14 anos na tela…

E continuamos aqui, firme e forte… Quero dizer, nem tão firme e nem tão forte quanto antes, mas só do blog não ter morrido durante esse tempo todo, já é alguma coisa. Continuamos.

Pra comemorar, um top 10 atual dos meus filmes favoritos do coração*.

10. FERVURA MÁXIMA (Hard Boiled, 1992), de John Woo

09. A ESTRADA PERDIDA (Lost Highway, 1997), de David Lynch

08. CRASH – ESTRANHOS PRAZERES
(Crash, 1996), de David Cronenberg

07. ERA UMA VEZ NA AMÉRICA
(Once Upon a Time in América, 1984), de Sergio Leone

06. O PODEROSO CHEFÃO – PARTE III
(The Godfather: Part III, 1990), de Francis F. Coppola

05. TAXI DRIVER (1976), de Martin Scorsese

04. APOCALYPSE NOW (1979), de Francis F. Coppola

03. O PORTAL DO PARAÍSO (Heaven’s Gate, 1980), de Michael Cimino

02. TRÊS HOMENS EM CONFLITO
(The Good, the Bad and the Ugly, 1966), de Sergio Leone

01. FOGO CONTRA FOGO (Heat, 1995), de Michael Mann

*Filmes vistos ou revistos nos últimos cinco anos.

DELTA HEAT (1992)

DELTA HEAT era pra ser uma série de televisão que acabou não despertando muito interesse dos produtores. Nem quando ainda estava no papel. Então, o roteiro do piloto foi estendido pra ser se tornar este longa, totalmente esquecido atualmente, mas que vale uma descoberta. Até porque eu não resisto em indicar um filme que é basicamente um buddy cop movie estrelado pelo Anthony Edwards (MIRACLE MILE), com mullets e brinquinho pendurado no formato de algemas, e principalmente o Lance Henriksen (O ALVO), como um ex-policial badass, com um gancho no lugar de uma das mãos.

Situado nos pântanos da Louisiana, em DELTA HEAT temos Mike Bishop (Edwards), um policial de Los Angeles que viaja até o local para descobrir quem matou seu parceiro, também de LA, que estava na cola uns traficantes de drogas. A sequência inicial, que mostra o assassinato do policial é um primor de iluminação, cores, enquadramentos e estilização. E não é a toa. A direção do filme é de Michael Fischa. Falo mais dele a seguir…

O assassinato do policial, aparentemente, tem as características de um chefão do crime local chamado Antoine Forbes. No entanto, o que se sabe é que Forbes morreu em um tiroteio anos atrás. E o mistério paira no ar. E como o departamento de polícia local é pouco cooperativo, Bishop é forçado a pedir a ajuda do ex-policial Jackson Rivers (Henriksen), se ele quiser descobrir o que realmente aconteceu e os responsáveis pela morte de seu parceiro.

Digamos que, apesar da trama parecer simples e genérica, DELTA HEAT não é o filme pra quem se preocupa com a verossimilhança dos procedimentos de investigação e resolução de crimes. E acaba sendo prejudicado por complicar demais em vez de fazer o feijão com o arroz do cinema policial. Mas pra quem não se importa muito com isso, há um outro lado… Todo o trabalho de detetive aqui é apenas um pretexto para explorar essas figuras e esgotar ideias e situações de “peixe fora d’água” desse policial yuppie de LA vagando pelos pântanos da Louisiana, tendo que trocar seu terno limpinho toda vez que se suja nas mais diversas situações.

E nesse sentido, DELTA HEAT é até mais interessante do que um filme policial mais tradicional. Henriksen, em especial, deita e rola com seu personagem, um sujeito fascinante, uma espécie de capitão gancho (que perdeu a sua mão com a bocada de um crocodilo) e que possui traumas por também ter perdido seu parceiro quando era policial. E se a química entre ele e Edwards não chega aos pés de um Mel Gibson e Danny Glover, na maior parte do tempo é eficaz, gera situações divertidas, com um humor que se encaixa estranhamente bem.

O filme também tem seus momentos mais calientes… Betsy Russell, musa dos anos 80 em filmes como PRIVATE SCHOOL, protagoniza algumas ceninhas com um toque especial. Sua personagem é filha do chefão que está supostamente morto, e acaba sendo um elo da investigação de Bishop. Mas o policial acaba tendo outros interesses pela mocinha, se é que me entendem. A sequência que ela o seduz, fazendo uma dança sensual com pouquíssima roupa é um dos destaques. E a cena que ela sai da cama completamente nua e passa pelos detestáveis ​​policiais locais que resolveram invadir o quarto é um dos pontos altos do filme. E ela está maravilhosa!

Sobre o diretor, Michael Fischa é um sujeito que filma bem pra cacete e com parcos recursos. Seu CRACK HOUSE (1989), produzido pela Cannon, é obrigatório. Ele fez também o cult de horror DEATH SPA (1988) e a comédia de horror MINHA MÃE É UM LOBISOMEM (1989). O fato desses filmes e DELTA HEAT não terem conseguido mais sucesso é um tanto lamentável, mas valem para demonstrar o talento do homem, um diretor subestimado, que filmou pouco, mas que merecia ser mais lembrado.

Mas vamos deixar claro por aqui que DELTA HEAT não é um MÁQUINA MORTÍFERA ou 48 HORAS. É apenas um bom filme de ação policial, com boa dose de humor. Um buddy cop movie torto, mas assistível e divertido, uma brincadeira memorável graças, sobretudo, aos dois personagens principais, Edwards e Henriksen, uma relação que por si só faz com que DELTA HEAT mereça sua atenção e que supera o enredo policial bobo e falho para oferecer entretenimento o suficiente para se justificar.

No Brasil chegou a sair em VHS com o título A CAMINHO DO INFERNO.

UMA CASA NA COLINA (1993)

Fui assistir a esse filme pelo Michael Madsen, do qual sou grande admirador e acho um talento desperdiçado, mas acabei curtindo UMA CASA NA COLINA (A House in the Hills), pequeno thriller do diretor Ken Wiederhorn (já falo dele mais adiante), mais pela protagonista, Helen Slater.

Quando ela aparece na tela fiquei com a quela impressão na mente “onde já vi essa atriz?“. Fui ao google e pimba, é a Supergirl dos anos 80. Já tinha apagado da memória esse filme, mas quando eu era moleque nos anos 80, devo confessar que a Slater naquele collant azul, a mini saia vermelha, aquele cabelo esvoaçante, combatendo o crime com super poderes, já despertava algumas fantasias precoces…

Eu sei, eu sei, essa provavelmente não é a melhor maneira de começar um texto, sobretudo na época atual em que vivemos, mas eu acho que ainda posso olhar para uma atriz num filme e admirar sua beleza sem parecer um tarado, certo? É difícil, mas dá. Mas não vou transformar isso aqui numa defesa sobre o assunto. O cinema me faz olhar pra essas beldades, como a Helen Slater, num estado de fascinação e contemplação. Mas se você achar que eu sou machista ou sexista pelo fato de uma das razões de ver UMA CASA NA COLINA é a chance de assistir a Supergirl de topless na frente de um espelho por uns trinta segundos, você deve ser um homem melhor do que eu.

Foda-se, vamos ao filme. Slater interpreta uma atriz de Los Angeles que está cansada de trabalhar como garçonete para sobreviver. Com uma audição para o papel numa novela chegando, uma amiga oferece a ela a oportunidade de tomar conta da casa de um casal rico no fim de semana, pra que ela possa ter paz e sossego.

Só que ela não é informada de que um assassinato aconteceu na casa ao lado na noite anterior. E quando os donos da casa vão embora, eles acidentalmente levam a bolsa de Slater com eles, o que significa que ela tem que subir as escadas até o quarto e experimentar algumas de suas roupas… Ei, é um trecho crucial do enredo!

Enfim, o fim de semana da nossa protagonista dá uma guinada para pior quando ela deixa entrar um exterminador de cupins (Michael Madsen) apenas para descobrir que ele é um criminoso querendo, à princípio, extorquir dinheiro do casal rico (a coisa é bem mais complicada que isso). E como ela está vestida com roupas de madame, o sujeito pensa que ela é a dona da casa. Mas à medida que a história se desenrola entre bandido e refém, a situação começa a ficar um bocado romântica, é claro.

Não querendo dizer que a trama realmente melhora, mas para o meu gosto pessoal, que adora umas tralhas sem noção com cara de “Super Cine”, é preciso dizer que ao menos as coisas ficam mais intrigantes quando surge em cena um vizinho pedindo um vinho pra uma festinha. Na verdade, o sujeito se revela o serial killer que está degolando as madames ricas da região. E tudo fica ainda mais caótico quando o casal rico retorna pra casa, gerando uma confusão danada…

A atuação de Slater é bem boa, expressiva, e, como disse, acabei curtindo o filme por conta dela. Mas em termos de talento dramático, obviamente Michael Madsen é quem sabe das coisas. Digo que é um dos atores mais desperdiçados porque sua carreira nunca andou de acordo com o nível do seu talento. Foram os raros momentos em que esteve em produções que realmente lhe exigiam algo a mais (graças, na maior parte das vezes, ao Tarantino) e acabou relegado ao cinema B em centenas de filmes. O que pra mim é algo positivo, porque eu devoro esse tipo de material. Mas o cara merecia mais. É um dos grandes herdeiros do Robert Mitchum ao lado de Mickey Rourke e aqui, se não tem lá uma atuação digna de Oscar (e não tem mesmo), pelo menos ele demonstra bem porque é digno dessa herança Mitchuniana.

Como o filme é basicamente esses dois personagens e a relação que estabelecem nesse único ambiente, o resultado foi divertido de acompanhar.

Sobre o diretor, esse cara de nome estranho, Ken Wiederhorn, surgiu como um talento por trás de obras de terror e suspense como SHOCK WAVES (1977) e EYES OF A STRANGER (1981). Também dirigiu A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 2. Enfim, tem uma filmografia curta, mas com algumas coisinhas bacanas… UMA CASA NA COLINA foi seu último longa e não é exatamente um canto de cisne pra se orgulhar. O filme não tem nada de espetacular. Longe disso. Não é tenso o suficiente, não tem atmosfera, o aspecto é de filme barato feito pra TV, não tem absolutamente nada de mais. Mas tem esses dois atores que eu gosto, tem a Supergirl de topless (e a bunda do Madsen, pra não me acusarem de nada, vou até colocar uma imagem abaixo), então tem pra todo mundo… E pra quem curte um thrillerzinho B, de curta duração, pra passar um tempinho, vale conhecer.

AS AVENTURAS DE GWENDOLINE NO PARAÍSO (1984)

Just Jaeckin é um diretor francês que pode não ter o nome reconhecido imediatamente pela grande maioria, mas é preciso considerá-lo, em alguns nichos, com uma certa importância por conta de alguns trabalhos que realizou na década de 70. E tenho certeza que vocês vão concordar comigo mesmo nunca tendo ouvido falar o nome dele antes. Pois bem, o sujeito é ninguém menos que o diretor do clássico do Cine Privé EMMANUELE (1974), com a Sylvia Kristel. Precisa dizer mais alguma coisa?

Enfim, essa semana assisti ao seu último filme, AS AVENTURAS DE GWENDOLINE NO PARAÍSO (The Perils of Gwendoline in the Land of the Yik Yak ou The Perils of Gwendoline ou apenas Gwendoline,1984), uma aventura que eu já desconfiava que seria excêntrica e sexy por tudo que já li, pelas imagens que vi, pelo diretor e até pela fonte de inspiração da obra… E, olha, todas as expectativas foram atendidas.

A tal inspiração de GWENDOLINE é nas histórias em quadrinhos de John Willie, um artista e fotógrafo pioneiro do erotismo fetichista, editor de uma revista chamada Bizarre, também sobre o tema… Isso lá pela década de 40 e 50. Foi nessa publicação que ele apresentou essa personagem Sweet Gwendoline, a protagonista desse filme aqui. Uma personagem ingênua e virginal, do tipo ‘donzela em perigo’ cujas roupas estão sempre rasgadas, sempre sendo salva por um machão, mas que passa por uma jornada de descobertas de todo o tipo, até encontrar sua força interior para resolver as coisas.

GWENDOLINE é, de certa maneira, mais uma variação das aventuras ao estilo INDIANA JONES E OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA, como tantos outros que surgiram no período – coisas do mesmo tipo de TUDO POR UMA ESMERALDA (1984) e ALLAN QUARTERMAIN E AS MINAS DO REI SALOMÃO (1985). Bom, pelo menos é assim que começa o filme… Somos apresentados a Gwendoline, que ganhou vida na beldade Tawny Kitaen, e sua fiel amiga Beth (atriz e diretora Zabou Breitman). Elas chegam num porto em algum lugar do mar da China, dentro de uma caixa de madeira, sem passaportes ou dinheiro, e não demora muito Gwendoline é sequestrada por gângsters.

Eles querem algo dela, provavelmente vendê-la como escrava branca, mas não falam inglês, então ela não tem ideia do que eles querem. Mas ela fica lá amarrada, amordaçada, algo que vai acontecer algumas vezes durante o filme pra nos lembrarmos das origens fetichistas de John Willie. Então, Willard (Brent Huff, um sujeito que é a cara do Charlton Heston) quebra a janela, mata todos os bandidos – com direito à uma luta com um clone de Bruce Lee – e salva a nossa protagonista. Mas foi apenas sorte dela. Na verdade, Willard tinha algum dinheiro pra cobrar dos gangsters. Resgatar mulheres não é bem a sua linha.

Willard, à princípio, aparenta o típico herói americano de queixo quadrado que você encontraria em histórias em quadrinhos e seriados clássicos de matinê. A diferença é que ele é um filho da puta completo, mercenário e egoísta sem nenhum tipo de pureza heroica. É apenas um aventureiro implacável que não pensa em ninguém além de si mesmo.

No entanto, ele acabou se deparando com essas duas jovens indefesas. Willard não quer nada com elas, já está comprometido com o submundo local. Gwendoline quer procurar o pai caçador de borboletas que está desaparecido, e com muito esforço encontra um jeito de subornar Willard para ajudá-las a se aventurar em Yik Yak, uma terra praticamente desconhecida, que poucos se aventuraram, mas é onde o pai de Gwendoline desapareceu.

Já no início dessa jornada, eles descobrem, através de um colega do velho, que ele havia sido sacrificado por uma tribo selvagem para apaziguar antigos espíritos. Willard parece pronto para desistir, mas Gwendoline quer continuar a jornada e pegar a borboleta mais rara que existe em homenagem ao seu pai.

O que acontece a partir daí, na verdade, além de uma aventura tradicional cheia de perigos, com piratas, tribos canibais, animais famintos, etc, é que também se torna uma jornada de descobertas interiores da jovem Gwendoline mais do que qualquer outra coisa. O contato dela com Willard desperta sentimentos inexplorados e o filme sublinha suas transformações, sobretudo nas questões sexuais, no relacionamento com Willard, mesmo com a dose constante de um humor bem abobalhado que o material propõe.

Uma cena em especial é a que Willard, conduzindo as duas moças pela selva, convence-as a tirarem as camisas e usar o pano para pegar água durante uma tempestade. É uma sequência tola, completamente desnecessária e gratuita, mas é engraçada e destaca o tipo de homem que Willard é e quão frágil é nossa heroína, cegamente atraída pelo sujeito, mas que, em última análise, faz parte do processo de transformação que ela passa no decorrer da aventura até se tornar praticamente uma “guerreira amazona”. E cito as guerreiras amazonas por um motivo especial que já falo a seguir.

Uma coisa que ajuda muito no andamento do filme até aqui são as locações. Jaeckin não é bem um diretor com muita energia na câmera e, obviamente, não consegue obter o melhor de seus atores, que atuam quase de modo cartunesco – o que também contribui para o tom de história em quadrinhos que GWENDOLINE possui. Agora, os cenários são ótimos. Exóticos, com paisagens lindamente filmadas, permitem que as três figuras se movam sem nunca deixar o filme chato. Isso tanto nas locações naturais quanto em estúdio. O plano inicial do filme demonstra bem isso e de cara percebe-se também que é uma produção com um orçamento acima da média.

Orçamento que se confirma logo depois, quando o trio escapa da mesma tribo que selou o destino do pai de Gwendoline e desce para uma enorme fissura num deserto. Aqui o filme transcende para outra coisa. E já não é nem mais um rip

Os três personagens principais são tragados para dentro de um novo universo, até então totalmente desconhecido tanto para eles quanto para quem estava assistindo. O filme não dá qualquer pista para a chegada desse mundo paralelo, um império subterrâneo de guerreiras amazonas (aqui estão elas) governado por uma rainha má (Bernadette LaFont).

A partir daqui GWENDOLINE é quase uma obra-prima. O filme vira um espetáculo sensorial de cenários futuristas repleto de dispositivos de tortura, povoado por mulheres seminuas, com adereços fetichistas, bem condizente com o material que o filme adapta. Uma loucura. A cena da corrida de bigas, por exemplo, puxadas por moças é um toque fascinante (e tenho certeza que é uma espécie de homenagem a BEN HUR e o fato do Willard ser a cara do Charlton Heston, como já disse antes). O grande lance desse local é que fica dentro de uma caverna acima de um antigo vulcão que, segundo a lenda, um dia entrará em erupção e um tesouro em diamantes embutido em seu núcleo se perderá.

E dessa vez é Gwendoline que precisa lutar para salvar o dia. Sua transformação está completa e também percebe-se que sua paixão por Willard já está bem resolvida. Agora é entrar numa arena com outras guerreiras e lutar até morte. Enfim, o tipo de coisa que eu recomendo uma conferida, não adianta eu ficar descrevendo. E por mais louco que pareça esse híbrido de aventura excêntrica com cinema erótico, GWENDOLINE acaba rendendo algo muito divertido pelo seu caráter singular. Não existe nada parecido com isso aqui.

No elenco, destaque para a nossa Gwendoline, Tawny Kitaen (mais conhecida por ser a musa dos clipes do Whitesnake, ela foi casada com o David Coverdale), que está definitivamente em seu auge físico. E a câmera a ama tanto quanto ela ama a câmera. Tá certo que o roteiro não seja muito desafiador, mas ela lida bem com as coisas, tem presença na tela. Infelizmente faleceu no ano passado. Brent Huff é um herói galã o suficiente para que você possa entender por que Gwendoline se apaixona por ele e é interessante ver as reviravoltas que o relacionamento deles leva à medida que o filme se desenrola e a jornada de descobertas da jovem Gwendoline vai evoluindo. Zabou Breitman tá mais como alívio cômico, num filme que já tem um humor carregado por natureza, mas ela se sai bem, é encantadora.

Só posso dizer que realmente valeu a pena parar e finalmente conferir GWENDOLINE. É pura diversão do início ao fim. Na verdade, mais ao fim, quando a coisa realmente se torna uma experiência especial, surtada e única. O filme nunca é tão explícito quanto os trabalhos anteriores de Jaeckin, mas se mantém fiel à natureza sádica e fetichista do seu cinema e da obra de John Willie. E não deixa de funcionar nesse lado mais picante, em provocar com um grau de erotismo.

Mas o que é ainda mais prazeroso em GWENDOLINE é o fato do filme ser descaradamente bobo. Talvez nem fosse bem isso que Jaeckin havia pretendido com a ideia de ser um INDIANA JONES erótico. Ele poderia ter feito algo mais sério, mais artístico, mas acabou saindo essa bobagem, que é algo bem mais duradouro, uma comédia de aventura camp, praticamente uma história em quadrinhos filmada, que é muito mais agradável do que qualquer outra coisa.

EXPOSED (1971)

EXPOSED (Exponerad no idioma de origem) foi um dos filmes que lançou a atriz sueca Christina Lindberg como uma grande estrela do cinema de exploração, especialmente filmes eróticos, embora seu papel mais famoso viria a ser a moça caolha e vingativa no clássico THRILLER – A CRUEL PICTURE (1973).

Estamos aqui em 1971, quando a linha entre o cinema erótico e o filme de arte ainda era muito tênue, e EXPOSED tenta ser ambos. E consegue se sair bem tanto em um quanto em outro. O diretor é Gustav Wiklund, um ator finlandês que há algum tempo tentava sem sucesso sua primeira chance comandando atrás das câmeras. Até que chegou à conclusão de que a única maneira de conseguir era fazendo filme erótico, o tipo de filme que era altamente lucrativo na indústria sueca na época. A grande vantagem desses filmes era que, contanto que você incluísse a quantidade necessária de sexo e nudez, você poderia fazer praticamente o que quisesse. De experimentações visuais à subversões de gênero…

E o que Wiklund queria fazer era um thriller psicológico, com uma pegada mais artística, e é basicamente o que EXPOSED é. Na trama, Lena (Lindberg) é uma jovem que se envolve com um sujeito mais velho chamado Helge, que tira fotos dela nua, algo que ela nem tem objeções, mas que em algum momento ele ameaça chantageá-la com essas imagens. Lena também tem outro namoradinho, o jovem Jen, que não tá muito satisfeito com essa história.

Cansada dos dois homens, Lena resolve pegar a estrada e apanha carona com um casal bem desinibido. Ela os leva para a casa de campo de Jen, o que lhe causa mais problemas quando o rapaz aparece e os encontra todos bem à vontade, do jeito que vieram ao mundo. E a confusão continua, a partir daí, num triangulo de relações entre Lena, Jen e Helge…

O legal dessa história é que EXPOSED é um desses filmes que gosta de brincar com a narrativa e nem tudo o que estamos vendo pode estar realmente acontecendo no momento – e alguns dos eventos podem sequer ter acontecido. Assistimos ao filme pelos olhos de Lena, e ela é uma narradora não muito confiável. Então não podemos aceitar tudo o que vemos, às vezes são apenas memórias da moça ou produtos de sua imaginação… São coisas que permanecem enigmáticas.

Inclusive a própria índole desses personagens não fica lá bem definida. Especialmente Helge, que não é um mero vilão, e a natureza exata de seus sentimentos por Lena permanece incerta. Talvez ele a ame. Talvez ela o ame. Existem muitos tipos diferentes de amor, e nem todos são necessariamente saudáveis.

Os jogos sexuais que Lena faz com ele também são ambíguos – certamente ela é uma parceira disposta, mas isso não significa que esses jogos sejam bons. Não significa que são necessariamente ruins também. A sexualidade de Lena é algo que está em processo de exploração e ela pretende seguir esse caminho mesmo que a leve a alguns lugares sombrios. Quanto dessa exploração ocorre em sua própria mente e quanto ocorre na realidade são questões ficam em aberto.

O filme se beneficia muito pelas atuações. Christina Lindberg pode não ser a maior atriz do mundo, mas seu status de musa do exploitation europeu se justificou ao longo da carreira. É competente, e tem presença, o que às vezes é até mais importante no exploitation. É boa em projetar uma mistura de inocência e depravação, de vulnerabilidade e força. Outro ator que eu destacaria é o Heinz Hopf, que tá excelente como Helge, um pouco assustador, mas nunca exagerado.

Combinar arte e erotismo pode ser um ato de equilíbrio difícil. Um diretor menos talentoso acaba pesando a mão para um lado ou pro outro, mas EXPOSED é interessante nesse ponto, acho que tem o suficiente para satisfazer os fãs de grindhouse e art house. O primeiro provavelmente vai ficar satisfeito com a quantidade de tempo que Lindberg passa nua, enquanto o último deverá se deslumbrar com a câmera de Wiklund, os enquadramentos, a estética naturalista, além de encontrar um quebra-cabeça psicológico e existencial curioso para mantê-los satisfeitos também.

No meu caso, o interesse é sempre em ambos. E fiquei satisfeito. Como admirador do trabalho de Lindberg, acho que vale a pena conhecer outras coisas dela que vão além de THRILLER. Obviamente vai-se cair no terreno do cinema erótico europeu, que não costuma agradar todos os públicos, mas de vez em quando dá pra encontrar algumas preciosidades, como é o caso do diretor Wiklund, que eu não conhecia, e de EXPOSED, que não é nenhuma obra-prima, mas pra quem se interessa pelo gênero não vai perder seu tempo.

STORM TROOPER (1998)

Não, STORM TROOPER não é um rip-off de STAR WARS protagonizados pelos soldadinhos de armadura branca com a pontaria ruim da famosa franquia de George Lucas. Mas é um filme que eu não tinha assistido ainda do Jim Wynorski, figurinha carimbada aqui no blog e que, pra quem já conhece o cara, sabe que se trata de um mestre das picaretagens cinematográficas. Portanto, STORM TROOPER é sim um rip-off, mas de outra coisa bem diferente. É uma versão pobre de O EXTERMINADOR DO FUTURO e com ecos em ROBOCOP. Uhuu!

Vejamos: sujeito é um ciborgue, com porte físico grandalhão, com uma roupa de motoqueiro e pilotando uma motoca como no filme de James Cameron; no final, descobre-se que ele foi projetado para ser um policial perfeito, soltando todas diretrizes do policial do futuro do filme do Verhoeven; depois de uma explosão, ele surge com partes do esqueleto metálico por baixo da pele… É, não tem como não perceber de onde STORM TROOPER tava tirando uma casquinha.

E como um bom exemplar de Wynorski, o filme é essa mistura muito louca de sci-fi com filme de cerco, daqueles que personagens ficam encurralados num cenário e precisam lutar pra sobreviver (até porque esse tipo de coisa é bem mais barata de produzir), além de um drama pesado sobre perda, redenção e abuso doméstico inserido na trama pra dar um tom mais sério, com profundidade existencial.

STORM TROOPER começa com uma fuga, duas pessoas, um homem e uma mulher, escapam de um laboratório secreto do governo americano. Na troca de tiros pelos canais de tubulação – um desses cenários típicos que amamos nesse tipo de filme – um deles, a mulher, acaba alvejada e capturada e o outro (John Laughlin) consegue escapulir, com a rapaziada do governo na cola tentando pegá-lo em algumas tentativas insanas, perseguições de carro, caminhão, etc…

Mas o filme tem uma outra história paralela a essa. Um drama de uma dona de casa (Carol Alt) que vive um relacionamento abusivo com seu marido policial, vivido com entusiasmo ameaçador por Tim Abell, um habitual de Wynorski e do outro diretor parceiro dessa turma, Fred Olen Ray. Em determinado momento, durante uma discussão, essa pobre dona de casa, cansada da vida que leva, mata o seu marido com um tiro pelas costas.

E é neste ponto que as vidas do sujeito em fuga e a da dona de casa deprimida se encontram. E, obviamente, não demora muito, pessoas começam a aparecer no local em busca do fugitivo, que acaba se revelando nada mais, nada menos, que um ciborgue! E ele é muito bom em matar pessoas, então alguns mercenários barra pesada, liderados pelo Rick Hill (o protagonista do clássico DEATHSTALKER) são chamados pra resolver o caso. E aí STORM TROOPER começa realmente a arrebentar a boca do balão.

Parece tudo muito legal, mas vamos com calma. STORM TROOPER não é lá desses filmes que eu poderia dizer que é particularmente “bom”. Na verdade, é relativo. Como sempre, nesse universo do B movie americano dos anos 90, os filmes transcendem adjetivos de “bons” ou “ruins” para se tornarem experiências únicas… É evidente que o baixo custo geral da produção prejudica o filme e o impede de ser um espetáculo de ação do nível de um John Woo ou James Cameron, mas Wynorski faz o que pode dentro de suas limitações. E dentro de suas limitações, o cara é mestre.

Temos uma certa quantidade de efeitos pirotécnicos, ou seja, explosões, e os efeitos especiais práticos de maquiagem, embora pobres, são muito efetivos. Nada de CGI, é óbvio, tudo na base da criatividade e mão na massa. Em termos de ação, STORM TROOPER é bem movimentado. O filme entra de vez em quando em seus momentos de respiro, com alguns diálogos que demoram mais do que deveria, várias cenas burocráticas de politicagem entre militares, mas boa parte do tempo temos pessoas na tela atirando freneticamente enquanto o ciborgue do Laughin vai exterminando um a um com tiros, facadas e pescoços quebrados. Se a câmera de Wynorski não é virtuosa, ao menos tudo isso é filmado sem frescura.

E não poderia faltar, na boa e velha tradição de Wynorski, a utilização de imagens de outros filmes pra dar aquela economizada no orçamento. E desta vez o diretor utilizou stock footage de uma cena com um caminhão explodindo de um filme seu mesmo, 976-EVIL 2, de1991.

Mas o que realmente chama a atenção na grande maioria dos filmes do Wynorski é o elenco bacana que ele costuma reunir em suas produções. E aqui não é diferente. Claro, o destaque é Rick Hill, que não aparece tanto quanto deveria, mas rouba a cena e foi divertido vê-lo fazendo um papel badass depois de passar minha infância inteira vendo e revendo DEATHSTALKER num VHS original que eu tinha em casa. Conto mais sobre isso aqui. O cara é um canastrão de primeira linha, mas sempre vai ter a minha consideração. Além de várias figuras já citadas, ainda temos por aqui alguns habituais do cinema B, como Melissa Brasselle, Ross Hagen, Jay Richardson, Arthur Roberts, John Terlesky e, pasmem, Zach Galligan (o protagonista de GREMLINS) e o grande Corey Feldman, de tapa-olho, ao estilo Snake Plissken em FUGA DE NY.

Realmente a melhor coisa de STORM TROOPER é o elenco. É aquilo, se não posso dizer que é um filme particularmente bom, poder ver essa turma reunida é sempre um prazer.

Uma coisa que não curto muito em alguns filmes do Wynorski é quando ele trata o material a sério demais, costumam ser dos seus trabalhos mais problemáticos. Evidente que num currículo prolífico como o seu, com mais de cem filmes, eu acabo adorando vários dos exemplares sérios do homem. No entanto, eu acho que ele se sai bem melhor quando faz as coisas no deboche, mais puxado para o humor. E STORM TROOPER é muito mais sério do que poderia e isso atrapalha um pouco também o andamento das coisas. Melhora em vários momentos quando temos Hill e Feldman na tela; algumas ceninhas mais sarcásticas ali e aqui, como o desfecho, com a transformação cartunesca da personagem principal, que é algo maravilhoso. E a cena que Alt toma banho enquanto seu marido morto ainda está na banheira também é uma das melhores do filme, bem a essência do que poderia ter mais por aqui.

Aliás, por ser um filme do Wynorski, senti um pouco a falta de mais pele na tela. É dos poucos filmes do diretor nesse período que não mostra um topless sequer… Não que isso seja realmente necessário. Mas pra quem acompanha mais de perto a filmografia do diretor, cria-se certas expectativas com seu autorismo… Hahaha!

Mas tudo bem, entre pontos negativos e positivos, STORM TROOPER acaba se saindo de forma bem satisfatória. Pode ser sério demais, dramático demais, burocrático em alguns momentos e faltar uns peitinhos na tela, mas tem bastante ação, tiros, explosões (mesmo que de outro filme, mas inserido aqui na edição), ciborgues ao estilo O EXTERMINADOR DO FUTURO, e várias sequências bem divertidas envolvendo Rick Hill e Corey Feldman de tapa-olho. Fica evidente que Nenhum envolvido aqui estava pretendendo ganhar um Oscar. E não vejo outras intenções a não ser divertir o espectador por uns 80 minutos… Tá de bom tamanho.

BONECOS DA MORTE (1989)

Não lembro se já comentei muita coisa por aqui sobre a Full Moon, produtora especializada em Filmes B, comandada pelo mestre Charles Band, produtor de mais de trezentos filmes, incluindo alguns que ele mesmo dirigiu. Clássicos como TRANCERS (1984), PARASITE (1982), DOCTOR MODRID (1992), METALSTORM (1983), DOLLMAN vs DEMONIC TOYS (1993), enfim, se não comentei, eu deveria… Qualquer indivíduo interessado em cinema de baixo orçamento dos anos 80 e 90, vai acabar se deparando com algumas obras produzidas pela Full Moon.

E por falar em Demonic Toys, um dos principais sucessos da produtora é outra franquia de horror que envolve bonecos assassinos. E essa semana eu revi o primeiro deles, o clássico BONECOS DA MORTE (Puppet Master), que não foi dirigido pelo Band, mas tem outro mestre do cinema classe B no comando: David Schmoeller. O que o torna ainda mais obrigatório.

Lançado direto para o mercado de vídeo já naquele período, e tendo a Paramount como distribuidora do VHS, BONECOS DA MORTE foi extremamente bem sucedido financeiramente, o que possibilitou sua penca de continuações – dezesseis filmes, se considerarmos DOLLMAN vs DEMONIC TOYS como parte desse universo – e permaneceu como um dos principais títulos da Full Moon até os dias de hoje. Inclusive no Brasil também foi um VHS bastante alugado no início dos anos 90. Lançado por aqui pela Top Tape.

A trama de BONECOS DA MORTE começa em 1939, onde um marionetista idoso chamado Andre Toulan (William Hickey) fabrica seus bonecos no hotel The Bodega Inn, nas margens da Califórnia. Embora Toulan possa parecer apenas um marionetista normal, ele descobriu como dar vida às suas criações inanimadas usando feitiçarias ancestrais do antigo Egito. Espiões nazistas aparecem no local e, claro, querem se apossar desse conhecimento. No entanto, antes que os alemães o encontrem, Toulon tira a própria vida, mas não sem esconder suas criações e a fórmula misteriosa nas entranhas do hotel.

Corta para 1989 e um grupo de quatro indivíduos com poderes psíquicos – Alex (Paul Le Mat), Dana (Irene Miracle), Frank (Matt Roe) e sua excêntrica namorada Carlissa (Kathryn O’Reilly) – tentam descobrir por que eles teriam sido convocados para o mesmo Bodega Inn do início do filme por um conhecido em comum de todos eles, Neil Gallagher (Jimmie F. Skaggs). Supondo que tenha algo a ver com a busca de Gallagher pela vida eterna, eles chegam para encontrá-lo, mas sua esposa, Megan (Robin Frates), informa que Gallagher, na verdade, havia se matado recentemente. Eles percebem que essa história não bate muito bem e decidem ficar no local e investigar. E uma vez que pessoas começam a desaparecer e morrer violentamente, eles percebem que algo muito estranho está acontecendo no Bodega Inn e que leva de volta a Toulan e suas criações.

BONECOS DA MORTE pode sofrer de problemas de ritmo na primeira metade (apesar da sequência de abertura ser ótima) para aquele espectador mais ansioso. Realmente não dá pra dizer que Schmoeller lida com a história que quer contar com muita pressa. O diretor prefere ir com calma, apresentando os personagens e trabalhando uma atmosfera sinistra e desagradável. Há planos mais longos, elaborados, enquadramentos estáveis com boas composições e sim, pode-se dizer que há uma tentativa esquisita aqui de colocar um pouco de arte no meio de toda a exploração.

Até porque a segunda metade do filme mais do que compensa a lentidão. Uma vez que a trama é estabelecida no famigerado hotel e as criações de Toulan estão à solta, furiosas e sedentas por sangue, todas as apostas são canceladas. Temos mortes horríveis e violentas e até uma pequena dose de sexo e nudez. Ou seja, só coisa boa para atrair nosso interesse. A última meia hora a coisa esquenta ainda mais, com os bonecos de Toulon fazendo a festa, atacando os personagens, com momentos genuinamente perturbadores. A sequência final dentro de um elevador é um dos pontos altos.

No que diz respeito ao elenco, tudo ocorre bem para um filme de baixo orçamento como esse. Nada muito especial, variando alguns destaques, como Paul Le Mat, da turma dos psíquicos – que possui o dom da premonição através de sonhos – e é o personagem que mais aproxima de um protagonista. A pequena participação de William Hickey como Toulon no início do filme também é bem boa. E não deixem de prestar atenção na pequena, mas muito divertida, aparição da musa Barbara Crampton.

Mas, convenhamos, ninguém vai parar pra ver BONECOS DA MORTE pelas performances – você assiste pelas coisas que Schmoeller explora: uma atmosfera bacana, a violência dos ataques, uns peitos de fora, e, obviamente, os bonecos assassinos em ação. São eles as verdadeiras estrelas do show, muito bem feitos e criados com personalidade. E numa época em que era impensável fazer algo do tipo em CGI, é bom ver que os efeitos especiais de stop motion, entre outros truques old school, com esses bonecos são tão eficazes. Belo trabalho do animador e especialista em stop motion David Allen.

Junte isso tudo com a excelente trilha instrumental de Richard Band, o bom trabalho de fotografia e uma pretensão de ser apenas um pequeno filme divertido, com bonecos matando humanos, BONECOS DA MORTE acaba se saindo muito bem. Completamente merecedor de seu status de clássico cult.

UMA PAIXÃO INCONTROLÁVEL (1990)

Daqueles filmes que fazem o indivíduo pensar duas vezes antes de pular a cerca. UMA PAIXÃO INCONTROLÁVEL (Body Chemistry) é o primeiro de uma série de quatro filmes picantes, thrillers eróticos que passavam na boa e velha sessão da Band, o Cine Privé, sobre tramas nas quais sujeitos impulsivos acabam entrando em enrascadas depois de cair na tentação por conta de um rabo de saia…

Na trama de UMA PAIXÃO INCONTROLÁVEL, temos o Dr. Tom Redding (Marc Singer), que é um pesquisador sexual, seja lá o que os roteiristas entendam no que isso signifique na prática. O filme mostra que seu dia de trabalho consiste em mostrar às pessoas clipes de filmes eróticos e analisa suas reações, o que pra trama não chega a ter nenhuma relevância narrativa. No entanto, Tom tem uma grande carreira, uma linda esposa (Mary Crosby), filho, e um melhor amigo (David Kagan) que é engraçado e lhe dá conselhos.

Mas tudo muda quando a empresa de pesquisa que Tom trabalha recebe um contrato da Dra. Claire Archer (Lisa Pescia), cujos estudos interessam os seus superiores. Que estudos? Não faço a menor ideia e o filme não faz questão alguma de abordar…

O que realmente acaba importando é que Tom não resiste aos charmes de Claire e inicia um caso tórrido com a mulher, que quer explorar alguns limites dos prazeres sexuais com o cara. Quando Tom tenta terminar a brincadeira, Claire não está pronta para desistir dele. No início, ela apenas liga para a casa do sujeito, envia pra ele uma caixa cheia com as lagostas podres que ela havia preparado pra ele, e até uma fita VHS deles fazendo sexo, cujo filho de Tom quase acaba assistindo… Mas não demora muito a coisa começa ficar realmente perigosa, pondo em risco a vida de todos os envolvidos (e até os não envolvidos).

Já deu pra perceber que a coisa é claramente projetada para ser uma cópia de ATRAÇÃO FATAL, dirigido por Adrian Lyne e estrelado por Michael Douglas. Para quem já viu esse clássico do gênero, UMA PAIXÃO INCONTROLÁVEL não vai ser nenhuma surpresa, mas não deixa de ser um thriller eficiente e muito bem conduzido pela diretora Kristine Peterson, que sempre arruma um jeito de prender a atenção do público. Pena que as cenas de nudez e sexo são escassas e as poucas que há não são filmadas com muita inspiração. Não é um filme que parece focar tanto nesse tipo de cena, apesar do gênero, mas nas consequências dos atos de infidelidade e na obsessão e angústia entre os personagens envolvidos…

A falta de boas cenas de sexo não chega a atrapalhar. Evidente que uma boa dose de cenas eróticas sempre fazem bem pra um filme como esse, mas tirando esse detalhe, o elenco é ótimo e a coisa se desenrola num bom ritmo. Quero dizer, não é muito difícil criar situações intrigantes a partir de um pai de família, “cidadão de bem”, que resolveu foder com sua vida ao pular a cerca. Sobretudo quando a mulher que lhe seduziu é uma sociopata tarada insaciável que vai fazer de tudo pra ter o que quer.

Com essa premissa, meus caros, é facinho se divertir com um filme como UMA PAIXÃO INCONTROLÁVEL.

Agora fiquei a fim de conferir aos outros filmes da série e comentar por aqui. Sei que tenho sido meio negligente com o blog nos últimos tempos, mas vou tentando voltar as atividades por aqui à medida em que vai sobrando tempo e disposição. E, claro, vocês podem ajudar a manter o recinto mais ativo, com MUITAS postagens. É só apoiar – se puderem/quiesrem – o blog no APOIA.SE ou até mesmo passando um PIX para ronaldperrone@gmail.com. Todas e quaisquer doações são aceitas, apreciadas e ajudarão a manter o blog atualizado com mais frequência. 🙂

THE JOURNEY: ABSOLUTION (1997)

David DeCoteau é desses diretores de gênero de baixo orçamento, surgidos nos anos 80, que recomendo conhecer. É da mesma linhagem que um Jim Wynorski e Fred Olen Ray, que filmam em grande quantidade, com poucos recursos e entregam aquilo que os amantes de um filme B almejam: boas doses de violência e mulheres nuas em filmes curtos e despretenciosos cheio de atores legais… E com relativa qualidade.

O que torna DeCoteau especial é que ele é gay, então mesmo que seus filmes sejam realizados para um público hétero, não vão faltar muitas cenas de homens suados semi nus desfilando na tela. Em 1997, o sujeito lançou seu filme mais “ambicioso”, LEATHER JACKET LOVE STORY, um projeto autoral, em preto e branco, de temática gay, que passou em festivais de filmes independentes no período e que parece ser bem interessante. Sobretudo vindo de um diretor de tranqueiras como o DeCoteau. Nem Olen Ray e Wynorski fizeram algo do gênero…

De todo modo, naquele mesmo ano, DeCoteau volta a abraçar suas raízes ordinárias e lança também THE JOURNEY: ABSOLUTION, que é mais coerente com a sua obra. Enquanto LEATHER JACKET LOVE STORY rodava festivais, no mercado de vídeo chegava esse trabalho de contrato para a EGM Films do produtor John Eyres, uma ficção científica das mais vagabundas. A trama se se passa num futuro cuja maior parte da Terra havia sido destruída por um asteróide. Na trama, acompanhamos uma pequena colônia militar, na Nova América, que conseguiu sobreviver no Ártico, povoada basicamente por homens de pouca roupa que passam seus dias se exercitando.

Quando soldados começam a desaparecer misteriosamente nessa colônia, as autoridades enviam Ryan Murphy (Mario Lopez) para investigar tais desaparecimentos e o líder tirânico do local, o sargento Bradley (vivido pelo grande Richard Grieco). Enquanto testemunha cerimônias bizarras e técnicas de treinamento brutais, Murphy percebe que soldados desaparecidos é apenas o começo de uma conspiração que vai além do nosso mundo, envolvendo invasão alienígena e etc…

Sim, a trama parece promissora, mas não se apeguem muito a isso…

O que realmente temos em THE JOURNEY: ABSOLUTION é Mario Lopez e seus companheiros de quarto correndo pra lá e pra cá pelo cenário, pulando, abraçando e brigando em roupas íntimas. Afinal, como disse, é um filme dirigido pelo Decoteau, então obviamente a coisa vai dar a impressão de estarmos assistindo a um comercial de cuecas da Calvin Klein.

Eventualmente umas amiguinhas aparecem pra agradar ambos os públicos…

Lopez tem um rosto reconhecível, fez algum sucesso na televisão, mas se ele tava achando que esse tipo de material iria ajudar a dar um gás na carreira, acho que se enganou. Aqui ele até se esforça como herói, mas não consegue exatamente passar a ideia de fodão badass. Porém, para o tipo de produção que temos aqui, ele funciona como o herói solitário tentando investigar o local enquanto tem que lidar com um bando de rapazes desconfiados da sua presença. E para o propósito de DeCoteau de filmar jovens de corpos esculturais sem camiseta, o cara serviu bem.

Enquanto isso, o grande Richard Grieco engole o cenário com uma atuação maravilhosa, expansiva, suando, cospindo e gritando profusamente, até que os vasos sanguíneos em sua testa ameaçam se libertar, como ele “odeia ianques e retardados“. Isso quando não está cheirando roupas íntimas…

Grieco é um baita ator, uma dessas figuras do cinema B americano subestimadíssima, que nunca teve o merecido reconhecimento. E aqui mostra um bocado do que é capaz, parece estar se divertindo muito. É absurdamente ridículo, do jeito que a gente gosta.

E temos a personagem de Jaime Pressly, cuja aparição com a outra amiguinha da imagem lá de cima são as únicas presenças femininas do filme. Elas surgem meio que do nada nesse universo de homens pra dar uma alegrada no público que não quer ver só nádegas masculinas… O que inclui uma cena de sexo, típica de um Cine Privé, protagonizada por Pressly e Lopez.

O IMDB informa que THE JOURNEY: ABSOLUTION foi produzido com um orçamento de US $1,7 milhão. Vão me desculpar, mas já vi filmes com orçamentos menores com resultados bem mais interessantes. A coisa aqui parece que foi filmada com 1/3 desse orçamento. Basta observar as sequências com efeitos especiais, explosões digitais, é tudo muito tosco. Deve ser algum esquema de lavagem de dinheiro… Ou talvez Jaime Pressly cobrou bem caro pra ficar à vontade nas ceninhas acima. Nunca saberemos.

Não é exatamente um filme de ação, mas temos alguns momentos bacanas, com uns tiros e lutas. São escassas, concentradas mais no último ato e nada especiais também, mas até que são dignas e filmadas sem frescura.

E é isso por hoje. Não tenho lá muito o que falar de THE JOURNEY: ABSOLUTION, mas recomendo. Não é um filme exatamente bom, o roteiro, no fim das contas é um fiapo e não se sustenta por muito tempo, o ritmo acaba prejudicado e é meio chatão em alguns momentos, mas pode agradar os amigos que curtem uma boa e velha tralha de baixo orçamento dos anos 90. Ou pra quem quer ver moços musculosos em roupas íntimas, malhando e ficando suados. Então, não é de todo ruim… É medíocre, exagerado, ridículo, mas também tem seus momentos de humor involuntário e com Grieco em estado de graça.

URBAN MENACE (1999)

URBAN MENACE é um daqueles “filmes treta” do Albert Pyun, que, para quem já acompanha o blog há mais tempo, sabe que é um dos diretores favoritos do recinto. E pra quem conhece mais ainda a figura, sabe também que o sujeito vivia se metendo em encrenca pra fazer seus filmes. Neste aqui, Pyun deveria ir para a Eslováquia e fazer, em apenas 18 dias, uma antologia, filme com várias historinhas, de crime urbano. Em 1999 já não era muito modinha os chamados hood films, mas os anos 90 nos deu uma boa safra desse tipo de crime movie protagonizado por rappers metidos a gangster, mas era isso que o Pyun faria por aqui. E teria no elenco umas figuras como Snoop Dogg, Big Pun, Fat Joe, Ice-T, que também teria participação na trilha sonora, com trechos de um novo álbum que havia lançado na época…

Mas, enfim, sabem como é o Pyun. Em vez fazer o que foi contratado, um único filme, o sujeito resolveu fazer três longas metragens nesses 18 dias. Daí saiu este URBAN MENACE, CORRUPT e THE WRECKING CREW. Tudo reutilizando o mesmo elenco, locações e equipamentos. Ah, e fez os três filmes ao mesmo tempo, com os atores muitas vezes nem sabendo pra qual filme estavam fazendo tal cena em determinados momentos. Imaginem a qualidade dessas produções…

Independente dos resultados, Pyun conseguiu terminar a façanha no prazo. O problema foi na hora de voltar. Nessa entrevista que fizemos com ele há dez anos, Pyun nos conta que várias fitas miniDV com as filmagens foram perdidas pela Air France no transporte de volta para os Estados Unidos. Então, segundo ele, teve que finalizar apenas com a metade do que havia sido filmado de cada um. Na verdade, o que descobri depois de alguns anos, é que o diretor usou imagens de uma versão workprint do filme para substituir as partes que foram perdidas. Tanto que a janela dos filmes é em letterbox, pra esconder o timecode na parte inferior da tela. Mas, isso são detalhes. Embora expliquem porque a imagem do filme é uma bosta.

Não assisti ainda a CORRUPT e THE WRECKING CREW, mas URBAN MENACE eu parei aleatoriamente pra ver essa semana. E não me decepcionei. Esperava uma porcaria e o que vi foi exatamente isso. Uma porcaria. Mas é um filme tão ruim, mas tão ruim, que me peguei fascinado com sua inépcia, com sua imagem tosca, com as atuações e diálogos ridículos… Um exemplar de Pyun da pior espécie e, por isso mesmo, adorei.

O filme é uma mistura de gangsta/hood movie com elementos de horror. Começa com a cara do Ice-T olhando diretamente pra nós, como um narrador/comentarista social que fala para a câmera seu discurso, desferindo palavões e ameaças. É o que URBAN MENACE tem de melhor.

A trama é sobre um pastor (Snoop Dogg) que busca vingança contra o sindicato do crime local (chefiados por Big Pun & Fat Joe) pela morte de sua família e pelo incêndio de sua igreja. Não se sabe ao certo se o pastor morreu também no incêndio ou se é o fantasma (a resposta acaba sendo revelada mais pro final), mas seja o que for, ele se esconde num armazém abandonado e criminosos são enviados ao local para o matar. Na maior parte do tempo, Snoop Dogg age como uma entidade, um espírito que vaga pelos escombros e corredores do local levando a morte. E Pyun usa uns efeitos especiais e de edição da pior qualidade pra enfatizar o tom de ambiguidade nessa persona fantasmagórica de Snoop Dogg.

Mas quem seguimos realmente nessa história são três capangas (liderados por T.J. Storm), que passam o resto do filme andando em círculos pelos corredores do local procurando Snoop Dogg, ou correndo atrás dele quando o avistam (para ser mais específico, o dublê do Snoop Dogg)… E fica nisso, praticamente toda a narrativa se passa nesse armazém, com diálogos bestas, fotografia horrorosa e toda estourada, fora de foco, e os caras tentando pegar o Snoop. Pelo menos a trilha do Ice-T é maneira.

Quando o filme te leva pra outra situação, em outra locação, na base do sindicato do crime, com Big Pun e Fat Joe sentados conversando com seus capangas, a coisa piora ainda mais – ou melhora, dependendo do seu humor – e temos alguns dos piores trabalhos de câmera, edição, enquadramentos e mise en scene que já vi na vida. É de rolar de rir!

No final, todos os bandidos decidem invadir o armazém. Snoop Dogg faz uma chacina, dando tiro em todo mundo. É uma sequência até divertida, demonstra o velho Pyun experimental do cinema de ação de baixo orçamento, com resultado interessante. Tosco. Mas interessante… E, enfim, URBAN MENACE só tem 72 minutos. Contando os créditos. Claro, às vezes dá a impressão que possui 3 horas de duração, com os persoangens zanzando por um tempão pelos cenários e a cara do Snoop Dogg inserida na edição de forma ordinária. Mas tudo bem. Eu adoro essas porcarias, achei tudo engraçadíssimo, então gostei de URBAN MENACE. Só não vou recomandar e dizer que vale a pena assistir, porque tenho minhas dúvidas se até os leitores que gostam de uma tralha não se decepcionariam com isso aqui. Portanto, estejam avisados.

Curiosidades: Um dos bandidos também enviados ao local para matar o Snoop Dog é vivido por Vincent Klyn, o Fender, de CYBORG – O DRAGÃO DO FUTURO, a obra-prima de Pyun. E o roteiro, se é que podemos chamar esse lixo de roteiro, foi escrito por Tim Story, que alguns anos mais tarde dirigiria aqueles filmes do QUARTETO FANTÁSTICO dos anos 2000… Podem acreditar, URBAN MENACE é, pelo menos, melhor que esses aí.

Em breve comento também CORRUPT e THE WRECKING CREW, que provavelmente devem ser tão ruins quanto esse. Mal posso esperar!

GAROTAS SELVAGENS (1998)

John McNaughton, que até então era um cineasta visto com certa seriedade, surpreendeu, seja de forma positiva ou negativa, com GAROTAS SELVAGENS (Wild Things), produção que, a princípio, talvez fosse mais adequada para um “direto para vídeo” do que uma produção de Hollywood de orçamento razoavelmente alto (e as continuações de GAROTAS SELVAGENS dão uma boa noção do que o filme seria em circunstâncias normais). Por outro lado, os realizadores e o estúdio talvez tenham reconhecido que os elementos do cinema de exploração – intrigas vulgares, violência, sexo, nudez e garotas com preferências sexuais heterodoxas – poderiam dar ao filme uma nova qualidade, se realizado de modo correto.

O resultado é uma espécie de pastiche de neo-noir, com traminhas de crime e traição, personagens amorais, mas como se as fêmeas fatais do gênero pairassem sobre um capítulo de Malhação. GAROTAS SELVAGENS realmente tinha tudo pra ser muito ruim, mas é tão auto-consciente no que tá fazendo, além de safado e divertido, que fica difícil não resistir a essa pequena joia do final dos anos 90, que revi recentemente e continua um barato.

Ambientado na Flórida, somos apresentados ao professor Sam Lombardo (Matt Dillon), que é acusado de estuprar suas alunas, Kelly (Denise Richards) e Suzie (Neve Campbell), duas garotas er… selvagens. Você sabe que muita coisa ainda vai acontecer quando o assunto é encerrado no tribunal com menos de meia hora de filme, a deixa para que o vira-revira da história entre em ação com esse trio (e mais o policial vivido por Kevin Bacon). E também não adiantaria ficar aqui resumindo a trama, não porque vá estragar as várias surpresas e reviravoltas que o filme guarda (se é que alguém aí ainda não assistiu), mas porque, de uma forma ou de outra, a história não faz mesmo nenhum sentido… Haha!

O que vale a pena é acompanhar esses personagens inseridos em um contexto de sátira hiper-inflacionada dos elementos noir atualizados para a época. Os golpistas da trama são jovens de colégios, o dinheiro é absurdo de alto, o escândalo bem mais sensacionalista na sociedade e o sexo bem mais intenso. Um item que, aliás, chama a atenção pelo tom apelativo para um filme mainstream, usado como anzol para o grande público. Sobretudo na cena envolvendo uma trinca sexual, que chega com a sutileza de um filme pornô “com historinha”.

Cenas como Denise Richards saindo de uma piscina em câmera lenta, com um maiô transparente, ou Kevin Bacon em um nu frontal saindo do chuveiro são tão coreografadas, e de certo modo desnecessárias, que redefinem a palavra “gratuito”. Eu, particularmente, não tenho problema nenhum com isso, só acho que com toda essa exploração o filme não tem coragem de mostrar com todas as letras um óbvio envolvimento homossexual entre os personagens de Dillon e Bacon, embora, o faça quando o assunto é entre as duas garotas.

Mas enfim, seria mais uma revelação num mar de reviravoltas que GAROTAS SELVAGENS tem para oferecer. E que avança com um enredo que, embora simples e compreensível, começa a se enrolar nessa brincaderia dos “plot twist“. É, ao mesmo tempo, justamente a piada que McNaughton e o roteirista Stephen Peters querem contar e o tiro no pé do próprio filme. Uma vez que as reviravoltas começam a acontecer, elas nunca param, com novas revelações a cada poucos minutos quando o filme entra em sua meia hora final. E em consequência perdem força. Ainda assim, esse tipo de coisa acaba funcionando como uma comédia, mesmo que involuntária.

O elenco de GAROTAS SELVAGENS acaba sendo um destaque. Especialmente para esse tipo de filme, que precisa de talentos peculiares, por exemplo, como o de Denise Richards, que além de fazer bem o seu papel, mostra algumas outras qualidades na frente das câmeras. Neve Campbell também está ótima, fazendo um tipo mais ambiguo, assim como Matt Dillon e o olhar ameaçador de Kevin Bacon. Marc Macauley e Thereza Russell fazem boas participações, mas o show mesmo é roubado por Bill Murray em um papel curto, mas incrivelmente eficaz, como um advogado picareta.

GAROTAS SELVAGENS não é um filme perfeito, nem é um desses clássicos esquecidos dos anos 90 que precisava de uma redescoberta obrigatória… É bobo e tem quase duas horas de duração que podem ser ocupadas com coisa melhor. No entanto, para quem tem um gosto mais, digamos, vulgar pra cinema, é um belo exemplar que vale a pena conhecer caso alguém ainda não tenha visto.

O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA – DO PIOR AO MELHOR

Outro dia lançaram um novo filme da série O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA na Netflix, então eu resolvi ver toooodos os filmes da franquia que ainda não tinha assistido e rever os que já tinha conferido antes de encarar esse mais recente. O resultado foi esse ranking, do pior ao melhor, já incluindo o tal novo filme da Netflix:

9. Na última posição, ficou O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3D – A LENDA CONTINUA (Texas Chainsaw 3D, 2013), de John Luessenhop. Na maioria das vezes eu sou a favor da desmitificação e revisionismo de padrões, ícones e cânones no cinema, mas transformar o Leatherface numa espécie de anti-herói, um tipo de protetor, e alguém que mereça algum cuidado e carinho, é algo que eu não sei ainda como lidar. Especialmente depois de ver cada filme da franquia em sequência. Talvez se o filme fosse bom, eu não ficaria me procupando muito com esses detalhes, mas é bem meia boca na maior parte do tempo, a tram demora pra engrenar, e não consegui entrar muito na dos personagens na primeira metade do filme. 

A segunda metade já vira aquele banho de sangue padrão, sem muito brilho, mas sempre divertido de acompanhar, com algumas boas mortes… E tendo ainda Alexandra Daddario como protagonista, que é uma belezinha. Enfim, tem seus momentos. Mas é bem estúpido.

8. Agora, daqui pra frente é só alegria. Não que os filmes da série sejam geniais (na verdade, dois são sim, mas vamos esperar as primeiras posições), mas no geral me divertem em maior ou menor grau. MASSACRE NO TEXAS (Leatherface, 2017), de Alexandre Bustillo & Juliem Maury, já ganha uns pontinhos por tentar contar uma história diferente de tudo relacionado ao cânone de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA. A maior parte da trama se passa em meados dos anos 60, com o jovem Leatherface escapando de uma instituição mental. Há uma espécie de componente whodunnit no filme, porque é mostrado que os internos têm seus nomes alterados para evitar a associação com seu passado criminoso, então nem sabemos exatamente quem é o Leatherface no grupo fugitivo até certo momento chave. E o filme é incrivelmente violento, incluindo um tiroteio em um restaurante ao estilo ASSASSINOS POR NATUREZA.

Longe de ser perfeito, surpreende pela visão brutal do horror da dupla francesa Bustillo e Maury (L’INTÉRIEUR e LIVIDE), que conduz com segurança um filme agressivo, macabro (a cena de sexo com o cadáver é um troço bizarro), com bons personagens e atuaçõs fortes (Stephen Dorff e Lily Taylor estão muito bem), excelentes efeitos de gore práticos, belo clima e até mesmo uma história convincente de origem, bem respeitosa ao personagem do título.

7. Olha o novo filme aí. O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA: O RETORNO DE LEATHERFACE (Texas Chainsaw Massacre, 2021), de David Blue Garcia, tem uma sequência em um ônibus de festa, com um monte de influenciadores digitais sendo cortados em pedaços pelo Leatherface que é simplesmente uma delícia e já vale o filme. Que aliás, só tem cerca de 80 minutos de duração. Então, por mais bobo e descartável que seja, é difícil até culpá-lo por desperdiçar seu tempo, porque ocupa tão pouco… E a contagem de corpos é altíssima, tem várias mortes legais, uns momentos bem tensos, umas sacadas visuais interessantes – como Leatherface no meio dos girassóis. Que venham mais filmes da franquia, mesmo que sejam massacrados pela crítica, mas tão divertidos como este aqui.

6. LEATHERFACE: O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3 (Leatherface: The Texas Chainsaw Massacre III, 1990), de Jeff Burr. A década de 80 ficou marcada pela ascensão do slasher, não apenas como um subgênero, mas como uma fonte de criação de ícones de terror na cultura popular. A New Line, estúdio que trouxe Freddy Krueger ao mundo, resolveu colocar as mãos numas outras franquias, como O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, com a ideia de que Leatherface precisava ser o próximo grande ícone do gênero. Então, o terceiro filme da série colocou seu nome no título, um tempinho a mais de tela, com o personagem confeccionando uma de suas máscaras de pele humana, e até mesmo presenteou-o com uma motosserra mais épica, de aço inoxidável com a frase “The Saw Is Family” gravadas na lâmina.

A intenção também era desviar-se do humor de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2 e devolvê-la às raízes do horror mais puro do filme original; contrataram David J. Schow pra isso, um pioneiro da literatura “splatterpunk” para escrever o roteiro, e na direção, Jeff Burr, que não é um Tobe Hooper, mas sempre mandou bem em produções pequenas, embora aqui tivesse que lidar com vários problemas durante as filmagens, além da série de cortes da MPAA, que meteu tanto a tesoura nas cenas de violência que até a versão unrated é branda.

O resultado, convenhamos, não é lá grandes coisas, mas ao longo do tempo se tornou um “filme do coração”, um pequeno e belo exemplar do horror noventista, que muitos odeiam, eu sei, mas que tenho um carinho especial. Acho divertidíssimo, é direto, não chega a 90 minutos de duração e consegue entregar um certo nível de insanidade que a franquia precisa.

O problema é que a trama é basicamente uma recauchutagem do filme original e o casal protagonista, interpretados por Kate Hodge e William Butler, são muito chatos. Temos novamente uma sequência que recria o jantar, sem a mesma força dos dois filmes anteriores, mas, vejamos, temos a mocinha com as mão pregadas à marteladas numa cadeira, um jovem Viggo Mortensen como um dos canibais, chamado Tex, um sujeito pendurado de cabeça para baixo pronto para ser abatido com uma martelada, Leatherface com sua nova motosserra cromada, personagens da família canibal nunca visto antes. E de quebra, a presença de Ken Foree como herói badass que surge nesta mesma cena metralhando todo mundo, para logo depois encarar Leatherface no mano a mano dentro de um mangue cheio de pedaços de corpos. Cacete, não tem como não se divertir com essa porcaria…

5. Se O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA: O INÍCIO (The Texas Chainsaw Massacre: The Beginning, 2006), de Jonathan Liebesman, é um filme que não justifica tanto sua existência – a de ser um prequel do remake de 2003, mostrando como os Hewitts (a nova família) se tornaram canibais assassinos e contando as origens de Leatherface – ao menos se justifica como um filme de horror muito eficiente, mais direto, sujo, violento pra cacete e com um trabalho de tensão bem muito competente, de fazer o espectador pregar na poltrona durante um bom tempo. Não deixa de ser descartável, mas para quem quer ver uma boa dose de matança, com Leatherface fazendo bom uso de sua motosserra, este aqui é altamente recomendável… R. Lee Ermey, que já havia brilhado no filme de 2003, continua um destaque. E para o roteiro trouxeram mais uma vez o pioneiro “splatterpunk” David J. Schow, que já havia trabalhado no filme acima, MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3.

4. Eu não diria que O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (The Texas Chainsaw Massacre, 2003), de Marcus Nispel, seja um filme obrigatório, não é nada lá muito memorável. Mas uma coisa que eu não lembrava e que foi uma grande revelação pra mim nessa revisão é o fato de ser um remake que não tenta ser o original e muda tudo aquilo que lhe convém – trama, situações, personagens… Não que isso o torne melhor, mas pelo menos lhe dá alguma autenticidade dentro de sua proposta conceitual, mesmo que o resultado geral seja genérico em tom e visual. O problema é que o Marcus Nispel filma mal, com um ou outro momento de destaque. Um diretor mais talentoso teria transformado isso aqui num clássico do horror dos anos 2000. Mas ok, ainda assim, tudo funciona pra mim de alguma maneira, sobretudo no terceiro ato quando o filme se torna só uma frenética – e realmente tensa – perseguição de Leatherface à final girl de Jessica Biel, com alguns momentos bem inspirados e violentos. No fim, fiquei bem satisfeito. Me parece um filme que se arrisca mais, o que acaba adicionando uns pontos à seu favor, mesmo que falhe em algumas coisas no percurso.

Mas aí entra o xerife de R. Lee Ermey, que é o que o filme tem de mais desconcertante, e uma das melhores coisas da franquia inteira. Tudo sobre a presença do sujeito é simplesmente aterradora, tensa e desagradável de assistir – uma performance que merecia ser mais lembrada. O sujeito era foda.

3. O quarto filme da franquia, O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA: O RETORNO (The Texas Chainsaw Massacre: The Next Generation, 1995), foi escrito e dirigido por Kim Henkel – que é o co-criador do primeiro filme, o clássico de 74, junto com Tobe Hooper. Henkel considera o filme uma paródia da franquia (ele até recria algumas cenas do original), mas o público na época não achou muita graça e foi um fracasso nas bilheterias. Desde então, vem ganhando um status cult e agora eu entendi porquê (esse foi um dos que eu nunca tinha assistido antes)… Trata-se de um dos filmes mais surtados, bizarros, anarquistas, doentios, com um humor debochado dos mais absurdos que eu já vi dentro de uma franquia de horror mais conhecida. Em determinado momento eu pensei que tava vendo um filme do David Lynch… As atuações de Matthew McConaughey e Renée Zellweger, os dois nomes que acabaram ficando famosos, acompanham toda a loucura com a mesma intensidade de suas performances; e o filme também apresenta um Leatherface travestido, o que é simplesmente genial. Toda vez que lembro desse filme, gosto ainda mais.

2. O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2 (Texas Chainsaw Massacre 2, 1986) foi produzido pela Cannon Group como parte de um acordo com Tobe Hooper, que poderia dirigir este aqui contanto que fizesse mais dois filmes para o estúdio. Foi inicialmente planejado como uma continuação muito maior, mais épica e bizarra, com uma cidade inteira de canibais. De certa forma, continua sendo um filme “maior”, mais épico e bizarro, porém o orçamento foi reduzido durante a produção e algumas ideias foram deixadas de lado. Não sei se estava no projeto inicial, mas Dennis Hopper está aqui como um Texas Ranger obcecado, parente de vítimas do primeiro filme. Ele quer se vingar e vai usar motosserras para atingir seu objetivo! E só por isso, já dá pra colocar o filme num pedestal.

Lembro da decepção que foi ver esse filme pela primeira vez. Provavelmente porque não esperava a total mudança de tom, mais carregado no humor, e é tudo ainda mais exagerado, mais colorido, em muitos aspectos o oposto do primeiro filme. Mas com várias revisões que fui fazendo ao longo dos anos passei a apreciá-lo cada vez mais. Hoje considero uma obra-prima. sobretudo por compreender melhor a ideia de Hooper em fazer uma continuação que reagisse aos anos 80, numa sátira autoconsciente do próprio produto que criou e também pelo contexto daquela época, de uma América oitentista cheia de traumas e ressaca das últimas décadas…

Certamente não era a continuação que os fãs do primeiro filme queriam, há uma recusa em atender as expectativas, um grande foda-se pra tudo isso. Mas ainda assim estamos falando de Tobe Hooper, então, para quem embarca na loucura, vai se deliciar com alguns dos momentos mais antológicos do horror nos anos 80. Como Leatherface descobrindo o “amor” e usando sua motosserra como extensão de seu… Bom, vocês sabem. Ou Dennis Hopper encarando Leatherface num duelo de motosserras, que é algo para se ver de joelhos. E apesar de Hopper estar maravilhoso, é preciso destacar Bill Moseley, que dá uma “roubada de cena” quando aparece. Pode não estar no mesmo nível do primeiro (óbvio, até porquê pouquíssimos filmes estão), mas de alguma maneira acabou sendo uma continuação perfeita de um filme perfeito.

1. Obviamente que o primeiro lugar seria do clássico de 1974. Não tinha como ser diferente. O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (Texas Chain Saw Massacre, 1974), de Tobe Hooper, continua uma das experiências mais perturbadoras mesmo depois de tantas revisões, e permanece na mente como um pesadelo. Ok, “pesadelo filmado” é uma daquelas expressões que acabaram banalizadas pelo seu uso excessivo, mas aqui não existe definição mais perfeita. Tobe Hooper tira toda a gordura habitual do gênero, concentra-se no essencial e nos serve um filme aterrador, sublime e revolucionário; horror na sua forma mais pura e cristalina: um pesadelo filmado.

A antológica sequência do jantar com a família de canibais é um é uma das coisas mais absurdas e subversivas que existe no gênero até hoje; a mise-en-scène de Hooper, os ângulos oblíquos dos enquadramentos, a luz desorientadora, o pandemônio auditivo potencializados pelos gritos desesperados de Marilyn Burns, possui todos os ingredientes daquilo que é feito um… pesadelo. E convenhamos: só a ideia de um psicopata brutamontes, com uma máscara feita de pele humana, portando uma motosserra perseguindo uma garota inocente é algo simplesmente genial. Com isso em mente, o filme culmina numa das sequências mais inesquecíveis da minha vida, uma perseguição final que tem desfecho na icônica imagem cristalizada de Leatherface (Gunnar Hansen), perfilado contra o sol fumegante, agitando sua motosserra como numa dança macabra. Obra-prima, clássico, etc, qualquer termo desse tipo é pouco pra classificar isso aqui.

THE ARENA (1974)

A New World Pictures, produtora de Roger Corman, financiou THE ARENA, uma variação do tema WIP (Women in Prison), filmes de exploração com mulheres passando sufoco em prisões, só que aqui ambientado durante os dias do antigo Império Romano. Mark Damon, que foi ator de alguns filmes de Corman nos anos 60, havia se aposentado das atuações e se tornou um produtor de cinema na Europa e pegou THE ARENA pra começar. Filmado na Itália com um elenco majoritariamente europeu, apresentando muitos rostos familiares de uma série de filmes de Eurohorror, como Paul Muller e Rosalba Neri, o filme é marcado também pela presença da então crescente musa do exploitation Pam Grier o que o torna um híbrido incomum de peplum italiano dos anos 1960 e um grindhouse americano dos anos 1970.

Grier e Margaret Markov (que já haviam se unido anteriormente em BLACK MAMA, WHITE MAMA, de 1972) co-estrelam como Mamawe, da Núbia, e Bodicia, uma sacerdotisa da Bretanha. Ambas são sequestradas de suas terras natais por soldados romanos e rapidamente, junto com outras mulheres, encontram-se no leilão no mercado de escravos. Acabam compradas pelo organizador politico conectado aos jogos locais, Timarchus, tanto como escravas sexuais para o entretenimento dos amigos poderosos de Timarchus quanto como garçonetes das arenas durante os jogos. Apenas Bodicia e Mamawe mantêm uma aparência de dignidade sob o jugo da servidão, desafiador até mesmo para a altiva supervisora ​​de Timarchus, Cornélia (interpretada por Rosalba Neri).

Quando as garotas se envolvem em uma briga de comida que destrói a cozinha, um dos amigos de Timarchus sugere transformá-las em gladiadoras para a arena. Ansioso para manter os cidadãos que compram ingressos interessados nesse tipo de entretenimento, Timarchus logo tem as mulheres treinando para o combate sob a tutela do mestre gladiador Septimus (Peter Cester), um lutador careca enorme que comete o erro de se apaixonar por uma de suas novas alunas, Lucinia (Mary Count).

A primeira competição pública entre as gladiadoras é um evento cômico, sem que ninguém seja ferida ou morta. Mas a multidão sedenta de sangue fica facilmente entediada. O próximo confronto deverá ser até a morte. Mamawe e Bodicia percebem que cada uma delas vão acabar morrendo em algum momento na areia encharcada de sangue da arena, a menos que tomem uma atitude, façam uma revolução, numa tentativa de liberdade.

Essencialmente, esses filmes nos convidam a desfrutar vicariamente os prazeres do poder, testemunhando uma sucessão de espetáculos sádicos e, quando a roda gira pro outro lado, vemos o ciclo se repetir com as posições de vítima e vitimizador invertidas. Portanto, ao final, ver os poderosos se ajoelhando diante do poder feminino dessas gladiadoras já faz valer o filme. O significado pode ser tomado como sadiano: pegue o que puder, antes que a próxima contra-revolução chegue. Ou até budista: que atitude tomar para escapar do ciclo cármico. Seja como for, reforça a validade da máxima de John Dalberg-Acton: “o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente“. Sim, é muita besteira intelectual/filosófica para justificar um filme como THE ARENA. Na verdade, o que o justifica é bem mais simples: Grier, Markov e outras moças no modo “vamos vestir se o papel exigir” e uma abundância de sequências de batalhas e duelos em arenas.

Não é nem um filme muito notável ou particularmente bom, mas também não é uma perda de tempo, especialmente se você tem interesse nessas questões, nas aventuras de “Espada e Sandália” e, obviamente, em senhoritas com pouquíssimas roupas. O ritmo do filme é bom, há muita ação, sobretudo os quinze minutos finais, que é uma longa batalha frenética de libertação, e é um daqueles filmes que tem muita coisa para se olhar. Certamente se beneficiou do acesso aos Estúdios Cinecittà de Roma, que possui muitos cenários e figurinos prontos, então o visual de THE ARENA é incrível, se pensarmos que foi feito com pouquíssimo orçamento.

O diretor de THE ARENA é o pupilo de Corman, Steve Carver, que mais tarde faria CAPONE, com Ben Gazzara, e um dos melhores veículos de Chuck Norris, McQUADE – O LOBO SOLITÁRIO. Aqui era sua estreia na direção e já colocado numa prova de fogo por Corman: enviado à Itália, pra filmar uma produção de época, com pouco dinheiro e prazo apertado, com uma equipe italiana e maioria dos atores europeus. E sem falar o idioma. O tipo de experiência que o cara entra como um aspirante à cineasta e sai como um mestre do filme B.

Alguns talentos locais lhe auxiliaram na empreitada, como o seu diretor de fotografia, as lentes de ninguém menos que Aristide Massaccesi, também conhecido como JOE D’AMATO, um dos maiores gênios do exploitation italiano. Na pontuação musical, temos Francesco De Masi, então você percebe que a coisa é decente no fim das contas, mesmo que a mise-en-scene seja em grande parte sem inspiração. Claro, considerando a situação até que Steve Carver se sai bem, mas, por favor, não dava pra exigir tanto do rapaz, que estava mais preocupado em filmar dentro do prazo do que fazer composições estéticas…

Mas para aquilo pelo qual o filme se propõe, de ser um típico exploitation com o selo de Roger Corman, um passatempo curto com bastante batalhas e uns peitos de fora, até que THE ARENA funciona perfeitamente.

ROEDORES DA NOITE (1995)

Com o DRÁCULA (92) do Coppola trazendo Bram Stoker e o horror gótico novamente às atenções no início dos anos 90, uma série de filmes de baixo orçamento, dos mais variados níveis de qualidade, procurou surfar na onda e tirar proveito do hype. E obviamente o rei dos B Movies, Roger Corman, não ia ficar de fora dessa. ROEDORES DA NOITE (Burial of the Rats), produzido pelo sujeito e dirigido por um cara legal chamado Dan Golden, é o resultado da empreitada.

Produção para TV, filmado na Rússia, nos estúdios Mosfilm – quando estavam praticamente falidos após a queda da União Soviética – ROEDORES DA NOITE não é lá um filme que eu classificaria como “bom” no sentido tradicional, mas é aquele tipo de produto que acabo gostando, e até me surpreendendo de alguma maneira, pelos motivos errados. O tipo de porcaria que pode ser muito divertido quando realizado por pessoas que realmente sabem o que estão fazendo. E que têm muita força de vontade pra fazer algo legal…

A “força de vontade”:

A trama de ROEDORES DA NOITE é inspirada num conto de Bram Stoker e protagonizada pelo próprio escritor. Em algum lugar na França do século IXX, o jovem Stoker (vivido por Kevin Alber) é sequestrado por um culto de mulheres guerreiras, que usam pouquíssimas roupas, odeiam homens e se auto intitulam “Rat Women“. Uma das integrantes é a bela Madeleine, interpretada por uma das habituais aqui do blog, Maria Ford. As “Rat Women” são lideradas por uma Rainha, que é encarnada por ninguém menos que a ex-Senhora John Carpenter, Adrienne Barbeau. Com ela à frente, essas mulheres guerreiras comandam hordas de ratos famintos e carnívoros para se vingar de todos os homens misóginos da região. E é nessa situação que o pobre Stoker foi parar…

Enquanto isso, o pai do futuro escritor enfrenta a indiferença da polícia local na busca por seu filho. Mas Stoker consegue dar seus pulos, sobrevive à tortura num pêndulo balançando sobre um poço de ratos, e ainda consegue atrair a atenção da bondosa Madeleine, apesar da desconfiança e ciúmes de uma colega, Anna (Olga Kabo). Além disso, seu talento para a escrita convence a rainha a deixá-lo viver e participar de algumas missões para documentar seus grandes feitos, registrar ao restante do mundo esse universo de mulheres peculiares. Aos poucos também, o mancebo Stoker conquista o coração (e outras coisas mais) de Madeleine… A situação do sujeito melhorou, não é mesmo?

ROEDORES DA NOITE lembra um pouco os filmes do ciclo Edgar Allan Poe, produções baseadas nesse escritor que o Corman dirigiu nos anos 60 e que resultou em alguns dos melhores filmes de horror do período. O tipo de produto que, realizado nos anos 90 com orçamento reduzido, feito nos moldes clássicos, já não fazia o menor sentido, exceto se os realizadores explorassem aquilo que não podiam trinta anos antes. E aqui exploram. Podem ter certeza disso… Aquela “força de vontade” a qual me referi ali em cima…

No entanto, nem só de molecagem e safadeza vive ROEDORES DA NOITE. Não que seja um daqueles filmes que se transformam em obras místicas transcendentais, nada disso. Mas me peguei prestando atenção em como o filme se torna em algum momento numa aventura realmente divertida, que me prendeu, com uma agradável veia romântica… Claro, não dá pra exigir muito do tal do Kevin Alber, que não é lá muito talentoso, além de ser feio pra burro, mas Maria Ford consegue fazer o seu lado com graciosidade e honestidade. Uma heroína exemplar: espirituosa, boa de esgrima e escassamente vestida.

Enquanto isso, temos Adrienne Barbeau, que praticamente passa o filme inteiro sentada no seu trono de rainha, maravilhosa, sob sua enorme peruca. E com um bando de ratos em seus pés. E o animal que não lhe agradar pode sofrer um terrível fim, como na cena em que Barbeau ordena que um dos ratos seja decapitado numa mini-guilhotina, seja lá por qual motivo… Só sei que é dos momentos mais bizarros – e engraçados – de ROEDORES DA NOITE.

Aliás, falando sobre os ratos, eles acabam tendo uma participação bem menor do que o esperado, já que os títulos, tanto no original quanto na nossa tradução nacional, remetem a eles. No entanto, sempre que aparecem, vale a pena. Em quinze segundos, esses dóceis animais são capazes de devorar um corpo deixando só o esqueleto de suas vítimas. A sequência final, quando Barbeau escolhe deixar seu destino cruel nas mãos desses ratinhos, é algo a se destacar…

Ainda no elenco, temos as participações especiais de Linnea Quigley e Nikki Fritz. As duas deviam estar perdidas nos sets na Rússia, fazendo sabe-se lá o que, e o Dan Golden deve ter chamado pra filmar alguma coisa. Juntas, as duas participações não dura nem dez segundos.

Aliás, que final! Uma batalha de proporções épicas – calma, estou considerando para o tipo de produção que temos aqui – com o exército francês invadindo o castelo das “Rat Women” e sendo recebidos pelas guerreiras em lutas de espadas frenéticas. Por mais risível que seja a encenação e o óbvio baixo orçamento da produção, Corman e Dan Golden conseguiram criar um espetáculo minimamente divertido que remete aos clássicos filmes de espadachim dos anos 40 e 50…

E enterrado sob a fartura de bobagens, mulheres com pouca roupa e muita luta de espada, existem lá no fundo algumas ideias bastante interessantes sobre a escrita/literatura como uma força de libertação ideológica e um discurso feminista de mulheres que procuram vingar os erros de uma sociedade dominada por homens. Mas os roteiristas de ROEDORES DA NOITE – e acredito que o público também – não estavam muito interessados em explorar com grande profundidade esse tipo de coisa num filme como esse.

Aqui é mais Corman garantindo que tudo funcione como um bom exploitation, com o elenco tirando a roupa com a maior frequência possível, uma boa dose de sangue, descolando cenários inusitados e bem legais lá na puta que pariu pra dar aquele ar de produção bem mais cara do que a realidade. A direção de Dan Golden (NAKED OBSESSION e HAUNTED SEA) também ajuda. Não é nada magistral, mas ele sabe onde colocar sua câmera.

Vejamos um exemplo e analisemos o talento do homem na direção:

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IL MAESTRO ESTÁ DE VOLTA

Dez anos depois de DRACULA 3D, il maestro dell’orrori Dario Argento ataca, no auge dos seus 81 anos, com OCCHIALI NERI, que hoje ganhou essa belíssima arte aí em cima.

Baseado em um roteiro de 2002 que Argento e Franco Ferrini escreveram e que foi arquivado quando Cecchi Gori, a produtora, pediu falência, a trama segue Diana, uma jovem que perdeu a visão e encontra um guia em um menino chinês chamado Chin. Juntos, eles vão rastrear um assassino perigoso através da escuridão da Itália.

OCCHIALI NERI tem estreia marcada agora em fevereiro no Festival de Berlim.

NECRONOMICON: O LIVRO PROIBIDO DOS MORTOS (1993)

Taí um filme que nunca tinha visto e que tem vários sujeitos legais envolvidos. Pra quem não conhece, NECRONOMICON tem três diretores relativamente respeitáveis – pelo menos pra quem se interessa por cinema de gênero – cada um fazendo um episódio que forma uma antologia inspirada em H.P. Lovecraft.

Bom, na época apenas um deles era mais conhecido, Brian Yuzna, que falei dele recentemente por aqui, os outros dois eram estrangeiros em Hollywood: o francês, então iniciante, Christophe Gans, bem antes de fazer coisas como PACTO DOS LOBOS e a adaptação do jogo SILENT HILL. E o japonês Shusuke Kaneko, da trilogia GAMERA.

Temos uma história base que mantém três outras histórias conectadas, que segue a tradição das antologias de horror. Nessa trama, somos apresentados ao próprio H. P. Lovecraft, vivido por ninguém menos Jeffrey Combs (RE-ANIMATOR), carregado de tanta maquiagem que até demorei pra reconhecê-lo, em busca do lendário Necronomicon numa biblioteca cheia de mistérios e guardada por monges. Proibido de frequentar certos aposentos do local, Lovecraft dá um jeito de despistar os monges e encontra o livro escondido num cofre. E então, o sujeito começa a escrever ali mesmo as histórias que veremos durante o filme.

THE DROWNED é o primeiro e mostra um Christophe Gans como um diretor bem promissor, com talento para o visual. O rapaz só havia realizado até aquele momento um curta metragem no início dos anos 80. Na trama, Bruce Payne (o vilão de PASSAGEIRO 57) é o herdeiro de um antigo hotel caindo aos pedaços, local que guarda algumas lembranças ruins. Payne descobre que seu antepassado (interpretado por um brilhante Richard Lynch) usou o amaldiçoado Necronomicon para trazer de volta sua esposa e filho mortos, só que as consequências desse ato foram terríveis… E acontece que o personagem de Payne recentemente perdeu sua mulher amada num acidente. Como o sujeito não aprendeu com os erros do seu antepassado, ele usa o livro para trazer de volta seu amor perdido (encarnada pela musa do cinema erótico noventista Maria Ford), obviamente com resultados não lá muito agradáveis. Mas para o espectador é só alegria. Dirigido com estilo e aquela energia de iniciante, o episódio tem boa atmosfera, momentos perturbadores e ótimos efeitos especiais.

O segundo episódio é THE COLD, de Shusuke Kaneko, um conto sobre uma jovem que aluga um quarto numa casa onde um cientista solitário e recluso (interpretado por David Warner) reside no andar superior estranhamente gelado e que talvez seja mais velho do que aparenta. Quando a moça faz amizade com o triste e frágil cientista, ela descobre que ele encontrou o segredo da imortalidade. Claro, esse tipo de porcaria tem um preço… O sujeito só pode permanecer vivo aplicando constantes injeções de fluido espinhal humano fresquinho.

Ainda que eu goste da premissa e algumas ceninhas (especialmente no final quando abusam de efeitos especiais práticos, com muito sangue e gosma verde), é o episódio mais fraco de NECRONOMICON. É sabido que Kaneko não falava inglês quando filmou e provável que a barreira da comunicação deve ter sido um problema, embora em alguns momentos dá pra sentir o diretor tentando extrair uma dramaticidade considerável desta parábola sobre o preço horrível que se deve pagar por enganar o destino. Mas no geral THE COLD não é lá grandes coisas.

O filme volta nos trilhos com WHISPERS de Yuzna. É o meu favorito, o mais surtado e absurdo de NECRONOMICON. Yuzna realmente mostrou pros outros dois colegas como se faz! A história se passa, curiosamente, em um ambiente moderno, urbano; uma policial segue um suspeito até uma instalação aparentemente abandonada que abriga horrores inimagináveis e os monstros mais antigos da humanidade. Atraída para as profundezas, a policial é empurrada para dentro de um buraco que na verdade são as entranhas de um monstro e tem que lidar com criaturas sugadoras de medula óssea e até o corpo oco reanimado do seu parceiro num cenário saído de um filme do Mario Bava. Yuzna, que é um grande fã do bizarro e surreal, preenche seu segmento com imagens “porraloucas” e um banho de sangue daqueles, que vai satisfazer os fãs de um horror mais visceral.

Depois o filme retorna à história base, com Lovecraft agora tentando fugir da biblioteca. Acho que não disse ainda, mas essa parte também é dirigida pelo Yuzna. E Jeffrey Combs arrasa até o último minuto. Vale destacar alguns nomes responsáveis pelos efeitos especiais old school de NECRONOMICON, elemento fundamental por aqui, artistas soberbos do nível de Tom Savini, Todd Masters e Screaming Mad George.

Mas NECRONOMICON é bem mais que efeitos especiais e imagens grotescas, violentas, ou monstros com tentáculos que sugam o sangue de suas vítimas. É também uma meditação provocativa e interessante sobre o domínio do homem em relação à sua realidade, à um submundo assustador que, se invadido por nós, indivíduos estúpidos e curiosos, pode se tornar uma jornada fascinante, mas também mortal.

Infelizmente, NECRONOMICON não conseguiu ser lançado nos cinemas nos EUA, sabe-se lá porquê. Mas como teve dinheiro investido por produtores japoneses e franceses, os caras lançaram o filme nos cinemas em seus territórios para recuperar o investimento. Em seguida, a New Line adquiriu os direitos de distribuição, mas decidiu que era mais seguro lançar direto em vídeo do que arriscar dinheiro em uma campanha para lançar nos cinemas. Três anos depois, acabou chegando nas prateleiras das locadoras. Até hoje tenho a impressão de que é um filme pouco visto. Não é nenhum marco obrigatório do cinema de horror, mas é um filme que merecia uma conferida.

FAVORITOS DE 2021

Já adiantei no twitter e instagram um top 10 dos filmes que mais gostei neste ano, mas aqui aproveito pra estender a lista em quantidade e também acrescentar os filmes de 2020 que acabei assistindo só em 2021. E é preciso dizer, este ano deu de lavada. Foi um grande ano, com filmes realmente bons e, caramba, não é sempre que dá pra reunir gente gabaritada como Clint Eastwood, Steven Spielberg, Abel Ferrara, Paul Verhoeven, Ridley Scott, M. Night Shyamalan e Paul Schrader numa mesma lista de melhores do ano…

Então, vamos ao que interessa, segue aí um top 20 com as produções que mais me marcaram em 2021, com alguns breves comentários marotos sobre cada:

#20. CLIFF WALKERS (2021), de Zhang Yimou: Noir de espionagem chinês. Não é das tarefas mais fáceis de acompanhar a trama, cheia de detalhes contextuais da época que a história se passa e excesso de personagens, mas depois que se acostuma é bem envolvente.

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#19. A WRITER’S ODISSEY (2021), de Lu Yang: Fantasia espetacular de ação, um pouco pesado no CGI e na duração, mas bem divertido e com umas boas alfinetadas contra o corporativismo estatal.

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# 18. ONE SHOT (2021), de James Nunn: A devoção de Scott Adkins ao cinema de ação de baixo orçamento é pra sempre nos lembrar que ainda há vida inteligente no gênero.

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#17. THE POWER OF THE DOG (2021), de Jane Campion: Belo conto de desmistificação do cowboy, do velho oeste. Sobre desejos reprimidos pela imposição da pose de machão.

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#16. DON’T LOOK UP (2021), de Adam McKay: Documentário sobre como o negacionismo de pessoas ineptas como Trump/Bolsonaro fodem o mundo.

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#15. WIFE OF A SPY (2020), de Kyioshi Kurosawa: Um Kurosawa menor, na minha opinião, mas com força suficiente pra demonstrar porque o sujeito é um dos maiores em atividade.

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#14. THE WOMAN WHO RAN (2020), de Hong Sang-soo: A cena do sujeito discutindo sobre os gatos já é candidata a uma das melhores da década.

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#13. RAGING FIRE (2021), de Benny Chan: RIP Benny Chan. Você era foda.

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#12. MALIGNANT (2021), James Wan: Às vezes eu sinto falta de um filme de horror de qualidade, só que mais escrachado e galhofeiro. E isso aqui acertou em cheio nisso.

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#11. MONSTER HUNTER (2020), de Paul W. S. Anderson: Gosto como a coisa toda é urgente e direto na sua proposta: o filme é sobre Milla Jovovich e Tony Jaa enfrentando monstros gigantes. Ponto. É o que ele entrega e entrega de forma linda. Não preciso mais que isso. Ajuda muito eu já ter uma queda pelo cinema do PWSA.

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#10. OLD (2021), de M. Night Shyamalan: Reflexivo, tenso e aterrador. É tudo o que se poderia esperar do diretor caso dirigisse um longo episódio do seriado ALÉM DA IMAGINAÇÃO.

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#09. THE CARD COUNTER (2021), de Paul Schrader: O mal não é uma força vaga e nebulosa, existem pessoas físicas reais com endereço fixo que a pratica. Mais do mesmo dos filmes que Paul Schrader tem feito. Ou seja, maravilhoso.

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#08. CRY MACHO (2021), de Clint Eastwood: Auto-consciência de um ícone envelhecido, olhando para o que representou, com alguns arrependimentos aqui e provas de sabedoria ali. Já não há muito o que fazer, Clint agora só quer sossego ali naquela cidadezinha mexicana, dançando uns clássicos com aquela senhora do restaurante que faz uma comida boa, e soltar reflexões ao rapaz do galo como “essa coisa de macho é superestimada”… Clint já não está lá mais interessando em encontrar algum punk pra “fazer o seu dia”

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#07. BENEDETTA (2021), de Paul Verhoeven: O Holandês maluco e suas provocações, expondo a podridão dos jogos de poder e hieraquia da igreja católica. E ainda faz uma belo exemplar de numsploitation que deixariam Jess Franco e Joe D’Amato orgulhosos.

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#06. WEST SIDE STORY (2021), de Steven Spielberg: A câmera de Spielba continua um deleite. Cada plano desse filme é um espetáculo. O melhor do diretor desde MUNIQUE (2005).

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#05. DRIVE MY CAR (2021), de Ryusuke Hamaguchi: Conto delicado de quase três horas sobre personagens quebrados, revirando memórias e tentando superar suas perdas numa relação que se estabelece a partir de um carro véio que o protagonista possui.

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#04. THE LAST DUEL (2021), de Ridley Scott: Questões modernas através de uma lente medieval. Ridley Scott continua mostrando porque é um dos grandes mestres em atividade. Pena que não consegui ver HOUSE OF GUCCI a tempo, corria o risco de ter dois filmes do homem nessa lista.

Zeros and Ones | The Film Stage

#03. ZERO AND ONES (2021), de Abel Ferrara: Não entendi um caralho em termos de trama. Mas é uma das experiências atmosféricas mais fascinantes da carreira do Ferrara. E o fato de ser todo revestido pelo contexto da pandemia a coisa fica ainda mais intensa e angustiante.

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#02. MATRIX RESURRECTIONS (2021), de Lana Wachowski: Quanto mais nerdolas e fanboys dos filmes anteriores têm odiado esse novo MATRIX, mais eu tenho amado. O “blockbuster anti-blockbuster” do ano. Um tapa na cara do público acostumado com as fórmulas de filmes de bonecos que vêm se acumulando nos últimos 15 anos em Hollywood.

Limbo movie review: Hong Kong crime thriller starring Lam Ka-tung, Mason  Lee and Cya Liu sees director Soi Cheang return to his nihilistic best |  South China Morning Post

#01. LIMBO (2021), de Soi Cheang: E o filme do ano é essa pedrada que vem da China, dirigido por Pou Soi Cheang, que já fez alguns filmaços, ACCIDENT (2009), MOTORWAY (2012), SPL 2 (2015)… Desses diretores que é obrigatório conhecer. Trata-se de um neo-noir em preto e branco expressivo, com o alguns códigos básicos habituais do gênero: dois detetives, um jovem e outro experiente, que estão à caça de um serial killer. Mas a coisa se subverte como uma das experiências visuais mais impressionantes que eu tive em muito tempo (vem sendo filmado desde 2017, com um cuidado estético de cair o queixo). Trágico, psicológico, atuações sublimes e sequências de tensão de tirar o fôlego – sem contar a questão visual, que é realmente a grande força do filme – LIMBO é a obra-prima de 2021.

Até o ano que vem.

PROGENY: O INTRUSO (1998)

Essa semana vi esse pequeno filme do produtor/diretor Brian Yuzna que não tinha assistido ainda. Boa descoberta. O Yuzna é um cara que respeito e sempre que paro pra ver umas coisas dele, saio no mínimo agraciado com uma boa diversão.

Depois de produzir alguns trabalhos de Stuart Gordon, como o clássico oitentista RE-ANIMATOR e FROM BEYOND, Yuzna rapidamente conquistou uma reputação como cineasta com seu petardo SOCIETY, de 1989 (no Brasil: SOCIEDADE DOS AMIGOS DO DIABO). O sujeito, ao longo da carreira, conseguiu criar um universo original e certo senso de eficiência no horror, com algumas belezinhas nos anos 90, como O DENTISTA, NATAL SANGRENTO 4: A INICIAÇÃO e as continuações de RE-ANIMATOR. Rapidamente se tornou uma figura cult, embora alguns de seus filmes sofressem com um orçamento limitado que o impedia de prosperar como um Carpenter, Craven, Romero, Tobe Hooper… E um desses trabalhos que sofre com isso é justamente PROGENY: O INVASOR, uma fita de baixíssimo orçamento sobre abdução alienígena, que não tem nada de original, mas que se destaca pela forma na qual Yuzna conduz as coisas, pelo elenco afiado e, bom, por não tentar ficar inventando a roda e deixar de ser aquilo que é: um bom horror sci-fi noventista.

Mais uma vez Yuzna se reúne com o já citado parceiro de longa data, Stuart Gordon, que aqui atua como roteirista, junto com Aubrey Solomon, fazendo um belo trabalho de pesquisa, estudando casos “reais” de abdução, para chegar num enredo rigoroso e personagens mais, digamos, realistas. Temos, portanto, muitos elementos habituais deste tipo de evento (luzes estranhas no meio da noite, perda da noção de tempo durante o fenômeno, paranóia e crises de identidade, etc.), de forma que a história às vezes remete muito ao livro Communion, de Whitley Streiber (e à sua adaptação pra cinema, que tem o título no Brasil de ESTRANHOS VISITANTES), considerado uma autêntica bíblia da ufologia.

Além disso, PROGENY adiciona uma pegada de O BEBÊ DE ROSEMARY misturado com ARQUIVO X na trama, deixando as coisas ainda mais interessantes. Devo dizer que o filme não é lá uma obra-prima, mas armado com todo esse trabalho de pesquisa, as influências, mais o talento natural de Gordon/Yuzna, o resultado não é nada mau. PROGENY é redondinho e bem escrito, demonstra hábil na arte de detalhar a degradação de um casal em crise, personagens oprimidos por eventos estranhos, diante do horror e do inexplicável, e que funciona também como boa alegoria do casal diante do “horror” do primeiro filho.

O filme começa quando o cirurgião Craig Barton (Arnold Vosloo) faz amor com sua esposa Sherry (Jillian McWhirter) e uma luz azul ofuscante surge do nada e clareia o aposento. O casal recupera a consciência duas horas depois, sem nenhuma memória do que aconteceu. Craig então começa a sofrer de insônia, problemas de comportamento, agressividade… Sherry fica grávida e começa a sentir dores estranhas no abdômen. Em sessões de hipnose o casal relembra o que aconteceu naquela noite e a revelação não vai ser das melhores para eles. Mas para o público, é só alegria, já que se trata de abduções, nave espacial, alienígenas cheios de tentáculos roçando no corpo nu de Sherry e, obviamente, o que cresce na barriga da mulher é puro terror.

Yuzna faz umas escolhas interessantes, abraça a narrativa, no drama e paranoia dos protagonistas, sendo mais comedido do que o normal em cenas de choque e violência, deixando a atmosfera tomar conta e a tensão aumentar. E faz com que as sequências mais apelativas, com um bocado de gore, quando chega a hora, se mostrem mais imprevisíveis e especiais. Um bom exemplo é a sequência do flashback de Sherry, que mostra o que rolou durante aquelas duas horas, dentro da nave alienígena, um dos momentos mais angustiantes do filme. Assim como o final, quando a coisa descamba de vez pra uma violência mais gráfica, com tripas e sangue rolando na tela. E tudo muito bem feito. Os efeitos especiais de PROGENY são bastante satisfatórios, na maior parte do tempo, para uma produção de orçamento tão curto. O visual dos aliens pode decepcionar, mas é curioso como Yuzna faz a coisa dar certo de alguma maneira. Cortesia também do grande mestre Screaming Mad George, que já havia realizado os efeitos especiais de outros filmes do diretor.

Yuzna também aproveita para apoiar as câmeras no seu elenco, que é de qualidade. Vosloo ficou marcado interpretando o papel título em A MÚMIA, de 99, sempre demonstrou talento fazendo outros vilões, como em O ALVO, mas aqui prova que conseguia carregar um filme como protagonista e se sai muito bem. McWhirter acaba se destacando mais, num papel corajoso, com muitas sequências de nudez, e bastante expressividade corporal. Em várias entrevistas ela conta como foi difícil, tanto físico e emocional, o seu trabalho por aqui. O resultado na tela é fascinante.

Outras figuras aparecem por aqui pra acalentar o coração dos fãs de cinema B, como o grande Brad Dourif em papel pequeno, como um especialista em ufologia, que vale a pena acompanhar; e Wilford Brimley, que é sempre divertido.

Longe de ser dos melhores filmes de Yuzna, PROGENY teve lançamento limitadíssimo nos cinemas em poucos países, após circular em alguns festivais especializados no gênero. No fim, acabou tendo lançamento no mercado em vídeo, com até relativo sucesso. Hoje anda esquecido, mas foi um prazer redescobrir essa jóia. Boas referências, belo clima, boas atuações. Mais do que se vê em muitos filmes de horror lançados nos últimos anos. PROGENY é certamente um dos trabalhos obrigatórios para conhecer mais do diretor.

KINJITE: DESEJOS PROIBIDOS (1989)

Filme todo errado, fim de carreira, literalmente, pra uma galera envolvida – último filme do diretor J. Lee Thompson, último filme do Bronson pra cinema, uma das últimas produções da Cannon, já toda endividada e sem muito orçamento pra investir… Tudo isso meio que reflete também o tom desesperado de KINJITE: DESEJOS PROIBIDOS (Kinjite: Forbidden Subjects) em querer ser uma espécie de exploitation de extrema urgência, feito pra ganhar bilheteria, abordando temas apelativos, como tráfico humano, de menores, mas que só resulta mesmo num produto do mais baixo nível – racista, sexista, xenófobo para um caralho…

Bronson interpreta o tenente Crowe da polícia de Nova York. Ele tem uma obsessão por um cafetão e traficante de crianças chamado Duke (Juan Fernández), que está sempre à procura de carne fresca, incluindo a vestal Nicole Eggert na cena de abertura, que tinha 17 anos na época, e que recentemente postei sobre um filme com ela por aqui: THE HAUNTING OF MORELLA.

Crowe tem uma filha adolescente com quem é muito protetor (daí o interesse especial em Duke) e quando ela é apalpada no ônibus por um executivo japonês que se mudou para Los Angeles, o sujeito fica furioso, faz um discurso terrivelmente racista bem no meio de uma multidão de asiáticos. Aqui a coisa entra numa situação tão bizarra que os roteiristas mal se esforçam pra resolver… Mas tudo bem. O fato é que Crowe não sabe que o homem que tocou na sua filha teve sua própria criança, muito mais nova, sequestrada por Duke. Sem o seu conhecimento, Crowe agora está ajudando o abusador de sua filha…

O personagem de Bronson em KINJITE é uma espécie de extensão de seu personagem em DESEJO DE MATAR, o vigilante Paul Kersey. Um revoltado contra o sistema e angustiado pelo mundo violento que o rodeia. Ele bate nas pessoas, atira nelas e, pasmem, enfia um vibrador na bunda de um cara para arrancar informações dele… Há uma cena em que Crowe “sequestra” o próprio Duke e o faz comer um Rolex caríssimo. E depois coloca fogo no carro do traficante. O personagem do Bronson deveria procurar um psiquiatra urgente. Mas, como estamos diante de um filme, uma obra de ficção, é preciso dizer que essa cambada mereceu o tratamento do policial. Incluindo a punição de Duke no final do filme e que comento a seguir.

Duke é um vilão da pior espécie. O cara sequestra a menina japonesa, a leva para seu apartamente onde ele e seus capangas (um deles o grande Sy Richardson) fazem fila para “experimentá-la” antes de a entregar no mercado de prostituição infantil. Se existe algo que não dá pra acusar de KINJITE é de não ser subversivo. Eu diria até que poucos cineastas do underground chegariam a tão baixo nível…

Algumas cenas memoráveis: Obviamente que a do Bronson segurando um pênis de borracha seria um destaque. Outra que gosto é quando Crowe e seu parceiro colocam o personagem de Richardson de ponta cabeça na varanda de um prédio, só para assustá-lo e arrancar algumas informações, e o sujeito acaba despencando lá de cima numa piscina. É divertida. Mas fica melhor ainda pelo grau baixíssimo da produção. Richardson tem a pele negra e quando vemos o dublê boiando é um cara branco… Que situação. O clímax de KINJITE também é bacana, uma ceninha de ação, bem elaborada, com Bronson sendo o badass de sempre, empunhando um revólver e despachando meliantes. E, claro, agora sim, quando Duke é preso e está sendo colocado numa cela, os prisioneiros ficam alvoroçados. Um deles é ninguém menos que Danny Trejo, que tem apenas uma fala, mas é bem receptiva. Ele dá as boas-vindas ao recém chegado:

Sobre o executivo japonês, como disse, fica por isso mesmo. O cara recupera a sua filha, mas nunca acerta as contas com Crowe por ter passado a mão na filha do policial…

Enfim, apesar do mau gosto que paira no ar em vários momentos, vocês vão me desculpar, mas KINJITE é simplesmente impagável. Ver Charles Bronson segurando uma manjuba de borracha pra enfiar lá “onde o sol não brilha” de um sujeito é simplesmente algo que nem um Dirty Harry teria coragem. São MUITAS as sequências dessa porcaria que me fazem dar altas risadas e várias cenas que tornam isso aqui marcante, uma diversão das boas. O tipo de filme que acabo curtindo pelos motivos mais bizarros possíveis.