamente brilhante. Tantas perguntas, tantas cenas arrepiantes sem respostas. O filme não fica ruim, mas assim que a trama deixa a busca de Harry e nos apresenta ao personagem de James Remar, que está ótimo, dá uma quebrada no andamento e ficamos sabendo demais, estamos um passo à frente de Harry e o mistério dá uma diluida.

O filme entra no eixo novamente para um “gran finale“. Mas, claro, ao estilo do Refn, anti-clímax, quebrando qualquer expectativa. Do tipo que te prepara para algo espetacular e te joga um balde de água fria. Para quem já está familiarizado com o cinema de Refn, a coisa pode funcionar melhor. Mas esse final realmente é um ponto bastante discutível entre os detratores do filme. Eu, particularmente, adoro o desfecho e em como isso acentua a lógica do filme ser mais sobre a obsessão do protagonista por resposta do que a resposta em si.

E não vou dizer que MEDO X foi uma bela surpresa, porque eu sempre espero algo de alto nível do diretor, que é dos meus favoritos em atividade. Mesmo num trabalho de início de carreira. E o cara evoluiu bastante de lá pra cá, mas este aqui não deixa de ser um experimento admirável e muito imersivo, um interessante thriller psicológico. Infelizmente, foi um fracasso e levou a produtora de Refn à falência. O sujeito só foi recuperar a grana com o sucesso das duas continuações de PUSHER, que são outras pérolas da filmografia do dinamarquês.

SEM REMORSO (2021)

Não sou nenhum especialista na obra de Tom Clancy e o único livro dele que tenho é o CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO. Mas sempre tive interesse nas adaptação de sua obra para o cinema e pelo protagonista, Jack Ryan – vivido por figuras como Alec Baldwin, Harrison Ford, Ben Affleck e vários outros em diversos filmes… SEM REMORSO (Without Remorse), de Stefano Sollima, não tem o Ryan, mas é a mais nova aventura do “universo Tom Clancy” a chegar às telas… No caso, nas telinhas. Originalmente programado para chegar aos cinemas no ano passado, o filme teve sua data de lançamento adiada várias vezes por conta da atual situação mundial até que a Paramount entregasse a coisa para o streaming da Amazon.

Baseado num best-seller de mesmo nome que Tom Clancy lançou em 93, SEM REMORSO serve como origem para o personagem John Clark (Michael B. Jordan), um integrante das operações especiais da CIA que foi interpretado por Willem Dafoe em PERIGO REAL E IMEDIATO (94) e por Liev Schreiber em A SOMA DE TODOS OS MEDOS (02). A trama é chichezenta, um thriller de vingança com Clark e vários SEALs se tornando alvos de assassinos russos como retaliação por uma missão anterior em Aleppo. A esposa grávida de Clark acaba se tornando vítima, o que faz do sujeito, dedicado militar, que é uma verdadeira máquina de matar, ficar obcecado por vingança, sem nada a perder.

Já vimos esse tipo de coisa mil vezes, mas nas mãos de alguns realizadores badasses da atualidade – sobretudo o roteirista Taylor Sheridan (do filmaço A QUALQUER CUSTO) e o diretor Stefano Sollima (de SICARIO 2: DIA DO SOLDADO, e que é filho do grande diretor italiano Sergio Sollima) – SEM REMORSO acaba compensado pelas várias e intensas sequências de tensão e ação – a queda do avião, por exemplo, é um primor e todo o impasse que ocorre num determinado prédio com uns snipers no terceiro ato demonstra que Sollima herdou o talento do pai pra esse tipo de coisa: direção sem firulas, com uma secura admirável, sem arestas… É quase uma ação old school. Na tela, somente o que precisa estar, e basta.

Michael B. Jordan tem muita presença como herói de ação. No bom elenco ainda temos Jamie Bell, Guy Pearce e uma belezinha chamada Jodie Turner-Smith.

No geral, SEM REMORSO pode não ser nenhuma maravilha, mas é eficiente como thriller de ação, diverte e prende a atenção com facilidade. E se isso aqui for o início de algum Tom Clancy Extended Cinematic Universe podem sempre contar com a minha audiência.

MIRACLE MILE (1988)

Se você ainda não assistiu a MIRACLE MILE, de Steve De Jarnatt, é provável que tenha, quando for conferir, a mesma reação que eu tive há poucos dias quando assisti pela primeira vez: “por que, raios, eu nunca tinha visto isso antes?!?!“. Me senti a última pessoa do planeta a ter contato com a obra, sobretudo por se tratar de um filmaço, um petardo oitentista incrível, daqueles que não dá para acreditar que não seja mais comentado e celebrado, embora hoje não deixe de ter um certo status cult. Mas, enfim, os filmes estão aí para serem vistos e redescobertos, mesmo que se chegue beeeem atrasado para as atividades.

Desse diretor, Steve De Jarnatt, só conhecia seu filme anterior, CHERRY 2000, e que dedicou praticamente toda a carreira em séries de televisão. No meio disso, De Jarnatt escreveu essa maravilha em forma de pesadelo cinematográfico que pode ser definido como um romance que se desenrola na contagem regressiva para o apocalipse! Na trama, enquanto passeia por um museu em Los Angeles, Harry (Anthony Edwards) e Julie (Mare Winninghan) se cruzam várias vezes, começam a conversar e logo a atração mútua entre os dois corações solitários fica evidente. Tendo combinado um encontro após a meia-noite com Julie, quando termina seu turno de garçonete em um restaurante 24 horas em Miracle Mile, o bairro de Los Angeles, Harry decide tirar uma soneca até dar a hora de sair. Mas seu alarme não toca e ele está super atrasado. Julie já desistiu de esperar e foi para casa. Ele tenta ligar pra ela de uma cabine telefônica fora da lanchonete, mas não tem resposta. Enquanto ele se afasta, o telefone toca e ele volta para atender. Acreditando que Harry seja outra pessoa, a voz de um homem perturbado o informa que ele está em um silo na Dakota do Norte, de onde mísseis nucleares serão lançados em menos de uma hora e que a aniquilação mundial está por vir…

Após essa conversa telefônica, Harry adentra a lanchonete e conta o que acabou de ouvir para os clientes da madrugada e planta uma semente que rapidamente se transforma em um pesadelo. A partir daí, o senso de urgência cresce em MIRACLE MILE num ritmo cada vez maior conforme se desenrola a jornada de Harry contra o tempo para localizar e colocar Julie em segurança, numa sucessão de situações peculiares e personagens duvidosos à espreita nas ruas pela noite de Los Angeles.

Com a tensão crescente, impulsionada pela trilha sonora de Tangerine Dream, MIRACLE MILE é o tipo de filme consegue saltar livremente entre gêneros, explorando o romance, a comédia absurda típica de um John Landis e em especial o horror intrínseco em sua premissa, provavelmente porque nunca deixa de levar o apocalipse a sério e o desastre iminente nos parece muito intimista o tempo todo. Enquanto a maioria dos filmes que gira em torno da aniquilação nuclear parece mais épico e crítico em relação às políticas que permitem que tal possibilidade aconteça, na capacidade da humanidade para a destruição e estupidez em uma escala global, MIRACLE MILE acaba focando mais nas relações pessoais que dão sentido à vida.

Os personagens do filme estão constantemente afirmando a necessidade de encontrar, proteger ou pelo menos se reconciliar com seus entes queridos em face da catástrofe. A própria ideia central do filme é ver Harry arriscando sua vida repetidamente na esperança de se reunir com Julie e salvá-la. Mas se MIRACLE MILE é um filme com coração, também é marcado por explosões de violência e situações pesadas, do tipo que surge da urgência e do desespero. Há uma sequência perturbadora onde, após uma série de contratempos, dois personagens se abraçam e um pergunta ao outro: “este é o seu sangue ou o meu?”, com uma inocência estranha que apenas ressalta a natureza horrível da situação. Os mesmos personagens tentam subir uma escada rolante que está descendo, e essa imagem, a princípio um tanto cômica, é aterradora e parece uma metáfora apropriada para o que as pessoas em Miracle Mile estão fazendo – tentando inutilmente seguir numa direção sem ter a noção de que não vão a lugar algum. Dentro de instantes, tudo pode acabar…

Anthony Edwards e Mare Winningham estão perfeitos, cativantes, tem química na tela e o filme investe o tempo suficiente para estabelecer a trama romântica no início e fazer o espectador ser tomado pelo desejo de vê-los se saindo bem dessa situação, embora o destino conspire implacavelmente para separar os dois. Quase todos os outros personagens da história aparecem apenas brevemente, mas há momentos memoráveis com várias figuras legais que vão surgindo na trama e compondo um bela galeria, como Edward Bunker (o Mister Blue de CÃES DE ALUGUEL), Robert DoQui (o chefe de polícia de ROBOCOP), o veterano John Agar, Mykelti Williamson, que faz um vendedor de toca-fitas roubados que Harry faz amizade, e até o piloto de helicóptero gay vivido pelo grande Brian Thompson, que Harry recruta para levá-lo para fora da cidade, mas apenas com a condição de levar seu namorado junto.

Os momentos finais de MIRACLE MILE são de tirar o fôlego – reconfortantes e dolorosos ao mesmo tempo – e permanece único em sua capacidade de evocar totalmente o terror do apocalipse sem nunca zombar do poder do amor… Filmaço. Saiu em alguma das caixas de Cinema Sci-Fi da Versátil pra quem quiser conferir.

O BURACO DA AGULHA (1981)

Sugestão bem-vinda de um leitor – valeu, mister Antonio Manuel – uma vez que eu nunca tinha visto O BURACO DA AGULHA (EYE OF THE NEEDLE), apesar da curiosidade que tinha de saber como haviam adaptado o clássico best-seller de Ken Follett, que é daqueles thrillers literários de Segunda Guerra dificil de desgrudar os olhos durante a leitura. O filme até que não decepciona nesse sentido também, tem boa dose de tensão e ainda mistura uma faceta romântica que, se não é totalmente acertada, tá bem longe de ser um desastre. Foi dirigido pelo grande Richard Marquand, que é mais lembrado por ter sido a escolha de George Lucas para comandar O RETORNO DE JEDI justamente pelo seu trabalho por aqui (e por não fazer parte do Hollywood director’s union que andava dando dor de cabeça para Lucas).

Donald Sutherland vive aqui um frio e calculista espião nazista chamado Henry Farber e conhecido pelo codinome “Agulha” – por conta da sua arma favorita, uma faca com esse formato que utiliza sem piedade em qualquer um que interfira nos seus planos. Durante uma de suas missões no Reino Unido, descobre que os aliados construíram um imensa base militar fake para passar a ideia de uma futura invasão de tropas na França pelo Pas-de-Calais – sendo que o plano verdadeiro é o desembarque na Normandia. Farber, fornecido com evidências suficientes para desmascarar a farsa, deve ir de encontro a um submarino que o levará de volta à Alemanha para entregar as evidências em mãos à Hitler. Mas ao tentar chegar ao ponto de encontro, seu pequeno barco naufraga durante uma tempestade e o sujeito acaba em uma ilha quase deserta onde um casal o acolhe.

A primeira parte de O BURACO DA AGULHA é quase uma perseguição ininterrupta, um jogo de gato e rato entre Farber e a Scotland Yard. Serve também para demonstrar a habilidade e a natureza do assassino implacável que é o espião. Vemos o sujeito manipular a todos, aumentar o número de corpos por onde passa e manter-se sempre um passo à frente da polícia, que o rastreia pela Inglaterra após a descoberta das reais coordenadas do desembarque. Sutherland está genial e encontra aqui um de seus melhores personagens, a de um aterrorizante espião nazista cuja toda caracterização construída na primeira parte contribui para torná-la mais dramática na segunda metade do filme.

Sua tentativa de fuga o leva à Ilha de Stirm, onde ele conhece Lucy (Kate Nelligan), uma mulher solitária, casada com um oficial deficiente (por conta de um acidente de carro ocorrido logo depois de se casarem), encarnado por Christopher Cazenove. A coisa esquenta a partir daqui, conforme Farber, o nazista até então insensível e uma autêntica máquina de matar, começa a demonstrar lapsos e falhas ao se apaixonar e se entregar – sem revelar a essência de suas atividades. E Lucy não dificulta em nada a aproximação do visitante.

Kate Nelligan se opõe a imponência de Sutherland com uma presença frágil, mas determinada, o que tornará o embate final dos dois menos desequilibrado do que parece. Nesse ponto, no entanto, o filme fica meio perdido entre construir uma história romântica que acaba não se sustentando muito, mas que pra nossa sorte é regularmente interrompida pelas ações de Faber na sua tentativa de ainda alcançar o submarino, o que inclui mais assassinatos, como a que acontece no topo de um penhasco. Mesmo desequilibrado, o filme nunca se desfaz de sua tensão latente.

Mas O BURACO DA AGULHA retorna nos eixos quando a identidade do espião é revelada e o suspense beira ao Hitchcockiano, com as duas personagens tentando esconder suas descobertas e falsas pretensõe um do outro. E em seguida, desenrola uma caçada humana pela ilha onde os papéis acabam se invertendo. A frágil Lucy endurece sob o peso da ameaça de Farber, que agora apaixonado é incapaz de usar as habilidades assassinas exibidas desde o início do filme. O final é uma sequência tão tensa e violenta (com o direito a Lucy cortando os dedos de Farber com um machado) quanto carregada de emoção.

E é preciso muita sutileza dos atores para conseguir convencer de toda essa carga dramática na situação entre eles. E tanto Sutherland quanto Nelligan dão conta. No elenco, ainda temos um monte de rostos conhecidos do cinema britânico, como David Hayman, Ian Bannen, Rupert Frazer, Stephen MacKenna e outros.

A fotografia de Alan Hume é excelente, tende para as sombras, tons escuros, para imagens sombrias o que deve ter sido uma desgraça nas versões em VHS da época, com as nuances da iluminação se perdendo, preto e cinza se misturando. Hoje já temos transferência de Blu-ray, foi lançado lá fora pela Twilight Time, que é a versão que assisti e a imagem é impecável, com atenção aos detalhes em termos de contraste e paleta, o que contribui demais para a atmosfera, pro thriller bastante sólido que é esse O BURACO DA AGULHA, perfeito para uma noite escura e tempestuosa. Marquand – que tem bom olho para o suspense, para os personagens, dirige tudo de forma segura – e seu roteirista, Stanley Mann, fizeram um trabalho fantástico em capturar a essência do best-seller, enquanto os atores dão vida aos personagens criados por Follett. Recomendo tanto o filme quanto uma leitura no livro.

RUAS SELVAGENS (1984)

O diretor Danny Steinmann é provavelmente mais conhecido por SEXTA-FEIRA 13 – PARTE V: UM NOVO COMEÇO, que acabou sendo seu último trabalho, não fez mais nada desde então. O que é uma pena, porque eu gosto desse capítulo da série SEXTA-FEIRA 13, acho que ele manda bem, é um cara que veio do cinema underground do fim dos anos 60, dirigiu um filme pornô nos anos 70, então é um cara que tem uma certa bagagem pra trabalhar elementos de cinema de exploração, que não é bem o cenário de SF13 – PARTE V, mas é o caso deste seu filme anterior, RUAS SELVAGENS (SAVAGE STREET). Um petardo oitentista, rip-off das continuações de DESEJO DE MATAR marcado pela presença de Linda Blair, a menininha possuída de O EXORCISTA, fazendo uma espécie de Charles Bronson de saia, em busca de vingança pra cima de uma gangue.

Blair vive uma garota durona chamada Brenda. Estudante honesta, que come pão na chapa com café com leite pela manhã e não se deixa intimidar por qualquer otário que mexa com ela, suas amigas, e sua irmã mais nova, Heather, a musa scream queen Linnea Quigley, mas que aqui faz um papel de muda, e Brenda tem o maior cuidado por ela. Numa noite de diversão em uma boate, Brenda e sua turma acabam se metendo em problemas com uma gangue chamada The Scars, composta por quatro sujeitos bizarros que só existem nesse universo para praticar crimes, roubo, estupro e assassinatos, tudo de boa, na molecagem. Apesar de atacarem e violarem mulheres indefesas, eles não parecem ligar muito para definições de sexualidade, e estão constantemente se tocando, beijam na boca entre si, o que torna a gangue, digamos, singular…

Mas ao mesmo tempo, esses caras não estão muito a fim de levar desaforo pra casa. Sobretudo de garotas empoderadas como Brenda. O clima vai esquentando entre eles ao passar dos dias, até que a pobre Heather é pega desavisada no colégio e carregada à força pra dentro do vestiário, onde é brutalmente espancada e estuprada pelos quatro meliantes, numa sequência bem desagradável. Assim que Brenda fica sabendo do ocorrido, decide mostrar aos punks que a vingança é plena sim, mesmo que “mate a alma e a envenene”. Armada com uma besta, vestida com um macacão de couro, Brenda dá uma de Paul Kersey e começa a caçar um a um noite adentro.

Linda Blair está realmente ótima em RUAS SELVAGENS, num papel que foi originalmente planejado para Cherie Currie (a vocalista do The Runaways). De fato ela parece deslocada em alguns momentos, mas isso não a impede de se jogar na personagem mesmo que seja num filme que provavelmente não merecesse tanto esforço assim em primeiro lugar. Estamos naquele terreno cinematográfico que importa mais a quantidade de sangue e peitos na tela do que uma boa demonstração de dramaturgia… Mas ela e Quigley resolveram atuar, o que deixa a coisa mais interessante.

Quigley, em especial, apresenta uma performance corajosa que surpreende bastante. Não apenas na tal cena do estupro, que é realmente forte pelo seu desempenho corporal expressivo, mas ela e Blair compartilham alguns momentos críveis e ternos. Seu relacionamento e sentimento entre irmãs são bem convincentes e ajuda bastante em fazer com que a gente se importe de forma legítima com elas e seus destinos.

Já o elenco masculino, especialmente os The Scars, parece estar se divertindo com suas performances, já que são mais estereótipos exagerados e ameaçadores de gangues dos anos 80, com seus trajes ridículos e diálogos cafonas. E eles têm que funcionar o suficiente para alimentar a fúria de Brenda em sua jornada de vingança e conseguem isso com muita eficiência. Destaque para o grande John Vernon, fazendo o diretor do colégio (e que havia trabalhado com Linda Blair um ano antes em CORRENTES DO INFERNO).

Gealmente, quando eu vejo um filme desse tipo, eu consigo relevar furos de roteiro, atuações péssimas, efeitos especiais toscos, problemas técnicos de várias espécias… Mas uma coisa que não suporto em um exploitation é que ele seja enfadonho. RUAS SELVAGENS está longe de ser um filme chato, mas é preciso dizer que tem seus momentos que convidam o espectador ao sono, deixam a impressão que as coisas demoram demais pra acontecer. Mas quando acontecem, já esquecemos que o ritmo tava fraco e tudo volta a funcionar muito bem. E Steinmann faz um trabalho sólido por trás das câmeras quando chega a hora de lidar com os “bens” do bom e velho cinema de exploração: o estupro, garotas em chuveiros coletivos, brigas de moças rasgando blusas, Linda Blair de topless numa banheira, de forma totalmente gratuita, refletindo sobre a vida, e o final, a caçada noite adentro com Brenda eliminando seus desafetos.

Tá certo que no caminho ela deve ter parado para gravar algumas fitas dela rindo loucamente, porque no armazém de tecidos onde os bandidos se escondem ela coloca gravadores cuidadosamente em vários pontos do local para enganar os meliantes com o som da risada. Não é curioso pensar em Brenda sentada com seu gravador rindo como uma louca por uns bons minutos para gravar tudo isso? Claro, o filme não mostra essa parte – assim como nunca mostram o Batman aplicando seu delineador antes de botar a máscara. Também não mostra Brenda fazendo seu “penteado de vingança”, que é um permanete que deve ter dado um puta trabalho pra fazer antes de sair à caça…

E aí é só alegria, ver Brenda matando sem dó nem piedade, com flechadas e usando armadilhas de urso (!!!) os estupradores de sua irmã funciona lindamente. Porque, vocês sabem, todos nós sentimos a necessidade ou desejo, bem lá no fundo, de dar um murro na cara de alguém quando somos injustiçados. Mesmo que isso nunca vá acontecer na vida real… Pelo menos no meu caso, afinal, sou pacifista. Mas a vontade de socar a cara de alguém é grande de vez em quando, sobretudo bolson… Ops, melhor deixar pra lá. Enfim, filmes como RUAS SELVAGENS exploram nosso anseio e quando a coisa funciona, é preciso elogiar.

Então temos aqui um sucesso. Quero dizer, eu não diria que RUAS SELVAGENS é realmente um bom filme no sentido tradicional, mas certamente para o tipo de cinema que faz é diversão pura, cumpre o que promete. Há um bocado de nudez gratuita, brigas de garotas, gangues de rua fazendo maldades, imagens de uma Los Angeles oitentista cheia de neons, pessoas com roupas e penteados malucos aparecendo na tela, trilha sonora típica do período e Linda Blair numa jornada de vingança praticada com flechadas e armadilhas para ursos. Elementos que compensam o ritmo desequilibrado e fazem disso aqui um pequeno clássico do cinema B exploitation americano.

PUNHOS DE FERRO (1981)

PUNHOS DE FERRO (FIRECRACKER no original, mas também conhecido como NAKED FIST) é uma produção da New World Pictures, de Roger Corman, filmado nas Filipinas, com direção do grande Cirio H. Santiago.

Na trama, uma americana chamada Susanne Carter (Jillian Kesner) chega às Filipinas para procurar sua irmã, uma repórter desaparecida na região. A busca rapidamente a leva ao The Arena, uma espécie de clube noturno com apresentações de artes marciais e, em ocasiões especiais, noites de lutas clandestinas com apostas cheio de figuras amigáveis. E a coisa é violenta mesmo, geralmente terminando com o perdedor pronto para ser levado para o hospital ou direto pro caixão. O local é dirigido por um sujeito chamado Erik (Ken Metcalfe), o tipo de personagem que logo de cara não temos dúvidas de que é o malvado da trama, e foi o último lugar onde a repórter foi vista.

Outro cara mau do filme é a atração principal da Arena, um jovem lutador americano, um bigodudo chamado Chuck (Darby Hinton). Durante suas investigações, Susanne é avisada de que o rapaz é barra-pesada, do crime, do tráfico, das coisas seriamente perigosas e que deve ficar longe dele. Acontece que, por um acaso, Susanne também é especialista em artes marciais e não se intimida. Obviamente, o couro vai comer entre os dois… Em vários sentidos.

Nas buscas por pistas do desaparecimento de sua irmã, Susanne é constantemente atacada por bandidos, pelos mais diversos motivos, e Jillian Kesner aparenta ter sido realmente treinada em algum tipo de arte marcial. Isso fica evidente nas inúmeras cenas de pancadaria que ela aborda com gosto. Seus movimentos parecem convincentes não importa o cenário, roupas que usa – ou não usa – ou a quantidade de adversários, a moça manda muito bem na porrada. E é preciso dizer que PUNHOS DE FERRO não perde muito tempo para nos alegrar no quesito pancadaria. Nos primeiros minutos, há uma luta na Arena em que Chuck empala seu adversário, e Susanne, ainda em sua roupas íntimas, é atacada por dois bandidos em seu quarto de Hotel assim que chega no local.

E a coisa não para. A cada 5 minutos há alguma situação envolvendo pessoas lutando, trocando tiros ou em perseguição. Mas as investigações de Susanne continuam. E aos poucos, quanto mais adentra no universo da Arena, ela acaba cada vez mais atraída por Chuck, mesmo sabendo do envolvimento dele com os possíveis responsáveis pelo desaparecimento da irmã. E, claro, a certa altura já dá pra imaginar que algum coração vai sair machucado, a coisa não vai acabar muito bem…

Apesar da intensidade da ação, para um filme produzido por Roger Corman nos anos 80, não há tanto material de exploração quanto poderia almejar e é preciso esperar um tempinho para ter uma dose maior de violência ou um bocado de pele a mais. Quando chega, no entanto, é sublime e faz valer o tempo esperado. A melhor sequência é a fuga noturna de Susanne de dois tarados que acaba fazendo com que seu vestido seja rasgado, de forma totalmente gratuita, obrigando que ela encare os meliantes e aplique seus golpes só com a “roupa de baixo”. E isso já é legal o suficiente. Mas a coisa melhora ainda mais quando um dos sujeitos pega uma foice bem afiada e se lança pra cima da moça…

Não se preocupem, ela consegue sair ilesa do ataque, mas a lâmina corta exatamente o necessário…

Aparentemente, a ideia inicial não era para que isso acontecesse. Mas Roger Corman sentiu que os atributos da protagonista não estavam o suficiente “explorados” quando ele viu o primeiro corte do filme. Então, contratou o diretor Allan Holzman (que viria a fazer filmes futuros para Corman) para adicionar um par de novas cenas que obrigou Kesner a se despir. A primeira, foi esta aqui.

A princípio era apenas para que ela lutasse de calcinha e sutiã, mas um acidente legítimo na hora das filmagens realmente fez a atriz perder o bojo e a convenceram de continuar filmando assim mesmo… É desses momentos mágicos do cinema de exploração. O que se segue a partir disso é uma mulher de topless descendo o cacete num macho escroto. Isso que é empoderamento! E se vai mostrar seios num filme, dá muito bem pra fazê-lo com um certo estilo. É só tomar essa sequência de PUNHOS DE FERRO como exemplo. Aqui temos estilo de sobra.

A outra sequência que foi filmada por Holzman é o sexo bizarro cujas preliminares Susanne tem suas roupas removidas por Chuck, muito lentamente, com um par de facas bem afiadas. Sabe-se que Kesner não ficou lá muito satisfeita com a ideia de adicionar novas cenas apenas para tê-la nua na tela, mas aceitou fazer de boa… A única coisa que a irritava mesmo era a impressão de que sempre parecia haver mais homens no set durante essas filmagens do que o habitual.

Mas é exatamente nesta cena de sexo que Kesner finalmente atua, atua de verdade, com expressão. Ela transmite bem o estado emocional de Susanne de forma bastante eficaz. A cena possui uma carga de tensão a mais, dada uma certa informação que é conhecida pelo espectador, mas não por Susanne ainda, a de que Chuck é, na verdade, o assassino de sua irmã, o que torna o sexo entre eles um ato bem perverso.

E para quem não sabe, Kesner era esposa do grande Gary Graver, diretor de inúmeros filmes que passavam na famigerada sessão de filmes da Band, o Cine Privé, e que foi parceiro e diretor de fotografia de Orson Welles em seus últimos anos. Tanto Graver quanto Kesner dedicaram boa parte da vida preservando materiais e o legado de Welles – o que inclui THE OTHER SIDE OF THE WIND, filme póstumo do diretor de CIDADÃO KANE que só viu a luz do dia mais de trinta anos depois de sua morte. Mas a própria Kesner não pôde ver isso acontecer, já que faleceu em 2007.

Sobre outros membros do elenco, não há muito o que destacar. Darbin Hinton até funciona bem como vilão apaixonado, mas é aquele tipo canastrão que a gente elogia mais pelo ridículo do que pelo talento. No geral as atuações são simplesmente horríveis. Só que estamos diante de um exploitation, então quem diabos se importa com a performances? O importante pra filmes dessa espécie é não ser chato. E o ritmo por aqui é ótimo, há uma abundância de ação, Cirio H. Santiago filma bem, aproveita as locações urbanas e campestres das regiões filipinas, e o filme ainda tem um pouco de nudez, sexo e perversidade para apimentar a coisa.

Inclusive, a relaçao que é estabelecida entre Susanne e Chuck torna o clímax, a luta final entre os dois, ainda mais intenso e cheio de nuances. Chuck claramente poderia matar Susanne com as próprias mãos, mas entra em conflito por estar enamorado, enquanto a moça só tem desejo de vingança no coração. O desfecho é dos mais violentos possíveis. E há ainda o envolvimento da polícia e de alguns personagens secundários, amigos que Susanne faz pelo caminho, todos juntos tentando descobrir o paradeiro da irmã desaparecida e desbaratar o esquema das drogas que rola com a turma do vilão, Erik. O que acrescenta ainda mais um dose de pancadaria e ação. Sobretudo por conta da participação de um sujeito que é um clone do Bruce Lee e que possui alguns dos melhores movimentos nas sequências de luta.

PUNHO DE FERRO não é o tipo de filme que vai ganhar um prêmio de valor artístico ou vai entregar alguma reflexão sobre a condição humana, mas no quesito entretenimento e pancadaria de qualidade (bom, pelo menos para o nível da produção) pode apostar que não há do que reclamar. Altamente recomendado.

A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN (1957)

A Hammer Films já existia há um bom tempo e tinha obtido um sucesso considerável com algumas produções, sobretudo com o excelente THE QUATERMASS XPERIMENT em 1955. Mas foi A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN (The Curse of Frankenstein), em 1957, que realmente colocou a produtora no mapa e, no processo, lançou uma onda de filmes de monstros clássicos, do terror gótico, como franquias bem lucrativas.

O próprio diretor da bagaça, Terence Fisher, já havia dirigido muitos filmes para Hammer, incluindo exemplares de ficção científica e alguns da safra de film noir britânico que a produtora fazia aos montes na sua primeira fase. Foi uma escolha óbvia para assumir este projeto aqui, o mais ambicioso da Hammer até aquele momento, o sujeito demonstrava um talendo superior a todos os demais diretores da produtora. E para dar o pontapé inicial, a Hammer decidiu trabalhar com um dos mais famosos monstros da literatura e que também já tinha virado ícone do horror pela Universal nos anos 30. Só que agora seria em cores, widescreen e com um teor a mais de sexo e violência. Foram decisões acertadas, assim como colocar Peter Cushing e Christopher Lee como as figuras centrais da parada.

Mas o roteiro de Jimmy Sangster para A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN não se apega muito ao romance de Mary Shelley, muito menos à versão de 1931 da Universal – até porque a produtora americana estava ameaçando processar os ingleses da Hammer se qualquer elemento ou detalhe de seus filmes fosse copiado… Melhor assim. Sangster acabou escrevendo algo “original” e um dos motivos de sucesso do filme foi justamente o fato de que parecia uma abordagem completamente nova do mito de Frankenstein e sua criatura.

Nesta versão, o assistente do Barão Frankenstein (Cushing) é seu tutor, Paul Krempe (Robert Urquhart), que se tornou colaborador. Até que os experimentos de Frankenstein começam a se tornar mais radicais e seus métodos moralmente duvidosos. Paul se mantém no local apenas porque tem medo de deixar a bela prima – e noiva pretendida – de Frankenstein, Elizabeth (Hazel Court), sozinha em casa com o Barão cada vez mais obsessivo. Paul tenta persuadir Frankenstein do perigo representado por seu experimento, a criação de um indivíduo artificial composto de várias partes de vários corpos, mas os esforços de Paul para impedir o Barão resultam em danos ao cérebro que fora reservado para a criatura. Isso não só tem consequências desastrosas para o monstro, mas também empurra Frankenstein ainda mais à beira da loucura.

O que há de mais revolucionário nesta versão é a atuação de Peter Cushing como Frankenstein. O livro de Mary Shelley e a maioria das adaptações cinematográficas levantam a questão de quem é o verdadeiro monstro, Frankenstein ou a criatura, mas nesta versão não há nenhuma dúvida. O foco é todo no barão Frankenstein em vez de sua criação. Aqui, Cushing é quem brilha, tem um de seus melhores momentos – é o vilão que você ama e odeia. É quem o público vê assassinando e provocando o caos, uma máquina diabólica, desmembrando cadáveres e utilizando partes de corpos, é o “cientista maluco” clássico, com seu cinismo latente e sua moralidade jogada às favas em prol da ciência. O tipo de sujeito que senta perto do fogo e bebe um bom vinho tinto depois de ter empurrado um velho para a morte só para utilizar seu cérebro; ou, depois de um passeio noturno ao agente funerário, orgulhosamente exibe à Paul um novo par de olhos ou mãos decepadas para usar nos experimentos. E ele não é um cientista idealista que sucumbe gradualmente à tentação de brincar de Deus, nem é um homem bem-intencionado, que lentamente perde sua bússola moral conforme seus experimentos fogem do controle. Com o Frankenstein de Cushing, fica claro que as sementes da loucura e do mal estavam lá desde o início. Desde o início de sua carreira científica, ele estava preparado para perseguir fins e utilizar meios que não eram apenas moralmente duvidosos – eram clara e inequivocamente imorais.

Nisso, Christopher Lee acaba ficando meio que relegado ao segundo plano. Boris Karloff, em 1931, havia dotado a criatura com uma certa dignidade e até bastante simpatia. Por aqui, a criatura de Christopher Lee é um reflexo hediondo do vácuo moral na alma de seu criador. Mas todas as suas poucas cenas, com aquela maquiagem grotesca (imagem acima), são geniais. São momentos pelos quais o filme ganha uma força seminal, mostra um novo tipo de horror surgindo na tela, cheio de vigor e cores contrastantes. A primeira meia hora de A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN pode até ser um pouco lenta, mas depois disso o ritmo acelera e Terence Fisher demonstra porque foi um dos grandes mestres do horror. Alguns de seus filmes anteriores são bons, mas está claro que o terror gótico era o gênero perfeito para seus talentos.

A amizade de Lee e Cushing também deu-se início por aqui, quando Lee invadiu o camarim de Cushing, reclamando que seu personagem não tinha falas… Cushing gentilmente respondeu: “Você tem sorte. Eu li o roteiro“. Mas A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN é realmente ótimo, não é meu filme favorito da “franquia” de Frankenstein da Hammer, mas sem dúvida alguma foi um começo de um ciclo que impressiona a cada revisão.

ABBOTT E COSTELLO CONTRA FRANKENSTEIN (1948)

Em 1948, os filmes de terror da Universal estavam saindo de moda e, depois de reunir seus monstros de várias maneiras em filmes como A CASA DE FRANKENSTEIN ou A CASA DO DRÁCULA, o estúdio decidiu injetar um pouco de energia na série colocando sua dupla de comediantes Abbott e Costello para interagir com os montros em ABBOTT E COSTELLO CONTRA FRANKENSTEIN (Abbott and Costello Meets Frankentein). O resultado até que acabou sendo um grande sucesso. A dupla de comediantes repetiram a fórmula em filmes subsequentes, encontrando outros personagens do universo do horror, como o Homem Invisível ou a Múmia, embora para esses monstros, estas seriam as últimas vezes que apareciam em suas encarnações clássicas. Mas apesar de serem filmes de comédias, não deixou de ser uma despedida em grande estilo…

Chick (Bud Abbott) e Wilbur (Lou Costello) são carregadores de estações ferroviárias na Flórida que um dia recebem uma ligação de Londres. É Larry Talbot (Lon Chaney Jr) – quem está familiarizado com o horror da universal sabe que se trata também do Lobisomem – que implora para que eles não entreguem num museu local algumas caixas grandes que receberam. Quando Talbot está prestes a explicar os motivos, acaba vendo a lua cheia e… Bom, já é tarde demais. Wilbur desliga, e naquela noite a dupla entrega as caixas de qualquer maneira, conforme ordenado pelo proprietário, que afirma que elas contêm os corpos do Conde Drácula (Bela Lugosi) e do Monstro de Frankenstein (Glenn Strange)…

O que segue a partir daí é uma série de esquetes divertidas. O Drácula ameaçador de Lugosi tem planos para colocar o cérebro de Wilbur dentro da cabeça do Monstro de Frankenstein, o que leva a uma noite de caos e muita correria. As piadas são boas, tanto visuais quanto verbais, o segredo era manter os Monstros sempre assustadores e os dois personagens centrais sempre assustados. Na maior parte do tempo, temos Wilbur apavorado com as figuras se aproximando dele, ele chamando “Chick!” e os vilões recuando e desaparecendo antes que Chick os avistasse. É a luta eterna entre os crédulos e os céticos, com o pobre Chick nunca acreditando nos acontecimentos sobrenaturais porque nunca os vê acontecendo, enquanto Wilbur, é claro, se borrando de medo por ver os monstros toda hora.

É um tipo de humor até bastante repetitivo, algo de cartunesco, mas as reações exageradas da dupla são ideais para esse tipo de comédia misturada com o horror, especialmente quando temos os atores desempenhando seus papéis de monstros ao máximo, especialmente Lugosi, que repete aqui pela última vez o personagem que o imortalizou.

QUATRO FILMES DA SHAW BROS.

TEMPLO DA LOTUS VERMELHA
(Temple of the Red Lotus, 1965)
dir: Hung Hsu Teng

Sinopse: Jimmy Wang Yu interpreta um jovem espadachim que parte numa jornada de vingança, procurando os assassinos de seus pais, e também em busca de uma amiga de infância que foi prometida como sua noiva. Quando ele chega no local, descobre que a família da noiva pode ser um bando de bandidos e começa a investigar a história por trás da rivalidade que eles têm com os monges no Templo da Lótus Vermelha.

Primeiro filme wuxia em cores da Shaw Brothers, meio que inaugura uma era de ouro do cinema de kung fu da produtora, o que por essas razões históricas já seria recomendável pra quem realmente tem interesse a entrar de cabeça nesse cinema e perceber sua evolução.

Porque de resto TEMPLO DA LOTUS VERMELHA não é grandes coisas. O drama é fraco e pesado, tem pouca ação (e quando acontece é rápida, sem muita criatividade, acho que a coisa ainda viria a melhorar nos anos seguintes nesse departamento), a jornada do herói, vivido por Jimmy Wang Yu, soa um bocado enfadonha, sem graça – a longa sequência que ele tem que fugir do castelo com sua companheira, enfrentando irmã, tia, mãe e avó da moça, uma de cada vez, é bem ridícula e me fez soltar altos bocejos…

Mas não deixa de ser legal ver alguns rostos que viriam a fazer sucesso pela Shaw na década seguinte, como Lo Lieh e Tien Feng. Nos créditos ainda aparecem nomes como Liu Chia-Liang e Yuen Woo Ping.

O filme faz parte de uma trilogia, formada por ainda por AS ESPADAS GÊMEAS (65) e A ESPADA E O ALAÚDE (67) que em algum momento vou acabar assistindo. Todos dirigidos por Hung Hsu Teng, mas confesso que depois deste aqui fiquei com preguiça.

THE OATH OF DEATH (1971)
dir: Pao Hsueh-Li

Sinopse: Três heróis tornam-se irmãos de sangue para lutar contra a tirania dos invasores tártaros. Um deles decide se infiltrar entre os inimigos e acaba ganhando uma posição de destaque. Não demora muito, fica evidente que o sujeito gostou da posição de poder e está disposta a sacrificar qualquer coisa e qualquer pessoa para mantê-la, incluindo seus irmãos de sangue.

Um dos filmes mais curiosos que vi da Shaw Bros. Um exemplar de espadachim que se alterna entre uma trama melodramática levada muito a sério e um filme excêntrico de artes marciais, bem puxado para o exploitation, mostrando muito sangue e selvageria, mas também um bocado de sexo e nudez fornecida por Ling Ling uma das estrelas residentes da Shaw.

Pao Hsueh-Li pode até não ser um Chang Cheh – as lutas são filmadas muito de perto, editadas com desleixo em alguns momentos, sem muita preocupação com a coreografia – mas ele se dedica tanto a transformar essas sequências num banho de sangue que fica difícil não elogiar os esforços. E os contextos que as batalhas ocorrem, mais a variedade de armas utilizadas deixa tudo ainda mais divertido. Os trinta segundos finais, um duelo onde um dos personagens centrais tem uma perna decepada por um chicote (!!!) e continua lutando para enfiar o braço no peito adentro de seu adversário é um dos momentos mais insanos que já vi num filme da Shaw… Só não esperem uma abundância de lutas durante o filme, a parte dramática realmente toma um tempo grande de projeção, com situações do tipo “amigo roubando mulher de amigo” e etc… Mas se você entrar na história e chegar inteiro até os minutos finais, não vai se decepcionar.

No elenco, temos Lo Lieh fazendo papel de herói desta vez e o grande Tien Feng. Mas vale reparar na pequena participação de Bolo Yeung como um dos soldados malvados.

THE MAGIC BLADE (1976)
Dir: Chor Yuen

Sinopse: Dois espadachins rivais unem forças para evitar que uma lendária arma mortal, chamada Peacock Dart, caia nas mãos do mestre das artes marciais, Sr. Yu, e de seu malvado submundo do crime.

Esse aqui é daqueles filmes que beira a perfeição. Ti Lung com sua espada giratória é o fodão dos fodões. É o Clint Eastwood do Wuxia, numa jornada de sangue, honra, contra os ardis de uma sociedade secreta, na busca em trazer justiça ao mundo, sem qualquer recompensa de volta. É também uma jornada cheia de MacGuffin’s que o roteiro, um fiapo de história, faz brotar do nada só para fazer a ação continuar surgindo na tela. No caso, a busca pelo tal Peacock Dart, que não pode de jeito nenhum cair nas mãos do velho mestre das artes marciais que comanda uma sociedade de assassinos.

Estamos diante de um filme de espadachim da melhor qualidade possível. E a ação é maravilhosa, tem aos montes, a criatividade do diretor Chor Yuen parece não ter fim na elabroação dessas cenas e na relação que a ação estabelece com os espaços, os mais variados cenários, ambientes e locações, num belo trabalho de manipulação cênica. A sequência final é daquelas que parecem capazes de reproduzir o equilíbrio cósmico do universo!

Lo Lieh, e Lily Li estão no elenco, além de outras figuras… Enfim, pra quem entra na vibe de ver filmes de artes marciais da Shaw Bros. um atrás do outro, como eu tô fazendo neste início de ano, tudo o que pedimos é mais filmes como THE MAGIC BLADE, uma dessas experências raras de imaginação sublime e um senso de aventura fabuloso que já de cara se tornou um dos meus favoritos da Shaw.

EXECUTIONERS FROM SHAOLIN (1977)
Dir: Liu Chia-Liang

Sinopse: Chen Kuan Tai é o protagonista aqui, liderando os sobreviventes do massacre no Templo de Shaolin pelas mãos do sacerdote Pai Mei, encarnado pelo Lo Lieh. O grupo se disfarça numa trupe de artistas de ópera e entre suas viagens, Hung conhece Yung Chun (Lily Li). Os dois se casam e têm um filho, mas Hung acaba sendo morto depois de tentar se vingar do massacre no Templo encarando Pai Mei duas vezes ao longo dos anos. O filho deles, Wen Ding (Wong Yu), une então o kung-fu do Tigre de seu pai com o kung-fu da garça da mãe para enfrentar Pai Mei, que teve seu ponto fraco descoberto por Hung.

Como qualquer filme dirigido pelo grande Liu Chia-Liang, a pancadaria rola pra todo canto. Já começa com uma participação de Gordon Liu, que enfrenta uma vários soldados manchu para dar cobertura para o grupo de Hung. Mesmo cravado de flechas o sujeito dá trabalho. É curioso como tudo por aqui possui um controle sobrenatural das artes marciais: política, religião, família e até o sexo. Logo depois de se casarem, Chen Kuan Tai tem que se esforçar para abrir as pernas de Lily Li… E isso não é numa alegoria, ela literalmente usa técnicas de artes marcias para manter as pernas fechadas e só vai liberar se o marido conseguir “destravar” a moça! haha!

Um dos grandes destaques do filme é Pai Mei, um dos vilões mais desgraçados que Lo Lieh já viveu, com seu ponto fraco que possui relação temporal e muda de lugar no seu corpo à medida em que relógio avança. O cara é quase indestrutível… E ainda tem um lance bizarro dele esconder os testículos contraindo a barriga e prendendo o pé dos adversários entre as pernas! Sensacional! E sim, muita gente vai se lembrar de Pai Mei como o personagem que Quentin Tarantino colocou em Kill Bill para treinar Beatrix Kiddo. Mas quem já tá mais familiarizado com o cinema de kung fu sabe que o personagem existe faz teeempo…

Exibido nos cinemas nacionais como OS CARRASCOS DE SHAOLIN.

FAVORITOS DE 2020

Chegou aquele momento tradicional do blog, um TOP 20 com os filmes que pessoalmente e por diversos aspectos mais me agradaram durante o ano que passou. Confesso que não foi muito fácil compor a lista, foi um ano estranho para lançamentos e vocês sabem que não sou nenhum devorador de filmes recentes e procuro ver apenas o que julgo essencial. Mas fiquei bem satisfeito com os vinte filmes que elegi como meus favoritos do ano. O critério principal foram as produções recentes conferidas no ano de 2020, mas com margem de até um ano. Ou seja, filmes de 2019 que acabei conferindo só em 2020 estão elegíveis.

Vamos à lista:

20. JIU JITSU (2020), de Dimitri Logothetis

19. RESGATE (Extraction, 2020), de Sam Hargrave

18. LET HIM GO (2020), de Thomas Bezucha

17. BRONX (2020), de Olivier Marchal

16. FIRST LOVE (2019), de Takashi Miike

15. COME TO DADDY (2019), de Ant Timpson

14. DEPRAVED (2019), de Larry Fessenden

13. THE DEBT COLLECTORS (2020), de Jesse V. Johnson

12. CAPONE (2020), de Josh Trank

11. O OFICIAL E O ESPIÃO (J’Accuse, 2019), de Roman Polanski

10. SERTÂNIA (2019), de Geraldo Sarno

09. ALONE (2020), de John Hyams

08. POSSESSOR (2020), de Brandon Cronenberg

07. SIBERIA (2020), de Abel Ferrara

06. TOMMASO (2019), de Abel Ferrara

05. A COR QUE CAIU DO ESPAÇO (The Color Out of Space, 2019), de Richard Stanley

04. O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO (2019), de Kiyoshi Kurosawa

03. RICHARD JEWELL (2019), de Clint Eastwood

02. CHASING DREAM (2019), de Johnnie To

01. DA 5 BLOODS (2020), de SPIKE LEE

O SILÊNCIO DO LAGO (1988)

O SILÊNCIO DO LAGO (Vanishing, no título em inglês, ou Spoorloos, no original em holandês) é um bom ponto de partida para conhecer a obra do diretor George Sluizer. Não que ele seja um diretor essencial para se conhecer, mas vai que alguém se interesse… No entanto, O SILÊNCIO DO LAGO, esse sim, vale a pena. É seu filme mais famoso e fez um baita sucesso internacional no período, ganhou status cult e chegou a ter um remake americano em 1993, dirigido pelo próprio Sluizer e que ainda não vi, mas aparentemente não conseguiu o mesmo resultado (cometeu o velho pecado de mudar o final original para um mais otimista…).

O filme é uma divagação sobre considerar a vida cotidiana salva e segura até que seja alterada por uma desgraça em um único instante. Saskia (Johanna der Steege) não esperava encontrar Raymond Lemorne (interpretado pelo falecido Bernard-Pierre Donnadieu) em um ponto de parada de uma rodovia lotado de viajantes. Ela não esperava encontrar um homem que se descobriu psicopata ainda jovem e passou anos ensaiando o momento em que sequestraria uma mulher aleatória. Lemorne exibe o verdadeiro mal, mas consegue esconder sob a pele de respeitável empregado de classe média, casado com uma esposa devotada e duas filhas. Depois de várias tentativas fracassadas, o sujeito consegue drogar e sequestrar uma mulher – que por acaso é Saskia. O que ele planeja fazer com sua vítima após o sequestro é um segredo sabiamente mantido do público até os momentos finais do filme.

O namorado de Saskia, Rex (Gene Bervoets), é um pouco ingênuo no início, mas quando Saskia simplesmente desaparece debaixo do nariz de dezenas de pessoas, dá-se início ao seu processo de transformação. O SILÊNCIO DO LAGO também é sobre violência inesperada e aleatória que pode acontecer em qualquer lugar – até mesmo em uma loja de conveniência visivelmente “segura” em um posto de gasolina lotado de famílias no meio do dia. É assustador. E a forma como Sluizer conduz tudo isso é algo belo, de alto calibre, desde a tensão inicial da sequência do túnel, passando pelo jogo de gato e rato entre Rex e Lemorne, até o aterrorizante final – quando Rex faz uma aposta arriscada para descobrir o que realmente aconteceu com Saskia.

Stanley Kubrick chamou O SILÊNCIO DO LAGO de o filme mais assustador que ele já tinha visto e procurou Sluizer para discutir como ele editou o filme. O que faz bastante sentido, já que o suspense é todo construído sobre a necessidade de saber o que realmente aconteceu com a moça sequestrada. O que deve ter causado um bocado em Kubrick, um homem que claramente tinha uma curiosidade voraz. E assim como seu sequestrador, O SILÊNCIO DO LAGO é cuidadoso com suas revelações, aumentando a tensão em um ritmo desconfortável e lento, mas deveras perturbador. Sluizer usa essa curiosidade do público como uma arma à seu favor, criando um vínculo simpático com Rex e uma fascinação obsessiva por Lemorne. E a conclusão é sem dúvida um dos finais mais enervantes do cinema de horror dos anos 80.

VIGILANTE FORCE (1976)

VIGILANTE FORCE é um desses petardos que só poderia ter saído nos anos 70 ou primeira metade dos anos 80, com a ressaca de tudo que rolou nos EUA durante esse período. Produzido por Gene Corman (irmão do grande Roger Corman), foi, no entanto, o pau pra toda obra da Corman Factory, George Armitage, que esteve na origem do projeto, tendo escrito o roteiro e dirigido. Ok, um “pau pra toda obra” não muito prolífico como diretor se olhamos para a carreira de Armitage de mais de quarenta anos e só sete filmes dirigidos, mas que merece o “apelido”. Sujeito trabalhou como ator, escreveu diversos roteiros, dirigiu e frequentemente era produtor de seus próprios filmes, dando uma bela contribuição ao B Movie americano.

E um bom exemplo de sua filmografia é VIGILANTE FORCE. O cenário é Elk Hills, uma pequena cidade na Califórnia que passa por um período problemático, com um alto índice de criminalidade pelas ruas somado aos fins de semana celebrados com badernas e cadeiras voando nos bares locais. Povoado de trabalhadores de uma petroleira, sabe? Moçada com sede tanto de cerveja quanto de sangue e violência. A cidade tem se tornado um local pouco atrativo para quem almeja um bocado de paz. E Ben Arnold (Jan-Michael Vincent) só gostaria de desfrutar da vida com seus negócios, sua namorada, cuidar da filha… Mas constantemente se depara com tiroteios à céu aberto. Homens que não hesitam em sacar suas armas para assaltar e atirar nos policiais locais que intervêm. Em suma, a lei e a ordem foi banalizada e a força policial não tem a mínima capacidade para encarar a bandidagem.

A única solução parece ser encontrar reforço. E Ben joga ao grupo de conselheiros da cidade (formada pelo prefeito, o xerife, o dono do banco, etc) uma ideia que pode ser a solução ideal: pedir ajuda ao seu irmão, Aaron Arnold (Kris Kristofferson), que voltou recentemente do Vietnã e tem trabalhado como segurança numa cidadezinha a alguns quilômetros de distância. Aparentemente, a coisa tende a funcionar. Aaron é um cara durão, badass, que saberia lidar com a situação que a cidade se encontra. Além disso, ele contrata seus velhos companheiros veteranos do Vietnã e não demora muito esse bando está usando uniforme e agindo pelas ruas da cidade. E em um local como este, onde andar por aí com um rifle parece tão comum quanto levar seus filhos para passear, esses “mercenários” se passando por homens da lei acabam dando conta do recado.

Até que a vaca vai pro brejo…

Aaron e seus comparsas cruzam certos limites e começam a usar seus uniformes para assassinar desafetos, ganhar dinheiro de forma ilícita e se tornar os reis do crime local. O que provoca um conflito entre irmãos difícil de resolver… E um embate de Kris Kristofferson vs Jan-Michael Vincent é só o que precisamos pra ser feliz num filme B de ação setentista.

George Armitage não parece muito determinado em acertar o tom do filme, mas há algo tão sincero nessa tentativa de ir além de um simples filme de ação que, mesmo mantendo uma cara de B Movie, cinema grindhouse, com momentos dignos de um exploitation americano – como a sequência da briga de galo, por exemplo, e tudo que se desenrola ali – VIGILANTE FORCE consegue também trabalhar alguns temas bem interessantes. É um drama policial de ação com tudo o que temos direito, desde tiroteios, brigas, perseguições e explosões – o final lembra as sandices exageradas de um DESEJO DE MATAR III, que é algo maravilhoso, com excepcional trabalho de dublês – mas ao mesmo tempo trata-se de um conto amargo sobre poder, que lança um olhar sobre uma era pós-Watergate e Guerra do Vietnã, da reabilitação de veteranos que adquirem, no meio de uma guerra, outros valores sob o jugo da bandeira americana. Uma América cujos valores são tão deturpados que chega a ser difícil confiar em alguém. Até mesmo num irmão.

E nesse desencontro de tons, VIGILANTE FORCE chega num equilibrio esquisito, mas bem bacana, entre ser esse crime movie exploitation e uma obra de teor social. O resultado é estranhíssimo, com um ritmo bizarro, mas cheio de boas sacadas e reflexões em meio à situações de exploração. Além de contar com as belas atuações de Kristofferson – que tá assustador – e Jan-Michael Vincent, que deixa o filme ainda mais divertido. Destaque também para as personagens femininas de Victoria Principal e Bernadette Peters. E não deixem de notar a pequena participação do grande Dick Miller como pianista de um bar.

PLANETA DOS MACACOS (2001)

Recentemente, antes de ficar quase dois meses sem postar nada por aqui (esses últimos meses de 2020 estão fodas), me aventurei a peregrinar a série de filmes PLANETA DOS MACACOS. Escrevi sobre os cinco filmes clássicos, mas fiquei devendo os mais recentes que foram surgindo ao longo das décadas… Nos últimos anos até apareceu uma nova trilogia, cujo último filme eu nem cheguei a ver. Mas dessas refilmagens/reimaginações/continuações, o que eu realmente aprecio, apesar da fama ruim que possui, é o PLANETA DOS MACACOS de 2001, dirigido pelo Tim Burton.

A história não é exatamente igual a do original de 1968. Tim Burton chamou de “reimaginação” da mesma história (lembrando que o original é baseado no romance La Planète des Singes, de Pierre Boulle). Neste PLANETA DOS MACACOS também temos um astronauta americano caindo num estranho planeta onde humanos são a sub-espécie escravizada por uma população de macacos tiranos e militarizados. A nave de Leo Davidson (Mark Wahlberg) cai no planeta depois de sair de uma tempestade magnética durante uma busca mal sucedida a um simpático chimpanzé utilizado como cobaia em missão de reconhecimento. Com a sua experiência “avançada”, Davidson será o líder de uma revolução contra os símios, tendo como aliados um grupo de humanos primitivos, mas que já falam um bom e velho inglês para se comunicar, diferente dos humanos dos primeiros filmes originais. Há também dois macacos “progressistas” na luta pela igualdade entre as espécies. Um deles interpretado pelo grande Cary-Hiroyuki Tagawa, o Yoshida, vilão de MASSACRE NO BAIRRO JAPONÊS.

O elenco, aliás, é um dos principais destaques do filme: Helena Bonham Carter, Paul Giamatti, Michael Clarke Duncan, Kris Kristofferson, até Charlton Heston, o astro do filme original, aparece. Desta vez maquiado de macaco. Quem rouba a atenção de todos, no entanto, é Tim Roth como General Thade, um chimpanzé militar sádico, comandante do exército que quer ter controle sobre a civilização dos macacos, numa atuação entre o exagero e a expressividade aterradora que eu curto bastante.

Wahlberg é tecnicamente o protagonista de PLANETA DOS MACACOS, mas além desse baita elenco povoando o filme, as verdadeiras estrelas aqui são as maravilhosas criações de Rick Baker, um dos maiores maquiadores de Hollywood. E até hoje, passados praticamente vinte anos do lançamento, o resultado por aqui ainda é de impressionar. Ao contrário do original, os movimentos dos personagens macacos, seus maneirismos e até expressões faciais são muito mais parecidos com os de símios reais. Lembro que foi bastante divulgado na época que o treinamento corporal dos atores para recriarem os movimentos de macacos foi um trabalho árduo. Mas o resultado na tela chama a atenção. Especialmente porque Burton se preocupa bastante em explorar detalhes cotidianos dos símios, que é uma das melhores coisas do filme.

Uma coisa que PLANETA DOS MACACOS de 1968 conseguiu, além de marcar toda uma época e dar início a uma franquia lucrativa com mais quatro filmes e duas séries de TV, foi de trazer à tona idéias pertinentes sobre o estado das coisas daquela época (ameaça nuclear, política, racismo). Visto por esse lado, essa versão de Tim Burton até tenta lançar um olhar sobre algumas destas questões, em especial sobre igualdades e o militarismo da era Bush, ou seja sobre a estupidez do militarismo; e nesse sentido, PLANETA DOS MACACOS não deixa de ser um filme político. Mas ao mesmo tempo não me parece muito interessado em se aprofundar em nada disso. Acaba se saindo mais como um divertido filme de ação/sci-fi, extremamente bem feito e com Burton dirigindo com consciência da responsabilidade que tem em mãos.

Quero dizer, o sujeito era um dos diretores mais interessantes de Hollywood na época e fica evidente do início ao fim a pressão que colocaram pra cima dele com essa “reimaginação”. Na própria mecânica do filme, na sua incapacidade de ousar, percebe-se que Burton não teve muito espaço para imprimir traço reconhecível do seu estilo, buscando respeitar o material original e não ferir os sentimentos das fanzocas da saga. PLANETA DOS MACACOS poderia ter sido dirigido por qualquer diretor competente do período que o produto final não seria muito diferente. Não tô dizendo que o filme é totalmente genérico, a mão do diretor para o tipo de aventura que ele cria aqui até carrega um bocado de sua assinatura, mas acredito que está bem longe do autorismo do sujeito que apropriou-se do universo de Batman e deu-lhe toda uma identidade pessoal. Esse Tim Burton, e o de ED WOOD, EDWARD MÃOS DE TESOURA, MARTE ATACA, A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA, é que não parece estar aqui.

Sinto um pouco disso no quesito “ação”, que resume-se basicamente a um corre-corre que não chega a empolgar muito. A batalha final e todo o ato que se desenrola a partir dali já desperta maior interesse… Chega a lembrar o Burton de antes. Mas, tirando esses detalhes de autorismo, o trabalho de Burton como artesão de estúdio é impecável, feito na medida para respeitar o filme de 68. Mas fico imaginando o que um Paul Verhoeven faria com esse material. Com certeza ia rolar uma “aproximação” mais íntima entre Wahlberg e a Bonham Carter de macaca que ia arregalar uns olhos. Seria genial. Por aqui, só um flerte distante, o máximo que Burton conseguiu…

De qualquer forma, é uma pena que boa parte do público não tenha curtido essa versão. É um filme divertido, mas que a rapaziada não embarcou, em especial pelo desfecho surpresa, que é tão bom quanto o do original (sem o mesmo impacto, claro). Lembro que me surpreendeu muito na época e me deu esperanças de que tivessem continuações a partir dalí, mesmo dirigidas pelo Burton… Frustrante que nunca tenha rolado. Esse PLANETA DOS MACACOS acabou sendo seu último grande filme na minha opinião. Sei que nem todo mundo pensa assim, mas a partir daqui foi só ladeira abaixo. Não consigo gostar de quase nada que ele dirigiu depois, e o que gosto é com certa distância, com ressalvas (SWEENEY TODD, O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES e SOMBRAS DA NOITE). Já vi e revi vários e não me descem.

Mas PLANETA DOS MACACOS valeu a pena. Valeu na tela grande, na época do lançamento, pelas maquiagens, efeitos especiais, o elenco fantasiado de macacos e um senso de aventura bem legal, e valeu a pena rever agora pela primeira vez depois de tantos anos.

SEAN CONNERY

Sean Connery talvez tenha sido o primeiro ator “sério” que eu comecei a acompanhar melhor quando era moleque… Lembro que eu tinha uns 7, 8 anos quando vi O NOME DA ROSA, típico filme que eu não daria a mínima na época, mas quis ver porque era com ele.

E pode ter influenciado o fato de ser o primeiro Bond e eu ter visto coisas como OS INTOCÁVEIS, INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA e HIGHLANDER ainda muito cedo… O cara ainda fez o melhor filme de ação da carreira do Nicolas Cage. E dezenas e mais dezenas de papéis icônicos e que formaram a base da minha cinefilia.

Gênio demais. Que descanse.

CINE POEIRA S02E01: MATADOR DE ALGUEL (1989)

Estamos oficialmente de volta para a segunda temporada lá no CINE POEIRA! Depois de uma breve pausa, eu, Luiz Campos e o Osvaldo Neto retornamos às atividades para alegrar o coração do fiel ouvinte e amantes de cinema de gênero, de cinema badass, de chute na cara, tiro, porrada e bomba e uns filmes de horror e sci-fi de vez em quando.

E pra coroar este retorno, conversamos sobre um clássico definitivo entre os formadores de caráter: MATADOR DE ALUGUEL, vulgo ROAD HOUSE (1989), dirigido por Rowdy Herrington, um filme que nos ensina a viver. Pancadaria em bares, música boa, camaradagem, a dor não machuca, e o leão-de-chácara PHD em Filosofia mais badass da história do cinema, imortalizado por Patrick Swayze. Ainda no elenco, Kelly Lynch, Sam Elliot, Ben Gazzara e muito outros.

Escute agora mesmo este primeiro episódio da segunda temporada do CINE POEIRA aqui mesmo no blog:

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SEXTA-FEIRA 13 (1980)

Mês de outubro, clima de Halloween, etc, aproveitei para revisitar SEXTA-FEIRA 13, o clássico slasher que tá completando 40 anos em 2020. Já fazia umas duas décadas que não assistia, mas guardava boas lembranças. Então fiquei feliz de ter essa impressão confirmada agora. Não acho nenhuma obra-prima, mas é um horror bem eficiente e, levando em conta o seu contexto, a coisa se torna especial, estamos mexendo com as raízes do subgênero slasher por aqui…

Claro, PSICOSE pode ter plantado a semente; BAY OF BLOOD, de Mario Bava, e BLACK CHRISTMAS, de Bob Clark, serviram de base e muita inspiração; e HALLOWEEN deu o pontapé inicial. Outros filmes surgiram no meio do caminho que de certa forma dialogam com o subgênero (MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, por exemplo). Então é evidente que SEXTA-FEIRA 13 não criou nada do zero. Mas é fascinante perceber como o diretor Sean S. Cunningham e o roteirista Victor Miller pegaram todos os ingredientes possíveis desses filmes anteriores, misturaram e conceberam a alma do slasher movie, um produto final de pureza absurda, estabeleceu todos os clichês do gênero. Provavelmente um dos mais copiados de todos os tempos. HALLOWEEN pode ser um filme melhor em vários sentidos. Esse sim, uma obra-prima. Mas SEXTA-FEIRA 13 é o filme definitivo quando se trata de slasher movie.

Essa revisão deixou ainda mais evidente como SEXTA-FEIRA 13 é um filme muito bom. É direto, a trama é simples, mas gosto do seu primitivismo. E como foi tão copiado ao longo das décadas, fica a impressão até de um filme meio genérico – tirando a reviravolta no final, ele nunca sai do formato narrativo que estabelece desde o início. Mas quando você para e pensa que a coisa aqui ainda tava em sua gênese, é incrível.

E é interessante como a memória às vezes engana, o filme não é tão violento quanto eu lembrava e, apesar disso, não senti falta de algo mais brutal. Obviamente temos algumas ceninhas gráficas de violência com muito sangue e corpos perfurados, rasgados e decepados para dar aquela alegrada e poder elogiar o trabalho fenomenal de Tom Savini – especialmente na cena da morte de Kevin Bacon (único no elenco jovem que conseguiu desenvolver uma carreira depois?). Mas em comparação com slashers posteriores, é suave.

Mas como disse, não senti falta de mais violência, acho que compensa o trabalho atmosférico, a câmera em “primeira pessoa” que observa furtivamente o grupo de jovens que em breve vão virar presunto… E o cenário que é estabelecido captura perfeitamente o terror mágico das florestas, com a chuva cintilante caindo em Crystal Lake, cada vez mais descendo às trevas. Chega num ponto que não se vê merda nenhuma na tela, de tão escuro, mas ao mesmo tempo é precisamente iluminado para que se veja o que é necessário. Está no nosso DNA, sabemos que é preciso ficar perto do fogo, da luz, e fingir que não há nada lá fora nos observando. Mas a gente sabe que a qualquer momento uma lâmina bem afiada pode surgir pra cortar a nossa jugular… Esse é o poder de SEXTA-FEIRA 13.

Mas peraê? Até gora não falei do maior ícone da série SEXTA-FEIRA 13! Talvez o principal motivo da franquia durar tanto tempo. Na verdade, é provável que seja o maior ícone do slasher movie de uma forma geral. Acho que não chega nem a ser um spoiler o que vou dizer, mas se você, por algum motivo, nunca teve notícias sobre o primeiro SEXTA-FEIRA 13, esteve em coma nos últimos 40 anos ou chegou agora no planeta terra vindo de marte, sugiro que não leia o próximo parágrafo antes de ver o filme.

O fato é que neste primeiro filme, o inigualável Jason Voorhees, com sua inconfundível máscara de hóquei, não é exatamente um personagem, ele é “o motivo” de todas as mortes… Não ficamos sabendo muito da história do Acampamento Crystal Lake, apenas que é chamado de “Camp Blood” por causa de alguns assassinatos que rolaram no passado (mostrados logo no início do filme) e tentativas de reabrir o acampamento falharam. No final do filme, Betsy Palmer aparece como a lunática Pamela Voorhees, que começa a falar sobre o garotinho que se afogou no local e revela que era seu filho, Jason. Ela culpa os conselheiros do local por não cuidarem do moleque o suficiente, e totalmente surtada confunde qualquer filho da puta que cruza seu caminho com os conselheiros. E é isso, essa senhorinha é quem de fato perfura, corta e decepa os vários personagens de SEXTA-FEIRA 13.

Inclusive, um dos pontos altos é a luta final entre a final girl do filme, Alice (Adrienne King) e Pamela Voorhees. Elas realmente partem pra grosseria, rolam no chão, dão pancadas, é uma briga bem digna. Mas não demora muito, Alice decepa a cabeça da velha com um facão, o que é algo que já torna SEXTA-FEIRA 13 obrigatório… Não é sempre que vemos uma senhorinha simpática de suéter tendo a cabeça cortada.

Agora tenho que rever a parte 2, que a única coisa que lembro é que, agora sim, teremos Jason em todo seu resplendor para mais uma contagem de corpos, apesar de ainda ser sem a máscara de hóquei… Vamos ver como se sai hoje. Se for tão divertido quanto este aqui, já fico no lucro.

ALONE (2020)

Para quem se interessou minimamente pelo cinema de ação dos últimos quinze anos, o nome JOHN HYAMS deveria soar familiar. Filho do diretor Peter Hyams (OUTLAND, CAPRICÓRNIO UM), o sujeito entrou na cena com alguns dos melhores e mais ousados exemplares recentes do gênero: as continuações altamente badasses de SOLDADO UNIVERSAL, contando ainda com a presença dos atores originais, Van Damme – com quem seu pai havia trabalhado nos anos 90 (TIMECOP e MORTE SÚBITA) – e Dolph Lundgren. Davam a impressão de bons cartões de visitas de Hyams para abocanhar projetos mais ambiciosos, talvez sob a batuta de algum grande estúdio. Talento e potencial o cara demonstrou. Mas acabou não acontecendo…

Apesar da positiva recepção que seus filmes de ação tiveram, Hyams passou os anos seguintes na televisão, produzindo e dirigindo uma série de zumbis, Z NATION, e seu spin-off na Netflix, BLACK SUMMER. Seu longa seguinte só foi sair em 2018, uma comédia que passou batida e quase ninguém viu, chamada ALL SQUARE. Eu mesmo não parei pra ver… E aparentemente o cara tava se afastando de tudo o que queríamos dele.

No entanto, eis que nesse estranhíssimo ano de 2020, John Hyams está de volta. Tá certo que ainda não é com algo exatamente na mesma linha dos seus filmes de ação, infelizmente, mas ao menos ele retorna com um material bem interessante, que é ALONE, um pequeno survival horror film muito bem executado, demonstrando que o sujeito não perdeu a mão.

Na trama temos Jessica (Jules Willcox), uma mulher se mudando para sua cidade natal para recomeçar após uma tragédia em sua vida. Acaba tendo uns transtornos com um carro preto na rodovia, dirigindo agressivamente e aparentemente a seguindo. Eventualmente, ela conhece o motorista do carro (Marc Menchaca), que está tentando ser legal, parece inofensivo, mas continua aparecendo nos lugares que Jessica encosta o seu veículo. O que acaba não sendo muita coincidência. O Homem realmente tem planos nada agradáveis pra ela… Até que a moça finalmente sai da estrada por conta de um pneu misteriosamente furado e o sujeito aproveita pra aparecer e deixar suas intenções bem claras. Agora, Jessica terá que retirar forças sabe-se lá de onde para sobreviver tanto dos perigos da floresta quanto do homem que certamente a matará se tiver a chance. Vai enfrentar frio, chuva, ferimentos, a ameaça de um psicopata, tudo isso enquanto sua própria vida já está em pedaços.

Composto por uma série de blocos, cada um com seu próprio título e particularidades diferentes, ALONE não é o tipo de filme que vai reinventar a roda, não vai jogar uma nova luz de genialidade ao gênero ou subverter suas convenções. É basicamente mais uma trama de sobrevivência como milhares que existem por aí. A diferença é que é feito com tanta habilidade, personalidade e confiança que acaba se destacando da concorrência. É ter um diretor do calibre de Hyams por atrás das câmeras, que pega esse material tão manjado e transforma em puro prazer visual, em um exercício formal despojado (uso criativo do foco, das lentes, da luz, dos espaços), consegue criar uma experiência realmente tensa e exaustiva.

O trabalho com o elenco também é muito bom. Ambos atores centrais, Willcox e Menchaca, chamam a atenção (não conhecia nenhum dos dois). Mas ainda temos uma participação mais que especial do grande Anthony Heald (O SILÊNCIO DOS INOCENTES).

No entanto, é um filme que realmente pertence a Willcox. Seguimos cada movimento de sua personagem do início ao fim, sentimos o esforço de continuar lutando, continuar sobrevivendo. É uma mulher a princípio perdida emocionalmente (ficamos sabendo mais tarde os motivos de sua desestabilização), que se transforma e demonstra uma força interior real. E Willcox se entrega no papel com uma expressividade no olhar muito forte. E o público realmente torce por ela, como se estivesse na mesma situação. Quando chega o confronto final entre Jessica e seu caçador, sente-se como se estivesse dando cada soco, cada chute por ela…

E essa sequência é um deleite, quase dá pra matar a saudade do cinema físico que Hyams realizou no início da carreira…

Em última análise, ALONE lança um olhar para o horror de ser uma mulher que é assediada e atacada por um homem. Mesmo antes de as coisas se tornarem ameaçadoras, o Homem (que não tem nome no filme, sua identidade não importa) não a deixa em paz, apesar de seus pedidos para que o fizesse. É só uma questão de tempo, demonstra o filme, até que a coisa descambe para a violência.

Altamente recomendado, ALONE é desses filmes a não se perder este ano. E esperamos que John Hyams não demore pra vir com mais surpresas como essa. Quem sabe aquele projeto da refilmagem de MANIAC COP, com a produção do Nicolas W. Refn, que haviam anunciado há uns anos?

A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS (1973)

Último filme da franquia clássica. Aqui a coisa dá uma derrapada, meio que despiroca… Num mau sentido.

A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS se passa no máximo poucas décadas depois de A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS. Nesse intervalo, a Terra foi dizimada por um holocausto nuclear, mas não vemos isso acontecer. Fuén! Uma decepção para os fãs que sempre quiseram ver como a estátua da liberdade foi parar naquele estado do primeiro filme… Os macacos evoluíram num tempo récorde: já falam e raciocínam normalmente, algo que deveria acontecer em milênios, e temos até uma raça de humanos mutantes pós-nucleares que vivem sob as ruínas de LA.

Mas a falta de lógica temporal é o menor dos problemas de A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS. A história é ruim, os personagens, com exceção de um ou outro, parecem cansados da própria série; tudo parece desenrolar às pressas, com um ritmo desconjuntado, acaba não tendo nada muito marcante… O clímax é o mais sem graça possível (tanto a batalha final entre humanos e macacos quanto o duelo de Caesar contra um desafeto em cima de uma árvore).

Na trama, Caesar (novamente Roddy McDowall) lidera uma pacífica comunidade mista de macacos e humanos, mas seu modo de vida está ameaçado tanto por dentro quanto por fora da comunidade. Não apenas o General Aldo (Claude Akins) e seu exército de gorilas estão conspirando para derrubar Caesar, mas o governador Kolp (Severn Darden), que lidera a tal raça de mutante, decide atacar o acampamento.

Caesar quer conhecer mais sobre seu passado, sobre seus pais, então resolve fazer uma jornada com MacDonald (Austin Stoker) – não o mesmo MacDonald do último filme, mas o irmão do personagem, porque Hari Rhodes não retornou para o seu papel – e um orangotango chamado Virgil (um dos poucos personagens que salva), até as ruínas de Los Angeles onde estão os arquivos gravados dos depoimentos de Cornelius e Zira lá do terceiro filme. O problema é que dão de cara com os mutantes que vivem lá e desencadeia uma guerra.

Isso é basicamente o que temos de interessante no enredo. O resto é pura embromação. A maior parte do filme é bastante pálida. Há uma cena na qual o filho de Caesar é assassinado pelo general Aldo e não senti absolutamente nada pelo moleque… O filme não constrói nada de interessante sobre o personagem. Não constrói nada também sobre as motivações para o conflito entre macacos e o que resta dos humanos.

Fica evidente logo de cara que a Fox já não parecia muito interessada na franquia (apesar de TODOS os filmes da série terem sido sucessos comerciais) e reduziu consideravelmente o orçamento. Os realizadores tiveram que suar para criar algo. A grande batalha do título se resume nuns gatos pinga… Quero dizer, macacos pingados atirando de um lado para outro contra uns humanos que avançam leeeeentamente de carros, motos e um ônibus escolar em direção à comunidade, tudo filmado sem tensão e emoção alguma. E olha que o diretor é o mesmo J. Lee Thompson do filme anterior, cuja batalha final é épica!

Enfim, um balde de água fria depois de revisitar os outros filmes e ser surpreendido positivamente… E o que é aquele final, com a estátua de Caesar escorrendo uma lágrima? Decepcionado com o capítulo final da série, talvez? Até eu quase chorei de tão constrangedor… Nem John Huston fantasiado de macaco salva alguma coisa. Um fim amargo para uma série que ainda me fascina.