PUNHOS DE FERRO (1981)

PUNHOS DE FERRO (FIRECRACKER no original, mas também conhecido como NAKED FIST) é uma produção da New World Pictures, de Roger Corman, filmado nas Filipinas, com direção do grande Cirio H. Santiago.

Na trama, uma americana chamada Susanne Carter (Jillian Kesner) chega às Filipinas para procurar sua irmã, uma repórter desaparecida na região. A busca rapidamente a leva ao The Arena, uma espécie de clube noturno com apresentações de artes marciais e, em ocasiões especiais, noites de lutas clandestinas com apostas cheio de figuras amigáveis. E a coisa é violenta mesmo, geralmente terminando com o perdedor pronto para ser levado para o hospital ou direto pro caixão. O local é dirigido por um sujeito chamado Erik (Ken Metcalfe), o tipo de personagem que logo de cara não temos dúvidas de que é o malvado da trama, e foi o último lugar onde a repórter foi vista.

Outro cara mau do filme é a atração principal da Arena, um jovem lutador americano, um bigodudo chamado Chuck (Darby Hinton). Durante suas investigações, Susanne é avisada de que o rapaz é barra-pesada, do crime, do tráfico, das coisas seriamente perigosas e que deve ficar longe dele. Acontece que, por um acaso, Susanne também é especialista em artes marciais e não se intimida. Obviamente, o couro vai comer entre os dois… Em vários sentidos.

Nas buscas por pistas do desaparecimento de sua irmã, Susanne é constantemente atacada por bandidos, pelos mais diversos motivos, e Jillian Kesner aparenta ter sido realmente treinada em algum tipo de arte marcial. Isso fica evidente nas inúmeras cenas de pancadaria que ela aborda com gosto. Seus movimentos parecem convincentes não importa o cenário, roupas que usa – ou não usa – ou a quantidade de adversários, a moça manda muito bem na porrada. E é preciso dizer que PUNHOS DE FERRO não perde muito tempo para nos alegrar no quesito pancadaria. Nos primeiros minutos, há uma luta na Arena em que Chuck empala seu adversário, e Susanne, ainda em sua roupas íntimas, é atacada por dois bandidos em seu quarto de Hotel assim que chega no local.

E a coisa não para. A cada 5 minutos há alguma situação envolvendo pessoas lutando, trocando tiros ou em perseguição. Mas as investigações de Susanne continuam. E aos poucos, quanto mais adentra no universo da Arena, ela acaba cada vez mais atraída por Chuck, mesmo sabendo do envolvimento dele com os possíveis responsáveis pelo desaparecimento da irmã. E, claro, a certa altura já dá pra imaginar que algum coração vai sair machucado, a coisa não vai acabar muito bem…

Apesar da intensidade da ação, para um filme produzido por Roger Corman nos anos 80, não há tanto material de exploração quanto poderia almejar e é preciso esperar um tempinho para ter uma dose maior de violência ou um bocado de pele a mais. Quando chega, no entanto, é sublime e faz valer o tempo esperado. A melhor sequência é a fuga noturna de Susanne de dois tarados que acaba fazendo com que seu vestido seja rasgado, de forma totalmente gratuita, obrigando que ela encare os meliantes e aplique seus golpes só com a “roupa de baixo”. E isso já é legal o suficiente. Mas a coisa melhora ainda mais quando um dos sujeitos pega uma foice bem afiada e se lança pra cima da moça…

Não se preocupem, ela consegue sair ilesa do ataque, mas a lâmina corta exatamente o necessário…

Aparentemente, a ideia inicial não era para que isso acontecesse. Mas Roger Corman sentiu que os atributos da protagonista não estavam o suficiente “explorados” quando ele viu o primeiro corte do filme. Então, contratou o diretor Allan Holzman (que viria a fazer filmes futuros para Corman) para adicionar um par de novas cenas que obrigou Kesner a se despir. A primeira, foi esta aqui.

A princípio era apenas para que ela lutasse de calcinha e sutiã, mas um acidente legítimo na hora das filmagens realmente fez a atriz perder o bojo e a convenceram de continuar filmando assim mesmo… É desses momentos mágicos do cinema de exploração. O que se segue a partir disso é uma mulher de topless descendo o cacete num macho escroto. Isso que é empoderamento! E se vai mostrar seios num filme, dá muito bem pra fazê-lo com um certo estilo. É só tomar essa sequência de PUNHOS DE FERRO como exemplo. Aqui temos estilo de sobra.

A outra sequência que foi filmada por Holzman é o sexo bizarro cujas preliminares Susanne tem suas roupas removidas por Chuck, muito lentamente, com um par de facas bem afiadas. Sabe-se que Kesner não ficou lá muito satisfeita com a ideia de adicionar novas cenas apenas para tê-la nua na tela, mas aceitou fazer de boa… A única coisa que a irritava mesmo era a impressão de que sempre parecia haver mais homens no set durante essas filmagens do que o habitual.

Mas é exatamente nesta cena de sexo que Kesner finalmente atua, atua de verdade, com expressão. Ela transmite bem o estado emocional de Susanne de forma bastante eficaz. A cena possui uma carga de tensão a mais, dada uma certa informação que é conhecida pelo espectador, mas não por Susanne ainda, a de que Chuck é, na verdade, o assassino de sua irmã, o que torna o sexo entre eles um ato bem perverso.

E para quem não sabe, Kesner era esposa do grande Gary Graver, diretor de inúmeros filmes que passavam na famigerada sessão de filmes da Band, o Cine Privé, e que foi parceiro e diretor de fotografia de Orson Welles em seus últimos anos. Tanto Graver quanto Kesner dedicaram boa parte da vida preservando materiais e o legado de Welles – o que inclui THE OTHER SIDE OF THE WIND, filme póstumo do diretor de CIDADÃO KANE que só viu a luz do dia mais de trinta anos depois de sua morte. Mas a própria Kesner não pôde ver isso acontecer, já que faleceu em 2007.

Sobre outros membros do elenco, não há muito o que destacar. Darbin Hinton até funciona bem como vilão apaixonado, mas é aquele tipo canastrão que a gente elogia mais pelo ridículo do que pelo talento. No geral as atuações são simplesmente horríveis. Só que estamos diante de um exploitation, então quem diabos se importa com a performances? O importante pra filmes dessa espécie é não ser chato. E o ritmo por aqui é ótimo, há uma abundância de ação, Cirio H. Santiago filma bem, aproveita as locações urbanas e campestres das regiões filipinas, e o filme ainda tem um pouco de nudez, sexo e perversidade para apimentar a coisa.

Inclusive, a relaçao que é estabelecida entre Susanne e Chuck torna o clímax, a luta final entre os dois, ainda mais intenso e cheio de nuances. Chuck claramente poderia matar Susanne com as próprias mãos, mas entra em conflito por estar enamorado, enquanto a moça só tem desejo de vingança no coração. O desfecho é dos mais violentos possíveis. E há ainda o envolvimento da polícia e de alguns personagens secundários, amigos que Susanne faz pelo caminho, todos juntos tentando descobrir o paradeiro da irmã desaparecida e desbaratar o esquema das drogas que rola com a turma do vilão, Erik. O que acrescenta ainda mais um dose de pancadaria e ação. Sobretudo por conta da participação de um sujeito que é um clone do Bruce Lee e que possui alguns dos melhores movimentos nas sequências de luta.

PUNHO DE FERRO não é o tipo de filme que vai ganhar um prêmio de valor artístico ou vai entregar alguma reflexão sobre a condição humana, mas no quesito entretenimento e pancadaria de qualidade (bom, pelo menos para o nível da produção) pode apostar que não há do que reclamar. Altamente recomendado.

QUATRO FILMES DA SHAW BROS.

TEMPLO DA LOTUS VERMELHA
(Temple of the Red Lotus, 1965)
dir: Hung Hsu Teng

Sinopse: Jimmy Wang Yu interpreta um jovem espadachim que parte numa jornada de vingança, procurando os assassinos de seus pais, e também em busca de uma amiga de infância que foi prometida como sua noiva. Quando ele chega no local, descobre que a família da noiva pode ser um bando de bandidos e começa a investigar a história por trás da rivalidade que eles têm com os monges no Templo da Lótus Vermelha.

Primeiro filme wuxia em cores da Shaw Brothers, meio que inaugura uma era de ouro do cinema de kung fu da produtora, o que por essas razões históricas já seria recomendável pra quem realmente tem interesse a entrar de cabeça nesse cinema e perceber sua evolução.

Porque de resto TEMPLO DA LOTUS VERMELHA não é grandes coisas. O drama é fraco e pesado, tem pouca ação (e quando acontece é rápida, sem muita criatividade, acho que a coisa ainda viria a melhorar nos anos seguintes nesse departamento), a jornada do herói, vivido por Jimmy Wang Yu, soa um bocado enfadonha, sem graça – a longa sequência que ele tem que fugir do castelo com sua companheira, enfrentando irmã, tia, mãe e avó da moça, uma de cada vez, é bem ridícula e me fez soltar altos bocejos…

Mas não deixa de ser legal ver alguns rostos que viriam a fazer sucesso pela Shaw na década seguinte, como Lo Lieh e Tien Feng. Nos créditos ainda aparecem nomes como Liu Chia-Liang e Yuen Woo Ping.

O filme faz parte de uma trilogia, formada por ainda por AS ESPADAS GÊMEAS (65) e A ESPADA E O ALAÚDE (67) que em algum momento vou acabar assistindo. Todos dirigidos por Hung Hsu Teng, mas confesso que depois deste aqui fiquei com preguiça.

THE OATH OF DEATH (1971)
dir: Pao Hsueh-Li

Sinopse: Três heróis tornam-se irmãos de sangue para lutar contra a tirania dos invasores tártaros. Um deles decide se infiltrar entre os inimigos e acaba ganhando uma posição de destaque. Não demora muito, fica evidente que o sujeito gostou da posição de poder e está disposta a sacrificar qualquer coisa e qualquer pessoa para mantê-la, incluindo seus irmãos de sangue.

Um dos filmes mais curiosos que vi da Shaw Bros. Um exemplar de espadachim que se alterna entre uma trama melodramática levada muito a sério e um filme excêntrico de artes marciais, bem puxado para o exploitation, mostrando muito sangue e selvageria, mas também um bocado de sexo e nudez fornecida por Ling Ling uma das estrelas residentes da Shaw.

Pao Hsueh-Li pode até não ser um Chang Cheh – as lutas são filmadas muito de perto, editadas com desleixo em alguns momentos, sem muita preocupação com a coreografia – mas ele se dedica tanto a transformar essas sequências num banho de sangue que fica difícil não elogiar os esforços. E os contextos que as batalhas ocorrem, mais a variedade de armas utilizadas deixa tudo ainda mais divertido. Os trinta segundos finais, um duelo onde um dos personagens centrais tem uma perna decepada por um chicote (!!!) e continua lutando para enfiar o braço no peito adentro de seu adversário é um dos momentos mais insanos que já vi num filme da Shaw… Só não esperem uma abundância de lutas durante o filme, a parte dramática realmente toma um tempo grande de projeção, com situações do tipo “amigo roubando mulher de amigo” e etc… Mas se você entrar na história e chegar inteiro até os minutos finais, não vai se decepcionar.

No elenco, temos Lo Lieh fazendo papel de herói desta vez e o grande Tien Feng. Mas vale reparar na pequena participação de Bolo Yeung como um dos soldados malvados.

THE MAGIC BLADE (1976)
Dir: Chor Yuen

Sinopse: Dois espadachins rivais unem forças para evitar que uma lendária arma mortal, chamada Peacock Dart, caia nas mãos do mestre das artes marciais, Sr. Yu, e de seu malvado submundo do crime.

Esse aqui é daqueles filmes que beira a perfeição. Ti Lung com sua espada giratória é o fodão dos fodões. É o Clint Eastwood do Wuxia, numa jornada de sangue, honra, contra os ardis de uma sociedade secreta, na busca em trazer justiça ao mundo, sem qualquer recompensa de volta. É também uma jornada cheia de MacGuffin’s que o roteiro, um fiapo de história, faz brotar do nada só para fazer a ação continuar surgindo na tela. No caso, a busca pelo tal Peacock Dart, que não pode de jeito nenhum cair nas mãos do velho mestre das artes marciais que comanda uma sociedade de assassinos.

Estamos diante de um filme de espadachim da melhor qualidade possível. E a ação é maravilhosa, tem aos montes, a criatividade do diretor Chor Yuen parece não ter fim na elabroação dessas cenas e na relação que a ação estabelece com os espaços, os mais variados cenários, ambientes e locações, num belo trabalho de manipulação cênica. A sequência final é daquelas que parecem capazes de reproduzir o equilíbrio cósmico do universo!

Lo Lieh, e Lily Li estão no elenco, além de outras figuras… Enfim, pra quem entra na vibe de ver filmes de artes marciais da Shaw Bros. um atrás do outro, como eu tô fazendo neste início de ano, tudo o que pedimos é mais filmes como THE MAGIC BLADE, uma dessas experências raras de imaginação sublime e um senso de aventura fabuloso que já de cara se tornou um dos meus favoritos da Shaw.

EXECUTIONERS FROM SHAOLIN (1977)
Dir: Liu Chia-Liang

Sinopse: Chen Kuan Tai é o protagonista aqui, liderando os sobreviventes do massacre no Templo de Shaolin pelas mãos do sacerdote Pai Mei, encarnado pelo Lo Lieh. O grupo se disfarça numa trupe de artistas de ópera e entre suas viagens, Hung conhece Yung Chun (Lily Li). Os dois se casam e têm um filho, mas Hung acaba sendo morto depois de tentar se vingar do massacre no Templo encarando Pai Mei duas vezes ao longo dos anos. O filho deles, Wen Ding (Wong Yu), une então o kung-fu do Tigre de seu pai com o kung-fu da garça da mãe para enfrentar Pai Mei, que teve seu ponto fraco descoberto por Hung.

Como qualquer filme dirigido pelo grande Liu Chia-Liang, a pancadaria rola pra todo canto. Já começa com uma participação de Gordon Liu, que enfrenta uma vários soldados manchu para dar cobertura para o grupo de Hung. Mesmo cravado de flechas o sujeito dá trabalho. É curioso como tudo por aqui possui um controle sobrenatural das artes marciais: política, religião, família e até o sexo. Logo depois de se casarem, Chen Kuan Tai tem que se esforçar para abrir as pernas de Lily Li… E isso não é numa alegoria, ela literalmente usa técnicas de artes marcias para manter as pernas fechadas e só vai liberar se o marido conseguir “destravar” a moça! haha!

Um dos grandes destaques do filme é Pai Mei, um dos vilões mais desgraçados que Lo Lieh já viveu, com seu ponto fraco que possui relação temporal e muda de lugar no seu corpo à medida em que relógio avança. O cara é quase indestrutível… E ainda tem um lance bizarro dele esconder os testículos contraindo a barriga e prendendo o pé dos adversários entre as pernas! Sensacional! E sim, muita gente vai se lembrar de Pai Mei como o personagem que Quentin Tarantino colocou em Kill Bill para treinar Beatrix Kiddo. Mas quem já tá mais familiarizado com o cinema de kung fu sabe que o personagem existe faz teeempo…

Exibido nos cinemas nacionais como OS CARRASCOS DE SHAOLIN.

THE MATRIX REVOLUTIONS (2003)

Minhas impressões da revisão de THE MATRIX REVOLUTIONS são meio malucas. Se por um lado eu consigo identificar tudo que desagradou os fãs na época (eu incluso), por outro já não me importei com nada e simplesmente embarquei nessa tragédia shakespeareana misturada com uma viagem pseudo-cyber-filosófica-espiritual cheia de ação épica… Achei um filme fascinante.

O grande problema pra mim desta vez foi bem diferente do que senti quando vi THE MATRIX REVOLUTIONS no cinema há quase duas décadas. Eu só queria que aquela bobagem toda acabasse o mais rápido possível…

Nesta revisão, não sei explicar porquê, acontece justamente o contrário. Eu queria mais e mais, eu queria uma série pra TV com vinte temporadas explorando a riqueza visual/espiritual/filosófica de THE MATRIX, eu simplesmente fiquei maravilhado e queria mais!

E, bom, as Wachowski se arriscaram pra caramba pra concluir essa bagaça. THE MATRIX tava no coração da moçada, quase todo mundo tinha curtido, tinha sua importância dentro dos blockbusters hollywoodianos, então este terceiro filme era muito aguardado. E elas vão lá e, PIMBA! não entregam nada daquilo que o público queria! Hahaha!

Convenhamos que o encerramento de uma série dessa magnitude nunca vai agradar todo mundo mesmo que tivessem feito “o básico”.

Mas THE MATRIX REVOLUTIONS acabou sendo uma aula de como subverter as expectativas do público e até mesmo de narrativa: por exemplo, colocando a tão aguardada batalha de Zion, dos homens contra as máquinas, no meio do filme, sem sequer contar com a presença do protagonista. Forçando toda a solução das suas questões filosóficas entregues numa única luta de tirar o fôlego entre Neo (Keanu Reeves) e o Agente Smith (Hugo Weaving).

A batalha de Zion é um esplendor que mal tenho palavras para descrever. Não lembro muito o que senti há quase vinte anos quando vi pela primeira vez, na tela grande, mas como não curti na época, é bem capaz de não ter achado grandes coisas.

Hoje foi bem diferente. São praticamente 30 minutos de espetáculo sensorial de ação de tirar o fôlego, que tem um peso poderosíssimo e uma sensação insuportável de ameaça, realmente convence – mesmo que por um momento – de que tudo está realmente fodido e que a humanidade vai ser extinta.

As irmãs Wachowski têm uma excelente percepção de onde colocar a câmera na ação. Os enquadramento nunca são óbvios, as figuras são milimetricamente posicionadas no quadro, um pouco distorcidas para ganhar movimento, apenas o suficiente para proporcionar um prazer visual que não é comum. A edição também é sólida: em nenhum momento a geografia é confusa ou incoerente.

E as cenas de artes marciais são compreensíveis. O que nos leva à luta entre Neo e Smith, toda belíssimamente construída, com quadros que remetem a um duelo de faroeste. Começa com os dois sujeitos em extremos opostos de uma longa rua, enquanto gotas de chuva os encharcam, entre duas filas de cópias do Agente Smith. É sublime.

Neo e Smith trocam algumas palavras antes de dar tudo de si numa briga de proporções épicas que carrega aquele aroma de inevitabilidade, como diria o Agente Smith.

Há uma outra sequência de ação que é menos lembrada do que esses dois mastodontes que citei aí em cima, mas que ainda impressionam: a que Morpheus (Laurence Fishburne), Trinity (Carrie-Ann Moss) e Seraph (Collin Chow) trocam tiros com uns caras que literalmente andam no teto do cenário… É uma dessas pequenas joias dentro do filme que também provam a maestria das Wachowski na condução da ação.

Mas uma das coisas mais importantes pra mim por aqui é como a coisa se resolve dentro de sua própria lógica filosófica de boteco e religiosidade de fundo de quintal (é quase uma versão sci-fi de passagens bíblicas), deixando um monte de ponta solta, um bocado de perguntas sem resposta, tudo tão aberto, pra desespero dos fãs.

Mas que ao mesmo tempo toca no fundamental: o nível de sacrifício exigido de seus personagens em algo reconhecidamente humano, fazendo-nos sentir o custo mortal por trás das figuras e feitos que se tornam lendas. Se THE MATRIX RELOADED rejeita os mitos que alimentamos, THE MATRIX REVOLUTIONS nos mostra como novos mitos são criados.

Enfim, depois dessa revisão, agradeço às Wachowski por não terem realizado algo pra agradar os fãs (não é mesmo, Disney?).

Passei tempo demais sem revisitar esse universo, deveria ter feito antes e mais vezes e redescoberto essa maravilha que é toda a saga THE MATRIX, especialmente se olharmos agora e percebermos que não tivemos nada remotamente parecido no gênero como essa trilogia desde então em Hollywood.

Que me perdoem os fãs da Marvel Cinematic Universe, mas todos os seus trocentos filmes juntos não dão nem pro cheiro que é a trilogia THE MATRIX.

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Quero saber as impressões de vocês. O que meus cinco leitores acham da trilogia THE MATRIX? Não deixem de comentar na caixa de comentários aqui do blog, ou no facebook, Twitter, Instagram… Bora papear.

THE MATRIX RELOADED (2003)

Pois, inspirado pelo último post, resolvi rever os outros dois exemplares da trilogia THE MATRIX de uma vez. Eu já esperava gostar de THE MATRIX RELOADED, novamente dirigido pelas irmãs Wachowski, até porque tinha lembranças vívidas de algumas sequências de ação e que confirmaram o nível de qualidade nessa revisão (uma em específico é uma obra-prima).

Então, acabou que não foi nenhuma surpresa me deparar com um filme tão maneiro. E obviamente a ação é importate… Crucial, eu diria – como verão à seguir – mas me interessou bastante tudo aquilo que o filme se propõe como continuação.

Na verdade, THE MATRIX RELOADED é bem funcional como capítulo intermediário e só faz sentido acompanhado dos outros dois. É quase impossível entender alguma coisa sem ver o seu antecessor e conferir logo em seguida o encerramento da bagaça, THE MATRIX REVOLUTIONS (que foi lançado no mesmo ano, alguns meses só de diferença, em 2003).

Não que a trama seja tão complexa ou difícil de acompanhar, mas toda a gama filosófica de mesa de bar do primeiro filme precisa estar na mente para perceber os seus desdobramentos por aqui. Nada muito complicado, mas que torna-se incompreensível se falta a parte inicial e fica incompleta sem o desfecho.

Então, pra que que serve MATRIX RELOADED?

Olha, eu poderia até dar uma resposta mais detalhada, explicar que serve pra expandir o universo do primeiro filme, explorar os personagens e até mesmo se aprofundar nos seus conceitos que agora transcendem as questões cyber filosóficas para se tornar algo mais energia-espiritual-budista e blá blá blá… Mas não.

A única coisa que eu consigo pensar como razão deste filme existir é pelo espetáculo sensorial do segmento de ação “da rodovia”. Sabem qual é? Sabem do que tô falando?

Tudo que rodeia esses momentos frenéticos, tudo que vem antes ou depois dessa pancadria, perseguições, tiros e explosões que são a matéria prima dessa sequência, só serve de pretexto para esse segmento em específico acontecer diante dos nossos olhos. Não tenho dúvida alguma de que é uma das melhores sequências de ação do século.

Então minha resposta é essa. Pra que serve MATRIX RELOADED? Pra isso:

Toda essa construção, essa sucessão de acontecimentos, é simplesmente do caralho! Eu perdi a noção do tempo, mas devem ser uns quinze minutos de ação frenética ininterrupta.

Começa com um kung fu de Neo (Keanu Reeves) contra uns sujeitos numa espécie de chateau, desce pra uma garagem com os Gêmeos que viram fumaça, dando um trabalho do cão pra Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie-Ann Moss) e o barraco acaba indo parar numa perseguição alucinante de carros, caminhões, viaturas de polícia, moto na contra-mão, com gêmeos-fumaça e os agentes da Matrix (aqueles caras fodões de terno e gravata do primeiro filme) perseguindo Morpheus, Trinity e um tal chaveiro numa rodovia de alta velocidade lotada de veículos.

A coisa termina quase num orgasmo com uma luta entre Morpheus e um dos agentes (vivido por ninguém menos que o grande Daniel Bernhardt, o sub-Van Damme dos anos 90, protagonista das continuações de O GRANDE DRAGÃO BRANCO e o petardo bad movie O GRANDE DRAGÃO DO FUTURO) em cima de um caminhão em movimento… Ufa! É o fino da grosseria!

Tudo lindamente bem filmado e coreografado pelas Wachowski. E os efeitos especiais até hoje impressionam… Honestamente, é essa sequência que faz valer o filme. Eu não queria mais saber das armações políticas em Zion, do ataque das máquinas no “mundo real”, do romance entre Neo e Trinity, se o Oráculo tava certa ou errada, ou pra que caralho serve o tal chaveiro. Eu queria simplesmente viver naquela sequência de ação por, sei lá, mais duas horas… Um clássico.

Sobre o restante de THE MATRIX RELOADED, é tudo o que se pode esperar de uma continuação para uma obra tão pop e cultuada do cinema da virada do milênio. Uma aventura de ficção-científica à altura de seu antecessor – apesar do fator novidade não existir mais aqui – mas que exige atenção do espectador e entretém com categoria.

Na trama, finalmente vemos Zion, a tal cidade do mundo real – e que rola umas raves hippies muito loucas sem qualquer motivo, a não ser mostrar corpos suados e com pouca roupa em movimento, ao som do batidão, o que pra mim tá bom…

Ficamos sabendo que as máquinas estão avançando em direção à cidade, cada vez mais perto de aniquilar os últimos 250 mil homens, mulheres e crianças da Terra, e é praticamente inevitável o confronto homem vs máquina.

A turminha Morpheus, Neo, Trinity e Link (Harold Perrineau) chegam na cidade. Personagens vão se apresentando, se reencontrando… O ritmo do filme é bem lento nesse início, com todas essas informações sendo lapidadas, com direito até a “reuniões de conselho” onde discute-se alguma coisa que parece importante (estilo Guerra Nas Estrelas). Rola até um Neo & Trinity fazendo saliências

Não sabemos ainda como Neo vai salvar a humanidade. Nem ele, na verdade, mas continua sua jornada de descobertas com o apoio de Morpheus e Trinity. Talvez a grande revelação do filme aconteça na sequência que Neo encontra o Arquiteto (Helmut Bakaitis) e descobre-se a existência de outros “Neo’s” e que ele na real não tem escolha alguma, a não ser seguir o que lhe foi determinado desde o princípio pelas máquinas.

Seu destino é jogar um jogo dentro dos termos já estabelecidos, o que é uma baita quebra de expectativa do que a rapaziada almejava pras continuações considerando o final do primeiro filme. Motivo pra ter deixado muita gente puta na época, o que já prova que foi a escolha certa das Wachowski.

Temos uns outros personagens novos, Jada Pinkett-Smith, Monica Belucci e Lambert Wilson, como Merovingian, importante pra trama. O Chaveiro também é crucial – mas que no fim das contas só serve mesmo para ser jogado de um lado para o outro na tal épica sequencia de ação.

Mas dessa nova galeria de figuras, os melhores pra mim são os tais Gêmeos, capangas do Merovingian, que tem por trás tem aquele conceito incrível de se transformarem em fumaça, em fantasmas, sei lá… Só sei que é massa!

Outro ponto a destacar é a presença de Hugo Weaving, o agente Smith, que ressurge com novos propósitos após sua “libertação” no final do primeiro filme (à princípio imagina-se que ele foi destruído por Neo). No entanto, só vamos entender totalmente seu arco em THE MATRIX REVOLUTION. Aqui em RELOADED sua participação ficou marcada pela sequência de pancadaria entre Neo e múltiplos Agentes Smith.

É outro momento de ação bem legal que até nessa revisão me surpreendeu, especialmente enquanto vemos atores e dublês, de carne e osso, atuando e encenando as coreografias. Quando entram em cena os bonecos de CGI rodopiando a coisa fica fake demais, parece jogo de Playstation 2, envelheceu mal pra caralho… Mas ainda gosto bastante, acho que faz parte do charme que essa cena possui.

É tudo muito divertido, barulhento e muito bem feito, até para os padrões atuais de cinema espetáculo de sci-fi/ação. Muito melhor e mais autoral, por exemplo, que qualquer filme da Marvel feito nos últimos quinze anos.

Foi realmente uma revisão proveitosa. Algum momento mais lento aqui, outro mais chato ali, especialmente no primeiro terço do filme. As cenas em Zion se demorassem mais um pouquinho iam me perder… Mas uma vez que a intensidade do ritmo aumenta e a ação entra pra valer, THE MATRIX REALOADED cresce muito. Um filmaço.

Em breve comento o que achei de THE MATRIX REVOLUTION. Vou deixar no suspense…

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E vocês? Há quanto tempo não assistem à trilogia? E o quais as suas impressões sobre a série da primeira vez que viram e nas revisões? Deixem aí uns comentários pra eu saber.

THE MATRIX (1999)

Escrevi esse textinho no início do ano passado, em 2019, exatamente vinte anos após o lançamento de THE MATRIX, para o extinto Action News. A minha intenção era rever toda a trilogia, como podem perceber no final do post… Como na época acabei revendo apenas este primeiro, vou republicar aqui no blog pra ver se animo finalmente revisitar os outros dois. Até porque um quarto filme vem aí…

Primeiro, é preciso ter consciência de que já se passaram vinte anos que THE MATRIX foi lançado e se tornou um fenômeno pop cultural, celebrado como um filme inovador em vários aspectos – revolucionário em termos de efeitos especiais e ação, e carregado de filosofia pós-moderna cibernética e blá, blá, blá. Mas e hoje? Como é ver THE MATRIX hoje? Muita coisa mudou de lá pra cá. O mundo vivia às vésperas da virada do milênio, a era da informática se iniciava, tudo o que apresentava em termos de comunicação e internet parecia tão distante da realidade; eu era um adolescente que peguei o VHS numa locadora e assisti, no mínimo, nove vezes antes de devolver rebobinado… Até as diretoras do filme, as irmãs Wachowski, ainda eram chamadas de irmãos Wachowski naquela altura… Sim, muita coisa mudou.

Resolvi encarar o filme de novo. Hoje. E se tem algo que NÃO muda é o fato de THE MATRIX ainda manter sua força em certos quesitos: alguns conceitos premonitórios, o visual cyberpunk que parece uma novela de William Gibson ganhando vida, e o fato de ser um cânone do cinema de ação na virada do século. Não dá pra conversar sobre cinema de ação do período sem que alguém cite Neo (Keanu Reeves) desviando de balas, com a câmera girando em slow motion, que ficou conhecido como “bullet time”, um tipo de cena que foi abusada à exaustão nos anos seguintes, mas que aqui ainda impressionava, era novidade; ou Neo encarando o agente Smith (Hugo Weaving) num metrô abandonado; Salvando Trinity (Carrie-Ann Moss) de um helicóptero em queda; ou enfrentando Morpheus (Laurence Fishburne) num treinamento de Kung Fu (cujo coreografo das cenas de luta foi o lendário Yuen Woo-ping)…

Lembro que na época era um filme considerado difícil de entender entre a molecada que tentava encarar a jornada do hacker Neo com mais prudência, prestando atenção no seu conceito filosófico. E toda a trama que envolve um mundo real e outro virtual, questões de livre arbítrio e identidade do indivíduo, e até um elemento religioso, com a concepção do “escolhido”, que volta para salvar o mundo, bagunçava mesmo a cabeça de um mancebo no final dos anos noventa que mal tinha entrado na internet na vida e só queria ver uns tiros, porrada e bomba. A trama nem era tão original assim, e depois foram se revelando vários filmes anteriores que tinham premissas similares.

É aquilo, THE MATRIX é a definição perfeita do que Hollywood costuma promover como algo “novo”, mas que acaba sempre sendo mais do mesmo… só que diferente.  Quem já tinha assistido na época filmes como EXISTENZ, do Cronenberg, DARK CITY, do Proyas, e O 13º ANDAR não deve ter visto nenhuma novidade por aqui, exceto a ação eletrizante, numa intensidade de encher os olhos, e que realmente tinha uma proposta inventiva. Mas era o tipo de filme que, de certa forma, nos levava a refletir, a fazer as perguntas sobre questões da vida sem conseguir obter respostas muito concretas.

Mas o que realmente encantava e, curiosamente, ainda encanta nessa revisão, é como THE MATRIX é divertido pra cacete! Quero dizer, se tu não tá a fim de ficar esquentando os miolos com os elementos filosóficos, ao menos temos aqui uma história cheia de momentos que te prendem na cadeira sem tirar os olhos da tela. Ou, basicamente, temos Keanu Reeves lutando, correndo, pulando, atirando, etc, por duas horas. “Eu sei kung-fu.” Esse tipo de coisa nunca envelhece. E obviamente é sempre importante destacar os efeitos especiais seminais, que realmente surpreendiam na época. Mesmo que em alguns momentos tenham ficado datados, mas faz parte. Tudo somado, THE MATRIX é um filme de ação sci-fi inteligente, com uma filosofia de boteco que tem seu charme. É frenético, bem dirigido, com momentos e personagens icônicos que ainda fascinam, um visual interessante, enfim, continua incrível.

Depois de THE MATRIX, as Wachowski criaram muito barulho com a expansão do universo do filme. Vieram as animações compiladas em ANIMATRIX e terminou numa das trilogias mais célebres da primeira metade dos anos 2000’s. Para alguns. Extremamente decepcionante para outros… Eu incluso. Até tenho boas memórias de RELOAD. No entanto, REVOLUTIONS era simplesmente intragável. O legal é que quase tudo desse período revelou-se bons filmes em revisões recentes. E é gratificante quando isso acontece, adoro mudar de opinião e descobrir maravilhas de coisas que eu detestava. Por isso vou rever o restante da trilogia. Volto pra falar se melhoraram com o tempo ou se ainda são as porcarias que tenho na memória…

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E termino esse post com essa imagem maravilhosa das filmagens de THE MATRIX 4, que poderiamos ver mais cedo, mas graças à pandemia só será lançado em 2022. A Lana Wachowski parece feliz em dirigir mais um capítulo dessa saga…

MIAMI CONNECTION (1987)

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Na época do seu lançamento, em meados dos anos 80, MIAMI CONNECTION passou batido. O longa foi um fracasso de bilheteria em meio a tantos filmes de ação de qualidade que o período nos proporcionava e acabou no limbo, onde permaneceu por mais de duas décadas. Y. K. Kim, que era um famoso instrutor coreano de Taekwondo que vivia em Orlando, Flórida e idealizador do projeto, quase chegou a falir com essa produção.

O sujeito escreveu o roteiro, produziu, dirigiu algumas cenas e atuou como um dos protagonistas – mesmo falando um inglês horrível. Em 2012, a Drafthouse Cinemas, sabe-se lá porque, resolveu redistribuir o filme, a recepção foi extremamente positiva e ganhou fanáticos seguidores.

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O que fez MIAMI CONNECTION ressurgir das cinzas para se tornar cult entres os fãs de filmes de ação e artes marciais, é algo que eu não tenho a mínima condição de explicar de forma racional. Mas finalmente eu me deparei com a obra, algo que já vinha adiando há algum tempo e agora posso, ao menos, especular as razões de seu culto.

Trata-se de um filme vagabundo, realizado à toque de caixa com péssimas atuações e um roteiro ingênuo e moralista que parece ter sido escrito por um pré-adolescente aficionado por filmes de luta, synth rock, ninjas e toda uma iconografia enraizada nos anos 80, mas sem qualquer noção da representação dramática das emoções humanas… Onde raios eu estou com a cabeça? Quem se interessa por dramaturgia quando temos uma gangue de NINJAS MOTOQUEIROS TRAFICANTES DE DROGAS encarando uma banda musical de lutadores de Taekwondo? Sim, MIAMI CONNECTION é uma porcaria em vários sentidos, só que o filme possui toda uma combinação de elementos desastrosos que resulta num universo muito particular dentro do gênero de ação e artes marciais e que, de alguma maneira, acaba em pura diversão cinematográfica.

Y. K. Kim, celebrando o resgate de “Miami Connection”.

A trama gira em torno de uma banda de synth rock chamada Dragon Sound, composta de amigos órfãos que lutam taekwondo e possuem etnias diferentes entre si; temos um italiano, um irlandês, um coreano, um negro, e por aí vai… Ou seja, é um filme com pluralidade inclusiva. Quando um deles começa a namorar uma mocinha, o irmão ciumento dela, que por acaso é o líder de uma perigosa gangue, acaba virando uma pedra no sapato da banda que, por este e outros motivos, entra numa guerra envolvendo traficantes de drogas e motociclistas ninjas.

É um filme muito bobo, para dizer o mínimo, que acaba tendo sua graça com seu humor involuntário, situações esdrúxulas, mas também porque não economiza em ação. Muita ação mesmo.

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A maioria delas se resume em sequências de pancadaria, onde o pequeno grupo que forma a banda (uns cinco sujeitos ao todo) encara sempre um número bem maior de oponentes. A coreografia não é nenhum primor, mas também não é de se jogar fora. E há alguns momentos sangrentos aqui e ali.

Dentre os heróis da trama, Y. K. Kim se destaca demonstrando boa habilidade na encenação das lutas. Tudo o que lhe falta em talento como ator, diretor, roteirista e seja lá mais o que tenha feito em MIAMI CONNECTION, ele esbanja competência nas cenas de luta, no uso do corpo, em movimentos que ficam bem na tela. É seu único trabalho no cinema.

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Lá pelas tantas, resolve-se criar um arco dramático com um dos personagens, Jim, que descobre que tem um pai. A coisa atinge um nível constrangedor. Há uma cena, em que Jim faz um monólogo em um longo plano, com a câmera estática, que é nível de teatrinho do ensino médio.

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Mas é o que acrescenta uma dose a mais de dramaticidade na sequência de ação final. Uma batalha difícil de definir e que acaba ficando entre algo de enternecedor e a falta de noção dos realizadores. Um troço tão ridículo e tão fascinante, tudo ao mesmo tempo.

O filme foi dirigido por Woo-Sang Park (de LOS ANGELES STREETFIGHTER, outro petardo do período), mas quando Y. K. Kim assistiu ao primeiro corte de MIAMI CONNECTION, não gostou muito do resultado. Resolveu que queria filmar mais algumas cenas para dar uma melhorada. Só que a essa altura, Park já não estava disponível e Kim meteu a mão na massa e dirigiu o que bem quis para melhorar o filme, e que acabou por ser a versão final. E se esta versão aqui ele achou que ficou boa, imagino o que deve ter sido a versão que ele achou ruim. Enfim…

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Mas acima de tudo, MIAMI CONNECTION possui uma boa energia, um típico exemplar feito com muito entusiasmado e por pessoas que claramente se divertiram muito fazendo (grande parte do elenco é formado pelos alunos de taekwondo de Kim). Só não sei se tudo isso que foi escrito aqui é suficiente para justificar o culto que surgiu pra cima do filme entre os fãs do gênero nos últimos anos. Mas ele merece ser visto, especialmente acompanhando de alguns malucos que curtem esse tipo de tralha, com algumas latinhas de cerveja, num domingo à tarde e chuvoso. Não existe programa melhor!

Os membros da “Dragon Sound”, reunidos novamente.

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Texto originalmente escrito e publicado no Action News.

DUPLO IMPACTO (Double Impact, 1991)

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Curioso pensar que Jean-Claude Van Damme, no auge da primeira fase de sua carreira, ainda estava na fissura de provar mais uma vez suas habilidades, não apenas como homem de ação badass, mas como um ator com certas qualidades dramáticas, antes de encarar super produções bancadas por grandes estúdios.

Não bastou LEÃO BRANCO, CYBORG e GARANTIA DE MORTE, filmes que o belga conseguia sair um pouco da zona de conforto e tentava desenvolver figuras diferentes umas das outras. Ou pelo menos encenava situações que exigissem mais de JCVD como ator dramático. Mas foi com DUPLO IMPACTO que essa ideia de deixar sua marca como um artista mais refinado, mesmo trabalhando em filmes de gênero, chega ao seu limite máximo. Definitivamente o filme mais desafiador de sua carreira até então, com o belga dividindo a tela e lutando lado a lado com seu ator favorito: ele mesmo.

Posteriormente, Van Damme interpretaria mais de um papel num mesmo filme, como RISCO MÁXIMO e REPLICANTE, mas nada parecido como encarnar os irmão gêmeos Chad e Alex. Inspirado no clássico da literatura Os Irmãos Corsos, de Alexandre Dumas, DUPLO IMPACTO é sobre esses dois irmãos, separados com seis meses de vida, que se reúnem depois de vinte e cinco anos para encher qualquer meliante que entre em seus caminhos de tiro, porrada e bomba em prol de uma vingança contra os assassinos de seus pais.

A trama mesmo não tem lá muita importância, é mera rotina para o desenvolvimento das duas práticas que realmente valem em DUPLO IMPACTO, que são as sequências de ação e a construção dos dois personagens centrais, ambos interpretados por Van Damm, e como o sujeito consegue lidar com esse empreendimento. Nos dois polos, o filme se sai de maneira brilhante.

Van Damme nunca esteve tão envolvido num projeto como em DUPLO IMPACTO. Concebeu a história, e vejam só, inspirado em literatura clássica; escreveu o roteiro (juntamente com o diretor Sheldon Lettich); dirigiu as cenas de ação; e teve a ousadia de interpretar dois personagens totalmente diferentes, que em certas ocasiões interagem entre si. E por mais difícil que se possa acreditar, Van Damme convence. Por isso enfatizo que se a ação é crucial em DUPLO IMPACTO, o mesmo tem de ser dito sobre a performance de JCVD.

Na trama, Chad foi criado num orfanato de freiras francesas em Hong Kong (motivo pelo qual possui sotaque francês) e cresceu nas ruas, envolvido com criminosos, calejado desde cedo com as dificuldade da vida dura. O outro, Alex, é mais sensível e inocente. Conseguiu ser levado pelo guarda-costas de seus pais, Frank (Geoffrey Lewis) para a França (mais uma explicação para o sotaque) e depois foram para L.A. montar uma academia, onde dá aulas de ginástica e karatê. Um sujeito que nunca teve que arregaçar as mangas e teve certos privilégios. Personalidade e caráter opostos, mas numa dessas coincidências amadas pelos fãs do gênero, a única coisa que ambos têm em comum é o talento em artes marciais.

E ao rever o filme recentemente, meu cérebro entrou em colapso e tive sérias dúvidas se Van Damme, na construção de ambas personagens, não teria estudado o famoso método de Stanislávski e se tornado ator da mesma estirpe de um Marlon Brando e Paul Newman. Basta observar a sutileza do olhar, das expressões, o comportamento em cena quando encarna Alex, ou o jeito grosseiro na representação de Chad… E você realmente acredita que há dois JCVD’s no filme.

Mas não vamos esquecer que DUPLO IMPACTO é um filme de ação. E é importante também para JCVD mais a capacidade de encarar Bolo Yeung num “mano a mano” do que demonstrar seus sentimentos diante de seu irmão gêmeo – o que na verdade o faz com incríveis resultados, como quando Chad pensa que sua namorada está pulando a cerca com Alex e, num frenesi de ódio, enche a cara e quebra tudo o que vê pela frente, numa atuação digna de um Leão de Ouro em Veneza. Mas quando o sujeito têm que espreitar por trás de um inimigo e quebrar seu pescoço sem chamar a atenção de outros bandidos, aí, meus caros, Van Damme é pura poesia…

O sujeito nunca esteve tão bem em frente às câmeras. Há uma sequência em que Chad tira um guarda de circulação e percebe a chegada de outros. Ele pega uma pistola em câmera lenta, enquanto seus adversários chegam atirando com metralhadoras, que obviamente nunca vão acertar o nosso herói, só para que o ele ainda em slow motion, faça uma pose cinematográfica, enrijeça seus músculos do braço e comece a atirar precisamente em cada bandido. Uma coisa linda para os fãs, mas que daria um autêntica úlcera aos cinéfilos que frequentam espaços culturais e cinemas “de arte”.

A ação do filme é simplesmente espetacular, com a classe e objetividade formal que esse tipo de cena merece. E a direção de Sheldon Lettich, que já havia dirigido Van Damme em LEÃO BRANCO, é muito energética. Alguns tiroteios são inspirações óbvias do cinema de Hong Kong, com Chad empunhando duas pistolas em trocas de tiros frenéticos. Curioso que a primeira escolha para a direção do filme era Albert Pyun, que também já tinha trabalhado com Van Damme, em CYBORG. Embora seja um hábil diretor de ação, sua pegada é bem diferente, abstracionista e experimental… Talvez DUPLO IMPACTO hoje fosse um objeto de arte nas mãos de Pyun. Seria demais para o meu coração. Então é melhor deixar como está.

As sequências de luta em DUPLO IMPACTO podem não ter uma coreografia de encher os olhos, mas a maioria são realizadas em contextos e cenários que deixam tudo mais tenso e emocionante. Algumas até possuem boas sacadas visuais, como a que Chad enfrenta um sujeito na penumbra, num excelente trabalho atmosférico de fotografia e jogo de sombras.

DUPLO IMPACTO deve ser o filme de Van Damme com a maior galeria de vilões interessantes amontoados numa mesma história. São dois cabeças do crime, responsáveis pela morte dos pais dos gêmeos, vividos por Alan Scarfe e Philip Chan, mas também seus capangas: uma mulher musculosa cuja chave de perna seria capaz de estraçalhar uma laringe; há um sujeito que usa botas com esporas e mata suas vítimas com chutes que rasgam o pescoço do infeliz; e a cereja do bolo… er… que é literalmente o Bolo Yeung, uma escolha pessoal do próprio Van Damme para compor o elenco. Os dois ficaram amigos íntimos depois de contracenarem em O GRANDE DRAGÃO BRANCO.

Vale destacar ainda no elenco o grande Geoffrey Lewis, que consegue, no meio desse monte de brucutus, ser um dos personagens mais badasses de DUPLO IMPACTO. A sequência inicial em que salva os gêmeos da execução é um primor. E também Alonna Shaw, que faz a namorada de Chad e oferece alguns dos momentos mais calientes do filme.

É verdade que em termos narrativos, não há nada de novo para se ver aqui. Trata-se de mais um filme de ação do período como outro qualquer nesse sentido. O que não deixa de ser um ótimo exemplar do gênero com o suficiente para uma agradável sessão num domingo à tarde acompanhado de uma cerveja bem gelada. No entanto, DUPLO IMPACTO é bem mais que isso. Algumas situações mais movimentadas são realmente criativas e pensadas para se tornarem antológicas. E conseguem facilmente essa proeza, ou quem viu o filme quando era moleque esquece do épico confronto entre Van Damme e Bolo Young? Além disso, temos o fator Van Damme em dose dupla, que eu, particularmente, considero seu melhor desempenho. Seja no esforço para construir dois personagens opostos, seja nas sequências de ação com seu singular “cinema corpo”, seja usando uma calça legging atochada no rabo fazendo espacate diante de várias garotas… Um clássico.

LEÃO BRANCO – O LUTADOR SEM LEI (1990)

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LEÃO BRANCO – O LUTADOR SEM LEI talvez mereça ser observado com mais atenção. Não que seja maltratado ou coisa do tipo, os fãs de filmes de luta até gostam, mas poucos veem algo a mais. E quem estou tentando enganar? Provável que nem exista esse “algo a mais”. É simples, direto, filme da mais pura essência narrativa voltada para a pancadaria como eram tantos outros que alegravam a infância dos moleques nos anos 90. Ou seja, funciona perfeitamente como aquilo que se propõe a ser, um veículo para Jean-Claude Van Damme demonstrar seus talentos em artes marciais e contar uma história que lhe proporcione isso. E só. No entanto, revendo essa semana, percebi umas nuances subjetivas por trás de toda a simplicidade narrativa que colocaria LEÃO BRANCO como o filme mais definitivo dessa fase inicial pós-estrelato da carreira de JCVD.

É o filme que sintetiza a obra de Van Damme: a linguagem do físico, do corpo como instrumento de dramaturgia, dos excessos, dos desacertos, da superfície, da maneira mais intensa que qualquer outro filme estrelado por ele até então. Principalmente em como se entrega a este personagem específico, Lyon, o legionário desertor, que foge para os Estados Unidos após receber a notícia que seu irmão está à beira da morte. Entrega-se mais até do que ao interpretar Frank Dux em O GRANDE DRAGÃO BRANCO, ou quando viveu Kurt Sloane em KICKBOXER, pra ficar em dois dos seus filmes de maior sucesso no período. Há uma expressão facial que Van Damme carrega todo o filme, um olhar que o desconstrói como típico herói dos “kickboxer movies”, um olhar insuportavelmente triste, vulnerável, um olhar de pedra no qual só vejo paralelo em um Buster Keaton.

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É a partir daqui que Van Damme prova estar preparado para encarar o peso de ser o astro de ação que fora nos anos 90. É como se depois de ter atingido o estrelato com seus primeiros filmes, o sujeito quisesse confirmar seu propósito como ator e realizar alguns trabalhos mais pessoais e intimistas – ainda que totalmente subjugados ao gênero, mas que também faz parte das suas idiossincrasias – antes de finalmente alçar vôos maiores. LEÃO BRANCO é o resultado dessa prova, um filme menor, mas que lá no fundo sintetiza toda uma carreira que estava por vir e reafirma o fenômeno Jean-Claude Van Damme dos anos 90.

Mas vamos à trama, que também nos interessa. A história começa em Los Angeles, com François, um sujeito que é incendiado durante uma negociação de tráfico de drogas. Ele sobrevive, mas tem o corpo todo queimado e grita por seu irmão, Lyon! Mas Lyon está no norte da África fazendo trabalhos forçados para a Legião Estrangeira Francesa. Quando recebe a notícia sobre o estado de seu irmão, conversa com seus superiores para pedir uma licença ou algo parecido para poder visitar o ente querido. Mas seus superiores são filhos da puta o bastante para não deixar. O jeito é escapar, arrumar um barco e ir para os EUA.

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Chegando em Nova York às duras penas, sem um puto no bolso, percebe uma movimentação estranha debaixo de um viaduto. Descobre um pequeno negócio de luta clandestina rolando solto em plena luz do dia e vê a oportunidade de, à base da pancada, descolar uma grana. Lyon não perdoa, quebra a cara do seu oponente e ainda ganha um autoproclamado agente de lutas, Joshua (Harrison Page), que promete levá-lo para L.A. Acaba, no entanto, se envolvendo num universo de lutas clandestinas bem maior, onde rola muita grana e diverte milionários entediados com lutas de boxe convencionais, buscando uma emoção a mais. Uma das responsáveis pelo circuito é Cynthia, interpretada por Deborah Rennard (GUERREIROS DO APOCALIPSE), que além de perceber potencial em Lyon, faz de tudo para usar o corpo do sujeito para outras coisas… Vale destacar também a presença do grande Brian Thompson (COBRA) como braço-direito de Cynthia.

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Ao desembarcar em L.A, Lyon descobre que seu irmão já bateu as botas e agora tem de lidar com a viúva, Nicole (Ashley Johnson), que o culpa por tê-lo abandonado. Então decide fazer a única coisa que sabe, entrar de vez no círcuito de lutas clandestinas e ganhar dinheiro suficiente para ajudar o que resta de sua família. Ao mesmo tempo, possui dois legionários lhe vigiando, tentando prendê-lo e levá-lo de volta para ser julgado por deserção – uma situação parecida com a de Frank Dux, personagem que JCVD viveu em O GRANDE DRAGÃO BRANCO, que vai participar do Kumite em Hong Kong e dois agente do governo ficam na sua cola para levá-lo de volta. Uma curiosidade aqui é que um dos dois legionários é vivido por Michel Qissi, que é ninguém menos que o Tong Po, de KICKBOXER.

Um detalhe que gosto bastante em LEÃO BRANCO é que Lyon nunca segue a trilha da vingança atrás dos responsáveis pela morte de seu irmão. O médico diz que provavelmente o assassino já foi capturado, nunca se sabe… Mas isso basta. O filme simplesmente deixa isso de lado e o protagonista apenas se concentra em tentar compensar sua ausência e obter dinheiro para ajudar sua cunhada e a adorável sobrinha. E o faz sujando as mãos de sangue, sem que isso desperte qualquer reflexão ética sobre seus atos, não há momento para julgamentos num filme desses. É um filme de porrada, caralho, vence quem fica em pé, não importa o que aconteça! Menos ética e mais honra era a palavra de ordem dos filmes de luta dos anos noventa, algo que o politicamente correto nos fez o favor de exterminar no cinema atual, com raríssimas exceções. E que LEÃO BRANCO segue à risca.

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Mas falando em porrada, um dos principais atrativos de LEÃO BRANCO é a diversificação das cenas de luta. São vários momentos em que Lyon arregaça as mangas e arrebenta seus adversários sem que, no entanto, o filme soe repetitivo, sempre inovando em oponentes e ambientes. Cada confronto, uma narrativa, cada rival, uma personalidade diferenciada – um escocês, de kilt e tudo; um cabeludo meio capoeirista; o desafiante final, Attilla, um brutamontes que sai de uma limousine de terno preto e um gatinho branco no colo… Os cenários também se renovam em cada luta: uma garagem iluminada com os faróis de carros à uma quadra de squash ou uma piscina com água em um dos lados…

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O diretor de LEÃO BRANCO é Sheldon Lettich, co-roteirista da KICKBOXER, e faz aqui um trabalho muito seguro, mas com certa personalidade. Manda bem nas cenas de luta, coloca a câmera no lugar certo, mas em alguns momentos chega a impressionar. Há um plano, por exemplo, de Nicole e sua filha saindo do apartamento e caminhando pela rua enquanto a câmera as segue numa grua bem lenta mostrando a rua e o bairro. Não parece que o plano tenha qualquer outro propósito que isso… No entanto, de repente, a câmera chega no apartamento do outro lado da rua e, no primeiro plano, mostra um dos legionários pra fora da janela as espionando. Uma cena simples, mas filmada com a mesma elaboração que veríamos num filme de um Brian De Palma… O tipo de coisa que não se espera ver num filme do Van Damme do período.

Mas isso é o de menos. O que realmente impressiona mesmo em LEÃO BRANCO é a sua veia definidora, a presença física e grande atuação de Van Damme, numa entrega que há muito não se vê nesse tipo de filme. Vale destacar que o filme é o primeiro roteiro escrito pelo próprio JCVD (juntamente com Lettich) que é levado às telas. O que intensifica ainda mais essa ideia de entrega tão pessoal que senti nessa revisão. Ok, LEÃO BRANCO certamente não vai mudar a vida de ninguém, nem quero dizer que seja uma obra-prima a ser redescoberta. Continua sendo o filme escapista de pancadaria que se espera. Muita pancadaria, aliás. E é bem provável que eu prefira outros filmes citados aqui neste texto, além de CYBORG, outro exemplar que veio antes, e que talvez seja o meu favorito do homem. Mas deem um pouco mais de atenção ao desempenho do belga quando forem ver ou rever LEÃO BRANCO. Garanto que vão se surpreender.

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KICKBOXER – O DESAFIO DO DRAGÃO (1989)

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KICKBOXER – O DESAFIO DO DRAGÃO forma uma espécie de trilogia do “Dragão” com outros filmes que Jean-Claude Van Damme estrelou em sequência no fim dos anos 80, no seu período de ascensão. Pelo menos aqui no Brasil podemos chamar de “trilogia”, já que BLOODSPORT recebeu o título nacional de O GRANDE DRAGÃO BRANCO e CYBORG tem o subtítulo O DRAGÃO DO FUTURO.

Claro, uma picaretagem dos nossos distribuidores para associar os filmes de JCVD de alguma forma diante do público. No trabalho seguinte do belga, resolveram dar uma variada e mudaram o animal: LIONHEART ficou LEÃO BRANCO – O LUTADOR SEM LEI (1990), que em breve eu comento por aqui. Por enquanto, ficamos com KICKBOXER. É hora de enfaixar as mãos, molhar com resina, afundar em cacos de vidro e voilá, tudo pronto para mais uma sessão nostálgica com um dos nossos action heroes favoritos.

BIGODE E MULLETS. AH, OS BONS ANOS 80!

Dirigido pela dupla Mark DiSalle (produtor de O GRANDE DRAGÃO BRANCO) e David Worth (LADY DRAGON), a partir de uma história do próprio Van damme (que ficou responsável aqui pela direção das cenas de luta e provavelmente da famigerada sequência da dancinha), KICKBOXER é centrado em Kurt Sloan (Van Damme), um aspirante a lutador e companheiro do seu irmão mais velho, que por um acaso é o campeão mundial americano de Kickboxing, Eric “The Terminator” Sloan (Dennis Alexio, que realmente era campeão de kickboxing), cujos mullets e o bigodinho de trocador demonstram claramente que estamos num bom e velho filme da década de oitenta.

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LIÇÃO DE KICKBOXER: NÃO SEJA UM BABACA ARROGANTE

Procurando por novos desafios, Kurt e Eric viajam para a Tailândia, onde estão os melhores lutadores do mundo. Eric desafia o campeão local, Tong Po (Michel Qissi), para um combate. Na cabeça de Eric, arrogante pra cacete, ele pensa que será moleza chegar no país, diante de uma cultura alheia, e vencer o campão tailandês com a mesma facilidade que seus oponentes habituais. Mas os problemas começam a poucos instantes do início da luta, quando Kurt busca gelo para o irmão e acaba vendo pela primeira vez o temido adversário.

Tong Po surge em cena de costas, balançando sua longa trança na cabeça careca. E praticando seu aquecimento antes de ir para luta. O que consiste em chutar o pilar do seu aposento e ver o pó cair do teto ao chão. Desculpem meu francês, mas não precisa ser um gênio para perceber antes mesmo da luta que Eric Sloane está literalmente fodido.

O estilo de luta comum da Tailândia é o Muay Thai. Ou seja, usa-se cotovelos e joelhos. Bem diferente do kickboxing que The Eliminator está acostumado. Mas Eric, orgulhoso e confiante, não acha que tem que se importar com esses pequenos detalhes, por mais que Kurt lhe suplique para que a luta seja cancelada. E, obviamente, o inevitável acontece. Eric é estraçalhado por Tong Po de todas as formas possíveis, com direito a uma cotovelada na coluna vertebral que deixa o campeão americano paralisado o resto da vida da cintura para baixo.

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O ingênuo Kurt, obviamente, fica chateado com a situação. Até porque os funcionários do ginásio não lhe dão exatamente um tratamento VIP. Os caras pegam Eric, levam-no para fora em uma maca, colocam-no na rua e trancam o portão do recinto. E pronto. Felizmente, num momento de fúria ainda em cima do ringue, Tong Po desfere um chute Em Kurt, que cai, literalmente, no colo de um americano, ex-forças especiais, chamado Winston Taylor (Haskell V. Anderson III) que estava assistindo aos combates. Um jeito estranho de começar uma amizade, mas Winston acaba levando Eric e Kurt para um hospital.

“… E QUE A MÃE DELES FAZEM SEXO COM MULAS”

O resto do filme é o básico. Desejando vingança, Kurt procura treinamento para poder enfrentar Tong Po como forma de honrar seu irmão. Winston lhe apresenta Xian (Dennis Chan), um treinador localmente famoso, mas há muito tempo recluso. Relutante no início, Xian percebe algo em Kurt e concorda em treiná-lo. E tome montagens de treinamentos dos mais bizarros ao som de músicas oitentistas e inspiradoras. Kurt tem as pernas esticadas à força, pratica movimentos de artes marciais sob a água, quase quebra a perna chutando uma árvore até cair duro no chão, corre de um cão com carne presa à coxa, treina nas ruínas de antigas civilizações orientais, entre outras coisas…

Mas nada nos prepara para a melhor sequencia de KICKBOXER. O melhor teste é de longe quando Xian leva Kurt a um bar, deixa-o totalmente bêbado e o manda para dançar na jukebox com algumas senhoritas. O que leva a um bando de locais a atacá-lo. A sequência de luta é boa, mas o que torna todo este momento lendário é o gingado entusiástico de Van Damme, com um sorriso maroto, rebolando e descendo até o chão. Ui!

Mais tarde, Xian comenta o que fez os sujeitos mal encarados do bar ficarem tão nervosos, numa das frases mais brilhantes de KICKBOXER: “Eu contei que você disse que eles não eram bons lutadores… E que a mães deles fazem sexo com mulas“. Mas se fosse pra ficar ofendido apenas pela dancinha do Van Damme, eu acho que também faria todo sentido.

TONG PO E A MÁFIA TAILANDESA

Como se não bastasse apenas um vilão, que é cão chupando manga na luta, em meio a todo o treinamento de Kurt tomamos conhecimento de que há também um mafioso por trás de Tong Po. Freddy Li (Steve Lee) comanda uma organização criminosa que toca o terror nos pequenos comerciantes. E ainda apimenta mais a situação de Kurt em sua jornada de vingança. Em determinado momento, por exemplo, ele sequestra Eric para chantagear Kurt e garantir que o americano perca o combate. A coisa fica mais pesada ainda quando seus capangas chegam ao ponto de prender a namoradinha de Kurt, sobrinha de Xian, para que seja estuprada por Tong Po. Tudo para desestabilizar o nosso herói. Esses caras não têm escrúpulo algum…

E Tong Po, como podem ver, não é apenas um adversário a ser batido em cima do ringue. O sujeito é o mal personificado e tem esse background ligado à máfia. Além de ser um estuprador filho da puta. Po não tem tanto tempo em cena para apresentar realmente uma personalidade. Da mesma maneira que Chong Li em O GRANDE DRAGÃO BRANCO. É apenas o típico vilão retratado como um monstro, uma unidimensionalidade que se encaixa perfeitamente ao tipo de filme que temos aqui.

Curioso que nos créditos iniciais, Tong Po seria interpretado por “ele mesmo.” Como se Tong Po realmente existisse. Seria algum famoso lutador que não se importa de ser retratado dessa maneira? Era o que eu pensava quando assistia ao filme na minha infância. Bem, por mais tentador que seja essa ideia, a verdade é que o sujeito é interpretado por Michel Qissi, um lutador profissional, amigo de infância de Van Damme. Foi o seu treinador pessoal para O GRANDE DRAGÃO BRANCO (além de ter uma pequena participação no filme, é ele que tem a perna quebrada por Chong Li). Em KICKBOXER, colocaram uma maquiagem no homem para parecer asiático, a célebre trancinha, e já está. Um dos mais icônicos vilões da galeria que Van Damme encarou em sua carreira.

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VAN DAMME E UM CLIMAX À MODA ANTIGA

Como é habitual nesses filmes de início de carreira, Van Damme é um bocado rígido no seu desempenho. Mas até que tenta, dentro de seus limites, explorar seu “talento” dramático. Ele consegue convencer, por exemplo, na situação de desespero quando seu irmão se machuca. Ou passa tristeza no momento em que recebe a notícia de que Eric nunca voltaria a andar. Claro, o sujeito nunca foi um Orson Welles, não dá pra exigir uma atuação shakespereana do belga. Ademais, Van Damme preenche os requisitos que o tornaram num dos grandes astros do cinema de ação do período. É hábil lutador, tem presença em cena e, principalmente, muito carisma.

É evidente que vamos perceber melhor a arte de Van Damme nas sequências de pancadaria. É quando o sujeito fica mais à vontade. Em KICKBOXER essa lógica chega ao seu limite no combate final entre Kurt e Tong Po. Por mais que eu tenha ressalvas quanto a luta em si, é impossível não encher os olhos ou estampar um sorriso na cara se você for um autêntico fã desse tipo de material. Temos Van Damme e Qissi explorando ao máximo do que chamamos de “cinema físico”, há uma excelente ambientação – a luta foi planejada nos “moldes antigos”, nos subterrâneos, iluminado por tochas – e há ainda o memorável detalhe das mãos enfaixadas, mergulhadas em resina e, em seguida, coberta de cacos de vidro. Mas que de certa forma não parece causar tanto dano quanto parece.

As ressalvas vão para a própria construção e encenação da luta. Pelo menos enquanto Eric se encontra refém dos capangas de Freddy Li e Van Damme é obrigado a perder a luta, a coisa toda ainda funciona e prende a atenção. Tong po é brutal e não dá moleza, mesmo fazendo diversos joguinhos para agradar o público presente na arena. Obviamente ele sabe que vai ganhar de qualquer jeito. O problema é a partir do momento que Kurt nota que seu irmão está a salvo e percebe que pode atacar de verdade. Tong Po, de repente, se torna mais fácil de bater que bêbado em fim de festa. O tailandês não demonstra a mínima resistência e todo golpe de Kurt entra fácil. A partir daí é só pose. É só Van Damme enrijecendo os músculos pra ficar bem nos enquadramentos. E em termos de qualidade de luta, coreografia, até mesmo edição, a coisa desanda…

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Se na execução do confronto entre Kurt e Po, deixaram a desejar, ao menos os diretores foram inteligentes o suficiente para incluir no meio da sequência de luta uma outra cena mais agitada na qual alguns coadjuvantes têm a oportunidade de botar para quebrar. Xian e Taylor aproveitam o evento e resgatam Eric dos seus sequestradores, com direito a tiros e explosões ao melhor estilo anos 80. E Eric até ajuda da maneira que pode, desferindo alguns golpes mesmo preso em uma cadeira de rodas. Portanto, no fim das contas, o resultado final do climax é positivo. Tem seus problemas, mas é divertido de se ver.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tirando pequenos detalhes, KICKBOXER é um grande filme, feito na medida certa para quem curte o gênero. É honesto, não tem receio de parecer ridículo e tem Van Damme esbanjando carisma. Se você gosta de uma história inspiradora, montagens de treinamento e cenas de luta legais, tá na hora de (re)ver KICKBOXER. Vale lembrar ainda que o filme teve quatro continuações nos anos 90. Nenhuma delas com Van Damme. Mas duas dirigidas por Albert Pyun, que é o responsável por CYBORG, um dos meus trabalhos favoritos de JCVD. Recentemente tivemos uma espécie de refilmagem, KICKBOXER: VENGEANCE. Van Damme reaparece como coadjuvante de luxo, interpretando o mestre que treina um jovem lutador. E os caras parecem incansáveis. Já preparam mais duas continuações deste último. KICKBOXER RETALIATION sai ainda este ano, e KICKBOXER: ARMAGEDDON tem previsão para 2018. Haja chute na cara!

CYBORG – O DRAGÃO DO FUTURO (1989) & SLINGER (2011)

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CYBORG vs SLINGER – Dois filmes em um

CYBORG – O DRAGÃO DO FUTURO foi um dos principais filmes de ação que me fez apaixonar incondicionalmente pelo gênero. Trata-se de mais uma variação do subgênero “pós-apocalíptico”, tão comuns nos anos 80 e 90, filmes em que vislumbramos o futuro da pior maneira possível, com suas grandes cidades destruídas por alguma catástrofe natural ou não, geralmente com um punhado de pessoas que já perderam a noção de humanidade tentando sobreviver ao caos, enfrentando as piores desgraças, agindo com violência, imoralidade e sem esperanças de uma vida melhor. No futuro de CYBORG, a “peste” devastou com a população mundial e a esperança do que resta da humanidade é a segurança de uma cyborg detentora da cura. Na trama, esta cyborg precisa chegar a Atlanta, único local com estrutura para trabalhar com o material que provavelmente vai restaurar a ordem no mundo.

Mas existem grupos anarquistas que preferem deixar tudo como está. É o caso da gangue do maquiavélico Fender, que faz de tudo para impedir que a moça de lata chegue ao seu destino. Aí é que entra o nosso herói, Gibson (sim, os nomes dos personagens são marcas de guitarras), na pele do belga Jean Claude Van Damme, um mercenário que se propõe a ajudar a indefesa cyborg, embora seja motivado por um instinto vingativo, rixa do passado entre ele e Fender, o qual é muito bem explorado nos flashbacks do protagonista.

Dirigido por um dos grandes mestres dos B movies, Albert Pyun nunca escondeu sua predileção pelo universo pós apocalíptico e cyber punk. No seu currículo podemos conferir umas maravilhas como NEMESIS, RADIOACTIVE DREAMS, KNIGHTS, VICIOUS LIPS e muitos outros… Portanto, deve ter adorado trabalhar com todos esses elementos neste que é considerado por muitos admiradores o seu melhor filme. Ou não… As histórias dos bastidores de CYBORG é tão insana quanto o próprio filme visto na tela. Pyun fora contradado pela Cannon Films em meados dos anos 80 para dirigir uma continuação de MESTRES DO UNIVERSO e um live-action do HOMEM ARANHA, que seriam filmados simultaneamente. Mas a produtora estava passando por problemas financeiros e cancelou seus acordos com a Mattel e Marvel, proprietárias dos direitos de He-Man e Homem-Aranha respectivamente, apesar de já terem gasto cerca de dois milhões de dólares com sets e figurinos.

Pyun teve a ideia de partir para algo novo, um filme totalmente diferente, se virando com o que tinham disponível, além de um orçamento de menos de quinhentos mil dólares, contando com o salário do astro Van Damme. O realizador escreveu o roteiro em uma semana e logo em seguida partiria para uma das filmagens mais caóticas de sua carreira. Em mais três semanas, o filme estava na lata, filmado, prontinho. A pós-produção também não se mostrou uma experiência confortável. Pyun se mostrava disposto a realizar um filme de gênero mais experimental, sombrio, violento e operático, homenageando aos filmes de samurai e faroestes que ele cresceu assistindo. Essa proposta não era vista com bons olhos pela Cannon e Van Damme, claro. Apesar dos pesares, o resultado é uma obra singular e visionária dentro do possível, limitada pelo baixo orçamento da produção. CYBORG, a versão de cinema, é um dos melhores filmes do diretor e um atestado do quanto pode ser prazeroso assistir a uma fita de orçamento restrito feito com paixão e criatividade. Uma curiosidade é que o filme chegou a ser promovido na TV americana carregando o nome MASTERS OF UNIVERSE 2: CYBORG!

CYBORG é bem curto, não chega a uma hora e meia, mas dispões de ação constante e muita atmosfera, um clima pós-apocaliptico desolador que não fica muito longe dos melhores filmes do subgênero, como MAD MAX 2. Difícil esquecer algumas cenas antológicas – Van Damme nos túneis dos esgotos, em espacate, esperando seu oponente passar debaixo para dar o bote é genial. Aliás, toda a sequência que antecede a crucificação do protagonista e a maneira em que o personagem se livra da cruz com toda a fúria sempre me marcou bastante. Hoje ainda reserva grande força para quem embarca na trama e neste tipo de diversão.

Além de Van Damme (cujo sotaque na época ainda era um problema para Pyun), que se sai muito bem em cena, vale destacar o desempenho do grande Vincent Klyn, o vilão Fender, que possui uma puta presença ameaçadora e poderia muito bem ter sido melhor aproveitado no cinema. A descoberta de Klyn é curiosa. Quando Pyun estava trabalhando no casting para a continuação de MESTRES DO UNIVERSO, o diretor foi ao Havaí procurar um ator que substituísse o Dolph Lundgren no papel de He-Man e acabou encontrando, no meio de vários surfistas, Vincent Klyn. Pyun se impressionou tanto com aquela figura, que quando os projetos se transformaram em CYBORG, Pyun exigiu que Klyn fosse o vilão do filme… Daquelas escolhas simplesmente perfeitas. Pra mim Fender é uma das mais insanas, impiedosas e assustadoras representações do mal no cinema de ação de todos os tempos!

Eu posso estar sendo um nostálgico exagerado, mas CYBORG é um grande filme. Ótimo veículo de ação para o Van Damme, de quem eu nutro uma enorme admiração desde pequeno, muito bem dirigido pelo Pyun, ótimos cenários, atmosfera, efeitos especiais old school que chutam a bunda de qualquer CGI atual, trilha sonora marcante, etc e tal, mesmo sabendo que para a nova geração tudo isso não passa de uma tranqueira sem qualquer interesse… Uma pena.

Passados pouco mais de vinte anos do lançamento de CYBORG, eis que Pyun aparece com SLINGER, a SUA versão de CYBORG! Explico: Apesar de ser um dos títulos mais lembrados de sua filmografia, Pyun sempre fez questão de deixar claro que a versão de CYBORG lançada nos cinemas em 1989 pela Cannon não era o filme que gostaria de ter lançado. O problema é que o grande nome do filme, Van Damme, odiou o corte de Pyun, o que fez o diretor sair do projeto e Sheldon Lettich (roteirista de O GRANDE DRAGÃO BRANCO e diretor de DUPLO IMPACTO) entrar para trabalhar numa nova edição do filme, que se tornaria a versão de cinema. Mas e SLINGER? Bom, num belo dia qualquer lá por volta de 2010, o compositor e parceiro de Pyun, Tony Riparetti, estava limpando seu depósito e encontrou duas VHS com o último corte de Pyun antes de Van Damme e Lettich tomarem conta da produção!

Um detalhe importante é que o termo “director’s cut” não possui a mesma definição da qual estamos acostumados. Não é o trabalho de alguém que resolveu remontar o filme, nem pretende o relançamento comercial para substituir o “original”. SLINGER é uma versão de CYBORG praticamente em estado bruto, percebe-se até uma falta de acabamento em algumas cenas, formatos de tela diferentes, além da imagem ruim, de VHS, sendo destinada somente para os verdadeiros fãs do filme e de seu diretor.

SLINGER é a denominação utilizada para os personagens errantes do universo do filme, como é o caso de Gibson Rickenbacker, vivido pelo Van Damme. Nesta versão, não existe praga alguma devastando a população. Gibson persegue o vilão Fender (Vincent Klyn) por vingança, pura e simples, e nem se preocupa tanto com a tal cyborg sequestrada. Quanto a esta, a sua função no filme é carregar dados que vão ajudar a reestabelecer as redes elétricas deste futuro pós apocalíptico. Ao menos é o que ela diz, mas descobrimos no fim que ela e seus responsáveis possuem segundas intenções não muito amigáveis para o que resta da humanidade, dando ao filme um tom mais depressivo que já tinha.

Fender, na brilhante presença de Vincent Klyn, não muda muito. É a personificação do mal em todos os sentidos em ambas as versões, mas ganha um tom meio religioso aqui, como um enviado do diabo para trazer o caos, reforçado por uma narração em off que não havia na outra versão. Aliás, a director’s cut ganha uma narração que permeia quase todo o filme e as palavras de Gibson dão ao personagem um interessante viés de samurai, algo que Pyun sempre declarou ter buscado para o sujeito.

A trilha sonora é um dos elementos que mais se diferencia do original. Eu gosto bastante da trilha de Kevin Bassinson, com destaque para as melodias suaves e melancólicas das cenas de flashback. Mas a que temos aqui, composta por Tony Ripparetti, parceiro de Pyun até hoje, se encaixa perfeitamente à narrativa, não apenas acompanhando as imagens, mas realmente dá ritmo e eleva a obra num patamar mais operístico, que era a ideia inicial de Pyun.

Não há nada em SLINGER que eu não tenha gostado, mas existem alguns detalhes dos quais eu prefiro na versão anterior. As cenas de flashback na director’s cut são objetivas e surgem antes cronologicamente em relação à versão para cinema. Por exemplo, quando chega a grande sequência da crucificação de Gibson em SLINGER, já sabemos de toda a história entre ele e Fender. A própria cena da crucificação ficou mais curta, embora não menos brutal. Em CYBORG, a conclusão dos flashbacks vinha no momento em que Gibson estava pregado na cruz, prolongando ainda mais a cena, deixando-a com uma carga dramática muito maior. Outra grande diferença é na luta final entre Fender e Gibson. Ambas são excelentes, na minha opinião. Mas a desta aqui, apesar de possuir uma idéia mais visceral, sua execução fica um pouco a desejar, poupa o espectador de mostrar a morte horrível de Fender, deixando as coisas na imaginação, provavelmente pelo baixo orçamento, mas o fato é que entre as duas, prefiro a original, que é mais longa e mostra tudo o que tem que mostrar.

De uma forma geral, acho que esta director’s cut se encaixa mais ao estilo de Albert Pyun naquele período. É mais sombrio e dá ênfase às suas peculiaridades estéticas e influências (Sergio Leone e os filmes de samurai). Já a edição dos produtores deu a CYBORG um aspecto de filme de ação de baixo orçamento que tinha tudo pra ser um tradicional exemplar do período, mas acabou com o olhar peculiar e criativo de um realizador cheio de personalidade. Não é a toa que, de alguma forma, foi um dos filmes que mais me encantou durante a infância, justamente pelos vestígios deixados por Albert Pyun na versão para cinema.

E pra ser totalmente franco com vocês, essa director’s cut não possui modificações gritantes em relação ao “original”, está bem longe de ser “outro filme”. E o grande lance é que o material bruto das filmagens de CYBORG, totalmente realizado por Pyun, é muito bom e é o que realmente faz toda a diferença! Todas as grandes cenas antológicas que transformaram esta obra num clássico permanecem aqui. Acho que se eu pegasse esse material e editasse a minha versão, seguindo a mesma trama, não tenho dúvidas de que seria capaz de fazer um bom filme! Mas são as mínimas nuances que diferenciam uma versão da outra que demonstram claramente a idéia mais autoral de Albert Pyun. E olha que CYBORG, do jeitinho que era antes, já era o meu filme preferido do diretor… essa versão chega apenas para definir não apenas essa minha opinião, mas para colocar CYBORG entre os meus favoritos do gênero.

Ao fim do filme, há uma menção sobre um futuro projeto que retornaria ao universo de CYBORG em uma nova produção. Talvez uma sequência ou uma pré-continuação… Pyun chegou a anunciar e até trabalhar nessas ideias nos últimos anos, mas nada de concreto foi lançado. Continuamos aguardando.

OBS: Como disse antes, Pyun nunca lançou SLINGER comercialmente. Tive o privilégio de conferir o filme há alguns anos, quando o próprio diretor me enviou uma cópia assinada, da qual me orgulho muito e guardo com carinho na prateleira.

THE TALE OF ZATOICHI (1962)

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Quando os estúdios Daiei escolheram adaptar para o cinema a história de Zatoichi, um samurai cego que só havia aparecido em pequenas crônicas publicadas no final dos anos 40, eles não faziam ideia da extensão que seria o sucesso do personagem, que se transformaria num herói popular, ícone da cultura pop japonesa e renderia ainda mais de vinte filmes, seriados, além de spin-offs e revivals em tempos modernos, como a do Takeshi Kitano, em 2003… Ou aquela versão com o Rutger Hauer, FÚRIA CEGA.

Aqui, no entanto, é onde tudo começou. Dirigido pelo veterano Kenji Misumi e magistralmente personificado por Shitaro Katsu, THE TALE OF ZATOICHI inicialmente pode parecer muito influenciado por YOJIMBO, de Akira Kurosawa, lançado no ano anterior e que exibe uma trama similar em alguns pontos. Em ambos vemos um outsider itinerante de habilidade marcial fora do comum vagando em espaços rurais arruinados pelo conflito entre dois clãs rivais que disputam o poder local. Só que Zatoichi rapidamente se estabelece como um protagonista mais equilibrado e simpático, diferente do grosseiro Sanjuro, de Toshirô Mifune, embora as motivações dos dois permaneçam igualmente ambíguas, com a busca de dinheiro em ambos os casos soando como fachada para redenções morais não explícitas.

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A principal diferença de YOJIMBO, porém, é o fato de que THE TALE OF ZATOICHI se assume apenas como um entretenimento popular e não uma obra filosofica auto-consciente, como é o caso de Kurosawa. Até porque estamos falando de um sujeito cego que é capaz de encarar grupos inteiros de meliantes armados com objetos cortantes e ainda por cima se sair bem, como uma espécie de Matt Murdock/Demolidor do Japão feudal. Não dá tempo pra filosofias por aqui… E as sequências de ação são excepcionais, apesar do filme carecer de um pouquinho mais de combates de espada. Ficou um gostinho de “quero mais”…

Na verdade, THE TALE OF ZATOICHI poderia ser bem mais divertido se fosse mais focado no seu protagonista e com mais cenas de ação, mas o excesso de subtramas neste enredo que não chega nem a duas horas de duração é demais para suportar. O filme atira pra todo lado com histórias envolvendo estupro de uma moça, a gravidez de outra, a doença mortal de fulano, abuso, suicídio, alcoolismo, jogos de azar, amor, e vários outros tópicos… Me parece um pouco demasiado complexo para o que poderia ser bem mais simples. E fica faltando mais tempo para explorar a ação. Tá certo que, possivelmente, os realizadores optaram por retratar o fato de que Zatoichi não saca sua espada de forma vulgar e evita ao máximo o confronto. Mas, porra, eu ansiava por um pouco mais das habilidades do lendário samurai cego.

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Mas preciso ressaltar: quando Zatoichi resolve usar sua espada, o resultado é incrível, como no esperado e antológico duelo na pontezinha. São por esses momentos que o filme vale uma conferida.

Impossível deixar de destacar também o trabalho de Shintaro Katsu na pele de Zatoichi, que tem aqui um desempenho do cacete, muito convincente e carismático. É o que realmente segura THE TALE OF ZATOICHI e que faz o personagem tão fascinante. Vou continuar assistindo a série aos poucos e comento aqui a medida que for assistindo. Este aqui, apesar dos pesares, tem todos os méritos para ser o clássico das artes marciais que é. Mas espero que as próximas vinte e tantas continuações tenha um bocado mais de ação…

DESERT KICKBOXER (1992)

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Apesar de DESERT KICKBOXER conseguir variar um pouco o estilo “kickboxing movie”, o resultado não chega a ser dos melhores. Se bem que analisar por alto os filmes do gênero é meio complicado. Embora eu ame o ciclo “Kickboxing Movie” do início dos anos 90, é inegável o fato que surgiu muita porcaria no meio, exemplares genérico sem muita criatividade, atuações ruins, a grande maioria com tramas realmente fracas e lutas mal feitas, ou seja, o principal atrativo dos filmes nem sempre faz valer a pena… DESERT KICKBOXER não é muito diferente disso. Ou talvez seja…

Lembro de ter visto este aqui na TV há muito tempo. Revi esses dias pelo simples fato que se trata do primeiro longa do diretor Isaac Florentine! Daí surgiu a curiosidade de relembrar o filme e confirmar que realmente não é grandes coisas, mas tem seus momentos, dependendo do clima que você estiver…

O ator John Newton foi o Superboy da série televisiva dos anos 80. Apesar de garboso, não chegou a fazer muito sucesso depois. Aqui ele vive Hawk, um policial descendente de índios Navajos que vive num deserto americano, fazendo fronteira com o México, para combater o tráfico de drogas à base da porrada na cara e voadoras. O sujeito foi campeão de kickboxer (ou pelo menos é o que eu imagino, já que é a modalidade indicada no título), mas sofre de um profundo trauma por ter matado o oponente em sua última luta.

Os problemas começam quando uma mulher decide passar a mão na grana de um poderoso traficante, vivido por Paul L. Smith (o Brutus da versão do cinema de Popeye, dirigido pelo Robert Altman), e foge para o deserto com seu irmão retardado tendo sua cabeça à prêmio e a bandidagem à sua cola. Só que Hawk, experiente habitante do deserto, a encontra primeiro. E aí já viu, né?

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O filme é bem despretensioso e tem quase totalmente o deserto como cenário. Dá pra perceber claramente que é uma produção pobre, independente e com um ritmo lerdo demais para esse tipo de história. O roteiro não traz nenhuma novidade, mas de vez em quando surge um personagem interessante, como na cena da gangue de motoqueiros cujo líder, vestido de padre, é uma figuraça!

As cenas de luta se resumem ao puro exibicionismo de John Newton (e de seus mullets!). São curtas e sempre contra oponentes que não sabem lutar. Temos apenas duas sequências um pouco mais elaboradas: a do início, mostrando o combate no ringue onde o adversário do protagonista acabou morto (e o cenário não passa de um fundo preto, com alguns flashes de máquinas fotográficas e efeitos sonoros de uma torcida gigantesca) e a luta final, contra o capanga do traficante que curiosamente também é praticante de kickbox!

Mas não esperem a virtuosidade de Florentine nas coreografias. São lutas bem meia bocas, mas justamente por isso, dão aquele charme tosco para os que curtem uma boa tralha. A sequência final é bem preguiçosa, dá pra ver até a sombra da equipe de produção no canto da tela enquanto os atores trocam chutes e o roteiro ainda resolve certas situações com típicos clichês vagabundos. Mas apesar disso e de toda brutalidade física, o final reserva grandes lições filosóficas para o espectador mais atento. Afinal, nada na vida é por acaso, e é isso que Hawk descobre em seu confronto, trazendo de suas memórias traumáticas a motivação para derrotar seu novo oponente. E ainda, aprendida a lição, ele não se deixa cometer dos mesmo erros. Claro que segundos depois, ele utiliza o meliante como escudo vivo pra não levar bala, mas também já seria exigência demais.

FAREWELL TERMINATOR, curta metragem israelense e primeiro trabalho do Florentine, valia muito como curiosidade. Já DESERT KICKBOXER serve mesmo para os fãs arretados do gênero, que sabem apreciar até mesmo os exemplares ruins… para estes, o filme até pode divertir um pouquinho.

O GRANDE DRAGÃO BRANCO (Bloodsport, 1988)

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O que seria dos filmes de luta no ocidente sem O GRANDE DRAGÃO BRANCO? Não sei, mas cada vez que assisto a essa belezinha, mais me convenço do óbvio, de que se trata de um dos clássicos mais influentes do cinema de artes marciais feito nos lados de cá. Já devo ter assistido umas quinhentas vezes e como acho que esse número não é suficiente, esta semana resolvi rever mais uma vez pra não perder o costume. Continua  a coisa linda de sempre e um dos melhores veículos de Jean-Claude Van Damme.

Tá certo que nem o acho o filme uma obra-prima, a qualidade de algumas lutas são questionáveis, a maioria das atuações são constrangedoras e impera expressões faciais hilariantes, como a da imagem que abre o post; mas é pelo nível de entretenimento, pela sensação nostálgica, por várias cenas definitivas para o gênero e que marcaram uma geração que O GRANDE DRAGÃO BRANCO permanece com o mesmo frescor, com a mesma grandeza de quando assisti pela primeira vez.

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Se você, sei lá, esteve em Marte nos últimos quarenta anos e nunca ouviu falar de O GRANDE DRAGÃO BRANCO, então presta a atenção. Produzido pela famigerada Cannon Films, e dirigido por Newt Arnold, trata-se do filme que colocou Jean-Claude Van Damme definitivamente no mapa. A sua participação em NO RETREAT NO SURRENDER e BLACK EAGLE são bacanas e os filmes crescem justamente por sua presença, mas foi aqui que o mundo todo conheceu o belga que dava chutes rodados no ar e fazia espacate em todas as oportunidades possíveis.

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A trama é baseada, alegadamente, na história real do verdadeiro Frank Dux, um especialista em artes marciais americano que criou uma técnica de luta própria, chamada Dux FASST (Focus-Action-Skill-Strategy-Tactics) e até trabalhou no cinema como coreógrafo em filmes de porrada. Um dos pontos principais de sua biografia foi participar do lendário e ilegal torneio de artes marciais chamado Kumite, sendo o primeiro americano a vencê-lo. Tudo bem que há pessoas que contestam suas façanhas, dizendo que o troféu que o sujeito afirma ter ganho foi comprado numa loja da sua cidade… Mas quem sou eu pra desmentir?

Enfim, O GRANDE DRAGÃO BRANCO relata justamente o período em que Dux participou do Kumite e Van Damme é quem assume a responsa de encarnar a figura. Na trama, Dux dá uma escapulida das forças armadas americana, visita seu antigo mestre – com direito a um flashback que mostra seu treinamento ainda jovem – e parte até Hong Kong para participar do torneio, no qual diz a lenda que ferimentos graves e até mesmo resultados letais eram permitidos.

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No local, além de encarar seus oponentes no tatame, Dux faz amizade com um lutador americano chamado Ray Jackson (Donald Gibb), come a jornalista gostosa obstinada por fazer uma reportagem sobre o Kumite e ainda tem que fugir de dois agentes americanos (um deles vivido por Forest Whitaker em início de carreira) que têm a missão de impedir que Dux participe da competição, já que o exército não quer que seu valioso material humano se machuque nessa brincadeira.

É evidente que o que desperta a atenção no filme num primeiro momento só poderia ser mesmo o torneio, os confrontos dos mais variados lutadores, a escala de combates que Dux precisa fazer para se tornar campeão. No entanto, confesso que não acho as cenas de luta por aqui aqui tão especiais. Há filmes com pancadaria bem mais elaboradas e brutais e até mesmo o Van Damme já protagonizou cenas de porrada mais espetaculares em outras ocasiões, com outros diretores.

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Na verdade, não é que as lutas sejam ruins e há algumas que realmente merecem estar no panteão de filmes de torneio de artes marciais americanos. Acho sensacional que o próprio Frank Dux da vida real tenha elaborado a coreografia das lutas de O GRANDE DRAGÃO BRANCO e é curioso que o sujeito achou que Van Damme não estava preparado fisicamente para encarar o desafio de vivê-lo no cinema e o colocou num treinamento barra pesada intensivo durante três meses, os quais o próprio JCVD disse ter sido o treinamento mais duro que já fez na vida. Valeu a pena, porque é justamente o belga que protagoniza as melhores cenas de ação.

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Sobre o diretor, antes de dirigir O GRANDE DRAGÃO BRANCO, Newt Arnold havia feito apenas dois obscuros filmes de horror, sendo que o segundo, BLOOD THIRST, é 1971. Ou seja, quase duas décadas separam seu último trabalho como diretor e este aqui. Por outro lado, Arnold foi assistente de uma boa safra de diretores fodões, como Sam Peckinpah, Francis F. Coppola, William Friedkin e John McTiernan, portanto é um cara que sabia o que tava fazendo. E em termos de direção, enquadramentos e ritmo, o sujeito manda bem, as lutas tem boa energia. Se não chegam num nivel espetacular, ao menos são diretas, cruas e encenadas com competencia.

Ajuda muito a excentricidade de reunir os mais variados estilos de artes marciais e os mais bizarros representantes de cada modalidade para trocarem chutes e socos num torneio. Basta a montagem de treinamentos na abertura para garantir ao espectador que o dinheiro do ingresso foi bem gasto e ele vai ser recompensado com a exibição de uma vasta gama de estilos e métodos de treinamento, de um lutador de Sumo para um sujeito que luta Capoeira passando por mestres Kung Fu e até um cara que treina quebrando côcos em cima de uma árvore. É o estereótipo do estereótipo, mas que nuca perde sua graça até pelo pioneirismo da coisa. Michel Qissi marca presença, alguns anos mais tarde faria um desafeto de JCVD, Tong Po, no ótimo KICKBOXER. E temos o cruel Chong Li (Bolo Yeung), que surge quebrando blocos de gelo com pontapés.

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No elenco, Van Damme aproveita como pode a oportunidade neste seu primeiro filme como protagonista. O sujeito esbanja carisma, demonstra boa presença nas sequências de luta, e, claro, não dá pra exigir dele uma interpretação de Hamlet, mas ensaia algumas situações dramáticas, como quando seu amigo Ray Jackson é destroçado por Chong Li e Van Damme vaga de metrô, fazendo expressões faciais preocupadas. Ou fazendo espacate numa varanda com vista para a cidade. Aliás, o espacate é uma das marcas registradas de JCVD em quase todos os seus filmes. Mas aqui o sujeito exagera da posição de 180º das pernas… O cara tem as pernas esticadas pelo seu mestre, depois faz espacate pra se preparar antes do torneio começar no quarto de hotel, espacate para acertar um murro nas partes baixas do lutador de sumô, espacate quando seu amigo vai parar no hospital… Haja tendões…

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Você deveria parar de fazer isso se um dia quiser ser pai…

Uma das coisas que mais curto em O GRANDE DRAGÃO BRANCO é a relação de Dux com Ray Jackson. A introdução do grandalhão americano é engraçada, com o sujeito entrando no mesmo ônibus de Dux em Hong Kong, flertando meio abusivamente com uma mocinha. A gente logo pensa que ele vai ser um desses bullies que Van Damme precisará dar uma surra, mas acaba se revelando o cara mais gente boa do mundo e o melhor amigo do protagonista.

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E Bolo Young é desses caras que convence ser imbatível e que realmente poderia matar um sujeito com as próprias mãos num torneio desses. Tirando o fato que não há qualquer profundidade no persoangem, só está lá pra servir de lutador desumano e impiedoso, ele o faz com a máxima perfeição. Chong Li é simplesmente um dos maiores ícones do cinema de luta americano. Young voltaria a encarar JCVD no fenomenal DUPLO IMPACTO!

Alguns momentos de O GRANDE DRAGÃO BRANCO merecem o devido destaque. Quem assiste ao filme nunca esquece da cena em que Dux demonstra o “toque da morte” quebrando o último tijolo de uma pilha.

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E o melhor vem logo depois, com a notória reação de Chong Li: “Muito bom, mas tijolo não revida!“. Porra, são momentos assim que transformam um filme desses num clássico!

Temos também a divertida sequência musical na qual Dux corre pelas ruas de Hong Kong fugindo da dupla de agentes. Por falar em música, tudo é muito datado para os padrões atuais, mas para um 80’s music lover como eu é sempre um charme a mais. Toda a sequência do treinamento do jovem Frank Dux com seu Shidoshi, vivido por Roy Chiao, também merece atenção, além do grande confronto final entre Dux e Chong Li, que se não é um primor em termos de ação, ao menos tem boas sacadas e Van Damme consegue dar o seu show de exibicionismo composto de socos, pontapés, voadoras e chutes rodados… Não é a toa que foi instantaneamente alçado ao status de astro.

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O GRANDE DRAGÃO BRANCO até pode ter seus problemas, nem acho que seja o melhor veículo de JCVD, mas é uma obra de extrema importância para os amantes de filmes de luta e que possui todos os elementos que tornam um filme num clássico atemporal. O roteiro de Sheldon Lettich (que depois viria a dirigir JCVD em LEÃO BRANCO, DUPLO IMPACTO, THE ORDER  e THE HARD CORPS) trouxe à tona toda a estrutura para o estilo de filmes de torneio e praticamente inaugurou o subgênero Kickboxing no Ocidente, que fez a alegria da moçada nos anos noventa, gerando um milhão de copiadores incluindo três sequências estrelando Daniel Bernhardt, dos quais nunca assisti. Mas acima de tudo, O GRANDE DRAGÃO BRANCO é um filme que diverte em todos os sentidos possíveis. e diverte pra CARALHO! Ainda vou rever muitas vezes durante a vida e tenho a total certeza de que a cada revisão vou estampar um grande sorriso do início ao fim.

FAREWELL TERMINATOR (1987)

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FAREWELL TERMINATOR é o primeiro filme de Isaac Florentine, realizado ainda em seu país natal, Israel, uma mistura de ficção científica pós-apocalíptica com ação e artes marciais, e que não chega a 30 minutos de duração.

O clima lembra os filmes do gênero daquele período, os rip-off de MAD MAX, principalmente os produzidos pelos italianos e também as tralhas do Cirio H. Santiago e gente dessa laia, mas já demonstra um modesto talento e estilo próprio de Florentine em coduzir cenas de ação e pancadaria. Além da capacidade de trabalhar com pouquíssimo recurso, mas muita criatividade, utilizando como cenário uns entulhos de concreto e sujeira, ruinas de prédios e carros batidos para compor uma atmosfera que funciona muito bem.

A história não é nada de mais. Mas não era intenção do Florentine, que escreveu o roteiro junto com Yehuda Bar-Shalom, gastar fosfato em um roteiro mais elaborado que serviria apenas de veículo para que o próprio Florentine explorasse seus interesses intelectuais e filosóficos… como tiros e pontapés na cara, por exemplo.

Ainda assim, a trama não deixa de ser interessante: no futuro, o governo utiliza uma espécie de polícia especial, conhecida como Terminators, para eliminar os rebeldes. Acompanhamos Dror, um policial que está prestes a se aposentar e ganhar passe livre para sair do país. Em seu último dia de trabalho, precisa enfrentar Schneider (o próprio Florentine), um ex Terminator que trocou de lado. Ainda na trama, Dror descobre que está com sua cabeça a prêmio e que a polícia está por trás disso. É uma boa premissa… com menos de meia hora de duração então, dá pra se divertir um bocado.

E o foco fica mesmo na ação e nas cenas de luta. Não são perfeitas, tão bem montadas e coreografadas como os filmes posteriores do diretor, como NINJA e UNDISPUTED III. No entanto, percebe-se claramente porque o cara conseguiu emprego rapidinho em solo americano, a princípio fazendo alguns B Movies e episódios de Power Ranges (Argh!)… depois voltou a se dedicar a fazer B Movies, mas com um pouco mais de grana, com atores conhecidos, como Van Damme, Dolph Lundgren, Gary Daniels e seu ator habitual, Scott Adkins.

FAREWELL TERMINATOR não é tão fácil de encontrar, eu suponho, mas se você tiver a oportunidade, não perca. Vale muito como curiosidade para quem já é fã de filmes de ação de baixo orçamento, especialmente do trabalho do Isaac Florentine, e também para os fanáticos por obras obscuras de ficção pós-apocalíptica dos anos 80.

A VINGANÇA DO NINJA (Revenge of the Ninja, 1983)

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Seria complicado fazer A VINGANÇA DO NINJA começar de onde ENTER THE NINJA terminou, porque o personagem de Shô Kosugi, um mestre ninja “do mal”, foi decapitado por Franco Nero no confronto final. No entanto, como resolveram trazer o ator japonês de volta nesta “continuação” oficial do filme de Menahem Golan, o jeito foi fazer um filme totalmente independente. Ou seja, A VINGANÇA DO NINJA não tem qualquer ligação com o filme “anterior”.

Sendo assim, Kosugi é um bom sujeito por aqui. Seu personagem vive uma vida tranquila e pacata com o seu clã no Japão, numa bela casa, com grandes jardins, é um artista que trabalha com bonecas de porcelana japonesas, um bom marido, pai de família e… Enfim, é tudo tão tocante que um filme sobre a vida desse cara deveria ser dirigido por um Mizoguchi ou Yasujiro Ozu. Mas A VINGANÇA DO NINJA é realizado pelo Sam Firstenberg, e é mais uma produção da Cannon Films, portanto, podem esquecer uma provável beleza poética da coisa. O tal clã é logo atacado por um grupo de ninjas, estrelinhas na testa prá todo lado, a esposa do protagonista é assassinada (os únicos sobreviventes, na verdade, são o próprio Kosugi e o filho recém nascido) e temos aí a premissa montada para um belo filme de ação ninja. Até porque o personagem do Kosugi, além de tudo aquilo que eu disse ali em cima, não poderia deixar de ser também um mestre ninja!

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Para recomeçar a vida, um amigo americano convence Kosugi a levar seu filho para os EUA e abrir uma galeria para suas bonecas. Ok, eu não vou ficar fazendo piadinhas com o fato do protagonista produzir bonecas, seria muito óbvio. Prefiro acreditar que se trata de um elemento da teoria de que todo herói badass tem um lado sensível. Exemplos temos aos montes: Schwarza em COMANDO PARA MATAR (1985) alimentando um veadinho nos créditos de abertura; Steven Seagal salvando o cachorrinho em OUT FOR JUSTICE (1991); Van Damme com seu coelhinho de estimação em BORDER PATROL (2008)… qual é o problema do Kosugi ter uma coleção de bonecas, caralho?!?!

Bom, Kosugi aceita a proposta do amigo e vai para os EUA brincar de bonecas. Os anos se passam, o moleque cresce e tudo anda bem encaminhado na galeria de bonecas de Kosugi. Há até um esforço do filme em trabalhar o choque cultural nos personagens, como na cena em que a assistente do herói, uma loura americana, resolve praticar treinamento ninja sem calcinha, num dos momentos mais dramáticos do filme…

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Er… De todo modo, ainda há uma história que poderia ser dirigida por um Shohei Imamura ou Nagisa Oshima… mas, repito, o filme é do Firstenberg! Pra quem não se lembra, o Firstenberg talvez seja o maior especialista em filmes de ninja em solo americano, tendo dirigido o clássico AMERICAN NINJA, com o Michael Dudikoff… Portanto, para dar uma esquentada na trama, Kosugi descobre que o tal amigo americano utiliza a exportação das bonecas para traficar drogas no interior delas… Quem poderia imaginar?

As surpresas não acabam por aqui, porque depois que toda a ação começa pra valer, com a presença de vários ninjas para Kosugi chutar na cara, descobrimos que seu amigo americano também é um… mestre NINJA!!! Um ninja branco como no filme anterior, só que em papel invertido. Desta vez o ninja branco é o vilão.

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Em termos de ação, o nível de qualidade das cenas de luta em A VINGANÇA DO NINJA são muito boas, com longas sequências de pancadaria, muitos ninjas sendo abatidos e todo o tipo de armamento ninja sendo utilizado em vários tipos de cenários. O duelo final, que se passa no topo de um arranha céu, é um bom exemplo onde espaço é muito bem aproveitado para o tipo de ação que temos aqui.

Portanto, em vários aspectos A VINGANÇA  DO NINJA acaba por ser um exemplar de respeito dentro do subgênero feito nos Estados Unidos. Talvez até mais que o primeiro filme em termos de cultura ninjitsu e artes marciais. Mas ENTER THE NINJA tem Franco Nero, com aquela piscadela de olho no freeze frame final, é bem mais ingênuo e muito mais divertido na minha opinião. O que não tira os méritos deste aqui, é claro. Obrigatório para quem curte um bom filme de ninja.

MORTAL KOMBAT (1995)

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Depois de assistir a SHOPPING, filme de estreia de Paul W. S. Anderson que eu comentei aqui outro dia, coloquei como missão neste início de ano rever todos os filmes do diretor e, obviamente, conferir o que não assisti ainda. Tô cagando se o cara é mal visto em alguns círculos… Vou ver mesmo assim. Então me deparei já de cara com MORTAL KOMBAT, que é o segundo trabalho do sujeito. Nem me lembro da última vez que vi essa tralha, mas lá nos meus doze, treze anos, era um verdadeiro espetáculo! Não era assim um grande fã do jogo (preferia Street Fighter), mas dava os meus “Fatality” de vez em quando. Além disso, não perdia uma Sessão Kickboxer, na Band…Bons tempos… Como basicamente, no fim das contas, MORTAL KOMBAT não deixa de ser apenas um filme de luta, era o paraíso um garoto da minha idade deparar-se com uma obra desse quilate.

Mas estava ainda com receio de saber como seria assistir hoje… Na época do lançamento, me lembro do filme ser recebido por muitos como a grande adaptação de videogame para o cinema. Tá certo que a concorrência não era das melhores… o que é aquele filme do Super Mario? E não vou nem falar nada do STREET FIGHTER, com JCVD… O fato é que Paul W. S. Anderson e sua turma conseguiram realmente captar a essência do jogo e combinar com certa perspicácia dentro de uma linguagem de cinema tudo aquilo que um fã de MK poderia almejar. Scorpion dizendo: “Get over here!“, Sub Zero congelando pessoas, Shang Tsung dizendo “Flawless Victory!” e “Finish Him!“, Goro com seus quatro braços destroçando seus adversários, Johnny Cage deixando sua foto autografada após uma peleja, etc, etc, etc… Tá tudo aqui!

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Portanto, revê-lo agora depois de tantos anos apenas confirmou a grande adaptação que é. Não que o resultado seja a oitava maravilha do universo do cinema… Longe disso, continua sendo uma tralha. Mas em termos de adaptação o filme merece seus elogios por conseguir manter os traços característicos do jogo na narrativa.

Além disso, é bem divertido como filme de fantasia e artes marciais. Algumas lutas são realmente bacanas, bem coreografadas e Anderson tem excelente noção de como utilizar os cenários, os espaços, na interação com os combates e os poderes dos personagens. Toda a sequência do confronto entre Cage e Scorpion, por exemplo, é de um cuidado que impressiona, tanto na manipulação dos ambientes quanto na encenação física, na trocação de socos e pontapés entre os personagens. De uma riqueza visual notável! A coisa começa em uma floresta conspícua e totalmente simétrica, com Scorpion lançando sua famosa “corrente” sobre o pobre Johnny, que não tem defesa, exceto fugir e arranjar uma solução para contra-atacar. Depois os dois são transportados a uma espécie de porão infernal onde o pau come de verdade… É disparado a melhor sequência de MK. É legal que em alguns momentos Anderson tenta realmente recriar os enquadramentos do jogo, o que torna tudo tão familiar e fascinante, como no confronto entre Liu Kang e Sub-Zero.

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MORTAL KOMBAT possui boa produção, com efeitos especiais decentes para o período (a concepção do Goro é simplesmente incrível), exceto algumas cenas de CGI que já na época eram ridículas e acabaram ficando muito datadas. O elenco é muito bom, a maioria dos atores não são apenas competentes, como Robin Shou (Liu Kang) e Linden Ashby (Johnny Cage), mas também representações físicas bastante precisas de seus personagens no jogo. Destaque para Christopher Lambert como Raiden, cheio de gracinhas constrangedoras, mas que me racham de rir, e o grande e expressivo Cary-Hiroyuki Tagawa fazendo o feiticeiro Shang Tsung, sempre um deleite vê-lo como vilão. O elenco ainda tem Trevor Godard, como Kano, Bridgette Wilson fazendo Sonya Blade e Talisa Soto encarnando a Kitana.

Só acho uma pena a classificação PG-13 para a adaptação de um jogo que abusava da violência gráfica, dos famigerados “Fatality” sangrentos. MORTAL KOMBAT é bem limpinho e a violência é praticamente zero. Não estraga a diversão, mas para os fãs mais xiitas e admiradores de um gore, a coisa fica a desejar. O filme possui alguns outros problemas mais estruturais, o próprio fio condutor do entrecho, o torneio de lutas, é mal explicado, nunca sabemos quem luta com quem, onde e quando; há momentos que é numa arena com público, em outros parece que os lutadores estão num universo paralelo completamente sozinhos. Pode ser relevado, mas são coisas que poderiam ser melhor exploradas. E não vou entrar em muitos detalhes sobre a trilha sonora… Uma insuportável batida eletrônica que é simplesmente um horror…

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Torto e falho em alguns pontos sim, mas MORTAL KOMBAT continua sem dúvida alguma uma das mais admiráveis adaptações de video-game para as telas de cinema e um competente exemplar de artes marciais dos anos 90, que envelheceu muito bem, dependendo do seu gosto pra esse tipo de filme… MK ainda teve mais duas continuações, mas esses eu não tenho coragem ainda de me aventurar tão cedo. Já tinha achado ruin na época e acho que não vai ser agora que vou mudar de opinião.

BLACK EAGLE (1988)

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Um avião que transporta um sistema de orientação de mísseis a laser de última geração cai em Malta. O governo americano age rápido e envia seu melhor agente, Sho Kosugi, até lá para recuperá-lo. Só que o sujeito tem trabalhado demais e quase não tem tempo pra família e isso tem o deixado chateado… Qual é a solução? Leve as crianças junto pra Malta e coloque-as num hotel cinco estrelas até que Kosugi termine o trabalho. Só que os russos também estão atrás do sistema e, obviamente, vão fazer de tudo para atrapalhar a vida do nosso herói, até mesmo sequestrar seus filhos e tentar tornar a trama de BLACK EAGLE mais agitada…

Um dos vilões russos é um tal de Jean-Claude Van Damme. É divertido vê-lo ainda em início de carreira tentando ganhar seu espaço. O sujeito basicamente desempenha o mesmo personagem que fez em NO RETREAT NO SURRENDER,  um meliante, guarda-costa e braço direito de um facínora russo. Embora este seja um papel precoce e minúsculo, Van Damme já demonstra suas qualidades que ajudariam a torná-lo um astro do cinema de ação dos anos 90, como por exemplo sua arte que justifica o cinema feito em 16:9: o espacate.

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Mas tirando a presença de Van Damme, BLACK EAGLE é bem problemático em vários sentidos. sei lá, os produtores não estavam pagando o cara? E como é o protagonista, que carrega grande parte do filme, o resultado é insoso, sem muita energia. Mas o pior de tudo são as cenas de Kosugi com os filhos. Quero dizer, precisamos mesmo de um herói que leva seus filhos para a praia e museus durante a METADE de um filme de ação? Tenho certeza de que enquanto mata russos e tenta cumprir a misão ele gostaria de sair com os filhos e tal, mas isso só retardam um filme que já é lento até para os padrões do cinema de ação do período. Enfim, se Van Damme aproveita cada minuto por aqui, como veículo para Kosugi BLACK EAGLE é puro lixo.

Vale mais a pena concentrar a atenção em Van Damme, cujo personagem é bem mais interessante e expressivo. De resto, BLACK EAGLE é maçante e previsível. O pior é que Van Damme e Kosugi ficam muito pouco tempo juntos na tela e têm apenas duas lutas, nenhuma das quais são exatamente muito boas. A primeira termina abruptamente a segunda é muito mal ilumiada, numa escuridão desnecessária. Claro, ambos demosntram suas habilidades e alguns momentos de luta são bons, mas levando em conta o material humano que temos aqui, era para ter coisa melhor.

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Em suma, os fãs de Sho Kosugi vão sair frustrado de BLACK EAGLE, já os admiradores do belga tem aqui um lado curioso de vê-lo aprontando as suas em início de carreira. De qualquer forma, os apreciadores de filmes de ação não vão sair muito satisfeitos, exceto por um ou outro momento. Faça um favor a si mesmo e ao invés de assistir a este aqui priorize um PRAY FOR DEATH ou REVENGE OF NINJA se querem ver o Kosugi na sua melhor forma, e reveja KICKBOXER, O GRANDE DRAGÃO BRANCO, DUPLO IMPACTO e etc… Este aqui pode esperar.

FÚRIA MORTAL (Out for Justice, 1991)

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O ponto principal que favorece OUT OF JUSTCE é ter um dos grandes mestres do cinema americano de ação conduzindo a bagaça. Estou falando do John Flynn, diretor subestimado e esquecido de filmaços como THE OUTFIT, ROLLING THUNDER, BEST SELLER e CONDENAÇÃO BRUTAL, autênticas aulas de cinema que devem valer muito mais que alguns semestres de uma faculdade de cinema em qualquer instituição no Brasil. Aqui, acredite ou não, é a mesma coisa. Pode-se considerar um filme menor do diretor, que já trabalhou com Robert Ryan, Robert Duvall, Tommy Lee Jones, James Woods e vários outros, mas o pulso firme para orquestrar alguns momentos são dignos de antologia.

Sendo assim, OUT OF JUSTICE é o tipo de filme que seria bom independente de quem fosse o protagonista, especialmente com a quantidade de bons astros de ação do período (fico pensando seria se fosse estrelado por um Bruce Willis, Stallone ou até um Wesley Snipes), mas calhou de ser o Seagal. E afirmo isso mesmo correndo o risco de alguém contestar: “mas outro ator não saberia lutar como ele”. Ok, mas quantos outros filmes de ação têm ótimas sequências de pancadaria sem que os atores tenham, sequer, noção de como aplicar um golpe? O Seagal como protagonista é apenas um brinde pra quem gosta de artes marciais.

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A simplicidade do enredo sem muita frescura também contribui para a grandeza da obra. Claro que aquelas mensagens de bom moço do Seagal prevalecem algumas vezes, jogando na cara como ele é um sujeito integro, ético e bondoso com os animais, mesmo interpretando um policial casca-grossa em busca de vingança. Mas nada que perturbe a paz de quem está assistindo (contanto que ele não deixe de matar os caras maus com tiro na cara, não vejo problema algum). Seagal interpreta o policial nova-iorquino, descendente de italianos, Gino Felino (putz, mas que nomezinho cretino) que após a morte de seu parceiro, Bobby, resolve fazer justiça com as próprias mãos (pedindo ao seu superior apenas uma espingarda e um tempinho pra realizar a tarefa).

O cenário da jornada é o submundo do Brooklyn. Gino cresceu no local, rodeado de gangsters, e conhece todo mundo, inclusive o assassino de seu parceiro. O facínora é Richie, interpretado por William Forsythe com a máxima personificação do mal. O sujeito é tão impulsivo, que logo após matar Bobby à sangue frio, atira na cabeça de uma senhora em pleno trânsito lotado, pelo simples motivo que o carro dela estava congestionando a via… E se para o sucesso de um bom filme ação um dos elementos é a criação de um bom vilão, então temos aqui um exemplar de primeira qualidade. E Forsythe desempenha seu ofício com extrema perfeição.

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Só que Richie não conta com a ajuda de ninguém nas ruas, a não ser alguns capangas. O sujeito é drogado, maluco e quer entrar para o crime organizado, mas com as atitudes que eu citei ali em cima e até a suposição da policia de que já esteja ligado ao crime organizado, faz com que a máfia queira sua cabeça numa bandeja. Ainda há a própria policia comum que quer prendê-lo pelos crimes, com toda burocracia que envolve os processos de prisão, algo que Gino não quer de jeito algum.

Gino possui, portanto, dois problemas em sua missão:
1° Problema: Encontrar Richie antes da máfia e da policia, para que possa aplicar sua vingança com paz e tranquilidade, mas Richie encontra-se desaparecido e é meio complicado encontrá-lo. Pelo menos para quem está procurando, porque o sujeito está sempre nos lugares mais óbvios.
2° Problema: O roteiro ainda acrescenta novas idéias para deixar a jornada de Gino mais complexos que um um filme do Tarkovsky. Gino cresceu no mesmo bairro de Richie e considera o pai deste seu segundo pai, e isso gera um conflito psicológico que bota o herói para esquentar os miolos, embora Steven Seagal, que é ator de alto nível, consiga manter a pose sem modificar a expressão (talvez algum músculo da parte inferior do queixo tenha contraído com mais força quando a mãe de Ritchie pede para não matar o seu filho).

Atuação por atuação, vamos ficar com o Forsythe que entra para uma galeria de vilões mais malvados e interessantes do cinema dos anos 90. Forsythe é um puta ator expressivo e até hoje rouba a cena em qualquer filme ou série que aparece, nem que seja pra fazer uma pontinha. Sem dúvida alguma seu Ritchie merece um destaque.

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Assim como o Seagal não chega nem aos pés de Fosythe em termos de construção dramática, pelo menos se sai bem nas cenas de luta. Ah, nisso o cara é demais! E o John Flynn, magistral, se aproveita disso de forma magnífica. Especialmente em duas cenas: a primeira é uma perseguição de carro em alta velocidade que desemboca dentro de um açougue onde Gino arrebenta uns cinco sujeitos utilizando objetos dos mais inusitados – dos quais deve ter aprendido no aprofundamento de sua arte marcial no Japão – uma linguiça, por exemplo. Outro momento espetacular é a da briga num bar com as mesas de sinuca. Simplesmente A MELHOR sequências de luta que o Seagal protagonizou em toda a sua filmografia.

Não precisa nem ser fã de carteirinha de Steven Seagal para curtir OUT OF JUSTICE. Se você aprecia um bom filme de ação policial, então este aqui já está qualificado. Com uma história simples, curta, mas muita diversão garantida, boa dose de ação e violência, Seagal distribuindo tiros, porradas e frases politicamente corretas, além de contar com direção de John Flynn, é indiscutivelmente um filme imperdível. Se tivesse que eleger o melhor filme de Steven Seagal, sem dúvida seria este aqui.

O REI DOS KICKBOXERS (The King of the Kickboxers, 1990)

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O diretor de OS IRMÃOS KICKBOXERS, Lucas Lowe, se reuniu novamente com o ator Loren Avedon para realizar um dos clássicos mais sensacionais da era dos kickboxer movies. Mesmo que vários dos ingredientes já tivessem surgidos em outros exemplares anteriormente, toda a configuração do cenário narrativo e dos habituais elementos básicos do gênero reunidos e reciclados aqui é justamente o que faz de O REI DOS KICKBOXERS o CIDADÃO KANE dos filmes de luta no cinema americano!

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Não sei direito por onde começar, mas vamos à trama, que é sobre esse policial vivido pelo Avedon, sempre metido em problemas, do tipo que não age segundo as regras e aproveita para demonstrar suas habilidades em artes marciais pra cima da bandidagem. Por esses motivos, o chefe de polícia quer se ver livre do sujeito por uns tempos e decide enviá-lo numa missão na Tailândia, um caso estranho que envolve snuff movies, no qual lutadores americanos são convencidos a participarem de filmes clandestinos, mas acabam realmente morrendo durante as filmagens. Especialmente quando enfrentam um certo lutador, ninguém menos que Billy Blanks!

O problema é que há dez anos Avedon já havia estado na Tailândia acompanhando seu irmão mais velho num torneiro de kickboxing. Logo após a luta em que sagrou-se campeão, o irmão acabou assassinado por Blanks seja lá por qual motivo. E agora nosso herói tem a chance de se vingar. Mas assim que retorna ao país, descobre que ainda não está pronto para um confronto com o gigante de ébano e passa por um desses inusitados treinamentos, com um inusitado mestre, que só faz sentido mesmo num filme desse tipo.

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A cena do assassinato do irmão logo no início é extremamente brutal, com o Blanks desferindo violentos chutes até o sujeito perder a vida, na base da porrada mesmo! Uma das melhores coisas do filme, obviamente, é Blanks como vilão. Não exagero quando digo que ele está no mesmo nível de um Tong Po ou Chong Li e é claro que isso é fundamental para o sucesso de O REI DOS KICKBOXERS. É o típico vilão que funciona por termos pleno desprezo na mesma medida em que demonstramos respeito por suas magníficas habilidades. E quando finalmente ocorre o confronto final entre Avedon e Blanks, num cenário exótico, um ringue de bambu, fica difícil ter esperanças pelo nosso herói.

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Além dessa dupla, Avedon e Blanks, temos uma pequena participação do Jerry Trimble, com direito à mullets, como traficante de drogas desmascarado pelo protagonista em sua demonstração de policial badass, e que também acaba numa sequência de luta alucinante. Aliás, todas as sequências de pancadaria conseguem manter o mesmo nível dos outros filmes da série NO RETREAT, NO SURRENDER, com coreografias elaboradas (do Corey Yuen, diretor dos dois primeiros filmes da série) e execução perfeita dos atores/lutadores. Para ter uma noção, as filmagens do climax demoraram duas semanas para serem finalizadas. Hoje, basta tremer a câmera, meter a tesoura na edição e pronto, já se dão por satisfeitos.

Como já havia dito em um dos textos anteriores, O REI DOS KICKBOXERS também faz parte da série NO RETREAT, NO SURRENDER. Em alguns países, foi lançado com o título KARATE TIGER 4, que é outra maneira pela qual a série é conhecida.

OS IRMÃOS KICKBOXERS (Blood Brothers, 1990)

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Também conhecido como NO RETREAT, NO SURRENDER 3 em alguns países. Não é tão espetacular quanto o segundo, mas é um veículo divertidíssimo que serve de vitrine para que Loren Avedon e Keith Vitali (os irmãos do título) demonstrem suas habilidades em artes marciais em sequências alucinantes de pancadaria! Até hoje me lembro quando eu era um moleque de oito ou nove anos pegando a fita da Top Tape na locadora com meu irmão mais novo. Passamos o fim de semana inteiro assistindo repetidas vezes este que foi o meu primeiro “kickboxer movie”.

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Na trama (que não possui ligação alguma com os outros filmes da série), os dois personagens não vão muito com a cara do outro. Avedon é um professor de kickboxer que dirige um fusca, enquanto Vitali ganha a vida como policial respeitado e bem sucedido, seguindo os passos de seu pai. Ambos lutam pra cacete! Para resumir o enredo, uma tragédia na família acontece e acaba sendo o motivo de reaproximação dos irmãos, que deixam as diferenças de lado e juntam forças para fazer exatamente aquilo que se espera neste tipo de filme, um espetáculo de chutes na cara.

Eu já havia elogiado o talento de Loren Avedon como lutador no último post, mas aqui ele se destaca também em alguns aspectos dramáticos. Não é que seja bom ator, suas limitações são óbvias. No entanto, contracenar com um sujeito como Vitali faz até o Murilo Benício parecer o Marlon Brando. Vitali manda bem nas cenas de porrada, mas não convence nem como entregador de pizza, imagine então fazendo um policial bad-ass lidando com situações pungentes. O humor involuntário é inevitável…

É claro que qualquer problema é compensado com a abundância de cenas de ação muito bem filmadas, com o ritmo acelerado e mão firme do diretor Lucas Lowe, substituindo Corey Yuen, que esteve à frente dos dois primeiro filmes. Lowe não chega no mesmo nível de Yuen, cujo cartel é respeitadíssimo, cheio de obras-primas do cinema de artes marciais, mas Lowe demonstra segurança no que faz. A sequência final, por exemplo, uma brutal pancadaria expressionista, me fez parar para pensar… por que o sujeito só possui apenas quatro filmes no currículo? Vai saber…

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O vilão de OS IRMÃOS KICKBOXERS é o cão chupando manga! Interpratado por um sujeito chamado Rion Hunter, ficou sempre marcado na minha memória pela sua cabeleira branca e, claro, a tal luta final, na qual enfrenta os irmãos sozinho e dá trabalho à beça! A coreografia do confronto final é excelente, apesar da imagem acelerada em alguns instantes e do tal Hunter ser constantemente substituído por um dublê de peruca… Mas não deixa de ser alucinante e digna dos melhores filmes de artes marciais orientais. Quem quiser conferir:

É ou não é uma beleza? OS IRMÃOS KICKBOXERS – e O REI DOS KICKBOXERS, que comentarei a seguir – são alguns bons exemplares que provam de maneira definitiva que os americanos também tinham competência para fazer cinema de artes marciais de alta qualidade. Pena que foram tão poucos a realmente chegar nesse nível.