PROGENY: O INTRUSO (1998)

Essa semana vi esse pequeno filme do produtor/diretor Brian Yuzna que não tinha assistido ainda. Boa descoberta. O Yuzna é um cara que respeito e sempre que paro pra ver umas coisas dele, saio no mínimo agraciado com uma boa diversão.

Depois de produzir alguns trabalhos de Stuart Gordon, como o clássico oitentista RE-ANIMATOR e FROM BEYOND, Yuzna rapidamente conquistou uma reputação como cineasta com seu petardo SOCIETY, de 1989 (no Brasil: SOCIEDADE DOS AMIGOS DO DIABO). O sujeito, ao longo da carreira, conseguiu criar um universo original e certo senso de eficiência no horror, com algumas belezinhas nos anos 90, como O DENTISTA, NATAL SANGRENTO 4: A INICIAÇÃO e as continuações de RE-ANIMATOR. Rapidamente se tornou uma figura cult, embora alguns de seus filmes sofressem com um orçamento limitado que o impedia de prosperar como um Carpenter, Craven, Romero, Tobe Hooper… E um desses trabalhos que sofre com isso é justamente PROGENY: O INVASOR, uma fita de baixíssimo orçamento sobre abdução alienígena, que não tem nada de original, mas que se destaca pela forma na qual Yuzna conduz as coisas, pelo elenco afiado e, bom, por não tentar ficar inventando a roda e deixar de ser aquilo que é: um bom horror sci-fi noventista.

Mais uma vez Yuzna se reúne com o já citado parceiro de longa data, Stuart Gordon, que aqui atua como roteirista, junto com Aubrey Solomon, fazendo um belo trabalho de pesquisa, estudando casos “reais” de abdução, para chegar num enredo rigoroso e personagens mais, digamos, realistas. Temos, portanto, muitos elementos habituais deste tipo de evento (luzes estranhas no meio da noite, perda da noção de tempo durante o fenômeno, paranóia e crises de identidade, etc.), de forma que a história às vezes remete muito ao livro Communion, de Whitley Streiber (e à sua adaptação pra cinema, que tem o título no Brasil de ESTRANHOS VISITANTES), considerado uma autêntica bíblia da ufologia.

Além disso, PROGENY adiciona uma pegada de O BEBÊ DE ROSEMARY misturado com ARQUIVO X na trama, deixando as coisas ainda mais interessantes. Devo dizer que o filme não é lá uma obra-prima, mas armado com toda esse trabalho de pesquisa, as influências, mais o talento natural de Gordon/Yuzna, o resultado não é nada mal. PROGENY é redondinho e bem escrito, demonstra hábil na arte de detalhar a degradação de um casal em crise, personagens oprimidos por eventos estranhos, diante do horror e do inexplicável, e que funciona também como boa alegoria do casal diante do “horror” do primeiro filho.

O filme começa quando o cirurgião Craig Barton (Arnold Vosloo) faz amor com sua esposa Sherry (Jillian McWhirter) e uma luz azul ofuscante surge do nada e clareia o aposento. O casal recupera a consciência duas horas depois, sem nenhuma memória do que aconteceu. Craig então começa a sofrer de insônia, problemas de comportamento, agressividade… Sherry fica grávida e começa a sentir dores estranhas no abdômen. Em sessões de hipnose o casal relembra o que aconteceu naquela noite e a revelação não vai ser das melhores para eles. Mas para o público, é só alegria, já que se trata de abduções, nave espacial, alienígenas cheios de tentáculos roçando no corpo nu de Sherry e, obviamente, o que cresce na barriga da mulher é puro terror.

Yuzna faz umas escolhas interessantes, abraça a narrativa, no drama e paranoia dos protagonistas, sendo mais comedido do que o normal em cenas de choque e violência, deixando a atmosfera tomar conta e a tensão aumentar. E faz com que as sequências mais apelativas, com um bocado de gore, quando chega a hora, se mostrem mais imprevisíveis e especiais. Um bom exemplo é a sequência do flashback de Sherry, que mostra o que rolou durante aquelas duas horas, dentro da nave alienígena, um dos momentos mais angustiantes do filme. Assim como o final, quando a coisa descamba de vez pra uma violência mais gráfica, com tripas e sangue rolando na tela. E tudo muito bem feito. Os efeitos especiais de PROGENY são bastante satisfatórios, na maior parte do tempo, para uma produção de orçamento tão curto. O visual dos aliens pode decepcionar, mas é curioso como Yuzna faz a coisa dar certo de alguma maneira. Cortesia também do grande mestre Screaming Mad George, que já havia realizado os efeitos especiais de outros filmes do diretor.

Yuzna também aproveita para apoiar as câmeras no seu elenco, que é de qualidade. Vosloo ficou marcado interpretando o papel título em A MÚMIA, de 99, sempre demonstrou talento fazendo outros vilões, como em O ALVO, mas aqui prova que conseguia carregar um filme como protagonista e se sai muito bem. McWhirter acaba se destacando mais, num papel corajoso, com muitas sequências de nudez, e bastante expressividade corporal. Em várias entrevistas ela conta como foi difícil, tanto físico e emocional, o seu trabalho por aqui. O resultado na tela é fascinante.

Outras figuras aparecem por aqui pra acalentar o coração dos fãs de cinema B, como o grande Brad Dourif em papel pequeno, como um especialista em ufologia, que vale a pena acompanhar; e Wilford Brimley, que é sempre divertido.

Longe de ser dos melhores filmes de Yuzna, PROGENY teve lançamento limitadíssimo nos cinemas em poucos países, após circular em alguns festivais especializados no gênero. No fim, acabou tendo lançamento no mercado em vídeo, com até relativo sucesso. Hoje anda esquecido, mas foi um prazer redescobrir essa jóia. Boas referências, belo clima, boas atuações. Mais do que se vê em muitos filmes de horror lançados nos últimos anos. PROGENY é certamente um dos trabalhos obrigatórios para conhecer mais do diretor.

CROCODILO (2000)

Acreditem, pode parecer que não, tendo em vista alguns dos últimos posts aqui no blog, mas até eu tenho meus limites com o nível de ruindade de alguns filmes. E CROCODILO (Crocodile) parece testar esses limites ao máximo. Produzido pela Nu Image e dirigido pelo grande Tobe Hooper, que tem no currículo alguns dos maiores clássicos do horror de todos os tempos – O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, FORÇA SINISTRA – trata-se de um exemplar de eco-horror, que até possui seus momentos, mas no geral é um produto decepcionante para os fãs do diretor.

A trama possui uma semelhança passageira com outro filme de Hooper, a maravilha EATEN ALIVE, de 1976. Ambos contam com a presença de um hotel isolado e um grande réptil faminto. Mas em CROCODILO a coisa não gira em torno exatamente disso, ao contrário do filme de 76, apenas surge uma historinha contada ao redor de uma fogueira sobre o dono de um hotel no início do século XX, que importou um crocodilo egípcio ao local… A trama mesmo transcorre num Spring Break, quando oito jovens decidem se reunir numa casa-barco para curtir, beber e aproveitar a vista do lago… À medida que a coisa avança, eles descobrem que o lago esconde o tal crocodilo gigante que vai mastigar alegremente qualquer um que se aproxime de seus preciosos ovos.

O lado bom de CROCODILO é quando o dito cujo está em cena. Quero dizer, “bom” entre aspas, porque aqui entra o lado galhofa e tosco que eu realmente amo nesse tipo de filme, apesar de Tobe Hooper saber o que fazer com a câmera para criar um suspensezinho bacana e algumas cenas de violência. Só que os efeitos especiais, sobretudo o crocodilo de CGI, são alguns dos mais vagabundos que eu já vi na vida, parece imagens saídas de algum jogo de Playstation 1 do final dos anos 90, o que torna esses momentos deliciosamente mais incríveis. Uma lindeza.

Agora, o lado ruim é… Só todo o restante do filme. A trama meio que se arrasta na maior parte do tempo, algumas decisões que o filme toma são as mais equivocadas possíveis, gerando momentos absurdos de constrangedores, como a cena final da mocinha entregando ao crocodilo assassino o seu filhote (imagem acima)… O bagulho é, ao mesmo tempo, engraçadíssimo pela tosquice, mas também de um mau gosto que chego a duvidar se o Tobe Hooper realmente tava feliz em filmar algo do tipo (e com o resultado na pós-produção). 

Além disso, somos obrigados a acompanhar um grupo de personagens enfadonhos e irritantes, com seus dramas de relacionamento que ninguém dá a mínima. E todos interpretados sem o menor carisma por um elenco indiferente. Talvez se o co-produtor Boaz Davidson, que até recebe crédito pela história, tivesse realmente escrito o roteiro e aplicado sua visão da juventude, como demonstrou quando dirigiu a obra-prima O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM, os jovens protagonistas de CROCODILO teriam sido menos desagradáveis. Ou pelo menos teria valido a pena se preocupar com eles. Aqui, a gente só quer vê-los devorados pelo grande crocodilo o mais rápido possível…

Enfim, não vou nem me prolongar. Curioso pra saber se vocês acham que estou sendo muito injusto com o filme ou se esse é realmente o pior filme de Tobe Hooper. Deixem aí nos comentários alguma impressão, caso tenham assistido. E se você por acaso botou na cabeça que quer encarar essa tralha mesmo assim, recomendo deixar algumas latinhas de Itaipava bem geladas à mão para diminuir a dor. E assista com alguns amigos pra pelo menos tirar um sarro com o crocodilo de CGI. O filme vai continuar uma merda, mas pelo menos vai deixar a experiência mais interessante..

O ENIGMA DE TALOS (1998)

Filme de múmia, lançado em 1998, que foi eclipsado pelo seu “primo rico” no ano seguinte, A MÚMIA (99), de Stephen Sommers. Hoje ninguém mais lembra de O ENIGMA DE TALOS (Tale of the Mummy), dirigido pelo grande Russell Mulcahy. Mas não vou julgar… O filme é mesmo meia boca, um tipo de produto barato que, muito provavelmente, produziram às pressas pra tentar lançar no mercado de home video à tempo de aproveitar o sucesso do filme de Sommers. Acabaram se adiantando até demais. Só não deve ter dado muito certo sobre “aproveitar o sucesso”. O resultado é uma desgraça, a trama é toda bagunçada, cheia de momentos ridículos e constrangedores.

Mas lá fui eu ver, porque sou grande admirador do trabalho do Mulcahy (HIGHLANDER, RAZORBACK, etc…) e nunca tinha visto este ainda. E apesar de concordar com tudo que disse ali em cima, eu gosto dessa tralha. O que posso fazer? É o tipo de filme todo errado que me diverte, tem um elenco bacana e percebe-se que tentaram fazer algo… Diferente? Original? Por exemplo, um filme de múmia sem que aparecesse uma múmia na maior parte do tempo. Ao invés disso, a múmia é representada apenas pelas suas bandagens, sem corpo, que voam, rastejam e atacam as pessoas nas mais diversas formas. Se tivessem orçamento para fazer algo decente, acho que isso não soaria tão bizarro. Mas, bem, não tinham…

Senhoras e senhores, o assassino do filme.

A premissa de O ENIGMA DE TALOS até que é interessante, envolvendo o básico dos filmes de múmias – antigas maldições, reencarnação e ressurreição de algum feiticeiro egipcio de tempos longínquos. O filme começa no Egito, na década de 40, com uma escavação arqueológica malfadada que desenterra a tumba de um tal Talos. Liderando a expedição está Sir Richard Turkel (o inigualável Christopher Lee, que já foi múmia para a Hammer Films), que percebe tarde demais que a tumba contém uma força maligna. Sir Richard é forçado a se sacrificar e selar a tumba antes que o mal possa escapar.

Essa sequência inicial talvez seja a melhor de todo o filme. E demonstra o contraste da direção de Mulcahy, que é ótima, com suas composições elaboradas, bom trabalho de câmera, de atmosfera, mas com os efeitos especiais em CGI dos mais ordinários que os anos 90 nos proporcionava. Coisa do nível de MORTAL KOMBAT ANNIHILATION. Ou seja, uma maravilha!

Ainda na trama, passam-se décadas e a neta de Sir Richard, Samantha Turkel (Louise Lombard), que também se tornou arqueóloga, reabre a tumba na esperança de descobrir o que realmente aconteceu com seu avô. Dentro da tumba, Samantha e uma equipe de cientistas descobrem uma câmara mortuária incomum contendo o sarcófago de Talos. No entanto, em vez de encontrar uma múmia dentro do sarcófago, apenas suas bandagens são tudo o que parece ter sobrado do misterioso Talos.

E nisso temos outra sequência sensacional comandada pelo Mulcahy, com direito a participação de um jovem e desconhecido Gerard Butler…

Uma vez removidos dos confins da tumba, e levados para um museu em Londres, os envoltórios assumem vida própria, reivindicando órgãos de suas vítimas pela cidade. As mortes vão acontecendo com essas bandagens assassinas e o filme se transforma numa trama de investigação policial, tendo como protagonista Jason Scott Lee, um americano, investigador de polícia, que se envolve no caso e acaba tendo que proteger Samantha da força que foi libertada quando ela abriu o túmulo de Talos.

E pra deixar tudo ainda mais doido, quando Talos finalmente surge na tela, o sujeito tem um aspecto de alienígena, peladão, com pés de bode… Não sei que tipo de drogas os caras usaram pra conceber algo dese nível, mas queria também. É uma das coisas mais tronchas e engraçadas que já vi na vida.

Enfim, eu realmente não sei o que pode ter acontecido, mas a impressão que dá é que o dinheiro para a pós-produção desapareceu, acabou, alguém passou a mão, e no final das contas eles fecharam um filme muito bem realizado, bem dirigido, mas com efeitos especiais e outros detalhes realmente pífios. Claro, o roteiro não é mesmo dos melhores, a coisa é totalmente desconjuntada e sem sentido em alguns momentos e os últimos 20 minutos de filme deixa isso ainda mais evidente (embora o desfecho tenha umas surpresinhas que me deixaram com um sorriso no rosto), mas fica o sentimento de que começaram algo com uma ideia em mente e depois cagaram tudo…

Mas é aquilo, se você olhar para além da tosqueira, é um terrorzinho bem divertido e imaginativo, com Mulcahy em alta forma. O filme tem bom ritmo (existe uma versão que possui vinte minutos a mais e eu, sinceramente, dispenso), é altamente visual, as ideias, claro, são bizarras (como a cena do cara sendo sugado pra dentro de um vaso sanitário numa boate) mas funcionam de alguma maneira e os atores estão muito bem. O elenco conta ainda com Sean Pertwee (um dos destaques do filme), Jon Polito, Jack Davenport, Honor Blackman e a “Olívia Palito” Shelley Duvall.

É como se O ENIGMA DE TALOS fosse concebido para ser uma obra muito maior, um filme de múmia visionário. Vai saber o que aconteceu, acabou negligenciado de alguma forma… Mas os fãs de terror que conseguem separar um momento para serem menos exigentes e curtir umas tralhas certamente terão um tempinho de entretenimento com o filme. Nem que seja pra dar umas risadas das ataduras assassinas…

MORELLA: O ESPÍRITO SATÂNICO (1990)

Uma das fases mais emblemáticas do produtor e diretor Roger Corman foi o seu ciclo Edgar Allan Poe nos anos 60, adaptando livremente vários contos do autor e criando algumas maravilhas do cinema de horror americano do período. E tendo como presença quase constante o ator Vincent Price, no seu auge, a coisa se torna ainda mais obrigatória a qualquer amante do gênero. Já comentei alguns desses filmes aqui no blog (clique aqui).

Nos anos 80 e 90, Corman resolveu produzir refilmagens de seus filmes, sobretudo vários sci-fis que havia realizado nos anos 50, colocando seus pupilos para dirigir e atualizar seu imaginário para este novo momento. E obviamente retoma sua abordagem em Poe, como por exemplo MORELLA: O ESPÍRITO SATÂNICO (The Hauting of Morella), um conto gótico atmosférico bem ao estilo do que fazia nos anos 60 com Vincent Price, cujo conto original havia sido adaptado por Corman numa das historinhas que fazem parte da antologia MURALHAS DO PAVOR (1962).

E o diretor da vez, para esta nova versão, foi o grande Jim Wynorski.

O enredo é vagamente baseado no conto intitulado Morella, publicado em 1835. Na história original de Poe, a personagem Morella estuda os filósofos alemães Fichte e Schelling, conhecidos por seu “idealismo transcendental”, teoria sobre o qual os objetos da cognição humana são aparências e não coisas em si mesmas. Um troço filosófico pra cacete. Ainda no conto original, quando Morella morre, ela amaldiçoa sua filha recém-nascida que cresce para se parecer com ela. Após seu batismo, é possuída por sua mãe. Já nessa versão de Corman/Wynorski, Morella, interpretada por Nicole Eggert (uma daquelas moças de maiô vermelho da série SOS MALIBU), é brutalmente morta, queimada na fogueira, como uma bruxa e amaldiçoa sua filha recém-nascida na esperança de renascer nela.

Dezessete anos depois, sua filha Lenora (novamente Nicole Eggert, em papel duplo), é agora uma adolescente super protegida pelo seu pai, Gideon (David McCallum), arrasado e decrépito desde a morte da esposa. A governanta da casa, Coel Devereux (Lana Clarkson), serva de Morella e que sabe da maldição, acha que é hora de sua ama retornar e deixar Lenora ser possuída por sua mãe. Mas Lenora é forte e a possessão não dura o suficiente. Então o próximo plano é ressuscitar completamente o corpo de Morella dos mortos, e isso significa sacrifícios humanos, cujo sangue reconstrói o cadáver da mulher.

MORELLA: O ESPÍRITO SATÂNICO representa uma rara digressão a um horror mais sério para Jim Wynorski, evitando o humor irônico que tipifica seu trabalho. Algo que refletiu durante um tempo em alguns dos seus melhores trabalhos subsequentes, como 976-EVIL II (1991) e TENTAÇÃO (1995), e que redefinem várias das ideias e cenas de MORELLA: O ESPÍRITO SATÂNICO. Especificamente em situações que envolve a linha fina que separa fantasia e realidade. E Wynorski demonstra boa mão para criar uma atmosfera mais densa e trabalhar situações de puro horror. As sequências que envolvem o cadáver decomposto de Morella são especialmente interessantes, e quando Lenora navega por uma paisagem infernal, depois de atravessar um espelho, é um espetáculo visual de fantasmagoria que lembra bastante alguns momentos do próprio Corman em seus filmes dos anos 60.

Eu realmente fiquei surpreso com o resultado aqui. Tem tudo o que você espera de um horror gótico; cemitérios nebulosos, antigas catacumbas de pedra, candelabros por corredores de uma mansão escura, cerimônias macabras, banhos de sangue e elementos sobrenaturais pairando a trama. Como estamos em 1990 por aqui, o período em que MORELLA: O ESPÍRITO SATÂNICO foi realizado proporcionou alguns ingredientes a mais para misturar nessa receita gótica. Então temos uma adaptação de Poe com tudo aquilo que Corman não podia colocar trinta anos antes: boas doses de sangue e de peitos balançando na tela. O resultado é puro CINEMA!

E quem já está familiarizado com o cinema de Jim Wynorski, diretor que contribuiu bastante até com exemplares de filmes que passam (sim, ainda passam) no Cine Privé, sabe que não vai faltar por aqui uma quantidade admirável de pele aparecendo na tela. E nesse sentido, é impossível não destacar a presença escultural de Lana Clarkson, que além de permitir que seus dotes respirem um ar puro em algumas cenas, ainda está magnífica em seu papel como a ameaçadora Devereux.

A mulher está de arrasar por aqui. Maldito seja o Phil Spector! Gosto como até em momentos mais singelos, Clarkson consegue deixar a coisa estranhamente erótica, como a cena em que Eggert senta com o rosto numa altura bastante propícia ao lado dela, tudo muito bem enquadrado por Wynorski (imagem abaixo). A sequência em que ela dá uns amassos em Maria Ford (outra beldade habitual nos filmes do diretor), antes de assassiná-la e oferecer seu sangue à Morella, debaixo de uma cachoeira, é uma das mais belas de toda a carreira de Wynorski (também abaixo). E sim, nós sabemos que esse tipo de vestimenta não era usada no período que o filme se passa… Mas quem liga pra isso?

Nicole Eggert tem um desempenho bem decente como Morella/Lenora (mais como Morella, pra ser sincero) – papéis inicialmente oferecidos a Traci Lords, ex-atriz pornô que já havia trabalhado com Wynorski em NOT FOR THIS EARTH. Nada que fosse despertar a atenção de um prêmio de talento dramático para a moça, mas ela consegue convencer sua situação de crise existencial enquanto lida com sua linhagem contaminada por uma maldição.

É evidente que se você for um admirador mais purista do horror gótico de uma Hammer Films, Mario Bava ou do próprio Corman no Ciclo Poe dos anos 60, talvez ache THE HAUNTING OF MORELLA um bocado caído e apelativo. E realmente não é lá um grande filme. Mas, pra quem só quer ter 90 minutos (e isso aqui não chega nem a isso tudo) de diversão, é um filme que oferece vários atrativos. O enredo é simples. O visual é legal. E a quantidade de mulheres nuas é generosa. Então pra mim já tá muito melhor que a maioria dos filmes de horror da atualidade.

Continuar lendo

CARNOSAUR (1993)

Depois do sucesso de PARQUE DOS DINOSSAUROS, de Steven Spielberg, em 1993, era evidente que algum produtor espertinho entraria na modinha dos filmes de dinossauros. E por que não? Roger Corman, que não é chamado de rei dos B Movies à toa, antes mesmo de saber se a coisa ia vingar colocou CARNOSAUR em produção ao mesmo tempo em que Spielberg fazia o seu blockbuster. Com um décimo do orçamento, é claro. O filme acabou sendo lançado antes até que o seu “primo rico”…

Na trama, um conglomerado secreto de agências governamentais dá à Dra. Jane Tiptree (Diane Ladd) financiamento e equipamentos para seus experimentos de biotecnologia. Mal sabem eles que ela usou seu gênio do mal e recursos do governo para criar uma nova raça de predadores, misturando genes de galinhas com os de lagartos pré-históricos. Seu plano é exterminar a humanidade com uma nova raça de dinossauros bio-projetados. A coisa só melhora, atingindo alto nível de absurdo: ela criou um vírus que infecta apenas mulheres, fazendo com que fiquem grávidas dando à luz a embriões de dinossauros. Seu plano diabólico é fazer com que todas as mulheres na Terra sejam infectadas, deixando a raça humana morrer enquanto os dinossauros assumiriam o controle.

Quando misteriosamente um caminhão de galinhas transporta um bebê dinossauro do tipo Velociraptor para fora do laboratório, a coisa dá-se início… Em outro cenário, num canteiro de obras, conhecemos o herói da trama, o vigia noturno Doc Smith (Raphael Sbarge), que é adepto a um goró e anda tendo alguns problemas com hippies abraçadores de árvores que invadem o local para se acorrentarem às máquinas, seja lá por qual motivo. Enquanto isso, corpos estraçalhados vão surgindo e o vírus vai infectando as mulheres da região.

Quando os dinossauros começam a estourar seus ventres, o governo dos EUA entra em cena pra tomar uma atitude: matar todas as mulheres infectadas, à la THE CRAZIES, de George A. Romero… Uma garota chamada Thrush (Jennifer Runyon), ligada aos manifestantes hippies, acaba se infectando. E por estar envolvida com nosso amigo Doc, ele resolve adentrar no laboratório secreto para encontrar um antídoto antes que ela dê à luz a um dinossauro. E antes também que as forças do governo exterminem todas as mulheres infectadas.

Para escrever esse roteiro maluco, Corman escalou Adam Simon, diretor de uma de suas produções, MORTE CEREBRAL (1990), a partir do romance Carnosaur, do autor de ficção científica australiano John Brosnan, que não gostou muito do resultado, mas viu a procura pelo seu pequeno romance aumentar de forma considerável no período… Mas realmente, quem já assistiu ou pelo menos chegou até a este ponto do texto já matou que isso aqui não é nenhum PARQUE DOS DINOSSAUROS, nem tinha a pretensão de ser outra coisa além de um filme de monstro de baixo orçamento que consegue incluir tudo o que precisamos para ter um bocado de diversão. Dinossauros, violência e personagens peculiares e agradáveis de assistir.

Há algumas figuras aqui que se destacam até mais do que os dinossauros, como Diane Ladd. Sobretudo perto do final quando ela começa a se tornar poética e monologar sobre a grandeza da Terra e a natureza horrível da humanidade… Sua personagem é totalmente ridícula, mas ela consegue fazer o apreciador de uma boa tralha a não desgrudar os olhos da tela. E o curioso é que enquanto Ladd fazia este filme de dinossauros de baixo orçamento, sua filha, Laura Dern, era uma das estrelas de PARQUE DOS DINOSSAUROS. Que fase… Ned Bellamy não é um ator muito conhecido, mas também tem uma participação engraçadíssima por aqui, como diretor do conglomerado. No elenco, ainda temos Clint Howard interpretando o estranho da cidade local, o seu papel habitual. E qualquer filme em que Clint Howard tem a cabeça arrancada por um dinossauro já vale uma olhada.

Não querendo fazer nenhum tipo de comparação entre as duas produções, mas ao contrário de PARQUE DOS DINOSSAUROS, em vez de ver uma infinidade de espécies diferentes, em CARNOSAUR somos apresentados a apenas dois tipos de dinossauros, Raptors e um T-Rex. Se você só pode escolher apenas duas espécies, essas são definitivamente as escolhas certeiras. E ambos são confeccionados por meio do uso de efeitos especiais práticos, bonecos animatrônicos, miniaturas, etc… Claro, eles nunca parecem particularmente convincentes, as pessoas ficaram mal acostumadas com os dinossauros de Spielberg, mas a coisa aqui realmente funciona.

Todos os dinossauros são visualmente honestos, bem projetados, há só o pequeno detalhe de fazê-los se moverem… Hahaha! São um bocado rígidos e desajeitados. O tiranossauro é perfeito, até que ele começa a se mover. Mas não me interpretem mal, não são efeitos amadores. Você nunca vê zíperes, cordas, orifícios ou outras falhas, e os dinossauros nunca parecem estar “flutuando” ou algo parecido. O grande John Beuchler ficou responsável pela coisa e, apesar do orçamento, cumpre o que promete.

Já as cenas de violência, essas sim, merecem destaque… CARNOSAUR tem uma boa dose de gore e não tem receio algum de matar personagens. Na verdade, fiquei bastante surpreso com algumas das mortes. O filme se dá ao trabalho de apresentar figuras para logo em seguida armar para serem dilacerados por uma das criaturas. A sequência que o grupo hippie, acorrentado nos tratores no campo de obra, acaba devorado por um Raptor, sem poder fugir e se defender, é um dos momentos mais sublimes do filme, com direito a membros arrancados e muito sangue… E quando começam a mostrar mulheres dando à luz a dinossauros, o resultado pode ser bem nojento. Talvez seja o filme com mais violência gráfica que o Corman produziu.

Adam Simon, além de ter escrito o roteiro, faz um trabalho decente também na cadeira de diretor. Não é um sujeito brilhante, mas sabe exatamente o que é preciso colocar na tela para alegrar o coração dos fãs de B Movies, e tenta manter o ritmo rápido e agitado o suficiente para tornar CARNOSAUR realmente divertido. Um momento ou outro que a coisa fica enrolada, como a sequência da revelação da Dr. Triptree, montada com ações paralelas, um pouco longa demais. Mas no geral, CARNOSAUR é essa belezura do baixo orçamento. Não tenta copiar PARQUE DOS DINOSSAUROS, até porque seus realizadores nem o tinham como referência, a não ser a ideia de que era preciso entrar na onda dos filmes de dinossauro, e fizeram com muita personalidade. E, claro, com um óbvio objetivo de ganhar alguma grana. Você pode até não ficar emocionado com efeitos especiais espetaculares de dinossauros em CGI, mas certamente vai sair satisfeito com o que Corman e sua trupe fizeram aqui. Que é ser basicamente um filme de dinossauros mastigando humanos.

E até que o que filme teve relativo sucesso, recebeu alguns comentários de críticos “sérios”, como Gene Siskel, a dupla de Roger Ebert no programa Siskel & Ebert, e se tornou uma referência no circuito de exibição de “meia-noite” nos anos 90. E para expandir ainda mais seu universo, acabou ganhando duas continuações nos anos seguintes que também valem uma conferida.

FORÇA SINISTRA (1985)

Eu não assistia a FORÇA SINISTRA (Lifeforce), de Tobe Hooper, por anos e anos e praticamente a única coisa que me recordava era… Bom, se você já assistiu a este filme alguma vez na sua vida, vai saber exatemente o que é. Se não viu, vai saber no momento em que botar os olhos… Mas vamos ser adultos por aqui. Ano passado eu revi para gravar um episódio do Cine Poeira e desde então tenho aceitado o fato de que se trata não apenas de um dos meus sci-fi‘s favoritos, mas de um dos meus filmes favoritos da vida. Estou realmente convencido disso. É a obra-prima de Tobe Hooper, uma das produções mais caprichadas da Cannon Films e revi mais uma vez agora para tirar a prova e saber se eu não estava ficando doido. Bem, talvez eu esteja, mas pelo menos não tenho dúvidas. Realmente se trata de um dos grandes fimes da história do cinema, na minha opinião.

A história da produção de FORÇA SINISTRA começa com um romance cujo título é The Space Vampire, publicado em 1976, escrito por Colin Wilson (escritor, filósofo e especialista em sobrenatural). Com um conceito interessante, obviamente atraiu a atenção de Hollywood no período e o livro rapidamente se transforma em um projeto de filme. Eu não li o romance, mas tenho informações que dizem que não é o material mais fácil de se adaptar. Um terço da história se passa no espaço e o resto na terra onde acontece uma caça aos vampiros espaciais, tudo narrado por formulações filosóficas… Do tipo que acho que seria necessário um Kubrick ou um Tarkovsky para levar adiante tal feito.

Mas, como sabemos, de vez em quando os executivos de Hollywood são muito insistentes. Algum estúdio realmente comprou os direitos do livro, deixando o trabalho dos futuros roteiristas num difícil desafio de adaptar. Calhou, em algum momento, à Dan O’Bannon e Don Jakoby o afazer. Ao longo do tempo, como era de se esperar, o livro foi passando de mãos em mãos entre os estúdios até parar com os nossos guerreiros da Cannon Films, que realmente tocaram o projeto adiante, em meados dos anos 80. Naquele período, ninguém menos que o diretor de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, o inigualável Tobe Hooper, acabara de ser contatado pelo estúdio. O sujeito estava numa fase estranha e a polêmica que cercou as filmagens de POLTERGEIST (ainda seu maior sucesso comercial) fez a carreira de Hooper estagnar. Esteve associado por um tempo ao projeto de A VOLTA DOS MORTOS VIVOS, que acabaria sendo dirigido pelo já citado Dan O’Bannon, mas foi com a Cannon que Hooper voltou às atividades sob um contrato para três filmes, sendo que um deles obrigatoriamente deveria ser O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2.

Mas antes, jogaram no colo de Hooper o famigerado projeto de FORÇA SINISTRA. Com um orçamento absurdo de US$ 25 milhões de dólares, que era coisa pra burro na época, foi a produção mais cara da Cannon até então. Uma mistura de ficção científica e horror, que não esconde lá suas ambições de tentar aproveitar o sucesso de um filme como ALIEN – O 8º PASSAGEIRO, de Ridley Scott e roteiro de quem? Mais uma vez o nosso amigo Dan O’Bannon. Mas basta assistir ao filme para perceber que a visão e o autorismo de Tobe Hooper se sobressaem. Fica evidente que o homem está feliz em reencontrar as câmeras depois de três anos sem filmar, criando um espetáculo visual/sensorial único, demonstrando maestria na condução de sequências grandiosas, mostrando a seus detratores que ele era capaz de administrar um grande orçamento e efeitos especiais. Que era capaz de fazer um filme especial.

E esse filme, meus caros, é FORÇA SINISTRA.

Na trama, enquanto investigava o cometa Halley, que passava perto da Terra em 1986, a tripulação americana/britânica da espaçonave Churchill, comandada pelo coronel Tom Carlsen (Steve Railsback), descobre uma nave misteriosa escondida na cauda do cometa. Um grupo da tripulação decide se aventurar dentro da nave e descobre coisas magníficas do imaginário sci-fi, como morcegos gigantes mumificados, bem como três sarcófagos de vidro nos quais estão dois homens e uma mulher (Mathilda May), que são levados a bordo do Churchill.

Logo depois, toda a comunicação com a nave é perdida e é enviado um outro ônibus espacial para investigar. Eles descobrem um Churchill destruído por dentro por conta de um incêndio, mas os três corpos misteriosos ainda estão intactos. Eles são trazidos à terra, em Londres, para ser mais exato. Quando esses corpos despertam, inicia-se um verdadeiro apocalipse na cidade. Descobrimos que o Col. Carlsen não morreu. Ele voltou à Terra em uma cápsula de fuga com sua própria história sobre o que aconteceu, mas mesmo que ele possa dar algumas respostas, já não se sabe se vão ser capazes de evitar a destruição em massa que está ocorrendo em Londres.

De certa maneira, apesar da trama parecer simples, a forma como as coisas transcorrem deixa uma impressão de bagunça narrativa. O roteiro de O’Bannon e Jakoby é tão errático em como está estruturado, que é difícil entender o quão coerente isso poderia parecer nas páginas do script. Mas ao mesmo tempo, é tudo o que você deseja em um filme desse tipo – tem cenas no espaço sideral, temos zumbis-vampiros, temos caos e explosões enormes. Tem até uma garota nua andando por aí matando pessoas! Que é, obviamente “aquilo” que eu lembrava antes de rever… É uma trama totalmente dispersa, mas tratada por Tobe Hooper de forma tão fascinante, que não há como negar que ele definitivamente sabe como tirar vantagem do material, da escala monumental do apocalipse instaurado e, claro, do conceito de uma garota nua por aí a matar pessoas.

Mathilda May passa 99% de seu tempo na tela completamente nua. Apesar disso, não posso dizer que a nudez é gratuita. A maioria dessas cenas são tiradas diretamente do livro e da essência dessas criaturas, esses vampiros espaciais que se alimentam das forças vitais humana, sendo o sexo um desses elementos. Portanto, o teor sexual não foi adicionado apenas para apimentar o filme. Embora, é claro, os atributos físicos de Mathilda May certamente ajudaram a vender o filme…

Ainda sobre o elenco, uma das questões que atingiu a produção foi a recusa consecutiva de vários atores renomados que, normalmente, não são tão criteriosos nas escolhas de seus papeis (como Christopher Lee e Klaus Kinski). Hooper então recorre a Steve Railsback, que está muito bem no seu personagem. Aparentemente, houve uma tentativa consciente de fazer o seu Col. Carlsen morrer ainda na nave espacial, Churchill, fazendo um filme sem personagem principal, o que só aumentaria a sensação de desorientação que podemos sentir às vezes. É até meio estranho, portanto, vê-lo retornando ao filme depois… Mas acho que perceberam a enrascada que teriam sem uma figura central.

Com as filmagens feitas na Inglaterra, Hooper acabou tendo outras escolhas interessantes para completar seu elenco, apesar de Chris Lee e Klaus Kinski serem insubstituíveis. Mas o cinema inglês está cheio de atores secundários de qualidade, como Peter Firth, Frank Finlay, Michael Gothard e Aubrey Morris, que entregam ótimos momentos por aqui. Sem esquecer um quase desconhecido Patrick Stewart, que viria a ser o futuro Jean-Luc Picard da série Star Trek: The Next Generation e o professor Xavier dos X-MEN.

O papel dos vampiros espaciais também apresentou algumas questões, sobretudo para escolher o papel feminino, já que a maioria das atrizes anglo-saxãs recusou a proposta, pela grande parcela de cenas de nudez. Foi, portanto, Mathilda May, uma francesa, que herdou o papel, mostrando verdadeiro talento, apesar de uma presença quase silenciosa, mas numa performance muito, digamos, física.

Uma das coisas mais legais de FORÇA SINISTRA é o fato de toda a ação na Terra se passar em Londres e arredores. E o filme tem mesmo uma atmosfera da tradição do horror/sci-fi britânico, acho que seria o mais próximo de algo produzido pela Hammer Films se eles ainda existissem nos anos 80. Não há indícios de que foi dirigido por um sujeito do Texas ou produzido por uma dupla de primos israelenses malucos. Desde os atores e diálogos, o tom levemente melodramático das situações, o estilo visual com movimentos de câmera mais contidos, o ritmo menos apressado. Talvez seja esse o motivo do fiasco? O filme não querer ser mais um épico sci-fi americano exagerado, mas sim um épico sci-fi britânico exagerado e de muito bom gosto? O fato é que o filme foi um grande fracasso quando lançado, uma indicação real de que a fórmula da Cannon realmente não funcionaria em uma escala de blockbuster.

Mas pelo menos cada centavo gasto do gordo orçamento é visível na tela, desde os incríveis efeitos visuais de John Dykstra até um monte de coisas legais com animatrônicos, algumas cenas de violência, cenários incríveis, tanto em miniaturas quanto em escala gigantesca. O final é um dos melhores que existe, de uma intensidade impressionante e belas imagens de puro horror. A enorme nave espacial pairando sobre Londres atraindo as almas de todas as pessoas que estão infectadas através de um enorme feixe azul. Ao mesmo tempo, a infecção está se espalhando e transforma cada indivíduo na cidade em um monstro/vampiro/zumbi; cenas dessas criaturas em massa acabando com Londres, pontos de referência sendo feitos em pedaços, uma atmosfera de loucura destrutiva e, no meio disso tudo, uma cena de sexo alucinante entre Railsback e Mathilda May em uma igreja no meio do feixe azul. Tobe Hooper era foda…

FORÇA SINISTRA era o filme que deveria ter revivido a carreira de Hooper, o que não aconteceu, comercialmente falando. Mas, como já mencionei, isso aqui foi um fracasso. Hoje tem ganhado seus fãs, incluindo o autor desse blog. Hooper acabou cumprindo seu contrato com a Cannon, entregando os dois filmes que ele ainda devia ao estúdio: INVASORES DE MARTE e a maravilha que é O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2. Ou seja, o sujeito continuou em atividade, entregando ainda alguns dos mais belos exemplares do horror americano nas décadas seguintes, como COMBUSTÃO ESPONTANEA e THE MANGLER (esse eu sei que muita gente odeia, mas foda-se, não é mesmo?), construindo uma carreira fascinante e se consolidando como um dos maiores mestres do gênero.

Não deixem de conferir o episódio do Cine Poeira, onde eu, Luiz e Osvaldo conversamos sobre FORÇA SINISTRA (é só clicar aqui) e separem um tempinho para ler meu manifesto no Apoia-se. Precisamos da contribuição de vocês para mais posts como este e com mais frequência. É só clicar no botão abaixo:

BIGFOOT (1970)

A minha queda por filmes ruins me faz chegar aos níveis mais sombrios da incompetência cinematográfica. Acabo vendo cada coisa que é difícil de acreditar… Mas no caso de BIGFOOT quem resiste a um poster como esse?

Obviamente que nada de tão espetacular assim acontece no filme, não vamos esperar um pé-grande levantando uma motocicleta pro alto. Esse tipo de arte é realizada antes mesmo das filmagens começarem, como material pra conseguir investimento para a produção. E apesar da bela imagem acima, os realizadores não conseguiram convencer muito não… O orçamento que conseguiram, pelo visto, é ridículo! Mas mesmo assim seguiram em frente e hoje temos esse filme chamado BIGFOOT para assistir… Só não sei se isso é bom ou ruim.

Agora, “O maior filme de monstros desde King Kong!‘”? “O filme mais realista e horripilante de todos os tempos.“? Não tenho ideia de que tipo de droga que essas pessoas usam pra fazer esses elogios, mas seja lá o que for, eu quero um pouco! Para assistir BIGFOOT e gostar no nível desses caras só se tiver com muito tóxico na cabeça…

O filme começa com uma loura voluptuosa (Joi Lansing, em seu último papel no cinema antes de sua morte prematura de câncer) embarcando em um pequeno avião monomotor e decolando para… não faço ideia. Mas também não importa, porque numa reviravolta brilhante do roteiro escrito pelo próprio diretor, Robert F. Slatzer, e James Gordon White, algo dá errado no meio do vôo e ela é forçada a saltar do avião de paraquedas. Já no chão, no meio de uma floresta, acaba sendo atacada e capturada por um grande monstro peludo!

Enquanto isso, os vendedores ambulantes Jasper (a lenda do cinema de horror John Carradine) e Elmer (John Mitchum, irmão do ator Robert Mitchum) estão dirigindo pela floresta até chegarem numa pequena loja de conveniência à beira de estrada. Enquanto tentam vender seus produtos, Jasper e Elmer pedem cerveja ao dono do local, mas a loja acaba de ser limpa por um grupo de motoqueiros que está passando pela área para fazer o que quase todos os motoqueiros fazem nos filmes no início dos anos 1970: beber cerveja e dançar na floresta.

Um dos motoqueiros, vivido por Christopher Mitchum, filho de Robert Mitchum (sim, existem dois membros do clã Mitchum neste filme), se separa do grupo por algum tempo pra ficar mais à vontade com sua namorada. Depois de tropeçar em um inusitado cemitério de pés-grandes, acaba nocauteado por uma das criaturas. Acorda e descobre que sua garota foi sequestrada. Agora são duas belezinhas sequestradas pelos monstros. O motoqueiro volta ao armazém para telefonar às autoridades e, ao ouvir sua história sobre a existência de tal criatura, um autêntico Pé-grande, o velho Jasper vê cifrões em seus olhos e sai com Elmer para capturar a criatura e faturar uma grana.

Se serão capazes de resgatar as mulheres também, pouco importa… Aliás, e isso é uma das coisas mais bizarras de BIGFOOT, ficamos sabendo que as duas moças são mantidas prisioneiras numa caverna onde vive uma “comunidade” de Pés-grandes, cujos integrantes pretendem acasalar com as capturadas para preservar a espécie… Hahaha!

Pois é, BIGFOOT aparentemente possui todos os elementos para ser um filme da categoria “tão ruim que chega a ser bom“, mas em vez disso é apenas “tão ruim que é só ruim mesmo“. A trama, a partir desses acontecimentos, vira um grande NADA. Entra num estágio de monotonia que mesmo os fãs mais dedicados de cinema exploitation não vão conseguir encontrar muitos atrativos por aqui.

A premissa de monstros querendo acasalar com mulheres sequestradas e sendo perseguidos por uma gangue de motoqueiros realmente poderia render algo bem mais interesante, mas o resultado é pobre de forma lamentável em todos os sentidos. E até o nível de violência e nudez é zero. Existem poucas coisas mais tristes neste mundo do que um filme de exploração que não tem coragem de explorar nada daquilo que realmente enche os olhos dos fãs do gênero.

Como ponto positivo de BIGFOOT, temos John Carradine em cena numa boa participação, embora claramente trabalhando no modo “quero receber meu pagamento no fim do dia“, mas ainda assim à léguas acima da maioria dos outros atores. Christopher Mitchum é outro destaque nas atuações, mas num sentido oposto ao de Carradine, entoando suas falas com todo o entusiasmo de um paciente em coma. Consigo me divertir com isso… Já os Pés-grandes, apesar de serem ridículos, não são assim tão precários quanto se espera para o nível da produção. Obviamente que ainda dá pra perceber que são pessoas em fantasias peludas de loja de dez centavos, que é algo que eu adoro. Mas não tem jeito, BIGFOOT é chatíssimo, demora muito para as coisas acontecerem. E quando finalmente acontecem, não vale o tempo de espera… Assista por sua conta e risco.

THE AMUSEMENT PARK (2019)

Em 2018 fomos agraciados com THE OTHER SIDE OF THE WIND, filme inacabado de Orson Welles que conseguiu, através dos esforços de alguns indivíduos e da Netflix, ver a luz do dia. Naquele mesmo ano, noticiou-se a descoberta de mais um tesouro perdido, um filme do então recém falecido George A. Romero, um dos maiores mestres do horror americano, filmado ainda nos anos 70 e que nunca foi lançado. Esse filme era THE AMUSEMENT PARK.

Em 1973, a Igreja Luterana contratou Romero – aparentemente sem ter visto nenhum de seus filmes (o sujeito já havia realizado três longas, incluindo o clássico A NOITE DOS MORTOS VIVOS) – para comandar uma produção institucional sobre a situação dos velhinhos, dos abusos e preconceitos que pessoas em idade avançada sofrem na sociedade. O que ele entregou, uma obra alegórica de horror, surrealista, com uma narrativa de pesadelo, deixou a Igreja tão chocada que acabou arquivando o material. THE AMUSEMENT PARK foi considerado perdido até 2018. Encontrado, restaurado, chegou a passar em festivais em 2019 (tornando a data oficial) e foi lançado essa semana no serviço de streaming Shudder.

Estrelado por Lincoln Maazel, que está no icônico filme de Romero, MARTIN (77), THE AMUSEMENT PARK abre com um monólogo do ator direto para a câmera, nos dando uma introdução do tipo Rod Serling (criador de ALÉM DA IMAGINAÇÃO), antes que nossa história comece. Assim que o “espetáculo” inicia, o espectador se sente imediatamente lançado em um mundo surreal e estranho. Maazel, agora vestindo um terno branco, adentra em uma sala branca, todo otimista, mas vê a si mesmo também na sala, sentado em uma cadeira, sujo e derrotado. O velho avisa à sua versão otimista para não passar pela porta e ver o mundo lá fora, mas o homem otimista diz que gostaria de ver por si próprio. E assim ele entra num parque de diversões. Um parque comum, familiar, mas que serve de alegoria para a sociedade apodrecida que Romero aborda.

O que se segue a partir disso é uma representação surreal da angustiante existência dos idosos no convívio em comunidade, usando situações cotidianas de um parque de diversões como versões paralelas do mundo real, num crescente de paranóia e horror.

Uma montanha-russa assume o ritmo de um pesadelo. Uma tentativa de almoçar termina em humilhação. O velho acaba sendo espancado por motoqueiros e, quando tenta encontrar os primeiros socorros, é maltratado por uma tenda médica sem alma… E por aí vai. A gota d’água vem quando o velhote encontra sua primeira conexão – uma menina, fazendo um piquenique com sua família, que pede a ele para ler uma história – interrompida de forma dolorosa…

Ao final, o velho está em frangalhos, de volta à sala branca. E sua versão limpinha e otimista retorna com seu ávido desejo de se aventurar lá fora. Mais um ciclo de sofrimento que se inicia…

Quer THE AMUSEMENT PARK tenha ou não o efeito pretendido pela igreja Luterana, algo que incitasse as pessoas a serem mais atenciosas com os mais velhos, hoje isso pouco importa. Romero criou um pequeno filme poderoso (53 minutos), digno de comparação com qualquer um dos tormentos alucinógenos do cinema psicodélico dos anos 70, ou uma versão mais extrema de um episódio de ALÉM DA IMAGINAÇÃO. Sentimos muita falta dos talentos de George A. Romero, que morreu em 2017, e ao menos temos a oportunidade de apreciar um trabalho inédito. Um filme que, ainda hoje, talvez não agrade qualquer público, mas cuja existência e inclusão na filmografia de Romero merece a celebração.

Netflix: ARMY OF THE DEAD (2021)

Nada contra o Zack Snyder, ainda tenho curiosidade e perco meu tempo vendo os filmes que lança. Mas já faz um bom tempo que o sujeito não faz algo que presta. Lembro que curti WATCHMEN (carece de revisão) e desde então pouca coisa salva… Só aí já passa de uma década. O último embuste foi o tal Snyder Cut da LIGA DA JUSTIÇA, 4 horas da minha vida jogadas no lixo. Mesmo assim, resolvi encarar seu novo trabalho, a mega-produção da Netflix ARMY OF THE DEAD, que me deixou até animado, prometia, pelo trailer, ser uma espécie de ONZE HOMENS E UM SEGREDO com zumbis, um conceito bacana e, enfim, achei que pudesse render algo interessante também por ser o retorno do Snyder ao subgênero zombie movie, já que seu primeiro filme é o bom remake de DAWN OF THE DEAD, de George A. Romero.

Assisti a ARMY OF THE DEAD, portanto, na firmeza, de coração aberto, sem preconceito. Não deu outra: é mais um exemplar decepcionante do cara, mais um filmeco todo errado… Saudades de WATCHMEN.

Depois que um surto de zumbis infecta Las Vegas, a cidade inteira é cercada e a zumbizada vive de boas lá dentro. Ninguém entra, ninguém sai. Mas a trama é sobre o ex-herói de guerra interpretado pelo grandalhão Dave Bautista, que é contratado pelo dono de um cassino bilionário, vivido Hiroyuki Sanada, para montar uma equipe com a missão de ir a Vegas infestada de zumbis, entrar no cofre de seu cassino e retirar $200 milhões de dólares que ficaram lá. É tudo dinheiro extra, o seguro já cobriu as perdas do ricaço. Ele só quer tirar um a mais… Mas será realmente só isso? O tempo torna-se uma questão essencial: o presidente dos EUA ordenou, sabe-se lá porque, que Vegas fosse varrida do mapa com uma bomba nuclear em quatro dias – quando seria exatamente 4 de julho… Acho que o Trump ainda estava no cargo no universo que o filme se passa.

Durante um tempinho o filme consegue dar aquela enganada e mantém o interesse – o prólogo e créditos iniciais são ótimos; a ideia de que toda a merda da infecção de zumbis se dá por conta de um boquete é engraçada; temos o tigre zumbi de Siegfried & Roy; e Snyder não economiza na hora da ação e violência. Mas ARMY OF THE DEAD tem 146 minutos de duração e simplesmente colapsa num amontoado de personagens, subtramas, clichês estúpidos, situações idiotas e escolhas que tornam o filme intragável (toda e qualquer situação envolvendo a personagem da filha do Bautista, por exemplo, tira qualquer possibilidade desse filme ser bom).

Há uma sequência que Snyder atinge os extremos, vai do céu ao inferno, da excelência à mediocridade, quando certa personagem rodeada de zumbis precisa agir para sobreviver, numa sequência de ação excepcional (prova que o diretor, quando quer, manda bem), para logo em seguida, essa mesma moça acabar encurralada, sem escapatória e sem ajuda, mesmo com os companheiros a 1,5 metro de distância, podendo atirar nos zumbis. Em vez disso, os caras ficam olhando ela morrer. Eu confesso que fiquei sem entender… O filme mostra de forma clara que os amigos dela estavam literalmente a poucos metros dela e não fizeram nada. Que troço idiota. Até aqui ARMY OF THE DEAD ainda parecia, no mínimo, decente. Mas depois dessa cena, a coisa foi ladeira abaixo.

Por exemplo, há momentos de ARMY OF THE DEAD que prenunciam coisas legais, mas que acabam frustrando as expectativas simplesmente porque… porque sim. Em determinada cena, ficamos sabendo que todos os zumbis mortos queimados voltam à vida quando chove. Ah, então vai ser incrível, quando chover mais tarde e houver uma enorme horda de zumbis! Isso nunca acontece… Temos esse personagem que carrega uma serra circular gigante? Vai ser maneiro vê-lo fatiar zumbis! Não, isso não rola também. Então vamos arriscar TODA a missão para salvar essas moças das quais ninguém dá mínima para o gran finale do filme? Aposto que vai ser frenético e épico, mal posso esperar para ver! Ah, que pena, nem sequer ficamos SABENDO o que aconteceu com as mulheres que foram salvas. Snyder deve ter esquecido de mostrar. Foi tudo em vão. Não serviu para um caralho!

Enfim, acho que já dá pra ter uma noção da desgraça, uma pequena amostra da coleção de bobagens que é. Daria para preencher vários parágrafos só com as cagadas que Snyder fez por aqui. O pouco prazer que pode ser encontrado em ARMY OF THE DEAD – algumas sequências de ação, visual, efeitos especiais, o conceito dos zumbis “inteligentes” – não supera nem remotamente a grande quantidades de estupidez e decepção. Roteiro, Snyder, você precisa de um roteirista. Dos bons. Mas, aparentemente, a rapaziada tem curtido essa porcaria, já estão planejando continuações, prequels e séries animadas desse universo. Fiquem à vontade. Eu paro por aqui.

A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN (1957)

A Hammer Films já existia há um bom tempo e tinha obtido um sucesso considerável com algumas produções, sobretudo com o excelente THE QUATERMASS XPERIMENT em 1955. Mas foi A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN (The Curse of Frankenstein), em 1957, que realmente colocou a produtora no mapa e, no processo, lançou uma onda de filmes de monstros clássicos, do terror gótico, como franquias bem lucrativas.

O próprio diretor da bagaça, Terence Fisher, já havia dirigido muitos filmes para Hammer, incluindo exemplares de ficção científica e alguns da safra de film noir britânico que a produtora fazia aos montes na sua primeira fase. Foi uma escolha óbvia para assumir este projeto aqui, o mais ambicioso da Hammer até aquele momento, o sujeito demonstrava um talendo superior a todos os demais diretores da produtora. E para dar o pontapé inicial, a Hammer decidiu trabalhar com um dos mais famosos monstros da literatura e que também já tinha virado ícone do horror pela Universal nos anos 30. Só que agora seria em cores, widescreen e com um teor a mais de sexo e violência. Foram decisões acertadas, assim como colocar Peter Cushing e Christopher Lee como as figuras centrais da parada.

Mas o roteiro de Jimmy Sangster para A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN não se apega muito ao romance de Mary Shelley, muito menos à versão de 1931 da Universal – até porque a produtora americana estava ameaçando processar os ingleses da Hammer se qualquer elemento ou detalhe de seus filmes fosse copiado… Melhor assim. Sangster acabou escrevendo algo “original” e um dos motivos de sucesso do filme foi justamente o fato de que parecia uma abordagem completamente nova do mito de Frankenstein e sua criatura.

Nesta versão, o assistente do Barão Frankenstein (Cushing) é seu tutor, Paul Krempe (Robert Urquhart), que se tornou colaborador. Até que os experimentos de Frankenstein começam a se tornar mais radicais e seus métodos moralmente duvidosos. Paul se mantém no local apenas porque tem medo de deixar a bela prima – e noiva pretendida – de Frankenstein, Elizabeth (Hazel Court), sozinha em casa com o Barão cada vez mais obsessivo. Paul tenta persuadir Frankenstein do perigo representado por seu experimento, a criação de um indivíduo artificial composto de várias partes de vários corpos, mas os esforços de Paul para impedir o Barão resultam em danos ao cérebro que fora reservado para a criatura. Isso não só tem consequências desastrosas para o monstro, mas também empurra Frankenstein ainda mais à beira da loucura.

O que há de mais revolucionário nesta versão é a atuação de Peter Cushing como Frankenstein. O livro de Mary Shelley e a maioria das adaptações cinematográficas levantam a questão de quem é o verdadeiro monstro, Frankenstein ou a criatura, mas nesta versão não há nenhuma dúvida. O foco é todo no barão Frankenstein em vez de sua criação. Aqui, Cushing é quem brilha, tem um de seus melhores momentos – é o vilão que você ama e odeia. É quem o público vê assassinando e provocando o caos, uma máquina diabólica, desmembrando cadáveres e utilizando partes de corpos, é o “cientista maluco” clássico, com seu cinismo latente e sua moralidade jogada às favas em prol da ciência. O tipo de sujeito que senta perto do fogo e bebe um bom vinho tinto depois de ter empurrado um velho para a morte só para utilizar seu cérebro; ou, depois de um passeio noturno ao agente funerário, orgulhosamente exibe à Paul um novo par de olhos ou mãos decepadas para usar nos experimentos. E ele não é um cientista idealista que sucumbe gradualmente à tentação de brincar de Deus, nem é um homem bem-intencionado, que lentamente perde sua bússola moral conforme seus experimentos fogem do controle. Com o Frankenstein de Cushing, fica claro que as sementes da loucura e do mal estavam lá desde o início. Desde o início de sua carreira científica, ele estava preparado para perseguir fins e utilizar meios que não eram apenas moralmente duvidosos – eram clara e inequivocamente imorais.

Nisso, Christopher Lee acaba ficando meio que relegado ao segundo plano. Boris Karloff, em 1931, havia dotado a criatura com uma certa dignidade e até bastante simpatia. Por aqui, a criatura de Christopher Lee é um reflexo hediondo do vácuo moral na alma de seu criador. Mas todas as suas poucas cenas, com aquela maquiagem grotesca (imagem acima), são geniais. São momentos pelos quais o filme ganha uma força seminal, mostra um novo tipo de horror surgindo na tela, cheio de vigor e cores contrastantes. A primeira meia hora de A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN pode até ser um pouco lenta, mas depois disso o ritmo acelera e Terence Fisher demonstra porque foi um dos grandes mestres do horror. Alguns de seus filmes anteriores são bons, mas está claro que o terror gótico era o gênero perfeito para seus talentos.

A amizade de Lee e Cushing também deu-se início por aqui, quando Lee invadiu o camarim de Cushing, reclamando que seu personagem não tinha falas… Cushing gentilmente respondeu: “Você tem sorte. Eu li o roteiro“. Mas A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN é realmente ótimo, não é meu filme favorito da “franquia” de Frankenstein da Hammer, mas sem dúvida alguma foi um começo de um ciclo que impressiona a cada revisão.

ABBOTT E COSTELLO CONTRA FRANKENSTEIN (1948)

Em 1948, os filmes de terror da Universal estavam saindo de moda e, depois de reunir seus monstros de várias maneiras em filmes como A CASA DE FRANKENSTEIN ou A CASA DO DRÁCULA, o estúdio decidiu injetar um pouco de energia na série colocando sua dupla de comediantes Abbott e Costello para interagir com os montros em ABBOTT E COSTELLO CONTRA FRANKENSTEIN (Abbott and Costello Meets Frankentein). O resultado até que acabou sendo um grande sucesso. A dupla de comediantes repetiram a fórmula em filmes subsequentes, encontrando outros personagens do universo do horror, como o Homem Invisível ou a Múmia, embora para esses monstros, estas seriam as últimas vezes que apareciam em suas encarnações clássicas. Mas apesar de serem filmes de comédias, não deixou de ser uma despedida em grande estilo…

Chick (Bud Abbott) e Wilbur (Lou Costello) são carregadores de estações ferroviárias na Flórida que um dia recebem uma ligação de Londres. É Larry Talbot (Lon Chaney Jr) – quem está familiarizado com o horror da universal sabe que se trata também do Lobisomem – que implora para que eles não entreguem num museu local algumas caixas grandes que receberam. Quando Talbot está prestes a explicar os motivos, acaba vendo a lua cheia e… Bom, já é tarde demais. Wilbur desliga, e naquela noite a dupla entrega as caixas de qualquer maneira, conforme ordenado pelo proprietário, que afirma que elas contêm os corpos do Conde Drácula (Bela Lugosi) e do Monstro de Frankenstein (Glenn Strange)…

O que segue a partir daí é uma série de esquetes divertidas. O Drácula ameaçador de Lugosi tem planos para colocar o cérebro de Wilbur dentro da cabeça do Monstro de Frankenstein, o que leva a uma noite de caos e muita correria. As piadas são boas, tanto visuais quanto verbais, o segredo era manter os Monstros sempre assustadores e os dois personagens centrais sempre assustados. Na maior parte do tempo, temos Wilbur apavorado com as figuras se aproximando dele, ele chamando “Chick!” e os vilões recuando e desaparecendo antes que Chick os avistasse. É a luta eterna entre os crédulos e os céticos, com o pobre Chick nunca acreditando nos acontecimentos sobrenaturais porque nunca os vê acontecendo, enquanto Wilbur, é claro, se borrando de medo por ver os monstros toda hora.

É um tipo de humor até bastante repetitivo, algo de cartunesco, mas as reações exageradas da dupla são ideais para esse tipo de comédia misturada com o horror, especialmente quando temos os atores desempenhando seus papéis de monstros ao máximo, especialmente Lugosi, que repete aqui pela última vez o personagem que o imortalizou.

O SILÊNCIO DO LAGO (1988)

O SILÊNCIO DO LAGO (Vanishing, no título em inglês, ou Spoorloos, no original em holandês) é um bom ponto de partida para conhecer a obra do diretor George Sluizer. Não que ele seja um diretor essencial para se conhecer, mas vai que alguém se interesse… No entanto, O SILÊNCIO DO LAGO, esse sim, vale a pena. É seu filme mais famoso e fez um baita sucesso internacional no período, ganhou status cult e chegou a ter um remake americano em 1993, dirigido pelo próprio Sluizer e que ainda não vi, mas aparentemente não conseguiu o mesmo resultado (cometeu o velho pecado de mudar o final original para um mais otimista…).

O filme é uma divagação sobre considerar a vida cotidiana salva e segura até que seja alterada por uma desgraça em um único instante. Saskia (Johanna der Steege) não esperava encontrar Raymond Lemorne (interpretado pelo falecido Bernard-Pierre Donnadieu) em um ponto de parada de uma rodovia lotado de viajantes. Ela não esperava encontrar um homem que se descobriu psicopata ainda jovem e passou anos ensaiando o momento em que sequestraria uma mulher aleatória. Lemorne exibe o verdadeiro mal, mas consegue esconder sob a pele de respeitável empregado de classe média, casado com uma esposa devotada e duas filhas. Depois de várias tentativas fracassadas, o sujeito consegue drogar e sequestrar uma mulher – que por acaso é Saskia. O que ele planeja fazer com sua vítima após o sequestro é um segredo sabiamente mantido do público até os momentos finais do filme.

O namorado de Saskia, Rex (Gene Bervoets), é um pouco ingênuo no início, mas quando Saskia simplesmente desaparece debaixo do nariz de dezenas de pessoas, dá-se início ao seu processo de transformação. O SILÊNCIO DO LAGO também é sobre violência inesperada e aleatória que pode acontecer em qualquer lugar – até mesmo em uma loja de conveniência visivelmente “segura” em um posto de gasolina lotado de famílias no meio do dia. É assustador. E a forma como Sluizer conduz tudo isso é algo belo, de alto calibre, desde a tensão inicial da sequência do túnel, passando pelo jogo de gato e rato entre Rex e Lemorne, até o aterrorizante final – quando Rex faz uma aposta arriscada para descobrir o que realmente aconteceu com Saskia.

Stanley Kubrick chamou O SILÊNCIO DO LAGO de o filme mais assustador que ele já tinha visto e procurou Sluizer para discutir como ele editou o filme. O que faz bastante sentido, já que o suspense é todo construído sobre a necessidade de saber o que realmente aconteceu com a moça sequestrada. O que deve ter causado um bocado em Kubrick, um homem que claramente tinha uma curiosidade voraz. E assim como seu sequestrador, O SILÊNCIO DO LAGO é cuidadoso com suas revelações, aumentando a tensão em um ritmo desconfortável e lento, mas deveras perturbador. Sluizer usa essa curiosidade do público como uma arma à seu favor, criando um vínculo simpático com Rex e uma fascinação obsessiva por Lemorne. E a conclusão é sem dúvida um dos finais mais enervantes do cinema de horror dos anos 80.

SEXTA-FEIRA 13 (1980)

Mês de outubro, clima de Halloween, etc, aproveitei para revisitar SEXTA-FEIRA 13, o clássico slasher que tá completando 40 anos em 2020. Já fazia umas duas décadas que não assistia, mas guardava boas lembranças. Então fiquei feliz de ter essa impressão confirmada agora. Não acho nenhuma obra-prima, mas é um horror bem eficiente e, levando em conta o seu contexto, a coisa se torna especial, estamos mexendo com as raízes do subgênero slasher por aqui…

Claro, PSICOSE pode ter plantado a semente; BAY OF BLOOD, de Mario Bava, e BLACK CHRISTMAS, de Bob Clark, serviram de base e muita inspiração; e HALLOWEEN deu o pontapé inicial. Outros filmes surgiram no meio do caminho que de certa forma dialogam com o subgênero (MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, por exemplo). Então é evidente que SEXTA-FEIRA 13 não criou nada do zero. Mas é fascinante perceber como o diretor Sean S. Cunningham e o roteirista Victor Miller pegaram todos os ingredientes possíveis desses filmes anteriores, misturaram e conceberam a alma do slasher movie, um produto final de pureza absurda, estabeleceu todos os clichês do gênero. Provavelmente um dos mais copiados de todos os tempos. HALLOWEEN pode ser um filme melhor em vários sentidos. Esse sim, uma obra-prima. Mas SEXTA-FEIRA 13 é o filme definitivo quando se trata de slasher movie.

Essa revisão deixou ainda mais evidente como SEXTA-FEIRA 13 é um filme muito bom. É direto, a trama é simples, mas gosto do seu primitivismo. E como foi tão copiado ao longo das décadas, fica a impressão até de um filme meio genérico – tirando a reviravolta no final, ele nunca sai do formato narrativo que estabelece desde o início. Mas quando você para e pensa que a coisa aqui ainda tava em sua gênese, é incrível.

E é interessante como a memória às vezes engana, o filme não é tão violento quanto eu lembrava e, apesar disso, não senti falta de algo mais brutal. Obviamente temos algumas ceninhas gráficas de violência com muito sangue e corpos perfurados, rasgados e decepados para dar aquela alegrada e poder elogiar o trabalho fenomenal de Tom Savini – especialmente na cena da morte de Kevin Bacon (único no elenco jovem que conseguiu desenvolver uma carreira depois?). Mas em comparação com slashers posteriores, é suave.

Mas como disse, não senti falta de mais violência, acho que compensa o trabalho atmosférico, a câmera em “primeira pessoa” que observa furtivamente o grupo de jovens que em breve vão virar presunto… E o cenário que é estabelecido captura perfeitamente o terror mágico das florestas, com a chuva cintilante caindo em Crystal Lake, cada vez mais descendo às trevas. Chega num ponto que não se vê merda nenhuma na tela, de tão escuro, mas ao mesmo tempo é precisamente iluminado para que se veja o que é necessário. Está no nosso DNA, sabemos que é preciso ficar perto do fogo, da luz, e fingir que não há nada lá fora nos observando. Mas a gente sabe que a qualquer momento uma lâmina bem afiada pode surgir pra cortar a nossa jugular… Esse é o poder de SEXTA-FEIRA 13.

Mas peraê? Até gora não falei do maior ícone da série SEXTA-FEIRA 13! Talvez o principal motivo da franquia durar tanto tempo. Na verdade, é provável que seja o maior ícone do slasher movie de uma forma geral. Acho que não chega nem a ser um spoiler o que vou dizer, mas se você, por algum motivo, nunca teve notícias sobre o primeiro SEXTA-FEIRA 13, esteve em coma nos últimos 40 anos ou chegou agora no planeta terra vindo de marte, sugiro que não leia o próximo parágrafo antes de ver o filme.

O fato é que neste primeiro filme, o inigualável Jason Voorhees, com sua inconfundível máscara de hóquei, não é exatamente um personagem, ele é “o motivo” de todas as mortes… Não ficamos sabendo muito da história do Acampamento Crystal Lake, apenas que é chamado de “Camp Blood” por causa de alguns assassinatos que rolaram no passado (mostrados logo no início do filme) e tentativas de reabrir o acampamento falharam. No final do filme, Betsy Palmer aparece como a lunática Pamela Voorhees, que começa a falar sobre o garotinho que se afogou no local e revela que era seu filho, Jason. Ela culpa os conselheiros do local por não cuidarem do moleque o suficiente, e totalmente surtada confunde qualquer filho da puta que cruza seu caminho com os conselheiros. E é isso, essa senhorinha é quem de fato perfura, corta e decepa os vários personagens de SEXTA-FEIRA 13.

Inclusive, um dos pontos altos é a luta final entre a final girl do filme, Alice (Adrienne King) e Pamela Voorhees. Elas realmente partem pra grosseria, rolam no chão, dão pancadas, é uma briga bem digna. Mas não demora muito, Alice decepa a cabeça da velha com um facão, o que é algo que já torna SEXTA-FEIRA 13 obrigatório… Não é sempre que vemos uma senhorinha simpática de suéter tendo a cabeça cortada.

Agora tenho que rever a parte 2, que a única coisa que lembro é que, agora sim, teremos Jason em todo seu resplendor para mais uma contagem de corpos, apesar de ainda ser sem a máscara de hóquei… Vamos ver como se sai hoje. Se for tão divertido quanto este aqui, já fico no lucro.

ALONE (2020)

Para quem se interessou minimamente pelo cinema de ação dos últimos quinze anos, o nome JOHN HYAMS deveria soar familiar. Filho do diretor Peter Hyams (OUTLAND, CAPRICÓRNIO UM), o sujeito entrou na cena com alguns dos melhores e mais ousados exemplares recentes do gênero: as continuações altamente badasses de SOLDADO UNIVERSAL, contando ainda com a presença dos atores originais, Van Damme – com quem seu pai havia trabalhado nos anos 90 (TIMECOP e MORTE SÚBITA) – e Dolph Lundgren. Davam a impressão de bons cartões de visitas de Hyams para abocanhar projetos mais ambiciosos, talvez sob a batuta de algum grande estúdio. Talento e potencial o cara demonstrou. Mas acabou não acontecendo…

Apesar da positiva recepção que seus filmes de ação tiveram, Hyams passou os anos seguintes na televisão, produzindo e dirigindo uma série de zumbis, Z NATION, e seu spin-off na Netflix, BLACK SUMMER. Seu longa seguinte só foi sair em 2018, uma comédia que passou batida e quase ninguém viu, chamada ALL SQUARE. Eu mesmo não parei pra ver… E aparentemente o cara tava se afastando de tudo o que queríamos dele.

No entanto, eis que nesse estranhíssimo ano de 2020, John Hyams está de volta. Tá certo que ainda não é com algo exatamente na mesma linha dos seus filmes de ação, infelizmente, mas ao menos ele retorna com um material bem interessante, que é ALONE, um pequeno survival horror film muito bem executado, demonstrando que o sujeito não perdeu a mão.

Na trama temos Jessica (Jules Willcox), uma mulher se mudando para sua cidade natal para recomeçar após uma tragédia em sua vida. Acaba tendo uns transtornos com um carro preto na rodovia, dirigindo agressivamente e aparentemente a seguindo. Eventualmente, ela conhece o motorista do carro (Marc Menchaca), que está tentando ser legal, parece inofensivo, mas continua aparecendo nos lugares que Jessica encosta o seu veículo. O que acaba não sendo muita coincidência. O Homem realmente tem planos nada agradáveis pra ela… Até que a moça finalmente sai da estrada por conta de um pneu misteriosamente furado e o sujeito aproveita pra aparecer e deixar suas intenções bem claras. Agora, Jessica terá que retirar forças sabe-se lá de onde para sobreviver tanto dos perigos da floresta quanto do homem que certamente a matará se tiver a chance. Vai enfrentar frio, chuva, ferimentos, a ameaça de um psicopata, tudo isso enquanto sua própria vida já está em pedaços.

Composto por uma série de blocos, cada um com seu próprio título e particularidades diferentes, ALONE não é o tipo de filme que vai reinventar a roda, não vai jogar uma nova luz de genialidade ao gênero ou subverter suas convenções. É basicamente mais uma trama de sobrevivência como milhares que existem por aí. A diferença é que é feito com tanta habilidade, personalidade e confiança que acaba se destacando da concorrência. É ter um diretor do calibre de Hyams por atrás das câmeras, que pega esse material tão manjado e transforma em puro prazer visual, em um exercício formal despojado (uso criativo do foco, das lentes, da luz, dos espaços), consegue criar uma experiência realmente tensa e exaustiva.

O trabalho com o elenco também é muito bom. Ambos atores centrais, Willcox e Menchaca, chamam a atenção (não conhecia nenhum dos dois). Mas ainda temos uma participação mais que especial do grande Anthony Heald (O SILÊNCIO DOS INOCENTES).

No entanto, é um filme que realmente pertence a Willcox. Seguimos cada movimento de sua personagem do início ao fim, sentimos o esforço de continuar lutando, continuar sobrevivendo. É uma mulher a princípio perdida emocionalmente (ficamos sabendo mais tarde os motivos de sua desestabilização), que se transforma e demonstra uma força interior real. E Willcox se entrega no papel com uma expressividade no olhar muito forte. E o público realmente torce por ela, como se estivesse na mesma situação. Quando chega o confronto final entre Jessica e seu caçador, sente-se como se estivesse dando cada soco, cada chute por ela…

E essa sequência é um deleite, quase dá pra matar a saudade do cinema físico que Hyams realizou no início da carreira…

Em última análise, ALONE lança um olhar para o horror de ser uma mulher que é assediada e atacada por um homem. Mesmo antes de as coisas se tornarem ameaçadoras, o Homem (que não tem nome no filme, sua identidade não importa) não a deixa em paz, apesar de seus pedidos para que o fizesse. É só uma questão de tempo, demonstra o filme, até que a coisa descambe para a violência.

Altamente recomendado, ALONE é desses filmes a não se perder este ano. E esperamos que John Hyams não demore pra vir com mais surpresas como essa. Quem sabe aquele projeto da refilmagem de MANIAC COP, com a produção do Nicolas W. Refn, que haviam anunciado há uns anos?

O FILHO DE DRÁCULA (1943)

O FILHO DE DRÁCULA (Son of Dracula), é o terceiro filme da Universal que carrega o nome “Drácula” no título. E sabiamente afasta-se tanto quanto possível dos cenários e enredo do romance original de Stoker. Da mesma forma que o segundo, que comentei aqui recentemente, A FILHA DE DRÁCULA. Havia essa preocupação dos realizadores em não “recauchutar” os filmes originais, que tinham sido sucessos, e se arriscavam em fazer algo diferente.

Uma das principais mudanças deste aqui é o cenário, que foge do visual gótico e sombrio europeu e transcorre na região pantanosa do sul dos EUA num período “contemporâneo”.

Kay Caldwell (Louise Allbritton) é a herdeira excêntrica de um rico coronel, cujo entusiasmo pelo ocultismo chama a atenção de todos à sua volta. Sua família a considera estranha, mas isso não impede que seu jovem vizinho, Frank (Robert Paige), se apaixone perdidamente por ela. Sua extravagância atual é a telepatia, pois acredita que está em contato com um misterioso aristocrata do Leste Europeu e que o está chamando. E, de fato, é exatamente isso que está acontecendo.

A bagagem de seu misterioso nobre, um húngaro chamado Conde Alucard (Lon Chaney Jr), chega de trem. Inclui várias caixas grandes, mas não há sinal de seu dono. Rola até uma festa de boas-vindas na mansão Caldwell sem o hóspede, mas Kay está convencida de que ele chegará naquela noite. Só que coisas estranhas e trágicas começam a acontecer… A noite cai e um incêndio inexplicável irrompe no quarto do patriarca da família, cujo cadáver é então descoberto. Parece que foi vítima de um ataque cardíaco, embora alguém diga que parece que morreu de susto. Pouco depois, o conde húngaro chega à porta da mansão.

O médico de família, Dr. Brewster (Frank Craven), desconfia do recém-chegado desde o início, e suas suspeitas aumentam quando ele conversa com o professor Lazlo na embaixada da Hungria em Washington, que nunca ouviu falar de conde Alucard, mas ambos notam que Alucard escrito ao contrário é Drácula. E a partir daí o filme vira uma sucessão de situações de horror, uma corrida contra o tempo para se livrar do mal que paira sobre a região ao melhor estilo do Ciclo de Monstros da Universal.

E uma das coisas mais legais de O FILHO DE DRÁCULA é que os personagens não levam muito tempo pra descobrir que algo sobrenatural está acontecendo, todos parecem muito familiarizados com o mito de Drácula e rapidamente percebem o tipo de ameaça que estão lidando.

O grande Lon Chaney, o homem das mil faces, não teve a oportunidade de viver o Conde Drácula, embora fosse a primeira escolha da Universal ainda para o primeiro filme, mas morreu antes das filmagens iniciarem e acabou substituido por Bela Lugosi. Então é legal ver que seu filho, Lon Chaney Jr, teve a chance em O FILHO DO DRÁCULA, num papel não tão icônico quanto o Drácula original de Lugosi, mas com uma atuação bem digna e nada convencional que dá ao personagem um tom de ameaça bem expressiva.

Parece que dividiu as opiniões em relação à sua interpretação por aqui. Eu achei ótimo, um de seus melhores desempenhos no Ciclo de Monstros. Lembrando que o sujeito também já foi o Monstro de Frankenstein em O FANTASMA DE FRANKENSTEIN, mas seu papel mais famoso foi em O LOBISOMEM, onde faz o personagem título e que continuou fazendo numa série de outros filmes. Por aqui, como Drácula, tem muita presença física e seu olhar penetrante realmente está assustador, transmite uma crueldade e um desprezo pela humanidade que possivelmente nem mesmo o Lugosi expressava.

Louise Allbritton como Kay está fantástica, refletindo perfeitamente suas preocupações “mórbidas”. Sua imagem não fica tão marcada pelo erotismo perturbador que Gloria Holden em A FILHA DE DRÁCULA, mas Kay é uma das personagens mais fascinantes da série, que se revela uma figura ainda mais perversa e perturbadora do que o vilão ostensivo de Drácula. Você quase sente pena do pobre Alucard por se envolver com ela… E mais pena ainda pelo pobre Frank, que vive o drama mais interessante do filme. O fato de O FILHO DE DRÁCULA ser focado em uma personagem feminina tão forte, o torna quase um filme noir, com Kay numa espécie de femme fatale da parada.

Por falar em film noir, a direção é do grande Robert Siodmak, justamente conhecido pelos belos exemplares do gênero que tem em sua filmografia, como a primeira versão de OS ASSASSINOS, com Burt Lancaster. Siodmak dá a’O FILHO DE DRÁCULA algumas das imagens mais impressionantes de qualquer filme de terror daquela época – cenas como o conde surgindo no pântano, o uso da névoa como efeito das variadas metamorfoses do vampiro e o morcego na cela em que Frank está preso são bons exemplos de composições de arrepiar.

Siodmak faz uma mistura interessante de estilos, com sequências centradas nos dois doutores “caçadores de vampiros”, Dr. Brewster e Lazlo, sendo filmadas principalmente à luz do dia, enquanto as cenas centradas em Kay, o Conde, e especialmente Frank, são noturnas, filmadas num estilo expressionista. Enfatiza o contraste entre a realidade cotidiana e o mundo de pesadelo dos vampiros. Para um filme que coloca um vampiro no mundo dos anos 1940, é uma boa sacada.

Pena que foi o único filme do gênero, horror puro, que Siodmak realizou. O FILHO DE DRÁCULA foi uma bela descoberta, talvez eu tenha gostado ainda mais que o anterior, A FILHA DE DRÁCULA, embora o primeiro continue imbatível.

A partir daqui, o personagem começaria a aparecer no Ciclo de Monstros em produções que faziam crossover entre as figuras que habitam os universos desses monstros clássicos, especialmente com Lobisomem e o Monstro de Frankenstein, como em A CASA DE FRANKENSTEIN e A CASA DE DRÁCULA, que já foram assuntos aqui no blog. Falta comentar alguma coisa ainda sobre ABBOTT & COSTELLO CONTRA FRANKENSTEIN, mais uma dessas misturas malucas, agora numa comédia, mas que marcou como a última aparição de Bela Lugosi como Drácula.

★ ★ ★

A FILHA DE DRÁCULA (1936)

Demorou cinco anos para a Universal lançar uma sequência para o seu sucesso de 1931, DRÁCULA, que comentei por aqui outro dia. A produção tem seu lado conturbado e aconteceu num período delicado para a produtora, cujos problemas financeiros chegaram no auge e a família Laemmle – incluindo o patriarca Carl Laemmle, que fundou o estúdio – foi chutada sem cerimônia.

Enquanto isso, A FILHA DE DRÁCULA (Dracula’s Daughter) teve o roteiro reescrito trocentas vezes ao longo dos anos, Bela Lugosi fora dispensado depois de exigir um salário melhor, a produção teve o orçamento estourado por conta dos atrasos e de más decisões, acabou caríssimo para os padrões da Universal… Tudo contribuiu para que essa continuação demorasse tanto para ver a luz do dia.

Apesar disso, A FILHA DE DRÁCULA é uma sequência intrigante. Percebe-se claramente que não se trata de um caça níquel mequetrefe que repete a fórmula do primeiro filme para enganar o espectador, mas, ao contrário, toma caminhos diferentes, subverte as expectativas e desenvolve ideias muito originais, realmente provocativas, tão interessantes quanto as do seu antecessor.

O filme começa exatamente onde DRÁCULA termina, com o vampirão tendo acabado de ter o coração perfurado com uma estaca pelo professor Von Helsing (por alguma razão o “Van” foi trocada por “Von” para esta sequência, sabe-se lá porquê). Então, Von Helsing, novamente vivido por Edward Van Sloan, ainda está no mesmo local que fecha o filme de 1931, quando a polícia chega e o sujeito acaba acusado do assassinato do Conde Drácula – e que, novamente, por alguma misteriosa razão, sumiram todos os outros personagens do filme anterior que poderiam testemunhar a seu favor. Vai entender…

Sir Basil Humphrey (Gilbert Emery), da Scotland Yard, até preferiria não prosseguir com as acusações contra o professor, mas não tem escolha. Aconselhado a buscar por um bom advogado, Von Helsing, em vez disso, pede para ser defendido por seu ex-aluno, um psiquiatra chamado Jeffrey Garth (Otto Kruger). Mas tudo complica ainda mais quando o corpo do Conde Drácula – um boneco de cera que imita a aparência de Lugosi – desaparece da estação de polícia.

O corpo, na verdade, fora roubado pela Condessa Marya Zaleska (Gloria Holden), a qual se refere ao longo do filme como a filha de Drácula… Filha biológica? Aí as coisas já não ficam muito clara, tendo em vista que o Conde tinha essa capacidade de transformar algumas de suas vítimas em “filhos da noite“, o que pode ser o caso da Condessa…

Filha real ou não, o que é interessante é o fato da condessa ser uma vampira relutante, à princípio, esperando que a morte de Drácula a libertasse da maldição do vampirismo. Mas, aparentemente, a coisa não deu certo… Agora, ela espera que talvez a psiquiatria possa ajudá-la.

E é curioso que A FILHA DE DRÁCULA talvez seja o primeiro filme a abordar a ideia do vampirismo como uma forma de transtorno psiquiátrico, ou de hipinoze ou até de domínio mental do que realmente necessidade de sangue e outras características dos vampiros. Ideias que já foram exploradas inúmeras vezes ao longo das décadas, mas que aqui talvez mereça o crédito por ser o primeiro a fazê-lo.

Jeffrey Garth, o tal psiquiatra amigo de Von Helsing, acaba justamente sendo o disponível para lhe atender. A Condessa, desesperada para escapar de seu destino vampírico, fica cada vez mais convencida de que apenas Garth pode ajudá-la. Se ele não fizer de bom grado, bom, o bicho vai pegar… Porque aí toda relutância acaba e a vampira resolve assumir o lado malvado do papai. Enquanto isso, mais corpos com o sangue drenado e furos no pescoço vão surgindo pelas ruas de Londres.

Uma das coisas mais fascinantes de A FILHA DE DRÁCULA é a personificação de Gloria Holden como a personagem do título. Com uma beleza exótica, parece exatamente como se imagina uma vampira. Seu desempenho é crucial e funciona lindamente. Ainda no elenco, Irving Pichel, que faz o fiel criado da Condessa, está agradavelmente assustador, perfeito para esse tipo de papel.

Agora, não sei se Otto Kruger foi a escolha ideal para Garth. Não vi muita graça no sujeito e ele não parece muito à vontade como “herói” da parada. Já Marguerite Churchill se diverte como sua assistente, Janet. E Edward Van Sloan tem uma participação bem menos expressiva que a do primeiro filme. Gostava mais quanto ele era “VAN” Helsing ao invés de “Von“…

O visual do filme, assim como o do primeiro, é impressionante. Mas o diretor Lambert Hillyer e o diretor de fotografia George Robinson não exageram muito no gótico, estilo que utilizam para fazer uma combinação eficaz entre, digamos, o gótico dos vampiros e o universo moderno da ciência e tecnologia. A sequência em que a Condessa Zaleska e Sandor realizam um ritual com o corpo do Conde Drácula tem umas composições bem bonitas.

No geral, o filme não possui o talento de um Tod Browning (ou James Whale, que chegou a ser escalado para dirigir A FILHA DE DRÁCULA), mas Hillyer era um diretor competente. Embora não tivesse tanta experiência com horror, teve no currículo mais de 160 filmes (a grande maioria Westerns).

Novamente temos aqui a ideia do vampirismo ligado à sexualidade, ou mais especificamente à sexualidade doentia ou perigosa que sempre existiu, sendo uma característica central da maioria das histórias que lidam com vampiras. O que, claro, nos leva à cena mais notória de A FILHA DE DRÁCULA, em que uma jovem é atraída ao estúdio da Condessa para posar para uma pintura e acaba se tornando mais uma vítima. A cena certamente dá a sensação de sedução e lesbianismo, reforçada pelo fato de que a garota se desnuda parcialmente para posar para a condessa, que a devora com os olhos.

Então, A FILHA DE DRÁCULA também é o primeiro exemplar de vampiras lésbicas? Muito provável. E essa cena certamente pode ser interpretada dessa forma, sem precisar refletir muito. No entanto, existe outra ideia possível. Já que a condessa deseja escapar de sua existência vampírica e viver como uma mulher normal, ela sente ciúmes e ódio ​​por outras mulheres que podem viver uma vida normal e experimentar o amor e etc… Sua atitude com Janet, que acaba sequestrada ao final (o que rende mais cenas bem ambíguas de lesbianismo) tende a apoiar a ideia de que ela pode ser motivada pelo ódio às mulheres, e não por outros sentimentos…

Enfim, A FILHA DE DRÁCULA me deixou com esses pensamentos, que não precisam exatamente de definições e respostas. É um filme de horror inteligente que não se fecha e por isso mesmo tão bom. Talvez realmente faltasse a maestria de um Tod Browning na direção, que é o que torna o primeiro DRÁCULA imbatível. Mas dentre os filmes do ciclo de monstros da Universal, A FILHA DE DRÁCULA é um dos mais fascinantes.

★ ★ ★

DRACULA (1931)

Revi o DRACULA do Tod Browning, estrelado pelo grande Bela Lugosi. Nunca fui grande fã desta versão e cheguei a comentar no início do texto que fiz sobre FRANKENSTEIN, de James Whale, há alguns meses, que “FRANKENSTEIN sempre me pareceu bem mais avançado e moderno, resistindo mais ao teste do tempo. Posso ver e rever que não me canso. Já o filme de Browning… Não que eu não goste de DRACULA, que também tem sua inegável importância para o gênero, mas não me encanta tanto quanto outros exemplares de horror do período.

Bom, eu era jovem e não sabia de nada quando vi DRACULA nas primeiras vezes. E ainda não sei muita coisa. Mas revi agora em blu-ray e, pronto, foi dessas revisões que muda tudo. Daí que sempre ressalto a importância de rever determinados filmes. Estes não mudam, mas a nossa sensibilidade sim. E ao longo do tempo obras que achamos menores acabam se revelando maravilhas do cinema. Como é o caso de DRACULA.

Pode-se dizer que trata-se da primeira versão oficial levada para as telas do romance de Bram Stoker, considerando que NOSFERATU (22), de Murnau, seja a versão pirata do romance. Essa história todo mundo conhece, os caras não compram os direitos de adaptação do livro, e mesmo assim seguiram em frente achando que ninguém ia se importar. O filme é maravilhoso, mas a rapaziada se ferrou. Mesmo com todas as diferenças em relação ao material original, não teve jeito… A viúva de Stoker chegou a processar e ganhar uma ação contra o estúdio alemão, mas acabou não recebendo nada, porque a produtora faliu…

Enfim, quem acabou adquirindo os direitor foi a Universal. Mas depois de tanto escreve e reescreve de quase uma década, o roteiro de DRACULA acabou tomando como ponto de partida uma peça de teatro da Broadway, que havia sido um enorme sucesso. E essa decisão talvez tenha sido a mais importante. A estrutura complexa do romance de Bram Stoker nunca foi muito propícia à adaptações e praticamente todas as versões pra cinema do livro suprimem vastos trechos da bagagem detalhada que Stoker usa na sua narrativa.

Por outro lado rolou um custo criativo nesta decisão que fez com que o filme ganhasse tantos detratores. O lance é que o roteiro herdou estratégias narrativas que vinham das origens teatrais do material. Isso é evidente na natureza desequilibrada do filme. Os primeiros vinte minutos de DRACULA, que transcorrem na Transilvania progridem num ritmo legal, é bem mais dinâmico, que vai sempre se renovando esteticamente, explorando cenários, praticamente tudo aqui é clássico, icônico. Mas no momento em que a ação muda para Londres, o filme dá uma desascelerada e imputa seus princípios teatrais… Mas, olha, confesso que não tive problema algum com isso nessa revisão.

Até porque a direção de Browning e o trabalho de câmera atmosférico de Karl Freund (com sua bagagem vinda do expressionismo alemão) mantém sua força. Gosto bastante também dos diálogos e os atores estão ótimos. É bom lembrar que apesar desse material ter sido readaptado, imitado e parodiado tantas vezes ao longo dos anos, aqui temos a origem de tudo. É curioso ver os perosnagens discutindo as coisas pela primeira vez antes de se tornarem clichês. E temos algumas sequências bem legais, como os duelos travados entre Van Helsing (Edward Van Sloan) e o Conde Drácula. Uma das melhores é quando o famoso caçador de vampiros percebe que o conde não está refletindo sua imagem num pequeno espelho de um porta-charutos.

E obviamente algo que se destaca e ainda nos fascina acima de tudo é termos a presença deste ator magnífico em cena que é BELA LUGOSI. Muitos atores ao longo da história viveram o personagem, mas nenhum como Lugosi, com seu forte sotaque e um magnetismo bizarro, o sujeito realmente capturou o poder do personagem e acabou sendo um pioneiro em filmes de terror, deu o tom para a maneira como os vampiros foram percebidos pelo público nos anos seguintes. E foi uma diferença gritante entre o vampiro de NOSFERATU, o Conde Orlok, vivido por Max Schreck, uma criatura repulsiva de se olhar, do Dracula de Lugosi, um esbelto e educado aristocrata que tem a possibilidade de transitar livremente pela sociedade, pelo mundo dos mortais, para satisfazer seu desejo de sangue.

O vampiro de Lugosi dependia de sua própria personalidade e estilo de atuação imaginativa para criar um retrato tão distinto na personificação da criatura. O “monstro” que vemos na tela e o vampiro saído das páginas escritas por Stoker fizeram uma combinação perfeita, tornando Lugosi, o ator, e o personagem, Drácula, autênticos sinônimos. Curioso que Lugosi só conseguiu o papel depois que a escolha preferida da Universal havia morrido – Lon Channey, que já havia trabalhado com Browning em diversos filmes anteriores. Lugosi acabou escolhido, mas tinha a vantagem de já ter vivido o personagem na tal peça na Broadway alguns anos antes.

Outra coisa que me chama a atenção e deixa essa segunda metade do filme mais interessante é como em 1931, o diretor Tod Browning já era bastante direto sobre o ato de “chupar sangue” como um eufemismo para o sexo. Browning realizou DRACULA um ano depois que o Código Hays começou a censurar as produções, numa tentativa de “limpar” os filmes. Mas Browning foi capaz de eoncontrar maneiras de driblar os censores em vários momentos, como nas cenas em que Drácula adentra o quarto de Mina à noite e inclina-se sedutoramente sobre sua figura adormecida ou, ainda quando Dracula envolve-a possessivamente em sua capa numa dos gestos mais eróticos do filme.

E há as três esposas de Drácula (e até hoje me surpreende que Browning tenha escapado dessa também), em seus longos vestidos brancos espectrais, pairando sobre Renfield (Dwight Frye, que é outro destaque) no castelo, preparando-se para um banquete… Aliás, como são incríveis todos os planos que envolvem essas três esposas, a forma como Browning realiza composições com esses corpos dentro dos quadros é um trabalho de mise en scène assustadoramente bonito.

Esta versão de Browning continua não sendo a minha favorita sobre o lendário vampiro. Ao longo dos anos tivemos vários exemplares que aprecio mais: o da Hammer, O VAMPIRO DA NOITE (1958), com o Christopher Lee encarnando o personagem; a do Coppola, já nos anos 90, é provavelmente a minha favorita; a do John Badham, DRACULA, de 1979, também é maravilhosa; e até a do Paul Morrissey, BLOOD FOR DRACULA, com Udo Kier fazendo o vampirão é um bom concorrente nessa disputa… No entanto, DRACULA, de Todd Browning, depois dessa revisão, já entra na lista de favoritos, sem dúvidas.

E foi o seu sucesso que encorajou a Universal a produzir e lançar um segundo filme de horror no mesmo ano de 1931, FRANKENSTEIN, dando início em definitivo ao famoso ciclo de filmes de monstro da Universal (depois ainda viria A MÚMIA, O HOMEM INVISÍVEL, O LOBISOMEM e várias continuações de todos esses).

★ ★ ★ ★ ★

FRANKENHOOKER (1990)

bscap0178

FRANKENHOOKER é um dos filmes mais dementes do Frank Henenlotter, o mesmo gênio do cinema de horror/comédia de baixo orçamento que realizou a trilogia BASKET CASE e BRAIN DAMAGE, só pra ter uma noção do nível de insanidade que é isso aqui. Só fui assistir agora, era o único filme de “ficção” do Henenlotter que não tinha visto ainda (agora tenho que ver os documentários, que parecem muito bons),  mas trata-se de uma obra que ganhou, desde seu lançamento em 1990, um status cult, graças à ideia maluca de ressignificar o mito de Frankenstein às avessas, cujo “monstro” trazido à vida é formado por membros de prostitutas que explodiram ao fumar um super crack, tudo embalado no humor escrachado títpico do diretor!

Quando o filme começa, Elizabeth Shelley (Patty Mullen) está animada para dar ao pai o seu presente de aniversário, um cortador de grama poderoso, turbinado e com controle remoto construído pelo seu noivo, Jeffrey Franken (James Lorinz), um jovem gênio eletricista – que curte realizar experiências medicinais como hobbie. Elizabeth aperta o botão no controle para fazer uma demonstração aos convidados na festinha de aniversário do querido pai e antes que você perceba, ela é triturada como uma salada de repolho pela máquina…

maxresdefault

O tempo passa e, lidando com sua própria dor, Jeffrey começa a formular um plano para trazer de volta sua amada noiva. Usando seus conhecimentos de eletricidade e medicina, o sujeito desenha, durante os créditos de abertura, o que é a gênese do renascimento de Elizabeth. Uma das poucas coisas que sobrou da moça no acidente foi sua cabeça, que o rapaz mantém num líquido rosa na garagem de sua casa, que serve também de laboratório. O que Jeffrey precisa agora é de um corpo…

E a bizarrice se intensifica. Para dar uma estimulada no cérebro e fluir seus sucos criativos, Jeffrey cutuca seu crânio com uma furadeira elétrica e quando as sinapses inspiradoras começam a disparar, ele descobre que a melhor maneira de reconstruir sua namorada é, obviamente, contratar prostitutas e escolher as melhores partes de cada e remontar sua amada. Então ele vai até Nova York e inicia o processo de seleção no típico cenário que Henelotter adora filmar: as ruas sujas e escuras de uma NY decrépita e de atmosfera decadente como vimos no primeiro BASKET CASE.

bscap0093bscap0100

Depois de conhecer algumas amáveis ​​damas da noite e tentar convencê-las a ajudá-lo, Jeffrey acaba apresentado ao cafetão delas, um sujeito parrudo chamado Zorro (Joseph Gonzalez), que negocia todo o esquema dentro de um banheiro de boate lotado de crackudos. No fim,  Zorro permite que Jeffrey faça uma reuniãozinha com algumas de suas melhores mulheres numa espelunca de hotel…

É quando rola a sequência mais inacreditável de FRANKENHOOKER. Várias garotas semi nuas, com o pobre Jeffrey fantasiado de médico, analisando a massa corpórea das moças, medindo a espessura das coxas, o formato dos mamilos, os moldes das bundas, o comprimento das pernas e braços, enfim, cada centimetro que possa encaixar no quebra-cabeça que vai ser montar o corpo perfeito para sua Elizabeth. E as prostitutas sem entender direito o que está acontecendo…

bscap0115bscap0122bscap0124bscap0125bscap0127bscap0128

Até que elas encontram uma sacola gigante de crack que Jeffrey havia manipulado para deixá-las mais à vontade, mas que acabou resultando numa droga tão podersa que os efeitos colaterais são bem graves… Basicamente faz o usuário explodir, simples assim. A pessoa fuma a pedra e BUM! Explode. E é o que acontece, um espetáculo de corpos de prostitutas explodindo, ao som do que Jeffrey se refere à “música do demônio”, com direito ao Zorro arrombando a porta e sendo nocauteado por uma perna que voa na sua cara… Um grande momento de garbo e elegâncio do cinema de Frank Henelotter.

No fim, depois de todos os corpos explodidos, e membros femininos espalhados pra tudo quanté lado, Jeffrey reúne todas as partes que ele precisa usar e as leva para casa onde finalmente constrói um novo corpo para Elizabeth, anexado à sua cabeça decepada. Uma esperada tempestade chega bem à tempo e o corpo reconstruído recebe a voltagem necessária para reviver. Mas o resultado não sai exatamente como Jeffrey esperava…

bscap0134bscap0141bscap0163bscap0167

Grotesco e engraçado, FRANKENHOOKER é, assim como os outros filmes do diretor, um paradoxo, ao mesmo tempo inteligente e completamente idiota. Mas no fim das contas, Henelotter faz aqui algumas interessantes reflexões, um conto moral sobre a desilusão na idealização romantica que as pessoas comumente fazem da pessoa amada. E Jeffrey sabe que ao ressuscitar Elizabeth nada seria como era antes, mas ao menos ele idealiza uma alma gêmea que possa amar como no passado… Mas não é exatamente isso o que acontece à princípio. E o filme vai mais além, porque o sujeito ainda fica obcecado com uma construção detalhadamente perfeita do corpo, o que não deixa de ser uma análise curiosa sobre a ditadura da beleza. No desfecho, Jeffrey acaba provando do seu próprio remédio e definitivamente “ganhando” um corpo perfeito.

Henenlotter, um verdadeiro fã do universo do B-Movie dilui essas ideias no tom desinibido do filme e nas muitas homenagens que ele faz (FRANKENSTEIN, é claro, mas também para O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER e coisas do tipo) e nas suas próprias compulsões estéticas. No entanto, a restrição orçamentária acaba sendo um obstáculo à sua liberdade de ação e os efeitos especiais são os primeiros a sofrer.

b95fbb30856ee1a3738450872be5840596474732_hqbscap0215

Mas aí que tá a graça da coisa. Até porque FRANKENHOOKER é o tipo de filme que o próprio realizador não faz questão que levemos tudo à sério. Portanto, esse aspecto dos “defeitos” especiais não é exatamente uma falha, pelo contrário, acaba fornecendo um charme a mais, especialmente na tal cena com as prostitutas explodindo, que é o tipo de sequência que exige muita trucagem e pirotecnia, onde o resultado tosco fica mais evidente… E mesmo assim, Henenlotter consegue deixar tudo lindo, com muito mais alma do que qualquer esforço gerado por computador.

No que diz respeito às atuações, a coisa deve ser encarada com o mesmo espírito. Ninguém aqui vai ganhar nenhum prêmio importante, nenhum mérito artístico por suas performances, e os atores sabem disso, mas até que funcionam bem para o que é exigido. Vale destacar, por exemplo, o desempenho adorável de Patty Mullen, em especial depois de ser ressuscitada, com toda expressão facial e corporal que a personagem requer.

bscap0207bscap0184

Aparentemente, Bill Murray é um grande fã de FRANKENHOOKER, que foi citado na capa do DVD do filme, lançado em 2006, dizendo “Se você for assistir só a um filme este ano, que seja FRANKENHOOKER”. Não seria uma escolha ruim… E, bom, para quem já está familiarizado com o trabalho de Frank Henenlotter, já sabe exatamente o que esperar disso aqui. Mas se você não essa familiaridade acho que este post deve dar conta. Recomendo também aos fãs do universo de Frankenstein para apreciarem a mais uma possibilidade de expansão desse universo tão vasto criado por Mary Shelley e que aqui é acrescentado alguns ingredientes que nunca decepcionam: muito sangue, nudez e motivos para boas risadas.

ESCOLA NOTURNA, aka OLHOS DO TERROR (Night School, 1981)

vlcsnap00001vt

ESCOLA NOTURNA não é lá dos melhores slashers que eu já vi. É um exemplar bem comum de um modo geral, com algumas ideias decentes que acabam prejudicadas pela previsibilidade do roteiro, que não consegue segurar por muito tempo a identidade do assassino ou suas motivações… Mas tem algumas peculiaridades redentoras que fazem valer a pena uma conferida. Ei, é um filme que tem um assassino de capacete de motociclista com uma faca decapitando moças! Então momentos de diversão é o que não falta.

É curioso que ESCOLA NOTURNA teve o “privilégio” de constar na famigerada lista dos “Video Nasties“, filmes que foram censurados, mutilados ou proibidos, especialmente em território britânico no período; este aqui acabou tendo lançamento por lá só em 1987. Vendo hoje, me surpreende essa decisão porque ESCOLA NOTURNA está longe de ser dos mais sangrentos ou subversivos filmes de horror em comparação com vários outros exemplares da época. A quantidade de elementos sexuais e nudez é pouca e em termos de violência, a maioria dos assassinatos acontecem fora de campo… O que se vê são as consequências dos crimes. Uma cabeça que acaba em um vaso sanitário ou outra que desce lentamente entre os peixes de um aquário público, sob os olhos horrorizados dos visitantes, e por aí vai… Porque nosso assassino não apenas decepa-lhes a cabeça, mas também as mergulha na água, uma particularidade que intrigará o investigador da polícia, interpretado pelo italiano Leonard Mann.

cVY5g26uf5wU

E essas execuções absurdas e misóginas (as vítimas são todas mulheres) são mais como rituais, e a suspeita então volta-se para um professor de antropologia libertino que não hesita em praticar “aulas particulares intensivas” com suas alunas, se é que me entendem… Além disso, ele é o único professor do sexo masculino numa faculdade para moças (na qual as vítimas eram estudantes). Descobrimos também que ele não é o único garanhão da escola. A diretora do colégio parece, er… gostar das mesmas coisas que ele, e não pretende ter competição. Mas a verdade por trás dos assassinatos será bem diferente no fim das contas…

Quem dirige ESCOLA NOTURNA é o veterano Ken Hughes, bom artesão que brinca com todos os clichês do slasher: assassino neurótico emergindo dos mais variados lugares, vítimas jovens, câmera subjetiva, enquadramentos peculiares… Para ser justo, eu curti o filme porque tem mais a cara de um Giallo do que slasher. Lembra muito os filmes italianos feito na mesma época. Desde a trilha sonora de Brad Fiedel até a presença de Leonard Mann, mais conhecido pelos papeis em Spaghetti Western, tudo contribui para dar a impressão de que estamos diante de um suspense policial italiano.

50XPa

Algumas sequências são bem interessantes e vale destacar, como a do restaurante, onde o diretor literalmente brinca de esconde-esconde com o espectador e a cabeça de uma das vítimas; na parte erótica, temos uma excêntrica cena de sexo num chuveiro em que o professor de antropologia esfrega um tolete de tinta vermelha em sua aluna/amante (Rachel Ward). No final, sobra tempo até para uma frenética perseguição de carro e moto pelas ruas apertadas da cidade… No entanto, ESCOLA NOTURNA também pode desapontar pelo fato de ter esse motociclista armado com um facão decapitando as moças, algo muito promissor, mas, como já disse, quase nunca vemos as tais decapitações de fato.

OI31QX3w8k2d

Mas é um filme de detetive/assassino honesto, com boa atmosfera de horror em alguns momentos e alguns toques de um humor ácido (voluntários ou não). Cabeças rolando, mistério (embora fácil de resolver), lesbianismo, excentricidades antropológias… Os entusiastas do slasher vão se divertir.