CAÇADA MORTAL, aka CAÇADOR DE MORTE (1978)

Walter Hill disse certa vez que o roteiro de CAÇADA MORTAL (The Driver) foi o mais puro que já escreveu. A história é simples: Ryan O’Neal (em um papel escrito para Steve McQueen) é um motorista especializado em fugas de assaltos. Bruce Dern é o detetive na sua cola.

E é isso.

Alguns detalhes de trama são acrescentados, como a mulher misteriosa interpretada por Isabelle Adjani, que faz um meio de campo entre os dois sujeitos; há perseguições de carros, assaltos, traições… Mas a narativa é de um minimalismo tão absurdo que Hollywood não estava lá muito acostumada num filme de gênero. Não é surpresa, portanto, notar que CAÇADA MORTAL foi bem recebido na Europa, mas na América foi um fracasso financeiro e de crítica.

Mas CAÇADA MORTAL conseguiu se induzir na consciência coletiva e se tornar um modelo para diretores e alguns dos melhores thrillers americanos que vieram posteriormente. Podemos citar produções mais recentes, como DRIVE, de Nicolas Winding Refn, e BABY DRIVER, de Edgar Wright (esse nem gosto tanto, mas é divertido), mas olhando mais pra trás dá pra notar sua influência em diretores como Michael Mann – que chegou a cogitar Walter Hill para dirigir sua obra-prima, FOGO CONTRA FOGO (foi recusado pelo próprio Hill… Ainda bem) – até Quentin Tarantino, que chamou de um dos filmes mais cool de todos os tempos. James Cameron já afirmou algumas vezes que tinha CAÇADA MORTAL em mente quando escreveu O EXTERMINADOR DO FUTURO. Até nos videogames também há quem se apoderou do filme, como o clássico Driver, lançado para o Playstation 1, onde jogamos com um motorista de fuga da máfia em altas perseguições. A relação do jogo com o filme nunca foi assumida, mas é muito óbvia e pode ser facilmente percebida, especialmente quando o jogador dirige o mesmo modelo Chevy vintage visto por aqui.

Enfim, acho que não preciso dizer mais nada sobre a importância de CAÇADA MORTAL, não é mesmo?

Além disso, é um puta filmaço que fala por si só. Um filme sobre um homem que é aquilo que faz. Nos créditos finais Ryan O’Neil aparece sem nome, apenas como The Driver, O Motorista (assim como Dern aparece como The Detective e Adjani como The Player). E dirigir é como o motorista se expressa. O carro é quase uma extensão física e psicológica dele.

Há uma sequência – provavelmente a minha favorita do filme – quando uns ladrões o desafiam, perguntando se ele é realmente tão bom no volante antes de contratá-lo para um golpe. E o motorista não argumenta, não é agressivo, não parte pra briga. Apenas diz a eles para entrarem no carro. E então ele começa as fazer manobras em alta velocidade dentro de um estacionamento, até iniciar a destruição da ostentosa Mercedes, peça por peça, com o veículo ainda em movimento e os donos do carro desesperados no banco de trás. Acho que é algo que define bem esse personagem. O motorista diz apenas 350 palavras no filme inteiro, mas por detrás de um volante, ele fala muito.

Hill, portanto, leva ao extremo essa ideia de uma linha narrativa com enredos minimalistas em filmes que mais declinam do que reproduzem um gênero, sobretudo nesse início de carreira. É como se com Walter Hill os personagens vão do ponto A ao ponto B em uma economia tanto narrativa quanto de meios visuais e psicológico na caracterização dos personagens que se definem apenas na ação. Essa lógica é trabalhada por aqui nos personagens, como já mencionei, mas também tanto numa forma de atemporalidade quanto na criação de uma espécie de realidade alternativa.

Se o diretor posteriormente moldou esse tipo de realidade de forma mais concreta – o universo das gangues de THE WARRIORS, a ambientação retro-futurista de RUAS DE FOGO – com CAÇADA MORTAL ele cria uma terra de fantasia estilizada, emoldurada na sensação dos anos 70, um mundo de pessoas que usam as mesmas roupas, de indivíduos que falam pouco, mas dizem muito com os olhos – a influência do cinema policial francês aqui é óbvia, especialmente Jean-Pierre Melville – uma espécie de film noir misturado com a ilegalidade do faroeste, com fugas e perseguições envolvendo carros em vez de cavalos. Walter Hill, assim como John Carpenter, acredita que todos os seus filmes são essencialmente faroestes.

Ryan O’Neal é uma escolha curiosa para este samurai/cowboy moderno de CAÇADA MORTAL. É um ator mais brando e Hill sabe como usar isso em proveito do filme. É evidente que se McQueen tivesse aceitado o papel ou um Clint Eastwood assumisse o personagem, talvez a recepção local fosse maior na época. Mas a performance sem emoção, bressoniana, de O’Neal ajuda a dar a seu personagem uma aura de frieza e mistério. Para criar contraste, Hill dá a O’Neal um adversário extravagante e expressivo na forma de Bruce Dern, que interpreta o obcecado em capturá-lo. É uma combinação caótica, e o filme explora perfeitamente os estilos de atuação extremamente diversos desses dois grandes atores. Já a francesa Adjani é o mistério em pessoa, uma espécie de femme fatale gélida, quase uma entidade, que vaga por esses polos.

Como não poderia faltar, CAÇADA MORTAL tem sequências de ação de arrepiar os cabelos, uma maestria com trabalho de câmera que traz o espectador para dentro da ação. As cenas de perseguição estão no mesmo nível e talvez até melhores que algumas das sequências mais famosas do tipo, como a de BULLITT e OPERAÇÃO FRANÇA.

Mas o filme é ancorado mesmo pela disputa desses dois homens em lados opostos da lei, o motorista e o detetive, cada um tentando ser mais esperto que o outro. No meio de perseguições de carros e do jogo de gato e rato desses dois, Hill cria o que poderia ser descrito como uma obra de travessura existencial. Em menos de 90 minutos, o filme funciona não apenas como uma exploração em profundidade das coisas que motivam esses indivíduos a fazer o que fazem, mas também funciona como um interessante estudo de sobrevivência, com ideias que transcendem o típico filme de mocinhos vs. bandidos. O viés minimalista é que também faz maravilhas e contribui muito nesse sentido. Até as partituras tensas do mestre da paranóia dos anos 70, Michael Small, dá lugar a uma “trilha sonora” cheia de pneus cantando e latarias amassadas. A irônica conclusão resulta em algo divertido e abstrato (a aparição final de Bruce Dern e uma horda de policiais) e o final sugere o que será um ciclo sem fim para esses sujeitos, numa espécie de purgatorio onde esses personagens habitam e ficam girando em círculo eternamente.

CAÇADA MORTAL é provavelmente a obra-prima de Walter Hill, que é um desses caras fodas que possuem várias obras-primas no currículo. E se você ainda não viu, acredito que vai ser uma boa experiência, vai estar diante de uma bela surpresa.


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TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA (1974)

Teve uma época da vida que eu assisti a TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA pelo menos umas dez vezes num curto espaço de tempo, de tão fascinado que fiquei por este petardo de Sam Peckinpah. Eu andava a descobrir seus filmes e quando cheguei neste aqui era como se eu não quisesse mais sair dele. Mas isso já tem muito tempo e eu fiquei afastado por um longo período. Chegou a hora de revisitar…

Só que ao mesmo tempo em que trata-se de uma obra que gera tanto fascínio, TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA é o tipo de filme que é preciso de uma sessão de descarrego logo depois que os créditos finais aparecem na tela. Ou, no mínimo, um banho. Tamanho é o mergulho na atmosfera de decadência, miséria e imundice das suas imagens. Provavelmente reflexo da posição precária que Sam Peckinpah se encontrava quando fez este filme tão pessoal.

A sua trajetória até ALFREDO GARCIA é conhecida: alguns anos antes, o homem havia garantido um lugar de destaque na indústria depois de MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969), filme que até hoje considero sua obra-prima e que já devo ter revisto mais vezes que este aqui, mas como se sabe, a personalidade difícil de Peckinpah e seu eterno gosto pelo álcool, o vício em drogas e paranóia começaram a se tornar mais perceptíveis com o passar dos anos.

A recepção crítica e o sucesso de bilheteria se alternavam. Seu thriller filmado na Inglaterra, SOB O DOMÍNIO DO MEDO (1971), com Dustin Hoffman, foi muito bem recebido, mas veículos “menores” como THE BALLAD OF CABLE HOGUE (1970) e JUNIOR BONNER (1972) passaram mais ou menos despercebidos. E logo depois, mais um sucesso, com um OS IMPLACÁVEIS (1972). Um Peckinpah cada vez mais cínico chegou à conclusão de que o público só queria violência em câmera lenta… Quando abordava motivos com mais sensibilidade, que são os casos de CABLE HOGUE e JUNIOR BONNER, a coisa não ia tão bem. Pelo visto, a percepção de “Bloody” Sam estava certa.

Donnie Fritts, Sam Peckinpah e Kris Kristofferson em locação de TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA

O fracasso de seu PAT GARRETT & BILLY THE KID (1973), que foi todo retalhado e recosturado pelo estúdio, foi a gota d’água e deixou Peckinpah amargurado a tal ponto que decidiu trabalhar fora do sistema de estúdio em uma tentativa de recuperar o controle criativo. Para a sua sorte, a United Artists – conhecida por ser indulgente com “cineastas autores” naquela época – deu-lhe dinheiro suficiente para fazer seu próximo filme no México com uma equipe totalmente mexicana, exceto um ou outro membro… E aí chegamos em TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA, um western moderno visto como uma das declarações mais pessoais – e radicais – de Peckinpah, embora o produto final peculiar tivesse deixado o público frio e os críticos da época um bocado perdidos.

Independente disso, aqui está uma obra AUTORAL, que de acordo com Peckinpah, foi o único filme que realizou que saiu do jeito que ele queria, sem interferência de influências externas e de produtores. O mais próximo de um “Peckinpah puro”.

Peckinpah coloca seus óculos entre os seios de Isela Vega nas filmagens de TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA

Na verdade, “sem influências externas” entre aspas, porque muita “influência” foi ingerida pra dentro de Peckinpah e durante as filmagens não era muito difícil ver o diretor dando umas surtadas ou caindo de bêbado, sempre entupido de álcool ou drogas, tornando o resultado deste filme um raro exemplarar daquela coisa fugaz e maravilhosa que é uma obra de arte verdadeiramente psicótica. O filme marcou o fim de uma espécie de período áureo da carreira de Peckinpah, antes que seus demônios o dominassem de vez e o controle criativo fosse novamente podado – ainda que grandes filmes tenham vindo depois na sua filmografia.

A trama de TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA começa quando El Jefe (Emilio Fernandez), um poderoso fazendeiro mexicano, descobre a identidade do homem que engravidou sua filha e emite uma ordem para que a cabeça do sujeito seja entregue a ele a um alto preço. O alvo é Alfredo Garcia. Dos envolvidos na busca, seguimos um casal de assassinos gays americanos (Robert Webber e Gig Young) que começa a revirar o submundo da Cidade do México, mostrando a foto de Alfredo. Eventualmente, entram em um bar onde encontram um “pianista” americano chamado Bennie (Warren Oates), que acredita poder ser capaz de ajudá-los. Bennie, na verdade, conhece bem Alfredo, sabe que ele tem um caso com sua “namorada”, a prostituta Elita (Isela Vega), e sabe que pode ganhar uma boa grana entregando o sujeito aos americanos. O problema é que ao conversar com Elita, Bennie descobre que Alfredo já está morto.

Com a intenção de encontrar o corpo, Bennie faz um trato com os assassinos de que entregará a cabeça de Alfredo Garcia por uma boa grana. E parte então em uma viagem com Elita, uma jornada pelo México em busca do local onde homem está enterrado, o que obviamente não vai terminar como planejado. Com todas as esperanças destruídas, Benny, sozinho, acaba carregando a cabeça podre de Alfredo Garcia em um saco pelo deserto enquanto assassinos o perseguem. A reação de El Jefe à entrega da cabeça deve ter sido exatamente a mesma dos produtores quando Peckinpah entregou o filme. O mal-estar existencial dos anos 70 no seu melhor.

O absurdo da odisséia de Benny e Elita é exacerbada por contrastes. Momentos de pura delicadeza se transformam em rompantes de violência em questão de segundos. Logo no início da viagem, por exemplo, há uma longa sequência bucólica onde os amantes se enlaçam debaixo de uma árvore que termina por Benny propondo Elita em casamento. Mais tarde, eles topam fazer um piquenique à beira da estrada. Toda esta seção do filme, que concentra na relação danificada entre os pombinhos, acaba culminando na sequência dos dois motoqueiros (incluindo Kris Kristofferson) aparecendo no local para ameaçá-los. O que dá a Peckinpah a oportunidade de um desses momentos complexos que pontuam sua carreira, deixam as pessoas com a pulga atrás da orelha, bradado de misógino. Evidente que estamos falando da cena do quase “estupro consentido”, que reserva à Elita um papel pelo menos tão ambíguo quanto o da esposa de Dustin Hoffman, vivida por Susan George, em SOB O DOMÍNIO DO MEDO. E é provável que Isela Vega tenha o desempenho feminino mais forte já visto num filme de Peckinpah.

O ritmo do filme vai ganhando em intensidade – e ficando mais subversivo e amoral – à medida em que se aproxima do momento no qual Bennie precisa desenterrar aquela cabeça. Ao longo do caminho, os corpos vão se acumulando. Se estamos acostumados no cinema a ver pessoas atirando uns nos outros para salvar uma cabeça, em ALFREDO GARCIA os indivíduos fazem isso para obter uma cabeça já cortada… Depois, a força do filme passa a ser conseguir fazer essa cabeça cortada e carregada dentro de uma sacola de lona coberta de moscas um personagem por si só. Sobretudo nas sequências em que Warren Oates está ao volante de seu velho carro amassado, travando discursos e praguejos em direção à cabeça, a quem apelida carinhosamente de “Al”. Há aqui um certo humor diante da bizarrice que é a situação, mas que não consegue perdurar. É tudo muito sombrio e trágico para se achar engraçado.

E obviamente é preciso destacar aqui o desempenho de Warren Oates, que está monumental, provavelmente o maior papel que o sujeito já teve na vida. E estamos falando de um dos gigantes do cinema americano dos anos 70. Aqui ele possui uma presença absurda em cena, todo ensebado, esfarrapado, usando os óculos escuros enormes do próprio Peckinpah, e que quase nunca os remove da cara. Há uma sequência que seu personagem acorda no seu cafofo e começa a jogar tequila vagabunda nas partes íntimas, depois de passar a noite com Elita, tentando desesperadamente acabar com os carrapatos que o estão matando de coceira. É o tipo de herói que Peckinpah tinha para oferecer no momento…  

Lá pelas tantas, o objetivo principal de Benny na trama se torna inútil, pra não dizer niilista, com sua obsessão indo muito além do dinheiro que ele tanto almejava. Agora, o que ele quer é encontrar resposta, sentido, algo que justifique toda a loucura. “Eu nunca estive em nenhum lugar que gostaria de voltar”, diz ele em num certo momento; e o filme parece ser um bocado sobre isso, sobre este indivíduo arriscando tudo para não prosseguir neste mundo, apesar de acabar sempre atraído de volta pra toda a loucura que está acontecendo, atraído como as moscas que circulam em torno da cabeça de Alfredo Garcia, a tal ponto que o fedor da morte, da desgraça, parece que nunca sairá totalmente. Até o espectador se sente impregnado…

Mas indo contra o que Benny disse, a sequência final de TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA nos leva de volta ao ponto de partida, no rancho de El Jefe. Bennie ainda não esteve lá, mas nós já estivemos e esse retorno nos leva às raízes da loucura, um lugar de onde não há saída e tudo o que resta a ser feito é continuar avançando, mesmo à base de balas, enquanto ainda é possível, sabendo como isso vai acabar. Os últimos cinco minutos do filme são tão verdadeiros consigo mesmos quanto em qualquer filme já feito.

Por mais massacrado que tenha sido pela crítica na época, o filme teve seus defensores – Roger Ebert, por exemplo, deu-lhe quatro estrelas e chamou-o de “obra-prima bizarra”. E como o culto a Peckinpah cresceu ao longo das décadas e hoje permanece vivo no coração de qualquer cinéfilo que queira manter o respeito, a reputação de TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA cresceu à medida em que fica claro o retrato feio, imundo e decadente do universo que é apresentado aqui juntamente com a beleza e poesia que pode ser encontrada nessa feiura. E eu não poderia deixar de finalizar citando Carlão Reichenbach sobre Peckinpah e o filme em questão, o qual considerava uma obra-prima às avessas: “Sua obra quase teratológica parecia purgar a raiva atávica, revelando um mundo sórdido onde só cascavéis e escorpiões pareciam ter alma.

A ÚLTIMA NOITE (2002)

O melhor filme para se assistir nesta data de hoje, 11 de setembro, definitivamente é este petardo do diretor Spike Lee. O meu grande amigo e parceiro de Cine Poeira Osvaldo Neto escreveu esse textinho sobre A ÚLTIMA NOITE no seu instagram e republico por aqui.

por Osvaldo Neto

Acredito que exista um motivo particular pelo qual A ÚLTIMA NOITE (The 25th Hour, 2002) está sendo lembrado com frequência nesses 20 anos dos atentados do 11 de Setembro em Nova Iorque. O potente longa dirigido por SPIKE LEE (mais um…) não é, de fato, um filme sobre os atentados como aconteceu com AS TORRES GÊMEAS, de Oliver Stone, e VÔO UNITED 93, de Paul Greengrass.

O motivo é que A ÚLTIMA NOITE é um filme sobre gente, onde Spike novamente usa essa cidade como uma personagem da narrativa. Só que desta vez ele consegue êxito em capturar a confusão emocional, a melancolia e impotência da população de NY (e por consequência, qualquer cidadão americano comum) pouco após esse evento que marcaria a História mundial.

Seria impossível para um Spike Lee seguir na produção deste filme sem lidar com os ataques às duas torres do WTC. Seria impossível para um Spike Lee afastar a sua câmera e dos diálogos de algo a ser dito e mostrado naquele momento… Como ele sempre faz desde o início de sua carreira. Não daria mesmo para fingir que nada aconteceu.

Hollywood, a grande máquina do cinema escapista, não queria falar sobre o 11 de Setembro. Foram vários os filmes tiveram cenas editadas e modificadas e lançamentos adiados, mas o Spike Lee foi lá e deu o seu recado ainda em 2002.  

É isso, pessoal. Vejam ou revejam A ÚLTIMA NOITE, filmaço que entra fácil num TOP 5 do diretor. 

DJANGO (1966)

PRIMEIRO, quero agradecer imensamente aos que já começaram a contribuir com o blog no apoia-se. Vocês são demais e em breve prometo novidades exclusivas pra vocês. Quem ainda não apoia, infomações no fim do texto.


Nem me lembro qual foi a última vez que postei sobre Spaghetti Western aqui no blog, algo que já me foi cobrado algumas vezes. Já que no último fim de semana eu acabei revendo um dos primeiros filmes que me apresentou ao gênero, aqui vamos nós. Quiçá foi o primeiro mesmo… Já não me lembro. Era muito moleque quando meu pai colocou no VHS um tal DJANGO (1966), de um tal Sergio Corbucci, estrelado por um tal Franco Nero, e desde então fiquei fascinado pelo “bang bang à italiana“. Embora eu nem tivesse consciência desses nomes ou de onde vinham essas produções…

hoje já dá pra perceber algumas coisas. Como, por exemplo, a influência de POR UM PUNHADO DE DÓLARES (1964), de Sergio Leone, que pode ser sentida em DJANGO, mas ao mesmo tempo, depois de ver um bocado de faroestes do tipo, acho que ambos os filmes precisam ser colocados em pé de igualdade no que se refere a sua representatividade no Spaghetti Western.

Sabemos que o filme de Leone não foi o primeiro exemplar do gênero, mas é considerado o produto seminal do ciclo e Corbucci claramente prestou atenção no estilo exagerado, no cinismo, o revisionismo e anti-heroísmo mítico do western de Leone. Só que ele pegou tudo isso e elevou ao extremo. Se a paisagem vista em POR UM PUNHADO DE DÓLARES estava empoeirada e suja, então a paisagem em DJANGO tinha que ser um lamaçal desgraçado. Se POR UM PUNHADO DE DÓLARES era pessimista, DJANGO era niilista. E por aí vai…

O que se seguiu a partir daqui é notório, é só procurar quantos spin-offs não oficiais que o personagem título teve nos anos seguintes, quantas produções mudando seus títulos para encaixar o nome “Django” e aproveitar o sucesso do filme de Corbucci… Enfim, POR UM PUNHADO DE DÓLARES é um filme seminal, sim senhor, mas acredito que DJANGO exerceu tanta, ou até mais, influência nos westerns europeus que o filme de Leone.

DJANGO já começa mostrando suas intenções excêntricas na sequência dos créditos iniciais, apresentando essa figura de preto, vista de costas, puxando um caixão por uma paisagem inóspita, pelo terreno lamacento, cheio de obstáculos para esse sujeito que sequer possui um cavalo. E o olhar do diretor de fotografia, e também cineasta, Enzo Barboni, impregna as locações com uma desolação ameaçadora. Algo que se mantém até o fim. A coisa é atenuada, no entanto, pela beleza da inesquecível música-tema do argentino Luis Enríquez Bacalov. “Djangoooooo! Django, have you always been alone? Djangoooooo! Django, have you never loved again?…“. Um dos maiores clássicos entre as trilhas sonoras do western europeu e que gruda fácil nos ouvidos. Há dias me pego cantarolando essa merda…

A primeira indicação das habilidades quase sobrenaturais de Django em manusear um revólver é quando ele salva Maria (Loredana Nusciak), logo no começo do filme, de ser queimada viva por um grupo de assassinos de capuz vermelho a serviço do Major Jackson (Eduardo Fajardo). Mas é preciso notar que enquanto Django age com o habitual sangue-frio na eliminação dos homens de Jackson, ele fica parado olhando à distância, poucos minutos antes, Maria sendo açoitada por um trio de mexicanos.

Isso nos dá algumas indicações da atitude duvidosa de Django. Em certo momento ele deixa claro para a grata Maria que suas ações foram totalmente egoístas, o que reverbera nas suas concepções de moralidade, ideais e crenças ao longo do filme. É uma figura um tanto contraditória esse Django. Sua busca é puramente de vingança, mas isso não o impede, por exemplo, de tentar enriquecer roubando o ouro dos mexicanos que ele havia ajudado a saquear. Não sabemos muito bem o que esperar de Django. O que o torna ainda mais fascinante…

O roteiro de Sergio e Bruno Corbucci também é evasivo em relação ao passado de Django. Ele lutou na Guerra Civil, fato que permanece uma espécie de pano de fundo vago, nunca referido pelo protagonista. Além de um certo histórico com o lider dos revolucionários mexicanos, o General Hugo, vivido por José Bódalo. O desempenho de Franco Nero, com semblante inexpressivo na maior parte do tempo, contribui pra isso.

Os outros personagens do filme possuem menos desenvolvimento ainda. O Major Jackson, por exemplo. Sabemos que ele que matou a mulher de Django. E só. O filme não tem muitos detalhes a oferecer. De resto, Jackson é apenas o malvado sádico da trama, que comanda um bando que utiliza capuzes vermelhos, uma clara alusão à KKK. Enfim, um racista que pratica tiro ao alvo com camponeses mexicanos, numa sequência emblemática, que contribui para a alegoria política do filme. E é suficiente, não precisamos muito de substância para acompanhar os personagens desse universo.

Uma coisa que eu não lembrava, e que me surpreendeu, é uma quantidade incomum de violência e a alta contagem de corpos. Claro, um dos momentos mais marcantes e que eu nunca esqueci é a clássica sequência que mostra Django abrindo seu caixão para revelar uma metralhadora, com a qual ele literalmente elimina um exército dos homens de Jackson em meio à lama e à decadência de uma cidade fronteiriça sem nome. Mas o que me chama a atenção é que o clima de uma violência latente permanece durante todo o filme. Há uma cena que um padre tem sua orelha cortada e logo depois a enfiam na sua boca; Django tem suas mãos quebradas por tentar roubar o ouro dos mexicanos e o aspecto delas é bem gráfico, as mãos de Django devem ter levantado algumas sombrancelhas em 1966…

Embora o filme, de uma forma superficial, também tome emprestado o alguns princípios básicos do plot de YOJIMBO (1961), outra relação que possui com POR PUNHADO DE DÓLARES, que é uma refilmagem do filme de Kurosawa, no qual um homem chega a uma cidade e se encontra no centro de duas facções rivais, Corbucci não leva isso muito adiante. Sempre fica bem claro que Django tem como alvo o Major Jackson. E a cidade que serve de cenário a esses eventos é um espaço notavelmente desesperado e desolado; é habitada quase exclusivamente por prostitutas, e elas estão tão decadentes quanto as vigas podres do edifício do salão. Um cenário apropriado para essa figura enigmática e mítica que é Django. Seu coração sombrio, que bate apenas para se vingar do assassino de sua esposa, combina com o cinismo áspero que se esconde em cada canto deste mundo perverso.

É como se o velho oeste de Corbucci não fosse a terra da promessa ou de novos futuros, mas o fim da linha para pessoas que não têm outro lugar para ir. E DJANGO é um filme que não contém esperança alguma. E talvez seja a sua grande contribuição para a humanidade, ou pelo menos como influência no Spaghetti Western. E é inteiramente apropriado que o filme termine em um cemitério, com Django alcançando aquilo para que vive.


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OPERAÇÃO YAKUZA (1974)

O roteiro original de OPERAÇÃO YAKUZA (The Yakuza), de Sydney Pollack, foi escrito por Leonard e Paul Schrader em uma tentativa desesperada de vender algo comercial. Eles estavam falidos e escreveram o roteiro em poucas semanas. Por sua vez, o agente deles conseguiu vender o roteiro, brilhantemente apresentado como uma mistura de O PODEROSO CHEFÃO com Bruce Lee, e os Schraders levaram para casa 300 mil dólares – um recorde de venda de roteiro na época. Robert Towne foi trazido depois só para dar aquela refinada, aquela reescrita marota eficaz com sua voz mais sensível, mas a essência pertence à psique dos Schraders, com um debruce sobre honra errática e disciplina rígida. E que não tem nada a ver nem com O PODEROSO CHEFÃO, muito menos com Bruce Lee…

A trama é centrada, na maior parte do tempo, em Harry Kilmer, interpretado pelo maior de todos, Robert Mitchum, enquanto ele retorna ao Japão para ajudar um velho amigo, George Tanner (Brian Keith), a resgatar sua filha das garras da Yakuza. Eu disse retornar porque Kilmer já tem um histórico no Japão de longa data e muitas pontas soltas para atar… Como, por exemplo, reencontrar a japonesa Eiko Tanaka (Keishi Keiko), que foi o seu grande amor, e encarar seu irmão, Ken Tanaka (o lendário Ken Takakura), que o odeia. Isso leva a uma complexa trama de conflitos internos do personagem de Mitchum, que acrescenta um ingrediente a mais dentro da jornada de violência pelo submundo de Tóquio na qual ele tem que percorrer.

Vários diretores foram cogitados para dirigir OPERAÇÃO YAKUZA e acabaram sendo preteridos ou pulando fora do barco (Frankenheimer, Aldrich, Scorsese), até parar nas mãos de Sydney Pollack, que na época era um dos mais interessantes do cinema americano. Mesmo que pareça uma escolha estranha para este tipo de material, que é um autêntico noir yakuza, um petardo badass, sobretudo depois do sucesso do romance NOSSO AMOR DE ONTEM (1973), com Robert Redford e Barbra Streisand, que o diretor havia lançado um ano antes. Mas Pollack provou que podia transitar perfeitamente entre gêneros e, olhando em retrospecto, é notável como ele contribuiu para definir o modelo de thriller dos anos 70 com filmes como OS TRÊS DIAS DO CONDOR ( 1975). E OPERAÇÃO YAKUZA é um prólogo perfeito para suas habilidades. No entanto, Pollack dizia que não queria fazer um filme de “gênero” do jeito que Schrader imaginou. Por isso a presença de Towne no roteiro, para alinhar as coisas com a visão dramática de Pollack.

E, obviamente, o talento de Pollack para dirigir grandes atores é um diferencial e faz do elenco de OPERAÇÃO YAKUZA um dos destaques. Posso dizer com toda segurança que é uma das grandes atuações de Robert Mitchum. A vulnerabilidade de seu personagem, que tenta posar de durão, raramente foi tão complexa, tão fascinante. Nesse sentido, só deve ficar abaixo de seu desempenho em OS AMIGOS DE EDDIE COYLE, de Peter Yates. Gosto bastante do persoangem de Richard Jordan, um desses rostos frequentes do cinema dos anos 70 que acabou esquecido. Aqui ele faz Dusty, um jovem guarda-costas sensível impressionado pelos códigos de honra japoneses.

Depois há Ken Takakura, uma dos maiores astros do Japão e que mantém sua aura cool intacta durante o filme todo. Não é um personagem que fala muito, mas seu rosto taciturno, de poucas expressões, diz muito mais que palavras. E o homem sabe como manusear uma katana. Juntos, Mitchum e Ken têm uma química que surge do improvável e ganha contornos de tragédia com algumas revelações ao longo da trama. A oferta de Mitchum para o sujeito nos minutos finais do filme é digna de antologia nas carreiras desses dois gigantes do cinema.

Lindamente fotografado por dois diretores de fotografia, Duke Callaghan (nas poucas sequências que se passam nos EUA) e Kozo Okazaki (no restante do filme), OPERAÇÃO YAKUZA também recria fielmente as composições widescreen habituais do cinema japonês. E Pollack aproveita bem tudo que compõe, nos mínimos detalhes, a construção desse universo, seja à nível estético dos ambientes, das ruas, da arquitetura, seja à nível cultural e filosófico. O sujeito tava inspirado por aqui, provavelmente OPERAÇÃO YAKUZA é a melhor produção americana a fazer a ponte EUA-Japão.

Pollack se destaca até mesmo na ação. Temos várias sequências de lutas, tiros, filmadas de forma classuda. A violência é ao mesmo tempo estilizada, mas com um peso dramático realista. Quando alguém é perfurado por uma espada, tremem e murmuram enquanto morrem; conforme membros são cortados, os personagens mostram náusea e repulsa; enquanto as balas voam no caos que é um tiroteio, as pessoas gritam e tropeçam desajeitadamente (é bem provável que Pollack tenha assistido a algum filme de Kinji Fukasaku do período). O confronto final em uma base da yakuza é puro cinema, são quase dez minutos de tensão, com a katana de Takakura fazendo um estrago, enquanto Mitchum distribui bala pra todo lado. Uma das grandes sequências de ação dos anos 70.

Fiquei feliz de saber que o DVD nacional, que foi por onde revi esse filmaço, vem com comentários de Sydney Pollack. Ele demonstra bastante orgulho de OPERAÇÃO YAKUZA e o considera um de seus melhores filmes. Eu não tenho como discordar. É disparado o meu filme favorito do homem.

FORÇA SINISTRA (1985)

Eu não assistia a FORÇA SINISTRA (Lifeforce), de Tobe Hooper, por anos e anos e praticamente a única coisa que me recordava era… Bom, se você já assistiu a este filme alguma vez na sua vida, vai saber exatemente o que é. Se não viu, vai saber no momento em que botar os olhos… Mas vamos ser adultos por aqui. Ano passado eu revi para gravar um episódio do Cine Poeira e desde então tenho aceitado o fato de que se trata não apenas de um dos meus sci-fi‘s favoritos, mas de um dos meus filmes favoritos da vida. Estou realmente convencido disso. É a obra-prima de Tobe Hooper, uma das produções mais caprichadas da Cannon Films e revi mais uma vez agora para tirar a prova e saber se eu não estava ficando doido. Bem, talvez eu esteja, mas pelo menos não tenho dúvidas. Realmente se trata de um dos grandes fimes da história do cinema, na minha opinião.

A história da produção de FORÇA SINISTRA começa com um romance cujo título é The Space Vampire, publicado em 1976, escrito por Colin Wilson (escritor, filósofo e especialista em sobrenatural). Com um conceito interessante, obviamente atraiu a atenção de Hollywood no período e o livro rapidamente se transforma em um projeto de filme. Eu não li o romance, mas tenho informações que dizem que não é o material mais fácil de se adaptar. Um terço da história se passa no espaço e o resto na terra onde acontece uma caça aos vampiros espaciais, tudo narrado por formulações filosóficas… Do tipo que acho que seria necessário um Kubrick ou um Tarkovsky para levar adiante tal feito.

Mas, como sabemos, de vez em quando os executivos de Hollywood são muito insistentes. Algum estúdio realmente comprou os direitos do livro, deixando o trabalho dos futuros roteiristas num difícil desafio de adaptar. Calhou, em algum momento, à Dan O’Bannon e Don Jakoby o afazer. Ao longo do tempo, como era de se esperar, o livro foi passando de mãos em mãos entre os estúdios até parar com os nossos guerreiros da Cannon Films, que realmente tocaram o projeto adiante, em meados dos anos 80. Naquele período, ninguém menos que o diretor de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, o inigualável Tobe Hooper, acabara de ser contatado pelo estúdio. O sujeito estava numa fase estranha e a polêmica que cercou as filmagens de POLTERGEIST (ainda seu maior sucesso comercial) fez a carreira de Hooper estagnar. Esteve associado por um tempo ao projeto de A VOLTA DOS MORTOS VIVOS, que acabaria sendo dirigido pelo já citado Dan O’Bannon, mas foi com a Cannon que Hooper voltou às atividades sob um contrato para três filmes, sendo que um deles obrigatoriamente deveria ser O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2.

Mas antes, jogaram no colo de Hooper o famigerado projeto de FORÇA SINISTRA. Com um orçamento absurdo de US$ 25 milhões de dólares, que era coisa pra burro na época, foi a produção mais cara da Cannon até então. Uma mistura de ficção científica e horror, que não esconde lá suas ambições de tentar aproveitar o sucesso de um filme como ALIEN – O 8º PASSAGEIRO, de Ridley Scott e roteiro de quem? Mais uma vez o nosso amigo Dan O’Bannon. Mas basta assistir ao filme para perceber que a visão e o autorismo de Tobe Hooper se sobressaem. Fica evidente que o homem está feliz em reencontrar as câmeras depois de três anos sem filmar, criando um espetáculo visual/sensorial único, demonstrando maestria na condução de sequências grandiosas, mostrando a seus detratores que ele era capaz de administrar um grande orçamento e efeitos especiais. Que era capaz de fazer um filme especial.

E esse filme, meus caros, é FORÇA SINISTRA.

Na trama, enquanto investigava o cometa Halley, que passava perto da Terra em 1986, a tripulação americana/britânica da espaçonave Churchill, comandada pelo coronel Tom Carlsen (Steve Railsback), descobre uma nave misteriosa escondida na cauda do cometa. Um grupo da tripulação decide se aventurar dentro da nave e descobre coisas magníficas do imaginário sci-fi, como morcegos gigantes mumificados, bem como três sarcófagos de vidro nos quais estão dois homens e uma mulher (Mathilda May), que são levados a bordo do Churchill.

Logo depois, toda a comunicação com a nave é perdida e é enviado um outro ônibus espacial para investigar. Eles descobrem um Churchill destruído por dentro por conta de um incêndio, mas os três corpos misteriosos ainda estão intactos. Eles são trazidos à terra, em Londres, para ser mais exato. Quando esses corpos despertam, inicia-se um verdadeiro apocalipse na cidade. Descobrimos que o Col. Carlsen não morreu. Ele voltou à Terra em uma cápsula de fuga com sua própria história sobre o que aconteceu, mas mesmo que ele possa dar algumas respostas, já não se sabe se vão ser capazes de evitar a destruição em massa que está ocorrendo em Londres.

De certa maneira, apesar da trama parecer simples, a forma como as coisas transcorrem deixa uma impressão de bagunça narrativa. O roteiro de O’Bannon e Jakoby é tão errático em como está estruturado, que é difícil entender o quão coerente isso poderia parecer nas páginas do script. Mas ao mesmo tempo, é tudo o que você deseja em um filme desse tipo – tem cenas no espaço sideral, temos zumbis-vampiros, temos caos e explosões enormes. Tem até uma garota nua andando por aí matando pessoas! Que é, obviamente “aquilo” que eu lembrava antes de rever… É uma trama totalmente dispersa, mas tratada por Tobe Hooper de forma tão fascinante, que não há como negar que ele definitivamente sabe como tirar vantagem do material, da escala monumental do apocalipse instaurado e, claro, do conceito de uma garota nua por aí a matar pessoas.

Mathilda May passa 99% de seu tempo na tela completamente nua. Apesar disso, não posso dizer que a nudez é gratuita. A maioria dessas cenas são tiradas diretamente do livro e da essência dessas criaturas, esses vampiros espaciais que se alimentam das forças vitais humana, sendo o sexo um desses elementos. Portanto, o teor sexual não foi adicionado apenas para apimentar o filme. Embora, é claro, os atributos físicos de Mathilda May certamente ajudaram a vender o filme…

Ainda sobre o elenco, uma das questões que atingiu a produção foi a recusa consecutiva de vários atores renomados que, normalmente, não são tão criteriosos nas escolhas de seus papeis (como Christopher Lee e Klaus Kinski). Hooper então recorre a Steve Railsback, que está muito bem no seu personagem. Aparentemente, houve uma tentativa consciente de fazer o seu Col. Carlsen morrer ainda na nave espacial, Churchill, fazendo um filme sem personagem principal, o que só aumentaria a sensação de desorientação que podemos sentir às vezes. É até meio estranho, portanto, vê-lo retornando ao filme depois… Mas acho que perceberam a enrascada que teriam sem uma figura central.

Com as filmagens feitas na Inglaterra, Hooper acabou tendo outras escolhas interessantes para completar seu elenco, apesar de Chris Lee e Klaus Kinski serem insubstituíveis. Mas o cinema inglês está cheio de atores secundários de qualidade, como Peter Firth, Frank Finlay, Michael Gothard e Aubrey Morris, que entregam ótimos momentos por aqui. Sem esquecer um quase desconhecido Patrick Stewart, que viria a ser o futuro Jean-Luc Picard da série Star Trek: The Next Generation e o professor Xavier dos X-MEN.

O papel dos vampiros espaciais também apresentou algumas questões, sobretudo para escolher o papel feminino, já que a maioria das atrizes anglo-saxãs recusou a proposta, pela grande parcela de cenas de nudez. Foi, portanto, Mathilda May, uma francesa, que herdou o papel, mostrando verdadeiro talento, apesar de uma presença quase silenciosa, mas numa performance muito, digamos, física.

Uma das coisas mais legais de FORÇA SINISTRA é o fato de toda a ação na Terra se passar em Londres e arredores. E o filme tem mesmo uma atmosfera da tradição do horror/sci-fi britânico, acho que seria o mais próximo de algo produzido pela Hammer Films se eles ainda existissem nos anos 80. Não há indícios de que foi dirigido por um sujeito do Texas ou produzido por uma dupla de primos israelenses malucos. Desde os atores e diálogos, o tom levemente melodramático das situações, o estilo visual com movimentos de câmera mais contidos, o ritmo menos apressado. Talvez seja esse o motivo do fiasco? O filme não querer ser mais um épico sci-fi americano exagerado, mas sim um épico sci-fi britânico exagerado e de muito bom gosto? O fato é que o filme foi um grande fracasso quando lançado, uma indicação real de que a fórmula da Cannon realmente não funcionaria em uma escala de blockbuster.

Mas pelo menos cada centavo gasto do gordo orçamento é visível na tela, desde os incríveis efeitos visuais de John Dykstra até um monte de coisas legais com animatrônicos, algumas cenas de violência, cenários incríveis, tanto em miniaturas quanto em escala gigantesca. O final é um dos melhores que existe, de uma intensidade impressionante e belas imagens de puro horror. A enorme nave espacial pairando sobre Londres atraindo as almas de todas as pessoas que estão infectadas através de um enorme feixe azul. Ao mesmo tempo, a infecção está se espalhando e transforma cada indivíduo na cidade em um monstro/vampiro/zumbi; cenas dessas criaturas em massa acabando com Londres, pontos de referência sendo feitos em pedaços, uma atmosfera de loucura destrutiva e, no meio disso tudo, uma cena de sexo alucinante entre Railsback e Mathilda May em uma igreja no meio do feixe azul. Tobe Hooper era foda…

FORÇA SINISTRA era o filme que deveria ter revivido a carreira de Hooper, o que não aconteceu, comercialmente falando. Mas, como já mencionei, isso aqui foi um fracasso. Hoje tem ganhado seus fãs, incluindo o autor desse blog. Hooper acabou cumprindo seu contrato com a Cannon, entregando os dois filmes que ele ainda devia ao estúdio: INVASORES DE MARTE e a maravilha que é O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2. Ou seja, o sujeito continuou em atividade, entregando ainda alguns dos mais belos exemplares do horror americano nas décadas seguintes, como COMBUSTÃO ESPONTANEA e THE MANGLER (esse eu sei que muita gente odeia, mas foda-se, não é mesmo?), construindo uma carreira fascinante e se consolidando como um dos maiores mestres do gênero.

Não deixem de conferir o episódio do Cine Poeira, onde eu, Luiz e Osvaldo conversamos sobre FORÇA SINISTRA (é só clicar aqui) e separem um tempinho para ler meu manifesto no Apoia-se. Precisamos da contribuição de vocês para mais posts como este e com mais frequência. É só clicar no botão abaixo:

THE STREETFIGHTER (1974)

Morreu Sonny Chiba, um dos maiores astros do cinema de gênero. Aproveito para republicar esse textinho que escrevi na época para o finado Action News sobre o clássico cult japonês THE STREETFIGHTER, de Shigehiro Ozawa, um dos meus filmes de artes marciais de cabeceira. Na ocasião, tinha acabado de rever na tela grande, numa mostra de cinema de Kung Fu que rolou em São Paulo, em 2017. Me senti como Christian Slater levando Patricia Arquette ao cinema em TRUE ROMANCE, de Tony Scott. Mas sem a Patricia Arquette…

Quando o filme começa, somos apresentados a Takuma Tsurugi (Chiba) se passando de monge budista dentro de uma prisão, para fazer um agrado a um prisioneiro condenado no corredor da morte, chamado Tateki Shikenbaru (Masashi Ishibashi). Tsurugi é um dos anti-heróis mais infames e desprezíveis da história dos filmes de luta! E Shikenbaru sente o cheiro de sujeira, percebe que Tsurugi é qualquer coisa, menos um monge, e já parte para a porrada. Mas o famigerado Tsuguri revela que, na verdade, está do lado do seu oponente… Mesmo depois de lhe aplicar uns bons golpes.

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Tsurugi dá a Shikenbaru um soco secreto de karatê que o coloca em um breve coma. O sujeito, na real, foi contratado para impedir que Shikenbaru seja executado. E os efeitos de seu soco especial só dão resultado instantes antes do condenado ter a corda colocado no pescoço pelo carrasco. Segundo a lei, mesmo prestes a ser enforcado, o prisioneiro tem direito a atendimento médico caso seja necessário. E Shikenbaru aparentemente está muito mal… Chamam uma ambulância e ele é levado para um hospital. No caminho, acaba interceptado pelo companheiro fiel de Tsurugi, Rakuda Zhang (Goishi Yamada), que desce o porrete nos motoristas da ambulância e foge de lá no veículo com Shikenbaru ainda em coma.

Foi o casal de irmãos de Shikenbaru que pagou Tsurugi para tirá-lo da prisão. No entanto, quando os irmãos aparecem no apartamento de Tsurugi procurando Shikenbaru, ele informa que enviou o sujeito para algum lugar seguro em Hong Kong. E na hora de realizar o pagamento, o casal explica que não tem o restante do dinheiro do resgate. Tsurugi fica furioso e inicia uma peleja com os dois e os resultados são trágicos. O irmão mais novo de Shikenbaru acidentalmente cai da janela e morre. E para melhorar ainda mais a situação, Tsurugi, um sujeito muito prático para resolver as coisas, vende a irmã de Shikenbaru para o mercado de prostituição como escrava sexual para compensar seu insulto. Agora, vocês têm uma noção porque Tsurugi é considerado um patife escroto filho da puta… E mesmo assim torcemos por ele durante todo o filme.

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É preciso dar certa ênfase no arco do personagem de Shikenbaru, como veremos a seguir, mas o fio condutor de THE STREETFIGHTER é outro, completamente diferente. É legal notar como o filme não é apenas pancadaria e que por trás de tudo há uma trama bem contada e elaborada que torna o filme muito mais interessante. O que rola, na verdade, é que um tal de Mataguchi (Fumio Watanabe) deseja contratar Tsurugi para um trabalho. Um barão do petróleo chamado Hammett faleceu e toda sua fortuna foi herdada por sua adorável filha, Sarai (Yutaka Nakajima). Os empregadores de Mataguchi são um braço da Yakuza em Hong Kong e querem sequestrar a moça e forçá-la a assinar a papelada para transferir a bolada para o bolso deles. Mas Tsurugi decide não aceitar o trabalho, porque simplesmente não confia nos chineses.

Além do insulto contra os mafiosos, o problema é que agora Tsurugi sabe demais. Precisa ser eliminado e vira alvo da organização mafiosa. Um grupo de meliantes é enviado para cuidar do sujeito, irrompendo seu apartamento forçando o nosso anti-herói a demonstrar toda a sua técnica em aplicar os mais violentos golpes possíveis em seus desafetos. A cena é um espetáculo e é a síntese do que podemos esperar em termos de ação em THE STREETFIGHTER.

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Pancadarias brutais e grosseiras, grande parte da ação acontecendo em ambientes minúsculos e fechados, como corredores, escadas ou quartos apertados cheio de móveis; a câmera nervosa do diretor Shigehiro Ozawa, com ângulos e movimentos inusitados; ao invés de prezar por coreografias elaboradas, aposta mais nas habilidades de Chiba, nas suas expressões corporais e faciais (leia-se caretas!) e, obviamente, na técnica de respiração do sujeito, que é cem vezes mais exagerada do que os gritos que são a marca registrada de Bruce Lee; e, claro, uma boa dose de violência gratuita.

Não é a toa que THE STREETFIGHTER foi o primeiro filme a obter uma classificação X nos Estados Unidos POR VIOLÊNCIA! Como vocês sabem, geralmente a classificação X é usualmente colocada para filmes de sexo explícito. Na época, os anúncios de jornais americanos que anunciavam o filme continham a citação “AVISO: A MPAA classificou este filme como inadequado para espectadores menores de 17 anos por causa de suas extraordinárias sequências de luta“. Obviamente, com o passar dos anos, o impacto da violência estilizada de THE STREETFIGHTER é bem menor. Mas até hoje fico realmente impressionado com algumas cenas… Não faltam por aqui ossos quebrados, dedos nos olhos, crânios esmagados (um deles numa visão de Raio X), gargantas arrancadas, dentes estourados com um soco e até mesmo as bolas de um sujeito são arrancadas com as mãos!!! Isso mesmo! Tsurugi castra um sujeito sem anestesia com as próprias mãos. Tudo extremamente visceral! São litros e litros de um sangue vermelhão precisamente derramado, quase artisticamente colocado nas cenas…

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Depois de sobreviver ao ataque da Yakuza, Tsurugi resolve mudar de lado e se vingar de Mataguchi. Candidata-se ao posto de guarda-costas de Sarai. Mas antes, precisa encarar o tio da moça, Masaoka, o diretor de uma escola japonesa de Karatê. Mais uma sequência de luta magistral, com Chiba posudo, inspirando, fungando e rosnando. No decorrer da luta, Tsurugi descobre que Masaoka conhecia seu pai. O velho se sente mal por fazer Tsurugi se lembrar de como seu velho foi morto, taxado de traidor e fuzilado na frente do filho, e lhe dá o trabalho de proteger Sarai.

Mas como já disse, Tsurugi é um filho da puta. E um filho da puta sempre será um bastardo cruel desprezível. A ideia de “trocar de lado” e proteger Sarai, na verdade, consiste em tentar ele mesmo colocar as mãos no dinheiro da moça. E mesmo sabendo disso, continuamos torcendo por Tsurugi. Mas para isso, o sujeito vai ter uma jornada de violência, enfrentando vários capangas na porrada e uma variedade de lutadores exóticos, como um brutamontes chinês, um cego que esconde uma espada na sua bengalinha, ao estilo Zatoichi, e até o nosso velho amigo Shikenbaru, que retorna ao Japão com sede de vingança por conta do que fez com sua irmã e pela morte do irmão.

A vingança de Shikenbaru acaba tendo vida própria dentro do filme. Possui um peso tão forte na trama de THE STREETFIGHTER que a batalha dos dois personagens ao final, a bordo do navio de petróleo, numa noite chuvosa, só poderia ganhar ares épicos e um desfecho dramático típico de uma tragédia japonesa.

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O sucesso de THE STREETFIGHTER e do personagem de Sonny Chiba gerou ainda duas continuações, THE RETURN OF STREETFIGHTER e THE STREETFIGHTER LAST REVENGE, que expandem o universo de Tsurugi, apesar de inferiores. São divertidos e violentos, mas não aproveitam a figura de Tsurugi como neste primeiro. Takuma Tsurugi é uma figura fascinante, por mais politicamente incorreta que seja, e o desempenho de Sonny Chiba é uma força selvagem da natureza, especialmente ao realizar suas performances nas cenas de luta, na maneira quase primitiva de se impor diante dos adversários. Acaba sendo cômico em alguns momentos, mas percebe-se o talento expressivo de um ator criando uma assinatura. E Tsurugi é a assinatura de Sonny Chiba, ícone do cinema de artes marciais. Ganhou até uma bela homenagem de Quentin Tarantino em KILL BILL, no papel de Hatori Hanzo.

R.I.P. Sonny Chiba.

Cagesploitation: PIG (2021)

PIG não é nada daquilo que eu esperava. Não sei se mais interessante, melhor ou pior, mas com certeza algo de fascinante e emocional que quebrou minhas espectativas. E não, o filme não é um “John Wick com uma porca”.

Na trama temos Nic Cage como Robin Feld, um ermitão que vive na floresta com sua única companheira, uma porquinha, caçadora de trufas. Uma noite qualquer, um grupo de pessoas invade sua cabana e sequestra o animal. Agora, Robin deve se aventurar de volta ao mundo civilizado da grande cidade para rastrear a porca. No papel, PIG soa estranho e até cômico. Na prática, o que vemos é um exercício quase espiritual sobre como as pessoas escolhem canalizar suas emoções. Robin deixou de funcionar no mundo exterior depois de um acontecimento trágico, optando por uma vida de isolamento. Antes, um chef de cozinha celebrado. Agora, evita o contato humano, encontrando consolo na reconexão com a natureza.

O único elo com a humanidade vem na forma de Amir (Alex Wolff), que compra as trufas de Robin para venda na cidade. Após o ataque noturno, voltar a encarar o resto do mundo é inevitável. E a partir daqui, o diretor e roteirista estreante Michael Sarnoski vai contra todos os clichês de gênero imagináveis, optando por não desencadear o que se espera de um CAGESPLOITATION. Não há perseguições, lutas, tiroteios, nem mesmo um suspense… Em vez disso, Robin inicia uma jornada existencial, uma reconciliação com seu passado. E realiza visitas discretas feitas a pessoas na indústria de restaurantes de Portland em busca de respostas: onde raios foi parar a porca?, mas sem a intenção de partir pra violência. A exceção talvez seja uma sequência num submundo dos restaurantes onde os funcionários parecem participar de uma espécie de “Clube da Luta”, o que justifica a cara de Robin toda arrebentada nas imagens que circulam. Mas até nisso o filme tenta fugir dos padrões.

A direção é minimalista, com foco nesses personagens (o rapaz, Amir, também possui um arco interessante pra ser resolvido), tratando de temas com certa sensibilidade. É evidente que alguns poderão sair frustrados com o ritmo lento. Enquanto para outros, PIG é um bom registro do porquê Nicolas Cage permanece único. Num grau de comprometimento absurdo com o projeto, Cage é uma potência aqui, numa performance que traduz o trauma e a tristeza de uma forma muito física. Não canso de repetir que Nic Cage é, pra mim, o melhor ator que temos hoje em atividade, o único que consegue me deixar num estado de suspensão em qualquer merda que faça.

O DIA DO CHACAL (1973)

Há alguns anos eu devorei todos os livros que consegui encontrar do Frederick Forsyth, um dos maiores escritores de thrillers políticos, na minha opinião. Usando sua experiência como jornalista e correspondente diplomático, o sujeito é muito preciso e detalhista nas tramas que escreve ao mesmo tempo em que consegue criar uma atmosfera tensa que coloca o leitor imerso na história. Lembro que quase perdia os pontos de ônibus que eu precisava descer de tão mergulhado que eu estava quando li O Dossiê Odessa, por exemplo. Enfim, eu não sei analisar literatura, isso eu deixo para outros, então paro por aqui…

Vamos falar de filme. Depois de ler O Dia do Chacal, primeiro romance ficcional de Forsyth, lançado em 1971, fiquei tentado a rever O DIA DO CHACAL (The Day of the Jackal), do diretor Fred Zinnemann e estrelado por Edward Fox e Michel Lansdale. Não com intuito de fazer uma comparação entre livro e filme, mas vislumbrar como Zinnemann transformou esse belo thriller em imagens.

Filme revisto (só tinha assistido uma única vez em VHS há trocentos anos) e, embora não seja lá uma obra espetacular, O DIA DO CHACAL consegue ser, em sua essência, um interessante e mortal, jogo de gato e rato. A trama é basicamente a mesma do livro, com pouquíssimas interferências: No início dos anos 60, com a Argélia recebendo a independência do presidente Charles de Gaulle, a aliança clandestina militante conhecida como Organisation Armée Secrète falha em uma tentativa de assassiná-lo. Em poucos meses, muitos dos conspiradores foram capturados e executados.

Os demais líderes da OAS, sem recursos financeiros, refugiam-se na Áustria e decidem contratar um assassino profissional para fazer o trabalho. E o escolhido é o “famoso” matador conhecido apenas como Chacal (Fox). Famoso entre aspas mesmo, porque a trama é totalmente ficcional e não tem nada a ver com Ilich Ramírez Sánchez, mais conhecido como “Carlos, o Chacal”, esse sim, um famoso mercenário revolucionário. E que curiosamente a alcunha de Chacal foi-lhe dada pela imprensa depois que foi encontrada no seu quarto de Hotel uma cópia de O Dia do Chacal, de Forsyth.

Como disse, a rapaziada da OAS tava sem grana pra bancar um profissional tão caro. Então orquestrou vários assaltos a banco para cobrir a taxa de meio milhão de dólares para que Chacal cumprisse sua missão de matar De Gaulle. Depois de capturar e interrogar um membro da OAS, as autoridades francesas descobrem a existência do assassino e, suspeitando que outro atentado à vida de De Gaulle possa ser iminente, colocam o comissário Claude Lebel (Lonsdale) em seu encalço. E a trama de O DIA DO CHACAL torna-se uma verdadeira caçada humana, com o Chacal se movendo pela Europa, arquitetando seu plano, usando disfarces e falsas identidades, enquanto Lebel tenta seguir os seus passos.

É o tipo de filme que persuade seu público a ficar em cima do muro em relação a essas figuras. Por mais que queiramos ver o Chacal frustrado por Lebel, é impossível deixar de admirar o assassino enquanto seu plano meticuloso e aparentemente infalível se concretiza. Deve-se, em grande parte, às atuações de ambos atores principais. Edward Fox, em seu primeiro grande papel, tem muita presença em cena, com semblante de um cavalheiro inglês imperturbável, com um sorriso cativante, sedutor, mas frio o suficiente para matar qualquer um que se coloque em seu caminho. O contraponto é Lonsdale como o policial corpulento e astuto, que mantém sua aura serena intacta, mesmo com a pressão que vem dos superiores.

Fred Zinnemann é um diretor competente, mas nunca me despertou muito entusiasmo. Mesmo seus filmes mais conhecidos e premiados costumam ficar na média do padrão, sem grandes inspirações. A exceção talvez seja MATAR OU MORRER, dentre os que vi, e mesmo assim tá longe de ser dos meus faroestes favoritos. Mas aqui Zinnemann abraçou o projeto e fez escolhas acertadas em benefício do seu filme, como vetar a escolha de Sir Roger Moore (e outros nomes) como Chacal e escolher Fox, que não era tão famoso. Ou a decisão de não utilizar trilha sonora durante praticamente todo o filme, o que privilegia a fotografia de Jean Tournier com uma atmosfera que carrega um senso de realismo semi-documental nas jornadas de Chacal e Lebel. Além disso, Zinnemann manda bem em manter a tensão em boa parte da projeção: o simples ato de acompanhar Chacal em atividade, com seus procedimentos detalhistas, na sua determinação em cumprir sua missão de forma meticulosa, e o rastro de morte que deixa pelo caminho, torna-se um prazer ao espectador.

Não há grandes momentos espetaculares em O DIA DO CHACAL. Mas temos um final bem orquestrado, dentro das limitações de Zinnemann como diretor, no meio do desfile do Dia da Libertação, na Champs-Élysées. Há um tom anti climático, mas que é eficiente, com Lebel tentando inutilmente localizar o assassino enquanto o Chacal se posiciona para dar o tiro mortal com seu rifle customizado. A propósito, essas cenas foram filmadas durante um desfile real e várias pessoas na multidão podem ser notados olhando diretamente para a câmera enquanto Lonsdale se move entre elas.

O DIA DO CHACAL é realmente um bom filme, sobretudo à quem interessa por thrillers policiais classudos dos anos 70. Claro que, pensando nos diretores já veteranos do período, fico imaginando esse material nas mãos de um Richard Fleischer, John Huston, Robert Aldrich, até de um John Frankenheimer (que chegou a demonstrar interesse pelo projeto)… Provável que teríamos uma obra-prima. Infelizmente não temos, mas é um belo thriller. Já o livro do Forsyth é sensacional. Fica a recomendação.

Em 1997, saiu O CHACAL, adaptação atualizada do livro de Forsyth, que não quis ter seu nome associado à produção. Foi dirigido por Michael Caton-Jones, que também não é lá nenhum mestre, mas não faz feio. E tem um bom duelo entre Richard Gere e um Bruce Willis atípico na época, numa ousada atuação encarnando o Chacal. O elenco ainda tem boas performances de Sidney Poitier e Diane Venora. Não é um grande filme, muita gente caiu matando, mas tenho simpatia. Desses produtos estranhos dos anos 90 que me divertem. Qualquer hora dessas eu revejo e comento por aqui também.

ZERO TOLERANCE (1994)

De vez em quando a produtora PM Entertainment, especializada em filmes de ação de baixo orçamento, que fez a alegria da moçada nos anos 90, conseguia atrair um ator relativamente mais renomado para um papel principal em uma de suas fitas. Em ZERO TOLERANCE, de Joseph Merhi, eles conseguiram o grande Robert Patrick. O sujeito nunca chegou a se tornar um astro, mas sempre teve um certo respeito pelos admiradores de cinema de gênero, sobretudo naquele momento, em meados dos anos 90. Obviamente que ser o vilão de um dos melhores filmes de ação de todos os tempos, dando vida ao T-1000 de O EXTERMINADOR DO FUTURO 2 (91), de James Cameron, contribuiu bastante pra isso. Mas mesmo em outros trabalhos, Patrick sempre demonstrou talento, carisma e aquele “olhar” peculiar que se precisa ter para ser um verdadeiro herói de filme de ação… ou o vilão, como na maioria dos casos de Patrick. hehe!

Em ZERO TOLERANCE Patrick interpreta o agente do FBI Jeff Douglas, que tem a tarefa de escoltar o traficante Ray Manta (Titus Welliver) de uma prisão mexicana de volta aos Estados Unidos. Manta, tendo à sua disposição as vantagens de ser membro de um sindicato de traficantes poderosos, consegue atrapalhar um bocado o trabalho dos agentes do FBI, preparando uma emboscada no trajeto de escolta e fazer com que a família de Jeff seja sequestrada para coagir sua libertação. O problema é que após conseguir o que queria, a mulher e os filhos do protagonista são mortos sem piedade. Agora, sem nada a perder, Jeff parte em uma boa e velha caçada humana para derrubar as cabeças do cartel, uma por uma.

A partir daí, ZERO TOLERANCE se torna uma típica jornada de vingança com os desenvolvimentos habituais que esse tipo de trama exige. Nada fora do comum, apesar do diferencial em ter um ator acima da média como Robert Patrick encarnando esse homem em fúria. O filme acaba tendo uma carga de emoção dramática mais intensa para o tipo de filme que temos aqui. Quem já se enveredou pelo universo dos filmes de ação da PM tá acostumado a sentar para assistir a um bagulho sem esperar os melhores exemplos de atuações ou tramas intrincadas, ninguém vai ver um filme da PM esperando ver algo do nível de um Orson Welles ou Ingmar Bergman. O que geralmente temos é uma trama direta, que justfique tiroteios e explosões, uma direção competente pra sequências de ação e um ator brucutu que possa chutar habilmente todos os meliantes que encontrar pela frente.

Neste caso, um ator sólido como Robert Patrick é o que torna ZERO TOLERANCE especial. Patrick é um ator que consegue colocar sentimento na tela, podemos vê-lo perdendo as esperanças com a vida e sendo despojado de tudo o que possui. Com suas emoções inundando, descarregando sua dor, bem como o ódio, em seus desafetos. Patrick sabe como se comportar em um filme como este e realmente eleva o filme, trazendo algo para o roteiro padronizado e um toque de personalidade onde poderia não haver nenhum.

Outra escolha de elenco interessante foi Mick Fleetwood como um dos vilões da parada. Parece que os realizadores queriam ter Donald Pleasance, mas na ausência do grande ícone que foi Pleasence, o baterista do Fleetwood Mac foi uma escolha acertada. Ainda no elenco, Titus Welliver acaba tendo bom destaque como o sinistro Manta, o principal alvo do herói. Miles O’Keeffe, que também contribuiu bastante como action hero de filme de ação vagabundo em outras oportunidades também desempenha um bom vilão, com uma certa carga moral. E o filme ainda conta com a presença de Jeffrey Anderson-Gunter, mais uma figura reconhecível do cinema de ação B.

Mas o ponto principal é que ZERO TOLERANCE entrega o que promete. Em termos de ação, como esperado do grande Joseph Merhi na direção, ele faz tudo ao seu alcance para que seu filme pareça um blockbuster de 100 milhões de dólares, repleto daquelas explosões amareladas caracteríticas dos filmes da PM, tiroteios minimamente elaborados e frenéticos, nos mais variados cenárrios e ambientações, e com um belíssimo trabalho dos dublês. Ou seja, diversão garantida.

Veredito: ZERO TOLERANCE tem um enredo legal, um filme de vingança com um bom peso dramático; um herói convincente vivido por um ator que adiciona um toque de classe, capaz de quase levá-lo a acreditar que o filme poderia ter estreado num cinema em 1994, ao invés de ir parar direto nas prateleiras de locadoras; temos vilões odiosos e ação em abundância. O que mais você poderia querer? Ok, o filme é um pouco lento às vezes, mas quando a ação começa, é uma paulada, dá conta de alegrar o coração dos que vibram com pequenos filmes de ação.

E lembrem-se, quando virem esse logo antes de um filme, a chance de os próximos 90 minutos serem de pura diversão é praticamente uma certeza:

O CHEFÃO DE NOVA YORK (1973)

Revi O CHEFÃO DE NOVA YORK (Black Caesar), blaxploitation fundamental dirigido pelo grande Larry Cohen, para gravar mais um episódio supimpa do podcast Cine Poeira. Mas resolvi escrever algumas coisinhas também porque tava com saudade de postar algo sobre blaxploitation aqui no blog. E retomo ao tema em grande estilo porque é um dos meus filmes favoritos do subgênero. Tem uma boa história e direção cheia de energia de Cohen, uma trilha sonora fodida de James Brown (uma das raras que fez pra cinema) e atuação magistral de Fred Williamson, que interpreta um filho da puta cruel, uma espécie de atualização black motherfucker do anti-herói do cinema de gangster dos anos 30.

Obviamente que muitos relacionam O CHEFÃO DE NOVA YORK como o PODEROSO CHEFÃO do blaxploitation e até entendo a comparação. O filme do Coppola tinha ganhado a notoriedade que todos sabemos no ano anterior e qualquer filme de máfia que viesse em seguida ficaria à sua sombra. Mesmo um produto de baixo orçamento e mais apelativo como este aqui. O protagonista chega até a passar por um cinema onde o título do filme de Coppola pode ser lido na marquise. Mas tirando um detalhe ou outro, a influência maior de Cohen era realmente o cinema de gangster da Warner Bros. da década de 30. O próprio título original, BLACK CAESAR faz analogia a LITTLE CAESAR, de Mervyn LeRoy, estrelado pelo Edward G. Robinson, e baseado num dos grandes cássicos da literatura policial, escrito por William R. Burnett.

Então o que temos aqui é clássica trama de ascensão e queda. Seguimos Tommy Gibbs (Williamson), desde o tempo em que ele era engraxate no Harlem, executando tarefas para criminosos brancos em 1953 (que mais parece 1973, mas isso pouco importa), até atingir os degraus mais altos do mundo do crime em 1972. Cohen não se atenta aos detalhamentos dessa escalada de Tommy ao poder. Ele decide matar um sujeito que tava com a cabeça à prêmio, arranca a orelha da vítima e joga no prato de spaghetti do chefão local, pra ganhar respeito. E logo em seguida já estamos ouvindo a voz de James Brown entoando Paid The Cost To Be A Boss enquanto Fred Williamson imponente caminha pelas ruas do Harlen como o fodão dos fodões.

Cohen estrutura todo O CHEFÃO DE NOVA YORK com cenas chaves e elipses temporais sem qualquer concessão. Dias, meses e anos se passam num simples corte. E não demora muito já estamos ouvindo novamente James Brown com Ain’t It Cool to Be a Boss, enquanto Tommy assume o controle de todo o sindicato do crime, à base de balas e muito sangue derramado. Há uma sequência espetacular dos homens de Tommy invadindo um almoço italiano à beira da piscina com a nata da máfia, em LA, sendo sumariamente executada, com corpos ensanguentados boiando, e um plano detalhe genial de um frango assado sendo estourado à tiros. Desses momentos mágicos do cinema de exploração.

Como toda tragédia narrada sobre a conquista do poder, algo tem que dar merda. A arrogância de Tommy, sua ganância e sede de controle acaba por decretar sua queda. Perde a mulher, é corneado pelo amigo de infância – e parceiro de negócios – ele logo é percebido como um “negro branco”, seguindo os mesmos passos dos mafiosos italianos que estavam ali antes dele, sem ajudar os pobres e necessitados. Seus homens começam a ser abatidos, seu território fica ameaçado. A única coisa que o mantém são determinados cadernos de registros, uma folha de pagamento contendo nomes de altas figuras corruptas da política e polícia. O CHEFÃO DE NOVA YORK chama a atenção em manter as emoções em estado de ebulição. A dor do homem negro de não poder pertencer ao establishment sem se sentir um estranho. Mas as ideias peculiares de Cohen sobre justiça e moralidade são a de que criminosos são caras violentos, que destroem tudo ao seu redor, sejam lá de onde vieram, sejam negros ou brancos. Ainda assim, o filme atende aos medos e fantasias do público alvo e dá uma voz sobre a indignação dos negros e sua rixa contra a sociedade americana de uma forma bem convincente.

Rodado em apenas algumas semanas e com a câmera grosseira e marginal no estilo de guerrilha de Larry Cohen, o John Cassavates do cinema grindhouse, O CHEFÃO DE NOVA YORK tem vários momentos impressionantes. Dos encontros singelos do protagonista com seu pai, às cenas estilizadas com espaços com fundos negros para mascarar com maestria o baixo orçamento. Ou filmando nas ruas lotadas de Nova York sem autorização, com os transeuntes olhando pra câmera ou assistindo a performance genial de Fred Williamson. Sobretudo no terceiro ato, quando Tommy é gravemente ferido pelos pistoleiros de seu maior inimigo, o policial corrupto e racista McKinney (Art Lund), e anda vários quarteirões cambaleando com o bucho cheio de sangue.

O encontro final com McKinney é outro desses momentos impagáveis que prova a maestria dramatúrgica de Cohen. McKinney aponta uma arma para Tommy e não consegue resistir de provocá-lo exigindo um engraxate para rebaixá-lo ao máximo, para mostrar ao protagonista quem ele é, de onde veio, antes de matá-lo. Mas Tommy consegue se desvencilhar e esmurra McKinney repetidamente com a caixa de engraxate. O anti-herói negro esmagando a cabeça do vilão branco com uma caixa de engraxate não poderia ser simbolismo mais antológico para um clássico do blaxploitation.

Atordoado, Tommy retorna ao Harlem de sua infância, nos escombros dos prédios onde viveu, e acaba atacado num beco vazio por uma gangue de adolescentes que o espanca até a morte. Claro, com o sucesso do filme Cohen tratou de decidir que Tommy não morreu, e no mesmo ano lançaram a continuação, INFERNO NO HARLEN (Hell Up in Harlem).

No elenco, algumas figuras a se destacar. Gloria Hendry é um espetáculo, embora sua personagem, esposa de Tommy, careça de um desenvolvimento mais interessante. Ela só vai ganhar mais força lá pro final do filme. Art Lund é realmente ameaçador como McKinney. E a pequena participação de James Dixon, um habitual de Larry Cohen, é bacana como pistoleiro do policial corrupto.

Com bom ritmo, boa dose de ação, muito tiro e sangue, e um personagem principal realmente cool, O CHEFÃO DE NOVA YORK é um dos grandes da safra blaxploitation, ocupando um lugar próximo a clássicos como COFFY, SUPERFLY, SHAFT e outros exemplares que tornam o subgênero essencial aos interessados em exploitation. Quem se depara com esse petardo, nunca vai esquecer o poder, a força da natureza, o monumento que é Fred Williamson (curioso que o personagem foi pensado originalmente para Sammy Davis Jr…). Nem da genialidade de Larry Cohen como diretor, roteirista e produtor. E esse aqui tá longe de ser um de seus melhores trabalhos. De qualquer forma, altamente recomendado. Para quem está iniciando pelas plagas do blaxploitation, O CHEFÃO DE NOVA YORK é definitivamente um dos mais importantes a conferir.

E assim que o episódio do Cine Poeira estiver disponível, compartilho por aqui.

AMERICAN SAMURAI (1992)

A franquia AMERICAN NINJA era um sucesso no fim dos anos 80 e início dos 90, já estava no seu quarto filme em 1992 e o diretor Sam Firstenberg, que realizou os dois primeiros (e também dois filmes da trilogia iniciada por ENTER THE NINJA: REVENGE OF THE NINJA e NINJA III – THE DOMINATION), concentrou-se em americanizar outra figura icônica da cultura japonesa: os samurais. Obviamente o filme recebeu o título de AMERICAN SAMURAI. O resultado não é do mesmo nível dos melhores trabalhos do Firstenberg, mas até que não é mau, dá para o gasto.

David Bradley, que também deu sua contribuição na franquia ninja (estrelou o terceiro, o quinto e participou do 4 ao lado de Michael Dudikoff), é Drew Collins, um americano que perde os pais num acidente de avião no Japão e é adotado por Tatsuya (John Fujioka), um mestre das artes marciais local, que lhe passa os ensinamentos dos samurais em pleno século XX. Curioso que Fujioka interpreta praticamente o mesmo personagem em AMERICAN NINJA, quando ensina ao órfão Joe Armstrong (Dudikoff) alguns movimentos de ninjitsu.

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A principal distinção entre AMERICAN SAMURAI e AMERICAN NINJA, no entanto, é a presença de Kenjiro (Mark Dacascos, num de seus primeiros papeis no cinema), o filho biológico do mestre Tatsuya, que também teve seu aprendizado samurai, mas sofre insanamente de ciumes pelo seu irmão adotivo.

E a coisa vai de mal a pior com o pobre Kenjiro, como podemos ver na cena em que Tatsuya escolhe Drew, apesar do seu seu sangue ocidental, como o guardião que irá manter a honra da família possuindo uma famosa espada sagrada para os samurais. Kenjiro até tem um bom argumento de que, como o filho biológico, com sangue japonês correndo nas veias, deveria ter sido o escolhido. Só que seu argumento perde um pouco de ímpeto quando ele revela uma grande tatuagem nas costas e anuncia que ele é agora um membro da Yakuza, a famigerada máfia japonesa, que todo mundo conhece…

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Passam-se os anos, Drew está morando na América e tem a espada sagrada exibida com bom gosto em uma caixa de vidro na parede de seu apartamento. Pelo menos até que um grupo de assassinos da Yakuza invada o seu recinto, atire nele e roube a espada… E enquanto Drew está deitado morrendo, ele começa a ter visões psicodélicas dele enfrentando seu irmão, que está usando algum tipo de máscara demoníaca, num combate de espadas mortal. Mas aí o diretor Firstenberg sai de seu transe achando que é um diretor de cinema arthouse experimental e se lembra que é um cineasta de fitas vagabundas de luta… Volta ao filme com Drew utilizando as misteriosas técnicas orientais aprendidas com seu mestre para arrancar a bala do bucho! Quem precisa de seguro de saúde quando você é um mestre samurai?

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Meses depois, Drew viaja como repórter – sua profissão, quando não é samurai nas horas vagas – para Turquia, em companhia de uma fotógrafa (Valarie Trapp) para investigar algumas mortes envolvendo um estilo muito específico de corte de lâmina, que ele suspeita que seja Kenjiro com a tal espada roubada. Chegando ao local, não demora muito para o nosso herói samurai cair nas armadilhas de seu irmão e se vê forçado a lutar em um torneio de artes marciais.

Entra em cena aquele estilo batido de “filmes de torneio” que infestavam as locadoras no início dos anos 90, reunindo lutadores com todos os tipos de estereótipos e variações de luta em combates sangrentos. Aqui a coisa é meio bizarra, meio medieval… Os caras parecem selvagens de outras épocas que resolveram desenterrar para este torneio, como vikings, piratas, bárbaros do oriente… E, obviamente, um americano do Texas, com chapéu de cowboy.

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Até que em termos de confrontos, temos algumas sequências bem legais e violentas, nisso o Firstenberg manda bem. As cenas de luta definitivamente compensam um pouco certa estupidez do roteiro e uma falta de ritmo, que é um autêntico convite ao sono até chegar até a este ponto da trama. Mas um dos principais problemas de AMERICAN SAMURAI começa já na escolha do ator central. David Bradley até possui alguns filmes bacanas no currículo, como os filmes da série CYBORG COP e HARD JUSTICE. No entanto, em alguns veículos ele se comporta como uma mosca morta no piloto automático. É o que acontece um bocado por aqui, que até possui um material que outros atores da sua categoria teriam aproveitado mais, como um Loren Avendon ou Billy Blanks. Mesmo nas suas sequências de luta o sujeito demonstra uma certa preguiça e parece não se interessar muito em balançar uma espada samurai em torno de uns oponentes a cada 5 ou 10 minutos…

Quem acaba se destacando é Dacascos, embora não tenha muito tempo de tela. Podiam ter utilizado bem mais seu personagem, já que no começo, por exemplo, ele se revela como um Yakuza. Por que não explorar esse núcleo dele em algum tipo de negócio de drogas na Turquia? Alguma cena em que um grupo de policiais tenta prendê-lo e ele demonstra seu poder sádico pra cima dos policiais? Bom, o que resta ainda vale. Mesmo o Dacascos se resumindo a fazer caretas consegue mais interessante que Bradley no filme inteiro.

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Mas talvez a maior sacada de AMERICAN SAMURAI é a ideia do confronto entre irmãos. Afinal de contas, é sempre melhor ver o herói ressentido com a perspectiva de ter que matar um próprio membro da família do que apenas vê-lo fatiar um homem de negócios malvado de óculos escuros e fora de forma. Mas não me entendam mal, Drew ainda vai em frente e perfura o bucho de seu irmão na sequência final, apesar de ser uma das lutas de espada mais estranhas que já vi… É anti-climática, tem um diálogo sobre “ser o melhor” que aquela altura pouco importa, e quando o confronto começa, acontece muito rápido, são pouquíssimos os planos que vemos os dois atores no mesmo quadro. Claro, fica evidente também, pela montagem, que costuraram trechos e cenas de outras lutas pra dar a ilusão de terem Dacascos e Bradley lutando, quando é perceptível que algo deu errado e nem filmaram a sequência com os dois…hehe!

AMERICAN SAMURAI não encontrou o esperado sucesso para merecer uma sequência, diferente da franquia AMERICAN NINJA, que teve quatro continuações. Mas realmente nem os mais alucinados fãs do gênero vão lamentar por isso. É provável que numa sessão, com um grupo de amigos e algumas latas de cerveja, tirando sarro do filme, ele funcione. Há algumas coisas bizarras e involuntariamente engraçadas acontecendo aqui e ali, mas não tenho certeza se posso recomendá-lo por esses méritos. Como filme de ação e artes marciais não é grandes coisas, mas diverte e pelo menos é melhor que AMERICAN NINJA 5.

TRANS-EUROP-EXPRESS (1966)

Segundo longa de Alain Robbe-Grillet como diretor, depois de L’IMMORTELLE (1963), embora já fosse famoso no período como o roteirista de O ANO PASSADO EM MARIENBAD (1961). E assim como no filme de Resnais, TRANS-EUROP-EXPRESS é um desses experimentos com a narrativa e com nossas percepções. O que temos aqui é um filme de Alain Robbe-Grillet chamado TRANS-EUROP-EXPRESS sobre um roteirista/diretor interpretado por Alain Robbe-Grillet que está planejando um filme chamado TRANS-EUROP-EXPRESS.

Calma, explico: Três pessoas embarcaram na linha Trans-Europ-Express em Bruxelas, são figuras ligadas a cinema (um produtor, um roteirista/diretor e uma roteirista), e começam a trabalhar em ideias para seu próximo projeto. Será um filme chamado “Trans-Europ-Express”, um thriller, com premissa ambientada no trem. Quando eles notam o astro de cinema francês Jean-Louis Trintignant no mesmo vagão, decidem que ele fará o papel principal, de um traficante de drogas chamado Elias. E a partir daí somos colocados numa posição na qual realidade e “fantasia” vão se cruzando. É o ator Jean-Louis Trintignant que estamos acompanhando ou Elias, o traficante de drogas?

Dos três indivíduos ali imaginando o filme – que de forma instantânea assistimos – o produtor é interpretado por um dos produtores reais de TRANS-EUROP-EXPRESS, o roteirista/diretor é o próprio Alain Robbe-Grillet e a roteirista é encarnada por sua esposa, Catherine Robbe-Grillet. De vez em quando decidem que uma determinada cena não funciona, então a cena que acabamos de assistir é descartada. As cenas também são revisadas. A história muda conforme assistimos.

É uma ideia interessante, uma trama de pistas falsas, não há certeza de quem está jogando e quem está sendo manipulado. Elias precisa comprar uma mala vazia e depois trocá-la por outra, contendo drogas. Mas ele acaba pegando uma mala sem a mercadoria… A gangue para a qual ele trabalha está testando-o. Ele recebe uma arma, mas não pode usá-la. Recebe uma série de instruções enigmáticas que o levam a percorrer toda a cidade da Antuerpia. Mais malas aparecem e desaparecem. Senhas misteriosas são trocadas.

Uma das malas contém os pertences pessoais de Elias, coisas que ele leva consigo quando viaja. Uma escova de dentes, navalha, seu pijama e… Uma corda e corrente. Estamos num filme de Alain Robbe-Grillet, então é óbvio que Elias carrega uma corda e uma corrente. Elementos sadomasoquistas são encontrados em todos os filmes e livros escritos por Robbe-Grillet e refletem seus próprios gostos e os de sua esposa (que era dominatrix e foi a autora de alguns dos mais famosos romances S&M). Em TRANS-EUROP-EXPRESS isso não é diferente e não surpreende quando temos situações e diálogos como, por exemplo, quando Elias conhece uma jovem prostituta chamada Eva (Marie-France Pisier). Ela o convida a ir para sua casa e ele diz que não está interessado em sexo, só está interessado em estupro. Ela garante que não haverá problema, mas terá um custo extra. Sorte que ele tinha as correntes e a corda com ele.

Durante a trama de TRANS-EUROP-EXPRESS, Elias não sabe em quem confiar ou para quem exatamente está trabalhando. O espectador também não sabe. E nem mesmo os três cineastas que estão criando a história, já que estão escrevendo no decorrer do processo. Um personagem pode ser um membro de uma gangue, mas eles podem mais tarde decidir que ele é na verdade um policial. Os desempenhos não são muito convencionais, se alternam entre o teatral, ou bastante monótonos, ou são exagerados… Porque, afinal, os roteiristas ainda não decidiram sobre as personalidades. Trintignant desempenha seu papel como uma marionete, fazendo a si mesmo, que interpreta um traficante de drogas numa trama que está sendo desenvolvida em tempo real…

Como a maioria dos filmes de Robbe-Grillet, TRANS-EUROP-EXPRESS contém uma porção generosa de excentricidade. Há algumas ceninhas de nudez, alguns elementos de submissão feminina, imagens que têm apelo e ajudam nas bilheterias (e que conseguiu fazer com que o filme fosse banido no Reino Unido). A sequência da dançarina nua no palco giratório (filmada no lendário cabaré Crazy Horse em Paris) é particularmente curiosa e, para os padrões de 1966, deve-se dizer que ela revela uma quantidade boa de pele nua. O tipo de coisa que tornou os filmes e a literatura de Robbe-Grillet polêmicos. Só pra ter uma noção, o livro mais perturbador que já li na vida foi escrito por Robbe-Grillet: Um Romance Sentimental, lançado em 2007. Depois de ler esse livro, nada mais te choca. No caso de TRANS-EUROP-EXPRESS a coisa ainda é branda e funciona, adicionando um toque extra de estranheza e surrealismo. Um filme em que todas as obsessões de Robbe-Grillet se juntam com sucesso sem chocar. Pelo menos para o público atual…

Embora TRANS-EUROP-EXPRESS compartilhe um pouco de alguns temas com L’IMMORTELLE, que eu preciso rever, ele também marca uma mudança de direção no tom – é um filme muito mais divertido, mais bem humorado e exuberante em comparação com seu filme de estreia. Robbe-Grillet está se divertindo e parece querer que o espectador também aproveite o filme e os procedimentos desse “projeto em andamento”. Vale uma conferida.

BIGFOOT (1970)

A minha queda por filmes ruins me faz chegar aos níveis mais sombrios da incompetência cinematográfica. Acabo vendo cada coisa que é difícil de acreditar… Mas no caso de BIGFOOT quem resiste a um poster como esse?

Obviamente que nada de tão espetacular assim acontece no filme, não vamos esperar um pé-grande levantando uma motocicleta pro alto. Esse tipo de arte é realizada antes mesmo das filmagens começarem, como material pra conseguir investimento para a produção. E apesar da bela imagem acima, os realizadores não conseguiram convencer muito não… O orçamento que conseguiram, pelo visto, é ridículo! Mas mesmo assim seguiram em frente e hoje temos esse filme chamado BIGFOOT para assistir… Só não sei se isso é bom ou ruim.

Agora, “O maior filme de monstros desde King Kong!‘”? “O filme mais realista e horripilante de todos os tempos.“? Não tenho ideia de que tipo de droga que essas pessoas usam pra fazer esses elogios, mas seja lá o que for, eu quero um pouco! Para assistir BIGFOOT e gostar no nível desses caras só se tiver com muito tóxico na cabeça…

O filme começa com uma loura voluptuosa (Joi Lansing, em seu último papel no cinema antes de sua morte prematura de câncer) embarcando em um pequeno avião monomotor e decolando para… não faço ideia. Mas também não importa, porque numa reviravolta brilhante do roteiro escrito pelo próprio diretor, Robert F. Slatzer, e James Gordon White, algo dá errado no meio do vôo e ela é forçada a saltar do avião de paraquedas. Já no chão, no meio de uma floresta, acaba sendo atacada e capturada por um grande monstro peludo!

Enquanto isso, os vendedores ambulantes Jasper (a lenda do cinema de horror John Carradine) e Elmer (John Mitchum, irmão do ator Robert Mitchum) estão dirigindo pela floresta até chegarem numa pequena loja de conveniência à beira de estrada. Enquanto tentam vender seus produtos, Jasper e Elmer pedem cerveja ao dono do local, mas a loja acaba de ser limpa por um grupo de motoqueiros que está passando pela área para fazer o que quase todos os motoqueiros fazem nos filmes no início dos anos 1970: beber cerveja e dançar na floresta.

Um dos motoqueiros, vivido por Christopher Mitchum, filho de Robert Mitchum (sim, existem dois membros do clã Mitchum neste filme), se separa do grupo por algum tempo pra ficar mais à vontade com sua namorada. Depois de tropeçar em um inusitado cemitério de pés-grandes, acaba nocauteado por uma das criaturas. Acorda e descobre que sua garota foi sequestrada. Agora são duas belezinhas sequestradas pelos monstros. O motoqueiro volta ao armazém para telefonar às autoridades e, ao ouvir sua história sobre a existência de tal criatura, um autêntico Pé-grande, o velho Jasper vê cifrões em seus olhos e sai com Elmer para capturar a criatura e faturar uma grana.

Se serão capazes de resgatar as mulheres também, pouco importa… Aliás, e isso é uma das coisas mais bizarras de BIGFOOT, ficamos sabendo que as duas moças são mantidas prisioneiras numa caverna onde vive uma “comunidade” de Pés-grandes, cujos integrantes pretendem acasalar com as capturadas para preservar a espécie… Hahaha!

Pois é, BIGFOOT aparentemente possui todos os elementos para ser um filme da categoria “tão ruim que chega a ser bom“, mas em vez disso é apenas “tão ruim que é só ruim mesmo“. A trama, a partir desses acontecimentos, vira um grande NADA. Entra num estágio de monotonia que mesmo os fãs mais dedicados de cinema exploitation não vão conseguir encontrar muitos atrativos por aqui.

A premissa de monstros querendo acasalar com mulheres sequestradas e sendo perseguidos por uma gangue de motoqueiros realmente poderia render algo bem mais interesante, mas o resultado é pobre de forma lamentável em todos os sentidos. E até o nível de violência e nudez é zero. Existem poucas coisas mais tristes neste mundo do que um filme de exploração que não tem coragem de explorar nada daquilo que realmente enche os olhos dos fãs do gênero.

Como ponto positivo de BIGFOOT, temos John Carradine em cena numa boa participação, embora claramente trabalhando no modo “quero receber meu pagamento no fim do dia“, mas ainda assim à léguas acima da maioria dos outros atores. Christopher Mitchum é outro destaque nas atuações, mas num sentido oposto ao de Carradine, entoando suas falas com todo o entusiasmo de um paciente em coma. Consigo me divertir com isso… Já os Pés-grandes, apesar de serem ridículos, não são assim tão precários quanto se espera para o nível da produção. Obviamente que ainda dá pra perceber que são pessoas em fantasias peludas de loja de dez centavos, que é algo que eu adoro. Mas não tem jeito, BIGFOOT é chatíssimo, demora muito para as coisas acontecerem. E quando finalmente acontecem, não vale o tempo de espera… Assista por sua conta e risco.

THE AMUSEMENT PARK (2019)

Em 2018 fomos agraciados com THE OTHER SIDE OF THE WIND, filme inacabado de Orson Welles que conseguiu, através dos esforços de alguns indivíduos e da Netflix, ver a luz do dia. Naquele mesmo ano, noticiou-se a descoberta de mais um tesouro perdido, um filme do então recém falecido George A. Romero, um dos maiores mestres do horror americano, filmado ainda nos anos 70 e que nunca foi lançado. Esse filme era THE AMUSEMENT PARK.

Em 1973, a Igreja Luterana contratou Romero – aparentemente sem ter visto nenhum de seus filmes (o sujeito já havia realizado três longas, incluindo o clássico A NOITE DOS MORTOS VIVOS) – para comandar uma produção institucional sobre a situação dos velhinhos, dos abusos e preconceitos que pessoas em idade avançada sofrem na sociedade. O que ele entregou, uma obra alegórica de horror, surrealista, com uma narrativa de pesadelo, deixou a Igreja tão chocada que acabou arquivando o material. THE AMUSEMENT PARK foi considerado perdido até 2018. Encontrado, restaurado, chegou a passar em festivais em 2019 (tornando a data oficial) e foi lançado essa semana no serviço de streaming Shudder.

Estrelado por Lincoln Maazel, que está no icônico filme de Romero, MARTIN (77), THE AMUSEMENT PARK abre com um monólogo do ator direto para a câmera, nos dando uma introdução do tipo Rod Serling (criador de ALÉM DA IMAGINAÇÃO), antes que nossa história comece. Assim que o “espetáculo” inicia, o espectador se sente imediatamente lançado em um mundo surreal e estranho. Maazel, agora vestindo um terno branco, adentra em uma sala branca, todo otimista, mas vê a si mesmo também na sala, sentado em uma cadeira, sujo e derrotado. O velho avisa à sua versão otimista para não passar pela porta e ver o mundo lá fora, mas o homem otimista diz que gostaria de ver por si próprio. E assim ele entra num parque de diversões. Um parque comum, familiar, mas que serve de alegoria para a sociedade apodrecida que Romero aborda.

O que se segue a partir disso é uma representação surreal da angustiante existência dos idosos no convívio em comunidade, usando situações cotidianas de um parque de diversões como versões paralelas do mundo real, num crescente de paranóia e horror.

Uma montanha-russa assume o ritmo de um pesadelo. Uma tentativa de almoçar termina em humilhação. O velho acaba sendo espancado por motoqueiros e, quando tenta encontrar os primeiros socorros, é maltratado por uma tenda médica sem alma… E por aí vai. A gota d’água vem quando o velhote encontra sua primeira conexão – uma menina, fazendo um piquenique com sua família, que pede a ele para ler uma história – interrompida de forma dolorosa…

Ao final, o velho está em frangalhos, de volta à sala branca. E sua versão limpinha e otimista retorna com seu ávido desejo de se aventurar lá fora. Mais um ciclo de sofrimento que se inicia…

Quer THE AMUSEMENT PARK tenha ou não o efeito pretendido pela igreja Luterana, algo que incitasse as pessoas a serem mais atenciosas com os mais velhos, hoje isso pouco importa. Romero criou um pequeno filme poderoso (53 minutos), digno de comparação com qualquer um dos tormentos alucinógenos do cinema psicodélico dos anos 70, ou uma versão mais extrema de um episódio de ALÉM DA IMAGINAÇÃO. Sentimos muita falta dos talentos de George A. Romero, que morreu em 2017, e ao menos temos a oportunidade de apreciar um trabalho inédito. Um filme que, ainda hoje, talvez não agrade qualquer público, mas cuja existência e inclusão na filmografia de Romero merece a celebração.

DUPLA EXPLOSIVA (2017)

Este ano teremos a continuação de DUPLA EXPLOSIVA (The Hitman’s Bodyguard), um filminho de ação bem bacana que chegou aos cinemas em 2017, mas que quase ninguém deu muita bola. Não que merecesse tantos aplausos, é o típico filme de ação trivial, mais batido que bengala de cego, trabalhando dentro de uma fórmula tão usada, mas tão usada, que é impossível enumerar os clichês, mas que no fim as contas diverte o espectador que só quer gastar um tempo dando risadas com Samuel L. Jackson e ver uma alta contagem de corpos em tiroteios frenéticos e perseguições deflagradoras… Então, estou animado com a continuação.

Este primeiro foi dirigido por Patrick Hughes, o australiano que realizou OS MERCENÁRIOS 3, e é estrelado pela improvável dupla Ryan Reynolds e o citado Samuel L. Jackson. DUPLA EXPLOSIVA segue a tradição clássica dos buddy movies, esgotando todas as suas possibilidades, combinando esses dois personagens extremos opostos que acabam forçados a trabalhar lado a lado para atingir seus objetivos. Ou seja, manter a pele intacta, como é a maioria dos casos… Pensemos na fase áurea desse subgênero para ter uma referência, pensemos em Shane Black, em 48 HORAS, na série MÁQUINA MORTÍFERA, INFERNO VERMELHO, FUGA À MEIA NOITE… E DUPLA EXPLOSIVA, apesar de não acrescentar quase nada ao subgênero, não faz feio no nível de diversão que proporciona.

A trama é simples, mas funciona. Reynolds é Michael Bryce, um guarda-costa de primeira linha que viu sua carreira descer a ladeira quando um de seus protegidos foi assassinado debaixo do seu nariz, sob sua proteção. Agora, os únicos trabalhos que consegue são os que ninguém mais quer. Ansioso para recuperar seu status, acaba aceitando a missão de proteger um assassino profissional sob custódia, Darius Kincaid (Samuel L. Jackson), que é uma testemunha vital no julgamento de um ditador sanguinário de um país qualquer do leste europeu (vivido pelo grande Gary Oldman).

Ao longo do caminho, as personalidades dos dois sujeitos se chocam: Kincaid é emoção explosiva, impulsivo, mas com um grande caráter, um sujeito que eu sentaria num bar e pagaria uma cerveja numa boa, enquanto Bryce é estritamente regimentado, arrogante e um verdadeiro babaca, embora seja bom naquilo que faz; Bryce protege os clientes e o trabalho de Kincaid é eliminá-los. E por conta disso, os dois possuem uma série de desavenças de longa data. E a essência de DUPLA EXPLOSIVA não é apenas esses dois homens sendo perseguidos por assassinos, matando quem entra em seus caminhos, para um deles testemunhar num tribunal… Mas sim como essas duas personas totalmente diferentes interagem e descobrem a si mesmo numa jornada de redenção.

Redenção que foi também para o diretor Patrick Hughes, que acabou entrando numa barca furada em 2014 com o terceiro capítulo da série OS MERCENÁRIOS, um autêntico fiasco… Só que Hughes vinha de uma estreia classuda e badass em sua terra natal, um filmaço policial anti convencional chamado BUSCA SANGRENTA, que me surpreendeu bastante na época. E eu tinha certeza que poderia esperar mais do sujeito fora de um projeto tosco como OS MERCENÁRIOS 3.

A sua redenção veio com DUPLA EXPLOSIVA, que embora o plot básico seja só um fiapo e uma desculpa para a dinâmica entre os dois protagonistas, o diretor mantém as coisas vivas, com muita energia e sequências de ação espetaculares, tiroteios elaborados e longos planos sequências de lutas realistas e viscerais que remetem ao que Keanu Reeves faz em JOHN WICK. Como na briga de Reynolds contra um brutamontes numa loja de ferragens. As cenas de perseguições de carros também são um primor, incluindo uma que se passa nos canais de Amsterdã que me deixou com olhos grudados na tela.

É incrível como a ação de JOHN WICK vem influenciando cineastas interessados no gênero atualmente. Vejo como algo positivo. Este ano tivemos NOBODY, que comentei recentemente, outro belo exemplar influenciado pelo filme estrelado por Keanu Reeves, e na ocasião disse que eu não tenho problema com essas imitações contanto que continuem fazendo filmes divertidos como este aqui. Me lembra um pouco aquela fase em que diretores americanos casca-grossas do início dos anos 90 imitavam o John Woo…

Além disso, DUPLA EXPLOSIVA possui várias sacadas engraçadíssimas, Reynolds e Jackson estão hilários, carismáticos, o que também ajuda a elevar o material. O velho Samuca, óbvio, se destaca mais, soltando seus habituais “motherfucker’s” a cada dois minutos. Salma Hayek também chama a atenção em todas as cenas em que aparece, como a esposa de Kincaid, o que inclui uma certa sequência romântica ao som de Hello, de Lionel Ritchie, que é impossível um fã de musicas bregas oitentistas ficar indiferente.

Tirando o fato de ser um bocado mais longo do que deveria (praticamente duas horas, num filme que tem pouca história pra contar), DUPLA EXPLOSIVA prova que não é preciso ser tão original para o resultado ser divertido. Um filme que não quer inventar a roda, mas trabalha as fórmulas desgastadas do gênero com bom humor, cumprindo exatamente o que promete, que é ser um filme de ação exagerado, sem vergonha e violento. E ainda conta com o carisma e a química de seus dois protagonistas, Reynolds e Jackson, em estado de graça.

Acredito que vai ser engraçado ver essa dupla retornando numa continuação, que vai se chamar DUPLA EXPLOSIVA 2 – E A PRIMEIRA-DAMA DO CRIME (Hitman’s Wife’s Bodyguard), fazendo referência à personagem de Salma Hayek. Vai ser dirigido novamente por Patrick Hughes, vamos ter a adição de Antonio Banderas e Morgan Freeman no elenco e tem estreia marcada para o mês que vem, em julho, no Brasil.

Netflix: SEM PERDÃO (2017)

A qualquer hora dessas eu precisava chegar no diretor ex-dublê Ric Roman Waugh, um sujeito que há tempos me parece ser desses talentos subestimados a ser descoberto no cinema americano. Único filme de Waugh que tinha visto até agora era FELON, de 2008, um drama de prisão com Val Kilmer e Stephen Dorff bem melhor que o esperado. E que guarda algumas semelhanças com SEM PERDÃO (Shot Caller), seu filme de 2017 que está na Netflix há um tempão e adiei pra caramba, mas finalmente conferi essa semana. Sob a insistência também do meu velho companheiro de Cine Poeira, Osvaldo Neto (que foi quem me apresentou também FELON na época).

Waugh começou a dirigir ainda nos anos 90, e tem até filme com o Dwayne “The Rock” Johnson, O ACORDO. Mas SEM PERDÃO que parece ter sido seu grande trunfo na carreira. Logo depois se reuniu com o ator Gerald Butler já rendendo duas produções mais abastadas, ANGELS HAS FALLEN (que já é a terceira parte de uma franquia de ação iniciada com INVASÃO À CASA BRANCA, de 2013) e GREENLAND. Não vi nenhum dos dois ainda, mas aparentemente vem mais coisas da dupla por aí… E depois de ver SEM PERDÃO e perceber que o cara é bão mesmo, vou atrás desses aí.

Sobre SEM PERDÃO, a trama começa com a liberdade condicional de um condenado chamado “Money” (o dinamarquês Nikolaj Coster-Waldau, que ficou mais conhecido pelo seu papel em GAME OF THRONES). O filme segue suas atividades pós-prisão, que inclui a sua participação em uma negociação de armas militares russas roubadas do Afeganistão, e intercala a narrativa com flashbacks de sua antiga vida e como acabou na situação que está.

Dez anos antes, “Money” era Jacob Harlin, um corretor da bolsa de sucesso, pai de família honesto, com uma esposa (Lake Bell) e um filho pequeno. Depois de jantar fora com um casal de amigos, Jacob se distrai no volante com uma conversa e fura o sinal vermelho causando um baita acidente. Seu amigo no banco de trás acaba morrendo e desde que tomou umas duas tacinhas de vinho, acaba acusado por homicídio culposo. Faz um acordo judicial e é condenado a um par de anos, mas a partir do momento em que pisa na penitenciária, a realidade é outra. É um universo paralelo cujo sistema transforma o indivíduo da pior maneira, como já vimo em muitos filmes por aí. E para garantir a sua segurança, Jacob se alinha com uma gangue de supremacistas brancos. E logo está transportando drogas lá onde o sol não brilha e até matando sob ordens dos líderes da gangue.

Depois de se envolver em um motim, sua sentença é estendida, a coisa complica, e ele constrói um muro ao seu redor, cortando o contato com o mundo exterior, incluindo sua esposa e filho. Mas agora ele está livre. Quero dizer, livre em partes, porque o sistema sai com ele. E a conexão com certos poderes que fez na prisão, sobretudo com um sujeito chamado The Beast (Holt McCallany), um influente chefão da porra toda, não vai deixar o cara sair e fazer o que quiser. Ele ainda faz parte da “família”, querendo ou não.

Parece um melodrama de prisão padrão, mas além de evitar cair na armadilha do proselitismo, Waugh constrói SEM PERDÃO como um surpreendente e amargo estudo de personagem, sobre um homem que descobre da pior maneira possível o estrago que o sistema prisional faz a um indivíduo. E que precisa usar de todos os meios, morais e amorais, para permancer vivo – e manter os seus a salvo.

E o principal motivo de tudo funcionar tão bem é Coster-Waldau num personagem forjado com grandeza detalhista e trágica, e a atuação poderosa do sujeito, uma das melhores performances dos últimos anos no cinema americano e que passou completamente batido por quase todo mundo. No elenco, além dos já citados, ainda temos Jon Bernthal, Jeffrey Donovan e uma pequena participação de Benjamin Bratt com um bigodão.

Não fosse uma gordurinha aqui e a ali (o filme perde muito tempo com o personagem do policial da condicional vivido por Omari Hardwick) SEM PERDÃO talvez merecesse ainda mais elogios. Mas é um grande filme, desses que poderia ser mais conhecido e lembrado. Acho que a rapaziada que está familiarizada com tipo de filme que prezamos aqui no blog vai curtir. E ainda dá tempo. Tá na Netflix pra quem quiser ver.

INFILTRADO (2021)

Existem dois diretores Guy Ritchie na minha opinião, aquele que surgiu lá nos anos 90 como uma imitação britânica de Quentin Tarantino, fazendo crime movies envolvendo o univero da máfia e o submundo das gangues na Inglaterra, e temos aquele que pro final dos anos 2000 começou a fazer super produções sob a batuta de grandes estúdios. Não acho nenhum dos dois grandes diretores, mas o “primeiro” Guy Ritchie pelo menos me agrada, faz um trabalho bacana, rendendo uns filminhos divertidos como SNATCH, PORCOS E DIAMANTES, REVOLVER e, mesmo tendo Tarantino como influência óbvia, era autoral. Enquanto o “segundo” Guy Ritchie só entregou produtos genéricos e/ou medíocres como a franquia SHERLOCK HOLMES e REI ARTHUR (o seu ALLADIN eu não quis nem arriscar). A exceção talvez seja THE MAN FROM U.N.C.L.E., que é legalzinho.

INFILTRADO (Wrath of Man) é o novo trabalho do homem. Do, ainda bem, “primeiro” Guy Ritchie. O que não quer dizer que temos um filme genial ou algo parecido. Mas é um thriller de ação decente, pra sentar no sofá com os pés pra cima, tomando aquela coca-cola gelada enquanto assiste de boas… Trata-se do remake de um filme francês de 2004 chamado LE CONVOYEUR, que menciono só pela informação. Não vi, então nem me proponho a fazer comparações.

Aqui temos Jason Statham interpretando H, um homem que é contratado para dirigir carros-fortes cheios de dinheiro que estão constantemente sendo roubados. Ele posui um background violento que vai sendo revelado aos poucos no decorrer de uma narrativa cuja estrutura é toda costurada, cheio de flashbacks e personagens secundários, como é característico do diretor, mas para todos os efeitos é um filme mais centrado numa trama de vingança protagonizada pelo personagem de Statham. É também uma obra mais sombria e moralmente ambígua na maior parte do tempo, deixa de lado o humor peculiar pelo qual os filmes de Ritchie também são geralmente conhecidos.

A medida que INFILTRADO avança, a coisa vai ficando mais interessante, com algumas boas sequências de ação e um clima tenso que se constrói no último ato, uma sequência de assalto à central dos carros-fortes. Embora tenha um bocado de gordura que poderia ser eliminada e não acrescente nada ao gênero, é um filme sólido e que conseguiu ao menos me prender. Gosto do Statham, ainda que fazendo mais do mesmo por aqui, o elenco ainda tem Josh Hartnett, Holt McCallany, uma pequena participação de Andy Garcia e vários rostos reconhecíveis. O destaque vai para o filho do Clint, Scott Eastwood, que já provou que nunca vai chegar aos pés do pai, mas que em determinados tipos de papéis pode funcionar muito bem, como é o caso aqui.

Enfim, INFILTRADO tá longe de ser o meu favorito do diretor, mas fico feliz que aos poucos Guy Ritchie tem priorizado ser aquele “primeiro” diretor que mencionei lá em cima, fazendo esses filmes menores de ação e crime… Inclusive, seu trabalho anterior, THE GENTLEMEN, não é nada especial, mas também não foi nada mal. Claro que o primeiro estúdio que balançar uns milhões de dólares na sua frente o sujeito não vai resistir de fazer uma super produção, mas espero que não deixe de continuar voltando às origens de vez em quando.

Agora fiquei com vontade de conferir o filme original…

Infelizmente, não faço ideia se INFILTRADO já tá diponível em algum streaming por aqui…

NOBODY (2021)

Bob Odenkirk ganhou fama como o advogado esperto e picareta Saul Goodman, de BREAKING BAD, cujo personagem chama tanto a atenção que acabou ganhando um seriado próprio para chamar de seu (BETTER CALL SAUL). O cara é muito bom ator, isso não tenho dúvidas, mas acho que ninguém (sem trocadilho com título original deste filme aqui) esperava que a essa altura do campeonato teríamos um filme com Odenkirk pagando de action hero, ao estilo Liam Neeson… Para um filme que se chama NOBODY, acertaram em cheio na escalação do sujeito.

Odenkirk é um homem aparentemente comum, pai de família, mas que guarda um passado violento envolto às sombras. Ele parece estar entediado, o casamento não anda lá essas coisas, crise da meia idade batendo, se sentindo impotente com sua vida vazia e monótona se repetindo dia a dia, como é mostrado na eficiente edição do começo do filme. Então, quando alguns gangsters russos vêm atrás dele e de sua família depois de determinados eventos, ele aproveita a oportunidade para liberar seu antigo “eu” acompanhado de mais um conjunto de habilidades especiais.

Óbvio que neste momento não vou resistir de fazer comparações com JOHN WICK. Quem já viu o filme estrelado por Keanu Reeves já nota as semelhança quase de imediato. E na verdade NOBODY foi escrito pelo mesmo roteirista de JOHN WICK, Derek Kolstad, e um dos produtore é David Leitch, que co-dirigiu JOHN WICK, então não tem pra onde fugir, as semelhanças estão lá de maneira explícita sem qualquer esforço em virar o disco. O que não acho negativo. Não prezo tanto assim por originalidade em toda merda que se faz por aí. Claro, uma obra que possua essa qualidade acaba se sobressaindo… Mas contanto que façam filmes legais, não me importo que copiem JOHN WICK na cara dura… E NOBODY é bem divertido nessa lógica.

E, bom, se vc asssitiu ao trailer de NOBODY sabe que não é pra esperar algo que traga luz à reflexões profundas e filosóficas da alma humana. Ninguém tá esperando um Bergman, um Antonioni. O que dá pra esperar é Bob Odenkirk socando e trocando tiros com pessoas. E o filme entrega isso: Bob Odenkirk socando, matando pessoas e explodindo coisas (e pesoas) por 90 minutos. O que tá bom demais pra mim.

A direção de NOBODY é daquele russo maluco que há uns anos fez aquele filme de ação em primeira pessoa, HARDCORE HENRY, que na época eu achei um tanto enjoativo pela proposta “100% visto pelos olhos do protagonista”. Uma revisão hoje não faria mal. Mas pode esperar. O nome do sujeito é Ilya Naishuller e acho que nessa narrativa mais convencional até que mandou bem. Ele não leva o material a sério, consegue trabalhar bem com os atores e cria sequências de ação bem coreografadas e cheia de mortes criativas. A sequência da pancadaria no ônibus, com Odenkirk encarando uns cinco sujeitos (entre eles o grande Daniel Bernhardt e Alain Moussi) tá entre as melhores do ano. E o tiroteio final é um barato. Tá certo que você sente que vai dar tudo certo, que praticamente nenhum dos heróis sofre qualquer ameaça real nas trocas de tiros, não tem peso dramático nenhum, mas não deixa de ser divertido. E poder ver Christopher Lloyd, o bom e velho Doc Brown de DE VOLTA PARA O FUTURO, carregado de espingardas e escopetas, mandando chumbo pra cima de mafiosos russos é uma imagem linda.

Bob Odenkirk consegue se sair muito bem, o que não é nenhuma surpresa. Mas a participação de Lloyd sim, essa eu não estava esperando que fosse tão legal. Ele é responsável por alguns dos melhores momentos do filme. No elenco ainda temos a musa dos anos 90 Connie Nielsen, o rapper fã de Shaw Brothers RZA e um russo de nome longo fazendo um daqueles vilões surtados típicos que adoramos: Alexei Walerjewitsch Serebrjakow.

NOBODY não é perfeito, está longe de ser um grande filme (como é o caso do próprio JOHN WICK), mas é agradável, me diverti bem com ele. Sem contar com aquele detalhe de que possui apenas 90 minutos de duração. Para um filme de ação atual, além de raro, chega a ser um frescor.

Netflix: ARMY OF THE DEAD (2021)

Nada contra o Zack Snyder, ainda tenho curiosidade e perco meu tempo vendo os filmes que lança. Mas já faz um bom tempo que o sujeito não faz algo que presta. Lembro que curti WATCHMEN (carece de revisão) e desde então pouca coisa salva… Só aí já passa de uma década. O último embuste foi o tal Snyder Cut da LIGA DA JUSTIÇA, 4 horas da minha vida jogadas no lixo. Mesmo assim, resolvi encarar seu novo trabalho, a mega-produção da Netflix ARMY OF THE DEAD, que me deixou até animado, prometia, pelo trailer, ser uma espécie de ONZE HOMENS E UM SEGREDO com zumbis, um conceito bacana e, enfim, achei que pudesse render algo interessante também por ser o retorno do Snyder ao subgênero zombie movie, já que seu primeiro filme é o bom remake de DAWN OF THE DEAD, de George A. Romero.

Assisti a ARMY OF THE DEAD, portanto, na firmeza, de coração aberto, sem preconceito. Não deu outra: é mais um exemplar decepcionante do cara, mais um filmeco todo errado… Saudades de WATCHMEN.

Depois que um surto de zumbis infecta Las Vegas, a cidade inteira é cercada e a zumbizada vive de boas lá dentro. Ninguém entra, ninguém sai. Mas a trama é sobre o ex-herói de guerra interpretado pelo grandalhão Dave Bautista, que é contratado pelo dono de um cassino bilionário, vivido Hiroyuki Sanada, para montar uma equipe com a missão de ir a Vegas infestada de zumbis, entrar no cofre de seu cassino e retirar $200 milhões de dólares que ficaram lá. É tudo dinheiro extra, o seguro já cobriu as perdas do ricaço. Ele só quer tirar um a mais… Mas será realmente só isso? O tempo torna-se uma questão essencial: o presidente dos EUA ordenou, sabe-se lá porque, que Vegas fosse varrida do mapa com uma bomba nuclear em quatro dias – quando seria exatamente 4 de julho… Acho que o Trump ainda estava no cargo no universo que o filme se passa.

Durante um tempinho o filme consegue dar aquela enganada e mantém o interesse – o prólogo e créditos iniciais são ótimos; a ideia de que toda a merda da infecção de zumbis se dá por conta de um boquete é engraçada; temos o tigre zumbi de Siegfried & Roy; e Snyder não economiza na hora da ação e violência. Mas ARMY OF THE DEAD tem 146 minutos de duração e simplesmente colapsa num amontoado de personagens, subtramas, clichês estúpidos, situações idiotas e escolhas que tornam o filme intragável (toda e qualquer situação envolvendo a personagem da filha do Bautista, por exemplo, tira qualquer possibilidade desse filme ser bom).

Há uma sequência que Snyder atinge os extremos, vai do céu ao inferno, da excelência à mediocridade, quando certa personagem rodeada de zumbis precisa agir para sobreviver, numa sequência de ação excepcional (prova que o diretor, quando quer, manda bem), para logo em seguida, essa mesma moça acabar encurralada, sem escapatória e sem ajuda, mesmo com os companheiros a 1,5 metro de distância, podendo atirar nos zumbis. Em vez disso, os caras ficam olhando ela morrer. Eu confesso que fiquei sem entender… O filme mostra de forma clara que os amigos dela estavam literalmente a poucos metros dela e não fizeram nada. Que troço idiota. Até aqui ARMY OF THE DEAD ainda parecia, no mínimo, decente. Mas depois dessa cena, a coisa foi ladeira abaixo.

Por exemplo, há momentos de ARMY OF THE DEAD que prenunciam coisas legais, mas que acabam frustrando as expectativas simplesmente porque… porque sim. Em determinada cena, ficamos sabendo que todos os zumbis mortos queimados voltam à vida quando chove. Ah, então vai ser incrível, quando chover mais tarde e houver uma enorme horda de zumbis! Isso nunca acontece… Temos esse personagem que carrega uma serra circular gigante? Vai ser maneiro vê-lo fatiar zumbis! Não, isso não rola também. Então vamos arriscar TODA a missão para salvar essas moças das quais ninguém dá mínima para o gran finale do filme? Aposto que vai ser frenético e épico, mal posso esperar para ver! Ah, que pena, nem sequer ficamos SABENDO o que aconteceu com as mulheres que foram salvas. Snyder deve ter esquecido de mostrar. Foi tudo em vão. Não serviu para um caralho!

Enfim, acho que já dá pra ter uma noção da desgraça, uma pequena amostra da coleção de bobagens que é. Daria para preencher vários parágrafos só com as cagadas que Snyder fez por aqui. O pouco prazer que pode ser encontrado em ARMY OF THE DEAD – algumas sequências de ação, visual, efeitos especiais, o conceito dos zumbis “inteligentes” – não supera nem remotamente a grande quantidades de estupidez e decepção. Roteiro, Snyder, você precisa de um roteirista. Dos bons. Mas, aparentemente, a rapaziada tem curtido essa porcaria, já estão planejando continuações, prequels e séries animadas desse universo. Fiquem à vontade. Eu paro por aqui.