SANDOKAN, O GRANDE (1963)

Coprodução italiana/francesa/espanhola, dirigida por Umberto Lenzi, SANDOKAN, O GRANDE (Sandokan, la tigre di Mompracem) foi baseada no primeiro dos romances do famoso personagem da literatura italiana, Sandokan, Os Tigres de Mompracem, do escritor italiano do século XIX Emilio Salgari. Na literatura, Sandokan é um pirata heróico que combate o tirânico Império Britânico e a Companhia das Índias nos mares do Sul asiático. Suas aventuras são contadas numa série de onze histórias, tendo aparecido pela primeira vez em 1883.

Nesta versão cinematográfica, Steve Reeves é quem dá vida ao corajoso e ousado pirata malaio Sandokan. E para quem conhece o sujeito, famoso por interpretar os fortões heróis do cinema de “sandália e espada” italiano, gênero conhecido por lá como PEPLUM, pode até estranhar vê-lo como como um pirata do século XIX em SANDOKAN, O GRANDE… Mas até que a coisa não muda tanto de figura não. Muda-se cenários e vestimentas, mas o senso de aventura dessas produções italianas permanecem.

Aparentemente o enredo do filme é apenas vagamente baseado no romance, mas captura o espírito de maneira bastante eficaz. Na trama, o pai de Sandokan é o rajá de um pequeno principado em Bornéu, que acabou deposto pelos britânicos e capturado. Agora pretendem executá-lo. Sandokan, que começa o filme já com certa notoriedade pelos seus feitos como líder de um grupo pirata, não tem intenção de permitir que isso aconteça, e resolve intervir tocando o terror pra cima do poderoso Império Britânico.

O primeiro passo de Sandokan e sua turma é um ataque à casa fortificada do comandante britânico Lord Guillonk (Leo Anchóriz), e no meio da confusão acaba sequestrando Mary Ann (Geneviève Grad), sobrinha de Guillonk. Ela obviamente fica indignada com a ideia de ser sequestrada por piratas, mas por outro lado aprendemos em SANDOKAN, O GRANDE que se você é uma jovem moça e acaba sequestrada pelo Steve Reeves fantasiado de pirata, arrojado, bonitão e másculo, talvez não seja tão ruim quanto parece…

Especialmente quando o sujeito salva-lhe a vida encarando um tigre no meio do mato…

Em determinado momento, o braço direito de Sandokan, o aventureiro português Yanez (Andrea Bosic), também ajuda a colocar na cabeça da moça algum exclarecimento sobre a autoritária política colonial britânica, e como os seus compatriotas – homens do seu tio inclusive – mataram membros da família de Sandokan. Ela começa a entender porque Sandokan não é lá grande fã dos britânicos. Yanez também aponta que os seguidores de Sandokan foram forçados a se tornarem piratas por conta das potências coloniais européias e o seu modo de agir na região.

A aventura progride, agora com Sandokan sendo caçado pelos homens de Lord Guillonk e se vê tendo que atravessar a ilha onde a trama transcorre, enfrentando os mais diversos e perigosos cenários para não ser pego. Isso significa enfrentar pântanos e selvas inexploradas, um feito bastante desafiador, mas ainda mais difícil com Mary Ann de reboque e com alguns companheiros feridos e, pior, tendo um traidor no grupo que ninguém sabe ainda quem é…

Aparentemente, o Sandokan da literatura é um líder inspirador e carismático, mas também impulsivo e inclinado a erros de julgamento. Um pouco diferente da sua versão para cinema. Steve Reeves decidiu, em vez disso, buscar dignidade e autoridade silenciosa. O que acaba sendo uma abordagem válida, tendo em vista que o ator não tinha lá muita desenvoltura para se expressar verbalmente diante das câmeras. O desempenho físico do sujeito foi mais que adequado.

Claro, há algum excesso de confiança de Sandokan que soa exagerado – seu plano de atravessar a ilha sobre pântanos intransitáveis ​​e entrando em terrítórios de tribos caçadores de cabeças não era lá uma ótima idéia, por exemplo. Mas os homens de Sandokan têm absoluta confiança nele, apesar disso não significar necessariamente que o sujeito saiba o que está fazendo. Mas aí é que entra umas das coisas mais legais em SANDOKAN, O GRANDE, que é como o protagonista é sortudo pra cacete. Não há nada racional ou calculista nele, é um homem que está sempre preparado para colocar sua fé no destino (ser salvo por um chimpanzé, por exemplo). Se Deus quiser, ele sobreviverá e continuará lutando. Seu fatalismo faz dele um herói fascinante.

Embora seja um filme de piratas, não há cenas de batalhas no mar. Provável que o orçamento não tenha sido suficiente para contemplar algo tão ambicioso. Mas quando se tem um diretor como Umberto Lenzi sabemos que estamos em boas mãos. Claro, é evidente que Lenzi ainda estava em início de carreira aqui, mas já tinha no currículo sete filmes, todos aventuras do gênero Peplum, então já tinha experiência de sobra pra comandar uma produção como esta.

Mesmo que o ritmo de SANDOKAN, O GRANDE tenha uma caída no meio, e comece a se arrastar um pouco, não demora muito pras coisas esquentarem. E quando a ação começa a aumentar no final, vale a pena a espera. A batalha final, por exemplo, é um bom espetáculo de ação. E Lenzi faz um trabalho sólido, nada muito inspirado, mas bem seguro na maior parte do tempo. A localização das filmagens no Sri Lanka também ajuda. São visualmente impressionantes e Lenzi sabe como aproveitar e dar uma sensação de autenticidade exótica.

Há sempre o perigo desse tipo de filme abusar da mensagem anticolonialista (que existe no romance de Salgari) e sucumbir à pregação excessiva. É algo que pode estragar um pouco a diversão, concordando ou não com a mensagem. Mas não acho que seja um problema em SANDOKAN, O GRANDE, até porque os britânicos são retratados como vilões quase cartunescos e maniqueístas.

No geral, SANDOKAN, O GRANDE é um filme de aventura agradável, sem grandes pretensões, e que tem algumas coisas divertidas a seu favor, como o cenário incomum e o seu herói exótico, Sandokan. São exemplos que, juntamente com a sequência final de batalha e outros momentos de ação, são suficientes para compensar alguns pequenos problemas de ritmo e coerência.

Steve Reeves retornaria ao papel de Sandokan no ano seguinte, em I PIRATI DELLA MALESIA, novamente dirido por Umberto Lenzi. Mas ao longo do tempo, o personagem ganhou novos filmes e novos intérpretes. É um universo vasto o de Sandokan, que eu ainda preciso explorar…

★ ★ ★

X312 – FLIGHT TO HELL (1971)

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O início da década de 70 foi um ponto de virada na carreira do diretor Jesus Franco. No espaço de pouco tempo ele interrompeu sua colaboração de alguns anos com o produtor Harry Alan Towers e, acima de tudo, houve a trágica morte da atriz Soledad Miranda, musa do diretor. É nesse período também que Franco parte para a Alemanha e conhece o grande produtor Artur Brauner, que topa realizar os seus projetos, dentre os quais alguns dos mais famosos filmes de Franco, como VAMPYROS LESBOS e SHE KILLED IN ECSTAZY (ambos ainda filmados com Soledad). Um dos últimos filmes que resultou dessa colaboração foi este X312 – FLIGHT TO HELL, que assisti recentemente.

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A trama é sobre um grupo de passageiros que sobrevive à queda de um avião, vindo do Chile para o Rio de Janeiro, em plena floresta amazônica. Entre os sobreviventes estão o jornalista (Thomas Hunter) que narra a história, um comissário de bordo sem escrúpulos, um banqueiro e outros indivíduos aleatórios. Acontece que o banqueiro saiu às pressas do Chile com uma maleta cheia de milhões de dólares em diamantes, o que desperta muitas suspeitas, especialmente de Paco (vivido pelo ator espanhol Fernando Sancho), o comissário de bordo, que rapidamente percebe que o banqueiro esconde um verdadeiro tesouro.

Ao mesmo tempo que a sobrevivência na selva para essas pessoas consiste em se unir para poder sair dessa, cada um pensa em seus interesses pessoais, especialmente quando descobrem o que contém na famigerada maleta. Além disso, um grupo de guerrilheiros que se esconde nas proximidades, cujo lider é interpretado pelo Howard Vernon, eterno colaborador do diretor, também resolve colocar as mãos nas pedras. E como se isso tudo não bastasse, Franco ainda joga no meio da selva uma tribo de índios caçadores de cabeças no caminho dos sobreviventes… Portanto, a jornada promete… Ou talvez não.

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Apesar desse saladão todo, X312 – FLIGHT TO HELL nem é tão excessivo quanto aparenta. É até bastante classicista para um diretor como o Franco. Para quem conhece seu trabalho, sabe que o homem se destaca sobretudo em excesso e excesso… E não é bem o que acontece por aqui. A jornada desse desse punhado de personagens pela selva acaba parecendo mais como um circuito em um parque ornitológico do que uma aventura cheia de ideias absurdas brotando na tela… Na maior parte do tempo, Franco não consegue tirar o espectador de um certo estado de letargia. Até os atores favoritos do diretor são pouco aproveitados e reduzidos a papéis mínimos: Vernon como lider de guerrilheiros nas selvas brasileiras merecia um filme só pra ele, e Paul Muller acaba tendo apenas tem duas ceninhas.

Quem está muito bem e aproveita o momento é o protagonista, o galã Thomas Hunter (americano, que acabou fazendo filme de gênero na Europa), e o renomado Fernando Sancho, mais conhecido pela contribuição para o ciclo de Spaghetti Western. Para não se afastar da regra, Franco maliciosamente consegue colocar algumas ceninhas eróticas para fazer a alegria dos cuecas. E quem se destaca é a atriz Esperanza Roy (de EL ATAQUE DE LOS MUERTOS SIN OJOS, de Amando de Ossorio) que revela seus encantos em algumas ocasiões.

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Mesmo assim, suponho que Jess Franco ainda não tivesse se recuperado totalmente da morte de sua musa, Soledad, e se contentou em seguir as instruções de seu produtor, que provavelmente queria um produto mais “formatado”. Mas não chega a ser nenhum desastre, tem várias cenas curiosas, principalmente as que envolvem o personagem de Vernon (a sequência que sua amante e Esperanza Roy “colocam as aranhas para brigar” e ele assiste tudo com um sorriso na cara é uma das melhores do filme e um aperetivo do que poderia ter sido todo o restante caso Franco estivesse mais inspirado). Um bocado de nudez gratuita e alguns tiroteios também ajudam, são sempre divertidos de se ver e não vai faltar por aqui. Mas de uma forma geral, X312 – FLIGHT TO HELL não é dos melhores trabalhos do diretor…

DESONRADA, PORÉM RESPEITÁVEL (1973)

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Um dos poucos filmes que a atriz Edwige Fenech fez com o diretor Sergio Martino que não era um giallo foi este DESONRADA, PORÉM RESPEITÁVEL (Giovannona Coscialunga disonorata con onore).

A história começa quando um juiz está pescando e encontra o rio onde ele esperava largar a linha completamente poluído. Algumas pesquisas rápidas apontam para uma fábrica de queijos administrada pelo Comendador La Noce (o grande Gigi Ballista). Para evitar acusações e ter o bom nome de sua empresa manchado aos olhos do público, La Noce tenta descobrir como ele poderia entrar nas boas graças de um político local e impedir que alguma desgraça lhe aconteça. Seu assistente, o Sr. Albertini (Pippo Franco), descobre que o tal político tem uma fraqueza: o sujeito gosta de dormir com mulheres casadas.

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As ideias começam a pipocar na cabeça de La Noce e ele imagina que, como sua própria esposa não é exatamente a coisa mais atraente da cidade, nem sua estrita educação católica romana a tornaria uma candidata ideal para esse empreendimento, mesmo que ela tivesse a melhor das aparências, ele resolve contratar uma prostituta.

É aí que entra em cena a bela Cocò (Fenech) – uma adorável dama da noite que La Noce contrata para fingir ser sua esposa e jogar para cima do calcanhar de aquiles do político. Ela aceita o trabalho e parece perfeita para o que é necessário, mas obviamente as coisas não vão sair exatamente conforme o planejado, como toda boa comédia italiana, e logo todos, incluindo o cafetão de Cocò, acabam caindo em maus lençóis…

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DESONRADA, PORÉM RESPEITÁVEL Tem boa direção do Sergio Martino, mais conhecido por filmes de horror, giallo e ação, mas que era pau pra toda obra… Quero dizer, para todos os gêneros populares do cinema italiano. O sujeito possui, portanto, algumas boas comédias no currículo. Este aqui é particularmente muito bem filmado, os cenários e paisagens são bem utilizados, mas obviamente o que Martino tem de melhor para apontar suas câmeras é o charme e beleza de sua atriz principal. Stelvio Massi (notório diretor de polizieschi, os filmes policiais italianos) foi o diretor de fotografia por aqui e fez um ótimo trabalho enquadrando tudo muito bem, com algumas composições visuais bastante impressionantes… Especialmente essa aqui abaixo, um dos grandes enquadramentos da história do cinema:

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Apesar da imagem acima, o filme não explora tanto a pele de suas atrizes como em outras comédias sexy italianas do mesmo período. Mas há alguns momentos mais calientes por aqui, porque é isso que é a verdadeira atração para quem vai parar e assistir a um filme desses… Mesmo que esses momentos sejam utilizadas mais em contextos de humor. E no que diz respeito ao valor cômico do filme, há várias situações divertidas, mas tudo bem leve, dentro dos padrões do humor popular italiano, talvez ligeiramente acima da média, na melhor das hipóteses. O grande atrativo é mesmo Fenech.

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Quanto às performances, Fenech não tem muito o que fazer aqui, exceto ficar em pé e com boa aparência – e ela o faz muito bem, mesmo que nada no filme a exija particularmente como atriz, o que ela já demonstrou em várias ocasiões talento para tal. Mas aqui não é tão necessário. O desempenho de Pippo Franco é que acaba se destacando, mostrando um talento especial para o timing cômico e a comédia física e, embora o filme não seja tão forte quanto, por exemplo, NO TEMPO DO CINTO DE CASTIDADE (Quel gran pezzo della Ubalda tutta nuda e tutta calda, 1972), outra parceria entre Fenech e Pippo, o desempenho por aqui do sujeito é bem mais interessante.

Embora DESONRADA, PORÉM RESPEITÁVEL não apele para um grande público e não seja nenhum clássico marcante do cinema europeu, aqueles que gostam de comédias italianas ou que apreciam o considerável garbo, elegância e presença de tela de Edwige Fenech (seja vestida ou não) vão acabar apreciando um bocado.

STALKER (1979); CPC UMES FILMES

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STALKER, de Andrei Tarkovsky, foi o lançamento de fevereiro em DVD e Blu-Ray da CPC UMES Filmes. Por problemas técnicos, só pude rever o filme em DVD, o que não deixa de ser uma uma dessas experiências transcedentais que o cinema de Tarkovsky proporciona a cada contato com seus trabalhos seja lá em qual formato for. Em especial STALKER, que pra mim é a obra-prima do homem. Produzido pelo Mosfilm e vagamente baseado no romance de ficção científica Roadside Picnic, de 1972, escrito pelos irmãos Arkady e Boris Strugatsky (que também ficaram responsáveis pelo roteiro), STALKER é um labirinto metafórico entre uma jornada do imaginário sci-fi e uma parábola espiritual sobre medos, impulsos paradoxais, esperança e crença – em Deus? em si mesmo?

Filmado em grande parte em torno de duas usinas hidrelétricas abandonadas e de uma antiga fábrica de produtos químicos nos terrenos pós-industriais de Tallinn, na Estônia (e que ao que se supõe foi onde o diretor “pegou” o câncer que o matou menos de uma década depois), STALKER descreve uma expedição pelas profundezas da ZONA, uma região proibida em torno de uma cidade sem nome, onde tempo, espaço e realidade mudam constantemente. Onde o menor desvio do caminho pode ser fatal. E onde, em seu coração, há uma sala misteriosa supostamente capaz de tornar realidade os desejos mais profundos do homem. Pensa-se que é o subproduto de uma civilização alienígena ou de um asteroide que caiu no local algumas décadas antes. A ZONA foi selada pelo governo temeroso, e o conhecimento de seus poderes suprimidos das massas. E os únicos indivíduos que sabem se guiar por entre os segredos e os perigos ocultos da ZONA são conhecidos como Stalker.

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Os mais recentes clientes do Stalker (Alexander Kaidanovsky) que vamos acompanhar por essa jornada são um Escritor (Anatoli Solonitsyn) e um Professor (Nikolai Grinko), que têm razões diferentes, mas igualmente obsessivas, para arriscar suas vidas em busca pela iluminação na tal sala dos desejos. Mas a jornada física através da ZONA reflete a viagem psicológica interna desse Escritor, que é um sonhador trágico, do Professor, cético e racional, e até do Stalker, enquanto lutam com seus tormentos pessoais, angústias existenciais, visões de mundo divergentes um do outro e na possiblidade de tudo não se passar de uma balela…

Nas mãos de Tarkovsky, o enredo linear de STALKER se transforma numa estrutura complexa de imagens carregadas de simbolismos, paisagens atmosféricas assustadoras e diálogos filosóficos, culturais, sociais e políticos provocadores. O visual onírico e a qualidade sobrenatural que permeiam o filme são realizadas através de uma integração completa de um trabalho de câmera, som, cores… É interesante como o mundo fora da ZONA é filmado em um tom sépia que, mesmo representando um tempo futuro, remete a gravuras, fotografias de épocas ou xilogravuras, evocando assim a idéia de uma sociedade enraizada no passado.

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Em contraste, a ZONA é mostrada em cores saturadas, simbolizando a emergência dos três viajantes em um espaço desconhecido, potencialmente libertador e diametralmente oposto àquele de onde saíram. De vez em quando, Tarkovsky brinca com os dois ambientes distintos, de acordo com a ambiguidade geral da narrativa, alternando as tonalidades durante uma sequência de sonho dentro da ZONA e, posteriormente, quando o Stalker se reúne com sua esposa e filha, já no final do filme, num dos desfechos mais poderosos que eu já vi.

Para quem já está familiarizado com o trabalho do diretor, aqui não vai ter nenhuma surpresa: loooongas e leeeentas tomadas e movimentos sutis de câmera, rejeitando totalmente a ideia de uma montagem mais dinâmica. E é curioso como o estilo do diretor acaba se tornando elemento essencial de STALKER, prendendo o olhar do espectador a cada detalhe, três horas de trabalho de imersão quase sobrenatural para dentro dos mistérios da ZONA.

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Curiosa também como foi a recepção do filme na época em relação a lentidão característica do diretor. Acho que por se tratar de um sci-fi, esperavam que Tarkovsky fizesse algo parecido com STAR WARS, sei lá… E Tarkovsky cagando pra isso. Após o lançamento de STALKER, funcionários do Goskino, um grupo governamental também conhecido como Comitê Estadual de Cinematografia, criticaram o filme pelo seu ritmo. E ao ser informado de que STALKER deveria ser mais rápido e dinâmico, Tarkovsky ironizou: “O filme precisa ser mais lento e sem graça no início, para que os espectadores que entraram no cinema errado tenham tempo de sair antes de começar a ação principal”.

O representante do Goskino explicou que estava tentando dar o ponto de vista do público… E Tarkovsky supostamente respondeu: “Estou interessado apenas na opinião de duas pessoas: uma se chama Bresson e a outra se chama Bergman”. Touché.

O DVD (e o Blu-Ray) da CPC-UMES Filmes traz STALKER totalmente remasterizado, com formato de tela original, boas legendas e som e imagem de cair o queixo. Para colecionadores, que como eu só tinha aquela versão ridícula da Cocôntinental, é um item obrigatório para ter no acervo. O disco traz como extras algumas informações sobre o diretor, roteiristas, trilha sonora e trailers de outros lançamentos da CPC UMES Filmes. Já dá para encontrar STALKER nas melhores lojas do ramo, livrarias e na loja virtual da distribuidora. Não deixe também de curtir a página da CPC UMES FILMES no Facebook e instagram para ficar por dentro das novidades e os seus próximos lançamentos em DVD e Blu-Ray.

BLU-RAY REVIEW: VÁ E VEJA (1985); CPC UMES FILMES

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VÁ E VEJA (Idi i Smotri) acabou de sair do forno, agora em novembro, numa versão em Blu-Ray pela CPC UMES Filmes. A distribuidora já havia lançado o filme em DVD há alguns anos, numa belíssima edição, mas agora é possível sentir o poder devastador de VÁ E VEJA em alta definição. É provável que essa obra-prima perturbadora do diretor Elem Klimov seja o filme de guerra – ou anti-guerra – mais expressivo já feito. Acima de tudo, é um olhar que combina imagens surreais com uma enxurrada ininterrupta de barbárie, que mostra o pior lado que a natureza humana tem a oferecer.

Na trama, seguimos as andanças de Florya (Aleksei Kravchenko), um adolescente que quer se juntar à frota de resistência anti-nazista em 1944 na Bielorrússia e acaba sendo testemunha de todo tipo de atrocidade que uma guerra pode proporcionar. Na primeira hora, no entanto, VÁ E VEJA é um filme onírico, à beira do surrealismo, a maior parte do tempo se passa numa floresta filmada como um mundo paralelo, onde o jovem Florya emerge ainda ingênuo e inocente dessa visão da natureza. Existe até uma certa dose de humor na energia desse garoto, sempre pronto para lutar. Mas acaba deixado para trás quando as tropas partem para o combate.

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Gradualmente, VÁ E VEJA vai descendo às profundezas. A menina que acompanha Florya percebe de relance um amontoado de cadáveres fuzilados e ocultos da vista de Florya; fazem a travessia de um lamaçal que definitivamente enterrará a ingenuidade do garoto, mergulhando-o em outra realidade; vem à seguir a cena da vaca (na qual munições reais foram utilizadas e que passavam a dez centímetros da cabeça do ator). E finalmente, estamos mergulhados no inferno total. A segunda parte de VÁ E VEJA é uma jornada exaustiva, radical, quase sem diálogos, que nega o tipo de delírio visual da primeira parte: Flyora será confrontado com a crueldade humana, testemunha de várias abominações, incluindo o massacre de homens, mulheres e crianças.

Em nenhum momento Klimov apela para uma violência gráfica na tela, mas a encenação e as imagens que surgem a partir daí são brutais. E Flyora se afunda cada vez mais num estado de letargia e descrença do mundo que se decompõe diante dos olhos. (enfatizados pelos closes expressionistas em seu rosto devastado e agora envelhecido).

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Não é tarefa das mais fáceis colocar em palavras o nível de tensão que VÁ E VEJA proporciona em seu ápice. E o choque vem tanto das situações que o filme mostra como também pelo trabalho formal de Klimov, quase uma anomalia artística que surge num filme cheio de momentos pesados e aterradores. Mise en scène, direção dos atores (magníficos, frequentemente atuando com os olhos voltados diretamente para a câmera), o uso da música, a criação de uma atmosfera angustiante, tudo incrível… E deve ter sido desses trabalhos extremamente difíceis emocionalmente de elaborar, realizar, decupar… Acabou sendo o último filme do diretor, que morreu em 2003.

Truffaut é habitualmente citado (Roger Ebert, por exemplo) dizendo que não seria possível fazer um filme “anti-guerra”, porque a energia e senso de aventura acabam fazendo as batalhas parecerem divertidas. Não sei se acredito que Truffaut tenha dito isso exatamente com esse significado, mas caso seja verdade, se tivesse vivido mais um pouquinho para ver VÁ E VEJA, é bem provável que mudasse de opinião. Até porque o filme não se concentra no campo de batalha, tem mais intenção de retratar a vida de pessoas comuns confrontadas pela guerra. Só que o faz com uma maestria, brutalidade e intensidade rara. Uma obra perfeita em todos os sentidos.

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Embora VÁ E VEJA tenha ganhado popularidade nas últimas décadas, não dá pra deixar de mencionar também o filme A ASCENÇÃO (77), que comentei aqui recentemente, outro filme de guerra soviético essencial, dirigido por Larisa Shapitko – que era esposa Klimov, falecida em 79. É uma obra-prima que merece ser redescoberta. Foi lançado em DVD pela A CPC UMES filmes há poucos meses. Agora, VÁ E VEJA chega ao Brasil em outro patamar e pode ser contemplado em alta resolução, em Blu-Ray. Já se encontra disponível nas melhores lojas do ramo, livrarias e na loja virtual da distribuidora.

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DVD REVIEW: A ASCENSÃO (1977); CPC UMES FILMES

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Dos lançamentos recentes da CPC UMES Filmes, um dos que mais me impressionou foi sem dúvida alguma este A ASCENSÃO. Um filme de guerra poderosíssimo e transcendental, dirigido por Larisa Shepitko, cheio de referências bíblicas e filosóficas que o coloca num outro patamar e acabou levando o Urso de Ouro no Festival de Berlim, em 1977.

Adaptado do romance ‘Sotnikov’, do escritor bielorrusso Vassil Bykov, A ASCENSÃO se passa no inverno gelado que assola a URSS durante a Segunda Guerra Mundial. Dois soldados russos partem numa missão em busca de comida para permitir que um grupo composto por soldados, mas também crianças e mulheres em fuga, tenha chance de sobreviver. Ameaçados pelas tropas alemãs que cruzam a região e enfrentam o frio e a neve, eles tentam avançar pelos campos para encontrar alguma aldeia vizinha que possa fornecer algo.

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Um deles, Sotnikov (Boris Plotnikov), é baleado por um atirador alemão e prefere se matar do que ser capturado, mas é salvo por seu companheiro, Rybak (Vladimir Gostyukhin) às custas de um esforço sobre-humano, se rastejando pela neve; acabam encontrando abrigo na cabana de uma mulher com seus três filhos. Mas são descobertos pelos soldados nazistas e levados para serem interrogados por uma autoridade alemã (Anatoliy Solonitsyn, de STALKER). Se Sotnikov está pronto para morrer, mesmo sob tortura, Rybak parece disposto a qualquer coisa para salvar sua pele.

Depois de uma primeira parte mais tensa, praticamente um filme de sobrevivência, no qual quase acabamos sentindo a neve grudando nas nossas roupas, a segunda metade de A ASCENSÃO é uma parábola bíblica óbvia: Sotnikov se torna uma espécie de figura de Cristo, pronto para se sacrificar em nome de suas crenças, sempre discursando falas espirituais, enquanto Rybak, um verdadeiro Judas, está pronto para trair os seus para escapar ileso.

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Mas apesar de todo o conteúdo filosófico do filme, é impossível não destacar a força das imagens de Shepitko. Filma com o mesmo vigor tanto a busca pela sobrevivência dos personagens nas paisagens desoladas de neve quanto a jornada de exaustão física e tensão psicológica que Sotnikov precisa percorrer depois de capturado.

Escolhas morais (em vários níveis), senso de sacrifício, resistência e covardia (as diferentes sequências em que Rybak imagina sua fuga suicida), e um domínio visual absurdo fazem de A ASCENSÃO uma obra-prima escondida no cinema soviético. E Shepitko é definitivamente uma cineasta digna do panteão da cinematografia russa, que deixou para trás algumas pepitas para se redescobrir com urgência. Uma pena que morreu tão jovem, aos 41 anos, num acidente de automóvel em 1979. Era esposa do diretor Elem Klimov, que realizou alguns anos mais tarde outra obra-prima sobre os horrores da guerra na URSS: VÁ E VEJA, que curiosamente será lançado em Blu-Ray pela CPC UMES filmes ainda este ano.

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A ASCENSÃO já se encontra disponível em DVD nas melhores lojas do ramo, livrarias e na loja virtual da distribuidora. Versão produzida a partir de matriz restaurada em 2018, com altíssima qualidade de som e imagem. Então tá valendo muito a pena. E como sempre, com tradução e legendas direto do russo. Não deixe de curtir a página da CPC UMES FILMES no Facebook para ficar por dentro das novidades, especialmente do cinema soviético, e os seus próximos lançamentos em DVD e Blu-Ray.

CANNIBAL APOCALYPSE (1980)

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Apesar do título, é no mínimo questionável classificar CANNIBAL APOCALYPSE dentro do subgênero cannibal, tão comum no final dos anos 70 e início dos 80 no cinema popular de exploração italiano. Caso seja classificado, que seja então como um representante bastante alternativo, não compartilha virtualmente quase nada em comum com os outros filmes do subgênero. Não é uma aventura na selva, com exploradores se metendo com tribos canibais, por exemplo. E, embora eu não tenha do que reclamar da brutalidade por aqui, o nível de violência não chega nem perto dos excessos de um CANNIBAL HOLOCAUSTO, CANNIBAL FEROX e outros similares. Mas há comedores de carne no filme, obviamente, só que eles são habitantes “civilizados” da cidade de Atlanta, infectados por um vírus que lhe despertam desejo de carne humana.

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No entanto, CANNIBAL APOCALYPSE inicia realmente nas selvas, só que do Vietnã, durante a guerra, quando o oficial das Forças Especiais do Exército dos EUA, Norman Hopper (John Saxon), lidera um pelotão de soldados em uma missão de busca num complexo de cavernas Vietcong onde são mantidos prisioneiros de guerra. Depois de eliminar o inimigo num espetáculo de tiros e explosões, eles descobrem um buraco onde estão dois americanos capturados, Charlie Bukowski (sim, podem acreditar que esse é o nome do personagem vivido por Giovanni Lombardo Radice) e Tommy (Tony King).

Hopper fica feliz de vê-los ainda com vida – até porque conhece os sujeitos, ambos são de sua cidade natal – mas ao mesmo tempo, acaba tendo a visão aterradora deles devorando avidamente a carne de uma guerrilheira inimiga que havia caído lá dentro. Então, num rosnado selvagem, Tommy salta e dá uma mordida no braço estendido de Hopper.

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Nesse ponto, Hopper acorda de um pesadelo febril, na cama com sua esposa Jane (Elizabeth Turner) em Atlanta, anos depois da guerra. A sequência de abertura do filme foi um flashback/sonho de Hopper no Vietnã revelando um incidente que realmente aconteceu. Hopper está preocupado com o sonho; ultimamente ele desenvolveu uma estranha atração pela carne crua. Lutar contra esse desejo torna-se cada vez mais difícil, colocando uma pressão até sobre o seu casamento (isso sem falar na vizinha adolescente que lhe “atormenta” a vida com visitas inusitadas…).

Enquanto isso, Bukowski é libertado de uma ala psiquiátrica local, onde está encarcerado desde o fim da guerra. Supostamente curado, em seu primeiro dia de liberdade ele entra em conflito com uma gangue de motoqueiros, ataca uma mulher em um cinema (morde um pedaço sangrento do pescoço), depois mata duas pessoas em um mercado e fica encurralado enquanto os policiais cercam o prédio. Fiquei com a impressão que o sujeito não estava tão curado assim…

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Daqui pra frente, CANNIBAL APOCALYPSE se transforma num festival de mordidas violentas! Ao saber da situação de Bukowski, Hopper aparece no local e consegue convencê-lo a se entregar. Mas Charlie morde um policial no momento de ser colocado pra dentro do camburão. Em vez da prisão, Bukowski é transportado de volta para o hospital psiquiátrico, onde ele se reúne novamente com seu companheiro de guerra, Tommy. Este, acaba mordendo a perna de uma enfermeira, que o deixa amarrado a uma maca ao lado de Charlie, na ala de alta segurança.

Os médicos determinam que ambos são portadores de um vírus misterioso que de alguma forma os transforma em canibais. Mais tarde Hopper aparece no hospital e resolve libertar Charlie e Tommy e fugir com eles sabe-se lá pra onde… A enfermeira infectada por Tommy se junta a eles depois de morder a língua de um médico excitado. O inusitado quarteto rouba uma ambulância e parte para a noite deixando algumas vítimas no caminho, enquanto a polícia, liderada pelo Capitão McCoy (Wallace Wilkenson), se engaja em uma caçada frenética para deter os canibais antes que eles possam espalhar ainda mais o suposto vírus.

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Pois é, CANNIBAL APOCALYPSE é essa loucura absurda, mas interessante e divertido exemplar que se beneficia bastante da direção imaginativa e segura de Margheriti, que eleva o filme um ou dois níveis acima do habitual do cinema de exploração, além das performances sólidas do elenco, com destaque para Saxon e Radici. O conceito de um vírus canibal também é certamente uma das melhores ideias do filme, a de um fenômeno social representado no canibalismo como uma doença contagiosa, que é algo bem mais, digamos, reflexivo do que as filmagens de mortes de animais reais usadas nos cannibal movies tradicionais.

Eu sei, os efeitos especiais de CANNIBAL APOCALYPSE são de Giannetto De Rossi, que possui no currículo obras contendo algumas das mais extremas imagens do cinema italiano de gênero. Portanto, não é que não existam cenas de extrema violência gratuita e muitos efeitos sanguinolentos por aqui, só acho que não é somente nisso que Margheriti estava interessado… Mas os fanáticos por tais elementos mais impactantes não precisam se preocupar e vão se esbaldar, especialmente na cena de morte do personagem de Radice, filmado em toda a sua glória visceral. Não é a toa, portanto, que CANNIBAL APOCALYPSE tenha sido marcado por um histórico de censura e cortes em lançamentos pelo mundo. No Reino Unido, por exemplo, até 2005 o filme estava banido, assim como em outros países. No Brasil, foi exibido sem cortes em 1981 sob o título OS CANIBAIS DO HOLOCAUSTO. 

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O PÁSSARO DE PLUMAS DE CRISTAL (1970)

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Revisão do primeiro trabalho do maestro italiano do horror, Dario Argento, como diretor. É também seu primeiro giallo, sub-gênero que o consagrou. Claro, Argento não inventou o giallo, mas é um dos maiores responsáveis, junto com Mario Bava e Sergio Martino, pela sua sofisticação estética e fundamentação de seus conceitos. Mas O PÁSSARO DE PLUMAS DE CRISTAL ainda é o começo de tudo para Argento, sem o abuso de suas composições simétricas, cenários estilizados e exuberância de cores, mas fica evidente que o sujeito já sabia muito bem o que fazer com os elementos estéticos do gênero e com formulações importantes dos gialli, como a ideia do “investigador casual”, geralmente alguém ligado às artes ou um jornalista, que pode ou não ter testemunhado os crimes cometidos pelo assassino da trama, e passa a investigar o caso. Na verdade, para quem conhece alguma coisa do Argento, é legal perceber como ele já mantinha algumas obsessões atrás das câmeras, a começar pelo assassinato brutal de mulheres, indo por detalhes da cena do crime vistos pelo olho humano, mas enganados pela memória, os traumas do passado reverberando no presente, a busca obsessiva e, consequentemente, a falsa revelação da verdade… 

Em O PÁSSARO DE PLUMAS DE CRISTAL, Sam (Tony Musante) é um escritor americano que vive em Roma. Certa noite, a caminho de casa depois de socializar com um amigo, e completamente por acaso, acaba testemunhando uma tentativa de homicídio envolvendo a bela esposa de um dono de uma galeria de arte.

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Sam não consegue entrar no local para salvá-la, pois fica preso entre um conjunto de portas de vidro. Tudo o que o sujeito consegue é observar a mulher em agonia com o bucho perfurado por uma faca e esperar que alguém chame a polícia a tempo de salvá-la. A sequência é uma das mais inspiradas do filme, um trabalho de tensão e suspensão temporal – segundos que parecem horas – realizado com maestria.

Depois, Sam descobre que a mulher sobreviveu, e a polícia lhe diz que ela é apenas mais uma das poucas vítimas recentes de um serial killer que está operando na área. O assassino, um homem vestido com uma capa de chuva preta e, claro, um par de luvas de couro preto, sempre consegue escapulir antes que os policiais possam ser chamados e, para desgosto de Sam, continua à solta.

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A força policial de Roma, liderada pelo inspetor Morosini (Enrico Maria Salerno), tem boas intenções, mas não consegue apresentar pistas sólidas sobre o caso. Isso inspira Sam, que teve seu passaporte confiscado pela polícia até que estejam cem por cento positivos de que ele não tem nada a ver com os assassinatos, a fazer um pequeno trabalho de detetive por conta própria. Ele espera poder limpar seu nome e levar o assassino à justiça, matando dois coelhos com uma cajadada só.

O protagonista logo começa uma busca pela verdade. E é por isso que o um dos principais conceitos do giallo é essa lógica do “investigador casual”. Esqueçam um bocado os elementos estéticos, que obviamente estão lá (as luvas pretas e as facas reluzentes), mas que as pessoas geralmente usam como definição do gênero. Lembremos que para Argento a genialidade do giallo está exatamente nesse ponto: na ambiguidade que surge nessa quebra de uma tradição cinematográfica no qual a figura do policial faz apenas seu trabalho, enquanto a “testemunha casual”, geralmente um artista, se sente mais compelido a ir atrás da verdade, que no fim das contas é a função do artista, seja lá por qual meio artístico ele se expresse, que é investigar verdades que sirva para si e para o seu público. É o que faz o artista no giallo desbravar e arriscar, tentando resolver o mistério.

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Enquanto alguns de seus filmes posteriores são peças sublimes do horror surreal e bizarro, O PÁSSARO DE PLUMAS DE CRISTAL é um mistério de assassinato mais direto e, digamos, “realista”, que faz um bom ponto de partida para aqueles que não estão familiarizados com o trabalho de Argento ou até mesmo com o gênero. E fiquei impressionado até como o filme é bem mais intenso do que eu lembrava, com um estado de suspense que se mantem quase durante toda a narrativa. O filme ainda não possui muito do visual extravagante, como já disse antes, a exemplo de outros trabalhos de Argento, como SUSPIRIA e INFERNO, mas a cinematografia daqui é do grande Vittorio Storaro e tem muito estilo, o filme todo é lindamente fotografado, com muitos movimentos de câmera fluidos, então não deixa de ter momentos de deslumbre estético, que no fim das contas também faz parte da essência do giallo.

Há uma cena incrível, e particularmente sádica, em que a câmera assume o ponto de vista de uma das vítimas, acompanhando seu olhar, seus gestos, para revelar a figura do assassino imponente na porta de um quarto pronto para fazer mais um estrago. Não há aqui nenhuma grandiosa cenas de morte, como depois viriam as sequências operísticas de PROFONDO ROSSO, SUSPIRIA e TENEBRE, entre tantos mais. Ainda assim, o suspense é muito bem desenvolvido, a música de Ennio Morricone pontua com precisão, e soluções visuais discretas como essa citada são desses pequenos momentos de inventividade que Argento andava a experimentar e aqui já é digno de nota.

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O filme é a primeira parte de uma espécie de “trilogia dos animais” que marcou o início de carreira de Argento, formado ainda por O GATO DE NOVE CAUDAS e 4 MOSCAS NO VELUDO CINZA, que já comentei por aqui há alguns bons anos. Adoro os três filmes, mas fica claro pra mim o critério de, não sei se “aprendizado” seria a palavra ideal, mas funcionam bem como rascunhos das obras geniais que Argento viria a fazer alguns anos depois e que já citei durante o texto. Mas é o belo início de carreira de um dos maiores nomes do cinema mundial.

QUANDO VOAM AS CEGONHAS (1959); CPC UMES FILMES

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Já tinha visto QUANDO VOAM AS CEGONHAS no DVD que a Continental lançou na década passada. Não lembro direito da qualidade dessa versão – como sabemos qualidade nunca foi o forte dessa pífia distribuidora – mesmo assim, lembro de ficar extremamente impressionado com as imagens que o diretor Mikhail Kalatozov e o seu fotógrafo, Sergey Urusevsky, conceberam. Um deslumbrante exercício estético em preto e branco de encher os olhos. Toda essa impressão se confirmou agora com a revisão do filme lançado em DVD, com imagem restaurada, pela CPC UMES FILMES, na sua incrível série Cinema Soviético. 

QUANDO VOAM AS CEGONHAS foi a coroação do cinema soviético no período e um dos melhores filmes anti-guerra já feitos. Trata-se de uma experiência emocionalmente devastadora, contando a história de amor envolvendo o jovem Boris, que se une ao exército soviético num rompante de patriotismo, deixando para trás a sua bela namorada Veronika. O filme detalha minuciosamente a maneira como a guerra separa os dois pombinhos, tornando-se um dos primeiros filmes soviéticos a realmente lidar com os efeitos negativos da Segunda Guerra Mundial.

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Dois pontos chamam a atenção em QUANDO VOAM AS CEGONHAS. Primeiro, o coração do filme é Tatiana Samoylova, que dá vida à Veronika, numa atuação hipnotizante e emocionalmente forte. Uma das grandes performances do período. Sobrinha-neta do famoso e influente ator e professor de teatro Constantin Stanislavski, cujo método de atuação inspirou dezenas de grandes atores como Marlon Brando, Jack Nicholson, Paul Newman e muitos outros, é bem provável que Samoylova tenha usado seus ensinamentos. Demonstrando grande talento e uma beleza ímpar, foi convidada para trabalhar em Hollywood e em outros lugares fora da União Soviética depois de QUANDO VOAM AS CEGONHAS, mas foi forçada a recusar essas ofertas por conta da situação política daquele contexto. Infelizmente, seu único outro grande papel foi na aclamada adaptação soviética de 1967 de Anna Karenina.

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Outro ponto marcante de QUANDO VOAM AS CEGONHAS é o visual impactante, que já mencionei, o deslumbre das imagens, um trabalho extremamente ousado e inventivo em termos de direção e cinematografia, com uso de câmeras na mão, composições viscerais e utilização dos espaços e profundidade de campo. É dessas obras reveladoras sobre como as possibilidades ilimitadas no manuseio de uma câmera, da edição, da luz e sombras, essa matéria prima que chamamos de CINEMA, têm a capacidade de transcender a própria natureza do filme…

Não existe um plano sequer em QUANDO VOAM AS CEGONHAS que seja imperfeito ou desnecessário. Há uma sequência, no entanto, que é uma das minhas favoritas, quando Veronika corre em direção à uma estação de trem e Kalatosov faz desse simples ato um dos momentos mais imaginativos do filme, com uma câmera chacoalhando, um trabalho de câmera genial que cria um efeito ofegante, permitindo que nos sintamos exatamente como Veronika se sente. É simplesmente absurdo.

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Não é toa que digo que foi a coroação do cinema soviético. QUANDO VOAM AS CEGONHAS recebeu a Palma de Ouro no festiva de Cannes, em 1958, desbancando filmes como MEU TIO, de Jacques Tati, e NO LIMIAR DA VIDA, de Ingmar Bergman. E apesar de não ter vencido como melhor atriz, Samoylova recebeu uma menção especial por sua atuação.

Kalatosov também é conhecido por outra obra deslumbrante chamada EU SOU CUBA, um filme todo encadeado com alguns dos mais belos planos da história do cinema. Também foi lançado aqui no Brasil numa edição vagabunda pela Continental. Nada que a CPC UMES FILMES não possa consertar com uma edição caprichada, da mesma forma que temos agora esta de QUANDO VOAM AS CEGONHAS, uma obra-prima do cinema soviético indispensável a qualquer indivíduo interessado por cinema de verdade.

O filme pode ser encontrando na loja virtual da distribuidora e em várias lojas do gênero e livrarias. E não deixe de curtir a página da CPC UMES FILMES no Facebook para ficar sabendo das novidades, especialmente do cinema soviético, e os seus próximos lançamentos em DVD e no cinema.

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2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK (1983)

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O primeiro filme que assisto em 2019 é, obviamente, o fantástico 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK, um dos meus clássicos favoritos do ciclo “pós-apocalíptico” italiano dos anos 80, junto com FUGA DO BRONX e OS GUERREIROS DO BRONX, ambos de Enzo G. Castellari. Produções desesperadas em tentar lucrar ao máximo e aproveitar o sucesso internacional de FUGA DE NOVA YORK, de John Carpenter, e MAD MAX 2, de George Miller, entre outras coisas, mas que rendiam um manancial de pérolas absurdamente divertidas (em alguns casos). Eram os anos 80, enquanto o mundo caminhava para o fim da guerra fria, havia uma certa paranóia em relação a uma Terceira Guerra Mundial que acabou refletida e imaginada em filmes pós-apocalípticos como o do Carpenter e Miller. E é nessa tentativa de ganhar um trocado em cima do sucesso desses filmes, criando suas próprias versões, criando praticamente um gênero, que o ciclo italiano ficou marcado.

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No entanto, alguns desses filmes possuem tanta personalidade, que acabam também influenciando futuras produções. E acho que 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK pode se orgulhar de ter esse feito, uma vez que trata-se de uma versão italiana descarada de FUGA DE NOVA YORK, mas claramente inspirou a história de FILHOS DA ESPERANÇA, de 2006, do hoje consagrado diretor mexicano Alfonso Cuarón, com a busca do herói para encontrar e proteger a última mulher fértil num futuro distópico (com direito à um personagem que exibe proeminentemente “Guernica” de Picasso em sua parede)…

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Cena do filme FILHOS DA ESPERANÇA, de Alfonso Cuarón…

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…E uma cena de 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK. Coincidência? Acho que não.

A trama de 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK se passa vinte anos após o holocausto nuclear que praticamente devastou com o planeta. Os sobreviventes sofreram mutações e se tornaram inférteis. Há quinze anos não nasce um indivíduo nessa realidade. O guerreiro nômade Parsifal (Michael Sopkiw) é sequestrado a mando do presidente da Pan-Americana, uma confederação rebelde que luta contra os Eurac, que se intitularam vencedores da guerra. É explicado a Parsifal que estão planejando lançar uma espaçonave para realocar alguns indivíduos para Alpha Centauri, um conjunto de planetas com atmosfera habitável e é oferecido a ele um lugar na nave se aceitar a missão. A coisa consiste em adentrar as ruínas de NY para resgatar a única mulher fértil que restou. “Entrar em Nova York é fácil. Sair que é impossível“, diz o presidente interpretado pelo grande Edmund Purdon, numa sequência que remete logo de cara ao primeiro encontro de Lee Van Cleef e Kurt Russell no filme de Carpenter.

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Parsifal concorda, relutante, e vai acompanhado de dois outros membros rebeldes: Bronx (Paolo Maria Scalondro), um sujeito que perdeu sua família em NY durante a guerra e tem ódio mortal dos Eurac, e o misterioso Ratchet (Romano Puppo), um caolho que possui força sobre-humana. O resto de 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK se resume na missão desses aventureiros numa Nova York devastada, que é controlada pela tropa Euracs, esgueirando-se para não serem encontrados, algo impossível, o que acarreta numa dinâmica de ação que não deixa o filme parado, e aliando-se aos povos mutantes que vivem nas ruínas. Especialmente um anão, com o “criativo” nome de… Shorty (Louis Ecclesia).

A direção desse petardo é de Sergio Martino, um maestro relegado à condição de “menor”, por nunca ter o mesmo reconhecimento entre os mais cultuados do cinema de gênero italiano, como Lucio Fulci, Mario Bava e Dario Argento. Mas os autênticos admiradores desse tipo de cinema sabem de sua importância e legitimam seu imenso talento por colocar na tela exatamente o que seu público espera. Como já disse, é um filme que não diminui o ritmo em seus noventa e poucos minutos, o andamento das coisas em 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK é muito bom nesse sentido. O roteiro pode até não ser dos mais elaborados, com diálogos inspirados, mas mesmo nos trechos mais lentos, cuja impressão é de que vamos entrar num marasmo e nos aborrecer, Martino não demora para mostrar alguma situação absurda, apresentar personagens bizarros e jogar muita ação na tela, em sequências explosivas, lutas e tiroteios, com direito à um bocado de gore, olhos perfurados e cabeças explodindo.

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Algumas sequências que poderiam passar puramente de um xerox de FUGA DE NY acabam ganhando bastante personalidade nas mãos de Martino. Um bom exemplo é quando o grupo tenta fugir de NY num carro antigo, do século XX, através de um túnel “minado”, mais uma referência óbvia de Snake Pliskenss levando os seus, dirigindo pela ponte minada no climax do filme de Carpenter. Martino trabalha tantas ideias e incrementa tanto a ação, que a sua fuga acaba ganhando um novo sentido, tem sua própria força, sem ficar nada a dever ao filme, digamos, “homenageado”…

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Mas o grande contraste de Martino em relação ao filme de Carpenter é na construção do herói Parsifal. À princípio, temos um Snake de meia-tigela, cuspido e escarrado, com uma rebeldia latente e desprezo pelas autoridades, e totalmente desacreditado de que a raça humana mereça uma segunda chance com a possibilidade de uma mulher fértil em voltar a perpetuar o homem, como planeja o presidente. Mas onde o personagem de Kurt Russell permanece o individualista anárquico-pessimista-niilista até o fim, Parsifal se entrega aos sentimentos quando se apaixona por uma das habitantes das ruínas de NY. Isso muda tudo.

Sopkiw não é um Kurt Russell, obviamente, mas entrega uma atuação sólida em 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK, digno dos grandes heróis do cinema pós-apocalíptico italiano. Era a sua estreia no cinema, já tinha feito alguns trabalhos como modelo e Martino resolveu arriscar com o rapaz porque ficaria bem mais barato dentro do orçamento da produção, que já era apertado. Em entrevista, Martino fala que gostou de trabalhar com Sopkiw, que encaixou perfeitamente ao papel. E revela que estrelar um filme dele serviria de trampolim para qualquer ator iniciante. De fato, Sopkiw teve um breve momento de fama no meio dos anos 80, fez quatro filmes legais no período, mas logo depois resolveu abandonar a carreira e se dedicar à outros assuntos… Já comentei sobre Sopkiw no post sobre BLASTFIGHTER, de Lamberto Bava. Depois confiram aqui.

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Sem precisar gastar rios de dinheiro com um Franco Nero ou Giuliano Gemma, Martino pôde trabalhar com cuidado o visual, nos mínimos detalhes. Vale destacar, portanto, os efeitos especiais que abusam de miniaturas e maquetes, que são toscas sob um olhar mais exigente, mas que dão aquele charme a mais neste tipo de produção. Os figurinos, maquiagens dos mutantes – ou a cena em que um personagem precisa fazer uma cirurgia de colocação de olhos novos – e os cenários desse universo pós-apocalíptico também são caprichados. E o diretor aproveita bem desse material, dos close nas caras dos atores maquiados, com suas feridas putrefatas, ao bom uso do espaço físico na ação. O elenco também merece atenção, trazendo alguns bons nomes deste período do cinema popular italiano, como os já citados Romano Pupo, Edmund Purdon e o grande George Eastman, que rouba a cena com seu Big Ape, um mutante metade homem, metade macaco, que lidera uma trupe de seres bizarros.

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Portanto, o que temos aqui é uma obra genial, ou seja, uma picaretagem das boas do cinema de gênero italiano, que copia na cara dura o clássico de John Carpenter, FUGA DE NY, mas com tanta imaginação e personalidade, que acabou resultando em algo único, que sem dúvida alguma, o diretor mexicano Alfonso Cuarón usou de base para escrever FILHOS DA ESPERANÇA trinta anos depois. Uma última constatação é a influência de BLADE RUNNER, de Ridley Scott, em 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK, na lógica dos replicantes, de androides que se confundem com seres humanos e que estão entre os indivíduos que povoam o filme. E que, aliás, também se passa em 2019… Pelo visto, esses cineastas tinham uma ideia bem pessimista deste ano específico. Mas apesar do mundo não estar tão ruim quanto nessas visões de futuro, até que acertaram em alguns pontos. Mas vamos que vamos…

O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES (1987); CPC UMES FILMES

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Pode parecer incomum, mas existe um gênero chamado Red Western, formado por produções que recriam o velho oeste americano sob uma visão, e até uma ideologia, do bloco oriental, especialmente a União Soviética. Não sou lá grande especialista no assunto e vi pouquíssimos exemplares, mas recentemente a CPC UMES Filmes lançou o que, definitivamente, deve ser um dos melhores Red WesternO HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES, da diretora ucraniana Alla Surikova. Na verdade, trata-se mais de uma sátira ao mito do western, com toda a sua iconografia e bagagem de gênero mais cinematográfico da sétima arte, servindo como moldura e pretexto para uma bela homenagem ao próprio cinema.

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Um projecionista, chamado Mr.First, chega a uma pequena cidade do Oeste selvagem e traz consigo um primitivo projetor com várias bobinas dos primeiros filmes da história do cinema. Todas as noites, ele faz uma sessão no bar local, o que surte um grande efeito nos caubóis. Logo na primeira dessas sessões, O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES recria o famoso relato dos espectadores que viram pela primeira vez a imagem do trem chegando à estação, no filme dos irmãos Lumière, projetado no Salão Indiano do Grand Café do Boulevard des Capucines, de onde título deste aqui faz uma alusão, e no qual, segundo consta a história, teria sido caótico, com as pessoas se levantando das cadeiras, assustadas, achando que seriam atropelados pelo trem da tela…

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Aqui os personagens recebem essas imagens com chumbo grosso, fazendo vários buracos no lençol branco pendurado na parede do saloon… Mas à medida que as sessões vão acontecendo, seus comportamentos vão mudando. Eles param de brigar um com os outros, começam a falar mais educadamente e se portar com cavalheirismo; e ao invés de doses de whisky, começam a encher a cara com leite…

Obviamente é uma ideia um tanto ingênua essa de O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES  na sua análise sobre a influência do cinema no comportamento humano, no seu poder de transformação através das imagens. Mas não deixa de funcionar como fábula auto-reflexiva nesse sentido. E, além disso, desde o início o filme estabelece claramente suas intenções satíricas, com números musicais e um humor que beira ao pastelão em alguns momentos, e não uma tese acadêmica sobre o assunto. Importa muito a diversão, as sequências e gags que surgem em consequência dessa ideia de levar o cinema a um tempo e lugar remoto, em um universo tão inerente à sétima arte como o velho oeste; e, claro, a ideia da primeira experiência cinematográfica, como o indivíduo é afetado por imagens em movimento projetadas num lençol branco na parede.

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Algumas sequências são memoráveis e afirmam a vitalidade da diretora Surikova na realização. O bar local sendo completamente destruído numa típica e exagerada briga de saloon e, logo depois, os próprios brigões põem-se a trabalhar para consertar o estrago; os trechos em que o pastor da igreja e o dono saloon põem em prática seus planos diabólicos para acabar com as sessões de cinema (ambos representando repartições do sistema que gostam de cagar regra na cultura da sociedade: igreja e capitalistas); ou o épico tiroteio, com balas que não machucam ninguém, mas muito bem coreografado,  quando um bando de índios invade a cidade querendo participar das projeções; mas o simples fato do filme possuir essa ótica soviética de um universo tão ocidental, tão americano, com personagens ultra estereotipados do velho oeste – e a esquisitice de vê-los falando em russo – já seria suficiente para tornar O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES um exemplar notável do cinema soviético.

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Como já disse antes, O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES foi lançado em DVD no Brasil recentemente pela CPC UMES Filmes, e é uma dessas pérolas do cinema mundial que merece ser redescoberto (foi um grande sucesso na Russia, na época de seu laçamento, mas hoje anda esquecido). Merece também um lugar na prateleira e pode ser adquirido na loja virtual da distribuidora. E não deixe de curtir a página da CPC UMES FILMES no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

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SUSPIRIA (1977)

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Vocês sabem, SUSPIRIA, o clássico absoluto do horror italiano do mestre Dario Argento, será lançado num remake dirigido por Luca Guadagnino, de ME CHAME PELO SEU NOME. Pra mim, remakes nem fedem nem cheiram, mas acabo assistindo. Se forem bons, elogio, se forem ruins, lamento a perda de tempo… Poderia ter visto coisa melhor. Mas mantenho sempre a ideia de que o original estará lá para ser visto e revisto independente de quantas refilmagens fizerem. No caso de SUSPIRIA, até acho que pode sair algo interessante. O cinema de horror atual anda num bom momento e acho o Guadagnino um sujeito com talento. É só não esperar nada no mesmo nível que é a maravilha do Argento que vou encarar de boa…

Sobre o filme do Argento, revi há poucos dias em DVD em casa mesmo. Uma belezura. Mas a melhor experiência que tive com o filme, foi mais ou menos há um ano quando SUSPIRIA passou remasterizado no Instituto Moreira Sales, da Paulista, onde tive a oportunidade de sentir o poder sensorial dessa obra-prima do horror em todo o seu esplendor. Quero dizer, aquela telona explodindo a exuberância de cores e o volume até o talo, ficou simplesmente impossível sair da sessão sem estar, no mínimo, atordoado.

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Nem é o meu filme favorito do Argento, fico com INFERNO (1980) ou PROFONDO ROSSO (1975), mas SUSPIRIA tem um cantinho reservado no coração e revê-lo é uma experiência visual transcendental, seja numa tela de cinema, seja na TV em DVD. Sempre fico de queixo caído com sua narrativa onírica, a trilha sonora experimental do Goblin, o design de produção estilizado e as composições visuais meticulosamente trabalhadas em benefício do horror, de um universo de horror muito próprio, um mundo de beleza, mistério, oculto e violência… É um festival sensorial único, a síntese do filme de horror como arte.

A sinopse é bem simples: uma estudante americana de balé, Suzy Banyon (Jessica Harper), chega numa noite tempestuosa em Freiburg, na Alemanha, para estudar numa prestigiosa academia de dança. Quando um táxi a deixa na entrada do local, ela vê uma jovem na porta agindo de modo estranho antes de sair para a noite, correndo pela floresta encharcada e escura. No dia seguinte, quando Suzy se estabelece na escola, descobre que a garota que viu na noite anterior foi brutalmente assassinada. A partir daí, Suzy começa a perceber que há algo nitidamente bizarro, ocorrências estranhas vão rolando na escola e com seu corpo docente, e ela resolve meter o nariz para descobrir…

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Qualquer coisa além disso já não tem tanta importância. Quero dizer, para ser sincero, a trama e seus dispositivos narrativos, construção de personagens e etc, não são exatamente o que mais interessam ao Argento, ainda que integrem o universo formal do diretor como contador de história de terror. O fato é que Argento chega a um ponto da carreira no qual o enredo e personagens se tornam completamente subservientes ao visual, à atmosfera, à música. O que realmente importa em SUSPIRIA, portanto, é a lógica de pesadelo que motiva os personagens a agirem de forma absurda em cenários barrocos onde a violência é bela. São exatamente os momentos em que o trabalho visual se destaca que SUSPIRIA se revela tão magistral e original. A sequência do primeiro assassinato é uma das minhas favoritas, digna de antologia: a violência, o sangue, a faca entrando no coração exposto e os últimos e trágicos enquadramentos (alguns dos mais icônicos do horror italiano)… O que se vê na tela é pura poesia.

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Dizem que Daria Nicolodi, atriz e roteirista italiana que era casada com Argento e que escreveu o roteiro de SUSPIRIA, baseou-se nas experiências de sua avó, que frequentou uma escola de atores onde os professores também ensinavam magia negra aos alunos… Vai saber se isso é verdade. Em outras declarações, ela diz que a ideia de SUSPIRIA teria surgido de um sonho que teve. O que faz mais sentido. A sensação parece ser mesmo a de um pesadelo estruturado num conto de fadas macabro, com os personagens falando coisas sem sentido e percorrendo os corredores sinistros e ricamente decorados da Academia de Dança. É como se Suzie entrasse numa espécie de buraco do coelho, como em Alice no País das Maravilhas, só que o mundo paralelo aqui é mais peculiar ao pesadelo, ao horror. SUSPIRIA me mostrou o quão aterrador, poético e sofisticado o cinema de horror italiano pode ser (e não só o Argento, mas também Fulci, Bava, Soavi, Freda, etc).

Então, que venha o remake, mesmo tendo consciência de que vai ser praticamente impossível superar este aqui. Mas se for bom, já tá valendo.

Ah, e só pra lembrar, SUSPIRIA é o primeiro exemplar de uma trilogia unida a partir da ideia das “Três Mães”, um triunvirato de bruxas ancestrais e maléficas cuja magia poderosa lhes permite manipular eventos mundiais em escala global. Os outros filmes são o já citado INFERNO e THE MOTHER OF TEARS.

O DESTINO DE UM HOMEM (1959); CPC UMES FILMES

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Baseado num romance de Mikhail Sholokhov, O DESTINO DE UM HOMEM narra a odisseia amarga de um soldado soviético na Segunda Guerra Mundial. Andrei Sokolov (interpretado pelo próprio diretor, Sergei Bondarchuk), é um simples carpinteiro que deixa sua esposa, um filho e duas filhas, para atuar na guerra como caminhoneiro, prevendo que voltaria em breve. Seu destino, no entanto, não corresponde às suas previsões e ele acaba caindo nas mãos dos nazistas. A história é contada num longo flashback, numa narrativa que contempla vários anos em que vemos o sujeito comendo o pão que o Diabo amassou, pulando de um campo de concentração a outro, tratado brutalmente pelos alemães e forçado a trabalhos desumanos.

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Há vários pontos fortes para elogiar no filme de Bondarchuk, os vários “blocos” que estruturam o filme guardam momentos interessantes, de situações carregadas de sentimento à instantes de pura tensão. Mas uma coisa que me impressiona em tudo isso é como esses soviéticos filmam bem pra cacete. O olhar expressionista do diretor não fica nada a dever de seus “conterrâneos” do período, como Grigori Chukhrai, em A BALADA DE UM SOLDADO, ou Mikhail Kalatozov, com QUANDO VOAM AS CEGONHAS, que são filmes que tiveram maior projeção internacional na época, especialmente pelo cinema formalmente inventivo que praticavam. O DESTINO DE UM HOMEM também chama a atenção nesses quesitos, seja pela estética, com um imaginário preto-e-branco poético na maior parte do tempo, ou seja pelo trabalho de câmera e montagem espetaculares. A sequência que antecede a prisão de Andrei, com o sujeito dirigindo seu caminhão num campo aberto em meio a um bombardeio nazista, por exemplo, é simplesmente arrebatador, desses momentos que provam que, pelo menos no formalismo, na técnica, os soviéticos eram insuperáveis e estavam muito à frente de grande parte do cinema de Hollywood do período.

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Alguns anos depois, Bondarchuk dirigiria WATERLOO, produção internacional sob a batuta de Dino De Laurentiis, com Rod Steiger no papel de Napolão Bonaparte… Acho que vale a pena ir atrás.

O DESTINO DE UM HOMEM é um belíssimo filme de guerra, humano e tocante que merece ser visto e admirado. E foi lançado em DVD recentemente no Brasil pela CPC UMES FILMES numa ótima edição, com imagem restaurada. Vale a pena uma visitada na loja online da distribuidora para adquirir este e várias outras obras sensacionais do acervo da distribuidora, repleta de preciosidades soviéticas. E curta também a página da CPC UMES FILMES no Facebook para ficar por dentro das novidades e futuros lançamentos.

DOGMA 95

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Há vinte anos surgiu o movimento DOGMA 95. Alguém ainda se lembra dessa joça? É engraçado que outro dia conversando com alguns amigos e relembrando esse movimento, até hoje percebo que as pessoas cometem equívocos como falar que BREAKING THE WAVES ou DANÇANDO NO ESCURO, ambos do Lars Von Trier, são exemplares do DOGMA. Sinto-lhes informar, mas não são… Acho que ninguém se importa com isso agora passados vinte anos, mas acho que vale uma explicação. O movimento DOGMA 95 surgiu do encontro entre Trier e outro cineasta dinamarquês, Thomas Vinterberg (mais tarde outros diretores dinamarqueses se juntaram como cabeças do movimento), em março de 95, como um manifesto contra os caríssimos enlatados americanos e sua falsidade imagética, celebrando uma linguagem mais pura do cinema, um resgate do cinema sem artifícios, que destacava o valor artístico de produções independentes… No entanto, evidente que se tratava de uma jogada de marketing que buscava dar visibilidade ao cinema independente europeu, especialmente o dinamarquês, na forma de uma provocação.

Marketing ou não, o manifesto consistia num “voto de castidade” formulado em dez regrinhas que precisavam ser cumpridas na realização de um filme. São elas:

  1. As filmagens devem ser feitas em local. Não podem ser usados acessórios ou cenografia;
  2. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena;
  3. A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos – ou a imobilidade – devidos aos movimentos do corpo. O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar;
  4. O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera);
  5. São proibidos os truques fotográficos e filtros;
  6. O filme não deve conter nenhuma ação “superficial”. (Homicídios, Armas, etc. não podem ocorrer);
  7. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (O filme ocorre na época atual);
  8. São inaceitáveis os filmes de gênero;
  9. O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. (Originalmente, o regulamento exigia que o filme deveria ser filmado em 35 mm, mas a regra foi abrandada para permitir a realização de produções de baixo orçamento);
  10. O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

Em 1998, os filmes começaram a pipocar no Festival de Cannes. Portanto, Vinterberg fez um único filme dentro do movimento, FESTA DE FAMÍLIA, que é o DOGMA #1 e o Lars Von Trier dirigiu seu único exemplar sob o crivo relativo das regrinhas, OS IDIOTAS, que é o DOGMA #2. Por favor, não me venham me falar que DANÇANDO NO ESCURO ou DOGVILLE fazem parte do DOGMA 95.

Nos anos seguintes vários filmes foram surgindo e todos que eram “aprovados” como DOGMA, recebiam um certificado que era colocado logo no início de cada filme:

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Certificado do DOGMA #28, OPEN HEARTS, de Susanne Bier

Toda essa introdução foi para dizer que há alguns dias eu andei revendo os três primeiros DOGMA’s, só pra ver como seria voltar a ter contato com esse tipo de material depois de tantos anos, um tipo de cinema que em determinado período da minha cinefilia se fez muito presente, numa época de descobertas e “atirando pra todo lado”… Até hoje o DOGMA 95 possui detratores que torcem o nariz, por preconceito, má vontade ou por realmente não fazer o gosto do freguês. Eu mesmo não consegui passar do terceiro filme e por muito tempo era um “estilo” que eu não tinha o menor interesse. Talvez ainda não tenha, mas preciso confessar que pelo menos os dois primeiros exemplares me surpreenderam extremamente nessa revisão.

Tanto FESTA DE FAMÍLIA quanto OS IDIOTAS são excelentes, especialmente em suas empáfias provocadoras e perturbadoras. O filme de Vinterberg talvez tenha uma construção narrativa mais interessante e elaborada, com uma trama que te prende do início ao fim, um rigor nas encenações e uma câmera ágil e nervosa que me deixou sem piscar durante toda a projeção. No aniversário de sessenta ano de um respeitado patriarca aristocrata, num casarão isolado no campo, reúne-se todos os parentes do velhote em ritmo de festa. O filho mais velho e distante resolve fazer um discurso, dá a tradicional batidinha na taça de champanhe e solta uma bomba, revelando todos os podres e depravações que seu pai acometera e que resultou no suicídio de uma das filhas do velho. Pensem nas consequências… A maneira como a história de FESTA DE FAMÍLIA vai se desenvolvendo a partir de então, adicionando uma carga de tensão e intensidade gradual, é de deixar mais apreensivo que um terrozão dos brabos…

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FESTA DE FAMÍLIA foi um grande sucesso no Festival de Cannes e ganhou o Prêmio do Júri, provando que fazer bons filmes não é realmente uma questão de dinheiro, mas de talento e, de vez em quando, uma boa dose de radicalismo.

Já no quesito provocação, OS IDIOTAS transforma FESTA DE FAMÍLIA em contos de fadas. Lars Von Trier criou uma das obras mais incômodas e subversivas do cinema contemporâneo ao mostrar um grupo de pessoas que estabelece uma comunidade no qual se realiza um experimento, que consiste em descobrir seus “idiotas interiores”. Ignorando todas as regras sociais, os personagens de OS IDIOTAS deixam suas famílias para viver juntas em uma casa, desfrutando de casos aleatórios e públicos enquanto se comportam como deficientes mentais. Embora esse modo de viver aparentemente lhes proporcione uma oportunidade de redescobrir a felicidade e um “lugar no mundo”, o espectador mais sensível termina o filme atormentado com as imagens ofensivas que Lars Von Trier, sem concessão alguma, apresenta e que colocam à prova a tolerância do público.

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Sequências como a visita de um grupo de portadores de síndrome de Down ou a que o líder do grupo deixa um dos membros nas mãos de uns brutamontes numa lanchonete são exemplos de que o choque em Von Trier nem sempre é leviano ou oportunista, como seus detratores proclamam, e vem sempre bem acompanhado de uma encenação digna, honesta e que mergulha a fundo no campo da reflexão.

Na época de seu lançamento, OS IDIOTAS não foi tão aclamado como FESTA DE FAMÍLIA, gerou reações ambíguas, obviamente pelo seu tom debochado, sua provocação ofensiva e até por conta de algumas cenas sexuais extremas e explícitas. Se FESTA DE FAMÍLIA e OS IDIOTAS tiveram sucesso no resgate de um cinema puro, aí já não sei… Até porque ambos mandam às favas as tais regrinhas do DOGMA e, por exemplo, em OS IDIOTAS temos até momentos com trilha sonora. O que não quer dizer muita coisa, já que o que importa é o resultado: filmes do caralho!

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Revi também o DOGMA #3, MIFUNE, de Søren Kragh-Jacobsen, lançado em 1999, e desta vez já não achei grandes coisas… Ou já fiquei de saco cheio já no terceiro dia consecutivo assistindo DOGMA’s… Ou talvez seja porque os dois primeiros exemplares sejam mais barra-pesada, enquanto MIFUNE mostra uma luz de esperança… O personagem central, após a morte de seu pai, retorna para a fazenda onde cresceu, em algum lugar na Dinamarca, para cuidar de seu irmão com deficiência mental, Rud (impressionante desempenho de Jeper Asholt). Ele contrata uma ex-prostituta, como empregada doméstica, e é até interessante o triângulo de relações humanas que se constitui. Mas a coisa não sai muito disso e lá pelas tantas percebi que o filme não ia chegar a lugar algum. Quando finalmente se estabelece com mais força os conflitos e segredos obscuros são revelados, era tarde de mais e já não tinha muito interesse pelos destinos dos personagens. Vale a pena conhecer MIFUNE, de qualquer forma, especialmente para quem tem curiosidade ou se interessou pelo movimento DOGMA 95.

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Se calhar, comento outros filmes do DOGMA 95, dependendo do interesse do leitor… Senão, paro por aqui. Pra mim tanto faz. Só espero agora que o novo filme do Lars Von Trier chegue logo por aqui, A CASA QUE JACK CONSTRUIU, que é um dos mais aguardados do blog este ano.

BUÑUEL #3: LAS HURDES (1933)

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Na época do lançamento de A IDADE DO OURO, Luis Buñuel foi convidado a ir à Hollywood como “observador”, portanto, não estava presente quando explodiu o escândalo de seu último trabalho, o choque entre a grã-finagem burguesa numa pré-estreia às portas fechadas na mansão do produtor (que não sabia do que se tratava o filme, deu total liberdade à Buñuel, que também não fazia questão nenhuma de lhe contar nada à respeito).

Em Hollywood, as aventuras de Buñuel, sempre rabugento e agressivo a tudo e a todos, duraram pouco tempo. Certo dia, o produtor da MGM Irving Thalberg pediu ao espanhol uma opinião a respeito de um filme falado em castelhano estrelado por uma atriz chamada Lili Damita, e Buñuel lhe respondeu: “Não quero ouvir putas“. Foi expulso de Hollywood e voltou para a Espanha.

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Na sua terra natal, Buñuel leu um livro sobre a região das Hurdes e percebeu material para um novo filme. O problema era arranjar grana depois da recepção de A IDADE DO OURO, nenhum produtor ia arriscar botar dinheiro nas mãos de um inconformado iconoclasta subversivo… O jeito foi ir atrás de alguns amigos e contar com a sorte. Muita sorte. Um desses amigos era um anarquista chamado Ramón Acin que se apaixonou pelo tema de LAS HURDES e disse a Buñuel: “Se eu ganhar na loteria, dou-te tudo para teu filme“. E ganhou! O valor não era exatamente uma fortuna, mas já era um começo. O diretor de cinema Yves Allegret também contribuiu, pagou o aluguel da câmera e Buñuel partiu para Hurdes com seus colaboradores para filmar.

LAS HURDES é um documentário sobre a tal região que dá nome ao filme, na qual Buñuel compreendia que a realidade já era bastante expressiva e surreal suficiente para ficar fantasiando na ficção. Trata-se de uma região remota da Espanha onde, ainda na década de 30, a civilização mal se desenvolveu e o filme mostra como os camponeses locais tentam sobreviver às duras penas nessa realidade. Buñuel consegue criar imagens impressionantes desse cotidiano e até encontra certa lógica surrealista que lhe é tanto peculiar…

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Obviamente é um filme forte para o período pela situação de degradação humana que Buñuel faz questão de mostrar sem qualquer concessão. Só que aí vem a pegadinha genial do diretor. Buñuel recria situações, cenas e “realidades” para enfatizar o todo. Exemplo: há um plano em que o narrador diz que as cabras da região caem com certa frequência do alto dos rochedos e morrem. Exatamente neste momento, o que aparece na tela é uma cabra despencando do alto de um rochedo… E no canto da tela uma fumaça que não fizeram nem questão de tentar esconder, provavelmente de uma espingarda, que alveja o animal e o faz cair morto.

Dessa maneira, LAS HURDES cria um choque de imagem-verdades, que é a essência do próprio cinema. “A câmera mente 24 vezes por segundo“, como diz Brian De Palma. Socialmente, aliás, é muito mais importante para Buñuel mostrar o que podemos chamar de imagem-inquisitório, para acordar o ímpeto de revolta dos espectadores, do que salvar um burro de um enxame de abelhas, uma das cenas que me vem à mente da galeria de “gags” trágicas da narrativa de LAS HURDES, ou evitar a ideia de atirar numa cabra no alto de um rochedo só para filmá-la caindo… Perturbador e fascinante, o documentário não deixa de ser a visão corrosiva de um surrealista.

LAS HURDES tem disponível no youtube, tem só 30 minutos de duração e vale a pena ser visto.

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OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU (1976) | CPC UMES FILMES

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Acho que nunca tinha visto um filme tão autêntico sobre ciganos, que faz tanto um estudo realista antropológico desse universo quanto extrai um lirismo, uma poesia imagética cheia de artificialidades e clichês a partir dessa cultura. E tudo funciona lindamente… Produzido pela Mosfilm e baseado no conto “Makar Chudra” (1892), a primeira obra literária publicada pelo escritor russo Maximo Gorky, OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU, de Emil Loteanu, romantiza esse universo habitado por figuras tão enigmáticas, marginalizadas e excêntricas, com uns bigodões de fazer o Tom Selleck morrer de inveja… Figuras sempre festivas, alegres, de espírito livre e aventureiro. Mas também melancólicas e trágicas por natureza.

O filme se contextualiza no final do século XIX, na província austro-húngara da Bessarabia e tem como fio condutor uma história de amor: o ladrão de cavalos cigano Loiko Zobar (Grigore Grigoriu) – “Não há cavalo que Loiko não pudesse roubar e nenhuma garota que pudesse resistir a ele…” que se apaixona perdidamente pela clarividente e sedutora Radda (Svetlana Toma), cujo olhar seria capaz de parar uma manada de cavalos descontrolados. Como pano de fundo, uma região ocupada militarmente que enfatiza o tom opressivo dos poderosos em contraste com a linhagem libertária cigana.

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Sem prezar tanto por um rigor narrativo, é nos costumes culturais, no carnaval de cores, sons, na musicalidade e imagens que desfilam na tela que o diretor Loteanu foca suas atenções e reside o charme de OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU. Algumas de suas imagens grudam na memória e da paixão do ladrão de cavalos por Radda surgem momentos de pura poesia: Radda, de seios nus, tira as suas longas saias coloridas, uma após a outra, e há dezenas delas! Ou o último encontro do casal que termina de maneira digna das mais famosas tragédias de Shakespeare…

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Há também alguma ação, perseguições à cavalo, brigas de facas e situações de perigo… Se OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU tivesse inaugurado um gênero mais movimentado, eu chamaria de “gypsie western“…

Eu já havia ficado embasbacado com o outro filme do diretor moldávio Emil Loteanu, que foi uma dessas descobertas das mais interessantes que fiz nos últimos tempos. Descoberta graças ao lançamento em DVD da CPC UMES FILMES no final do ano passado de UM ACIDENTE DE CAÇA, que eu já comentei por aqui. Agora a distribuidora nos brinda com OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU, mais uma obra peculiar, de rara beleza poética, da coleção “Cinema Soviético” que todo mês a CPC UMES FILMES tem lançado.

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Para conhecer mais o trabalho da distribuidora, descobrir as maravilhas de seu acervo, comprar (que é o mais importante) e saber das novidades, não deixe de visitar a loja on line da distribuidora e também a página no Facebook (aliás, ainda não divulguei o próximo lançamento deles, o que farei ainda esta semana!).

THE BLACK PANTHER (1977)

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Donald Neilson ficou conhecido como o Black Panther. Ele era um cidadão britânico que em meados dos anos 60 resolveu invadir, armado e com uma máscara negra, casas e postos dos correios para praticar roubos, o que ao longo do tempo acabou causando algumas mortes e um notório sequestro de uma garota na metade dos anos 70. Essa história é real e THE BLACK PANTHER, de Ian Merrick, narra com precisão esses eventos.

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A trama faz um retrato perfeito de Neilson, um sujeito obcecado pelo militarismo, colecionador de um verdadeiro arsenal, um ex-soldado que havia lutado em uma guerra na África em que a Inglaterra acabou se envolvendo. A Grã-Bretanha do período foi marcada por desempregos, greves e perspectivas sombrias para os cidadãos, e aqui estava um homem que tentou resolver as coisas por conta própria para poder colocar comida em casa. O filme se estrutura como um estudo de personagem, ainda que raso, sem se aprofundar muito na psicopatia do protagonista, e nos vários assaltos que Neilson cometeu.

Meticuloso, o sujeito realmente acreditava ser um mestre do crime, mas como THE BLACK PANTHER mostra, a realidade era muito diferente. Neilson era um atrapalhado e todos os seus atos terminavam em tragédia mais por conta da sua ineptidão do que por maldade. É até um milagre que seus assaltos tenham durado anos sem que fosse capturado. Se não houvessem tantas mortes em suas mãos, ele seria quase uma figura cômica. Foi uma combinação de erros por parte de Neilson, da interferência da imprensa e de uma força policial muito mal preparada para lidar com a situação que culminou com o assassinato de Lesley Whittle, uma garota herdeira de uma fortuna, que Neilson sequestrou e trancou num poço de drenagem de um local chamado Bathpool Park. Neilson só foi capturado dois meses depois por pura coincidência, em vez de um esforço concentrado por parte da polícia.

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O curioso é que no ano da produção de THE BLACK PANTHER, estes trágicos eventos ainda estavam muito frescos na memória pública. O roteiro foi baseado em relatórios policiais, declarações escritas e transcrições de julgamento, o que confere ao filme um grau de realismo interessante. Se levar em consideração a direção seca e crua de Merrick e o fato da produção utilizar muitos dos locais reais dos eventos, incluindo o Dudley Zoo, onde o criminoso utilizava a cabine telefônica para tentar obter o dinheiro do resgate, e Bathpool Park em Kidsgrove, local onde manteve Whittle em cativeiro, reforça ainda mais uma uma sensação quase documental da obra.

Neilson foi interpretado por Donald Sumpter, hoje conhecido principalmente por seu trabalho na TV, como por exemplo o velho Maester Luwin de Game of Thrones. É uma performance incrível, no que deve ter sido um papel difícil de encarnar, dada a notoriedade de seu personagem na época. E não são poucas as sequências em que a ação acontece sem qualquer diálogo, com Sumpter comunicando as emoções de Neilson puramente no visual.

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Infelizmente, o público escolheu ignorar o filme na época. Seu lançamento foi controverso e muitos cinemas em todo o Reino Unido se recusaram a exibi-lo. Dada a acusação implícita do filme de que a imprensa era em parte culpada pela morte de Whittle, não surpreende que a mídia também tivesse uma antipatia especial pela obra e a crítica caiu matando. Hoje, THE BLACK PANTHER possui excelentes cópias lançadas em DVD e Blu-Ray pelo mundo afora. Uma bela maneira de redescobrir esta pequena gema do cinema britânico.

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DERSU UZALA (1975)

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Sobre a sessão de ontem de DERSU UZALA, de Akira Kurosawa, na Cinemateca, na 4º Mostra Mosfilm de Cinema Soviético e Russo, foi uma experiência daquelas assistir a esta belíssima obra na tela grande, à céu aberto, com direito à barraquinhas com bebidas e comidas típicas da Rússia. A mostra vai até hoje e é um trabalho incrível da CPC UMES Filmes, que os mais habituados aqui do blog já conhecem.

Mas peralá, um filme de Akira Kurosawa, um dos mais reverenciados diretores japoneses, numa mostra de cinema russo? Vamos com calma. Para quem não conhece, DERSU UZALA é uma produção russa, dirigida pelo mestre japonês, o único longa do diretor realizado fora de seu país e talvez o mais importante de sua carreira, representando um renascimento criativo após um tempo sombrio na vida do cineasta. Kurosawa vivia maus momentos no final da década de 60, com o fracasso comercial de DODESKADEN e a falta de financiamento dos produtores para futuros projetos. Isso abalou até a vida pessoal do diretor, que caiu numa profunda depressão que culminou numa tentativa de suicídio no início dos anos 70. Foi com o convite da grande produtora russa, Mosfilm, que DERSU UZALA foi possível.

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Na verdade, o projeto de DERSU UZALA vinha de longa data. Kurosawa tinha planos já na década de 50 para sua produção, mas teve dificuldade em adaptar a história a um cenário japonês, sem imaginar que um dia ele poderia realmente filmá-la na Rússia, com atores russos. O filme é baseado em um livro autobiográfico de Vladimir Arsenev, que narra as suas aventuras explorando territórios selvagens de seu país para realizar um trabalho topográfico na região. Nas mãos de Kurosawa, a aventura ganha o status de poesia existencialista, com um estudo de caráter abordando o impacto que um primitivo de bela alma tem em um sujeito do mundo civilizado. Continuar lendo

JEAN-PIERRE MELVILLE NO IMS

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Tá rolando uma mostra do Jean-Pierre Melville, o mestre do cinema “polar” (como é conhecido o policial francês), no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, e resolvi dar uma averiguada. Já tinha ido na sala de cinema do IMS pra ver SUSPIRIA, do Dario Argento, numa cópia fenomenal. A sala é boa, confortável, o som é alto, mas achei a tela pequena e posicionada um pouco acima do necessário. Mas nada que estrague a experiência, vale muito a pena visitar e acompanhar a programação do local.

Mas voltando ao Melville, ontem vi O EXÉRCITO DAS SOMBRAS (L’Armée des Ombres, 1969). Já tinha assistido há uns mil anos, mesmo assim me deixou atordoado. Não lembrava o quão sinistro e poderoso é essa merda, uma das obras mais perturbadoras e melancólicas de Melville… Acho que ainda prefiro O CÍRCULO VERMELHO, que assisti hoje, mais pela minha identificação particular com o cinema policial, porém os dois ficam no mesmo patamar em excelência.

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A trama se passa durante a Segunda Guerra Mundial e acompanha a rotina de vários membros da resistência numa França ocupada. O protagonista é Phillipe Gerbier, interpretado por Lino Ventura, um engenheiro civil que se revela um dos principais líderes da resistência e que vai gradualmente descobrindo que ele e seus companheiros devem trair a sua humanidade em prol de seus ideais. No final, niilista até o talo, os seus esforços são essencialmente inúteis e desesperançosos. O modo com que o diretor opera o psicológico dos personagens, trabalhando o medo da traição, o conflito moral, a relação com a morte e o fato de se tornarem verdadeiras sombras, gera uma boa dose de reflexão e vários momentos incríveis. Reparem na cena na qual Gerbier e outros dois membros da resistência discutem como vão apagar um traidor – sendo que o próprio se encontra no mesmo local, ouvindo tudo angustiado – é coisa de gênio.

Alguns filmes de Melville são marcados por uma pegada bressoniana em retratar emoções, especialmente em O SAMURAI, seu trabalho mais famoso. Mas os pontos de contatos com o cinema de Robert Bresson não ficam tão evidente em O EXÉRCITO DAS SOMBRAS, provavelmente porque seria impossível para o diretor tratar do tema sem que colocasse uma carga emotiva pessoal, já que o próprio Melville fora membro da resistência francesa. Além de Ventura, todo o elenco é de primeira, com destaque para Jean-Pierre Cassel e a grande participação de Simone Signoret, numa personagem fascinante. Não sei direito como tá a programação, mas se passar de novo esta semana, não deixem de conferir.

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E hoje à tarde fui rever O CIRCULO VERMELHO (Le Cercle Rouge, 1970), um verdadeiro épico do cinema policial francês, com Alain Delon, Gian Maria Volonte e Yves Montad. Na trama, Vogel (Volonte) é um prisioneiro que escapa debaixo do nariz do comissário de policia que o levava de trem sob custódia para uma penitenciaria. No mesmo dia, Corey – Alain Delon, que já havia trabalhado com o Melville em O SAMURAI, agora com um bigodinho pra dar um ar de bandido cafajeste – sai da prisão após cumprir pena por roubo. Os dois cruzam o caminho do outro. Com a ajuda de um ex-policial – Montand, outro monstro – planejam roubar uma joalheria, mas para atrapalhar os planos do furto, eles têm atrás de si o mesmo comissário, obcecado, que vacilou na fuga de Vogel, além de uma turma de criminosos que Corey resolveu sacanear. Vão me dizer que não é um p@#$% enredo pra um filme policial?

LE CERCLE ROUGE possui algumas sequências brilhantes, como a delirante introdução do personagem de Montand, por exemplo, ou o próprio roubo da joalheria, que Melville havia pensado vinte anos antes, mas desistiu de realizar porque John Huston lançou primeiro o seu clássico THE ASPHALT JUNGLE, que aparentemente havia uma sequência de roubo parecido com a sua (RIFIFI também tinha e nem por isso Jules Dassin deixou de fazer). De qualquer maneira, passado o tempo, cá estamos, Delon, Volonte e Montand roubando jóias numa sequência de quase 25 minutos sem diálogos, sem trilha sonora, mas com Melville num rigoroso trabalho de câmera e edição, concebendo mais uma de suas obras-primas…

Vou ver se durante a semana consigo pegar mais algumas sessões. Ouvi uma velhinha dizendo que  na quarta passa O SAMURAI. E como fazem uns dez anos que assisti, seria uma boa…

DVD REVIEW: O CONTO DO CZAR SALTAN (1966); CPC UMES Filmes

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Fiquei bem feliz quando vi que o lançamento do mês de outubro da distribuidora parceira do blog, CPC UMES Filmes, seria um trabalho de Alexander Ptushko. Para quem não conhece, Ptushko foi o grande mago dos efeitos especiais do cinema russo, considerado o Ray Harryhausen dos lados de lá. Trabalhou, por exemplo, no clássico VIY (1967). Mas acabou vingando também como diretor. E dos bons! Quase sempre trabalhando com cinema fantástico, construiu uma obra rara de contos de fantasia e de cores. O cara sabia pintar com a câmera como poucos, como podem ver nos screenshots que ilustram o post. Entre seus filmes mais famosos estão SADKO (1953, a versão russa do personagem Sinbad), ILYA MUROMETS (1957) e RUSLAN E LUDMILA (1972). Vale destacar também um mais raro, mas igualmente brilhante, FLOR DE PEDRA (1946). O CONTO DO CZAR SALTAN entra fácil no meio desse bolo e agora pode ser conferido em DVD no Brasil através da CPC UMES Filmes.

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A trama é de uma simplicidade tocante, mas repleto de elementos de contos de fada. Foi baseado num poema de Aleksandr Pushkin, inspirado num conto popular russo, e até os diálogos são retirados exatamente como no poema, incluindo as rimas. Uma czarina escolhida a dedo pelo seu czar, o Saltan do título, é traída por suas irmãs invejosas e, juntamente com seu filho, o príncipe Gvidon, é lançada ao mar dentro de um grande barril selado. Acabam aportando numa ilha mágica, onde uma princesa em forma de cisne realiza todos os seus desejos, após Gvidon salvá-la de um feiticeiro na forma de uma águia. Uma cidade mística, um esquilo que produz ouro em abundância, um exército de gigantes que vem do fundo do mar, uma bela princesa com uma joia preciosa brilhando em sua testa… Mas nada disso parece satisfazer o jovem príncipe, que parte numa jornada fantástica em busca de seu pai e ao desmascaramento das farsantes.

Tudo é tratado com muita leveza, até mesmo com uma pegada infantil. Os conflitos são resolvidos seguindo as cartilhas dos contos de fada e a narrativa nunca é truncada. Pelo contrário, o filme é uma delícia. Sobra muito, é claro, o talento de Ptushko em transformar tudo isso numa bela obra de arte, num espetáculo visual de efeitos especiais muito à frente do seu tempo, em composições barrocas extraordinárias e pelo seu gosto impecável por cores fortes que saltam aos olhos a cada segundo.

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Tudo é tão ambicioso, os trajes são arrojados e brilhantes, os cenários são estonteantes, o cuidado com as criaturas que povoam o filme, como animais falantes e os trolls que atacam a cidade do Czar. Tudo é resolvido com muita inteligência, como na cena dos gigantes, em que Ptushko trabalha a perspectiva forçada. Na cena na qual os gigantes atacam um navio, o diretor usa planos com uma embarcação em tamanho real e gigantes em sobreposição de imagens, intercalando com outros planos com gigantes de tamanho normal e um navio em miniatura com bonecos no interior. O resultado é sensacional.

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Mesmo que hoje seja muito fácil identificar essa trucagem toda, a magia de O CONTO DO CZAR SALTAN permanece intacta e admirável. Até mesmo as crianças de hoje, desmamadas com efeitos em CGI ultra modernos, podem se encantar com o visual e a história. Portanto, recomendo muito para crianças, jovens e adultos que ainda possuem sensibilidade para se maravilhar com uma pequena obra de fantasia, mas grandiosa artisticamente.

O CONTO DO CZAR SALTAN foi lançado este mês de outubro pela CPC UMES Filmes e já está disponível na sua loja virtual. Uma distribuidora que vem fazendo um dos melhores trabalhos de curadoria home video, com filmes que realmente valem a pena ter na estante. E não deixe de curtir a página da distribuidora no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.