A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS (1973)

Último filme da franquia clássica. Aqui a coisa dá uma derrapada, meio que despiroca… Num mau sentido.

A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS se passa no máximo poucas décadas depois de A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS. Nesse intervalo, a Terra foi dizimada por um holocausto nuclear, mas não vemos isso acontecer. Fuén! Uma decepção para os fãs que sempre quiseram ver como a estátua da liberdade foi parar naquele estado do primeiro filme… Os macacos evoluíram num tempo récorde: já falam e raciocínam normalmente, algo que deveria acontecer em milênios, e temos até uma raça de humanos mutantes pós-nucleares que vivem sob as ruínas de LA.

Mas a falta de lógica temporal é o menor dos problemas de A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS. A história é ruim, os personagens, com exceção de um ou outro, parecem cansados da própria série; tudo parece desenrolar às pressas, com um ritmo desconjuntado, acaba não tendo nada muito marcante… O clímax é o mais sem graça possível (tanto a batalha final entre humanos e macacos quanto o duelo de Caesar contra um desafeto em cima de uma árvore).

Na trama, Caesar (novamente Roddy McDowall) lidera uma pacífica comunidade mista de macacos e humanos, mas seu modo de vida está ameaçado tanto por dentro quanto por fora da comunidade. Não apenas o General Aldo (Claude Akins) e seu exército de gorilas estão conspirando para derrubar Caesar, mas o governador Kolp (Severn Darden), que lidera a tal raça de mutante, decide atacar o acampamento.

Caesar quer conhecer mais sobre seu passado, sobre seus pais, então resolve fazer uma jornada com MacDonald (Austin Stoker) – não o mesmo MacDonald do último filme, mas o irmão do personagem, porque Hari Rhodes não retornou para o seu papel – e um orangotango chamado Virgil (um dos poucos personagens que salva), até as ruínas de Los Angeles onde estão os arquivos gravados dos depoimentos de Cornelius e Zira lá do terceiro filme. O problema é que dão de cara com os mutantes que vivem lá e desencadeia uma guerra.

Isso é basicamente o que temos de interessante no enredo. O resto é pura embromação. A maior parte do filme é bastante pálida. Há uma cena na qual o filho de Caesar é assassinado pelo general Aldo e não senti absolutamente nada pelo moleque… O filme não constrói nada de interessante sobre o personagem. Não constrói nada também sobre as motivações para o conflito entre macacos e o que resta dos humanos.

Fica evidente logo de cara que a Fox já não parecia muito interessada na franquia (apesar de TODOS os filmes da série terem sido sucessos comerciais) e reduziu consideravelmente o orçamento. Os realizadores tiveram que suar para criar algo. A grande batalha do título se resume nuns gatos pinga… Quero dizer, macacos pingados atirando de um lado para outro contra uns humanos que avançam leeeeentamente de carros, motos e um ônibus escolar em direção à comunidade, tudo filmado sem tensão e emoção alguma. E olha que o diretor é o mesmo J. Lee Thompson do filme anterior, cuja batalha final é épica!

Enfim, um balde de água fria depois de revisitar os outros filmes e ser surpreendido positivamente… E o que é aquele final, com a estátua de Caesar escorrendo uma lágrima? Decepcionado com o capítulo final da série, talvez? Até eu quase chorei de tão constrangedor… Nem John Huston fantasiado de macaco salva alguma coisa. Um fim amargo para uma série que ainda me fascina.

A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS (1972)

Depois que Cornelius e Zira foram mortos em FUGA DO PLANETA DOS MACACOS e descobrimos que seu bebê (Milo no filme anterior, mas aqui chamado Caesar) está seguro no circo de Armando (Ricardo Montalban), a história avança para vinte anos depois, quando a catástrofe de escala mundial anunciada no último filme – e que é determinante para a evolução dos macacos na mitologia da série – já aconteceu.

Trata-se de uma praga, altamente contagiosa – trazida na espaçonave que Zira e Cornelius usaram para vir do futuro – exterminou toda a população de cães e gatos da terra. Os humanos eram imunes, mas os pobres pets foram varridos… E assim, os símios começaram a substituir os animais domésticos. No entanto, quando as pessoas perceberam o quão inteligentes e rápidos em aprender as coisas são os macacos, eles foram adquirindo certas funções na sociedade, com trabalho braçal, todos na cidade usam macacos como empregados nos mais variados tipos de negócio…

Mas o tratamento é aquela coisa, estão sempre acorrentados e caso se comportem mal, são espancados. Caesar, agora com vinte anos e interpretado por Roddy McDowall (que em dois dos filmes anteriores fez o pai, Cornelius), não suporta a crueldade contra os macacos e acidentalmente solta um grito de revolta no meio da multidão. O ato o torna perigoso para o governo, que ainda se lembra do que Zira e Cornelius disseram anos atrás sobre o futuro da humanidade.

Armando e Caesar fogem, mas o humano acredita que assumir a culpa e se entregar pode melhorar a situação. Assim o faz, mas a interrogação é intensa, com tecnologia que impede Armando de mentir, portanto ele comete suicídio para esconder o que sabe sobre Caesar.

Enquanto isso, o pobre macaco falante acaba escondido dentro de um centro de treinamento de símios e mais tarde se torna o animal de estimação do governador. Ao mesmo tempo, planeja não apenas vingança contra o que fizeram com Armando, mas também uma revolução da sua espécie contra os humanos.

Questões de política racial sempre girou em torno dos filmes da série d’O PLANETA DOS MACACOS, isso é óbvio. Mas em nenhum momento essas relações raciais foram tão explícitas quanto em A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS. A revolta dos macacos remete aqui aos motins de Watts; os personagens exibem pensamentos claros sobre a libertação racial; temos o papel do governador Breck (Don Murray), que é um racista abjeto; temos Caesar, cuja liberdade, por qualquer meio necessário, reflete os aspectos mais extremos do nacionalismo negro…

E no fim vemos a coisa acontecer, o ponto de virada de toda a mitologia da série, além de temos uma das melhores, quiçá a melhor, sequência de ação de toda a franquia. Uma invasão épica do exército de primatas, minimamente organizado, carregando armas brancas e de fogo, às instalações governamentais, eliminando qualquer humano, estraçalhando tudo o que não os representa. J. Lee Thompson é o diretor da vez, mestre do cinema físico, de ação clássica, e conduz o caos com uma energia impressionante e deflagradora.

Mas existem dois desfechos de A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS. A versão que foi exibida nos cinemas em 1972 é bastante esperançosa e positiva, com os macacos encontrando a liberdade por meio da luta armada, ao mesmo tempo em que também mostram a seus captores humanos uma clemência que nunca foi-lhes dada. Com Caesar basicamente dando aquele ponto de vista da esquerda moderada, de que a libertação é necessária, mas podemos fazê-lo sem violência?

No final, um dos membros bonzinhos do governo, MacDonald (Hari Rhodes), que ajudou Caesar em determinado momento, tenta convencê-lo a parar de levar sua revolução para um caminho de violência e Caesar está prestes dar o sinal para que seus gorilas espanquem Breck até a morte.

Num primeiro corte do filme, Caesar não lhe dá ouvidos; Breck é brutalmente assassinado pelos gorilas enquanto Caesar fica orgulhoso entre a fumaça de uma civilização que está queimando. É desolador, um aceno à natureza inescapável da violência e destruição, que acaba por estar na sintonia niilista do restante da série.

Mas o público de teste da época não curtiu muito. Ficaram horrorizados. Todo o discurso sobre a crueldade e destrutividade que reside na natureza humana dos filmes anteriores estava tudo bem… Explodir o planeta terra com uma bomba atômica? Sem problema! A execução brutal dos simpáticos protagonistas do filme anterior? Que mal há nisso? Agora, uma alegoria sobre o movimento dos direitos civis e negros, com a revolta numa escalada de violência contra o homem branco? Isso não, de jeito nenhum!

Bom, como não havia orçamento suficiente para refazer o final, por meio da edição e diálogos adicionais conseguiram mudar as coisas. Caesar está prestes a matar Breck, apesar dos protestos de MacDonald, quando de repente Lisa, a macaca namorada de Caesar grita “Não!” Ela é a primeira macaca a falar e usa sua voz a serviço da paz. E assim Caesar muda de ideia. É um final muito mais suave. Todos os filmes anteriores tiveram situações levadas para uma crise, e a lógica era a de que ninguém consegue lidar com essas crises. Pela primeira vez na série, a crise é evitada; a mudança é feita, mas sem recorrer ao extremismo (apesar de todo derramamento de sangue).

No entanto, no lançamento em blu-ray do filme há alguns anos, resolveram incluir uma versão “unrated” que possui o final do corte original, terminando com Caesar sinalizando para que os gorilas arrebentassem o governador. E foi nessa versão que revi o filme ontem. Não quero entrar em polêmicas, mas pessoalmente prefiro este final aqui…

E olha, de uma forma geral me surpreendi bastante com o filme. Roddy McDowall tem sua melhor performance na série. E a forma direta e rápida que as coisas acontecem por aqui e a intensidade do último ato são coisas que realmente me fascinam. É provável que A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS seja o meu favorito logo depois do clássico de 68. Agora é rever o quinto e último capítulo, A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS (73), pra ver como se sai hoje em dia…

FUGA DO PLANETA DOS MACACOS (1971)

Após o desfecho de DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS, não havia lá muita necessidade de continuar a franquia. Mas arrumaram um jeito de seguir em frente… O resultado não é apenas uma sequência BIZARRA, mas o que mais surpreende é o fato de que FUGA DO PLANETA DOS MACACOS é também muito bom!

Três chimpanzés, Cornelius (Roddy McDowall), Zira (Kim Hunter) e o Dr. Milo (não faço ideia), de alguma forma botam pra funcionar a nave afundada no lago no primeiro filme e voam para fora do planeta antes que a Terra seja explodida. Devido à enorme onda de choque, eles são enviados de volta no tempo até 1973.

A primeira metade de FUGA DO PLANETA DOS MACACOS é de uma leveza graciosa; Cornelius e Zira, os amados chimpanzés que co-estrelaram os dois filmes anteriores, são tratados como celebridades neste período onde macacos falantes é algo que não se vê todo dia. Com direito até a uma montagem divertida deles fazendo compras nas melhores lojas de Beverly Hills.

Mas quando o conselheiro científico do presidente do EUA, Dr. Hasslein (Eric Braeden), descobre que Zira está grávida e que eles vêm de um futuro onde os macacos dominam o homem, o sujeito decide que o bebê deve ser abortado e o casal submetido à procedimentos cirúrgicos para que não tenha mais a possibilidade de reprodução.

FUGA DO PLANETA DOS MACACOS acaba tendo o final mais sombrio e desagradável de toda a franquia (e isso quer dizer muita coisa, já que o filme anterior termina simplesmente com a Terra explodindo). No clímax, Cornelius, Zira e o recém-nascido (que deram o nome de Milo, em homenagem ao terceiro chimpanzé que mencionei no início, mas que morre ainda no começo do filme) se escondem em um cargueiro abandonado. Hasslein os encontra e não perde tempo pra atirar. Primeiro nas costas de Zira e depois no bebê chimpanzé.

O pacífico Cornelius, em um acesso de raiva, atira em Hasslein antes de ser morto a tiros por policiais. Cornelius cai do convés superior do barco, morto, enquanto Zira rasteja até o bebê Milo e o joga no mar.

Pesadíssimo…

Há um momento ainda no final que alivia um pouco o aspecto niilista – Zira trocou seu bebê quando estava se escondendo no circo administrado por Armando, vivido por Ricardo Montalban. O verdadeiro bebê Milo está seguro e FUGA DO PLANETA DOS MACACOS termina com o pequeno chimpanzé dizendo sua primeira palavra: “Mamãe”.

FUGA DO PLANETA DOS MACACOS não é apenas devastador porque todos os personagens que somos simpáticos – e que serviam até de alívio cômico nos filmes anteriores – são brutalmente executados a tiros. Mas também porque, como no anterior, o filme julga que nunca seremos uma espécie melhor e é impossível manter as convicções morais diante de determinadas situações. Até Cornelius, um dedicado ativista pela paz que teve problemas por ajudar Taylor (Charlton Heston) a fugir das autoridades no clássico de 68, acaba se tornando um assassino no final.

Desta vez a direção é de Don Taylor, sujeito cuja carreira esteve mais ligada à televisão e no cinema nunca passou de um diretor bate-estaca de estúdio, sem muita personalidade. Outro filme dele que já comentei por aqui foi A PROFECIA II. Mas, para o tipo de filme que é FUGA DO PLANETA DOS MACACOS o sujeito conduz bem as coisas.

E apesar de ser um bom capítulo para a série, ainda prefiro o segundo filme, com todo seu senso de aventura e, claro, de ridículo também, que deixa tudo mais divertido. O primeiro, obviamente, continua imbatível. Agora é rever o quarto, A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS (72), pra ver como se sai hoje em dia…

DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS (1970)

DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS (Beneath the Planet of the Apes) continua praticamente após a revelação icônica do primeiro filme. Taylor (Charlton Heston) e sua amiguinha, Nova (Linda Harrison), viajam para a Zona Proibida e o sujeito de alguma forma desaparece. Enquanto isso, outro astronauta, Brent (James Franciscus), pousa no planeta para encontrar Taylor. Mais tarde, ele aprenderá sobre a diferença entre os pacíficos chimpanzés – especialmente na figura de Cornelius (Roddy McDowall, no primeiro filme e David Watson neste segundo) e Zira (Kim Hunter) – e os violentos gorilas; encontrará as ruínas subterrâneas da cidade de Nova York (recriadas de forma impressionante); e vai se deparar com um grupo de mutantes que usa seus poderes psíquicos para controlar seus oponentes.

Na trama, acompanhamos essa jornada de Brent. Enquanto os gorilas estão decididos a irem à guerra com quem quer que viva na Zona Proibida. Há uma cena que faz referência à contracultura dos anos 60, com os pacíficos chimpanzés protestando contra os planos dos gorilas.

O filme também faz uma sátira interessante sobre a glorificação da guerra, por conta dos mutantes que adoram, literalmente, uma bomba nuclear chamada Alpha-Omega, com força para destruir o planeta inteiro. A sequência do culto à bomba, com palavras de adoração e cânticos ao artefato é tão ridícula, mas tão ridícula, que fica impossível pra mim não achar divertido.

O clímax de DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS ocorre nas ruínas da Catedral de São Patrício; depois de finalmente conseguirem atravessar as armadilhas ilusórias que sempre os afastaram, os gorilas furiosos simplesmente matam todos os mutantes que encontram pela frente.

Brent consegue encontrar Taylor e ambos acabam envolvidos no fogo cruzado. Nos últimos instantes, Brent leva uma saraivada de balas dos gorilas e Taylor… Bom, Charlton Heston teve uma única exigência quando retornou para esta sequência, a de que este seria o seu último filme na série, não queria saber de voltar para mais filmes de PLANETA DOS MACACOS. E os realizadores atenderam seu desejo da melhor maneira possível: no meio do tiroteio, Taylor pede ao Dr. Zaius (novamente interpretado por Maurice Evans) para que acabe com o derramamento de sangue, mas o orangotango se recusa, dizendo que o homem é responsável pela destruição de si mesmo. Em retaliação, o moribundo Taylor aperta o botão do Juízo Final e pimba, DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS termina com a narração:

Em uma das incontáveis bilhões de galáxias no universo, encontra-se uma estrela de tamanho médio, e um de seus satélites, um planeta verde e insignificante, agora está morto.

Mais uma vez, temos aquele clima de niilismo instaurado. Não há esperança e a destruição é simplesmente inevitável. Vindo em um momento em que o mundo estava em uma situação de crise constante – final dos anos 60, início dos 70 – DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS não oferece nenhum conforto. Também não é papel do cinema oferecer esse tipo de coisa, apesar de Hollywood ser mais inclinada à finais otimistas. O interessante da série de filmes d’O PLANETA DOS MACACOS é que a coisa é exatamente o oposto disso. Pelo menos os dois primeiros…

Desta vez, a direção ficou sob a responsa de Ted Post. Bom artesão, diretor do tipo “pistoleiro de aluguel”: atira bem, mas não deixa nenhum rastro. Mas fez um dos melhores filmes da série Dirty Harry, MAGNUM 44. As cenas de ação se destacam – a fuga de Brent lutando contra um gorila em cima de uma carruagem em movimento; o sangrento confronto de Brent com Taylor numa cela, quando ambos estão sendo controlados mentalmente pelos mutantes; todo o caos final… Pra esse tipo de coisa Post não decepciona.

Mas no fim das contas não é tão bom quanto ao original. Difícil se igualar, especialmente com a boa dose de momentos ridículos envolvendo os mutantes telepatas, mas ainda assim é bem divertido. Vou rever o terceiro filme, FUGA DO PLANETA DOS MACACOS (71), pra ver como se sai hoje em dia…

O PLANETA DOS MACACOS (1968)

Deve ser a milésima vez que assisto ao clássico O PLANETA DOS MACACOS (Planet of Apes) original, de Franklin J. Schaffner. Tinha gravado da TV num VHS nos anos 90 e quando era adolescente não me cansava de rever este e as continuações… Até hoje, se bobear, este aqui ainda é um dos meus sci-fi de cabeceira. Mas já fazia uns bons quinze anos que não revia… Continua uma belezura. As continuações eu não sei. Precisava rever pra lembrar.

Mas este primeiro foi considerado um dos filmes de ficção científica mais fortes e influentes de seu tempo, um fenômeno que além de desencadear as quatro sequências, gerou também uma série de TV, desenhos animados, toneladas de memorabilia, parodiado até pelos Trapalhões no clássico O TRAPALHÃO NO PLANALTO DOS MACACOS, de 76, dirigido pelo J. B. Tanko.

O filme foi baseado em um romance francês chamado La Planète des Singes, de Pierre Boulle, e produzido como o projeto de estimação Arthur P. Jacobs, que lutou durante anos para que o filme pudesse existir. Acabou produzindo todos os 5 filmes da série original. Para o roteiro, foi contratado o criador de The Twilight Zone, Rod Serling, e, como era seu modo habitual de adaptação, mudou muitos elementos do livro, incluindo a adição do icônico final… E se for parar pra pensar, até que as coisas meio que se desenrolam como um episódio prolongado de The Twilight Zone

A história começa no ano de 1973. Uma tripulação de astronautas liderada pelo Coronel George Taylor (Charlton Heston) cai em um planeta remoto depois de ficar em hipersono por 2.000 anos em uma expedição espacial. Uma vez fora da nave, os membros restantes da tripulação eventualmente tropeçam em uma sociedade na qual a evolução aparentemente se inverteu: os macacos são altamente inteligentes, pensam, falam, têm até sua própria hierarquia social. Os macacos assumiram o papel da espécie dominante, enquanto os humanos são “animais” irracionais.

Subjugado e temido por seus captores por ser o primeiro humano com o poder da fala, Taylor luta para escapar com a ajuda de dois simpáticos cientistas chimpanzés, Cornelius (Roddy McDowall) e Zira (Kim Hunter). Sua luta leva a um dos finais mais impactantes da história do cinema.

O PLANETA DOS MACACOS acaba sendo uma espécie de reflexo da turbulência que foi os anos 60 em vários sentidos. O filme ataca e satiriza várias questões dominantes na consciência pública – guerra fria, direitos civis, etc. Embora a alegoria pareça simplista hoje, ainda não prejudica o poder do filme.

Grande parte do sucesso de O PLANETA DOS MACACOS pode ser atribuída também ao prazer que traz aos olhos (os primeiros trinta minutos de filme são um espetáculo Fordiano das paisagens do deserto, dignas dos mais belos westerns), os elementos visuais, o surpreendente trabalho de design de produção, os cenários, a maquiagem de John Chambers, que muito mereceu seu prêmio especial da academia. Embora primitiva para os padrões atuais, a maquiagem dos macacos foi uma conquista incrível de sua época. A direção de Schaffner é bem segura e até ousada em alguns momentos, especialmente em sequências de ação, com bons movimentos e trabalho com os ângulos.

Os elogios também podem ir para algumas performances notáveis ​​dos atores-macacos. McDowall e Hunter brilham em seus aparelhos faciais, assim como Maurice Evans como um dos melhores vilões da ficção científica do período, Dr. Zaius. Já Charlton Heston está magistral, engole o cenário com sua presença física, com toda sua desenvoltura, realmente dá tudo de si. É uma dos meus desempenhos favoritos do homem…

Vale destacar também a presença de Bob Gunner (que é quase um sósia do Sean Connery) e Jeff Burton, os astronautas que sobrevivem na expedição, mas que não duram muito tempo no planeta. Dianne Stanley, a astronauta que morre ainda no hipersono só faz praticamente uma ponta… Seria interessante ver como seria se uma mulher tivesse a possibilidade de participar da aventura dos astronautas nos primeiros 30 minutos de filme. Mas acharam mais fácil eliminá-la logo de cara até porque há a cena da cachoeira na qual os atores ficam nus para nadar e acho que em 1967, 68, um filme comercial de ficção científica ainda não estava muito preparado para mostrar uma mulher nadando sem roupa com seus companheiros de trabalho… O que é uma pena. Mas ainda do lado feminino, destacamos a presença da Linda Harrison, como uma das nativas humanas e que voltaria no segundo filme.

Ainda sobre o final, com o personagem de Heston se deparando com a Estátua da Liberdade em uma praia deserta devorada pelo tempo, por mais óbvia a metáfora, acaba sendo dessas imagens marcantes que nunca vai sair do imaginário cinéfilo. Tão copiada e parodiada, até hoje impressiona. Imaginem então o público da época, que ainda vivia com o temor contínuo de uma guerra que envolvessem bombas nucleares. O filme acabou reverenciado e estudado por gerações por sua mensagem atemporal sobre a crueldade e destrutividade que reside na natureza humana. E esse final de O PLANETA DOS MACACOS sintetiza tudo isso.

Vou rever o segundo filme, DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS (70), pra ver como se sai hoje em dia…

THE MATRIX REVOLUTIONS (2003)

Minhas impressões da revisão de THE MATRIX REVOLUTIONS são meio malucas. Se por um lado eu consigo identificar tudo que desagradou os fãs na época (eu incluso), por outro já não me importei com nada e simplesmente embarquei nessa tragédia shakespeareana misturada com uma viagem pseudo-cyber-filosófica-espiritual cheia de ação épica… Achei um filme fascinante.

O grande problema pra mim desta vez foi bem diferente do que senti quando vi THE MATRIX REVOLUTIONS no cinema há quase duas décadas. Eu só queria que aquela bobagem toda acabasse o mais rápido possível…

Nesta revisão, não sei explicar porquê, acontece justamente o contrário. Eu queria mais e mais, eu queria uma série pra TV com vinte temporadas explorando a riqueza visual/espiritual/filosófica de THE MATRIX, eu simplesmente fiquei maravilhado e queria mais!

E, bom, as Wachowski se arriscaram pra caramba pra concluir essa bagaça. THE MATRIX tava no coração da moçada, quase todo mundo tinha curtido, tinha sua importância dentro dos blockbusters hollywoodianos, então este terceiro filme era muito aguardado. E elas vão lá e, PIMBA! não entregam nada daquilo que o público queria! Hahaha!

Convenhamos que o encerramento de uma série dessa magnitude nunca vai agradar todo mundo mesmo que tivessem feito “o básico”.

Mas THE MATRIX REVOLUTIONS acabou sendo uma aula de como subverter as expectativas do público e até mesmo de narrativa: por exemplo, colocando a tão aguardada batalha de Zion, dos homens contra as máquinas, no meio do filme, sem sequer contar com a presença do protagonista. Forçando toda a solução das suas questões filosóficas entregues numa única luta de tirar o fôlego entre Neo (Keanu Reeves) e o Agente Smith (Hugo Weaving).

A batalha de Zion é um esplendor que mal tenho palavras para descrever. Não lembro muito o que senti há quase vinte anos quando vi pela primeira vez, na tela grande, mas como não curti na época, é bem capaz de não ter achado grandes coisas.

Hoje foi bem diferente. São praticamente 30 minutos de espetáculo sensorial de ação de tirar o fôlego, que tem um peso poderosíssimo e uma sensação insuportável de ameaça, realmente convence – mesmo que por um momento – de que tudo está realmente fodido e que a humanidade vai ser extinta.

As irmãs Wachowski têm uma excelente percepção de onde colocar a câmera na ação. Os enquadramento nunca são óbvios, as figuras são milimetricamente posicionadas no quadro, um pouco distorcidas para ganhar movimento, apenas o suficiente para proporcionar um prazer visual que não é comum. A edição também é sólida: em nenhum momento a geografia é confusa ou incoerente.

E as cenas de artes marciais são compreensíveis. O que nos leva à luta entre Neo e Smith, toda belíssimamente construída, com quadros que remetem a um duelo de faroeste. Começa com os dois sujeitos em extremos opostos de uma longa rua, enquanto gotas de chuva os encharcam, entre duas filas de cópias do Agente Smith. É sublime.

Neo e Smith trocam algumas palavras antes de dar tudo de si numa briga de proporções épicas que carrega aquele aroma de inevitabilidade, como diria o Agente Smith.

Há uma outra sequência de ação que é menos lembrada do que esses dois mastodontes que citei aí em cima, mas que ainda impressionam: a que Morpheus (Laurence Fishburne), Trinity (Carrie-Ann Moss) e Seraph (Collin Chow) trocam tiros com uns caras que literalmente andam no teto do cenário… É uma dessas pequenas joias dentro do filme que também provam a maestria das Wachowski na condução da ação.

Mas uma das coisas mais importantes pra mim por aqui é como a coisa se resolve dentro de sua própria lógica filosófica de boteco e religiosidade de fundo de quintal (é quase uma versão sci-fi de passagens bíblicas), deixando um monte de ponta solta, um bocado de perguntas sem resposta, tudo tão aberto, pra desespero dos fãs.

Mas que ao mesmo tempo toca no fundamental: o nível de sacrifício exigido de seus personagens em algo reconhecidamente humano, fazendo-nos sentir o custo mortal por trás das figuras e feitos que se tornam lendas. Se THE MATRIX RELOADED rejeita os mitos que alimentamos, THE MATRIX REVOLUTIONS nos mostra como novos mitos são criados.

Enfim, depois dessa revisão, agradeço às Wachowski por não terem realizado algo pra agradar os fãs (não é mesmo, Disney?).

Passei tempo demais sem revisitar esse universo, deveria ter feito antes e mais vezes e redescoberto essa maravilha que é toda a saga THE MATRIX, especialmente se olharmos agora e percebermos que não tivemos nada remotamente parecido no gênero como essa trilogia desde então em Hollywood.

Que me perdoem os fãs da Marvel Cinematic Universe, mas todos os seus trocentos filmes juntos não dão nem pro cheiro que é a trilogia THE MATRIX.

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Quero saber as impressões de vocês. O que meus cinco leitores acham da trilogia THE MATRIX? Não deixem de comentar na caixa de comentários aqui do blog, ou no facebook, Twitter, Instagram… Bora papear.

THE MATRIX RELOADED (2003)

Pois, inspirado pelo último post, resolvi rever os outros dois exemplares da trilogia THE MATRIX de uma vez. Eu já esperava gostar de THE MATRIX RELOADED, novamente dirigido pelas irmãs Wachowski, até porque tinha lembranças vívidas de algumas sequências de ação e que confirmaram o nível de qualidade nessa revisão (uma em específico é uma obra-prima).

Então, acabou que não foi nenhuma surpresa me deparar com um filme tão maneiro. E obviamente a ação é importate… Crucial, eu diria – como verão à seguir – mas me interessou bastante tudo aquilo que o filme se propõe como continuação.

Na verdade, THE MATRIX RELOADED é bem funcional como capítulo intermediário e só faz sentido acompanhado dos outros dois. É quase impossível entender alguma coisa sem ver o seu antecessor e conferir logo em seguida o encerramento da bagaça, THE MATRIX REVOLUTIONS (que foi lançado no mesmo ano, alguns meses só de diferença, em 2003).

Não que a trama seja tão complexa ou difícil de acompanhar, mas toda a gama filosófica de mesa de bar do primeiro filme precisa estar na mente para perceber os seus desdobramentos por aqui. Nada muito complicado, mas que torna-se incompreensível se falta a parte inicial e fica incompleta sem o desfecho.

Então, pra que que serve MATRIX RELOADED?

Olha, eu poderia até dar uma resposta mais detalhada, explicar que serve pra expandir o universo do primeiro filme, explorar os personagens e até mesmo se aprofundar nos seus conceitos que agora transcendem as questões cyber filosóficas para se tornar algo mais energia-espiritual-budista e blá blá blá… Mas não.

A única coisa que eu consigo pensar como razão deste filme existir é pelo espetáculo sensorial do segmento de ação “da rodovia”. Sabem qual é? Sabem do que tô falando?

Tudo que rodeia esses momentos frenéticos, tudo que vem antes ou depois dessa pancadria, perseguições, tiros e explosões que são a matéria prima dessa sequência, só serve de pretexto para esse segmento em específico acontecer diante dos nossos olhos. Não tenho dúvida alguma de que é uma das melhores sequências de ação do século.

Então minha resposta é essa. Pra que serve MATRIX RELOADED? Pra isso:

Toda essa construção, essa sucessão de acontecimentos, é simplesmente do caralho! Eu perdi a noção do tempo, mas devem ser uns quinze minutos de ação frenética ininterrupta.

Começa com um kung fu de Neo (Keanu Reeves) contra uns sujeitos numa espécie de chateau, desce pra uma garagem com os Gêmeos que viram fumaça, dando um trabalho do cão pra Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie-Ann Moss) e o barraco acaba indo parar numa perseguição alucinante de carros, caminhões, viaturas de polícia, moto na contra-mão, com gêmeos-fumaça e os agentes da Matrix (aqueles caras fodões de terno e gravata do primeiro filme) perseguindo Morpheus, Trinity e um tal chaveiro numa rodovia de alta velocidade lotada de veículos.

A coisa termina quase num orgasmo com uma luta entre Morpheus e um dos agentes (vivido por ninguém menos que o grande Daniel Bernhardt, o sub-Van Damme dos anos 90, protagonista das continuações de O GRANDE DRAGÃO BRANCO e o petardo bad movie O GRANDE DRAGÃO DO FUTURO) em cima de um caminhão em movimento… Ufa! É o fino da grosseria!

Tudo lindamente bem filmado e coreografado pelas Wachowski. E os efeitos especiais até hoje impressionam… Honestamente, é essa sequência que faz valer o filme. Eu não queria mais saber das armações políticas em Zion, do ataque das máquinas no “mundo real”, do romance entre Neo e Trinity, se o Oráculo tava certa ou errada, ou pra que caralho serve o tal chaveiro. Eu queria simplesmente viver naquela sequência de ação por, sei lá, mais duas horas… Um clássico.

Sobre o restante de THE MATRIX RELOADED, é tudo o que se pode esperar de uma continuação para uma obra tão pop e cultuada do cinema da virada do milênio. Uma aventura de ficção-científica à altura de seu antecessor – apesar do fator novidade não existir mais aqui – mas que exige atenção do espectador e entretém com categoria.

Na trama, finalmente vemos Zion, a tal cidade do mundo real – e que rola umas raves hippies muito loucas sem qualquer motivo, a não ser mostrar corpos suados e com pouca roupa em movimento, ao som do batidão, o que pra mim tá bom…

Ficamos sabendo que as máquinas estão avançando em direção à cidade, cada vez mais perto de aniquilar os últimos 250 mil homens, mulheres e crianças da Terra, e é praticamente inevitável o confronto homem vs máquina.

A turminha Morpheus, Neo, Trinity e Link (Harold Perrineau) chegam na cidade. Personagens vão se apresentando, se reencontrando… O ritmo do filme é bem lento nesse início, com todas essas informações sendo lapidadas, com direito até a “reuniões de conselho” onde discute-se alguma coisa que parece importante (estilo Guerra Nas Estrelas). Rola até um Neo & Trinity fazendo saliências

Não sabemos ainda como Neo vai salvar a humanidade. Nem ele, na verdade, mas continua sua jornada de descobertas com o apoio de Morpheus e Trinity. Talvez a grande revelação do filme aconteça na sequência que Neo encontra o Arquiteto (Helmut Bakaitis) e descobre-se a existência de outros “Neo’s” e que ele na real não tem escolha alguma, a não ser seguir o que lhe foi determinado desde o princípio pelas máquinas.

Seu destino é jogar um jogo dentro dos termos já estabelecidos, o que é uma baita quebra de expectativa do que a rapaziada almejava pras continuações considerando o final do primeiro filme. Motivo pra ter deixado muita gente puta na época, o que já prova que foi a escolha certa das Wachowski.

Temos uns outros personagens novos, Jada Pinkett-Smith, Monica Belucci e Lambert Wilson, como Merovingian, importante pra trama. O Chaveiro também é crucial – mas que no fim das contas só serve mesmo para ser jogado de um lado para o outro na tal épica sequencia de ação.

Mas dessa nova galeria de figuras, os melhores pra mim são os tais Gêmeos, capangas do Merovingian, que tem por trás tem aquele conceito incrível de se transformarem em fumaça, em fantasmas, sei lá… Só sei que é massa!

Outro ponto a destacar é a presença de Hugo Weaving, o agente Smith, que ressurge com novos propósitos após sua “libertação” no final do primeiro filme (à princípio imagina-se que ele foi destruído por Neo). No entanto, só vamos entender totalmente seu arco em THE MATRIX REVOLUTION. Aqui em RELOADED sua participação ficou marcada pela sequência de pancadaria entre Neo e múltiplos Agentes Smith.

É outro momento de ação bem legal que até nessa revisão me surpreendeu, especialmente enquanto vemos atores e dublês, de carne e osso, atuando e encenando as coreografias. Quando entram em cena os bonecos de CGI rodopiando a coisa fica fake demais, parece jogo de Playstation 2, envelheceu mal pra caralho… Mas ainda gosto bastante, acho que faz parte do charme que essa cena possui.

É tudo muito divertido, barulhento e muito bem feito, até para os padrões atuais de cinema espetáculo de sci-fi/ação. Muito melhor e mais autoral, por exemplo, que qualquer filme da Marvel feito nos últimos quinze anos.

Foi realmente uma revisão proveitosa. Algum momento mais lento aqui, outro mais chato ali, especialmente no primeiro terço do filme. As cenas em Zion se demorassem mais um pouquinho iam me perder… Mas uma vez que a intensidade do ritmo aumenta e a ação entra pra valer, THE MATRIX REALOADED cresce muito. Um filmaço.

Em breve comento o que achei de THE MATRIX REVOLUTION. Vou deixar no suspense…

★ ★ ★ ★


E vocês? Há quanto tempo não assistem à trilogia? E o quais as suas impressões sobre a série da primeira vez que viram e nas revisões? Deixem aí uns comentários pra eu saber.

THE MATRIX (1999)

Escrevi esse textinho no início do ano passado, em 2019, exatamente vinte anos após o lançamento de THE MATRIX, para o extinto Action News. A minha intenção era rever toda a trilogia, como podem perceber no final do post… Como na época acabei revendo apenas este primeiro, vou republicar aqui no blog pra ver se animo finalmente revisitar os outros dois. Até porque um quarto filme vem aí…

Primeiro, é preciso ter consciência de que já se passaram vinte anos que THE MATRIX foi lançado e se tornou um fenômeno pop cultural, celebrado como um filme inovador em vários aspectos – revolucionário em termos de efeitos especiais e ação, e carregado de filosofia pós-moderna cibernética e blá, blá, blá. Mas e hoje? Como é ver THE MATRIX hoje? Muita coisa mudou de lá pra cá. O mundo vivia às vésperas da virada do milênio, a era da informática se iniciava, tudo o que apresentava em termos de comunicação e internet parecia tão distante da realidade; eu era um adolescente que peguei o VHS numa locadora e assisti, no mínimo, nove vezes antes de devolver rebobinado… Até as diretoras do filme, as irmãs Wachowski, ainda eram chamadas de irmãos Wachowski naquela altura… Sim, muita coisa mudou.

Resolvi encarar o filme de novo. Hoje. E se tem algo que NÃO muda é o fato de THE MATRIX ainda manter sua força em certos quesitos: alguns conceitos premonitórios, o visual cyberpunk que parece uma novela de William Gibson ganhando vida, e o fato de ser um cânone do cinema de ação na virada do século. Não dá pra conversar sobre cinema de ação do período sem que alguém cite Neo (Keanu Reeves) desviando de balas, com a câmera girando em slow motion, que ficou conhecido como “bullet time”, um tipo de cena que foi abusada à exaustão nos anos seguintes, mas que aqui ainda impressionava, era novidade; ou Neo encarando o agente Smith (Hugo Weaving) num metrô abandonado; Salvando Trinity (Carrie-Ann Moss) de um helicóptero em queda; ou enfrentando Morpheus (Laurence Fishburne) num treinamento de Kung Fu (cujo coreografo das cenas de luta foi o lendário Yuen Woo-ping)…

Lembro que na época era um filme considerado difícil de entender entre a molecada que tentava encarar a jornada do hacker Neo com mais prudência, prestando atenção no seu conceito filosófico. E toda a trama que envolve um mundo real e outro virtual, questões de livre arbítrio e identidade do indivíduo, e até um elemento religioso, com a concepção do “escolhido”, que volta para salvar o mundo, bagunçava mesmo a cabeça de um mancebo no final dos anos noventa que mal tinha entrado na internet na vida e só queria ver uns tiros, porrada e bomba. A trama nem era tão original assim, e depois foram se revelando vários filmes anteriores que tinham premissas similares.

É aquilo, THE MATRIX é a definição perfeita do que Hollywood costuma promover como algo “novo”, mas que acaba sempre sendo mais do mesmo… só que diferente.  Quem já tinha assistido na época filmes como EXISTENZ, do Cronenberg, DARK CITY, do Proyas, e O 13º ANDAR não deve ter visto nenhuma novidade por aqui, exceto a ação eletrizante, numa intensidade de encher os olhos, e que realmente tinha uma proposta inventiva. Mas era o tipo de filme que, de certa forma, nos levava a refletir, a fazer as perguntas sobre questões da vida sem conseguir obter respostas muito concretas.

Mas o que realmente encantava e, curiosamente, ainda encanta nessa revisão, é como THE MATRIX é divertido pra cacete! Quero dizer, se tu não tá a fim de ficar esquentando os miolos com os elementos filosóficos, ao menos temos aqui uma história cheia de momentos que te prendem na cadeira sem tirar os olhos da tela. Ou, basicamente, temos Keanu Reeves lutando, correndo, pulando, atirando, etc, por duas horas. “Eu sei kung-fu.” Esse tipo de coisa nunca envelhece. E obviamente é sempre importante destacar os efeitos especiais seminais, que realmente surpreendiam na época. Mesmo que em alguns momentos tenham ficado datados, mas faz parte. Tudo somado, THE MATRIX é um filme de ação sci-fi inteligente, com uma filosofia de boteco que tem seu charme. É frenético, bem dirigido, com momentos e personagens icônicos que ainda fascinam, um visual interessante, enfim, continua incrível.

Depois de THE MATRIX, as Wachowski criaram muito barulho com a expansão do universo do filme. Vieram as animações compiladas em ANIMATRIX e terminou numa das trilogias mais célebres da primeira metade dos anos 2000’s. Para alguns. Extremamente decepcionante para outros… Eu incluso. Até tenho boas memórias de RELOAD. No entanto, REVOLUTIONS era simplesmente intragável. O legal é que quase tudo desse período revelou-se bons filmes em revisões recentes. E é gratificante quando isso acontece, adoro mudar de opinião e descobrir maravilhas de coisas que eu detestava. Por isso vou rever o restante da trilogia. Volto pra falar se melhoraram com o tempo ou se ainda são as porcarias que tenho na memória…

★ ★ ★ ★


E termino esse post com essa imagem maravilhosa das filmagens de THE MATRIX 4, que poderiamos ver mais cedo, mas graças à pandemia só será lançado em 2022. A Lana Wachowski parece feliz em dirigir mais um capítulo dessa saga…

STALKER (1979); CPC UMES FILMES

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STALKER, de Andrei Tarkovsky, foi o lançamento de fevereiro em DVD e Blu-Ray da CPC UMES Filmes. Por problemas técnicos, só pude rever o filme em DVD, o que não deixa de ser uma uma dessas experiências transcedentais que o cinema de Tarkovsky proporciona a cada contato com seus trabalhos seja lá em qual formato for. Em especial STALKER, que pra mim é a obra-prima do homem. Produzido pelo Mosfilm e vagamente baseado no romance de ficção científica Roadside Picnic, de 1972, escrito pelos irmãos Arkady e Boris Strugatsky (que também ficaram responsáveis pelo roteiro), STALKER é um labirinto metafórico entre uma jornada do imaginário sci-fi e uma parábola espiritual sobre medos, impulsos paradoxais, esperança e crença – em Deus? em si mesmo?

Filmado em grande parte em torno de duas usinas hidrelétricas abandonadas e de uma antiga fábrica de produtos químicos nos terrenos pós-industriais de Tallinn, na Estônia (e que ao que se supõe foi onde o diretor “pegou” o câncer que o matou menos de uma década depois), STALKER descreve uma expedição pelas profundezas da ZONA, uma região proibida em torno de uma cidade sem nome, onde tempo, espaço e realidade mudam constantemente. Onde o menor desvio do caminho pode ser fatal. E onde, em seu coração, há uma sala misteriosa supostamente capaz de tornar realidade os desejos mais profundos do homem. Pensa-se que é o subproduto de uma civilização alienígena ou de um asteroide que caiu no local algumas décadas antes. A ZONA foi selada pelo governo temeroso, e o conhecimento de seus poderes suprimidos das massas. E os únicos indivíduos que sabem se guiar por entre os segredos e os perigos ocultos da ZONA são conhecidos como Stalker.

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Os mais recentes clientes do Stalker (Alexander Kaidanovsky) que vamos acompanhar por essa jornada são um Escritor (Anatoli Solonitsyn) e um Professor (Nikolai Grinko), que têm razões diferentes, mas igualmente obsessivas, para arriscar suas vidas em busca pela iluminação na tal sala dos desejos. Mas a jornada física através da ZONA reflete a viagem psicológica interna desse Escritor, que é um sonhador trágico, do Professor, cético e racional, e até do Stalker, enquanto lutam com seus tormentos pessoais, angústias existenciais, visões de mundo divergentes um do outro e na possiblidade de tudo não se passar de uma balela…

Nas mãos de Tarkovsky, o enredo linear de STALKER se transforma numa estrutura complexa de imagens carregadas de simbolismos, paisagens atmosféricas assustadoras e diálogos filosóficos, culturais, sociais e políticos provocadores. O visual onírico e a qualidade sobrenatural que permeiam o filme são realizadas através de uma integração completa de um trabalho de câmera, som, cores… É interesante como o mundo fora da ZONA é filmado em um tom sépia que, mesmo representando um tempo futuro, remete a gravuras, fotografias de épocas ou xilogravuras, evocando assim a idéia de uma sociedade enraizada no passado.

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Em contraste, a ZONA é mostrada em cores saturadas, simbolizando a emergência dos três viajantes em um espaço desconhecido, potencialmente libertador e diametralmente oposto àquele de onde saíram. De vez em quando, Tarkovsky brinca com os dois ambientes distintos, de acordo com a ambiguidade geral da narrativa, alternando as tonalidades durante uma sequência de sonho dentro da ZONA e, posteriormente, quando o Stalker se reúne com sua esposa e filha, já no final do filme, num dos desfechos mais poderosos que eu já vi.

Para quem já está familiarizado com o trabalho do diretor, aqui não vai ter nenhuma surpresa: loooongas e leeeentas tomadas e movimentos sutis de câmera, rejeitando totalmente a ideia de uma montagem mais dinâmica. E é curioso como o estilo do diretor acaba se tornando elemento essencial de STALKER, prendendo o olhar do espectador a cada detalhe, três horas de trabalho de imersão quase sobrenatural para dentro dos mistérios da ZONA.

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Curiosa também como foi a recepção do filme na época em relação a lentidão característica do diretor. Acho que por se tratar de um sci-fi, esperavam que Tarkovsky fizesse algo parecido com STAR WARS, sei lá… E Tarkovsky cagando pra isso. Após o lançamento de STALKER, funcionários do Goskino, um grupo governamental também conhecido como Comitê Estadual de Cinematografia, criticaram o filme pelo seu ritmo. E ao ser informado de que STALKER deveria ser mais rápido e dinâmico, Tarkovsky ironizou: “O filme precisa ser mais lento e sem graça no início, para que os espectadores que entraram no cinema errado tenham tempo de sair antes de começar a ação principal”.

O representante do Goskino explicou que estava tentando dar o ponto de vista do público… E Tarkovsky supostamente respondeu: “Estou interessado apenas na opinião de duas pessoas: uma se chama Bresson e a outra se chama Bergman”. Touché.

O DVD (e o Blu-Ray) da CPC-UMES Filmes traz STALKER totalmente remasterizado, com formato de tela original, boas legendas e som e imagem de cair o queixo. Para colecionadores, que como eu só tinha aquela versão ridícula da Cocôntinental, é um item obrigatório para ter no acervo. O disco traz como extras algumas informações sobre o diretor, roteiristas, trilha sonora e trailers de outros lançamentos da CPC UMES Filmes. Já dá para encontrar STALKER nas melhores lojas do ramo, livrarias e na loja virtual da distribuidora. Não deixe também de curtir a página da CPC UMES FILMES no Facebook e instagram para ficar por dentro das novidades e os seus próximos lançamentos em DVD e Blu-Ray.

FOI DEUS QUE MANDOU (1975)

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FOI DEUS QUE MANDOU (God Told Me To) poderia ter sido o que O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA foi para Tobe Hooper, ou o que HALLOWEEN foi pro Carpenter. Produções relativamente pobres que renderam muito mais que o esperado. Infelizmente Larry Cohen não teve a mesma sorte. Até que é um filme bem realizado, cheio de idéias e reflexões filosóficas que transcende gêneros, que dialoga e propõe um olhar social. É uma pena, portanto, que tenha sido condenado ao limbo, onde só mesmo interessados por cinema grind house e produções de baixo orçamento de gênero têm o devido contato.

A abordagem de Cohen aqui é de um pessimismo quase poético. Em seu nível superficial, FOI DEUS QUE MANDOU é uma história de investigação policial, que se passa em Nova York. O filme começa com um atirador, empoleirado em uma torre de água no alto de um prédio, usando pessoas aleatórias nas ruas como alvo. Cohen filma com uma câmera na mão, no meio da multidão, num estilo seco e documental de fazer um Cassavetes se encher de orgulho, enquanto os tiros ecoam entre os prédios e os corpos começam a se acumular.

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Tony LoBianco (OPERAÇÃO FRANÇA) é o detetive Peter Nichols, que sobe a torre para confrontar o atirador e obtém uma resposta ao caos sofrido por esse homem. Quando perguntado a razão dele estar atirando nas pessoas, e antes de mergulhar em sua morte suicida, o atirador diz ao detetive que Deus lhe disse para fazê-lo. Um olhar desesperado atravessa o rosto de Nichols. As palavras “foi Deus que mandou” são poderosas o suficiente para afastá-lo de sua complacência e abrir o seu tormento psicológico há tanto tempo reprimido. Talvez palavras poderosas o suficiente para sacudir sua perda de crença religiosa e se tornar um ímpeto para a autodescoberta.

Em relação à religião, FOI DEUS QUE MANDOU não é uma jornada cheia de redenção ao estilo do que Martin Scorsese fazia na época. A cidade de Cohen em Nova York é tão suja e decadente quanto em CAMINHOS PERIGOSOS e TAXI DRIVER, mas Cohen não oferece a oportunidade para o resgate de Nichols como Scorsese faz com seus personagens. Para Travis Bickle (Robert De Niro em TAXI DRIVER), a redenção vem através de uma jornada de escuridão neurótica e uma explosão de violência. Já Cohen resolve impor à Nichols uma excursão às trevas do misticismo ou infiltração alienígena, mas cujo resultado não deixa de ser perturbador em sua abordagem à falibilidade humana e à perda da conexão com Deus.

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Nichols, em certo sentido, segue os passos de Travis Bickle, mas Cohen também se recusa a aceitar a realidade como base para sua história. Onde Travis sai do controle em um pano de fundo real, Cohen intercala o deslizamento de Nichols com o fantástico. O mistério para Nichols não é apenas descobrir quem está por trás dessa série de assassinatos realizados por pessoas que o fazem “à mando de Deus”, mas uma jornada existencial de autodescoberta. Os assassinatos são um catalisador para Nichols descobrir onde ele próprio se insere nessa trama. Todas as mortes levam à ele, que por sua vez levam a um homem chamado Bernard Philips (Richard Lynch), que se diz Deus, mas que acaba por ser uma espécie de mistura reencarnada de Cristo e do Diabo.

O discurso apocalíptico de Philips de alguma forma leva Nichols para sua mãe, que está em uma casa de repouso. Ao que parece, ela foi sequestrada por alienígenas quando era jovem e algum tempo depois concebeu Nichols, embora fosse virgem na época. Isto, naturalmente, alude à Virgem Maria e ao nascimento de Jesus Cristo. No universo de Cohen, não é despropositado fazer essas conexões.

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FOI DEUS QUE MANDOU funciona bem como complemento para outros trabalhos talvez mais conhecidos de Larry Cohen, como I’TS ALIVE (74) e Q (82). Todos os três filmes são visões apocalípticas que evidenciam a ira de Deus em resposta às desilusões da estrutura familiar (IT’S ALIVE), um Deus que envia uma serpente alada contra a humanidade (Q) e, no mais emblemático, FOI DEUS QUE MANDOU, acentua a incapacidade do homem de discernir o poder de Deus, especialmente o do antigo testamento, vingativo, que usa o homem como peão para sua própria destruição.

MERCENÁRIOS DAS GALÁXIAS (1980)

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O planeta Akir é habitado por indivíduos que renunciaram à guerra e à violência e estão prestes a descobrir o que acontece quando pacifistas são ameaçados por alguém que não renunciou à guerra e à violência… O malvadão do espaço sideral, Sador (John Saxon), e seu exército de mutantes, ameaça os pobres cidadãos do planeta à destruição caso não se curvem diante dele. Como não sabem se defender, decidem enviar o jovem Shad (Richard Thomas) na missão de encontrar e contratar mercenários espaciais que estejam dispostos a lutar pelo pequeno planeta Akir (cujo nome não é nenhuma coincidência, como veremos a seguir).

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Sim, MERCENÁRIOS DAS GALÁXIAS (Battle Beyond the Stars), produzido pelo grande Roger Corman, poderia ser definido como uma mistura entre OS SETE SAMURAIS, de Akira Kurosawa, e STAR WARS, num período em que fervilhava produções aproveitando do sucesso da clássica space opera de George Lucas. Se você já viu algum desses filmes (ou o remake do filme japonês, SETE HOMENS E UM DESTINO), o enredo não trará surpresa alguma. Mas a falta de originalidade da trama não é necessariamente um problema. A maneira como os realizadores brincam com essa mistura toda é o que acaba importando. São as sequências de ação, batalhas espaciais explosivas e muito tiro de raio laser, a variedade de personagens exóticos, maquiagens e efeitos especiais graciosos que esse tipo de produção classe B proporcionava…

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As filmagens não foram das melhores, apesar do orçamento ter sido dos mais abastados para os padrões de Corman (dois milhões de dólares). Atrasos na construção dos cenários e um mau tempo que fez o estúdio trabalhar com água até os tornozelos na maior parte do tempo não ajudava muito. O então futuro diretor James Cameron começou trabalhando aqui como um humilde modelador, mas pouco antes das filmagens começarem fizeram a preocupante descoberta de que o diretor de arte não tinha a menor ideia do que estava fazendo. E Cameron de repente se viu promovido à função. Mandou bem. O visual dos cenários e as miniaturas de naves e outros elementos estéticos são ótimos.

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O jovem James Cameron trabalhando em MERCENÁRIOS DAS GALÁXIAS

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Quem escreveu o roteiro foi outro futuro cineasta, o independente John Sayles, que dá um bom trato nos diálogos e na construção dos personagens, percebendo a importância de acentuar as diferenças entre os vários mercenários que pintam por aqui, com suas peculiaridades e culturas. Por mais bobinha que seja essa aventura, é esse tipo de detalhe que ajuda a tornar MERCENÁRIOS DAS GALÁXIAS um exemplar tão interessante e divertido.

No elenco, Richard Thomas tenta fugir de seu personagem mais famoso, John-Boy Walton, da série de TV THE WALTONS. Até que se sai bem, faz o jovem ingênuo, mas aventureiro que se arrisca em desbravar o universo em busca de salvar seu planeta. São curiosos os momentos em que precisar lidar com a dualidade da sua essência pacífica em contraste à necessidade de lutar e eventualmente tirar a vida de seus inimigos.

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Dos vários atores que retratam os mercenários, temos a presença de algumas figuras interessantes. Robert Vaughn, que estava em SETE HOMENS E UM DESTINO, faz um fascinante personagem trágico e atormentado. É praticamente o mesmo papel que fez no western de John Sturges. George Peppard, por outro lado, parece se divertir com o seu cowboy espacial. E Sybil Danning acrescenta um toque erótico ao filme, fazendo uma guerreira amazonas de outra galáxia com generosos decotes. Obviamente, vale destacar o desempenho de John Saxon como o tirano vilão imponente e cruel.

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A ação de MERCENÁRIOS DAS GALÁXIAS é um bom exemplo da abordagem de Roger Corman na produção, baseada em criatividade e imaginação – fazendo um pequeno orçamento durar mais do aparenta (até porque grande parte do dinheiro era para pagar os salários de Vaugh e Peppard) – e coube ao diretor Jimmy T. Murakami comandar sequências que não ficam nada a dever aos filmes B de batalhas espaciais do período. 

No fim das contas, temos aqui uma ópera espacial completamente agradável, um dos melhores dos muitos clones de STAR WARS.

O EMISSÁRIO DE OUTRO MUNDO (Not of This Earth, 1957)

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Uma das ficções científicas mais interessantes e divertidas da primeira fase da carreira de Roger Corman como diretor (ou seja, antes de entrar na onda de adaptações de Edgar Allan Poe) é este O EMISSÁRIO DO OUTRO MUNDO, que revi recentemente num desses boxes de DVD sobre cinema Sci-Fi lançado pela Versátil. Já até havia comentado aqui no blog neste post a refilmagem dos anos 80 dirigida pelo pupilo de Corman, Jim Wynorski, mas fiquei devendo comentários sobre este clássico que lhe deu origem…

O filme de Wynorski era anacrônico e servia mais como um revival nostálgico dos filmes B Sci-Fi dos anos 50, mas era bem divertido também num certo sentido (além de conter algumas doses de peitos de fora que obviamente este aqui não tem). No entanto, o original do Corman, por mais simples e bobo que seja o roteiro e bastante pobre em termos de orçamento e produção, acaba por ter certa relevância e inteligencia para um produto voltado para um “público drive-in“. O filme traz algumas questões de seu tempo, especialmente em relação à histeria da corrida atômica, a paranoia de uma possível guerra nuclear em plena guerra fria. Segue, portanto, um certo padrão bastante típico de filmes de invasão alienígena do período, no qual os “invasores”, na verdade, são tão vítimas quanto nós, terráqueos.

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Humanóides alienígenas telepáticos estão se preparando para dominar a Terra, já que eles já foderam com seu próprio planeta moribundo depois de uma guerra nuclear e precisam de um novo lugar para brincar. Além disso, a raça desses indivíduos desenvolveu uma doença no sangue e, aparentemente, os seres humanos possuem o mesmo tipo sanguíneo. Portanto, o primeiro passo da missão alienígena aqui na terra é se infiltrar na nossa sociedade e tentar coletar um bocado de sangue para encontrarem uma cura para a tal doença…  É aí que entra Paul Birch como o assustador Sr. Johnson, um cavalheiro constantemente de óculos escuros, que esconde seus terríveis olhos brancos e brilhantes, capazes de derreter o cérebro de suas desavisadas vítimas.

Como precisa coletar muitas doses de sangue para enviar ao seu planeta, Mr. Johnson passa o tempo atraindo bêbados e sem-teto para sua bela casa, a fim de sugar-lhes até a última gota de sangue. Além disso, aproveita para fazer transfusão de seu próprio sangue eventualmente. Por isso, contrata uma enfermeira em tempo integral, Nadine Storey (interpretada por Beverly Garland), para lhe auxiliar. Por acaso, Nadine namora um policial, uma circunstância que obviamente causará a Johnson certo inconveniente. Tanto o policial como Nadine acabam suspeitando que coisas estranhas estão acontecendo na casa de Johnson, como pessoas que entram e desaparecem misteriosamente…

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Como é o caso do vendedor de aspirador de pó ultra moderno, numa participação curta mas GENIAL do grande e saudoso Dick Miller, que morreu recentemente. O sujeito bate à porta de Johnson e acaba atraído ao porão do alienígena para fazer uma demonstração do seu equipamento. Acaba também sendo mais uma vítima dos olhos brancos do ser do outro planeta, mas não sem antes de sua morte inevitável romper com a quarta parede, olhando diretamente para câmera, num desses momentos maravilhosos do cinema de baixo orçamento. E que só mesmo um Dick Miller pra fazer a coisa funcionar de maneira tão graciosa. Literalmente rouba a cena em seus dois minutos de tela…

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Mas os outros atores também estão bem. Paul Birch está desconectado o suficiente para parecer um autêntico alienígena humanoide telepata. Consegue passar uma imagem assustadora, ao mesmo tempo em que dá ao personagem um tom trágico. Beverly Garland também apresenta uma performance sólida, numa personagem feminina que foge dos padrões da mulher frágil e histérica dos filmes de monstros e sci-fi do período.

Vale destacar a direção de Corman, um dos maiores mestres do cinema independente americano que já pisou num set de filmagens, e demonstra aqui mais uma vez a sua eficiência imaginativa, sua capacidade de criar mundos praticamente do zero, especialmente num gênero como a ficção científica, sem orçamentos gordos para efeitos especiais, naves espaciais e maquiagens extravagantes. É um grande desafio e Corman faz um belo e criativo trabalho. Como fazer alienígenas parecerem alienígenas sem efeitos de maquiagem caros? Dando-lhes olhos estranhos, poderes de controle da mente e telepatia, todos os quais têm a vantagem de não custar nada no orçamento da produção. Você também dá aos alienígenas um dispositivo de teletransporte, muito mais barato do que ter que construir maquetes e naves espaciais, e por aí vai… Até uma pequena criatura monstruosa que parece uma água-viva feita de plástico de supermercado aparece por aqui, com direito aos fios que a puxam pelo ar bem visíveis na tela. E funciona lindamente!

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O EMISSÁRIO DO OUTRO MUNDO não é muito longo, e começa a funcionar imediatamente assim que o filme começa, num ritmo bom de se ver, apenas diminuindo a velocidade para fornecer em alguns momentos um pano de fundo sobre o habitante de fora, Mr. Johnson e o seu planeta Davana. Mais tarde, ficamos sabendo que Johnson não é o único Habitante de Davana na Terra, e o desfecho leva a coisa para um lado ambíguo, implicando que há muito ainda para se resolver. O que prova também a perspicácia dessa pequena produção capitaneada por Roger Corman em deixar as coisas abertas e por muito mais tempo na cabeça do público. Um filme bem legal com muito mais inteligência do que o maravilhoso pôster abaixo faz acreditar que seja.

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O MUNDO MARCHA PARA O FIM (1965)

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Outro dia estava vendo um filme de espionagem dirigido pelo John Sturges. Não conhecia a obra, mas do diretor, é quase impossível errar na escolha. Ao menos, o que vi do Sturges, só clássicos do autêntico cinema badass: SETE HOMENS E UM DESTINO, FUGINDO DO INFERNO, CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO, SEM LEI E SEM ALMA, entre outras coisas boas.

Sturges sempre teve certo prestígio e respeito entre os admiradores do “cinema de ação raiz”, mas já a crítica séria subestima diretores que não possuem uma veia autoral, como é, de fato, o caso de Sturges. O sujeito era um típico diretor “Pistoleiro de Aluguel”, desses que sabem atirar muito bem, mas acabam não deixando muito rastro. Ou seja, não possuem um caráter autoral, embora façam seu trabalho muito bem feito. E em se tratando de filmes de ação, o cara sabia muito bem onde colocar sua câmera e como orquestrar o que se passava na frente dela, como preencher os espaços da tela larga do CinemaScope.

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O tal filme de espionagem em questão é um bom exemplo disso. O título do filme no Brasil é O MUNDO MARCHA PARA O FIM, adaptação de um livro de Alistair MacLean, autor de clássicos suspenses de guerra, como OS CANHÕES DE NAVARONE. No elenco temos George Maharis e um grisalho Dana Andrews, cuja carreira já estava em declínio. No início do filme, acontece uma invasão num laboratório ultrassecreto de guerra química e bacteriológica do governo americano, quando um dos cientistas havia acabado de aperfeiçoar um novo vírus, que fora apelidado de “the satan bug“, que é também o título original do filme. Quando em contato com a atmosfera, o vírus parece ser completamente imparável e um único frasco poderia, em teoria, acabar com toda a vida na Terra. É tão perigoso que os cientistas estavam considerando seriamente destruí-lo, pela suspeita de ser letal demais para ter algum uso prático.

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Para um caso tão urgente, é necessário um tipo muito especial de agente para resolver as coisas e fazer, digamos, um trabalho sujo. E o homem certo é Lee Barrett (Maharis), um espião dissidente, que foi demitido de todos os cargos que ocupou, tido como encrenqueiro e causador de dor de cabeça para o governo. Ou seja, Mas o homem perfeito para o trabalho de pegar os terroristas e recuperar o perigoso vírus. Daí pra frente o filme não para…

John Sturges não tinha um grande orçamento para trabalhar, mas sabe muito bem  o que fazer com este tipo de material, e segura o filme com boa dose de tensão. Não temos aqui nenhum discurso entediante do vilão insano que tenta justificar suas ações e, apesar do assunto e do contexto da época, o filme acaba não sendo levado para o lado político… É um thriller de ação, puro e simples. O filme também não perde tempo com explicações pseudocientíficas elaboradas. Tudo o que precisamos saber é que o vilão tem uma arma super poderosa em mãos e ele deve ser parado à qualquer custo. É-nos dado apenas o suficiente para tornar essa ameaça assustadora e não deixar que o público desgrude os olhos da tela. E considerando o baixo orçamento, algumas sequências de ação são bastante impressionantes, com perseguições de carro, tiroteios e até uma luta em um helicóptero em pleno ar.

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Não sei se esse aqui já foi lançado no Brasil em DVD, mas fica a dica para alguma distribuidora brasileira o lançamento desta e de outras obras do Sturges não tão conhecidas e que fariam sucesso no mercado de vídeo. O MUNDO MARCHA PARA O FIM é um desses filmes esquecidos de um grande diretor que a vale a pena uma conferida.

[CAGESPLOITATION] MANDY (2018)

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Da primeira vez que assisti a MANDY, de Panos Cosmatos, foi impossível não pensar numa lógica estético-narrativa que torna visual o mundo interior de um homem destroçado pela perda. Só que ao mesmo tempo, o filme nunca entra no campo de “Ah! era tudo uma alucinação, era uma bad trip do protagonista” o que tornaria tudo muito óbvio.

Resolvi ver MANDY de novo, já que é um dos meus favoritos do ano passado, e desta vez ficou mais forte, já sabendo de antemão o que o filme tem para oferecer, a impressão de estar diante de uma daquelas revistas em quadrinhos Heavy Metal que a gente lia nos anos 90, com um tipo de fantasia sci-fi bizarra muito peculiar que essas publicações forneciam. Então, bad trip porra nenhuma, isso aqui é um puta universo alternativo pra lá de surtado que o Cosmatos criou para desembocar sua fábula macabra e, como cereja do bolo, com um Nicolas Cage maravilhosamente insano nos guiando nessa viagem pirada de imagens carregadas de cores, simbolismos e violência.

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O negócio é que MANDY é um filme para ser contemplado, Cosmatos utiliza-se de elementos muito básicos para causar a imersão do espectador num projeto cuja estética e seus significados simbólicos importam mais do que uma trama convencional. Na verdade, a narrativa segue uma linha reta muito bem traçada, mas com um fiapo de roteiro, que Cosmatos usa para deixar o espectador hipnotizado na sua à abordagem visual e atmosférica.

Temos uma primeira metade que apresenta o casal, Red (Cage) e Mandy (Andrea Riseborough), que leva uma existência tranquila, amorosa e pacífica numa versão alternativa do ano de 1983 e este lugar perfeito e seguro é selvagemente invadido e destruído. Depois, a segunda metade de MANDY: Red se lança numa jornada de vingança sangrenta contra os mais diversos habitantes desse universo insólito.

Seguir essa trama é um convite à uma experiência sensorial fascinante.

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Dizem que o filme anterior de Cosmatos, filho do grande George P. Cosmatos (diretor de RAMBO II, COBRA e TOMBSTONE), segue essa mesma tendência de cinema contemplativo e sensorial. Chama-se BEYOND THE BLACK RAINBOW, mas eu acabei não vendo. Devo assistir agora que conheço MANDY. O sujeito manda bem dentro da proposta de uma espécie de slow “exploitation” cinema, que constrói um mundo tão peculiar e onírico, povoado por criaturas que parecem uma mistura dos cenobitas, de HELLRAISER, com os motoqueiros pós-apocalípticos saídos de MAD MAX 2, com atmosfera carregada em tons que parece uma névoa envolvendo os personagens… É o que dá à paisagem uma sensação sobrenatural, uma versão da realidade como conhecemos, mas encharcada em neons roxos e avermelhados.

Cosmatos também não deixa a peteca cair nem quando a coisa toda explode em violência, fazendo homenagens à clássicos como EVIL DEAD 2, NIGHTBREED, O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2… É o tipo de filme no qual veremos Nicolas Cage cortando a garganta de uma criatura que tem uma faca no lugar do pênis e logo depois põe-se a rir histericamente enquanto o sangue encharca seu rosto. Temos Cage decapitando um sujeito com um enorme machado de batalha forjado e depois acendendo um cigarro da cabeça decepada em chamas. Ou no eletrizante e sangrento duelo de motosserras… Enfim, MANDY é brutal, debochado, insano… Pura poesia.

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Obviamente, um dos grandes prazeres de MANDY é poder ver Nicolas Cage em estado de graça sendo bem dirigido e muito bem aproveitado. Há uma cena que é um verdadeiro milagre de encenação e dramaturgia, um tour de force ininterrupto e sem cortes, quando Cage vai ao banheiro, de cuecas, enxugando uma garrafa de Vodka inteira, tentando se aliviar do choque depois de vivenciar um verdadeiro inferno, numa aula de expressão corporal e presença de ocupação física de um espaço, um daqueles momentos que dá vontade de aplaudir e agradecer aos deuses do cinema a existência de um ator tão sublime quanto… NICOLAS CAGE. Aliás, muita gente acha que eu brinco quando falo que, atualmente, em atividade, o maior ator do mundo é Nicolas Cage. Podem apostar, eu falo sério.

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A única coisa que não se justifica em MANDY são suas duas horas de duração. Poderia ser bem mais enxuto… Mas não tenho do que reclamar, porque toda hora Cosmatos traz algo bonito/bizarro para nossa contemplação: os inter-títulos com fontes de capa de disco de Black Metal; Cage forjando no fogo seu instrumento de vingança; o anúncio do “Cheddar Gobling”; os enquadramentos milimetricamente simétricos do templo, o filme inteiro é recheado de imagens que parecem as páginas das revistas Heavy Metal que ganharam vida, numa atmosfera única que é encontrada em todos os quadros do filme, em cada gesto de um personagem, a cada mudança narrativa…

Vale destacar também alguns nomes do elenco, como a pequena aparição do grande Bill Duke, mas especialmente Linus Roach, como líder da seita que desgraça a vida do protagonista, numa performance espetacular.

MANDY é um filme especial. Se não viu ainda, veja. De preferência numa tela bem grande.

DOLLMAN (1991)

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Embora seja mais uma dentre tantas produções dirigidas pelo Albert Pyun que sofre às duras penas por conta do baixíssimo orçamento, DOLLMAN teve a incrível façanha de ser um de seus trabalhos que conseguiu reunir perfeitamente as ideias mirabolantes da cabeça do diretor com um bom resultado visual na tela. Ainda bem, porque isso é crucial em DOLLMAN. Se essas ideias não funcionassem, seria quase impossível engolir a história do policial alienígena que possui o tamanho de um boneco de “Comandos em Ação” no nosso planeta.

Tim Thomerson, trabalhando pela primeira vez com Pyun, encarna Brick Bardo, o tal personagem minúsculo. O sujeito é o típico policial casca-grossa que estamos acostumados a ver em filmes dos anos 80 e 90, que age por conta de suas próprias regras e que pode usar óculos escuros à noite sem parecer um hipster ridículo. Com a pequena diferença de que é um extraterrestre de trinta centímetros de altura. Ao perseguir um meliante de seu planeta, Bardo acaba parando na Terra, onde ele não passa de um tiquinho de gente. Mas isso não impede que seu lado durão se abale, até porque o sujeito tem sempre em mãos “a arma de mão mais poderosa do universo“, como diz um moleque gordinho logo no início do filme, um revolver que explode corpos inteiros no seu planeta. O que já faz também um belo estrago na bandidagem da Terra.

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Um desses bandidos por aqui é vivido por ninguém menos que Jackie Earle Haley em início de carreira, antes de viver Rorschach em WATCHMEN, já demonstrando certo talento dramático, por incrível que pareça. Seu personagem passa grande parte do filme com uma bala no bucho, o que exige uma certa expressividade do ator. Sim, amiguinhos, estamos analisando dramaturgia num filme do Pyun em que o personagem principal é um policial de trinta centímetros… Vincent Klyn, o eterno Fender de CYBORG, também dirigido pelo Pyun, marca presença como um dos vilões, como não poderia ser diferente. Ainda no elenco, alguns habituais do diretor também dão as caras por aqui, como Nicholas Guest e Michael Halsey, todos bem competentes. Mas é impossível tirar os olhos do protagonista. Tim Thomerson carrega o filme nas costas, apesar do tamanho, com uma atuação excepcional!

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DOLLMAN foi a primeira parceria de Pyun com a Full Moon, de Charles Band, produtora que sempre trabalhou com pouco recurso, mas com muita criatividade e excelentes resultados nos anos 80 e 90. Embora Pyun reclame que Band seja um produtor muito controlador, o diretor consegue fazer o que queria em termos visuais com bastante eficiência, tornando crível a situação de escala do protagonista em relação aos espaços, ao mundo gigante que o rodeia. Os enquadramentos, o que Pyun mostra ou deixa de mostrar, os ângulos criativos da câmera, tudo faz acreditar que Thomerson é realmente um autêntico bonequinho. Até mesmo no uso de efeitos especiais e trucagens, que o orçamento não permite ser dos melhores, dão um charme à mais na obra.

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Além disso, Pyun tem sempre grandes sacadas para manter o ritmo frenético em DOLLMAN, com bons momentos de ação e um humor sarcástico característico do diretor. Várias cenas são impagáveis, sequências realmente difíceis de acreditar que conseguiram fazer com tão pouco recurso e que só poderiam ter saído da cachola do diretor e do produtor Charles Band. Toda a sequência inicial que se passa no planeta de Bardo é excepcional, filmada com um filtro avermelhado, faz uma apresentação perfeita do tipo de policial que Bardo é, agindo numa situação com reféns, de deixar o chefe de polícia arrancando os cabelos. E mostra, também, o estrago que sua arma é capaz fazer num corpo.

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Já no nosso precioso planeta Terra, sequências como o pequenino herói pendurado num carro cheio de bandidos, ou as trocações de tiros com os meliantes com suas diferenças de escalas, e até o confronto do herói com um rato, quando o personagem literalmente entra pelo cano, são bons exemplos que garantem a diversão…

DOLLMAN é daquelas obras feitas sob medida para os fãs assíduos de uma boa tralha de baixo orçamento, que obviamente o espectador normal deverá achar uma perda de tempo. Azar o deles. Trata-se de um dos melhores e mais divertidos filmes de Albert Pyun.

Texto originalmente escrito para o blog Radioactive Dreams, em agosto de 2010, e atualizado para o Dementia¹³ em janeiro de 2019.

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2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK (1983)

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O primeiro filme que assisto em 2019 é, obviamente, o fantástico 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK, um dos meus clássicos favoritos do ciclo “pós-apocalíptico” italiano dos anos 80, junto com FUGA DO BRONX e OS GUERREIROS DO BRONX, ambos de Enzo G. Castellari. Produções desesperadas em tentar lucrar ao máximo e aproveitar o sucesso internacional de FUGA DE NOVA YORK, de John Carpenter, e MAD MAX 2, de George Miller, entre outras coisas, mas que rendiam um manancial de pérolas absurdamente divertidas (em alguns casos). Eram os anos 80, enquanto o mundo caminhava para o fim da guerra fria, havia uma certa paranóia em relação a uma Terceira Guerra Mundial que acabou refletida e imaginada em filmes pós-apocalípticos como o do Carpenter e Miller. E é nessa tentativa de ganhar um trocado em cima do sucesso desses filmes, criando suas próprias versões, criando praticamente um gênero, que o ciclo italiano ficou marcado.

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No entanto, alguns desses filmes possuem tanta personalidade, que acabam também influenciando futuras produções. E acho que 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK pode se orgulhar de ter esse feito, uma vez que trata-se de uma versão italiana descarada de FUGA DE NOVA YORK, mas claramente inspirou a história de FILHOS DA ESPERANÇA, de 2006, do hoje consagrado diretor mexicano Alfonso Cuarón, com a busca do herói para encontrar e proteger a última mulher fértil num futuro distópico (com direito à um personagem que exibe proeminentemente “Guernica” de Picasso em sua parede)…

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Cena do filme FILHOS DA ESPERANÇA, de Alfonso Cuarón…

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…E uma cena de 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK. Coincidência? Acho que não.

A trama de 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK se passa vinte anos após o holocausto nuclear que praticamente devastou com o planeta. Os sobreviventes sofreram mutações e se tornaram inférteis. Há quinze anos não nasce um indivíduo nessa realidade. O guerreiro nômade Parsifal (Michael Sopkiw) é sequestrado a mando do presidente da Pan-Americana, uma confederação rebelde que luta contra os Eurac, que se intitularam vencedores da guerra. É explicado a Parsifal que estão planejando lançar uma espaçonave para realocar alguns indivíduos para Alpha Centauri, um conjunto de planetas com atmosfera habitável e é oferecido a ele um lugar na nave se aceitar a missão. A coisa consiste em adentrar as ruínas de NY para resgatar a única mulher fértil que restou. “Entrar em Nova York é fácil. Sair que é impossível“, diz o presidente interpretado pelo grande Edmund Purdon, numa sequência que remete logo de cara ao primeiro encontro de Lee Van Cleef e Kurt Russell no filme de Carpenter.

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Parsifal concorda, relutante, e vai acompanhado de dois outros membros rebeldes: Bronx (Paolo Maria Scalondro), um sujeito que perdeu sua família em NY durante a guerra e tem ódio mortal dos Eurac, e o misterioso Ratchet (Romano Puppo), um caolho que possui força sobre-humana. O resto de 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK se resume na missão desses aventureiros numa Nova York devastada, que é controlada pela tropa Euracs, esgueirando-se para não serem encontrados, algo impossível, o que acarreta numa dinâmica de ação que não deixa o filme parado, e aliando-se aos povos mutantes que vivem nas ruínas. Especialmente um anão, com o “criativo” nome de… Shorty (Louis Ecclesia).

A direção desse petardo é de Sergio Martino, um maestro relegado à condição de “menor”, por nunca ter o mesmo reconhecimento entre os mais cultuados do cinema de gênero italiano, como Lucio Fulci, Mario Bava e Dario Argento. Mas os autênticos admiradores desse tipo de cinema sabem de sua importância e legitimam seu imenso talento por colocar na tela exatamente o que seu público espera. Como já disse, é um filme que não diminui o ritmo em seus noventa e poucos minutos, o andamento das coisas em 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK é muito bom nesse sentido. O roteiro pode até não ser dos mais elaborados, com diálogos inspirados, mas mesmo nos trechos mais lentos, cuja impressão é de que vamos entrar num marasmo e nos aborrecer, Martino não demora para mostrar alguma situação absurda, apresentar personagens bizarros e jogar muita ação na tela, em sequências explosivas, lutas e tiroteios, com direito à um bocado de gore, olhos perfurados e cabeças explodindo.

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Algumas sequências que poderiam passar puramente de um xerox de FUGA DE NY acabam ganhando bastante personalidade nas mãos de Martino. Um bom exemplo é quando o grupo tenta fugir de NY num carro antigo, do século XX, através de um túnel “minado”, mais uma referência óbvia de Snake Pliskenss levando os seus, dirigindo pela ponte minada no climax do filme de Carpenter. Martino trabalha tantas ideias e incrementa tanto a ação, que a sua fuga acaba ganhando um novo sentido, tem sua própria força, sem ficar nada a dever ao filme, digamos, “homenageado”…

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Mas o grande contraste de Martino em relação ao filme de Carpenter é na construção do herói Parsifal. À princípio, temos um Snake de meia-tigela, cuspido e escarrado, com uma rebeldia latente e desprezo pelas autoridades, e totalmente desacreditado de que a raça humana mereça uma segunda chance com a possibilidade de uma mulher fértil em voltar a perpetuar o homem, como planeja o presidente. Mas onde o personagem de Kurt Russell permanece o individualista anárquico-pessimista-niilista até o fim, Parsifal se entrega aos sentimentos quando se apaixona por uma das habitantes das ruínas de NY. Isso muda tudo.

Sopkiw não é um Kurt Russell, obviamente, mas entrega uma atuação sólida em 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK, digno dos grandes heróis do cinema pós-apocalíptico italiano. Era a sua estreia no cinema, já tinha feito alguns trabalhos como modelo e Martino resolveu arriscar com o rapaz porque ficaria bem mais barato dentro do orçamento da produção, que já era apertado. Em entrevista, Martino fala que gostou de trabalhar com Sopkiw, que encaixou perfeitamente ao papel. E revela que estrelar um filme dele serviria de trampolim para qualquer ator iniciante. De fato, Sopkiw teve um breve momento de fama no meio dos anos 80, fez quatro filmes legais no período, mas logo depois resolveu abandonar a carreira e se dedicar à outros assuntos… Já comentei sobre Sopkiw no post sobre BLASTFIGHTER, de Lamberto Bava. Depois confiram aqui.

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Sem precisar gastar rios de dinheiro com um Franco Nero ou Giuliano Gemma, Martino pôde trabalhar com cuidado o visual, nos mínimos detalhes. Vale destacar, portanto, os efeitos especiais que abusam de miniaturas e maquetes, que são toscas sob um olhar mais exigente, mas que dão aquele charme a mais neste tipo de produção. Os figurinos, maquiagens dos mutantes – ou a cena em que um personagem precisa fazer uma cirurgia de colocação de olhos novos – e os cenários desse universo pós-apocalíptico também são caprichados. E o diretor aproveita bem desse material, dos close nas caras dos atores maquiados, com suas feridas putrefatas, ao bom uso do espaço físico na ação. O elenco também merece atenção, trazendo alguns bons nomes deste período do cinema popular italiano, como os já citados Romano Pupo, Edmund Purdon e o grande George Eastman, que rouba a cena com seu Big Ape, um mutante metade homem, metade macaco, que lidera uma trupe de seres bizarros.

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Portanto, o que temos aqui é uma obra genial, ou seja, uma picaretagem das boas do cinema de gênero italiano, que copia na cara dura o clássico de John Carpenter, FUGA DE NY, mas com tanta imaginação e personalidade, que acabou resultando em algo único, que sem dúvida alguma, o diretor mexicano Alfonso Cuarón usou de base para escrever FILHOS DA ESPERANÇA trinta anos depois. Uma última constatação é a influência de BLADE RUNNER, de Ridley Scott, em 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK, na lógica dos replicantes, de androides que se confundem com seres humanos e que estão entre os indivíduos que povoam o filme. E que, aliás, também se passa em 2019… Pelo visto, esses cineastas tinham uma ideia bem pessimista deste ano específico. Mas apesar do mundo não estar tão ruim quanto nessas visões de futuro, até que acertaram em alguns pontos. Mas vamos que vamos…

CYBORG – O DRAGÃO DO FUTURO (1989) & SLINGER (2011)

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CYBORG vs SLINGER – Dois filmes em um

CYBORG – O DRAGÃO DO FUTURO foi um dos principais filmes de ação que me fez apaixonar incondicionalmente pelo gênero. Trata-se de mais uma variação do subgênero “pós-apocalíptico”, tão comuns nos anos 80 e 90, filmes em que vislumbramos o futuro da pior maneira possível, com suas grandes cidades destruídas por alguma catástrofe natural ou não, geralmente com um punhado de pessoas que já perderam a noção de humanidade tentando sobreviver ao caos, enfrentando as piores desgraças, agindo com violência, imoralidade e sem esperanças de uma vida melhor. No futuro de CYBORG, a “peste” devastou com a população mundial e a esperança do que resta da humanidade é a segurança de uma cyborg detentora da cura. Na trama, esta cyborg precisa chegar a Atlanta, único local com estrutura para trabalhar com o material que provavelmente vai restaurar a ordem no mundo.

Mas existem grupos anarquistas que preferem deixar tudo como está. É o caso da gangue do maquiavélico Fender, que faz de tudo para impedir que a moça de lata chegue ao seu destino. Aí é que entra o nosso herói, Gibson (sim, os nomes dos personagens são marcas de guitarras), na pele do belga Jean Claude Van Damme, um mercenário que se propõe a ajudar a indefesa cyborg, embora seja motivado por um instinto vingativo, rixa do passado entre ele e Fender, o qual é muito bem explorado nos flashbacks do protagonista.

Dirigido por um dos grandes mestres dos B movies, Albert Pyun nunca escondeu sua predileção pelo universo pós apocalíptico e cyber punk. No seu currículo podemos conferir umas maravilhas como NEMESIS, RADIOACTIVE DREAMS, KNIGHTS, VICIOUS LIPS e muitos outros… Portanto, deve ter adorado trabalhar com todos esses elementos neste que é considerado por muitos admiradores o seu melhor filme. Ou não… As histórias dos bastidores de CYBORG é tão insana quanto o próprio filme visto na tela. Pyun fora contradado pela Cannon Films em meados dos anos 80 para dirigir uma continuação de MESTRES DO UNIVERSO e um live-action do HOMEM ARANHA, que seriam filmados simultaneamente. Mas a produtora estava passando por problemas financeiros e cancelou seus acordos com a Mattel e Marvel, proprietárias dos direitos de He-Man e Homem-Aranha respectivamente, apesar de já terem gasto cerca de dois milhões de dólares com sets e figurinos.

Pyun teve a ideia de partir para algo novo, um filme totalmente diferente, se virando com o que tinham disponível, além de um orçamento de menos de quinhentos mil dólares, contando com o salário do astro Van Damme. O realizador escreveu o roteiro em uma semana e logo em seguida partiria para uma das filmagens mais caóticas de sua carreira. Em mais três semanas, o filme estava na lata, filmado, prontinho. A pós-produção também não se mostrou uma experiência confortável. Pyun se mostrava disposto a realizar um filme de gênero mais experimental, sombrio, violento e operático, homenageando aos filmes de samurai e faroestes que ele cresceu assistindo. Essa proposta não era vista com bons olhos pela Cannon e Van Damme, claro. Apesar dos pesares, o resultado é uma obra singular e visionária dentro do possível, limitada pelo baixo orçamento da produção. CYBORG, a versão de cinema, é um dos melhores filmes do diretor e um atestado do quanto pode ser prazeroso assistir a uma fita de orçamento restrito feito com paixão e criatividade. Uma curiosidade é que o filme chegou a ser promovido na TV americana carregando o nome MASTERS OF UNIVERSE 2: CYBORG!

CYBORG é bem curto, não chega a uma hora e meia, mas dispões de ação constante e muita atmosfera, um clima pós-apocaliptico desolador que não fica muito longe dos melhores filmes do subgênero, como MAD MAX 2. Difícil esquecer algumas cenas antológicas – Van Damme nos túneis dos esgotos, em espacate, esperando seu oponente passar debaixo para dar o bote é genial. Aliás, toda a sequência que antecede a crucificação do protagonista e a maneira em que o personagem se livra da cruz com toda a fúria sempre me marcou bastante. Hoje ainda reserva grande força para quem embarca na trama e neste tipo de diversão.

Além de Van Damme (cujo sotaque na época ainda era um problema para Pyun), que se sai muito bem em cena, vale destacar o desempenho do grande Vincent Klyn, o vilão Fender, que possui uma puta presença ameaçadora e poderia muito bem ter sido melhor aproveitado no cinema. A descoberta de Klyn é curiosa. Quando Pyun estava trabalhando no casting para a continuação de MESTRES DO UNIVERSO, o diretor foi ao Havaí procurar um ator que substituísse o Dolph Lundgren no papel de He-Man e acabou encontrando, no meio de vários surfistas, Vincent Klyn. Pyun se impressionou tanto com aquela figura, que quando os projetos se transformaram em CYBORG, Pyun exigiu que Klyn fosse o vilão do filme… Daquelas escolhas simplesmente perfeitas. Pra mim Fender é uma das mais insanas, impiedosas e assustadoras representações do mal no cinema de ação de todos os tempos!

Eu posso estar sendo um nostálgico exagerado, mas CYBORG é um grande filme. Ótimo veículo de ação para o Van Damme, de quem eu nutro uma enorme admiração desde pequeno, muito bem dirigido pelo Pyun, ótimos cenários, atmosfera, efeitos especiais old school que chutam a bunda de qualquer CGI atual, trilha sonora marcante, etc e tal, mesmo sabendo que para a nova geração tudo isso não passa de uma tranqueira sem qualquer interesse… Uma pena.

Passados pouco mais de vinte anos do lançamento de CYBORG, eis que Pyun aparece com SLINGER, a SUA versão de CYBORG! Explico: Apesar de ser um dos títulos mais lembrados de sua filmografia, Pyun sempre fez questão de deixar claro que a versão de CYBORG lançada nos cinemas em 1989 pela Cannon não era o filme que gostaria de ter lançado. O problema é que o grande nome do filme, Van Damme, odiou o corte de Pyun, o que fez o diretor sair do projeto e Sheldon Lettich (roteirista de O GRANDE DRAGÃO BRANCO e diretor de DUPLO IMPACTO) entrar para trabalhar numa nova edição do filme, que se tornaria a versão de cinema. Mas e SLINGER? Bom, num belo dia qualquer lá por volta de 2010, o compositor e parceiro de Pyun, Tony Riparetti, estava limpando seu depósito e encontrou duas VHS com o último corte de Pyun antes de Van Damme e Lettich tomarem conta da produção!

Um detalhe importante é que o termo “director’s cut” não possui a mesma definição da qual estamos acostumados. Não é o trabalho de alguém que resolveu remontar o filme, nem pretende o relançamento comercial para substituir o “original”. SLINGER é uma versão de CYBORG praticamente em estado bruto, percebe-se até uma falta de acabamento em algumas cenas, formatos de tela diferentes, além da imagem ruim, de VHS, sendo destinada somente para os verdadeiros fãs do filme e de seu diretor.

SLINGER é a denominação utilizada para os personagens errantes do universo do filme, como é o caso de Gibson Rickenbacker, vivido pelo Van Damme. Nesta versão, não existe praga alguma devastando a população. Gibson persegue o vilão Fender (Vincent Klyn) por vingança, pura e simples, e nem se preocupa tanto com a tal cyborg sequestrada. Quanto a esta, a sua função no filme é carregar dados que vão ajudar a reestabelecer as redes elétricas deste futuro pós apocalíptico. Ao menos é o que ela diz, mas descobrimos no fim que ela e seus responsáveis possuem segundas intenções não muito amigáveis para o que resta da humanidade, dando ao filme um tom mais depressivo que já tinha.

Fender, na brilhante presença de Vincent Klyn, não muda muito. É a personificação do mal em todos os sentidos em ambas as versões, mas ganha um tom meio religioso aqui, como um enviado do diabo para trazer o caos, reforçado por uma narração em off que não havia na outra versão. Aliás, a director’s cut ganha uma narração que permeia quase todo o filme e as palavras de Gibson dão ao personagem um interessante viés de samurai, algo que Pyun sempre declarou ter buscado para o sujeito.

A trilha sonora é um dos elementos que mais se diferencia do original. Eu gosto bastante da trilha de Kevin Bassinson, com destaque para as melodias suaves e melancólicas das cenas de flashback. Mas a que temos aqui, composta por Tony Ripparetti, parceiro de Pyun até hoje, se encaixa perfeitamente à narrativa, não apenas acompanhando as imagens, mas realmente dá ritmo e eleva a obra num patamar mais operístico, que era a ideia inicial de Pyun.

Não há nada em SLINGER que eu não tenha gostado, mas existem alguns detalhes dos quais eu prefiro na versão anterior. As cenas de flashback na director’s cut são objetivas e surgem antes cronologicamente em relação à versão para cinema. Por exemplo, quando chega a grande sequência da crucificação de Gibson em SLINGER, já sabemos de toda a história entre ele e Fender. A própria cena da crucificação ficou mais curta, embora não menos brutal. Em CYBORG, a conclusão dos flashbacks vinha no momento em que Gibson estava pregado na cruz, prolongando ainda mais a cena, deixando-a com uma carga dramática muito maior. Outra grande diferença é na luta final entre Fender e Gibson. Ambas são excelentes, na minha opinião. Mas a desta aqui, apesar de possuir uma idéia mais visceral, sua execução fica um pouco a desejar, poupa o espectador de mostrar a morte horrível de Fender, deixando as coisas na imaginação, provavelmente pelo baixo orçamento, mas o fato é que entre as duas, prefiro a original, que é mais longa e mostra tudo o que tem que mostrar.

De uma forma geral, acho que esta director’s cut se encaixa mais ao estilo de Albert Pyun naquele período. É mais sombrio e dá ênfase às suas peculiaridades estéticas e influências (Sergio Leone e os filmes de samurai). Já a edição dos produtores deu a CYBORG um aspecto de filme de ação de baixo orçamento que tinha tudo pra ser um tradicional exemplar do período, mas acabou com o olhar peculiar e criativo de um realizador cheio de personalidade. Não é a toa que, de alguma forma, foi um dos filmes que mais me encantou durante a infância, justamente pelos vestígios deixados por Albert Pyun na versão para cinema.

E pra ser totalmente franco com vocês, essa director’s cut não possui modificações gritantes em relação ao “original”, está bem longe de ser “outro filme”. E o grande lance é que o material bruto das filmagens de CYBORG, totalmente realizado por Pyun, é muito bom e é o que realmente faz toda a diferença! Todas as grandes cenas antológicas que transformaram esta obra num clássico permanecem aqui. Acho que se eu pegasse esse material e editasse a minha versão, seguindo a mesma trama, não tenho dúvidas de que seria capaz de fazer um bom filme! Mas são as mínimas nuances que diferenciam uma versão da outra que demonstram claramente a idéia mais autoral de Albert Pyun. E olha que CYBORG, do jeitinho que era antes, já era o meu filme preferido do diretor… essa versão chega apenas para definir não apenas essa minha opinião, mas para colocar CYBORG entre os meus favoritos do gênero.

Ao fim do filme, há uma menção sobre um futuro projeto que retornaria ao universo de CYBORG em uma nova produção. Talvez uma sequência ou uma pré-continuação… Pyun chegou a anunciar e até trabalhar nessas ideias nos últimos anos, mas nada de concreto foi lançado. Continuamos aguardando.

OBS: Como disse antes, Pyun nunca lançou SLINGER comercialmente. Tive o privilégio de conferir o filme há alguns anos, quando o próprio diretor me enviou uma cópia assinada, da qual me orgulho muito e guardo com carinho na prateleira.

GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER (1964)

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Vi outro Godzilla. Tô ficando viciando nesses filmes de monstro japoneses, também conhecidos como filmes de monstros de roupa de borracha destruidores de maquetes. Tenho assistido aos poucos, devagar quase parando, os tempos atuais não me permitem assistir tudo de uma vez, mas tá bacana acompanhar essa franquia em sequência e perceber a progressão de cada produção, como cada obra se esforça para superar o filme anterior especialmente em termos de destruição e grandiosidade.

Em GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER, o diretor Ishiro Honda e sua turma chutaram o pau da barraca e colocaram quatro monstros no mesmo filme (um deles o Godzilla), que não apenas lutam entre si, mas também se unem para encarar um inimigo em comum, que neste caso é Ghidorah, o monstro espacial de três cabeças. E essa é uma fórmula que vai marcar a franquia para sempre, que passa a povoar cada filme da série com o maior número de monstros possíveis em alianças e tretas em escalas gigantescas.

bscap0184bscap0181A trama começa com uma chuva de meteoros que chamam a atenção da população que observa os céus maravilhado. Um meteorito específico cai numa região montanhosa e intriga os cientistas com suas propriedades magnéticas poderosas. Numa história paralela a essa, a princesa de uma pequena nação é misteriosamente poupada da morte, saltando instantes antes de seu avião explodir no ar. Quando a garota atordoada, que milagrosamente sobreviveu à queda devido a uma força alienígena, aparece em público, ela sofre de amnésia e fala para todos que veio de outro planeta. Além disso, a moça começa a fazer premonições, como a que Godzilla e Rodan irão ressurgir e causarão destruição mais uma vez.

Mas o verdadeiro problema é um monstro do espaço chamado Ghidorah, que ela alerta com mais ênfase, dizendo ser capaz de destruir toda a raça humana. Eventualmente, o tal meteorito ultra magnético que caiu nas montanhas se abre e liberta o grandioso Ghidorah.

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Em algum lugar no Japão, Godzilla e Rodan aparecem e começam a brigar. Mothra (que eu já apresentei aqui no blog) intervém na briga e pede aos outros dois monstros para que ajudem a defender a humanidade do monstro espacial de três cabeças. GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER marca portanto um importante ponto de virada na história da série Godzilla. Afinal, é aqui que o famoso monstro japonês se torna um defensor da raça humana… Claro, na cena em que surge ele explode um navio cheio de inocentes tripulantes, mas no decorrer da trama acaba convencido a virar a casaca… Então, no fim das contas temos Godzilla, Mothra e Rodan vs. Ghidorah. Parece covardia, mas Ghidorah é foda pra cacete e daria uma surra em qualquer um deles caso resolvesse bancar o fodão sozinho…

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A subtrama com os humanos também evolui e se desdobra num thriller de ação interessante com a descoberta de que o avião da princesa fora sabotado. Como ela ainda se contra viva, mesmo com amnésia, há toda uma conspiração para matá-la e assassinos profissionais são enviados com esse objetivo. Um policial resolve se meter à guarda-costas da moça, o que nos leva a algumas sequências rápidas de tiroteios em meio ao festival de destruição de cidades em miniatura causada pelos monstrengos.

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Godzilla e Mothra são duas figuras já conhecidas por aqui, embora este último só compareça em GHIDORAH na sua forma de larva, do jeito que termina o filme anterior, MOTHRA VS GODZILLA. Quem faz estreia na série é Rodan, que já havia estrelado seu próprio kaiju, RODAN (1956), também dirigido por Honda, e Ghidorah, que acaba por ser um dos mais poderosos vilões dentre os quais Godzilla e sua turma tiveram que encarar. Mesmo que demore um pouco para que todos os kaijus apareçam juntos na tela e comecem a esmagar as coisas e bater uns nos outros, ainda temos sempre alguns momentos absurdos proposto pelo roteiro que, apesar de risíveis e altamente questionáveis, é o que fazem a obra ser ainda mais divertida, como a sequência em que Mothra consegue interferir na batalha entre Godzilla e Rodan para convencê-los de encarar Ghidorah, enquanto as duas gêmeas em miniatura (sim, elas estão de volta!) narram o que os monstros estão falando… Desses momentos inacreditáveis que de tão constrangedor acaba por ser também hilário!

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No comando da coisa toda, Ishiro Honda manda bem novamente nas sequências de pancadaria de kaijus, abusando de efeitos especiais cada vez melhores e miniaturas cada vez mais realistas sendo destruídas enquanto os monstros trocam golpes e raios, com um trabalho de câmera bem legal, enquadramentos tortos, planos abertos, à distância, que dão noção da grandiosidade dessas batalhas…

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GODZILLA (1954) ainda pode ser o melhor exemplar, com sua seriedade e um contexto histórico relevante, e fica evidente que nenhuma das sequências são refinadas em termos de roteiro, narrativa e atuações, como o clássico que deu origem a isso tudo, mas isso não importa muito. Esses filmes são sobre monstros destruindo miniaturas e trocando socos entre si. E a esse respeito, GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER definitivamente não decepciona, especialmente por Honda acertar em cheio ao escalar vários monstros nipônicos para tretarem num único filme, o que acaba por ser um registro importante de uma época onde a imaginação e a inocência eram cruciais para encantar o público. Tá certo que tudo isso não passou de um ensaio para o que estaria por vir, já que em 1968, Honda ainda faria um compêndio de monstros ainda maior, em DESTROY ALL MONSTERS. Mas a gente ainda chega lá.

MOTHRA VS. GODZILLA (1964)

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Mothra é uma mariposa gigante criada pelo estúdio Toho em 1961 num filme que apresentava suas origens e levava seu nome no título, MOTHRA. Ao longo dos anos acabou se tornando um dos mais populares Daikaijus da Toho, perdendo apenas para Godzilla em seu número total de aparições em produções. E já em seu segundo filme, como o título indica, Mothra é colocado para tretar com o Rei dos Monstros em MOTHRA VS GODZILLA!

Se KING KONG VS GODZILLA já foi bizarro o suficiente, como comentei neste post, esperem só para ver a doidera que é MOTHRA VS GODZILLA. A trama é muito simples, mas recheada de elementos esquisitos que me faziam soltar um “pqp” em voz alta a cada revelação estranha que aparecia na tela…

Executivos capitalistas inescrupulosos estão à solta, construindo um resort à beira-mar em algum lugar qualquer do Japão. O filme abre com um tufão que atinge o local com toda a sua fúria e arrasa com os preparativos da inauguração do empreendimento. Quando as coisas se acalmam, um ovo gigantesco é encontrado em terra.

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Os capitalistas perversos não perdem a chance e compram o ovo dos aldeões que vivem na região com a intenção de torná-lo a principal atração do local. Surgem então duas criaturinhas do tamanho de um latão de Itaipava, duas moças minúsculas, que suplicam se poderiam por favor ter seu ovo de volta. Sim, são bem educadas. O repórter Ichiro Sakai (Akira Takarada), a fotógrafa Junko Nakanishi (Yuriko Hoshi) e o professor Miura (Hiroshi Koizumi) são simpáticos e fazem o melhor que podem para convencer aos devotos capitalistas a devolverem o gigantesco ovo. Mas não conseguem…

O artefato veio trazido pelo tufão de uma ilha misteriosa e logo descobrimos que é um ovo de Mothra, a mariposa gigante. A tal ilha tinha sido local de testes de bombas nucleares que naturalmente, ao longo dos anos, produziu todo tipo de coisas estranhas, como mariposas gigantescas e mocinhas em miniatura. Com isso, MOTHRA VS GODZILLA não ia perder a chance de cutucar os causadores de males humanitários, todo o filme é marcado por um monte de propaganda sobre os perigos dos testes atômicos, uma das paranoias recorrentes do período.

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Enquanto isso, do nada, de repente, Godzilla está de volta… Já nem me recordo qual foi o fim que lhe deram em seu último filme, KING KONG VS. GODZILLA, mas o fato é que ele sempre retorna, sempre procurando coisas para pisar e esmagar. O exército tenta de todos os meios possíveis, em vão, parar o réptil gigante jogando o que podem em cima dele, raios elétricos, tanques de guerra que não economizam chumbo, bombas lançadas pela força aérea e até redes gigantescas jogadas sobre o Daikaiju.

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Mas o trio protagonista percebe que apenas Mothra pode salvar a humanidade de Godzilla. E não demora muito, o monstrengo surge nos ares – não o do ovo, este continua quietinho – mas outro, um protetor da ilha radioativa, que encara Godzilla numa batalha daquelas que só o grande diretor especialista em Kaijus, Ishirô Honda, sabia filmar. Foi ele quem realizou o GODZILLA original e também o filme sobre a origem de Mothra… E é difícil imaginar como, em 1964, uma mariposa gigante seria retratada voando e lutando contra Godzilla, mas MOTHRA VS. GODZILLA não poderia estar em mãos melhores.

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Óbvio que não chega no nível do confronto entre King Kong e Godzilla, no filme anterior, também dirigido por Honda, mas é interessante ver como o diretor se vira para tornar a coisa divertida, com uso de stop motion, bom trabalho de câmera, planos sempre abertos, mostrando tudo o que tinha direito e aproveitando ao máximo dos poderes dos dois monstrengos.

Desta vez, Tóquio não é atingida pelo caos e destruição que esses monstros causam quando resolvem trocar desaforos. Mas ainda há estrago suficiente para alegrar os corações dos fãs de filmes de monstros gigantes. Cidades costeiras são devastadas, um complexo industrial é esmagado por Godzilla e o caos generalizado habitual acontece de forma linda. E tudo é muito bem feito, os efeitos especiais são muito bons para o período e o uso de maquete é aquela coisa incrível de sempre.

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E o tal ovo? Bom, lá pelas tantas saem de dentro duas larvas de Mothra que cospem uma teia e ajudam a derrotar Godzilla. Mas a essa altura, a gente já se acostumou com as bizarrices do filme… Ou não…

Aparentemente, há uma versão americana de MOTHRA VS GODZILLA que elimina algumas cenas e acrescentam outras. A que eu assisti é a japonesa mesmo, que é altamente recomendável. Filminho de monstro divertido, bobo mas cheio de momentos memoráveis para os fãs de Daikaiju.