HOWARD HAWKS: FINAL

HATARI! (1962)
Hawks no seu modo tardio descontraído pós ONDE COMEÇA O INFERNO. Muito pouco a título de enredo, trama, não há antagonistas, apenas um amontoado de situações com o senso de aventura fenomenal do diretor, seu humor típico e a dinâmica entre os personagens. Um bando de marmanjos na África, à serviço de um zoológico, enchendo a cara e contando prosa, um rinoceronte ensandecido, três filhotes de elefante assanhados e uma italiana que chega pra balançar o coração do Duke. Como dizia o Carlão Reichenbach: a aventura maior do cinema.

O ESPORTE FAVORITO DOS HOMENS (Man’s Favorite Sport?, 1964)
Um renomado especialista em pesca, vivido por Rock Hudson, que sem o conhecimento de seus amigos, colegas de trabalho ou chefe, nunca lançou uma linha de pesca em sua vida. Um dia, ele cruza o caminho de uma garota irritante (Paula Prentiss) que acaba de persuadir seu chefe a inscrevê-lo em um torneio anual de pesca. A confusão está armada. Não é a comédia perfeita do diretor, mas há muito o que gostar em seu próprio jeito. Engraçado, leve, romântico e, afinal, quantos filmes de Hawks temos um urso andando de motoca? Uma despedida divertida, a última Screwball Comedy de um dos maiores mestres do gênero.

RED LINE 7000 (1975)
O filme gira em torno de corredores da Stock Car e todo um universo que os rodeia, as paixões, desilusões, relações, num turbulento retrato sobre indivíduos do mundo das corridas profissionais. Acho foda que Hawks já na reta final da carreira fez esse petardo esquisito, que mesmo sendo um filme tão hawksiano, parece mais um filme do Roger Corman produzido pela AIP. É troncho, uma grande novela da globo, tem alguns dos piores diálogos da filmografia do diretor, o próprio Hawks detestava, mas ao mesmo tempo é um dos filmes mais verdadeiros, humanos e com mais força emocional que o sujeito já fez. Lindo, o tipo de obra-prima imperfeita que eu não resisto…

EL DORADO (1966)
Hawks se reuniu novamente com John Wayne para este “remake espiritual” de seu clássico ONDE COMEÇA O INFERNO. É tipo um “copia, mas faz diferente“. O Duke faz um pistoleiro que se junta a seu velho amigo, o xerife bêbado de Robert Mitchum, para ajudar uma família de fazendeiros a lutar contra um rival que tenta roubar suas terras. James Caan também tá aqui, depois de trabalhar com o diretor em RED LINE 7000. Hawks cria mais uma mistura especializada de emoção, ação e boas risadas, apresentando os dois dos veteranos da era de ouro de Hollywood, Wayne e Mitchum, em estado de graça, entregando desempenhos divertidos de ver, embora o filme no geral não chegue no mesmo nível de seus melhores trabalhos.

RIO LOBO (1970)
Último filme que Hawks dirigiu. Após a Guerra Civil, o personagem de John Wayne procura o traidor cuja deslealdade causou a derrota da unidade de sua unidade e a perda de um amigo próximo. Durante a jornada, acaba se envolvendo numa aventura cheia de ameaças e figuras hawksianas. Embora não seja dos seus melhores westerns e colaborações com o Duke – o filme já nasce anacrônico para o período e com a trama cansada (Hawks recria pela terceira vez a mesma situação de ONDE COMEÇA O INFERNO e EL DORADO, encerrando a carreira numa espécie de trilogia com estes outros dois) – não deixa de ser divertido e ter seus momentos. Uma bela despedida de um dos maiores diretores que Hollywood já teve.

Acima, o último plano do último filme de Hawks. Fim da maratona.

HAWKS NOS ANOS 50

Depois de um pequeno descanso fora da cidade, longe de computador, voltamos à programação normal:

O RIO DA AVENTURA (The Big Sky, 1952)
Tenho quase certeza de que quando o Carlão Reichenbach falava da exuberância da aventura de Hawks, ele tava pensando em O RIO DA AVENTURA. O filme é basicamente um grupo de homens descendo um rio num barco, encarando perigos naturais, trocando tiros com índios, há cenas de homens puxando o barco com uma corda contra correnteza, fazendo catapulta com árvore para lançar um cervo morto do alto de uma montanha, praticamente remete a um filme do Herzog, muito antes do Herzog! Obviamente surgem também as subtramas hawksianas. A maior parte do interesse do filme está na relação entre Kirk Douglas e Dewey Martin, que traz um pouco a dinâmica entre Victor McLaglen e Robert Armstrong no filme mudo do diretor A GIRL IN EVERY PORT (1928), que comentei aqui no primeiro post que fiz dessa série. Belissimamente fotografado, O RIO DA AVENTURA tem todo um senso de épico, de uma aventura grandiosa, que é boa de acompanhar… Só achei mais longo do que precisava.

O INVENTOR DA MOCIDADE (Monkey Business, 1952)
Hawks volta ao Screwball comedy e um pouco ao seu clássico LEVADA DA BRECA, com Cary Grant mais uma vez interpretando um professor confuso lidando com percalços profissionais e românticos. Ele é um químico cujo chimpanzé de laboratório descobre uma poção da juventude, causando complicações para ele, sua esposa (Ginger Rogers), a secretária do laboratório (Marilyn Monroe) e seu chefe (Charles Coburn). Embora não seja tão bom quanto LEVADA DA BRECA, que é a obra-prima do Hawks no gênero, na minha opinião, ainda é extremamente divertido à sua maneira. Grant e Rogers, sozinhos ou juntos, sob o efeito da poção de rejuvenescimento em performances físicas incríveis, é simplesmente antológico. A abertura, com o próprio Hawks pedindo a Grant pra esperar mais um pouco pra entrar em cena, é um desses toques de mestre, que já me faz abrir um sorriso logo de cara, e que permanece até o fim.

OS HOMENS PREFEREM AS LOURAS (Gentlemen Prefer Blondes, 1953)
Divertida adaptação de um clássico da Broadway, sobre duas dançarinas (Marilyn Monroe e Jane Russell) que embarcam para Paris, onde a personagem de Monroe deve se casar com um jovem milionário. No caminho, elas conhecem um detetive particular contratado pelo pai do noivo para investigar se a moça está interessada apenas na fortuna. O filme todo é uma fantasia exagerada bem agradável sobre desejo de libertação feminina e homens como meros objetos. Algumas situações são realmente engraçadas e com números musicais muito bons. E é difícil desgrudar os olhos da dupla principal…

TERRA DOS FARAÓS (Land of the Pharaohs, 1955)
No antigo Egito, o faraó está obcecado em adquirir ouro e planeja levar tudo consigo para a “segunda vida”. Para isso, ele conta com a ajuda de um arquiteto cujo povo é escravizado no Egito. O acordo: construir uma tumba à prova de roubo, cheio de armadilhas secretas, e o seu povo será libertado. Durante os anos em que a pirâmide está sendo construída, uma princesa se torna a segunda esposa do faraó, que não tá muito a fim de deixar o sujeito levar seu tesouro com ele quando morrer… Primeiro e único filme que Hawks filma em CinemaScope. Fritz Lang dizia que o formato só servia pra filmar serpentes e funerais, então Hawks filmou uma serpente e um funeral por aqui. Mas ele não curtiu o resultado, disse, na entrevista com o Bogdanovich, que a tela larga tirava muito a atenção do público… Na verdade, Hawks não gosta de quase nada de TERRA DOS FARAÓS, fora algumas cenas isoladas. Bom, problema é dele. Na minha opinião, o que temos aqui é um dos trabalhos visuais mais poderosos de Hawks, que me ganha mesmo com a trama estranhamente estagnada, mas que consegue ser ao mesmo tempo atrativa e fascinante. Talvez seja um filme menor na obra geral de Hawks, um filme bizarro, nota-se claramente que o diretor tá fora de sua zona de conforto. Mas como filme de gênero, é uma pequena joia que merecia mais reconhecimento.

ONDE COMEÇA O INFERNO (Rio Bravo, 1959)
John Wayne, como o xerife, recusa a ajuda de “amadores bem-intencionados” (como resposta para MATAR OU MORRER, onde Gary Cooper mendiga ajuda o filme inteiro) e fica com um bêbado (Dean Martin), um jovem inexperiente (Rick Nelson) e um velho aleijado (Walter Brennan) para enfrentar um exército de bandidos – além, é claro, da clássica mulher Hawksiana em Angie Dickinson. No autêntico estilo de Hawks, com seus temas recorrentes de camaradagem masculina e profissionalismo em primeiro plano, a aliança improvável dá conta do recado. Hawks abandona um enredo definido e a abordagem épica de seu outro grande western, RIO VERMELHO, para um cenário mais confinado, uma história mais aberta, na qual vão se acumulando situações e arcos dramáticos (o estudo de alcoolismo que faz com o personagem de Martin é notável). São quatro anos que separam TERRA DOS FARAÓS de ONDE COMEÇA O INFERNO. Durante esse hiato, Hawks repensou seu cinema e o modo de o fazê-lo. E quando retornou, o resultado foi esta obra-prima, um filme testamento, um western definitivo e um dos trabalhos mais divertidos de sua carreira.

MAIS HOWARD HAWKS

LEVADA DA BRECA (Bringing Up Baby1938)
David Huxley (Cary Grant) está esperando para conseguir um osso de dinossauro que precisa para sua coleção de museu. Através de uma série de circunstâncias estranhas, ele conhece Susan Vance (Katherine Hepburn), e a dupla tem uma série de desventuras cada uma mais louca que a outra, o que inclui um leopardo chamado Baby. Delícia rever isso aqui. No primeiro filme que trabalham juntos, Hawks coloca Cary Grant usando apenas um robe feminino, gritando “Because I just went GAY all of a sudden!”. Maravilhoso! É praticamente um filme experimental transgressor, não é possível que exista algo até aquele momento com tanta intensidade, energia, que teste os limites extremos do humor. Hawks conduz um autêntico pandemônio, uma narrativa caótica de situações cada vez mais insanas, onde só o exagero surreal impera, sem nunca tirar o foco dos personagens principais, que estão geniais até no overacting. É, ao mesmo tempo, divertido, engraçado e enervante, tenso… Se eu fosse o personagem de Grant nesse filme, já teria cometido um assassinato.

PARAÍSO INFERNAL (Only Angels Have Wings, 1939)
Merecia um texto maior… Em um porto comercial remoto da América do Sul, o gerente de uma empresa de frete aéreo é forçado a arriscar a vida de seus pilotos para ganhar um contrato importante ao mesmo tempo que uma dançarina americana itinerante para na cidade e balança o seu coração. É como se tudo o que Hawks tivesse feito até este momento da carreira, todos os temas que explorou de forma obsessiva, todos os personagens que criou, todos os diálogos, situações, intrigas, dilemas, TUDO fosse um ensaio pra transcender em PARAÍSO INFERNAL da maneira mais sublime e cristalina possível. É um filme que define toda a obra de Hawks e não teria como ser mais perfeito que isso.

JEJUM DE AMOR (His Girl Friday, 1940)
Adaptação da peça The Front Page, do Ben Hecht, por Howard Hawks. Existem diversas adaptações da coisa, inclusive já havia sido filmado em 1931, por Lewis Milestone. Billy Wilder chegou a fazer nos anos 70, com Lemmon e Matthau e até o Ted Kotcheff fez a sua versão com Burt Reynnolds e Christopher Reeve nos anos 80. Mas diferentemente de todas essas versões Hawks e seus roteiristas trocam o papel do repórter por uma mulher (Rosalind Russell), tornando o “embate” entre ela e seu editor (Grant) muito mais hawksiano. Na trama, uma jornalista ex-esposa do editor de jornal, visita seu escritório para informá-lo de que está noiva e que se casará novamente no dia seguinte. O editor não quer deixar isso acontecer e inicia uma sucessão de loucuras para convencê-la a voltar ao seu antigo emprego como funcionária dele, ou como esposa novamente… O filme não é tão intenso e surreal quanto LEVADA DA BRECA, mas é tão divertido quanto, e possui sua dose de insanidade, diálogos frenéticos se sobrepondo, uma loucura… Grande destaque para Russell, que tá maravilhosa, e Cary Grant, mais uma vez provando que é um gênio da comédia. Um detalhe que acho curioso é que toda a trama girar em torno do sujeito que tá no corredor da morte, enquanto tentam criar notícia em cima disso, o que dá aos personagens um verniz desagradável que a natureza do filme meio que encobre. Na superfície, é uma comédia romântica num universo de jornalistas, mas por baixo esconde algo mais dramático e grave. A cena que uma mulher se joga pela janela é um bom exemplo de como Hawks consegue trabalhar com maestria humor e tragédia ao mesmo tempo.

SARGENTO YORK (Sergeant York, 1941)
Num geral, parece menos uma obra com a assinatura de Hawks e mais um filme de John Ford. O herói Hawksiano morre no anonimato, às vezes em missões suicidas, nos confins de uma floresta na América do Sul. O herói Fordiano que é uma figura mais imponente, alçado ao status de mito histórico da América (os grandes coronéis, Wyatt Earp, Lincoln!, etc…). O protagonista de SARGENTO YORK, pacifista religioso que vira herói de guerra interpretado por Gary Cooper, tá mais pra segunda categoria. Mas isso pouco importa, porque o que temos é um belo filme biográfico, indiscutivelmente um dos mais surpreendentes trabalhos do Hawks em termos visuais e técnicos. Gary Cooper tem um dos melhores desempenhos da carreira e, como sempre, Hawks consegue criar um espetáculo na sequência que se passa no campo de batalha. O roteiro tem vários nomes responsáveis, mas de acordo com Hawks, quem realmente escreveu foi John Huston.

BOLA DE FOGO (Ball of Fire, 1941)
Gary Cooper não era exatamente conhecido por comédias, mas nas mãos de Hawks ele prova que pode nos fazer rir – não no nível de um Cary Grant, mas tudo bem – interpretando um sujeito no meio do caos hawksiano. O roteiro, que teve participação de Billy Wilder, faz uma brincadeira genial com os diálogos e o idioma inglês e coloca Cooper como um jovem professor de gramática que trabalha com um grupo de acadêmicos para criar uma enciclopédia. A confusão começa quando ele se depara com uma cantora de boate tagarela (Barbara Stanwyck) fugindo da polícia por conta do namorado gângster e, ao usá-la para pesquisas das gírias modernas, ele se apaixona por essa distinta senhorita. Pode não ser a melhor comédia de Hawks, mas é bem fácil de agradar. Ajuda muito termos um dos melhores elencos que Hawks já reuniu, a química entre os dois protagonistas e a direção magistral de Hawks.

AIR FORCE (1943)
Como entusiasta da aviação, Hawks acabou realizando algumas coisas relacionadas ao tema, o que inclui alguns de seus melhores trabalhos, como THE DAWN PATROL, que já comentei aqui no blog, e a obra-prima suprema PARAÍSO INFERNAL ali em cima. E também este petardo aqui, menos conhecido, que se passa na Segunda Guerra Mundial e se concentra na tripulação de um bombardeiro que chega ao Havaí no momento em que o ataque a Pearl Harbor está acontecendo.

Muita coisa a se destacar por aqui, as sequências dentro do avião são as melhores, seja com a tripulação jogando conversa fora, numa naturalidade pouco convencional pra época, seja em sequências de batalhas angustiantes que até hoje impressionam (e que provavelmente influenciaram George Lucas na hora de filmar algumas sequências de STAR WARS). O filme não tem nenhum grande astro – apesar de ótimos atores, como John Garfield, Gig Young, o velho Harry Carey – e nenhum personagem se sobressai demais, o que torna isso aqui um exemplar clássico do “filme de grupo hawksiano”. Vencedor do Oscar de edição.

UMA AVENTURA NA MARTINICA (To have and Have Not, 1944)
“Posso fazer um filme com o pior livro que você já escreveu”, disse Hawks ao próprio Ernest Hemingway, quando comprou os direitos pra produzir isto aqui. E fez realmente um trabalho belíssimo. Na trama, o capitão de um barco de frete da Martinica se envolve com agentes clandestinos da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial e também com uma mulher misteriosa que aparece no local. Para além de ser lembrado principalmente pelo romance real e fumegante que rolou entre Bogart e Bacall (ambos sublimes aqui), o filme acaba sendo um thriller em tempos de guerra dos mais divertidos do diretor. Eu já tinha visto a versão que o Don Siegel fez dessa mesma história, estrelada pelo Audie Murphy, e que é um dos mais fracos do Siegel. Cheguei a comentar aqui no blog há alguns anos. Não preciso nem dizer o quanto esta versão do Hawks é melhor…

Ah, e Walter Brennan, na sua quarta colaboração com Hawks, tá genial como sempre.

À BEIRA DO ABISMO (The Big Sleep, 1946)
Seguindo o sucesso de UMA AVENTURA NA MARTINICA, Hawks se reuniu novamente com o casal Bogart e Bacall para criar um dos filmes definitivos do cinema noir. Bogart é o detetive particular Phillip Marlowe que se envolve em uma teia de chantagem e assassinato difícil de descrever… Já se tornou um clássico à parte a histórias de que Hawks se viu obrigado a ligar para o próprio autor do romance que deu origem, Raymond Chandler, para perguntar sobre algum ponto-chave da trama e o autor também não fazer a menor ideia de como responder. Mas isso acaba não importando muito de tão imerso que ficamos durante a investigação de Marlowe, sua atitude cínica e espertinha, e claro no romance entre ele e a personagem de Bacall. Um Hawks obrigatório, nota-se sua importância e influência, apesar de nesta revisão eu perceber como não tá entre os meus favoritos do diretor. Não é culpa do filme, que é uma maravilha, mas o Hawks é que tem várias obras-primas à frente…

RIO VERMELHO (Red River, 1948)
De alguma forma, BARBARY COAST, como disse em outro post, é o primeiro faroeste de Hawks, apesar de pouco convencional na iconografia e ambientação. O sujeito só faria um western puro mesmo aqui em RIO VERMELHO. Gênero que ele demorou mais de duas décadas para adentrar e acabou se destacando no restante da carreira. John Wayne, trabalhando com Hawks pela primeira vez, usa maquiagem pesada e tem aqui uma de suas melhores atuações da vida como Tom Dunson, um fazendeiro obstinado que luta com seu filho adotivo, Matt Garth (Montgomery Clift) e seus subordinados durante uma viagem de transporte de gado. O comportamento tirânico de Tom leva a um motim e uma amarga rivalidade entre ele e o filho. É aquela coisa, no universo hawksiano, é o grupo que importa. O personagem de Wayne tentou quebrar essa regra e se ferrou…

A construção que Wayne faz de seu personagem é tão profunda, um processo de transformação de herói à vilão tão genial, que depois de ver o seu desempenho, John Ford chegou a dizer “I never knew the big son of a bitch could act.”

O filme é lembrado também pelo notável subtexto gay entre Matt e o caubói Cherry Valance (John Ireland). “There are only two things more beautiful than a good gun”, diz Cherry para Matt, “a Swiss watch or a woman from anywhere. Ever had a good… Swiss watch?”

Um filme mais emocional e psicologicamente complexo do que a média dos westerns realizados no período. Um clássico absoluto e provavelmente a obra-prima máxima de Hawks. É outro filme que eu gostaria de escrever mais, mas acho que nem tenho capacidade de externar toda minha admiração.

A CANÇÃO PROMETIDA (A Song is Born, 1949)
Remake “copia e cola” de BOLA DE FOGO, que o próprio Hawks tinha feito sete anos antes, reformulado como um musical, substituindo os acadêmicos compiladores de enciclopédia por professores de música. A ideia é muito boa e os números musicais são ótimos (tem participação até de Louis Armstrong) e obviamente não deixa de ser divertido. O material original de Billy Wilder é bem fácil de agradar. Mas lá pelas tantas já tinha perdido o interesse… Não sei se porque revi BOLA DE FOGO há pouco tempo, ou se é perceptível que Hawks não tava muito inspirado, refazendo os mesmos enquadramentos, as mesmas situações, os mesmos diálogos, tudo de novo com outros atores… E convenhamos que Danny Keye e Viriginia Mayo não são Gary Cooper e Barbara Stanwyck. Mas ainda assim vale a pena. Nem que seja pra ver as primeiras cores do cinema de Hawks.

A NOIVA ERA ELE (I Was a Male War Bride, 1949)
Antes de QUANTO MAIS QUENTE MELHOR, de Billy Wilder, Hawks fez esse clássico crossdressing com Cary Grant. Ele vive um capitão do exército francês que se casa com uma tenente americana (Ann Sheridan) na Alemanha pós-Segunda Guerra Mundial. Quando tentam embarcar para os Estados Unidos, descobrem que ele deve acompanhá-la sob os termos do War Bride Act, ou seja, como a “esposa” dela, fazendo com que, em determinado momento, Grant tenha que usar uma peruca, saia e voz em falsete. Grant pode não ser muito convincente como francês ou como mulher, mas é justamente por isso que é hilário, enquanto Hawks prova mais uma vez por que foi um dos principais mestres da Screwball comedy.

E por hoje chega.

DJANGO (1966)

PRIMEIRO, quero agradecer imensamente aos que já começaram a contribuir com o blog no apoia-se. Vocês são demais e em breve prometo novidades exclusivas pra vocês. Quem ainda não apoia, infomações no fim do texto.


Nem me lembro qual foi a última vez que postei sobre Spaghetti Western aqui no blog, algo que já me foi cobrado algumas vezes. Já que no último fim de semana eu acabei revendo um dos primeiros filmes que me apresentou ao gênero, aqui vamos nós. Quiçá foi o primeiro mesmo… Já não me lembro. Era muito moleque quando meu pai colocou no VHS um tal DJANGO (1966), de um tal Sergio Corbucci, estrelado por um tal Franco Nero, e desde então fiquei fascinado pelo “bang bang à italiana“. Embora eu nem tivesse consciência desses nomes ou de onde vinham essas produções…

hoje já dá pra perceber algumas coisas. Como, por exemplo, a influência de POR UM PUNHADO DE DÓLARES (1964), de Sergio Leone, que pode ser sentida em DJANGO, mas ao mesmo tempo, depois de ver um bocado de faroestes do tipo, acho que ambos os filmes precisam ser colocados em pé de igualdade no que se refere a sua representatividade no Spaghetti Western.

Sabemos que o filme de Leone não foi o primeiro exemplar do gênero, mas é considerado o produto seminal do ciclo e Corbucci claramente prestou atenção no estilo exagerado, no cinismo, o revisionismo e anti-heroísmo mítico do western de Leone. Só que ele pegou tudo isso e elevou ao extremo. Se a paisagem vista em POR UM PUNHADO DE DÓLARES estava empoeirada e suja, então a paisagem em DJANGO tinha que ser um lamaçal desgraçado. Se POR UM PUNHADO DE DÓLARES era pessimista, DJANGO era niilista. E por aí vai…

O que se seguiu a partir daqui é notório, é só procurar quantos spin-offs não oficiais que o personagem título teve nos anos seguintes, quantas produções mudando seus títulos para encaixar o nome “Django” e aproveitar o sucesso do filme de Corbucci… Enfim, POR UM PUNHADO DE DÓLARES é um filme seminal, sim senhor, mas acredito que DJANGO exerceu tanta, ou até mais, influência nos westerns europeus que o filme de Leone.

DJANGO já começa mostrando suas intenções excêntricas na sequência dos créditos iniciais, apresentando essa figura de preto, vista de costas, puxando um caixão por uma paisagem inóspita, pelo terreno lamacento, cheio de obstáculos para esse sujeito que sequer possui um cavalo. E o olhar do diretor de fotografia, e também cineasta, Enzo Barboni, impregna as locações com uma desolação ameaçadora. Algo que se mantém até o fim. A coisa é atenuada, no entanto, pela beleza da inesquecível música-tema do argentino Luis Enríquez Bacalov. “Djangoooooo! Django, have you always been alone? Djangoooooo! Django, have you never loved again?…“. Um dos maiores clássicos entre as trilhas sonoras do western europeu e que gruda fácil nos ouvidos. Há dias me pego cantarolando essa merda…

A primeira indicação das habilidades quase sobrenaturais de Django em manusear um revólver é quando ele salva Maria (Loredana Nusciak), logo no começo do filme, de ser queimada viva por um grupo de assassinos de capuz vermelho a serviço do Major Jackson (Eduardo Fajardo). Mas é preciso notar que enquanto Django age com o habitual sangue-frio na eliminação dos homens de Jackson, ele fica parado olhando à distância, poucos minutos antes, Maria sendo açoitada por um trio de mexicanos.

Isso nos dá algumas indicações da atitude duvidosa de Django. Em certo momento ele deixa claro para a grata Maria que suas ações foram totalmente egoístas, o que reverbera nas suas concepções de moralidade, ideais e crenças ao longo do filme. É uma figura um tanto contraditória esse Django. Sua busca é puramente de vingança, mas isso não o impede, por exemplo, de tentar enriquecer roubando o ouro dos mexicanos que ele havia ajudado a saquear. Não sabemos muito bem o que esperar de Django. O que o torna ainda mais fascinante…

O roteiro de Sergio e Bruno Corbucci também é evasivo em relação ao passado de Django. Ele lutou na Guerra Civil, fato que permanece uma espécie de pano de fundo vago, nunca referido pelo protagonista. Além de um certo histórico com o lider dos revolucionários mexicanos, o General Hugo, vivido por José Bódalo. O desempenho de Franco Nero, com semblante inexpressivo na maior parte do tempo, contribui pra isso.

Os outros personagens do filme possuem menos desenvolvimento ainda. O Major Jackson, por exemplo. Sabemos que ele que matou a mulher de Django. E só. O filme não tem muitos detalhes a oferecer. De resto, Jackson é apenas o malvado sádico da trama, que comanda um bando que utiliza capuzes vermelhos, uma clara alusão à KKK. Enfim, um racista que pratica tiro ao alvo com camponeses mexicanos, numa sequência emblemática, que contribui para a alegoria política do filme. E é suficiente, não precisamos muito de substância para acompanhar os personagens desse universo.

Uma coisa que eu não lembrava, e que me surpreendeu, é uma quantidade incomum de violência e a alta contagem de corpos. Claro, um dos momentos mais marcantes e que eu nunca esqueci é a clássica sequência que mostra Django abrindo seu caixão para revelar uma metralhadora, com a qual ele literalmente elimina um exército dos homens de Jackson em meio à lama e à decadência de uma cidade fronteiriça sem nome. Mas o que me chama a atenção é que o clima de uma violência latente permanece durante todo o filme. Há uma cena que um padre tem sua orelha cortada e logo depois a enfiam na sua boca; Django tem suas mãos quebradas por tentar roubar o ouro dos mexicanos e o aspecto delas é bem gráfico, as mãos de Django devem ter levantado algumas sombrancelhas em 1966…

Embora o filme, de uma forma superficial, também tome emprestado o alguns princípios básicos do plot de YOJIMBO (1961), outra relação que possui com POR PUNHADO DE DÓLARES, que é uma refilmagem do filme de Kurosawa, no qual um homem chega a uma cidade e se encontra no centro de duas facções rivais, Corbucci não leva isso muito adiante. Sempre fica bem claro que Django tem como alvo o Major Jackson. E a cidade que serve de cenário a esses eventos é um espaço notavelmente desesperado e desolado; é habitada quase exclusivamente por prostitutas, e elas estão tão decadentes quanto as vigas podres do edifício do salão. Um cenário apropriado para essa figura enigmática e mítica que é Django. Seu coração sombrio, que bate apenas para se vingar do assassino de sua esposa, combina com o cinismo áspero que se esconde em cada canto deste mundo perverso.

É como se o velho oeste de Corbucci não fosse a terra da promessa ou de novos futuros, mas o fim da linha para pessoas que não têm outro lugar para ir. E DJANGO é um filme que não contém esperança alguma. E talvez seja a sua grande contribuição para a humanidade, ou pelo menos como influência no Spaghetti Western. E é inteiramente apropriado que o filme termine em um cemitério, com Django alcançando aquilo para que vive.


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OS PROFISSIONAIS (1966)

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O diretor Richard Brooks vinha de um fracasso com sua adaptação de Joseph Conrad, LORD JIM, de 1965, e resolveu não correr muitos riscos no seu projeto seguinte. Embora o western na sua forma clássica estivesse em relativo declínio, estava na moda em meados dos anos 60 reunir astros de grande calibre para dividirem às telas em épicas aventuras. Dos filmes de guerra, como FUGA DO INFERNO, passando pelos “Men in a Mission“, como OS CANHÕES DE NAVARONE, até os faroestes, especialmente com SETE HOMENS E UM DESTINO, a ideia de aglomerar atores de peso poderia garantir o sucesso de uma produção. E foi exatamente isso que Brooks resolveu fazer por aqui, em OS PROFISSIONAIS (The Profissionals), um western de aventura que reuniu Lee Marvin, Burt Lancaster, Robert Ryan e Woody Strode na missão de resgatar Claudia Cardinale de um revolucinário mexicano vivido por Jack Palance e seu exército.

Sim, é como se fosse uma versão dos anos 60 de OS MERCENÁRIOS. E se você olhar para este elenco e não sentir a mínima vontade de ver OS PROFISSIONAIS, você deve ter sérios problemas… Melhor ir assistir um Wong Kar Wai ou Apichatpong Weerasethakul…

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Enfim, revi OS PROFISSIONAIS esta semana e continua um dos meus westerns favoritos dessa época, ficando ali meio intermediário entre a aventura divertida na tradição de SETE HOMENS E UM DESTINO ao mesmo tempo que possui uma densidade revisionista pré-MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, que foi quando Sam Peckinpah redefiniu de vez o gênero nos EUA (algo que já vinha acontecendo gradualmente, em especial com os faroestes de Monte Hellman com Jack Nicholson, DISPARO PARA MATAR e A VINGANÇA DE UM PISTOLEIRO).

A premissa de OS PROFISSIONAIS é estruturada de maneira clássica e bastante simples. Um magnata do Texas contrata quatro experientes mercenários, cada um com uma característica especializada específica, para resgatar sua esposa sequestrada por um revolucionário mexicano, que a mantém do outro lado da fronteira. Lee Marvin vai interpretar o líder do grupo, o estrategista e especialista em armas. Burt Lancaster é experiente no manuseio de explosivos. E aqui estamos falando tanto de dinamites quanto de uma mulher fogosa (a cena que apresenta o personagem é impagável nesse sentido). Woody Strode é um atirador virtuoso com seu arco e flechas e um ótimo rastreador. E Robert Ryan é o especialista em cavalos e a consciência moral da equipe.

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Apresentados os personagens e a missão, os quatro sujeitos partem para o México numa jornada cheia de perigos num cenário de desertos e os estreitos montanhosos da região. Brooks mantém o ritmo e a ação firme para deixar as coisas mais animadas. A sequência do resgate da moça, especificamente, é um espetáculo à parte, com Woody Strode atirando flechas explosivas. Enfim, a sequência é um prodígio de pirotecnia. Depois vem a peregrinação de volta para os EUA em meio a uma reviravolta que coloca uma grande interrogação na cabeça dos nossos heróis… Considerando o contexto e o período no qual OS PROFISSIONAIS foi feito, fica óbvio o subtexto sobre a guerra do Vietnã: uma unidade de combate selecionada enviada para outro país por razões problemáticas questionando seus motivos.

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Embora seja evidente que os protagonistas da trama sejam Marvin e Lancaster, os únicos que possuem um pano de fundo, um histórico que envolve outras lutas armadas durante a revolução mexicana, é preciso destacar como Woody Strode recebe igual importância no grupo, o que já é notável para um ator negro da época no meio do elenco formado por brancos em uma produção de grande estúdio. O mesmo não dá pra dizer sobre a equipe de marketing da Columbia, que não colocou seu nome nas artes de divulgação do filme…

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O restante do elenco é fenomenal. Jack Palance, como já mencionei, surge em cena como um mexicano, queimado de sol e bigodudo. E está incrível como sempre. Eleva o seu personagem imbuindo-o de dignidade, evitando qualquer clichê maniqueista óbvio. O dramático reencontro entre Lancaster e Palance, depois de um longo tiroteio para atrasar o bando do mexicano, um jogo de gato e rato entre as rochas que é um dos grandes momentos do filme, demonstra porque Palance (e Lancaster, numa performance física impressionante) foi um dos maiores de todos os tempos. Cardinale é outro caso interessante. Sua beleza descomunal chama a atenção, mas Brooks não a utiliza como mero colírio sexual (embora haja umas ceninhas bem calientes pra época). Sua personagem é provavelmente a mais forte do filme, lutando pelo homem que ama e pela causa em que acredita. E o rico rancheiro que financia a missão é retratado perversamente por Ralph Bellamy.

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A direção de Brooks não chega nem a ser um primor, mas é de uma competencia, de uma secura, coerente com o material que filma e com a jornada desses indivíduos. Com bom senso de tensão e aventura. Não é a toa que o sujeito foi indicado ao Oscar de melhor diretor naquele ano (e também de roteiro). Adiciona-se ainda a luxuosa fotografia de Conrad Hall (que também foi indicado por seu trabalho), a trilha sonora de Maurice Jarre, uma tonelada de diálogos incríveis e OS PROFISSIONAIS se torna um filme que eu admiro cada vez mais sempre que revejo.

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Uma curiosidade: na época do lançamento, o sucesso do filme levou o estúdio a considerar uma sequência, mas com a condição de que todos os quatro atores principais estivessem envolvidos. Não queria correr riscos por causa do fiasco em torno da sequência de SETE HOMENS E UM DESTINO, no qual apenas Yul Brynner havia retornado. No entanto, durante muito tempo a agenda dos atores nunca batia para que a coisa acontecesse… Quando finalmente as agendas casaram, a saúde de Robert Ryan (devido ao câncer de pulmão) tornou impossível pra ele realizar o trabalho físico necessário para o filme. Após sua morte em 1973, qualquer plano para uma sequência de OS PROFISSIONAIS foi descartado.

O ESTRANHO SEM NOME (1973)

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O estranho do título nacional pode ser apenas um homem, um cowboy em busca de vingança, mas pode ser também um fantasma ou um ser demoníaco enviado para decretar a condenação de uma cidade. Como tal, O ESTRANHO SEM NOME (High Plains Drifter), segundo trabalho de Clint Eastwood como diretor, reflete a obscuridade e a paranóia da corrupção e complacência da América dos anos 70. O filme tem um tom niilista comparável a OS IMPERDOÁVEIS, que Clint ainda viria a fazer, mas mesmo neste havia muito mais homens decentes do que em O ESTRANHO SEM NOME.

A trama parece se passar em um plano totalmente diferente da realidade, como um purgatório, numa pequena cidade onde a maioria das pessoas perdeu a alma há muito tempo. O forasteiro chega para mudar algumas coisas, não sabemos de onde vem, para onde vai, porque apareceu por ali. Acaba contratado para proteger a cidade de três bandidos que acabaram de sair da prisão e que provavelmente retornarão ao local para se vingar daqueles que os colocaram no xadrez. O estranho aceita a missão e, em determinado momento, literalmente muda o nome da cidade para Hell (inferno), o que é bem mais apropriado.

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Difícil classificar o personagem de Clint, um herói ultra-antipático que em menos de dez minutos de filme limpa a cidade dos mal encarados à base de chumbo grosso para logo em seguida estuprar a primeira mulher que aparece em seu caminho. Obra grandiosa como quase todos os trabalhos de Eastwood, mas talvez seja um dos mais desagradáveis. Até porque demora um pouco para juntar todas as peças do quebra-cabeça e entender as motivações do personagem. Até então, impera uma moralidade ambígua. Quando revelado, faz desse “estranho” um dos personagens mais fortes e míticos das planícies do Western americano.

Enquanto isso, em sua jornada de vingança o estranho faz os cidadãos sofrerem vários tipos de humilhação, culpados pelo massacre de um homem que era apenas um grão de areia nos interesses econômicos dos poderosos da cidade. Sobretudo, é pela covardia de todos que se vêem condenados: como é possível deixar um homem morrer diante de seus olhos apenas porque os poderosos assim decidiram? É um filme altamente político, que aponta para a responsabilidade de cada cidadão em suas escolhas e, acima de tudo – mais forte – em sua não-escolha, em sua inação.

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Visualmente, O ESTRANHO SEM NOME também está repleto de ideias expressivas, como a cidade renomeada Inferno inteiramente pintada de vermelho… E no climax, a visão de Eastwood em uma noite iluminada pelo o fogo do inferno chicoteando seus adversários permanece gravado na memória. No fim das contas, o filme oferece tudo aquilo que esperamos de um Western de Clint Eastwood, apesar dele não estar tão interessado em emoções convencionais. Mostra também que Clint aprendeu direitinho os truques de um de seus mentores, Sergio Leone. Só que os subverte de maneira diabólica e alegórica.

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No elenco temos Verna Bloom, Billy Curtis como o simpático anão Mordecai, Geoffrey Lewis e Mitchell Ryan entre os destaques.

EMBRUTECIDO PELA VIOLÊNCIA (1951)

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O jovem Kirk Douglas em início de carreira parecia um ator esforçado. Aprendeu a lutar boxe para o seu papel em O INVENCÍVEL (1949), de Mark Robson, e teve intensas aulas de instrumentos de sopro para dar veracidade como trompetista em ÊXITO FUGAZ (1950), de Michael Curtiz. Para EMBRUTECIDOS PELA VIOLÊNCIA (Along the Great Divide), Douglas teve que aprender a montar num cavalo e a lidar com um revolver de seis balas, e contou com a ajuda do veterano diretor de ação e aventura Raoul Walsh, para lhe mostrar como se faz. O filme é a estreia de Douglas no Western, gênero do qual o sujeito dedicaria uma boa parte da carreira (dezenove filmes).

Douglas aparece em EMBRUTECIDOS PELA VIOLÊNCIA como um Marshal recém-eleito, chamado Len Merrick. Durante seu trajeto para assumir o posto, na companhia de seus dois ajudantes policiais, Merrick impede um grupo de linchar o velho Keith, vivido pelo grande Walter Brennan, a quem o fazendeiro Ed Roden (Morris Ankrum) acredita ser o assassino de seu filho. Merrick e seus policiais levam o Keith em custódia. Se o prisioneiro é ou não inocente, se ele será condenado à morte ou não, é de pouca importância para Merrick, que vive sob o código da lei. Desde que a lei tenha uma palavra a dizer e a sentença seja aplicada de acordo com o veredito do júri, o sujeito tem a consciência tranquila de dever cumprido.

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Mas aí começam a transportar Keith por quilômetros e quilômetros até a cidade de Santa Loma, onde o velho será julgado. O filme é, em grande parte, sobre o que acontece ao longo do caminho. E como sabemos, uma longa jornada pode mudar a natureza de um homem. Especialmente se uma mulher estiver no meio, como é caso de Ann (Virginia Mayo), filha de Keith, que insiste em acompanhá-los. Durante a viagem, além de constantes trocas de tiros com os homens de Roden, que querem o velho morto de qualquer jeito, é revelado também o lado frágil de Merrick, traumatizado e cercado de medos por conta da morte de seu próprio pai, também um Marshal, e que teria sido causado por ele.

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Com isso, EMBRUTECIDOS PELA VIOLÊNCIA fecha uma espécie de trilogia da “psicologia no western” do diretor Raoul Walsh, que começa com SUA ÚNICA SAÍDA (1947) e continua em GOLPE DE MISERICÓRDIA (1949). Mas apesar desse estudo mais profundo das emoções humanas, em nenhum momento o filme se torna uma tese séria sobre o assunto. Walsh se interessa mesmo é pela forma, pela imagem, pela fotografia em preto-e-branco expressionista de Sidney Hickox, o colaborador habitual de Walsh, que é realmente extraordinária, seja nas locações ao ar livre ou no estúdio. Já com os atores, o que parece ecoar sobre as filmagens é que Walsh teria perdido o interesse pelo projeto durante a realização e deixava de lado inclusive páginas inteiras de diálogos do roteiros.

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O bom é que com Kirk Douglas, Walter Brennan e Virginia Mayo não tem erro, basta ligar a câmera e deixá-los trabalhar, especialmente quando Douglas e Mayo se afastam dos demais e dão origem a algumas sequências com alto potencial erótico para o período. Douglas ainda não havia despontado como um dos maiores atores de todos os tempos na época de EMBRUTECIDOS PELA VIOLÊNCIA, mas já dava demonstrações consideráveis disso, com um carisma extraordinário e exalando uma tremenda força física como herói. John Agar, James Anderson e Ray Teal são outros atores que merecem destaque por aqui. Quanto à encenação da ação, Walsh é sempre de uma eficiência notável quando se trata dos tiroteios, perseguições, do deslocamento dos personagens no espaço, da arquitetura da iconografia do western.

EMBRUTECIDOS PELA VIOLÊNCIA foi lançado recentemente pela Classicline em DVD, oferecendo sua qualidade habitual, preservando o ‘aspect ratio’ original. Uma bela maneira de redescobrir este clássico do faroeste americano que merece um lugar na coleção, para ver e rever e rever…

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Texto originalmente escrito e publicado no blog Vá e Veja.

TERRA DO INFERNO (MAN IN THE SADDLE, 1951)

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Uma das parcerias mais interessantes da história do western americano é a do diretor Budd Boetticher com o ator Randolph Scott, que resultou em sete faroestes notáveis em meados dos anos 50. Só que outro grande mestre do gênero já tinha usado os serviços de Scott antes de Boetticher em seis westerns na primeira metade da mesma década. Estamos falando de ninguém menos que André de Toth, um dos pilares do cinema físico e casca grossa do período. E tudo começou aqui, em TERRA DO INFERNO.

A diferença entre os filmes estrelados por Randolph Scott dirigidos por De Toth e os realizados por Boetticher (para além de serem pequenos faroestes de curta duração, mas de grande eficiência cinematográfica) é basicamente a articulação psicológica explorada por Boetticher, que era mais preocupado com uma ordem existencialista na jornada de seu protagonista do que com as consequências físicas. Pode parecer repetitivo, mas em cada filme de Boetticher, os personagens de Randolph Scott carregavam um mundo de nuances trágicas, dramáticas e de características distintas entre si. Enquanto De Toth parece mais preocupado com a parte prática, com a ação dos corpos no espaço, e em usar Scott como figura mitológica do gênero.

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Mesmo que em TERRA DO INFERNO haja um cuidado na construção do protagonista – Owen Merrit (Scott), um pequeno fazendeiro taciturno, daqueles cuja face sublima um ideal moral e de caráter inabalável, numa típica trama de faroeste, na qual é assediado por seu poderoso vizinho (Alexander Knox) a vender-lhes as suas terras – o que realmente importa ao De Toth, no fim das contas, é a aventura, as perseguições, as brigas e os tiroteios.

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Uma das ideias de gerar um conflito psicológico é o fato do grande amor de Merrit, Laurie (Joan Leslie), ter sido consumida pela ambição e se casado com o adversário do herói. Em determinado momento, ela percebe o homem mau por trás daquele indivíduo que chama de marido. Mas enquanto isso, em meio a atentados a balas e perseguições, Merrit conta com a ajuda da melhor amiga de Laurie, Nam (Ellen Drew), por quem acaba se apaixonando. Mas são situações que seriam melhor exploradas por um Boetticher, Anthony Mann e Delmer Daves. Por aqui, ficam relegadas ao segundo plano.

No fim das contas, TERRA DO INFERNO é um faroeste bem feijão com arroz. Um filme simples, sem nenhuma novidade dentro de um dos gêneros mais prolíficos do cinema americano do período. Mas que acaba encantando por outros meios. E aí entra a maestria de De Toth. Visualmente, o filme é um deslumbre e nunca soa genérico num sentido estético, com suas cores estourando num belíssimo Technicolor. O sujeito só coloca a câmera onde ela é absolutamente necessária para compor planos que celebram a iconografia do western, com consciência de artesão dos mais talentosos em relação ao material que tem em mãos; e procura sempre manter as coisas em movimento, num ritmo de aventura bom de acompanhar.

Sequências como a luta na cabana nas montanhas (vídeo acima), que é destruída gradualmente, enquanto os personagens trocam socos e derrubam pilastras, ou o engenhoso tiroteio final, cuja ventania violenta é uma boa sacada dramática e visual, são momentos antológicos. O elenco conta ainda com a participação do grande Cameron Mitchell, John Russell e do cantor Tennessee Ernie Ford, em estreia no cinema e empresta a sua voz para entoar a bela canção tema do longa.

TERRA DO INFERNO está disponível em DVD pela Classicline, que lançou o filme com uma excelente qualidade de imagem, preservando o ‘aspect ratio’ original e a opção de ser assistido com legendas em português ou uma antiga dublagem remasterizada, para a felicidade dos nostálgicos. A edição encontra-se à venda na loja virtual da própria distribuidora ou nas demais lojas de sua preferência.

Texto escrito originalmente para o Action News.

O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES (1987); CPC UMES FILMES

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Pode parecer incomum, mas existe um gênero chamado Red Western, formado por produções que recriam o velho oeste americano sob uma visão, e até uma ideologia, do bloco oriental, especialmente a União Soviética. Não sou lá grande especialista no assunto e vi pouquíssimos exemplares, mas recentemente a CPC UMES Filmes lançou o que, definitivamente, deve ser um dos melhores Red WesternO HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES, da diretora ucraniana Alla Surikova. Na verdade, trata-se mais de uma sátira ao mito do western, com toda a sua iconografia e bagagem de gênero mais cinematográfico da sétima arte, servindo como moldura e pretexto para uma bela homenagem ao próprio cinema.

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Um projecionista, chamado Mr.First, chega a uma pequena cidade do Oeste selvagem e traz consigo um primitivo projetor com várias bobinas dos primeiros filmes da história do cinema. Todas as noites, ele faz uma sessão no bar local, o que surte um grande efeito nos caubóis. Logo na primeira dessas sessões, O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES recria o famoso relato dos espectadores que viram pela primeira vez a imagem do trem chegando à estação, no filme dos irmãos Lumière, projetado no Salão Indiano do Grand Café do Boulevard des Capucines, de onde título deste aqui faz uma alusão, e no qual, segundo consta a história, teria sido caótico, com as pessoas se levantando das cadeiras, assustadas, achando que seriam atropelados pelo trem da tela…

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Aqui os personagens recebem essas imagens com chumbo grosso, fazendo vários buracos no lençol branco pendurado na parede do saloon… Mas à medida que as sessões vão acontecendo, seus comportamentos vão mudando. Eles param de brigar um com os outros, começam a falar mais educadamente e se portar com cavalheirismo; e ao invés de doses de whisky, começam a encher a cara com leite…

Obviamente é uma ideia um tanto ingênua essa de O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES  na sua análise sobre a influência do cinema no comportamento humano, no seu poder de transformação através das imagens. Mas não deixa de funcionar como fábula auto-reflexiva nesse sentido. E, além disso, desde o início o filme estabelece claramente suas intenções satíricas, com números musicais e um humor que beira ao pastelão em alguns momentos, e não uma tese acadêmica sobre o assunto. Importa muito a diversão, as sequências e gags que surgem em consequência dessa ideia de levar o cinema a um tempo e lugar remoto, em um universo tão inerente à sétima arte como o velho oeste; e, claro, a ideia da primeira experiência cinematográfica, como o indivíduo é afetado por imagens em movimento projetadas num lençol branco na parede.

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Algumas sequências são memoráveis e afirmam a vitalidade da diretora Surikova na realização. O bar local sendo completamente destruído numa típica e exagerada briga de saloon e, logo depois, os próprios brigões põem-se a trabalhar para consertar o estrago; os trechos em que o pastor da igreja e o dono saloon põem em prática seus planos diabólicos para acabar com as sessões de cinema (ambos representando repartições do sistema que gostam de cagar regra na cultura da sociedade: igreja e capitalistas); ou o épico tiroteio, com balas que não machucam ninguém, mas muito bem coreografado,  quando um bando de índios invade a cidade querendo participar das projeções; mas o simples fato do filme possuir essa ótica soviética de um universo tão ocidental, tão americano, com personagens ultra estereotipados do velho oeste – e a esquisitice de vê-los falando em russo – já seria suficiente para tornar O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES um exemplar notável do cinema soviético.

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Como já disse antes, O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES foi lançado em DVD no Brasil recentemente pela CPC UMES Filmes, e é uma dessas pérolas do cinema mundial que merece ser redescoberto (foi um grande sucesso na Russia, na época de seu laçamento, mas hoje anda esquecido). Merece também um lugar na prateleira e pode ser adquirido na loja virtual da distribuidora. E não deixe de curtir a página da CPC UMES FILMES no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

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RIO GRANDE (1950)

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RIO GRANDE fecha a “Trilogia da Cavalaria” de John Ford, formada por outros dois filmes que já comentei por aqui: SANGUE DE HERÓIS (1948) e LEGIÃO INVENCÍVEL (1949). Todos estrelados por John Wayne. Aliás, Wayne reprisa o mesmo personagem do filme de 48, Kirby York, um tenente da cavalaria dos Estados Unidos, que dirige um posto na luta contra os Apaches ao redor do Rio Grande, que faz a fronteira entre EUA e México.

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Em meio às tensões da guerra contra os índios, o filho de York de 16 anos, Jeff, o qual ele não via desde que era um bebê, aparece no posto como um dos novos recrutas. O que dá uma balançada no duro coração do sujeito, dividido entre a devoção e o dever de um Tenente e o desejo proibido de se reaproximar do filho. E as coisas ficam ainda mais complicadas quando a ex-mulher de York, Kathleen (Maureen O’hara), retorna para levar seu filho para casa.

O argumento de RIO GRANDE é muitas vezes apontado como uma metáfora do conflito na Coreia que rolava na época (Ford até viria a fazer um documentário sobre o tema pouco depois, chamado THIS IS KOREA!) e acaba sendo, dos filmes da trilogia, o que lida mais diretamente com a ação, com sequências de batalhas, ataques dos índios, no tom de aventura e diversão.

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As sequências do ataque noturno ao acampamento e, depois, à caravana são desses momentos primorosos que demonstram a genialidade de Ford em filmar cenas de ação. Mas assim como os filmes anteriores (na verdade, toda a filmografia de Ford), a ação acaba sendo bem menos importante do que outras possibilidades que parecem interessar ao diretor, como a relação de York com seu filho e principalmente de York com sua ex-mulher, um retrato maduro de um casal que se ama em silêncio, mas que já não pode viver sua união.

E aí Ford deita e rola nessa situação, com alguns dos momentos mais tocantes do filme. Gosto especialmente da sequência da serenata, os soldados cantando “I Will Take You Home, Kathleen“… de deixar qualquer um marmanjo com os olhos marejados. Ou a cena em que York lasca um beijo desajeitado em Kathleen dentro de sua tenda, e logo depois pede desculpas…

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Alguns personagens secundários também se destacam, como Tyree, vivido por Ben Johnson, um procurado pelos xerifes da região que acabou se alistando, mas por ser um ás na montaria e com um revolver na mão, acaba ganhando as graças de York. E quando o sujeito salva Jeff das mãos dos índios, abatendo três de forma ágil, percebe-se que o sujeito não tá para brincadeiras. É um dos pontos altos das sequências de ação em RIO GRANDE. No elenco, ainda temos Harry Carey Jr. e o habitual colaborador de Ford, Victor McLaglen, sempre fazendo o alívio cômico.

A fotografia que retorna ao preto e branco por aqui – depois de Ford realizar uma pintura cromática em LEGIÃO INVENCÍVEL – é tão bela quanto a de SANGUE DE HERÓIS e reforça as palavras do crítico de cinema Tag Gallagher, talvez o maior especialista em Ford, de que RIO GRANDE seja o básico do básico do diretor – tão óbvio tecnicamente, mas tão bem sucedido, tão essencial dentro de uma filmografia autoral como a de Ford, que talvez seja um dos melhores exemplares de inicialização, ou seja, para ter um contato inicial com a obra do diretor.

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RIO GRANDE está disponível no Brasil em DVD pela Classicline.

SANGUE DE HERÓIS (Fort Apache, 1948); Classicline

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SANGUE DE HERÓIS é o primeiro filme da “trilogia da cavalaria” de John Ford – o segundo eu já comentei por aqui, LEGIÃO INVENCÍVEL – e é mais um dos grandes westerns do diretor e que veio em boa hora na sua carreira. Ford vinha de um desastre comercial com o belíssimo DOMÍNIO DOS BÁRBAROS, um de seus filmes mais intimistas, mas que o público não recebeu muito bem, e precisava agora desesperadamente de algum material que fosse resultar num sucesso comercial. E foi SANGUE DE HERÓIS que colocou Ford de volta ao topo.

Na trama, o tenente-coronel Owen Thursday (Henry Fonda) é um ilustre oficial da Guerra Civil que acaba tendo que assumir um posto em tempos de paz que não é lá muito da sua vontade. Para ser sincero, Thursday considera sua nomeação como o novo oficial comandante do Fort Apache, no Território do Arizona, como um insulto e deixa isso bem claro à todos ao seu redor.

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O território vive em problemas com os Apaches, cujo líder, Cochise, desenterrou a machadinha de guerra e leva seus guerreiros ao longo da fronteira com o México em protesto contra a corrupção de um agente indígena local que está mais interessado em vender uísque do que cobertores e comida decente. Como Thursday está ansioso para encontrar alguma maneira de conquistar a glória e sair daquele território o mais rápido possível, a missão de trazer Cochise e seu povo de volta à reserva o atrai.

Só que Thursday acaba se demonstrando um cabeça dura arrogante e um péssimo líder. Thursday não sabe nada sobre os Apaches e não está disposto a seguir o conselho de oficiais experientes, como por exemplo o Capitão Kirby York (John Wayne), e todos seus atos anunciam uma inevitável tragédia que se aproxima. Continuar lendo

DVD REVIEW: LEGIÃO INVENCÍVEL (She Wore a Yellow Ribbon, 1949); Classicline

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No final dos anos 40 o diretor John Ford iniciara uma espécie de trilogia que celebrava as proezas da cavalaria do exército americano no imaginário do velho oeste. Ficou conhecida como a Trilogia da Cavalaria, todos estrelados por John Wayne. Começa em 1948 com SANGUE DE HERÓIS (1948) e terminava dois anos depois com RIO GRANDE (1950). Mas o mais peculiar dos três episódios só podia ser a peça do meio, LEGIÃO INVENCÍVEL, que assisti recentemente num belíssimo DVD lançado pela Classicline.

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Por que o mais peculiar? Primeiro, é preciso destacar a presença de Wayne, que foi o principal ator colaborador da carreira de Ford. Até esta altura, o diretor o utilizava como o habitual bravo cowboy icônico do faroeste americano, papéis que exigiam mais a presença física de Wayne do que uma construção mais profunda de seus personagens. Quando precisava de algo mais complexo, recorria a atores que julgava mais talentosos dramaticamente, como Henry Fonda em A MOCIDADE DE LINCOLN e PAIXÃO DOS FORTES. Continuar lendo

ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.3 – MR. DENTON ON DOOMSDAY (1959)

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Uma das coisas mais legais de ALÉM DA IMAGINAÇÃO é o diálogo entre gêneros. Além do sci-fi, do horror e da fantasia, que são o básico da série, sempre teremos uns episódios mais dramáticos, outros mais cômicos, teremos policiais noir, guerra, aventura e até western. Este último é o caso de MR. DENTON ON DOOMSDAY, terceiro episódio da primeira temporada.

Em 1959, os filmes de bangue-bangue ainda dominavam os olhares do público. Mas não esperemos a linguagem básica do western totalmente presente aqui nessa curta história de redenção e destino. O protagonista, por exemplo, não é nenhum cowboy ou xerife durão, mas o retrato exato de um bêbado. A história se passa numa pequena cidade do velho oeste americano e o nosso “herói” é Al Denton, vivido por Dan Duryea, constantemente humilhado por um jovem pistoleiro chamado Dan Hotaling, interpretado pelo inigualável Martin Landau. Tudo o que Denton gostaria era de poder se redimir, de uma nova chance na vida, mas acaba sempre perdido em mais uma garrafa de uísque.

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O elemento fantástico da série vem na espécie de um anjo da guarda transvestido de um vendedor ambulante (Malcolm Atterbury), que chega à cidade e resolve misteriosamente se intrometer no destino de Denton. Agora o sujeito tem a sua segunda chance, se redescobre muito mais homem do que achava que ainda era. Mas será que vai aproveitá-la devidamente?

Novamente escrito pelo criador da série, Rod Serling, MR. DENTON ON DOOMSDAY é um dos episódios sobre “perdedores”, onde o personagem principal é um ferrado que está do lado errado da sorte. Em seguida, acontece algo “mágico”, algo inacreditável que invade a realidade infeliz do personagem, cujo efeito muda para sempre sua vida e sua visão sobre o futuro. Em cada uma dessas histórias, no entanto, há uma escolha fundamental que deve ser feita pelo personagem. O milagre nunca vem de graça e nunca sem a necessidade de uma ação humana como catalisador. MR. DENTON ON DOOMSDAY exemplifica exatamente esse tema, que ainda serão explorados em vários episódios da série.

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Enfim, é um episódio agradável. O cenário do Velho Oeste funciona bem como palco para esse jogo de moralidade. Vale dar ênfase ao elenco, no qual temos um ator gabaritado como Dan Duryea, que já tinha realizado, por exemplo, diversos filmes noir de Fritz Lang. Mas meu destaque vai para um jovem Martin Landau, demonstrando um talento incrível e indícios do grande e expressivo ator que seria futuramente, recebendo o Oscar de melhor ator coadjuvante em ED WOOD, de Tim Burton. Uma pena seu falecimento recente. Malcolm Atterbury tem uma participação menos expressiva, mas sua presença também chama a atenção. Fez uma carreira mais voltada para séries de TV, tendo recebido mais de 150 créditos como ator.

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A direção do episódio ficou por conta de Allen Reisner, prolífico diretor de séries, embora MR. DENTON ON DOOMSDAY seja seu único trabalho em ALÉM DA IMAGINAÇÃO.

O RIO DAS ALMAS PERDIDAS (River of No Return, 1954)

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O primeiro que enjoar das postagens com o Robert Mitchum vai ser a mulher do padre… Até porque depois que se mergulha de cabeça na obra deste estupendo ator fica difícil parar. É como um vício. Mas um dos bons, saudável, recomendável aos amantes de boas atuações. E, neste ofício, Mitchum foi um dos grandes… Quiçá o maior… Se cuida, Lee Marvin!

O RIO DAS ALMAS PERDIDAS foi o último que vi estrelado por Mitchum.

Dirigido pelo gênio Otto Preminger, o filme é um western de aventura que se passa durante a famigerada corrida do ouro do final do século IXX. O fazendeiro Matt Calder (Bob Mitchum), que vive em uma fazenda remota com seu jovem filho Mark, ajuda um casal que perde o controle de sua jangada num rio nas proximidades. Um deles é Harry Weston, um jogador profissional que está tentando chegar à cidade mais próxima o mais rápido possível para registrar uma reivindicação de uma mineiradora que ele alega ter ganho em um jogo de poker. Sem cavalo, achou que a melhor maneira era descer o perigoso rio de jangada… Junto dele, sua namorada, a bela Kay (Marilyn Monroe), uma cantora de salão.

Quando Calder se recusa a deixar Weston “pegar emprestado” seu único rifle e seu único cavalo para seguir viagem, o clima fica pesado entre os dois. O local é cercado de índios e é o rifle de Calder que protege ele e seu filho dos peles-vermelhas. Além disso, o cavalo é seu “instrumento” para arar a terra nas suas plantações… Mas, como sabemos, Weston precisa urgentemente chegar à cidade mais próxima. Demonstrando ser um grandessíssimo filho da puta, o jogador acerta a cabeça de Calder e parte montado no animal levando o rifle do protagonista embora. A trairagem foi tão grande que até Kay resolve ficar para trás.

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Incapazes de se defender de um iminente ataque índio, Calder, seu filho e Kay só vêem na jangada e nas perigosas águas do rio o único meio de manterem a pele intácta. E assim, a aventura de O RIO DAS ALMAS PERDIDAS começa, com esse improvável trio tentando sobreviver às correntesas do rio com a jangada e aos eventuais ataques de índios. E só um pensamento que dá força a Calder nessa jornada: vingança.

Parece divertidão, não é? Uma montanha-russa em forma de filme de aventura. Pois é, o produtor do filme, Stanley Rubin, também achava que deveria ser assim. No entanto,  O RIO DAS ALMAS PERDIDAS é bem mais complexo, intimista e reflexivo do que parece. E grande parte dessa lógica de aventura descompromissada se perde graças a Otto Preminger.

Na ocasião, Rubin achava que Preminger teria sido uma escolha equivocada. Queria alguém mais ligado a aventuras mais rotineiras, alguém que já tivesse dirigido western, algo que Preminger nunca tinha feito. Rubin queria mesmo o grande Raoul Walsh, que já era célebre por balancear filmes escapistas com um bocado de substância… Mas o chefão da Fox, o lendário Darryl F. Zanuck, precisava arranjar um projeto rápido para Preminger, porque já estava pagando um sálario astronômico na época de 2.500 dólares por semana com o sujeito trabalhando ou não. Preminger, a princípio, não queria saber muito de  O RIO DAS ALMAS PERDIDAS, mas aceitou na boa após ler o roteiro e perceber que poderia explorar alguns conceitos, tanto estéticos quanto humanos com aqueles personagens. O que gerou certo desconforto entre Stanley Rubin e o diretor, que sempre teve fama de autoritário. Continuar lendo

ARMADO ATÉ OS DENTES (The Man With the Gun, 1955)

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Assisti a este western rotineiro que no Brasil ganhou o divertido título ARMADO ATÉ OS DENTES. Mas referir-se ao filme como rotineiro pode não parecer uma recomendação muito entusiástica. No entanto, como a década de 50 foi um período tão fértil para filmes excelentes do gênero, digamos que “rotina” pode ser tomada como algo positivo…

O filme possui muitos dos elementos padrões que eram populares na época: temos o solitário e misterioso pistoleiro, com um passado sombrio, que encara as forças do vilão sem escrúpulo numa cidade cuja população de homens tímidos e indefesos precisa contar com o estranho pistoleiro para salvá-los de serem explorados e enganados.

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Robert Mitchum, ainda começando a se tornar um astro, interpreta Clint Tollinger, um pistoleiro com uma reputação de “domar” cidades selvagens. E o local que chega tem um baita problemão. Um tal de Dade Holman (Joe Barry), um poderoso fazendeiro, tem usado seus consideráveis ​​recursos financeiros para comprar toda a terra circundante à sua e utiliza mercenários armados para aterrorizar ou matar qualquer pessoa que não ceder às suas propostas de compra.

E Tollinger entra na cidade para descobrir que sua reputação o precede. Ele acaba contratado pelo conselho local para frustrar os planos de Holman e seus lacaios, que também habitualmente têm perturbado a paz. Tollinger aceita o trabalho contanto que tenha controle total sobre os métodos que emprega, o que inclui a regra “sem armas na cidade” e também um toque de recolher. Em pouco tempo, os empresários que o contrataram estão reclamando que agora as coisas estão pacíficas demais e seus negócios vão de mal a pior.

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Enquanto isso, os pistoleiros de Holman não demoram muito para testar Tollinger, que prova ser rápido e certeiro o suficiente para se defender. Mesmo quando seus adversários estão maior número. O filme também investe bastante tempo na relação que Tollinger estabelece com um jovem casal prestes a se casar: a adorável Stella Atkins (Karen Sharpe) e seu noivo cabeça-dura Jeff Castle (John Lupton), que continua a desafiar os homens de Holman e acaba seriamente ferido por sua recusa em ceder suas terras.

Tollinger também encontra na cidade sua ex-mulher, Nelly (Jan Sterling), que administra o bordel local. Os dois não ficam lá muito felizes em se ver, e quando Nelly revela um segredo chocante sobre sua filha, Tollinger enfurecido resolver tocar o terror pra cima da bandidagem.

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ARMADO ATÉ OS DENTES sofre de um título original brando, sem muita inspiração e genérico (MAN WITH THE GUN). Mas o filme em si é bastante envolvente. Mitchum está ótimo como sempre, fazendo um personagem bem mais complexo que a impressão superficial sugere. E já nessa fase inicial da carreira havia evidências claras de um astro sendo lapidado. O elenco de apoio também é muito bom, especialmente alguns atores como Henry Hull (O LOBISOMEM DE LONDRES), Emile Meyer (OS BRUTOS TAMBÉM AMAM), James Westerfield (SINDICATO DE LADRÕES) e outros rostos familiares da época (incluindo um jovem Claude Akins). O filme, habilmente dirigido por Richard Wilson (talentoso assistente de Orson Welles), certamente não é nenhum clássico espetacular, mas por outro lado, é sólido, divertido e tem Robert Mitchum fazendo a alegria da moçada.

TOP 10 WESTERNS ANOS 90

O post anterior me inspirou a montar essa lista…

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10. O MASSACRE DE ROSEWOOD (Rosewood, 1997), de John Singleton

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09. JOVEM DEMAIS PARA MORRER (Young Guns 2, 1990), de Geoff Murphy

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08. MORTOS DE FOME (Ravenous, 1999), de Antonia Bird

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07. WYATT EARP (1994), de Lawrence Kasdan

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06. WILD BILL (1995), de Walter Hill

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05. DANÇA COM LOBOS (Dances with Wolves, 1990), de Kevin Costner

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04. GERÔNIMO (1993), de Walter Hill

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03. TOMBSTONE (1993), de George P. Cosmatos (Kurt Russell não creditado)

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02. DEAD MAN (1995), de Jim Jarmusch

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01. OS IMPERDOÁVEIS (Unforgiven, 1992), de Clint Eastwood

TOMBSTONE (1993)

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Mais um daqueles filmes que faziam minha cabeça na pré-adolescência, no início anos 90, que devo ter visto na época umas duzentas vezes e que já fazia uns bons quinze anos que eu não revisitava e nem lembrava se era mesmo tão bom… Mas TOMBSTONE valeu muito a revisão que fiz esta semana. Baita western noventista com um dos elencos mais espetaculares que eu já vi! Curioso que já naquela época Hollywood lançava uns filmes em dose dupla sobre temas semelhantes quase ao mesmo tempo… E não tô falando de rip-offs picaretas e independentes, mas de super produções de grandes estúdios. Se hoje em dia temos um WHITE HOUSE DOWN e OLYMPUS HAS FALLEN lançados no mesmo ano, nos anos 90 tivemos ARMAGGEDON sendo lançado com IMPACTO PROFUNDO, ou VOLCANO e O INFERNO DE DANTE e até mesmo MARTE ATACA com INDEPENDENCE DAY… TOMBSTONE também não saiu ileso e quase teve que disputar bilheterias com WYATT EARP, lançado poucos meses depois.

Ambos os filmes tem como protagonista o lendário xerife Wyatt Earp, aqui interpretado por outra lenda, o grande Kurt Russell. Já WYATT EARP, dirigido pelo Lawrence Kasdan, tem Kevin Costner no papel do xerife e possui uma abordagem mais biográfica e historicamente enraizada, o que não quer dizer que não seja bom… Gosto dos dois, mas TOMBSTONE  é outra pegada, mais divertida, estilizada e com muito mais ação e um elenco de fazer cair o queixo. Numa comparação, digamos, esdrúxula, WYATT EARP seria um filme do John Ford, com um certo rigor e suntuosidade, enquanto TOMBSTONE é um equivalente aos descompromissados faroestes de matinée dos anos 40.

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O curioso é que o roteirista Kevin Jarre, que iniciou as filmagens também como diretor de TOMBSTONE, tinha planos bem mais ambiciosos para o filme. A sua ideia era fazer um estudo de personagem mais aprofundado, mas acabou despedido, seja lá por qual motivo, com um mês de trabalho e o filme tomou outros rumos. TOMBSTONE retrata o período em que Earp, seus irmãos (Bill Paxton e Sam Elliott) e suas mulheres se mudam para a cidade de Tombstone, no Arizona, para fazer uma nova vida e que não envolve o trabalho de xerife. O problema é que a cidade é encrenca e não demora muito Earp, seus irmãos e Doc Holliday (o grande e único Val Kilmer) marcham em slow motion rumo ao O.K. Corral para o provável mais famoso tiroteio da história americana… O filme ainda prossegue com a repercussão e as consequências explosivas desse fato, que trouxe algumas desgraças para Earp, mas também algum senso de ordem e justiça… Ou vingança… A eterna linha fina que separa as duas coisas.

O filme já seria totalmente assistível só pelos temas e a violência que surge a partir daí, mas temos ainda um elenco que é simplesmente de encher os olhos. Além de Russell, Paxton, Elliott e Kilmer, temos Powers Boothe, Michael Biehn, Charlton Heston, Stephen Lang, Thomas Haden Church, Billy Bob Thornton, Michael Rooker, Billy Zane e Frank Stallone! Além disso, Robert Mitchum é o narrador. Como não amar um filme desses?

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Mas o que torna TOMBSTONE realmente transcendental é a interação de Earp com o tuberculoso Doc Holliday. Qualquer momento em que esses dois cavalheiros dividem a tela é simplesmente sublime e engrandece a obra absurdamente. É quando se percebe o quão fascinantes e fortes são esses personagens… Tão opostos, ambos gigantes.

É facilmente o melhor desempenho da carreira de Kilmer e na minha opinião o melhor Doc Holliday do cinema, que me perdoem Victor Mature e Stacy Keach. Alguns dos melhores momentos de TOMBSTONE é marcado pela presença de Kilmer, seja abrindo a boca pra soltar alguma frase genial de efeito, seja em sequências como quando encara Michael Biehn pela primeira vez e demonstra sua agilidade com uma caneca de café, ou no duelo final entre eles. Mas especialmente nos seus últimos diálogos com Earp, que é capaz de fazer até o coração mais duro ficar amolecido… Mas é só inventar a velha desculpa do cisco no olho que ninguém vai se importar.

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Já Russell com seu Wyatt Earp não consegue chegar no mesmo nível de Kilmer, que está mesmo perfeito. Mas o sujeito também possui aqui alguns bons momentos e o bigode mais badass dos anos 90. Grande atuação do homem. É um casca-grossa total! Principalmente quando entra em ação e distribui tiros nas mais variadas formas, nos mais variados bandidos que entram em seu caminho.

Por falar em ação, eu poderia elogiar o trabalho do diretor George P. Cosmatos em algumas sequências, mas corro o risco de cometer injustiça. O Tiroteio no O.K. Corral ou o duelo entre Doc Holliday e Johnny Ringo (Biehn) são dignos de antologia do cinema de faroeste dos últimos trinta anos, mas quem realmente as dirigiu? Cosmatos é um diretor legal, fez RAMBO 2, COBRA, LEVIATHAN e ganhou os créditos por TOMBSTONE, mas em duas entrevistas não tão antigas, Kurt Russell afirma que assumiu a direção logo depois que Jarre foi demitido. Na verdade, em uma das ocasiões, Russell diz que dirigiu a grande maioria do filme e que o nome de Cosmatos nos créditos era apenas de fachada para fazer a produção correr bem… Enfim, puta trabalho do Russell como diretor, se for mesmo verdade…

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Eu havia citado Ford ali em cima. Sua versão de Wyatt Earp, com Henry Fonda vivendo o personagem, MY DARLING CLEMENTINE, é um belíssimo filme… O do Kasdan, como já disse, é outra adaptação que gosto bastante. Aliás, a história do famigerado xerife já foi para as telas diversas vezes. Até o Doc Holliday já ganhou filmes solos… No entanto, não tem jeito, tenho um carinho tão especial por TOMBSTONE que na minha opinião é o melhor exemplar tendo o velho Wyatt Earp como destaque… Pelo elenco magistral, especialmente a presença de Kilmer e Russell, pelas as cenas de ação incríveis, os diálogos afiados e o fator nostálgico, com os vários momentos marcantes que carrego desde a infância.

WESTWORLD (1973)

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Já faz uns bons anos que assisti a WESTWORLD, de Michael Crichton, mas como saiu agora essa série da HBO e muita gente tem elogiado (e eu ainda não parei pra ver), vale a pena relembrar essa pérola dos anos 70.

Há uns tempos atrás eu tinha um preconceito besta com o Crichton por causa das alterações que fez em O 13° GUERREIRO, que na minha cabeça teriam estragado a visão do John McTiernan, que era o diretor da parada e um dos poucos gênios do Studio System dos últimos trinta anos. Mas, quem sabe, o “filme do McT” já era ruim e o Crichton como produtor tentou consertar? Enfim… Acho que nunca vamos saber, é pouco provável que esse filme ganhe uma director’s cut. De todo modo, eu tinha a impressão de que o Crichton era um filho da puta sem talento querendo impor sua vontade nos filmes que produzia. Claro que isso foi mudando com o passar dos anos, fui descobrindo que o cara sempre foi um interessante escritor, roteirista e diretor, que deu uma contribuição ímpar para a fase cerebral do cinema de ficção científica nos anos 70… E tudo isso começou quando vi WESTWORLD.

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A ideia de parque-temático-que-dá-uma-merda-daquelas é algo que parece interessar ao Crichton. Uma de suas obras mais famosas, por exemplo é justamente JURASSIC PARK, que o Spielberg adaptou nos anos 90… Em WESTWORLD temos a Delos Corporation, uma empresa de entretenimento que cria um recinto definitivo para as férias num futuro não muito distante. Consiste em parques temáticos sofisticados que recriam épocas passadas – um mundo medieval, o império romano e um velho oeste, chamado Westworld. A graça da brincadeira é que o usuário encara essas realidades forjadas interagindo com robôs de altíssima geração. Cada um desses mundos é povoado por androides que são quase impossíveis de distinguir de pessoas e animais reais e os hóspedes podem fazer tudo o que desejam aos robôs. Qualquer coisa mesmo! Eles podem atirar neles. Eles podem fazer sexo com eles. Não há regras. E o principal, a tecnologia é tão avançada que é impossível para um robô causar algum dano em um ser humano. Então, nada pode dar errado, não é?

Grande parte da força de WESTWORLD é por essa visão ácida, satírica e consciente sobre a indústria do entretenimento. É como se Crichton já estivesse, há mais de 40 anos, prevendo a ambição das companhias em proporcionar o máximo de experiência interativa dos usuários, algo que hoje já é uma realidade. Cinema 3D, 4D, sei lá quantos D’s, óculos de realidade virtual, video-games hiper-realistas, escape rooms e simuladores com elementos de filmes, até mesmo parques temáticos que colocam o individuo em cenários cinematográficos já existem aos montes por aí. Só falta os robôs para chegarmos a WESTWORLD. Quero dizer, ainda falta também deixarem o moralismo hipócrita de lado e focar naquilo que realmente importa, a verdadeira atração da parada, que é oferecer violência e sexo de uma maneira segura e ilimitada, essa liberdade de regras que é a principal atração neste futuro distópico. Sexo e violência sem culpa.

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Esse subtexto é  tão atual e relevante que agora, mais de 40 anos depois, temos um seriado reformulando todas essas ideias. Bem, pelo menos espero que estejam…

Na trama, Peter Martin (Richard Benjamin) e John Blane (James Brolin, que tá a cara do Christian Bale) escolheram Westworld para suas férias. E simplesmente não conseguem acreditar como é tudo é tão real e agradável. Passada meia hora no local, Martin já está se divertindo por ter matado seu primeiro pistoleiro, o sinistro Black Bart, obviamente um robô, vivido pelo grande Yul Brynner. Depois é festejar no puteiro local. E as garotas podem ser artificiais, mas sabem exatamente como fazer a alegria de um homem… Uma das coisas que mais gosto em WESTWORLD é o fato de que os dois protagonistas não sejam lá muito simpáticos, isso acrescenta mais munição à sátira de Crichton. Eles não são rapazes inocentes e suas ideias do feriado ideal é gastar a metade de seu tempo disparando em robôs e a outra comendo putas de lata.

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Nos bastidores do parque vemos a ação dos homens de casacos brancos, os técnicos que fazem a roda girar, apesar de muito do funcionamento do parque ser completamente automatizada, controlado por computadores poderosos. A tecnologia é tão complexa que os técnicos humanos não conseguem compreender totalmente a coisa toda – até porque muitos dos robôs e outras características do parque foram projetados pelos próprios computadores. Os técnicos humanos simplesmente encaixam peças de reposição nos robôs danificados.

Há algumas falhas ocasionais, mas estão dentro dos limites previstos. Mas quando começam a ser constantes sem nenhuma razão aparente os técnicos começam a observar que as ocorrências seguem o mesmo padrão de doenças infecciosas. É como se houvesse um vírus dentro do sistema infectando os robôs. E uma vez que eles estão lidando com máquinas projetadas por outras máquinas é extremamente difícil agir com esses problemas inesperados. Tudo isso pra enfatizar que quando a merda explode no ventilador, é melhor fugir pra bem longe o mais rápido possível, porque não há muito o que fazer… Uma cascavel de lata ferir um convidado ou uma prostituta medieval robótica rejeitar uma tentativa de sedução, são coisas aceitáveis dentro do programa, mas quando um dos hóspedes é assassinado à tiros num duelo por um pistoleiro androide, é porque já deu merda mesmo… Especialmente quando esse androide é o Yul Brynner, que está simplesmente impagável, totalmente fora de controle tocando o terror. Um pré-TERMINATOR que deixa um rastro de corpos por onde passa. Genial.

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WESTWORLD é este filmaço que aparenta ser. Inteligente, com substância, reflexão e ao mesmo tempo muito divertido. Faz parte de uma era de ouro da ficção científica quando o gênero possuía mais filmes sobre ideias do que sobre efeitos especiais (embora os daqui sejam ótimos para a época). E me fez fazer as pazes com o seu diretor, que manda bem por aqui. Um sujeito legal e bastante subestimado cuja obra precisa ser olhada com mais atenção. WESTWORLD ainda possui uma continuação, FUTUREWORLD (76), com o Peter Fonda e dirigido pelo Richard T. Hefron, outro cara foda que acabou no esquecimento. Nunca vi essa continuação…

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Os anos 70 nos brindou ainda com outra pérola inspirada em WESTWORLD, só que com um bocado de mais… digamos, sacanagem. Acho que deve valer a pena conhecer este aqui:

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