A NOITE DAS VAMPIRAS e o humor macabro de Rubens Mello

O querido ator e diretor guarulhense Rubens Mello está finalizando seu primeiro longa-metragem, uma mistura de horror com comédia deliciosamente chamada A NOITE DAS VAMPIRAS.

Sinopse: Justine é uma jovem que foi criada por pais adotivos. Em sua vida adulta, tornou-se uma atriz que faz muito sucesso em comerciais de TV. Em certo momento, recebe um convite para conhecer sua família biológica. O encontro se dá às vésperas de uma festa, que acontece anualmente, para celebrar o sucesso do açougue gerido pela sua família. Mas, o que era para ser apenas uma reaproximação com sua verdadeira família, torna-se algo sinistro e bizarro, onde coisas absurdas e engraçadas acontecem, levando Justine a conhecer o verdadeiro segredo do sucesso dos negócios da família.

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O FUGITIVO (1993)

Sabe aquela máxima que usamos quando relatamos uma história interessante que aconteceu e percebemos que o relato nunca vai ser suficiente pra deixar, seja lá quem for, tão fascinado quanto nós, que vivenciamos o fato? Dizemos algo do tipo: “Você tinha que estar lá pra ver“… O mesmo vale para filmes. Vocês simplesmente tinham que estar lá quando tal filme foi lançado nos cinemas, ou nas locadoras – antes que seu impacto fosse diluído pela repetição e imitação – para entender porquê aquele tal filme foi bem sucedido, ou foi um fenômeno, até hoje se fala dele, etc…

Isso tudo me remete ao caso de O FUGITIVO (The Fugitive), de Andrew Davis, que finalmente revi depois de mais de vinte anos…

Assistí-lo hoje pela primeira vez pode até dar a impressão de um filme banal e repetitivo, mas se vocês estiveram lá na época do lançamento, lembram que se tratou de um dos grandes acontecimentos do cinema blockbuster da primeira metade dos anos 90, com uma massiva campanha de marketing, cartazes e revistas estampando o Harrison Ford correndo de alguma coisa, e o trailer passando até na TV aberta… O FUGITIVO foi um enorme sucesso de bilheteria, foi bem elogiado pela crítica, teve o Tommy Lee Jones ganhando o Oscar de ator coadjuvante, e o próprio filme foi indicado para a categoria principal de Melhor Filme (perdeu para A LISTA DE SCHINDLER). O filme em si, apesar de não ter nada de original, foi um dos exemplares responsáveis por modelar a estética do thriller de ação dos anos 90, influenciando uma penca de filmes a partir dali. Então acho que dá pra ter uma noção do que foi O FUGITIVO. Do seu impacto. Mas “Você tinha que estar lá pra ver“…

A trama, acredito, todo mundo conhece. Até quem nunca viu. Baseado numa série de TV dos anos 60, temos uma trama meio Hitchcockiana sobre Richard Kimble (Ford), um médico que se vê fugindo da lei após o assassinato brutal de sua esposa, tentando provar sua inocência ao mesmo tempo em que precisa encontrar o real assassino. E como na série de TV, o público nunca duvida da inocência do sujeito ou mesmo de sua crença de que o verdadeiro perpetrador é um “homem de um braço”.

Kimble é o herói perfeito – combinando inteligência com notável resistência física e um toque de compaixão – e o fato de ser interpretado por Harrison Ford, ator que sempre teve o dom de causar o nível certo de empatia, para não mencionar um astro já alojado na cultura pop com personagens como Han Solo e Indiana Jones, ajuda muito. Então acabamos comprando a perfeição do bom Dr. Kimble sem muita dificuldade. E Ford tá realmente ótimo no papel.

Mas, como um bom filme de policial, um bom filme de perseguição, a coisa realmente prospera quando o herói tem a contraparte certa como desafio. Sam Gerard de Tommy Lee Jones, o US Marshall que passa o filme inteiro obstinado no rastro de Kimble, é um adversário digno, tão afiado e tão duro quanto sua presa. Talvez seja o indivíduo mais mais humano do filme, um homem dividido entre o dever e a crença pessoal. Jones é tão bom que (além de ter ganhado o Oscar, como já mencionei) o personagem chegou a assombrar sua carreira. Ele o reprisou oficialmente no filmaço US MARSHALS, de 1998, mas esse tipo de personalidade o seguiu durante muito tempo em filmes como MIB – HOMENS DE PRETO (97), o petardo de William Friedkin CAÇADO (03), que é quase um terceiro capítulo espiritual deste aqui, e já mais envelhecido em ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (07).

A relação que se estabelece entre Gerard e Kimble é bem mais interessante do que aquela entre Kimble e a figura do vilão real do filme (seja o homem de um braço ou o verdadeiro mandante que a trama revela), o que pode ser o motivo pelo qual o clímax do filme, a troca de socos entre herói e vilão permaneça menos na mente do que muitos dos momentos compartilhados entre Kimble e Gerard ao longo da caçada, como por exemplo a já clássica sequência dos túneis da represa, onde ocorre o primeiro contato dos dois e que culmina com Kimble se jogando de uma altura considerável…

Ui, ui, mas era pra ele ter morrido na queda, ninguém sobrevive pulando de uma altura assim, blá, blá, blá”… O tipo de coisa que eu passei décadas ouvindo. Mas a minha resposta é sempre a mesma. Meu amigo, se você quiser realismo, eu posso indicar uns bons documentários.

Já elogiei por aqui no blog o trabalho do diretor Andrew Davis. Um sujeito que faz filme com Chuck Norris e dois dos melhores veículos de Steven Seagal merece sempre meu respeito. Aqui consegue se sair muito bem, demonstrando suas habilidade sob a batuta de um grande estúdio, onde tudo é super controlado e é difícil deixar alguma impressão pessoal. Mas o Davis nunca foi um diretor autoral, então tá em casa. De todo modo, Davis tava inspirado: tudo em O FUGITIVO é filmado e editado com uma intensidade para desgastar os nervos e aumentar o pulso. A câmera sempre se move, enfatizando a emoção da perseguição e as relações de poder entre a presa e o predador.

Sequências como a fuga de Kimble depois que o ônibus da prisão capota na floresta e vai parar em cima da linha do trem e o sujeito precisa pular pela janela um segundo antes de uma locomotiva acertar em cheio o veículo é praticamente uma aula de tensão… Dessas imagens do cinema de ação que permeia sempre meu imaginário do gênero nos anos 90.

Ainda assim, não acho que o grande trunfo de O FUGITIVO seja a ação, mas sim a força do seu elenco e a capacidade de contar uma boa história. Temos participação de figuras como Julianne Moore, Joe Pantoliano, Jeroen Krabbé, mas são mesmo os gigantes Harrison Ford e Tommy Lee Jones que definem as coisas por aqui por meio de puro carisma, atuando numa narrativa clássica que realmente funciona e que tem peso dramático e atenção aos detalhes. E que ao mesmo tempo entrega emoções.

O FUGITIVO não chega a ser nenhuma maravilha, mas é o tipo de filme que, apesar da influência no período, é cada vez mais raro de se encontrar nos dias de hoje… Uma produção grandiosa à sua maneira, mas não inchada de trocentas horas; um thriller inteligente e eficaz, embora com algumas conveniências de roteiro, mas de tirar o fôlego do início ao fim e que consegue atrair a atenção de um grande público, sem dar a impressão de que os realizadores pensam que o espectador é idiota. Em suma, um filmaço que valeu a pena rever, do tempo em que contar boas histórias era regra básica para se fazer um filme em Hollywood.

30 anos de DRÁCULA DE BRAM STOKER

Outro dia tava revendo esse filme do Coppola que já tá completando três décadas. E, mais uma vez, fiquei maravilhado como da primeira vez que vi, quando era moleque, mais ou menos na metade dos anos 90… Essa sequência de abertura em especial simplesmente me deixa sem chão.

Podem dizer o que quiser, eu sei que quando se discute a carreira do Coppola, muita gente já enche a boca pra destacar a trilogia O PODEROSO CHEFÃO e APOCALYPSE NOW como as obras primordiais do homem. E provavelmente essas pessoas estão certas. Sobretudo APOCALYPSE NOW e O PODEROSO CHEFÃO – PARTE III são dois dos maiores filmes já feitos na história.

No entanto, é DRÁCULA DE BRAM STOKER (Bram Stoker’s Dracula, 1992) que certamente está entre as maiores realizações pessoais do diretor.

Na edição de novembro de 1992 da Fangoria – cuja capa se refere ao filme em questão como “O evento de horror da década!” – apresenta uma entrevista com o Coppola, que fala sobre sua tentativa de fazer um filme experimental a partir do romance de Bram Stoker, enquanto o estúdio queria um grande e luxuoso filme de terror de primeira linha. Coppola vinha de uma década de fracassos, não podia ficar de molecagem, mas o próprio filme demonstra que ele conseguiu algo. Ao final da entrevista, ele conclui:

A ironia é que mesmo que este filme não tenha sido tão experimental como eu planejei originalmente – eu consegui talvez 40 % do que eu queria – ainda não é um filme convencional. Certos aspectos dele escaparam de mim, ficaram maior do que eu pretendia; eu estava pensando em fazer uma versão menor, estranha e artística, e o que eu consegui é uma versão grande, estranha e artística.

Caso familiar de eventos na carreira de Coppola: a intenção de fazer um filme menor fugir de seu controle e se transformar em algo muito mais extravagante, épico e suntuoso… Nesse caso, porém, DRÁCULA acabou sendo um raro sucesso de sua carreira pós anos 70, em grande parte graças ao conceito estético da coisa. O homem de alguma forma convenceu um grande estúdio a trazer à vida uma visão experimental do horror para um público então desavisado, que achava que receberia uma super produção tradicional do gênero (e que foi bombardeado na época com uma massiva campanha de marketing), mas que acabou se deparando com um triunfo de vanguarda estética das mais radicais, barrocas, revolucionárias e inventivas no cinema mainstream americano.

E acho que é exatamente isso que mantém DRÁCULA tão vivo até hoje. Mesmo para quem nunca o assistiu e o ainda fará pela primeira vez (e por favor, se alguém aí ainda não viu, faça imediatamente), o que salta aos olhos de maneira instantânea são os mesmos elementos formais pelos quais o filme foi aclamado e premiado há trinta anos.

O sucesso é antes de tudo visual com uma das estéticas góticas mais extravagantes já vistas, um primor de direção de arte, fotografia, exuberância de cores, cenários, figurinos, composições visuais meticulosamente trabalhadas, montagem complexa, efeitos visuais ópticos à moda antiga, buscando mais pureza nas trucagens, na arte de fazer um cinema mais artesanal, com maquetes, teatro de sombras, maquiagens, sobreposição de imagens estilizadas… Ou seja, o que mantém a grandeza de DRÁCULA é esse esforço de Coppola em contar essa história em termos puramente visuais. São duas horas de um festival sensorial que sintetiza o cinema de horror como arte.

Coppola teria ainda delegado bastante responsabilidade ao seu filho Roman Coppola, que teria sido um dos cabeças dos efeitos especiais e também diretor de segunda unidade e que quase poderia ser descrito como um diretor não oficial de DRÁCULA. Tudo isso depois que Coppola demitiu a equipe original de efeitos especiais, que não conseguiu acompanhar as ideias artesanais que o homem queria pro seu filme.

Toda essa ideia de fazer efeitos especiais arcaicos é claramente uma forma de homenagear o próprio cinema e transcender suas inspirações, as outras grandes obras que adaptaram o mito de Drácula para a tela grande, desde os clássicos da Universal aos filmes da Hammer, mas também da poesia fantástica francesa com A BELA E A FERA, de Jean Cocteau. E, claro, NOSFERATU, de Murnau. Apesar de que ao mirar nesse filme do Murnau, Coppola parece ter acertado mais em FAUSTO. Quem assistiu aos filmes do alemão vai perceber…

Uma coisa que não lembrava tanto aqui é como o filme é intensamente erótico. Sexo e morte sempre andaram de mãos dadas no cinema de horror (especialmente quando se trata do subgênero “filmes de vampiro”), mas Coppola trabalha num nível quase fetichista de fantasias libidinosas. O encontro inicial de Jonathan Harker (Keanu Reeves) com as Noivas do Conde (entre elas uma jovem Monica Bellucci) é de matar um idoso do coração, com o leito dando lugar a corpos emergentes que se entrelaçam; bocas, línguas, braços, pernas, seios se encontram antes de Drácula enxotá-los, reivindicando para si o rapaz desnorteado.

A personagem de Lucy (Sadie Frost) nessa versão também dá uma alegrada, toda sapeca, rindo com Mina (Winona Ryder) depois de deixar cair uma cópia do Kama Sutra, antes de acariciar a faca de um de seus pretendentes, dizendo a ele que não pode acreditar o quão grande é. Na verdade, todos os principais temas que geralmente são suprimidos ou mascarados em versões antigas do mito de Drácula adaptadas para o cinema estão aqui de forma mais explícita: a estreita relação da maldição do vampiro com o sexo, AIDS, drogas, além do progresso da medicina, espiritualidade, religião, etc.

É fácil esquecer, dado o número de mudanças em centenas de adaptações que Drácula teve ao longo da sua existência, que não há uma única interação romântica entre o personagem título e Mina Harker no romance de Stoker. O Conde não tem nenhum interesse nela, além do desejo de se banquetear com seu sangue e transformá-la em uma de suas noivas. Ela é apenas a vítima de um predador;

Mas aqui o olhar de Drácula é a de um amante. De repente, não estamos mais assistindo as façanhas de um monstro sem alma, mas sim um espírito assombrado, alimentando desesperadamente sua jornada através de épocas para alcançar o destino de possuir aquela que ele perdeu há muito tempo.

E a história de amor entre Drácula e Mina, apesar de cafona, até que é boa de acompanhar, com alguns momentos tocantes, como o primeiro encontro dos dois, seguido da cena no cinema; ou a sequência em que Mina se entrega ao sujeito e bebe seu sangue. Coppola realmente conseguiu fazer do personagem um indivíduo trágico através desta história e causar um sentimento misto, no qual queremos tanto vê-lo perecer por seu lado maligno quanto em reencontrar o seu amor.

Sobre o elenco, A primeira coisa que as pessoas costumam lembrar para difamar o filme é, claro, a atuação de Keanu Reeves como Harker. Sabe-se que Coppola queria Johnny Depp para o papel, mas o estúdio não achava que ele tinha o nome forte o suficiente na época. O próprio Reeves diz que não gosta de sua atuação aqui, vinha de uma série exaustiva de trabalhos e quando filmou DRÁCULA estava esgotado, não conseguiu entregar algo melhor. Mas não acho que chega a prejudicar, embora não seja mesmo das suas melhores performances.

Mas para além disso, curto praticamente todos os rostos que aparecem por aqui, especialmente Anthony Hopkins, obviamente, no papel de um Van Helsing divertido e astuto.

Outros destaques do elenco incluem Tom Waits interpretando Renfield como um comedor de insetos, e Sadie Frost, que, como já falei, assume o papel de Lucy, personagem tipicamente ingrato da melhor amiga da protagonista, que Drácula seduz primeiro, mas que aqui acaba tornando algo especial. É uma das minhas personagens favoritas do filme.

E enquanto isso, a própria personagem Mina não exige tanto de Ryder na maior parte do tempo. Ela tá ótima, mas acho suas outras performances do período muito mais interessantes…

É Gary Oldman, porém, quem rouba o filme e seus talentos camaleônicos são perfeitos para o Drácula como concebido aqui. Conseguindo atuar de forma convincente através dos vários designs complexos de maquiagem, Oldman é igualmente expressivo como um Drácula idoso decrépito, um jovem galã vitoriano ou um morcego de 1,80 m de altura. Suas cenas românticas com Ryder lembram aqueles livretos de banca, Harlequin, A Paixão de Jéssica, O Moinho do Amor, coisas do tipo, mas ele é persuasivo o suficiente para que, quando expõe seu peito e rasga um teco para Mina beber seu sangue, seja possível perceber que ela realmente tá a fim do cara.

É provável que DRÁCULA tenha sido um dos primeiros de uma onda de filmes de vampiros dos anos 90, como ENTREVISTA COM O VAMPIRO, que adotaram uma abordagem gótica, sombria, mas ao mesmo tempo romântica, que atraíam o público jovem do período.

Anos depois, é fácil traçar uma linha desse tipo de filme até, sei lá, a série CREPUSCULO, embora os fãs de DRÁCULA provavelmente zombem dessa comparação. A verdade é que eles exploram as mesmas fantasias. Porém, é muito provável que em comparação com a sexualidade casta de Stephanie Meyer, o filme de Coppola é praticamente pornográfico… Pessoalmente, nunca vi esses filmes dessa saga.

Enfim, a única parte negativa disso tudo é notar é que este aqui foi o último grande filme do diretor. Coppola até possui vários ótimos trabalhos depois, como TETRO, mas nada que chegue aos pés de DRÁCULA. E lá se vão trinta anos…

FORÇA DEMONÍACA (1988)

Já tinha assistido a FORÇA DEMONÍACA (976-Evil) antes, já faz alguns bons anos, e queria ver a continuação, que é dirigido pelo Jim Wynorski. O que pra mim é obrigatório. Nem sei porque ainda não vi. Só que eu não lembrava de quase nada deste primeiro filme. Então, cá estou, resolvi compartilhar essa revisão com meus caros cinco leitores… “Mas que raios de filme é esse?” alguém deve estar se perguntando.

Escrito por Brian Helgeland e Rhet Topham, FORÇA DEMONÍACA deveria gerar algum interesse dos fãs de terror simplesmente porque é a estreia na direção de um certo Robert Englund. Sim, o próprio Freddy Krueger arranjou um tempinho entre as continuações de A HORA DO PESADELO e se meteu atrás das câmeras.

Aparentemente, Robert Englund dirigiu FORÇA DEMONÍACA simplesmente porque queria fazer, foi o filme que surgiu da sua mente. Não tem nenhuma ligação com produtores de A HORA DO PESADELO, não teve nenhum acordo do tipo “aparecer em mais um filme como Freddy Krueger e em troca poder dirigir um filme”… Nada. Englund conhecia os roteiristas, vomitou todas as ideias que tinha e assim foi surgindo FORÇA DEMONÍACA.

No entanto, como não poderia ser diferente, após alguns anos encarnando um dos maiores ícones pop do horror dos anos 80, sua estreia na direção acaba tendo uma dose de influência da série de filmes criada por Wes Craven… A inspiração em A HORA DO PESADELO é bem óbvia.

A história gira em torno de Hoax (Stephen Geoffreys), um tipo nerd, deslocado, que ainda dorme de pijama e não pode comer chocolate no sofá da sala, totalmente dominado por sua mãe fanática religiosa, vivida por Sandy Dennis – Oscar de melhor atriz coadjuvante em 1967 por QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?. Além disso, o moleque é impiedosamente intimidado pelos bad boys do ensino médio da escola. A única luz na sua vida é seu primo rebelde Spike (Patrick O’Bryan), uma espécie de James Dean oitentista, que anda pela cidade numa Harley, aumentando suas dívidas nos círculos de poker underground.

Tudo que Hoax quer é ser como seu primo, ou pelo menos tê-lo sempre por perto, lhe protegendo… Depois de se humilhar na frente da namorada de Spike, Suzie (a maravilhosa Lezlie Deane), quando ela descobre que ele roubou suas roupas íntimas, Hoax recorre a uma linha telefônica de auto ajuda chamada Horrorscope, que utiliza o tal 976 do título para fazer as chamadas (nos anos oitenta esse tipo de prefixo “9 alguma coisa” era extremamente popular nos Estados Unidos), para obter algum consolo. Depois de seguir o conselho da misteriosa linha de apoio, o rapaz lentamente começa a se transformar em uma poderosa criatura demoníaca e assim começa sua busca por vingança.

Começando um pouco inseguro de si mesmo, meio sem saber definir o tom, o filme eventualmente se transforma num produto de terror bastante agradável, que se eleva acima do pequeno orçamento e diverte com esse conceito tão batido. Sim, o tema “nerd-on-revenge” já foi feito um milhão de vezes antes e Englund sabe disso, ele apenas quis requentar uma historinha que ainda pode render bons frutos, adicionando temas que até podem soar clichês e derivativos em alguns momentos, mas que possui personalidade, uma visão pessoal de Englund – agora como criador de imagens de horror – e um bocado de humor.

E ele se sai muito bem. De vez em quando dá uma derrapada no ritmo, algo normal para um estreante… Em termos visuais, o sujeito demonstra boa noção de composições, de como trabalhar a câmera, há aquele charme sombrio do horror oitentista marcado por neons que o sujeito explora de forma belíssima. Gosto bastante dos cenários, tudo tem uma qualidade exagerada. E embora não seja um filme muito sangrento, os efeitos especiais de maquiagem do mestre Kevin Yagher são ótimos. A sequência do massacre no cinema, com direito a um bocado de gore, e o final em que a casa de Hoax se transforma na porta de entrada para o inferno, são particularmente especiais.

Tirando esses momentos, não é um filme que há grandes cenas que permanecerão na memória. Como disse antes, eu já tinha apagado da mente 90% do filme… Mas revendo agora é interessante notar uma agradável atmosfera crescente de desconforto à medida que Hoax se torna mais atraído pelo tal serviço telefônico. Nunca é explicado de onde surgiu o número demoníaco, como Spike obteve o cartão, há apenas uma revelação no desfecho, mas que também não diz muita coisa. E em duas ocasiões mostra outras vítimas que acabam tendo um destino cruel por estarem envolvidas com o Horroscope… Há até a presença de um detetive que investiga essas mortes misteriosas ligadas ao serviço, que gera alguns momentos curiosos, mas o que importa mesmo é Hoax e sua jornada diabólica de vingança.

O paralelo com A HORA DO PESADELO torna tudo ainda mais interessante. FORÇA DIABÓLICA é quase um primo distante da franquia de Freddy Krueger, com sequências de terror e clima de pesadelo inspiradas e ambiciosas, cuja produção talvez não tivesse o orçamento suficiente para realizar de forma mais eficiente, mas que vale pelo esforço. Hoax até se transforma, no fim, num monstro brincalhão com unhas afiadas que é impossível não se lembrar de Freddy. Sem contar os temas em comum, sobretudo com A HORA DO PESADELO 2 – A VINGANÇA DE FREDDY, com subtexto gay e tudo, mas neste enredo de possessão satânica juvenil.

O elenco é um destaque à parte. Stephen Geoffreys tá muito bom como Hoax. Um bocado irritante no início, mas funciona. Outro papel famoso de Geoffreys é como o vampiro Evil Ed no clássico do horror oitentista A HORA DO ESPANTO. Depois disso, além de um ou outro trabalho mais conhecido, o sujeito trocou o viés do cinema que vinha fazendo e começou uma carreira longa e bem sucedida como ator de filme pornô gay, usando pseudônimos como Sam Ritter e Stephan Bordeaux. Nunca assisti nada dessa fase, mas fica a dica pra quem tiver interesse…

Sandy Dennis está bem divertida como a mãe de Hoax e rouba a cena quando aparece. Patrick O’Bryan não é lá muito expressivo, mas Englund consegue extrair o suficiente do rapaz. Lezlie Deane tem boa presença na tela; e há um pequeno papel para o grande Robert Picardo que é muito bem-vindo.

Certamente FORÇA DIABÓLICA não está no mesmo nível dos melhores exemplares do horror de baixo orçamento dos anos 80, mas é uma maneira agradável de passar o tempo e mostra que Robert Englund pode se sair quase tão bem atrás da câmera quanto na frente dela. Pena que além deste aqui, ele acabou fazendo só mais um filme, já nos anos 2000… FORÇA DIABÓLICA é um filme meio estranho, muito bobo em alguns momentos, mas não deixa de ser divertido na maior parte do tempo e que de alguma forma consegue ser mais notável e gratificante do que eu lembrava.

E agora sim, posso assistir sem peso na consciência a continuação, 976-EVIL II, lançada no Brasil como PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA, de 1991, dirigido pelo grande Jim Wynorski… Até!

PYTHON: A COBRA ASSASSINA (2000)

Às vezes eu me pergunto o que tô fazendo com a minha vida. Poderia estar postando sobre um filme noir, um western do John Ford, até mesmo um horror italiano de um Mario Bava ou filmes de ação dos anos 90 estrelados por algum action hero icônico da época. Mas não, tô escrevendo sobre um filme de uma cobra gigante feita de CGI tosco dos anos 2000…

Tudo bem, vamos lá… Aproveitando o sucesso de ANACONDA, na segunda metade dos anos 90, e o surgimento de filmes como KING COBRA (1999) que tinha vendido à beça no mercado, dando início a uma demanda por filmes de cobras gigantes, PYTHON: A COBRA ASSASSINA (Python), de Richard Clabaugh (que diz que a sua inspiração, na verdade, foi O ATAQUE DOS VERMES MALDITOS), foi um dos primeiros exemplares da interminável onda de filmes do gênero, com cobras e crocodilos gigantes à solta, que surgiram nesse período.

E é um dos melhores que já vi. O que não significa que seja bom… Mas confesso que PYTHON tem peculiaridades suficientes pra me fazer sorrir no fim da sessão.

Primeiro, é um filme que não é chato. Tem sempre coisas acontecendo, sub-tramas e mini-histórias que não deixam o ritmo cair, pelo menos em boa parte de projeção. Além disso, PYTHON tem algo que a grande maioria dessas tralhas não tem: senso de humor. Daí faz até algum sentido Clabaugh dizer que O ATAQUE DOS VERMES MALDITOS tenha sido sua inspiração… É quase uma tentativa falha de combinar uma trama de horror com comédia em alguns momentos. Embora no fim das contas acabe mesmo sendo uma comédia involuntária durante o tempo todo.

Olha, pra mim funciona em algum nível. Deu pra dar boas risadas com algumas coisas… E, convenhamos, quem procura um filme sobre uma cobra gigante comendo ou matando pessoas não dá pra exigir muito. Dar risadas já é estar no lucro.

Na trama, quando um avião militar – que transporta um projeto ultrassecreto do governo – cai perto da pequena cidade de Ruby, ninguém parece se importar muito, apesar do misterioso fato de que o piloto e o outro tripulante a bordo morrerem por estarem cobertos com ácido. Então, quando esse tal projeto do governo, que é um híbrido genético de uma cobra atingindo 30 metros de comprimento, começa sua matança no local, a polícia acredita que um serial killer está à solta, matando suas vítimas com ácido. Incluindo o casal de lésbicas, as primeiras vítimas, que transam numa barraca na floresta, desconstruindo um pouco a habitual sequência de sexo ao ar livre do casal “homem e mulher” tradicional desse tipo de filme…

A polícia começa a ter um suspeito, John Cooper (Frayne Rosanoff), um praticante de BMX e aventureiro que voltou à cidade para ajudar seu irmão a administrar a fábrica de plástico de sua familia.

Entra em cena algumas figuras legais que deixam o filme mais divertido. Casper Van Dien com um bigodinho canalha é o líder da equipe mais atrapalhada de soldados que já vi e que tem a missão de capturar ou destruir o perigoso animal.

Temos também a presença (com muito mais tempo de tela que eu esperava) do Robert Englund, fazendo o cientista que é o expert sobre a cobra gigante e não quer que ela seja morta, porque é um experimento muito valioso e tal, blá, blá, blá, a mesma história que já vimos em um milhão de filmes. De qualquer forma, Englund em cena sempre abrilhanta qualquer situação.

A performance mais engraçada é de Scott Williamson como um corretor de imóveis babaca. Ele rouba o filme inteiro. Há uma sequência particularmente ótima em que ele tenta transar com a Jenny McCarthy mostrando uma casa à venda pra ela, mas é interrompido ironicamente pela cobra… Outro que merece destaque é o policial vivido por William Zabka, que tem dor de cotovelo por ter perdido a namoradinha para o protagonista da trama (e que rememora seu tempo de Cobra Kai lutando contra o protagonista no meio da rua, numa das cenas mais sem noção de PYTHON). Ah, e o piloto do avião na sequência de abertura é o grande Ed Lauter.

Sério, acho que nem o Quentin Tarantino poderia ter escolhido um elenco melhor para um filme de cobra assassina gigante em CGI.

Aliás, sobre a cobra em si, ou seja, os efeitos especiais em CGI da cobra gigante, como já devem ter notado nas imagens que coloquei aqui no post, podem até não ser dos melhores resultados, não ter o nível de um PARQUE DOS DINOSSAUROS… Mas não há nada de errado nisso. Pelo contrário, para o período que em que PYTHON foi produzido e com o orçamento claramente risível, não dá pra ficar esperando algo melhor. E ainda há o charme a mais que esse tipo de tosquice visual acrescenta. Já o trabalho com efeitos especiais práticos, de maquiagem, em especial as vítimas derretidas pelo ácido da cobra, são muito bons.

E é isso. PYTHON é a prova de que com o elenco certo, um bocado de bom humor, roteiro que tenta de alguma maneira criar personagens e desconstruir alguns elementos tradicionais, e com uma cobra gigante feita em CGI tosco, qualquer coisa pode funcionar… Claro, como disse, ainda não dá pra considerar isso aqui um “bom filme”. E em especial o último terço da narrativa, justamente o confronto final dos heróis com a cobra gigante, a coisa meio que desanda de vez. Mas ainda é o tipo de porcaria que me diverte.

E no fim das contas, não me arrependo por não estar escrevendo sobre um noir dos anos 40, ou um western do Ford…

2020 – TEXAS GLADIATORS (1982)

Revi esse belo exemplar de cinema pós-apocalíptico italiano dirigido pelo Joe D’Amato. Faz tempo que não posto nada do homem por aqui… Lá por volta de 2008, 2009, eu tava devorando os filmes dele, depois segui em frente e agora me bateu vontade de rever umas coisas. Sobretudo este 2020 – TEXAS GLADIATORS (Anno 2020 – I gladiatori del futuro), porque eu não tinha achado grandes coisas na época e acabou eclipsado pelo ENDGAME, outro filme do gênero que o D’Amato dirigiu na mesma época e que achei bem melhor. Agora já não sei. Este aqui é realmente divertido.

Um detalhe que só fui descobrir por agora é que 2020 – TEXAS GLADIATORS tem um co-diretor. Aparentemente, D’Amato convidou o ator e roteirista George Eastman (Luigi Montefiori) para dirigir junto com ele e o sujeito aceitou… Bem, mais ou menos.

De acordo com Eastman: “Eu dirigi esse filme a pedido de Massaccesi“. Aristides Massaccesi, para quem não sabe, é o nome verdadeiro de Joe D’Amato. “Sua produtora havia comprado o ‘pacote’ pronto (atores com contratos, datas fixas para as filmagens, roteiro já escrito, orçamento) de outra produtora, que desistiu de produzir por considerar impossível fazer um filme desse tipo com financiamento tão baixo. Massaccesi achou que conseguiria (…). O cronograma de filmagem já havia sido definido (vinte dias) e não poderia ser estendido um único dia a menos que alguém estivesse disposto a colocar dinheiro a mais. Ele me ligou e me perguntou se eu estaria disposto a ajudá-lo a dirigir o filme: recusei a oferta dizendo que só faria se fosse sozinho, sem ele.” (do livro Spaghetti Nightmares)

Para resumir, depois de alguma negociação, ficou meio definido que Eastman iria se preocupar com a parte dramática da trama (e também meteria o dedo no roteiro) enquanto D’Amato filmaria a ação. Os créditos de direção ficaram sob o pseudônimo de Kevin Mancuso e o fato de 2020 – TEXAS GLADIATORS ser 80% só sequências de ação deve ter feito muita gente pensar que se tratava de um filme do D’Amato. Mas, pronto, Eastman já está devidamente considerado como diretor do filme. Até o IMDb já atualizou a informação.

2020 – TEXAS GLADIATORS começa apresentando uma espécie de vigilantes futuristas, acho que são chamados de Rangers em algum momento. Esse grupo de bravos homens majoritariamente barbudos, suados e sem camisa patrulham o deserto pós-apocalíptico do Texas é composto por sujeitos de nomes como Nisus, Jab, Catch Dog, Halakron e Red Wolfe.

Logo no início eles interrompem um bando de maníacos que atacam um grupo pacífico de colonos religiosos. Todos os maníacos são mortos sem piedade e os colonos restantes são resgatados. Esses vigilantes possuem um código de honra muito bem definido, e o objetivo fica claro: restaurar a justiça nesse futuro desolador por qualquer meio necessário.

No entanto, Catch Dog (Daniel Stephen) vê uma das vítimas escondida, chamado Maida (Sabrina Siani, de CONQUEST, do Lucio Fulci), e decide estuprá-la enquanto os outros estão ocupados. Mas acaba interrompido por Nisus (o grande Al Cliver, de ZOMBIE 2, também do Fulci) e recebe uma surra. Catch Dog é expulso dos Rangers e forçado ao exílio.

Maida, embora grata pela ajuda de Nisus, questiona seus métodos violentos: se a ação deles consiste em apenas matar bandidos e assassinos, isso não os torna assassinos também? Esta observação coloca uma pulga atrás da orelha de Nisus. Ele resolve abandonar o grupo e se estabelece com Maida numa comunidade que vive dentro de uma usina. Os anos se passam, Nisus se torna um pilar e ajuda a comunidade a restaurar a energia do local. Ele e Maida até têm uma filha juntos, formando uma família.

Mas aí entra em cena o vilão do filme, um bastardo fascista chamado Bolson… Ops, quero dizer, Black One (Donald O’Brien), que invade a comunidade com seus guerreiros futuristas de elite. Um bando de motoqueiros punks também está apoiando Black One, liderados pelo ex-colega de Nisus, Catch Dog. Eles subjugam a comunidade após uma batalha épica e violenta e Black One assume o poder.

O destino é cruel com Nisus e agora cabe a Maida reunir o velho grupo de Rangers pelas terras devastadas para contra atacar Black One, salvar a comunidade e ter paz de volta.

É legal perceber que 2020 – TEXAS GLADIATORS não só um clone genérico de MAD MAX 2 e FUGA DE NOVA YORK como muitos dos filmes italianos pós-apocalípticos tendem a ser. Na real, de certa forma é um filme mais conceitual, pode acreditar. E que tem o western em seu design estrutural, com todos os seus arquétipos e sua mitologia. Se tivessem pegado esse mesmo roteiro e filmado nos anos 60, com cowboys e cavalos no lugar de motoqueiros punks com roupa de couro renderia um belo Spaghetti Western. Não é a toa o “Texas” no título internacional do filme…

Há uma sequência num saloon que parece tirada de algum filme do Demofilo Fidani ou Sergio Garrone, envolvendo um jogo de roleta russa inspirada em O FRANCO ATIRADOR e que termina numa briga generalizada, com vidros e cadeiras quebradas. Uma maravilha. Mais tarde, o grupo remanescente dos Rangers encontrar um grupo de nativos americanos que são representados visualmente da forma mais estereotipada possível, também descrito como italianos fantasiados de índios. Há uma sequência de cerco num desfiladeiro, e até uma ceninha de trabalho escravo em uma mina onde Black One coloca os prisioneiros bem típico de prisão de faroeste…

Visualmente, o 2020 – TEXAS GLADIATORS é competente, não muito chamativo. Mas consegue camuflar o seu baixo orçamento, reaproveitando mesmo cenário (não duvido que 80% do filme seja filmado na mesma usina), figurinos bacanas (sobretudo a de uma mulher guerreira que usa um traje altamente impraticável que deixa seus seios expostos), uma boa quantidade de extras e dublês, além de ter uma dose enorme de ação.

Nenhuma delas realmente especial, mas destacaria toda a sequência do primeiro ataque do exército de Black One à comunidade, defendida com unhas e dentes pelos ocupantes ao estilo Forte Apache, mais um elemento de western. Num geral, D’Amato sabe criar um espetáculo de ação com pouco recurso. Tudo é genérico, mas ao mesmo tempo eficaz e preenche bem o tempo quando o expectador só quer um bocado de diversão.

Quem já assistiu a mais de dez filmes de baixo orçamento italiano dos anos 80, com certeza já se deparou com quase todo mundo que importa no elenco de 2020 – TEXAS GLADIATORS. Com destaque para o grande Donald O’Brien, figurinha típica do cinema popular italiano e que já tinha feito outros trabalhos com D’Amato. Seus papéis de vilão sempre são memoráveis, até mesmo quando aparece pouco como é o caso deste aqui. Mas seu Black One é um bom registro. Al Cliver sempre competente, assim como todos do grupo de Rangers. Só gente boa: Harrison Muller, o grande Peter Hooten, e Hal Yamanouchi. Mas a alma do filme é a bela Sabrina Siani, com uma caracterização bem interessante.

2020 – TEXAS GLADIATORS é, em última análise, realmente representativo de quão criativo era o cinema italiano… Bem, nem sempre. Mas existem vários exemplos de produções de orçamento risível que conseguem de alguma forma resultar em filmes fascinantes. Especialmente quando se trata de Joe D’Amato, que podia pegar uma “produção inteira” num pacote fechado e na hora de mostrar serviço eram profissionais, astutos e criativos o suficiente para criar um filme divertido. Filmes que tinham suas pretensões muito bem definidas, que eram pensados apenas para ganhar um dinheiro rápido e não para ganhar um Oscar. E acho que aqui é um bom caso disso… Muita ação, um belo conceito e cheio de bizarrices. Não tem como errar.

RANKING PSICOSE

Já que estamos no mês de Halloween, nada mais justo que ver uns filmes de horror pra variar… Como se eu já não assistisse coisas do gênero o ano inteiro. Mas enfim, há alguns dias resolvi rever a franquia PSICOSE. Sim, o clássico de Alfred Hitchcock de 1960 teve algumas continuações nos anos 80 e 90, caso alguém não saiba. Eu já tinha visto quando era moleque e não me lembrava de nada. E foi uma boa jornada. Quero dizer, pelo menos alguns valeram muito a pena. Outros nem tanto. Então resolvi listar os filmes da série em ordem de preferência, do pior ao melhor.


6. BATES MOTEL (1987), de Richard Rothstein

O pior filme da franquia PSICOSE disparado é isso aqui. Entre PSICOSE III (1986) e PSICOSE IV (1990), tentaram fazer um spin-off da coisa toda, uma série de TV que acabou não indo pra frente. O piloto acabou virando esse TV movie meia boca que ignora as continuações produzidas até ali e imagina como seria se o serial killer Norman Bates tivesse ficado amigo de um garoto dentro da instituição que estava preso logo após os eventos do primeiro filme. 27 anos depois, Bates morre e deixa o famigerado motel de herança pro rapaz, que precisa reformar e reabrir o local… É o multiverso PSICOSE.

É fraquinho, uma comédia dramática sobre esse sujeito chamado Alex West (Bud Cord), um deslocado social tentando lidar com a vida fora da instituição onde passou a vida inteira preso, as burocracias para reabrir o motel, fazendo amizade com novas pessoas e, de vez em quando, encarando uma ou outra situação de horror, como se o mal que assombrou a família Bates ainda estivesse ligado ao local. Se o trabalho de suspense e horror não fosse nulo, talvez rendesse algo, mas nem pra isso BATES MOTEL presta. O arco da escritora, por exemplo, no terceiro ato, uma historinha de fantasmas totalmente deslocada da trama principal, é constrangedor e provavelmente dá um gostinho do que seria a série. Da mesma forma, a revelação final, ao estilo desfecho de Scooby Doo é um dos troços mais ridículos que já vi. Enfim, não vale muito a recomendação, a não ser que você seja um completista obcecado.

5. PSICOSE (1998), de Gus Van Sant

É o único filme que não revi, então nem vou me prolongar muito. Um experimento que o Van Sant fez de refilmar o clássico de Hitchcock quadro a quadro… Há quem defenda, mas eu particularmente acho uma inutilidade. Prefiro rever o original trocentas vezes. Mesmo assim, pelas minhas lembranças, ainda é melhor que BATES MOTEL.

4. PSICOSE IV (1990), de Mick Garris

O quarto e último da série PSICOSE também é um filme feito pra TV. Ao longo de quase 90 minutos assistimos Norman Bates (Anthony Perkins já imortalizado pelo personagem) tentar desempacotar toda a sua bagagem emocional e psicológica ao telefone num programa de rádio, com um monte de flashbacks da sua infância e adolescência, explorando as origens que o levaram a ser um serial killer e sua relação edipiana com a mãe (Olivia Hussey). Também descobrimos que Norman agora se casou e está tentando acabar com seus demônios para sempre. O que inclui matar sua esposa grávida para que o mal não passe para a próxima geração…

Mas é tudo meio decepcionante. Até curto algumas coisas do Mick Garris, mas acho que sempre foi mais simpatia pela sua boa vontade com o gênero do que realmente talento, mas temos alguns momentos aqui e ali mais inspirados em PSICOSE IV, como quando Henry Thomas (o garotinho do E.T. O EXTRATERRESTRE) assume o papel de Norman Bates adolescente, lutando com seus sentimentos inquietantes por sua mãe e propensão a esfaquear mulheres. Mas num geral as coisas não funcionam muito bem, é tudo muito chato e nem trazer o roteirista do original e a trilha sonora de Bernard Herrmann ajuda muito…

3. PSICOSE III (1986), de Anthony Perkins

Aqui começam as surpresas. Não lembrava que este terceiro filme era tão legal. Foi dirigido pelo próprio Anthony Perkins, que não se aguenta em criar uns fan service para homenagear o filme original (com alguns detalhes e enquadramentos que copiam o filme de 1960) e o próprio Hitchcock (a sequência inicial das freiras remete muito a VERTIGO), mas ao mesmo tempo transporta o material para o slasher dos anos 80 em toda sua essência: exagerado, com grande dose de nudez, um bocado de violência, muito neon, só coisa boa… Pode não ter um trabalho psicológico tão complexo, como o de PSICOSE II (1982), mas todos esses elementos típicos do horror oitentista compensam pra diversão.

Perkins, particularmente, tá um bocado over, mas ainda é maravilhoso assisti-lo como Norman Bates. E ainda demonstra um bom domínio na direção, na condução das coisas, construção de atmosfera tão peculiar do slasher e da estética do horror dos anos 80 num geral… Podia ter investido mais no ofício. Mas o que realmente se destaca em PSICOSE III é a presença insana do grande Jeff Fahey. O cara tá sensacional!

2. PSICOSE II (1982), Richard Franklin

Uma sequência que consegue expandir o cânone do primeiro filme, que é um dos maiores da história (e a essa altura já sabem que ficou em primeiro lugar neste ranking), ao mesmo tempo em que se aprofunda nos seus mistérios. Um filme com grande interesse em examinar essa figura que é Norman Bates (Anthony Perkins simplesmente genial aqui) sem transformá-lo em um rato de laboratório, simpático ao espaço mental do personagem, interessado em descompactar as camadas de uma vida inteira de trauma, culpa e medo na sua psique, 22 anos depois dos eventos do primeiro filme.

Há também uma boa dosagem de momentos de tensão e horror para equilibrar o drama, com algumas mortes realmente divertidas (e como já estamos nos anos 80 aqui, um pouco mais de violência gráfica que o clássico) e algumas boas reviravoltas. Ótimo roteiro de Tom Holland e a direção sempre competente de Richard Franklin, o “Hitchcock australiano”. Pode não chegar aos pés do original (poucos filmes do gênero chegam) mas temos aqui um dos melhores filmes de psicopatas dos anos 80.

1. PSICOSE (1960), de Alfred Hitchcock

Por fim, a cereja do bolo. Não tinha como ser diferente. E talvez neste momento, revisto pela milésima vez, PSICOSE seja o meu Hitchcock preferido… Desses filmes que eu já coloquei numa prateleira especial dos exemplares que nunca vou cansar de rever. É perfeito. Quantos filmes podem se orgulhar de terem reformulado um gênero? Não acho exagero nenhum dizer que essa obra-prima de Hitchcock, talvez o mais famoso filme de serial killer da história, criou o horror moderno.

Dessa vez fiquei atento nos detalhes da atuação de Anthony Perkins como o jovem Norman Bates – seu rosto, no final, é uma das mais terríveis expressões do mal já vistas. É tão antológica que não surpreende o sujeito nunca mais conseguir se livrar do papel. Mas o que faz mesmo de PSICOSE um filme extraordinário é a brilhante construção de planos que Hitchcock usa para costurar uma história que é simplesmente fantástica. Desde o plano inicial, a Janet Leigh de sutiã, o domínio do suspense durante cada segundo de sua “fuga”, a trilha sonora do Herrmann entoando, o encontro com Bates, até chegar na cena do chuveiro, que é uma das mais icônicas da história e que desconstruiu toda a noção de protagonismo que o cinema havia trabalhado até então.

É brutal, tenso, tesudo pra cacete e com aquela ironia macabra tão inerente ao velho Hitch.

Enfim, tudo já foi dito sobre PSICOSE. Essa revisão, mesmo depois de tantas e tantas ao longo de décadas, foi primordial só pra perceber ainda mais o quanto amo esse filme.

CRIMES DO FUTURO (2022)

Existem certos diretores que eu simplesmente acho que nunca mais vão conseguir trabalhar ou financiamento pra filmar. E a carreira acabou… Sou um cara pessimista por natureza. Coppola, De Palma, Verhoeven, Paul Schrader, Abel Ferrara, Michael Mann, Clint Eastwood agora que perdeu o contrato com a Warner, e muitos outros. Alguns desses até tem filmado com certa frequência, mas sempre acho que o último filme que lançaram será realmente o último. Com o Cronenberg foi esse mesmo receio.

Depois de uns 8 anos sem filmar, já tinha perdido as esperanças. Mas eis que em 2022 tivemos a alegria de ver um novo Cronenberg. CRIMES DO FUTURO (Crimes of the Future), que também é o nome de seu segundo longa, lá atrás, em 1970. O que dá a impressão de um encerramento de ciclo… Mas não só por isso, mas sobretudo pela própria proposta do filme, que parece uma auto-reflexão do seu cinema, um retorno a todos os seus grandes temas conceituais e visuais. É quase um resumo de sua obra. Um filme de Cronenberg definitivo. É fascinante, é bizarro, é uma coisa linda…

Não é perfeito. Tá longe dos seus melhores trabalhos, mas tudo bem. Não deixa de ser maravilhoso poder ver esse mestre, um dos meus diretores favoritos, ainda com criatividade deflagradora, fazendo o que quer, fazendo seu cinema sem concessões e interferências.

Estamos, portanto, num terreno familiar – principalmente pra quem costuma revisitar os filmes do homem com mais frequência, e no meu caso fiz uma maratona completa dos longas do diretor no início deste ano – mas ao mesmo tempo mergulhamos numa atmosfera cheia de frescor e autenticidade.

Num futuro próximo, a raça humana evoluiu em certos aspectos fisiológicos anormais, como a perda da sensação de dor e desaparecimento de infecções, doenças, enquanto alguns indivíduos experimentam até mesmo o crescimento de novos órgãos no interior de seus corpos. Dando origem à pessoas que utilizam essa capacidade de modificação corporal como forma de expressão artística.

O que de certa forma é a base do body horror que o Cronenberg abordou ao longo da carreira. E é o que me faz acreditar que Saul Tenser (Viggo Mortensen) seja uma espécie de alter ego do próprio Cronenberg. Saul é um um famoso artista performático que, em colaboração com sua parceira, Caprice (Lea Seydoux), fazem apresentações ao público de remoção de seus novos órgãos, depois de serem tatuados internamente.

Mas não nos apeguemos muito à trama. CRIMES DO FUTURO é mais uma jornada por esse mundo estranho, experimentando o ambiente doentio do lugar, sentindo sua realidade, tecnologias e organizações estranhas que vamos encontrando no caminho. Como o recém formado Órgão de Registro Nacional, que tenta catalogar os novos órgãos que crescem nas pessoas (onde trabalha a personagem da Kristen Stewart). Ou a figura de Lang, um sujeito que convence Saul a usar o corpo de seu filho morto em uma apresentação de autópsia ao vivo, porque o sujeito acredita que o hábito de seu filho de comer plástico foi uma mutação natural que marca um próximo estágio da evolução humana. O próprio Tenser tem seus segredos como informante de um detetive, um oficial da New Vice, que investiga esse universo de mutações… Ou algo do tipo. Sei lá.

Nesse universo, a busca da emoção se dá através de experiências extremas, resumidas na frase “cirurgia é o novo sexo“: incisões, mutilações, enxertos, autópsias… CRIMES DO FUTURO é um mergulho nas entranhas do corpo, que pode ser visto como uma consequência transumanista de VIDEODROME e EXISTENZ, cujos conceitos estabelecidos a partir do vídeo e da realidade virtual são substituídos pela arte contemporânea. O novo “Long live the new flesh” é bem mais palpável e a cirurgia é, de fato, o novo sexo.

Cronenberg já havia abordado os desvios e a possível evolução da sexualidade com sua obra-prima, CRASH, mas aqui ele explora outros caminhos, mais viscerais e sombrios. Até porque é no interior do corpo que se fixará a beleza. Literalmente a “beleza interior”.

Surpreende ver o quanto desse mundo é coerente e como aceitamos todas as aberrações da coisa de boa. Acreditamos nesses personagens, nessas invenções sórdidas, e mergulhamos de cabeça no ritmo estranho e lento, nos longos diálogos e falatórios inusitados, nas situações improváveis – da ejaculação precoce na prática do “sexo velho” ao zíper para acesso direto aos órgãos. Ainda é preciso talento para nos fazer aceitar tão rapidamente esse tipo de coisa sem parecer bizarrices fúteis, afetadas e vazias.

Mas aqui, às vésperas de ser octogenário, Cronenberg demonstra mais uma vez que não perdeu o brilho. Menos rítmico e mais teórico, algo que já se via nos seus filmes anteriores, mas ainda capaz de nos encantar com suas obsessões, principalmente por se tratar a um retorno ao body horror, e criar imagens que causam desconforto. Só espero que não fique tanto tempo sem filmar de novo. Mas se for realmente seu último trabalho, fechou com chave de ouro.

SAMARITANO (2022)

Preciso voltar a cobrir umas coisas recentes, acho que vai me manter mais ocupado aqui no blog. Nem que seja pra falar mal de uns filmes de ação meia boca, como é o caso de SAMARITANO (Samaritan), último veículo de ação do Sylvester Stallone, dirigido por um tal Julius Avery, produção da MGM lançado direto no Amazon Prime.

Meu amor pelo Sly nunca vai cessar, o cara simplesmente é um dos responsáveis por me fazer gostar de cinema. No entanto, o cara só deu bola fora nos últimos anos. Vai tomar no c#@&! Qual foi o último grande filme do Stallone? Acho que “grande filme” é até injusto… Deve ter mais de 10 anos que o sujeito não protagoniza algo desse porte. Então, ok, qual foi o último BOM veículo de ação do homem? Eu respondo: ESCAPE PLAN, de 2013. É tempo pra burro…

RAMBO – LAST BLOOD (2019) foi decepcionante e as continuações de ESCAPE PLAN (HADES, de 2018, e THE EXTRACTORS, de 2019) são nível dos piores DTVs que temos atualmente. Nem falo nada de BACKTRACE (2018), porque é simplesmente pavoroso. E não vou contar com CREED (2015), porque ele não é o personagem central (mas sim, aqui temos o bom e velho Sly no seu melhor). Enfim, SAMARITANO até acho melhor dos que esses últimos veículos do Sly, mas ainda tá muito abaixo do que sabemos que o cara sabe fazer.

Esperava-se algo minimamente divertido quando anunciaram que o sujeito faria um filme de herói. Um herói envelhecido e cansado, tendo que voltar à ativa. Poderia ter uma pegada meio CORPO FECHADO, do Shyamalan, mas brucutu, com pancadaria e muita ação. Nah! Ficou na promessa. Primeiro que o filme é mais focado no ponto de vista de um moleque (Javon Walton) que é obcecado pela lenda do Samaritano, um super herói que combatia o crime pelas ruas da cidade e lutava contra seu irmão gêmeo, Nemesis, que causava o terror no local. Stallone aparece lá depois de meia hora de filme (o tempo de tela dele antes disso é escasso), ele vive um lixeiro solitário, morando num conjunto de prédios de classe baixa – vizinho do moleque, que está convencido de que ele é o velho Samaritano. Na trama, ficamos sabendo que esse herói está desaparecido há mais de vinte anos após um confronto final com seu malvado irmão. O que se sabe é que Nemesis foi morto e o Samaritano desapareceu.

O moleque é um bom garoto, mas tem se envolvido com uma gangue criminosa liderada por Cyrus (Pilou Asbaek), que invade um depósito da polícia e rouba a arma de Nemesis, um poderoso martelo forjado por fogo e ódio, com a intenção de renascer Nemesis e tirar o elusivo samaritano de seu esconderijo.

Então esse moleque acaba sendo o protagonista. Javon Walton até é bom ator, mas dá aquele gostinho de desperdício um filme que Sly poderia desenvolver um personagem, mas na maior parte do tempo é relegado ao status de um coadjuvante sem muita expressão. O roteiro também não ajuda muito em desenvolver algo dramático com mais consistência, em criar um universo mais autêntico nessa cidade fictícia, e a relação que o garoto estabelece com Sly é bem genérica. Aliás, quase tudo no filme é genérico, e o que poderia ter sido um sopro de frescor para o cânone dos filmes de super-heróis atuais é, lamentavelmente, uma mediocridade que tenta se beneficiar da figura e carisma de Sly.

Quando o filme resolve botar pra quebrar na ação, já é meio tarde demais. Mas aqui é preciso fazer um elogio. No clímax, temos Sly encarando vários bandidos com seus super poderes, dá até pra chamar de uma boa sequência de ação. Dá pra dar um gostinho do que o filme poderia ter sido em mãos mais competentes. Até a grande reviravolta no final, apesar de previsível, é bem colocada.

Acredito que um pouco dos problemas de SAMARITANO seja até falta de orçamento pra fazer algo mais movimentado (a produção sofreu também com algumas paralizações durante a covid, era pra ter sido lançado ainda em 2020). Não tô dizendo que é um filme barato. Dá pra ver que não foi filmado a toque de caixa num fim de semana, mas também não tem a grandeza visual que esse tipo de material exigia, levando em consideração que não tem uma pegada mais séria. Mas não é desculpa pra fazer algo tão sem graça, tão desinteressado em abordar esse universo de super heróis; ou um drama mais contundente sobre um herói mais humano e envelhecido. Falta uma melancolia… O que temos é clichê dos mais rasteiros e uma traminha que demora muito pra ganhar força.

O próximo projeto do Sly é TULSA KING, uma série de máfia, cujos trailers me agradaram bastante. Acho que o formato pode contribuir pra termos um Sly mais comprometido com um personagem como há muito tempo não víamos. Boto fé. E vamos ter tbm OS MERCENÁRIOS 4, que aparentemente vai ser a despedida do Sly na série, passando o bastão pro Jason Statham. Tudo bem, contanto que o filme seja bom e não seja na mesma linha que aquela porcaria d’OS MERCENÁRIOS 3.

O fato é que Sly tá velho, cansado e cada vez mais desinteressado em fazer filmes. Perdeu boas oportunidades também de se consolidar como diretor (embora os poucos filmes que dirigiu tenham demonstrado que o homem é um talento acima da média no cinema americano) e agora me parece tarde demais pra tentar algo novo. Fica fazendo esses filmecos usando sua figura icônica pra atrair seus fãs, mas o resultado, pelo menos nos últimos tempos, tem decepcionado bastante.

E SAMARITANO decepciona. Não que eu esperasse muita coisa, já sou galo véio e pelo histórico recente do sujeito as chances de sair algo fraco era grande. Mas sempre pinta uma centelha de esperança. Não foi dessa vez.

O SUPER-HOMEM ATÔMICO (1975)

Uma das bobagens mais divertidas que vi nos últimos dias foi esse O SUPER-HOMEM ATÔMICO (The Inframan ou The Super Inframan), uma prova de que nem só os japoneses sabiam fazer Tokusatsus autênticos. A tradição pode até ser dos japoneses, que em meados dos anos 70 estavam fazendo sucesso com esse tipo de material, filmes e seriados de ficção científica povoados por super-heróis, monstros e muitos efeitos especiais, mas os chineses tentaram demonstrar que um estúdio de Hong Kong – no caso deste aqui foi ninguém menos que a rapaziada da Shaw Brothers – também poderia se sair bem… E deu muito certo.

Na trama, a Terra foi invadida por uma variedade de monstros coloridos, liderados por uma tal princesa Elzebub. Essas criaturas podem ter vindo do espaço sideral, mas os cientistas acreditam na possibilidades de serem indivíduos que viveram aqui na Terra mesmo antes da última Idade do Gelo, vinte milhões de anos atrás. Mas isso pouco importa… O que vale mesmo é que os monstros causam o terror por aqui.

Felizmente a Terra não está sem esperança, pois um cientista tem trabalhado por um bom tempo num projeto chamado Inframan, que consiste numa espécie de homem biônico, que terá superpoderes incríveis e será páreo para qualquer monstro. Um dos assistentes do cientista, Rayma (Danny Lee, um dos protagonistas de THE KILLER, do John Woo), é o escolhido para se tornar o Inframan!

Os monstros tentam sabotar o laboratório de qualquer jeito. Sequestraram um dos assistentes do cientista e o transforma em uma espécie de zumbi. Isso dá aos monstros um aliado dentro do próprio laboratório secreto onde está o projeto Inframan. As coisas ficam ainda piores quando a filha do cientista também é sequestrada pelos monstros. E apenas Inframan pode salvá-los.

E aí, O SUPER-HOMEM ATÔMICO é ação praticamente ininterrupta e pancadaria até o fim. E, claro, com direito à muito kung fu, já que estamos num Tokusatsu made in Hong Kong. Há muitos lasers, explosões, perseguições, os monstros podem de repente ficar gigantescos, assim como o Inframan também pode, sem qualquer tipo de satisfação ao espectador. O tipo de filme que possui todos os elementos pra agradar o seu público. O visual dos monstros são bregas, com trajes de borracha, mas adoráveis. Os efeitos especiais são datados, mas são extremamente bem feitos para o período. E os vários cenários onde a trama e as batalhas se passam são perfeitos pro tipo de filme que temos aqui.

O diretor Shan Hua mantém o clima leve e a ação rolando solta. Não é o tipo de obra que faz grandes exigências aos atores, mas dá pra perceber que o elenco pegou o espírito da coisa. A atuação pode não ser sensacional, mas é enérgica. Destaque para um certo coadjuvante chamado Bruce Le (último frame acima), que é um dos principais nomes da Brucesploitation.

O resultado final de O SUPER-HOMEM ATÔMICO é uma mistura fascinante e divertida do espetáculo que a Shaw Brothers sabia proporcionar com a bobagem de filmes de monstros japoneses que fizeram a cabeça da molecada na TV dos anos 70 e 80. Vale uma conferida.

O MENSAGEIRO DA VINGANÇA (1963)

Eu não poderia deixar passar em branco por aqui uma pequena homenagem ao grande Henry Silva, que morreu na semana passada. Uma dessas figuras do cinema de gênero que sempre tive em alta conta, desses atores que sempre me fazem abrir um sorriso seja lá que tipo de filme esteja envolvido. Coadjuvante em westerns americanos, protagonizando policiais na Itália ou fazendo vilões maquiavélicos em filmes de gente como Burt Reynolds, Chuck Norris e Steven Seagal… O cara era foda.

Mas hoje assisti a O MENSAGEIRO DA VINGANÇA (Johnny Cool), uma das raras produções americanas estreladas pelo Henry Silva. Não é um grande filme, mas é peculiar para o período que foi feito. Um bom gangster movie jazzístico e bem movimentado que vale sobretudo pela atuação do homem, estoica e com aquela cara esculpida que sempre teve o magnetismo que fez a sua figura.

Dirigido por William Asher e baseado no romance de John McPartland “The Kingdom of Johnny Cool“, o filme transcende seu título original no termo cool (que simboliza um personagem legal, frio, indiferente), para entregar um noir tardio mais sombrio e violento.

Evidente que estamos em 1963 aqui, então violento pelo menos para os padrões da época, em termos de contagem de corpos e assassinatos que o personagem principal, o tal Johnny Cool de Henry Silva, comete durante sua jornada.

O MENSAGEIRO DA VINGANÇA começa na Itália em 1943, quando soldados nazistas tentam abusar de uma jovem acompanhada de seu filho. O resgate chega tarde demais e o menino pega uma arma que agora se torna sua “família”.

Duas décadas depois, o menino com a metralhadora se tornou Salvatore Giordano (Silva), o benevolente senhor da guerra que protege sua província. Durante um casamento num vilarejo, o local é invadido por soldados e ele é perseguido pelas colinas de helicóptero até ser finalmente abatido por um tiro do alto. Mas não é o fim, os policiais o substituem por um outro homem que acaba sofrendo o destino sumário planejado para ele.

Despertando em Roma na luxuosa mansão de Johnny Colini (Marc Lawrence) – um mafioso no exílio – Salvatore é persuadido a se tornar o anjo vingador de Johnny nos Estados Unidos, utilizando até mesmo seu próprio nome. Uma vez que este substituto do real Johnny “Cool” tenha cuidado dos negócios, ele herdará o império de Colini. Salvatore está morto. Mas agora vive Johnny Cool.

O sujeito parte para os Estados Unidos e começa a se infiltrar no submundo do crime tocando o terror. Chantagens, ameaças e morte sem remorsos. Ao mesmo tempo, os olhos de Johnny pousam em Dare Guinness (Elizabeth Montgomery, famosa pelo seriado A FEITICEIRA), uma mulher entediada que vê em Johnny algo real. Embora tenha um charme que desmente sua verdadeira faceta de assassino frio. Os dois se apaixonam, mas é só questão de tempo até que seu passado e presente alcancem o futuro dos dois.

Ao longo do caminho, há participações especiais de algumas figuras que tornam O MENSAGEIRO DA VINGANÇA mais interessante. Telly Savalas entra em cena e é apresentado como Vincenzo ‘Vince’ Santangelo, o líder da máfia local. Alguns integrantes do Rat Pack (grupo de artistas que fizeram sucesso na cultura pop do período, e no cinema fizeram, entre tantas coisas, ONZE HOMENS E UM SEGREDO) dão as caras por aqui, como Joey Bishop, que surge como um vendedor de carros usados, e Sammy Davis Jr. ostentando um tapa-olho numa das melhores sequências do filme. Peter Lawford não aparece, mas ele foi produtor do filme. E vale destacar a pequena participação de Elisha Cook Jr.

Nem todos chegam ao final do filme… O fato de ter algumas presenças do Rat Pack não torna O MENSAGEIRO DA VINGANÇA menos sombrio. O filme retrata uma vida rodeada por morte e por homens que não têm escolha a não ser matar ou morrer. Sem qualquer glamour em relação à máfia, algo que sempre foi meio habitual.

Não é um filme perfeito, lá pelas tantas percebe-se que a trama se estende mais que deveria e começa a se complicar na própria simplicidade do enredo. Mas mas ainda é uma experiência interessante pela proposta de um filme cru e brutal no período em que foi lançado. Tem visual bacana e a trilha sonora é maneira. E há a performance soberba de Henry Silva, que convence no olhar de seu personagem a sua essência amoral e um código de honra que o separa dos homens que ele quer destruir.

Henry Silva tem uma filmografia linda, cheia de preciosidade nos mais variados gêneros. Não vamos encontrar muito protagonismo dele em solo americano, o que é uma pena, mas pra quem for explorar os polizieschi vai se esbaldar de Henry Silva badass. O cara sem dúvida alguma deixou sua marca em cada produção que esteve, seja como protagonista, coadjuvante ou pequenas participações em filmes B dos anos 90. Fica a dica de O MENSAGEIRO DA VINGANÇA por hora. E viva Henry Silva!

HELL HUNTERS (1988)

De vez em quando é legal ir às cegas num filme. Já encontrei muitas pérolas desse jeito. De vez em quando encontra-se também umas porcarias que mereciam continuar no limbo. É o risco que se corre… E eu não fazia a menor ideia do que ia encontrar por aqui em HELL HUNTERS.

Nunca tinha ouvido falar desse filme, mas olhei a capinha dando sopa num streaming, aquele aspecto de filme de ação na selva dos mais vagabundos dos anos oitenta – algo que não resisto – e alguns nomes no elenco me chamaram a atenção: Stewart Granger, Maud Adams, George Lazenby, William Berger… Resolvi arriscar. Tive sorte? Um pouco… O filme não é nenhuma joia, mas também não é abominável. Não diria nem que é um bom filme, mas valeu a pena conhecer essa tralha que até tem suas peculiaridades.

Stewart Granger – que já tava nas últimas aqui, mas que fez de tudo um pouco na Hollywood clássica – interpreta um cientista nazista chamado Martin Hoffmann, fugitivo que se esconde há quatro décadas desde o final da Segunda Guerra Mundial no Paraguai. Em suas experiências locais, ele descobre aranhas cujo veneno poderia ser aplicado em indivíduos, criando um super soldado e, assim, formar um exército indestrutível.

Maud Adams – uma das poucas atrizes a se tornar Bond Girl duas vezes (em O HOMEM COM A PISTOLA DE OURO e OCTOPUSSY) – vive uma caçadora de nazistas que está no encalço de Hoffman e se casa com o sobrinho dele, interpretado por William Berger, bem aqui no Rio de Janeiro, para se aproximar do nazista. E tome imagens de carnaval, moças de topless e das praias cariocas…

Quando Hoffmann descobre as reais intenções da mulher, ele bota seus capangas para eliminá-la.

Ao ficar sabendo do destino de sua mãe, morta logo após seu casamento, Ally (Candice Daly), que é a verdadeira protagonista do filme, vem para o Brasil para investigar o que realmente aconteceu. Durante sua jornada, a jovem se vê inserida nas selvas implacáveis ​​do Paraguai ao lado de Tonio (o ator brasileiro Rômulo Arantes), um caçador de nazistas arrogante, mas bom de tiro, que trabalhava com a mãe de Ally e a ajuda em sua vingança. Aí acontece o clássico “os opostos se atraem”, com os dois personagens brigando sobre suas diferenças antes de se apaixonarem loucamente.

E à medida que se aproximam da localização de Hoffman, o nazista e seu parceiro no crime, Heinrich (outra ligação do filme com 007, já que este aqui é vivido por George Lazenby, o segundo James Bond), estão planejando levar o tal soro de aranha pra Los Angeles.

Daí já dá pra perceber que foi-se por água abaixo uma das coisas que me fizeram parar pra assistir HELL HUNTERS. George Lazenby não tem lá muito tempo de tela; William Berger tem um pouco mais, mas nada muito expressivo… E Maud Adams é assassinada com menos de trinta minutos. O grande vilão da trama, Stewart Granger, cujo personagem é obviamente inspirado na figura de Josef Mengele, só aparece em alguns momentos pontuais da narrativa.

Não me levem a mal, essa rapaziada tá ótima aqui, mas eu só queria um pouco mais tempo de tela de cada um. Agora, uma coisa que realmente decepciona é que a ideia do tal exército criado fruto dos experimentos de Hoffmann com veneno de aranha acaba sendo uma oportunidade perdida. O plano do cara nunca é levado adiante, então nunca vemos o alcance total do poder do soro.

O que acompanhamos de verdade em HELL HUNTERS, no entanto, não é totalmente de se jogar fora. Candice Daly e Rômulo Arantes conseguem ter algum tipo de química e os outros personagens que vão se juntando a eles acabam criando uma galeria de figuras inusitadas.

E é o tipo de filmes que oferece uma boa dose de ação, com vários tiroteios (incluindo um no funeral da personagem de Maud), explosões e perseguições nas selvas sul americanas, o tipo de coisa que importa. Destaque para a sequência que Maud é perseguida num aeroporto do Rio pelo ator brasileiro Eduardo Conde, que faz um dos principais capangas de Hoffmann.

Há também uma sequência de sexo totalmente gratuita entre os dois jovens protagonistas numa cachoeira. O que nunca é algo descartável…

HELL HUNTERS foi o último trabalho de um diretor austríaco chamado Ernst R. von Theumer, que não possui muitos filmes no currículo, mas que basicamente colocou seus esforços em cinema de gênero na Europa durante as décadas que trabalhou. Aqui, o sujeito joga na tela um pouco de tudo dentre os ingredientes do cinema de exploração só pra ver o que pega. Nem tudo funciona, mas há uma consciência de que isso aqui não tem pretensão alguma de concorrer a um Oscar. Então tem seu charme, há sempre algo maluco ou pelo menos levemente interessante acontecendo. E os momentos que os principais coadjuvantes aparecem ajudam.

É como eu sempre digo sobre esse tipo de produto, HELL HUNTERS não é um filme particularmente bom, mas tem o suficiente pra divertir o seu público definido. Não é chato, não chega a 100 minutos, é feito de forma honesta e barata, com seus vários problemas e imperfeições.

HELL HUNTERS tá disponível de graça no Tubi TV pra quem quiser dar uma chance. Não tem legendas em português, mas nem tudo nessa vida é perfeito…

FORÇA CRUEL (1982)

Por trás de um título nacional meio genérico como FORÇA CRUEL (Raw Force) esconde-se uma pequena preciosidade do cinema exploitation americano-filipino oitentista que precisa urgentemente ser redescoberto. Na verdade, tenho certeza que todos vocês já, no mínimo, ouviram falar ou leram sobre esse petardo. Se não, agora é a hora. E não se preocupem, podem acusar o filme de qualquer coisa, mas genérico é algo que ele não é.

Na trama, um grupo de praticantes de artes marciais embarca numa aventura num pequeno cruzeiro pelo Pacífico, pros lados das Filipinas, que promete ser, digamos, muito agradável. A começar pelo capitão da embarcação ser interpretado por ninguém menos que Cameron Mitchell.

Exibições de artes marciais, uma paradinha na cidade pra compras, bar de striptease, bordéis e uma festinha em alto mar cheia de moças de topless são alguns atrativos. O básico de um bom cinema de exploração. Mas um dos principais destaques desse passeio é visitar uma tal Ilha do Guerreiro, que dizem ser local sagrado, onde grandes mestres das artes marciais estão enterrados. Só alegria.

Outra atividade local é ser um ponto de operação de tráfico de mulheres em troca de pedras de jade entre um sujeito com bigodinho de Hitler – e seus capangas motoqueiros nazistas – com uma ordem de monges canibais que acredita ter o poder de ressuscitar os mortos ao comerem carne das jovens.

Eventualmente, toda essa rapaziada acaba na Ilha do Guerreiro, onde acontece uma batalha envolvendo os turistas das artes marciais, os traficantes nazistas de mulheres, os monges canibais e até os zumbis guerreiros que estavam enterrados ali e que ganharam vida novamente…

Sim, FORÇA CRUEL é tão bom que parece uma produção do Roger Corman ou dirigido pelo mestre do cinema grindhouse filipino Cirio H. Santiago.

Mas essa impressão tem força sobretudo pela presença de atores como Vic Diaz, que tá em quase tudo que o Cirio H. Santiago fez, e Jillian Kesner, que estrelou o clássico FIRECRACKER, que comentei por aqui há um tempinho. No entanto, FORÇA CRUEL não tem nada de Cirio nem do Corman (exceto por algumas imagens de arquivos das paisagens filipinas que a New World Pictures, do Corman, forneceu para esta produção), mas pra quem espera encontrar uma série de elementos típicos do cinema de exploração filipino que esses caras faziam nesse período, numa trama que só serve a este pretexto, o diretor estreante Edward Murphy nos entrega tudo particularmente bem.

Um monte de coisa bizarra tá incluída no cardápio como podem ter notado na sinopse. É até difícil listar a quantidade de absurdos; e mesmo sendo um filme que não necessariamente brilha por sua coerência narrativa, sabe trabalhar os elementos que agradam o seu público específico. E o essencial: com um ritmo que nunca diminui. Uma verdadeira metralhadora dos ingredientes do cinema grindhouse, com a total negligência assumida por um realizador que sabe muito bem que o seu filme não é uma obra-prima.

Mas é quase lá, dependendo do seu bom gosto pra cinema.

Tudo é realmente pensado para deixar as coisas boas que o cinema de exploração tem a nos oferecer. E, o melhor, com humor, sem se levar muito à sério – basta a longa sequência da festinha no barco, que tem o tom das melhores comédias oitentistas, cheia de personagens e situações cômicas pra gerar boas risadas – mas sem nunca tentar parecer um filme bobo. É tudo bem consciente, bem escrito… Er… “Bem escrito” é uma expressão forte, mas tudo funciona tão bem…

Até teria sido fácil tentar fazer uma espécie de autoparódia de, sei lá, filmes de artes marciais em ilhas exóticas. Mas paródias são geralmente muito menos divertidas da coisa real, consciente, que é o que temos em FORÇA CRUEL. Existe uma linha tênue entre maluquice e estupidez, e Edward Murphy é um maluco de primeira linha. O filme inteiro é uma coleção de momentos genuínos de humor, com diálogos que são autênticas pérolas, várias situações com um toque de comédia involuntária, tudo misturado a instantes absurdos de violência e gente pelada. E é o que torna isso aqui simplesmente mágico.

No quesito ação, temos MUITAS sequências de pancadaria, que são decentes até certo ponto. As pessoas lutam em todo lugar – clubes de striptease, cemitérios, barcos – você escolhe. A parte do ataque à embarcação, logo depois da festinha, é bem divertida, tem até alguma coreografia e certa criatividade, é uma das melhores do filme, com destaque para a sequência que uma moça completamente nua está amarrada numa cama, num quarto apertado, enquanto rola uma pancadaria à sua volta.

A ação que acontece no cemitério, já na tal ilha, é outro petardo dentro do filme, cheia de momentos notáveis. E, claro, a ação final, quando os zumbis samurais, ninjas e guerreiros de todas as espécies pintados de cinza aparecem pra dar trabalho para os nossos heróis fecha o filme lá em cima, com chave de ouro. É tudo muito doido, mas que faz valer a experiência de assistir algo único como FORÇA CRUEL.

Temos um elenco divertido para apreciar. Um monte de gente que não conheço, mas que parecem estar se divertindo; temos a já citada Jillian Kesner, que é boa de porrada… Mas nada se compara com o grande Cameron Mitchell marcando presença bem mais que o habitual nesse período, mostrando todo seu entusiasmo, claramente embriagado em todas as cenas que aparece. O grande Vic Diaz também se destaca como monge malvado. E por ser um monge malvado ele ri muito. Por quê? Não faço a menor ideia, mas toda vez que ele faz isso é fantástico. E Ralph Lombardi tá bem engraçado como o Hitler fake, com seu terno branco, sotaque ruim e o olho trêmulo sequestrando mulheres filipinas nuas…

Sem grandes arcos dramáticos, redenções, estudos sociais, filosóficos, psicológicos, contextos políticos… FORÇA CRUEL é apenas uma bagunça majestosa em forma de filme. Quero dizer, é uma obra que apenas joga tudo o que é possível no liquidificador e o resultado é fascinante, um épico do mau gosto cinematográfico que funciona lindamente para paladares finos que apreciam cinema exploitation. Só faltou uns robôs, alienígenas e vampiros saltitantes.

Obviamente FORÇA CRUEL não é recomendável ao cinéfilo brioche que só assiste Truffaut e Bergman… Mas os apreciadores de uma tralha vão aproveitar este festival de nudez, violência e várias bobagens que ele proporciona. O único problema grave é que o filme termina com um letreiro dizendo que teria uma continuação. nunca aconteceu, o que é uma pena…

THE BLADE (1995)

Tsui Hark tem uma filmografia das mais fodas que eu conheço. Longa e cheia de maravilhas. Mas acredito que, dentre tudo que realizou, nada se compare a THE BLADE. Era uma impressão que eu já tinha quando assisti há uns 15 anos e que se confirma agora. Mas é curioso revisitá-lo depois de tanto tempo. Quando vi pela primeira vez eu ainda estava tateando o cinema de artes marciais de Hong Kong, não tinha ideia de suas possibilidades e pelo que lembro nunca tinha visto nada do Hark (a não ser os filmes que ele fez com o Van Damne). Mas já havia achado uma lindeza.

Agora, com um bocado mais de bagagem, me impressiona como é um filme capaz de devastar com as expectativas, com suas imagens de selvageria poética em sequências de ação espetaculares flertando com o experimental. Foi como se estivesse assistindo pela primeira vez. Sim, continua uma obra-prima e representa o auge da habilidade de Tsui Hark como diretor.

THE BLADE chegou no final de um ciclo de filmes de artes marciais que o próprio Tsui Hark havia contribuído, com THE SWORDSMAN em 1990. A maioria dessas obras eram basicamente remakes de clássicos da Shaw Brothers dos anos 1960 e 70 (este aqui mesmo é uma releitura de THE ONE-ARMED SWORDSMAN, do Chang Cheh, que é maravilhoso e ainda quero comentar por aqui), mas infundidos com técnicas avançadas de wirework (as cordinhas que os atores ficam pendurados em cenas de ação), que não eram possíveis vinte ou trinta anos antes, e muitas vezes apresentando acrobacias bem mais exigentes fisicamente, além de proficiência em artes marciais de nomes como Donnie Yen e Jet Li.

Dezenas de filmes de espadachim/fantasia (também conhecidos como Wuxia) inundaram os cinemas mostrando muita energia e criatividade de cineastas experientes que pareciam estar correndo contra o tempo para filmar o máximo possível antes da transferência de Hong Kong para a China em 1997, quando se pensava que a pesada regulamentação governamental da indústria cinematográfica começaria. No entanto, por volta de 1995, depois de uma leva de criatividade, as ideias para o gênero finalmente pareciam estar se esgotando.

Mas aí veio THE BLADE, com um novo sopro de criatividade, demonstrando que ainda era possível realizar algo com um toque de genialidade… Em retrospecto, THE BLADE é um trabalho visionário que lança o gênero em um mundo mais tátil de ação visceral e distante do conceito do guerreiro nobre vestido de branco que povoou os primeiros clássicos Wuxia. Só pra ter uma noção, o filme abre com um grupo de bandidos numa paisagem árida e decrépita observando um cachorro ser decapitado numa armadilha de urso… Até mesmo os épicos de kung fu de Hark de alguns anos antes, como ERA UMA VEZ NA CHINA, acabam parecendo paraísos idílicos de frivolidade em contraste com este aqui.

Principalmente na ação, THE BLADE é um troço absurdamente ousado… A câmera quase joga o espectador dentro das lutas, sempre colada no olho do furacão da ação e até mesmo presa a corpos e objetos enquanto eles rolam, saltam, lutam, tudo atrelado a uma edição rápida, movimentos de câmera frenéticos, coreografia feroz e composições repletas de ritmo, textura e detalhes.

Tudo é um turbilhão de imagens desorientadoras e movimentos acelerados em que Hark equilibra com os cenários quase sempre filmados em ângulos oblíquos. Na real, isso aqui vira praticamente cinema experimental, com planos abstratos, borrões formados por corpos, espaços e movimentos numa edição super agressiva… E o público tem que ser ágil para acompanhar tudo que acontece na tela. Não dá pra piscar. Mas a experiência de ver um dos melhores diretores de ação do mundo no seu auge é algo indescritivelmente extasiante.

Fortes personagens femininas é uma das coisas que não faltam no cinema de Hark. THE BLADE é narrado por Ling (Sonny Song), que dá um toque lírico ao típico enredo de vingança, cujo resultado poderia sair qualquer coisa mais tradicional, mas que ganha força com uma subtrama própria que mostra como as mulheres tentam se encontrar em um mundo dominado pela agressão masculina. Ling é filha de um mestre fabricante de espadas que brinca com os afetos de dois empregados de seu pai em uma cidade fronteiriça no árido território ocidental da China.

Um deles é Ting On-man (Vincent Zhao) que é o escolhido para ser o sucessor do mestre na fábrica, o que lhe atrai muita desconfiança, até de seu melhor amigo Iron Head (Moses Chan), que é o outro interesse romântico de Ling. Mas On-man tem uma jornada própria de vingança à seguir depois de descobrir a verdade sobre o seu passado e sobre a morte do seu pai.

A coisa esquenta mesmo quando On-man, Iron Head e outros trabalhadores da fábrica de lâminas são levados a um confronto sangrento com bandidos saqueadores que mataram de forma brutal um monge, numa sequência espetacular de movimentos de câmera e sons de ossos quebrados. O monge grandalhão consegue lidar facilmente com um número maior de bandidos, mas eles lutam sujo e o emboscam com as tais armadilhas de urso.

Armas que entram em jogo novamente numa das melhores sequências do filme, quando On-man enfrenta os bandidos sozinhos no acampamento de bambus, e que acaba com o protagonista dominado enquanto tenta salvar Ling. É aqui que ele perde o braço direito depois que fica preso em uma dessas armadilhas.

On-man consegue fugir e acaba cuidado por uma jovem órfã que vive numa casa isolada. Considerado morto pelos colegas, o rapaz tenta encontrar uma nova vida suportando todo o tipo de desprezo. Ele inicialmente enterra a espada quebrada (à qual o título se refere) deixada por seu pai. Mas ao encontrar um manual de kung fu, ele começa a treinar um estilo inusitado no qual adapta para lutar com um braço só, aperfeiçoando um ataque giratório e saltitante, aumentado por uma corrente que ele prende à lâmina quebrada para chicotear os adversários.

On-man eventualmente volta sua atenção para encontrar Flying Dragon (Hung Yan-yan), o homem todo tatuado que matou seu pai e que agora ameaça a fábrica de espadas de seu antigo mestre. O confronto feroz de On-man com Flying Dragon no final do filme é de tirar o fôlego, uma das mais brutais lutas de espadas da história do cinema.

Vale destacar que o design de produção de THE BLADE é de William Chang, colaborador de Wong Kar-Wai, que havia feito o seu Wuxia um ano antes, ASHES OF TIME (1994). E é impossível não notar algumas similaridades visuais. O trabalho de Chang aqui é de encher os olhos, tudo é ricamente detalhado pra criar um universo sujo, apodrecido e visceral. Os personagens não voam como de costume no mundo marcial tradicional do Wuxia, e em vez disso eles têm os dois pés plantados na lama e seu vôo é substituído por saltos giratórios e uma velocidade absurda, quase sobrenatural, que é ainda mais inspiradora pelo atletismo que exige. E nesse sentido, Vincent Zhao impressiona. Ator subestimado, apareceu tarde demais para se beneficiar totalmente do boom do cinema de kung fu. Dá pra encontrar coisas boas protagonizadas por ele, mas geralmente seus filmes são inferiores em comparação com um Donnie Yen, Jet Li, Jackie Chan, etc… Mas pelo menos, o cara tem THE BLADE no currículo, simplesmente um dos melhores filmes que Hong Kong já produziu.

O casamento perfeito da ação clássica das artes marciais com uma perspectiva moderna, experimental e desconstrucionista do gênero, e ainda assim, Hark tenta agradar um público mais amplo. Mesmo com a direção ousada, THE BLADE contempla a própria essência dos filmes de espadachim no que há de mais popular. É nesse equilíbrio entre poesia e selvageria, arte e diversão, que Hark sustenta perfeitamente o seu cinema. Obrigatório não apenas aos apreciadores de filmes de artes marciais, mas também pra quem ama cinema de uma forma geral.

14 anos na tela…

E continuamos aqui, firme e forte… Quero dizer, nem tão firme e nem tão forte quanto antes, mas só do blog não ter morrido durante esse tempo todo, já é alguma coisa. Continuamos.

Pra comemorar, um top 10 atual dos meus filmes favoritos do coração*.

10. FERVURA MÁXIMA (Hard Boiled, 1992), de John Woo

09. A ESTRADA PERDIDA (Lost Highway, 1997), de David Lynch

08. CRASH – ESTRANHOS PRAZERES
(Crash, 1996), de David Cronenberg

07. ERA UMA VEZ NA AMÉRICA
(Once Upon a Time in América, 1984), de Sergio Leone

06. O PODEROSO CHEFÃO – PARTE III
(The Godfather: Part III, 1990), de Francis F. Coppola

05. TAXI DRIVER (1976), de Martin Scorsese

04. APOCALYPSE NOW (1979), de Francis F. Coppola

03. O PORTAL DO PARAÍSO (Heaven’s Gate, 1980), de Michael Cimino

02. TRÊS HOMENS EM CONFLITO
(The Good, the Bad and the Ugly, 1966), de Sergio Leone

01. FOGO CONTRA FOGO (Heat, 1995), de Michael Mann

*Filmes vistos ou revistos nos últimos cinco anos.

DELTA HEAT (1992)

DELTA HEAT era pra ser uma série de televisão que acabou não despertando muito interesse dos produtores. Nem quando ainda estava no papel. Então, o roteiro do piloto foi estendido pra ser se tornar este longa, totalmente esquecido atualmente, mas que vale uma descoberta. Até porque eu não resisto em indicar um filme que é basicamente um buddy cop movie estrelado pelo Anthony Edwards (MIRACLE MILE), com mullets e brinquinho pendurado no formato de algemas, e principalmente o Lance Henriksen (O ALVO), como um ex-policial badass, com um gancho no lugar de uma das mãos.

Situado nos pântanos da Louisiana, em DELTA HEAT temos Mike Bishop (Edwards), um policial de Los Angeles que viaja até o local para descobrir quem matou seu parceiro, também de LA, que estava na cola uns traficantes de drogas. A sequência inicial, que mostra o assassinato do policial é um primor de iluminação, cores, enquadramentos e estilização. E não é a toa. A direção do filme é de Michael Fischa. Falo mais dele a seguir…

O assassinato do policial, aparentemente, tem as características de um chefão do crime local chamado Antoine Forbes. No entanto, o que se sabe é que Forbes morreu em um tiroteio anos atrás. E o mistério paira no ar. E como o departamento de polícia local é pouco cooperativo, Bishop é forçado a pedir a ajuda do ex-policial Jackson Rivers (Henriksen), se ele quiser descobrir o que realmente aconteceu e os responsáveis pela morte de seu parceiro.

Digamos que, apesar da trama parecer simples e genérica, DELTA HEAT não é o filme pra quem se preocupa com a verossimilhança dos procedimentos de investigação e resolução de crimes. E acaba sendo prejudicado por complicar demais em vez de fazer o feijão com o arroz do cinema policial. Mas pra quem não se importa muito com isso, há um outro lado… Todo o trabalho de detetive aqui é apenas um pretexto para explorar essas figuras e esgotar ideias e situações de “peixe fora d’água” desse policial yuppie de LA vagando pelos pântanos da Louisiana, tendo que trocar seu terno limpinho toda vez que se suja nas mais diversas situações.

E nesse sentido, DELTA HEAT é até mais interessante do que um filme policial mais tradicional. Henriksen, em especial, deita e rola com seu personagem, um sujeito fascinante, uma espécie de capitão gancho (que perdeu a sua mão com a bocada de um crocodilo) e que possui traumas por também ter perdido seu parceiro quando era policial. E se a química entre ele e Edwards não chega aos pés de um Mel Gibson e Danny Glover, na maior parte do tempo é eficaz, gera situações divertidas, com um humor que se encaixa estranhamente bem.

O filme também tem seus momentos mais calientes… Betsy Russell, musa dos anos 80 em filmes como PRIVATE SCHOOL, protagoniza algumas ceninhas com um toque especial. Sua personagem é filha do chefão que está supostamente morto, e acaba sendo um elo da investigação de Bishop. Mas o policial acaba tendo outros interesses pela mocinha, se é que me entendem. A sequência que ela o seduz, fazendo uma dança sensual com pouquíssima roupa é um dos destaques. E a cena que ela sai da cama completamente nua e passa pelos detestáveis ​​policiais locais que resolveram invadir o quarto é um dos pontos altos do filme. E ela está maravilhosa!

Sobre o diretor, Michael Fischa é um sujeito que filma bem pra cacete e com parcos recursos. Seu CRACK HOUSE (1989), produzido pela Cannon, é obrigatório. Ele fez também o cult de horror DEATH SPA (1988) e a comédia de horror MINHA MÃE É UM LOBISOMEM (1989). O fato desses filmes e DELTA HEAT não terem conseguido mais sucesso é um tanto lamentável, mas valem para demonstrar o talento do homem, um diretor subestimado, que filmou pouco, mas que merecia ser mais lembrado.

Mas vamos deixar claro por aqui que DELTA HEAT não é um MÁQUINA MORTÍFERA ou 48 HORAS. É apenas um bom filme de ação policial, com boa dose de humor. Um buddy cop movie torto, mas assistível e divertido, uma brincadeira memorável graças, sobretudo, aos dois personagens principais, Edwards e Henriksen, uma relação que por si só faz com que DELTA HEAT mereça sua atenção e que supera o enredo policial bobo e falho para oferecer entretenimento o suficiente para se justificar.

No Brasil chegou a sair em VHS com o título A CAMINHO DO INFERNO.

UMA CASA NA COLINA (1993)

Fui assistir a esse filme pelo Michael Madsen, do qual sou grande admirador e acho um talento desperdiçado, mas acabei curtindo UMA CASA NA COLINA (A House in the Hills), pequeno thriller do diretor Ken Wiederhorn (já falo dele mais adiante), mais pela protagonista, Helen Slater.

Quando ela aparece na tela fiquei com a quela impressão na mente “onde já vi essa atriz?“. Fui ao google e pimba, é a Supergirl dos anos 80. Já tinha apagado da memória esse filme, mas quando eu era moleque nos anos 80, devo confessar que a Slater naquele collant azul, a mini saia vermelha, aquele cabelo esvoaçante, combatendo o crime com super poderes, já despertava algumas fantasias precoces…

Eu sei, eu sei, essa provavelmente não é a melhor maneira de começar um texto, sobretudo na época atual em que vivemos, mas eu acho que ainda posso olhar para uma atriz num filme e admirar sua beleza sem parecer um tarado, certo? É difícil, mas dá. Mas não vou transformar isso aqui numa defesa sobre o assunto. O cinema me faz olhar pra essas beldades, como a Helen Slater, num estado de fascinação e contemplação. Mas se você achar que eu sou machista ou sexista pelo fato de uma das razões de ver UMA CASA NA COLINA é a chance de assistir a Supergirl de topless na frente de um espelho por uns trinta segundos, você deve ser um homem melhor do que eu.

Foda-se, vamos ao filme. Slater interpreta uma atriz de Los Angeles que está cansada de trabalhar como garçonete para sobreviver. Com uma audição para o papel numa novela chegando, uma amiga oferece a ela a oportunidade de tomar conta da casa de um casal rico no fim de semana, pra que ela possa ter paz e sossego.

Só que ela não é informada de que um assassinato aconteceu na casa ao lado na noite anterior. E quando os donos da casa vão embora, eles acidentalmente levam a bolsa de Slater com eles, o que significa que ela tem que subir as escadas até o quarto e experimentar algumas de suas roupas… Ei, é um trecho crucial do enredo!

Enfim, o fim de semana da nossa protagonista dá uma guinada para pior quando ela deixa entrar um exterminador de cupins (Michael Madsen) apenas para descobrir que ele é um criminoso querendo, à princípio, extorquir dinheiro do casal rico (a coisa é bem mais complicada que isso). E como ela está vestida com roupas de madame, o sujeito pensa que ela é a dona da casa. Mas à medida que a história se desenrola entre bandido e refém, a situação começa a ficar um bocado romântica, é claro.

Não querendo dizer que a trama realmente melhora, mas para o meu gosto pessoal, que adora umas tralhas sem noção com cara de “Super Cine”, é preciso dizer que ao menos as coisas ficam mais intrigantes quando surge em cena um vizinho pedindo um vinho pra uma festinha. Na verdade, o sujeito se revela o serial killer que está degolando as madames ricas da região. E tudo fica ainda mais caótico quando o casal rico retorna pra casa, gerando uma confusão danada…

A atuação de Slater é bem boa, expressiva, e, como disse, acabei curtindo o filme por conta dela. Mas em termos de talento dramático, obviamente Michael Madsen é quem sabe das coisas. Digo que é um dos atores mais desperdiçados porque sua carreira nunca andou de acordo com o nível do seu talento. Foram os raros momentos em que esteve em produções que realmente lhe exigiam algo a mais (graças, na maior parte das vezes, ao Tarantino) e acabou relegado ao cinema B em centenas de filmes. O que pra mim é algo positivo, porque eu devoro esse tipo de material. Mas o cara merecia mais. É um dos grandes herdeiros do Robert Mitchum ao lado de Mickey Rourke e aqui, se não tem lá uma atuação digna de Oscar (e não tem mesmo), pelo menos ele demonstra bem porque é digno dessa herança Mitchuniana.

Como o filme é basicamente esses dois personagens e a relação que estabelecem nesse único ambiente, o resultado foi divertido de acompanhar.

Sobre o diretor, esse cara de nome estranho, Ken Wiederhorn, surgiu como um talento por trás de obras de terror e suspense como SHOCK WAVES (1977) e EYES OF A STRANGER (1981). Também dirigiu A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 2. Enfim, tem uma filmografia curta, mas com algumas coisinhas bacanas… UMA CASA NA COLINA foi seu último longa e não é exatamente um canto de cisne pra se orgulhar. O filme não tem nada de espetacular. Longe disso. Não é tenso o suficiente, não tem atmosfera, o aspecto é de filme barato feito pra TV, não tem absolutamente nada de mais. Mas tem esses dois atores que eu gosto, tem a Supergirl de topless (e a bunda do Madsen, pra não me acusarem de nada, vou até colocar uma imagem abaixo), então tem pra todo mundo… E pra quem curte um thrillerzinho B, de curta duração, pra passar um tempinho, vale conhecer.

AS AVENTURAS DE GWENDOLINE NO PARAÍSO (1984)

Just Jaeckin é um diretor francês que pode não ter o nome reconhecido imediatamente pela grande maioria, mas é preciso considerá-lo, em alguns nichos, com uma certa importância por conta de alguns trabalhos que realizou na década de 70. E tenho certeza que vocês vão concordar comigo mesmo nunca tendo ouvido falar o nome dele antes. Pois bem, o sujeito é ninguém menos que o diretor do clássico do Cine Privé EMMANUELE (1974), com a Sylvia Kristel. Precisa dizer mais alguma coisa?

Enfim, essa semana assisti ao seu último filme, AS AVENTURAS DE GWENDOLINE NO PARAÍSO (The Perils of Gwendoline in the Land of the Yik Yak ou The Perils of Gwendoline ou apenas Gwendoline,1984), uma aventura que eu já desconfiava que seria excêntrica e sexy por tudo que já li, pelas imagens que vi, pelo diretor e até pela fonte de inspiração da obra… E, olha, todas as expectativas foram atendidas.

A tal inspiração de GWENDOLINE é nas histórias em quadrinhos de John Willie, um artista e fotógrafo pioneiro do erotismo fetichista, editor de uma revista chamada Bizarre, também sobre o tema… Isso lá pela década de 40 e 50. Foi nessa publicação que ele apresentou essa personagem Sweet Gwendoline, a protagonista desse filme aqui. Uma personagem ingênua e virginal, do tipo ‘donzela em perigo’ cujas roupas estão sempre rasgadas, sempre sendo salva por um machão, mas que passa por uma jornada de descobertas de todo o tipo, até encontrar sua força interior para resolver as coisas.

GWENDOLINE é, de certa maneira, mais uma variação das aventuras ao estilo INDIANA JONES E OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA, como tantos outros que surgiram no período – coisas do mesmo tipo de TUDO POR UMA ESMERALDA (1984) e ALLAN QUARTERMAIN E AS MINAS DO REI SALOMÃO (1985). Bom, pelo menos é assim que começa o filme… Somos apresentados a Gwendoline, que ganhou vida na beldade Tawny Kitaen, e sua fiel amiga Beth (atriz e diretora Zabou Breitman). Elas chegam num porto em algum lugar do mar da China, dentro de uma caixa de madeira, sem passaportes ou dinheiro, e não demora muito Gwendoline é sequestrada por gângsters.

Eles querem algo dela, provavelmente vendê-la como escrava branca, mas não falam inglês, então ela não tem ideia do que eles querem. Mas ela fica lá amarrada, amordaçada, algo que vai acontecer algumas vezes durante o filme pra nos lembrarmos das origens fetichistas de John Willie. Então, Willard (Brent Huff, um sujeito que é a cara do Charlton Heston) quebra a janela, mata todos os bandidos – com direito à uma luta com um clone de Bruce Lee – e salva a nossa protagonista. Mas foi apenas sorte dela. Na verdade, Willard tinha algum dinheiro pra cobrar dos gangsters. Resgatar mulheres não é bem a sua linha.

Willard, à princípio, aparenta o típico herói americano de queixo quadrado que você encontraria em histórias em quadrinhos e seriados clássicos de matinê. A diferença é que ele é um filho da puta completo, mercenário e egoísta sem nenhum tipo de pureza heroica. É apenas um aventureiro implacável que não pensa em ninguém além de si mesmo.

No entanto, ele acabou se deparando com essas duas jovens indefesas. Willard não quer nada com elas, já está comprometido com o submundo local. Gwendoline quer procurar o pai caçador de borboletas que está desaparecido, e com muito esforço encontra um jeito de subornar Willard para ajudá-las a se aventurar em Yik Yak, uma terra praticamente desconhecida, que poucos se aventuraram, mas é onde o pai de Gwendoline desapareceu.

Já no início dessa jornada, eles descobrem, através de um colega do velho, que ele havia sido sacrificado por uma tribo selvagem para apaziguar antigos espíritos. Willard parece pronto para desistir, mas Gwendoline quer continuar a jornada e pegar a borboleta mais rara que existe em homenagem ao seu pai.

O que acontece a partir daí, na verdade, além de uma aventura tradicional cheia de perigos, com piratas, tribos canibais, animais famintos, etc, é que também se torna uma jornada de descobertas interiores da jovem Gwendoline mais do que qualquer outra coisa. O contato dela com Willard desperta sentimentos inexplorados e o filme sublinha suas transformações, sobretudo nas questões sexuais, no relacionamento com Willard, mesmo com a dose constante de um humor bem abobalhado que o material propõe.

Uma cena em especial é a que Willard, conduzindo as duas moças pela selva, convence-as a tirarem as camisas e usar o pano para pegar água durante uma tempestade. É uma sequência tola, completamente desnecessária e gratuita, mas é engraçada e destaca o tipo de homem que Willard é e quão frágil é nossa heroína, cegamente atraída pelo sujeito, mas que, em última análise, faz parte do processo de transformação que ela passa no decorrer da aventura até se tornar praticamente uma “guerreira amazona”. E cito as guerreiras amazonas por um motivo especial que já falo a seguir.

Uma coisa que ajuda muito no andamento do filme até aqui são as locações. Jaeckin não é bem um diretor com muita energia na câmera e, obviamente, não consegue obter o melhor de seus atores, que atuam quase de modo cartunesco – o que também contribui para o tom de história em quadrinhos que GWENDOLINE possui. Agora, os cenários são ótimos. Exóticos, com paisagens lindamente filmadas, permitem que as três figuras se movam sem nunca deixar o filme chato. Isso tanto nas locações naturais quanto em estúdio. O plano inicial do filme demonstra bem isso e de cara percebe-se também que é uma produção com um orçamento acima da média.

Orçamento que se confirma logo depois, quando o trio escapa da mesma tribo que selou o destino do pai de Gwendoline e desce para uma enorme fissura num deserto. Aqui o filme transcende para outra coisa. E já não é nem mais um rip

Os três personagens principais são tragados para dentro de um novo universo, até então totalmente desconhecido tanto para eles quanto para quem estava assistindo. O filme não dá qualquer pista para a chegada desse mundo paralelo, um império subterrâneo de guerreiras amazonas (aqui estão elas) governado por uma rainha má (Bernadette LaFont).

A partir daqui GWENDOLINE é quase uma obra-prima. O filme vira um espetáculo sensorial de cenários futuristas repleto de dispositivos de tortura, povoado por mulheres seminuas, com adereços fetichistas, bem condizente com o material que o filme adapta. Uma loucura. A cena da corrida de bigas, por exemplo, puxadas por moças é um toque fascinante (e tenho certeza que é uma espécie de homenagem a BEN HUR e o fato do Willard ser a cara do Charlton Heston, como já disse antes). O grande lance desse local é que fica dentro de uma caverna acima de um antigo vulcão que, segundo a lenda, um dia entrará em erupção e um tesouro em diamantes embutido em seu núcleo se perderá.

E dessa vez é Gwendoline que precisa lutar para salvar o dia. Sua transformação está completa e também percebe-se que sua paixão por Willard já está bem resolvida. Agora é entrar numa arena com outras guerreiras e lutar até morte. Enfim, o tipo de coisa que eu recomendo uma conferida, não adianta eu ficar descrevendo. E por mais louco que pareça esse híbrido de aventura excêntrica com cinema erótico, GWENDOLINE acaba rendendo algo muito divertido pelo seu caráter singular. Não existe nada parecido com isso aqui.

No elenco, destaque para a nossa Gwendoline, Tawny Kitaen (mais conhecida por ser a musa dos clipes do Whitesnake, ela foi casada com o David Coverdale), que está definitivamente em seu auge físico. E a câmera a ama tanto quanto ela ama a câmera. Tá certo que o roteiro não seja muito desafiador, mas ela lida bem com as coisas, tem presença na tela. Infelizmente faleceu no ano passado. Brent Huff é um herói galã o suficiente para que você possa entender por que Gwendoline se apaixona por ele e é interessante ver as reviravoltas que o relacionamento deles leva à medida que o filme se desenrola e a jornada de descobertas da jovem Gwendoline vai evoluindo. Zabou Breitman tá mais como alívio cômico, num filme que já tem um humor carregado por natureza, mas ela se sai bem, é encantadora.

Só posso dizer que realmente valeu a pena parar e finalmente conferir GWENDOLINE. É pura diversão do início ao fim. Na verdade, mais ao fim, quando a coisa realmente se torna uma experiência especial, surtada e única. O filme nunca é tão explícito quanto os trabalhos anteriores de Jaeckin, mas se mantém fiel à natureza sádica e fetichista do seu cinema e da obra de John Willie. E não deixa de funcionar nesse lado mais picante, em provocar com um grau de erotismo.

Mas o que é ainda mais prazeroso em GWENDOLINE é o fato do filme ser descaradamente bobo. Talvez nem fosse bem isso que Jaeckin havia pretendido com a ideia de ser um INDIANA JONES erótico. Ele poderia ter feito algo mais sério, mais artístico, mas acabou saindo essa bobagem, que é algo bem mais duradouro, uma comédia de aventura camp, praticamente uma história em quadrinhos filmada, que é muito mais agradável do que qualquer outra coisa.

EXPOSED (1971)

EXPOSED (Exponerad no idioma de origem) foi um dos filmes que lançou a atriz sueca Christina Lindberg como uma grande estrela do cinema de exploração, especialmente filmes eróticos, embora seu papel mais famoso viria a ser a moça caolha e vingativa no clássico THRILLER – A CRUEL PICTURE (1973).

Estamos aqui em 1971, quando a linha entre o cinema erótico e o filme de arte ainda era muito tênue, e EXPOSED tenta ser ambos. E consegue se sair bem tanto em um quanto em outro. O diretor é Gustav Wiklund, um ator finlandês que há algum tempo tentava sem sucesso sua primeira chance comandando atrás das câmeras. Até que chegou à conclusão de que a única maneira de conseguir era fazendo filme erótico, o tipo de filme que era altamente lucrativo na indústria sueca na época. A grande vantagem desses filmes era que, contanto que você incluísse a quantidade necessária de sexo e nudez, você poderia fazer praticamente o que quisesse. De experimentações visuais à subversões de gênero…

E o que Wiklund queria fazer era um thriller psicológico, com uma pegada mais artística, e é basicamente o que EXPOSED é. Na trama, Lena (Lindberg) é uma jovem que se envolve com um sujeito mais velho chamado Helge, que tira fotos dela nua, algo que ela nem tem objeções, mas que em algum momento ele ameaça chantageá-la com essas imagens. Lena também tem outro namoradinho, o jovem Jen, que não tá muito satisfeito com essa história.

Cansada dos dois homens, Lena resolve pegar a estrada e apanha carona com um casal bem desinibido. Ela os leva para a casa de campo de Jen, o que lhe causa mais problemas quando o rapaz aparece e os encontra todos bem à vontade, do jeito que vieram ao mundo. E a confusão continua, a partir daí, num triangulo de relações entre Lena, Jen e Helge…

O legal dessa história é que EXPOSED é um desses filmes que gosta de brincar com a narrativa e nem tudo o que estamos vendo pode estar realmente acontecendo no momento – e alguns dos eventos podem sequer ter acontecido. Assistimos ao filme pelos olhos de Lena, e ela é uma narradora não muito confiável. Então não podemos aceitar tudo o que vemos, às vezes são apenas memórias da moça ou produtos de sua imaginação… São coisas que permanecem enigmáticas.

Inclusive a própria índole desses personagens não fica lá bem definida. Especialmente Helge, que não é um mero vilão, e a natureza exata de seus sentimentos por Lena permanece incerta. Talvez ele a ame. Talvez ela o ame. Existem muitos tipos diferentes de amor, e nem todos são necessariamente saudáveis.

Os jogos sexuais que Lena faz com ele também são ambíguos – certamente ela é uma parceira disposta, mas isso não significa que esses jogos sejam bons. Não significa que são necessariamente ruins também. A sexualidade de Lena é algo que está em processo de exploração e ela pretende seguir esse caminho mesmo que a leve a alguns lugares sombrios. Quanto dessa exploração ocorre em sua própria mente e quanto ocorre na realidade são questões ficam em aberto.

O filme se beneficia muito pelas atuações. Christina Lindberg pode não ser a maior atriz do mundo, mas seu status de musa do exploitation europeu se justificou ao longo da carreira. É competente, e tem presença, o que às vezes é até mais importante no exploitation. É boa em projetar uma mistura de inocência e depravação, de vulnerabilidade e força. Outro ator que eu destacaria é o Heinz Hopf, que tá excelente como Helge, um pouco assustador, mas nunca exagerado.

Combinar arte e erotismo pode ser um ato de equilíbrio difícil. Um diretor menos talentoso acaba pesando a mão para um lado ou pro outro, mas EXPOSED é interessante nesse ponto, acho que tem o suficiente para satisfazer os fãs de grindhouse e art house. O primeiro provavelmente vai ficar satisfeito com a quantidade de tempo que Lindberg passa nua, enquanto o último deverá se deslumbrar com a câmera de Wiklund, os enquadramentos, a estética naturalista, além de encontrar um quebra-cabeça psicológico e existencial curioso para mantê-los satisfeitos também.

No meu caso, o interesse é sempre em ambos. E fiquei satisfeito. Como admirador do trabalho de Lindberg, acho que vale a pena conhecer outras coisas dela que vão além de THRILLER. Obviamente vai-se cair no terreno do cinema erótico europeu, que não costuma agradar todos os públicos, mas de vez em quando dá pra encontrar algumas preciosidades, como é o caso do diretor Wiklund, que eu não conhecia, e de EXPOSED, que não é nenhuma obra-prima, mas pra quem se interessa pelo gênero não vai perder seu tempo.

STORM TROOPER (1998)

Não, STORM TROOPER não é um rip-off de STAR WARS protagonizados pelos soldadinhos de armadura branca com a pontaria ruim da famosa franquia de George Lucas. Mas é um filme que eu não tinha assistido ainda do Jim Wynorski, figurinha carimbada aqui no blog e que, pra quem já conhece o cara, sabe que se trata de um mestre das picaretagens cinematográficas. Portanto, STORM TROOPER é sim um rip-off, mas de outra coisa bem diferente. É uma versão pobre de O EXTERMINADOR DO FUTURO e com ecos em ROBOCOP. Uhuu!

Vejamos: sujeito é um ciborgue, com porte físico grandalhão, com uma roupa de motoqueiro e pilotando uma motoca como no filme de James Cameron; no final, descobre-se que ele foi projetado para ser um policial perfeito, soltando todas diretrizes do policial do futuro do filme do Verhoeven; depois de uma explosão, ele surge com partes do esqueleto metálico por baixo da pele… É, não tem como não perceber de onde STORM TROOPER tava tirando uma casquinha.

E como um bom exemplar de Wynorski, o filme é essa mistura muito louca de sci-fi com filme de cerco, daqueles que personagens ficam encurralados num cenário e precisam lutar pra sobreviver (até porque esse tipo de coisa é bem mais barata de produzir), além de um drama pesado sobre perda, redenção e abuso doméstico inserido na trama pra dar um tom mais sério, com profundidade existencial.

STORM TROOPER começa com uma fuga, duas pessoas, um homem e uma mulher, escapam de um laboratório secreto do governo americano. Na troca de tiros pelos canais de tubulação – um desses cenários típicos que amamos nesse tipo de filme – um deles, a mulher, acaba alvejada e capturada e o outro (John Laughlin) consegue escapulir, com a rapaziada do governo na cola tentando pegá-lo em algumas tentativas insanas, perseguições de carro, caminhão, etc…

Mas o filme tem uma outra história paralela a essa. Um drama de uma dona de casa (Carol Alt) que vive um relacionamento abusivo com seu marido policial, vivido com entusiasmo ameaçador por Tim Abell, um habitual de Wynorski e do outro diretor parceiro dessa turma, Fred Olen Ray. Em determinado momento, durante uma discussão, essa pobre dona de casa, cansada da vida que leva, mata o seu marido com um tiro pelas costas.

E é neste ponto que as vidas do sujeito em fuga e a da dona de casa deprimida se encontram. E, obviamente, não demora muito, pessoas começam a aparecer no local em busca do fugitivo, que acaba se revelando nada mais, nada menos, que um ciborgue! E ele é muito bom em matar pessoas, então alguns mercenários barra pesada, liderados pelo Rick Hill (o protagonista do clássico DEATHSTALKER) são chamados pra resolver o caso. E aí STORM TROOPER começa realmente a arrebentar a boca do balão.

Parece tudo muito legal, mas vamos com calma. STORM TROOPER não é lá desses filmes que eu poderia dizer que é particularmente “bom”. Na verdade, é relativo. Como sempre, nesse universo do B movie americano dos anos 90, os filmes transcendem adjetivos de “bons” ou “ruins” para se tornarem experiências únicas… É evidente que o baixo custo geral da produção prejudica o filme e o impede de ser um espetáculo de ação do nível de um John Woo ou James Cameron, mas Wynorski faz o que pode dentro de suas limitações. E dentro de suas limitações, o cara é mestre.

Temos uma certa quantidade de efeitos pirotécnicos, ou seja, explosões, e os efeitos especiais práticos de maquiagem, embora pobres, são muito efetivos. Nada de CGI, é óbvio, tudo na base da criatividade e mão na massa. Em termos de ação, STORM TROOPER é bem movimentado. O filme entra de vez em quando em seus momentos de respiro, com alguns diálogos que demoram mais do que deveria, várias cenas burocráticas de politicagem entre militares, mas boa parte do tempo temos pessoas na tela atirando freneticamente enquanto o ciborgue do Laughin vai exterminando um a um com tiros, facadas e pescoços quebrados. Se a câmera de Wynorski não é virtuosa, ao menos tudo isso é filmado sem frescura.

E não poderia faltar, na boa e velha tradição de Wynorski, a utilização de imagens de outros filmes pra dar aquela economizada no orçamento. E desta vez o diretor utilizou stock footage de uma cena com um caminhão explodindo de um filme seu mesmo, 976-EVIL 2, de1991.

Mas o que realmente chama a atenção na grande maioria dos filmes do Wynorski é o elenco bacana que ele costuma reunir em suas produções. E aqui não é diferente. Claro, o destaque é Rick Hill, que não aparece tanto quanto deveria, mas rouba a cena e foi divertido vê-lo fazendo um papel badass depois de passar minha infância inteira vendo e revendo DEATHSTALKER num VHS original que eu tinha em casa. Conto mais sobre isso aqui. O cara é um canastrão de primeira linha, mas sempre vai ter a minha consideração. Além de várias figuras já citadas, ainda temos por aqui alguns habituais do cinema B, como Melissa Brasselle, Ross Hagen, Jay Richardson, Arthur Roberts, John Terlesky e, pasmem, Zach Galligan (o protagonista de GREMLINS) e o grande Corey Feldman, de tapa-olho, ao estilo Snake Plissken em FUGA DE NY.

Realmente a melhor coisa de STORM TROOPER é o elenco. É aquilo, se não posso dizer que é um filme particularmente bom, poder ver essa turma reunida é sempre um prazer.

Uma coisa que não curto muito em alguns filmes do Wynorski é quando ele trata o material a sério demais, costumam ser dos seus trabalhos mais problemáticos. Evidente que num currículo prolífico como o seu, com mais de cem filmes, eu acabo adorando vários dos exemplares sérios do homem. No entanto, eu acho que ele se sai bem melhor quando faz as coisas no deboche, mais puxado para o humor. E STORM TROOPER é muito mais sério do que poderia e isso atrapalha um pouco também o andamento das coisas. Melhora em vários momentos quando temos Hill e Feldman na tela; algumas ceninhas mais sarcásticas ali e aqui, como o desfecho, com a transformação cartunesca da personagem principal, que é algo maravilhoso. E a cena que Alt toma banho enquanto seu marido morto ainda está na banheira também é uma das melhores do filme, bem a essência do que poderia ter mais por aqui.

Aliás, por ser um filme do Wynorski, senti um pouco a falta de mais pele na tela. É dos poucos filmes do diretor nesse período que não mostra um topless sequer… Não que isso seja realmente necessário. Mas pra quem acompanha mais de perto a filmografia do diretor, cria-se certas expectativas com seu autorismo… Hahaha!

Mas tudo bem, entre pontos negativos e positivos, STORM TROOPER acaba se saindo de forma bem satisfatória. Pode ser sério demais, dramático demais, burocrático em alguns momentos e faltar uns peitinhos na tela, mas tem bastante ação, tiros, explosões (mesmo que de outro filme, mas inserido aqui na edição), ciborgues ao estilo O EXTERMINADOR DO FUTURO, e várias sequências bem divertidas envolvendo Rick Hill e Corey Feldman de tapa-olho. Fica evidente que Nenhum envolvido aqui estava pretendendo ganhar um Oscar. E não vejo outras intenções a não ser divertir o espectador por uns 80 minutos… Tá de bom tamanho.