OPERAÇÃO YAKUZA (1974)

O roteiro original de OPERAÇÃO YAKUZA (The Yakuza), de Sydney Pollack, foi escrito por Leonard e Paul Schrader em uma tentativa desesperada de vender algo comercial. Eles estavam falidos e escreveram o roteiro em poucas semanas. Por sua vez, o agente deles conseguiu vender o roteiro, brilhantemente apresentado como uma mistura de O PODEROSO CHEFÃO com Bruce Lee, e os Schraders levaram para casa 300 mil dólares – um recorde de venda de roteiro na época. Robert Towne foi trazido depois só para dar aquela refinada, aquela reescrita marota eficaz com sua voz mais sensível, mas a essência pertence à psique dos Schraders, com um debruce sobre honra errática e disciplina rígida. E que não tem nada a ver nem com O PODEROSO CHEFÃO, muito menos com Bruce Lee…

A trama é centrada, na maior parte do tempo, em Harry Kilmer, interpretado pelo maior de todos, Robert Mitchum, enquanto ele retorna ao Japão para ajudar um velho amigo, George Tanner (Brian Keith), a resgatar sua filha das garras da Yakuza. Eu disse retornar porque Kilmer já tem um histórico no Japão de longa data e muitas pontas soltas para atar… Como, por exemplo, reencontrar a japonesa Eiko Tanaka (Keishi Keiko), que foi o seu grande amor, e encarar seu irmão, Ken Tanaka (o lendário Ken Takakura), que o odeia. Isso leva a uma complexa trama de conflitos internos do personagem de Mitchum, que acrescenta um ingrediente a mais dentro da jornada de violência pelo submundo de Tóquio na qual ele tem que percorrer.

Vários diretores foram cogitados para dirigir OPERAÇÃO YAKUZA e acabaram sendo preteridos ou pulando fora do barco (Frankenheimer, Aldrich, Scorsese), até parar nas mãos de Sydney Pollack, que na época era um dos mais interessantes do cinema americano. Mesmo que pareça uma escolha estranha para este tipo de material, que é um autêntico noir yakuza, um petardo badass, sobretudo depois do sucesso do romance NOSSO AMOR DE ONTEM (1973), com Robert Redford e Barbra Streisand, que o diretor havia lançado um ano antes. Mas Pollack provou que podia transitar perfeitamente entre gêneros e, olhando em retrospecto, é notável como ele contribuiu para definir o modelo de thriller dos anos 70 com filmes como OS TRÊS DIAS DO CONDOR ( 1975). E OPERAÇÃO YAKUZA é um prólogo perfeito para suas habilidades. No entanto, Pollack dizia que não queria fazer um filme de “gênero” do jeito que Schrader imaginou. Por isso a presença de Towne no roteiro, para alinhar as coisas com a visão dramática de Pollack.

E, obviamente, o talento de Pollack para dirigir grandes atores é um diferencial e faz do elenco de OPERAÇÃO YAKUZA um dos destaques. Posso dizer com toda segurança que é uma das grandes atuações de Robert Mitchum. A vulnerabilidade de seu personagem, que tenta posar de durão, raramente foi tão complexa, tão fascinante. Nesse sentido, só deve ficar abaixo de seu desempenho em OS AMIGOS DE EDDIE COYLE, de Peter Yates. Gosto bastante do persoangem de Richard Jordan, um desses rostos frequentes do cinema dos anos 70 que acabou esquecido. Aqui ele faz Dusty, um jovem guarda-costas sensível impressionado pelos códigos de honra japoneses.

Depois há Ken Takakura, uma dos maiores astros do Japão e que mantém sua aura cool intacta durante o filme todo. Não é um personagem que fala muito, mas seu rosto taciturno, de poucas expressões, diz muito mais que palavras. E o homem sabe como manusear uma katana. Juntos, Mitchum e Ken têm uma química que surge do improvável e ganha contornos de tragédia com algumas revelações ao longo da trama. A oferta de Mitchum para o sujeito nos minutos finais do filme é digna de antologia nas carreiras desses dois gigantes do cinema.

Lindamente fotografado por dois diretores de fotografia, Duke Callaghan (nas poucas sequências que se passam nos EUA) e Kozo Okazaki (no restante do filme), OPERAÇÃO YAKUZA também recria fielmente as composições widescreen habituais do cinema japonês. E Pollack aproveita bem tudo que compõe, nos mínimos detalhes, a construção desse universo, seja à nível estético dos ambientes, das ruas, da arquitetura, seja à nível cultural e filosófico. O sujeito tava inspirado por aqui, provavelmente OPERAÇÃO YAKUZA é a melhor produção americana a fazer a ponte EUA-Japão.

Pollack se destaca até mesmo na ação. Temos várias sequências de lutas, tiros, filmadas de forma classuda. A violência é ao mesmo tempo estilizada, mas com um peso dramático realista. Quando alguém é perfurado por uma espada, tremem e murmuram enquanto morrem; conforme membros são cortados, os personagens mostram náusea e repulsa; enquanto as balas voam no caos que é um tiroteio, as pessoas gritam e tropeçam desajeitadamente (é bem provável que Pollack tenha assistido a algum filme de Kinji Fukasaku do período). O confronto final em uma base da yakuza é puro cinema, são quase dez minutos de tensão, com a katana de Takakura fazendo um estrago, enquanto Mitchum distribui bala pra todo lado. Uma das grandes sequências de ação dos anos 70.

Fiquei feliz de saber que o DVD nacional, que foi por onde revi esse filmaço, vem com comentários de Sydney Pollack. Ele demonstra bastante orgulho de OPERAÇÃO YAKUZA e o considera um de seus melhores filmes. Eu não tenho como discordar. É disparado o meu filme favorito do homem.

O DIA DO CHACAL (1973)

Há alguns anos eu devorei todos os livros que consegui encontrar do Frederick Forsyth, um dos maiores escritores de thrillers políticos, na minha opinião. Usando sua experiência como jornalista e correspondente diplomático, o sujeito é muito preciso e detalhista nas tramas que escreve ao mesmo tempo em que consegue criar uma atmosfera tensa que coloca o leitor imerso na história. Lembro que quase perdia os pontos de ônibus que eu precisava descer de tão mergulhado que eu estava quando li O Dossiê Odessa, por exemplo. Enfim, eu não sei analisar literatura, isso eu deixo para outros, então paro por aqui…

Vamos falar de filme. Depois de ler O Dia do Chacal, primeiro romance ficcional de Forsyth, lançado em 1971, fiquei tentado a rever O DIA DO CHACAL (The Day of the Jackal), do diretor Fred Zinnemann e estrelado por Edward Fox e Michel Lansdale. Não com intuito de fazer uma comparação entre livro e filme, mas vislumbrar como Zinnemann transformou esse belo thriller em imagens.

Filme revisto (só tinha assistido uma única vez em VHS há trocentos anos) e, embora não seja lá uma obra espetacular, O DIA DO CHACAL consegue ser, em sua essência, um interessante e mortal, jogo de gato e rato. A trama é basicamente a mesma do livro, com pouquíssimas interferências: No início dos anos 60, com a Argélia recebendo a independência do presidente Charles de Gaulle, a aliança clandestina militante conhecida como Organisation Armée Secrète falha em uma tentativa de assassiná-lo. Em poucos meses, muitos dos conspiradores foram capturados e executados.

Os demais líderes da OAS, sem recursos financeiros, refugiam-se na Áustria e decidem contratar um assassino profissional para fazer o trabalho. E o escolhido é o “famoso” matador conhecido apenas como Chacal (Fox). Famoso entre aspas mesmo, porque a trama é totalmente ficcional e não tem nada a ver com Ilich Ramírez Sánchez, mais conhecido como “Carlos, o Chacal”, esse sim, um famoso mercenário revolucionário. E que curiosamente a alcunha de Chacal foi-lhe dada pela imprensa depois que foi encontrada no seu quarto de Hotel uma cópia de O Dia do Chacal, de Forsyth.

Como disse, a rapaziada da OAS tava sem grana pra bancar um profissional tão caro. Então orquestrou vários assaltos a banco para cobrir a taxa de meio milhão de dólares para que Chacal cumprisse sua missão de matar De Gaulle. Depois de capturar e interrogar um membro da OAS, as autoridades francesas descobrem a existência do assassino e, suspeitando que outro atentado à vida de De Gaulle possa ser iminente, colocam o comissário Claude Lebel (Lonsdale) em seu encalço. E a trama de O DIA DO CHACAL torna-se uma verdadeira caçada humana, com o Chacal se movendo pela Europa, arquitetando seu plano, usando disfarces e falsas identidades, enquanto Lebel tenta seguir os seus passos.

É o tipo de filme que persuade seu público a ficar em cima do muro em relação a essas figuras. Por mais que queiramos ver o Chacal frustrado por Lebel, é impossível deixar de admirar o assassino enquanto seu plano meticuloso e aparentemente infalível se concretiza. Deve-se, em grande parte, às atuações de ambos atores principais. Edward Fox, em seu primeiro grande papel, tem muita presença em cena, com semblante de um cavalheiro inglês imperturbável, com um sorriso cativante, sedutor, mas frio o suficiente para matar qualquer um que se coloque em seu caminho. O contraponto é Lonsdale como o policial corpulento e astuto, que mantém sua aura serena intacta, mesmo com a pressão que vem dos superiores.

Fred Zinnemann é um diretor competente, mas nunca me despertou muito entusiasmo. Mesmo seus filmes mais conhecidos e premiados costumam ficar na média do padrão, sem grandes inspirações. A exceção talvez seja MATAR OU MORRER, dentre os que vi, e mesmo assim tá longe de ser dos meus faroestes favoritos. Mas aqui Zinnemann abraçou o projeto e fez escolhas acertadas em benefício do seu filme, como vetar a escolha de Sir Roger Moore (e outros nomes) como Chacal e escolher Fox, que não era tão famoso. Ou a decisão de não utilizar trilha sonora durante praticamente todo o filme, o que privilegia a fotografia de Jean Tournier com uma atmosfera que carrega um senso de realismo semi-documental nas jornadas de Chacal e Lebel. Além disso, Zinnemann manda bem em manter a tensão em boa parte da projeção: o simples ato de acompanhar Chacal em atividade, com seus procedimentos detalhistas, na sua determinação em cumprir sua missão de forma meticulosa, e o rastro de morte que deixa pelo caminho, torna-se um prazer ao espectador.

Não há grandes momentos espetaculares em O DIA DO CHACAL. Mas temos um final bem orquestrado, dentro das limitações de Zinnemann como diretor, no meio do desfile do Dia da Libertação, na Champs-Élysées. Há um tom anti climático, mas que é eficiente, com Lebel tentando inutilmente localizar o assassino enquanto o Chacal se posiciona para dar o tiro mortal com seu rifle customizado. A propósito, essas cenas foram filmadas durante um desfile real e várias pessoas na multidão podem ser notados olhando diretamente para a câmera enquanto Lonsdale se move entre elas.

O DIA DO CHACAL é realmente um bom filme, sobretudo à quem interessa por thrillers policiais classudos dos anos 70. Claro que, pensando nos diretores já veteranos do período, fico imaginando esse material nas mãos de um Richard Fleischer, John Huston, Robert Aldrich, até de um John Frankenheimer (que chegou a demonstrar interesse pelo projeto)… Provável que teríamos uma obra-prima. Infelizmente não temos, mas é um belo thriller. Já o livro do Forsyth é sensacional. Fica a recomendação.

Em 1997, saiu O CHACAL, adaptação atualizada do livro de Forsyth, que não quis ter seu nome associado à produção. Foi dirigido por Michael Caton-Jones, que também não é lá nenhum mestre, mas não faz feio. E tem um bom duelo entre Richard Gere e um Bruce Willis atípico na época, numa ousada atuação encarnando o Chacal. O elenco ainda tem boas performances de Sidney Poitier e Diane Venora. Não é um grande filme, muita gente caiu matando, mas tenho simpatia. Desses produtos estranhos dos anos 90 que me divertem. Qualquer hora dessas eu revejo e comento por aqui também.

TRANS-EUROP-EXPRESS (1966)

Segundo longa de Alain Robbe-Grillet como diretor, depois de L’IMMORTELLE (1963), embora já fosse famoso no período como o roteirista de O ANO PASSADO EM MARIENBAD (1961). E assim como no filme de Resnais, TRANS-EUROP-EXPRESS é um desses experimentos com a narrativa e com nossas percepções. O que temos aqui é um filme de Alain Robbe-Grillet chamado TRANS-EUROP-EXPRESS sobre um roteirista/diretor interpretado por Alain Robbe-Grillet que está planejando um filme chamado TRANS-EUROP-EXPRESS.

Calma, explico: Três pessoas embarcaram na linha Trans-Europ-Express em Bruxelas, são figuras ligadas a cinema (um produtor, um roteirista/diretor e uma roteirista), e começam a trabalhar em ideias para seu próximo projeto. Será um filme chamado “Trans-Europ-Express”, um thriller, com premissa ambientada no trem. Quando eles notam o astro de cinema francês Jean-Louis Trintignant no mesmo vagão, decidem que ele fará o papel principal, de um traficante de drogas chamado Elias. E a partir daí somos colocados numa posição na qual realidade e “fantasia” vão se cruzando. É o ator Jean-Louis Trintignant que estamos acompanhando ou Elias, o traficante de drogas?

Dos três indivíduos ali imaginando o filme – que de forma instantânea assistimos – o produtor é interpretado por um dos produtores reais de TRANS-EUROP-EXPRESS, o roteirista/diretor é o próprio Alain Robbe-Grillet e a roteirista é encarnada por sua esposa, Catherine Robbe-Grillet. De vez em quando decidem que uma determinada cena não funciona, então a cena que acabamos de assistir é descartada. As cenas também são revisadas. A história muda conforme assistimos.

É uma ideia interessante, uma trama de pistas falsas, não há certeza de quem está jogando e quem está sendo manipulado. Elias precisa comprar uma mala vazia e depois trocá-la por outra, contendo drogas. Mas ele acaba pegando uma mala sem a mercadoria… A gangue para a qual ele trabalha está testando-o. Ele recebe uma arma, mas não pode usá-la. Recebe uma série de instruções enigmáticas que o levam a percorrer toda a cidade da Antuerpia. Mais malas aparecem e desaparecem. Senhas misteriosas são trocadas.

Uma das malas contém os pertences pessoais de Elias, coisas que ele leva consigo quando viaja. Uma escova de dentes, navalha, seu pijama e… Uma corda e corrente. Estamos num filme de Alain Robbe-Grillet, então é óbvio que Elias carrega uma corda e uma corrente. Elementos sadomasoquistas são encontrados em todos os filmes e livros escritos por Robbe-Grillet e refletem seus próprios gostos e os de sua esposa (que era dominatrix e foi a autora de alguns dos mais famosos romances S&M). Em TRANS-EUROP-EXPRESS isso não é diferente e não surpreende quando temos situações e diálogos como, por exemplo, quando Elias conhece uma jovem prostituta chamada Eva (Marie-France Pisier). Ela o convida a ir para sua casa e ele diz que não está interessado em sexo, só está interessado em estupro. Ela garante que não haverá problema, mas terá um custo extra. Sorte que ele tinha as correntes e a corda com ele.

Durante a trama de TRANS-EUROP-EXPRESS, Elias não sabe em quem confiar ou para quem exatamente está trabalhando. O espectador também não sabe. E nem mesmo os três cineastas que estão criando a história, já que estão escrevendo no decorrer do processo. Um personagem pode ser um membro de uma gangue, mas eles podem mais tarde decidir que ele é na verdade um policial. Os desempenhos não são muito convencionais, se alternam entre o teatral, ou bastante monótonos, ou são exagerados… Porque, afinal, os roteiristas ainda não decidiram sobre as personalidades. Trintignant desempenha seu papel como uma marionete, fazendo a si mesmo, que interpreta um traficante de drogas numa trama que está sendo desenvolvida em tempo real…

Como a maioria dos filmes de Robbe-Grillet, TRANS-EUROP-EXPRESS contém uma porção generosa de excentricidade. Há algumas ceninhas de nudez, alguns elementos de submissão feminina, imagens que têm apelo e ajudam nas bilheterias (e que conseguiu fazer com que o filme fosse banido no Reino Unido). A sequência da dançarina nua no palco giratório (filmada no lendário cabaré Crazy Horse em Paris) é particularmente curiosa e, para os padrões de 1966, deve-se dizer que ela revela uma quantidade boa de pele nua. O tipo de coisa que tornou os filmes e a literatura de Robbe-Grillet polêmicos. Só pra ter uma noção, o livro mais perturbador que já li na vida foi escrito por Robbe-Grillet: Um Romance Sentimental, lançado em 2007. Depois de ler esse livro, nada mais te choca. No caso de TRANS-EUROP-EXPRESS a coisa ainda é branda e funciona, adicionando um toque extra de estranheza e surrealismo. Um filme em que todas as obsessões de Robbe-Grillet se juntam com sucesso sem chocar. Pelo menos para o público atual…

Embora TRANS-EUROP-EXPRESS compartilhe um pouco de alguns temas com L’IMMORTELLE, que eu preciso rever, ele também marca uma mudança de direção no tom – é um filme muito mais divertido, mais bem humorado e exuberante em comparação com seu filme de estreia. Robbe-Grillet está se divertindo e parece querer que o espectador também aproveite o filme e os procedimentos desse “projeto em andamento”. Vale uma conferida.

Netflix: SEM PERDÃO (2017)

A qualquer hora dessas eu precisava chegar no diretor ex-dublê Ric Roman Waugh, um sujeito que há tempos me parece ser desses talentos subestimados a ser descoberto no cinema americano. Único filme de Waugh que tinha visto até agora era FELON, de 2008, um drama de prisão com Val Kilmer e Stephen Dorff bem melhor que o esperado. E que guarda algumas semelhanças com SEM PERDÃO (Shot Caller), seu filme de 2017 que está na Netflix há um tempão e adiei pra caramba, mas finalmente conferi essa semana. Sob a insistência também do meu velho companheiro de Cine Poeira, Osvaldo Neto (que foi quem me apresentou também FELON na época).

Waugh começou a dirigir ainda nos anos 90, e tem até filme com o Dwayne “The Rock” Johnson, O ACORDO. Mas SEM PERDÃO que parece ter sido seu grande trunfo na carreira. Logo depois se reuniu com o ator Gerald Butler já rendendo duas produções mais abastadas, ANGELS HAS FALLEN (que já é a terceira parte de uma franquia de ação iniciada com INVASÃO À CASA BRANCA, de 2013) e GREENLAND. Não vi nenhum dos dois ainda, mas aparentemente vem mais coisas da dupla por aí… E depois de ver SEM PERDÃO e perceber que o cara é bão mesmo, vou atrás desses aí.

Sobre SEM PERDÃO, a trama começa com a liberdade condicional de um condenado chamado “Money” (o dinamarquês Nikolaj Coster-Waldau, que ficou mais conhecido pelo seu papel em GAME OF THRONES). O filme segue suas atividades pós-prisão, que inclui a sua participação em uma negociação de armas militares russas roubadas do Afeganistão, e intercala a narrativa com flashbacks de sua antiga vida e como acabou na situação que está.

Dez anos antes, “Money” era Jacob Harlin, um corretor da bolsa de sucesso, pai de família honesto, com uma esposa (Lake Bell) e um filho pequeno. Depois de jantar fora com um casal de amigos, Jacob se distrai no volante com uma conversa e fura o sinal vermelho causando um baita acidente. Seu amigo no banco de trás acaba morrendo e desde que tomou umas duas tacinhas de vinho, acaba acusado por homicídio culposo. Faz um acordo judicial e é condenado a um par de anos, mas a partir do momento em que pisa na penitenciária, a realidade é outra. É um universo paralelo cujo sistema transforma o indivíduo da pior maneira, como já vimo em muitos filmes por aí. E para garantir a sua segurança, Jacob se alinha com uma gangue de supremacistas brancos. E logo está transportando drogas lá onde o sol não brilha e até matando sob ordens dos líderes da gangue.

Depois de se envolver em um motim, sua sentença é estendida, a coisa complica, e ele constrói um muro ao seu redor, cortando o contato com o mundo exterior, incluindo sua esposa e filho. Mas agora ele está livre. Quero dizer, livre em partes, porque o sistema sai com ele. E a conexão com certos poderes que fez na prisão, sobretudo com um sujeito chamado The Beast (Holt McCallany), um influente chefão da porra toda, não vai deixar o cara sair e fazer o que quiser. Ele ainda faz parte da “família”, querendo ou não.

Parece um melodrama de prisão padrão, mas além de evitar cair na armadilha do proselitismo, Waugh constrói SEM PERDÃO como um surpreendente e amargo estudo de personagem, sobre um homem que descobre da pior maneira possível o estrago que o sistema prisional faz a um indivíduo. E que precisa usar de todos os meios, morais e amorais, para permancer vivo – e manter os seus a salvo.

E o principal motivo de tudo funcionar tão bem é Coster-Waldau num personagem forjado com grandeza detalhista e trágica, e a atuação poderosa do sujeito, uma das melhores performances dos últimos anos no cinema americano e que passou completamente batido por quase todo mundo. No elenco, além dos já citados, ainda temos Jon Bernthal, Jeffrey Donovan e uma pequena participação de Benjamin Bratt com um bigodão.

Não fosse uma gordurinha aqui e a ali (o filme perde muito tempo com o personagem do policial da condicional vivido por Omari Hardwick) SEM PERDÃO talvez merecesse ainda mais elogios. Mas é um grande filme, desses que poderia ser mais conhecido e lembrado. Acho que a rapaziada que está familiarizada com tipo de filme que prezamos aqui no blog vai curtir. E ainda dá tempo. Tá na Netflix pra quem quiser ver.

INFILTRADO (2021)

Existem dois diretores Guy Ritchie na minha opinião, aquele que surgiu lá nos anos 90 como uma imitação britânica de Quentin Tarantino, fazendo crime movies envolvendo o univero da máfia e o submundo das gangues na Inglaterra, e temos aquele que pro final dos anos 2000 começou a fazer super produções sob a batuta de grandes estúdios. Não acho nenhum dos dois grandes diretores, mas o “primeiro” Guy Ritchie pelo menos me agrada, faz um trabalho bacana, rendendo uns filminhos divertidos como SNATCH, PORCOS E DIAMANTES, REVOLVER e, mesmo tendo Tarantino como influência óbvia, era autoral. Enquanto o “segundo” Guy Ritchie só entregou produtos genéricos e/ou medíocres como a franquia SHERLOCK HOLMES e REI ARTHUR (o seu ALLADIN eu não quis nem arriscar). A exceção talvez seja THE MAN FROM U.N.C.L.E., que é legalzinho.

INFILTRADO (Wrath of Man) é o novo trabalho do homem. Do, ainda bem, “primeiro” Guy Ritchie. O que não quer dizer que temos um filme genial ou algo parecido. Mas é um thriller de ação decente, pra sentar no sofá com os pés pra cima, tomando aquela coca-cola gelada enquanto assiste de boas… Trata-se do remake de um filme francês de 2004 chamado LE CONVOYEUR, que menciono só pela informação. Não vi, então nem me proponho a fazer comparações.

Aqui temos Jason Statham interpretando H, um homem que é contratado para dirigir carros-fortes cheios de dinheiro que estão constantemente sendo roubados. Ele posui um background violento que vai sendo revelado aos poucos no decorrer de uma narrativa cuja estrutura é toda costurada, cheio de flashbacks e personagens secundários, como é característico do diretor, mas para todos os efeitos é um filme mais centrado numa trama de vingança protagonizada pelo personagem de Statham. É também uma obra mais sombria e moralmente ambígua na maior parte do tempo, deixa de lado o humor peculiar pelo qual os filmes de Ritchie também são geralmente conhecidos.

A medida que INFILTRADO avança, a coisa vai ficando mais interessante, com algumas boas sequências de ação e um clima tenso que se constrói no último ato, uma sequência de assalto à central dos carros-fortes. Embora tenha um bocado de gordura que poderia ser eliminada e não acrescente nada ao gênero, é um filme sólido e que conseguiu ao menos me prender. Gosto do Statham, ainda que fazendo mais do mesmo por aqui, o elenco ainda tem Josh Hartnett, Holt McCallany, uma pequena participação de Andy Garcia e vários rostos reconhecíveis. O destaque vai para o filho do Clint, Scott Eastwood, que já provou que nunca vai chegar aos pés do pai, mas que em determinados tipos de papéis pode funcionar muito bem, como é o caso aqui.

Enfim, INFILTRADO tá longe de ser o meu favorito do diretor, mas fico feliz que aos poucos Guy Ritchie tem priorizado ser aquele “primeiro” diretor que mencionei lá em cima, fazendo esses filmes menores de ação e crime… Inclusive, seu trabalho anterior, THE GENTLEMEN, não é nada especial, mas também não foi nada mal. Claro que o primeiro estúdio que balançar uns milhões de dólares na sua frente o sujeito não vai resistir de fazer uma super produção, mas espero que não deixe de continuar voltando às origens de vez em quando.

Agora fiquei com vontade de conferir o filme original…

Infelizmente, não faço ideia se INFILTRADO já tá diponível em algum streaming por aqui…

MEDO X (2003)

Esse era o único filme do dinamarquês Nicholas Winding Refn que me faltava. Resolvi essa questão, assisti finalmente MEDO X (Fear X), primeiro filme de língua inglesa do diretor, um trabalho menos reverenciado do cara, menos até que seus filmes realizados na Dinamarca, PUSHER (96) e BLEEDER (99), mas que, na verdade, trata-se de uma experiência atmosférica e sensorial forte. A gênese do tom e estilo que Refn faz atualmente em filmes como ONLY GOD FORGIVES (13), THE NEON DEMON (16) e na série TOO OLD TO DIE YOUNG (19), com sua câmera onipresente, ritmo moroso, estética carregada e que possui uma performance grandiosa de John Turturro, coisas que transformam isso aqui em algo fascinante.

Ainda não tão hiperestilizado quanto os novos Refn’s, substituindo as paletas de cores vibrantes por corredores sujos e paisagens infernais e sombrias, Refn mal move a câmera em MEDO X, a mantém estática, muitas vezes em ressonância com a imobidlidade de Harry (Turturro), enquanto ele se senta em silêncio avançando pelas fitas VHS de segurança na esperança de encontrar pistas sobre o assassinato de sua esposa.

Uma vez que Turturro se aprofunda no coração do mistério, fazendo check-in em um hotel avermelhado que parece saído de um filme de David Lynch, o clima vai ficando mais pesado, a atmosfera dos quartos e corredores apertados se tornam as paredes da mente de Turturro, onde frequentemente o filme adentra e revela uma bolha vermelha com um rosto protuberante desesperado para escapar, além de manchas e imagens abstratas… Já disse que o filme lembra muito Lynch? O significado desse tipo de coisa eu não sei, mas em conversa com meu amigo Osvaldo Neto, do Cine Poeira, a conclusão é que a intenção é foder com a nossa mente mesmo… E consegue.

É uma pena que na metade de MEDO X o roteiro resolva sugerir algumas exposições. Preferia ficar mais tempo no escuro com o mistério. A primeira metade, onde as coisas não estão muito claras nem para o personagem do Turturro em sua busca, é absolutamente brilhante. Tantas perguntas, tantas cenas arrepiantes sem respostas. O filme não fica ruim, mas assim que a trama deixa a busca de Harry e nos apresenta ao personagem de James Remar, que está ótimo, dá uma quebrada no andamento e ficamos sabendo demais, estamos um passo à frente de Harry e o mistério dá uma diluida.

O filme entra no eixo novamente para um “gran finale“. Mas, claro, ao estilo do Refn, anti-clímax, quebrando qualquer expectativa. Do tipo que te prepara para algo espetacular e te joga um balde de água fria. Para quem já está familiarizado com o cinema de Refn, a coisa pode funcionar melhor. Mas esse final realmente é um ponto bastante discutível entre os detratores do filme. Eu, particularmente, adoro o desfecho e em como isso acentua a lógica do filme ser mais sobre a obsessão do protagonista por resposta do que a resposta em si.

E não vou dizer que MEDO X foi uma bela surpresa, porque eu sempre espero algo de alto nível do diretor, que é dos meus favoritos em atividade. Mesmo num trabalho de início de carreira. E o cara evoluiu bastante de lá pra cá, mas este aqui não deixa de ser um experimento admirável e muito imersivo, um interessante thriller psicológico. Infelizmente, foi um fracasso e levou a produtora de Refn à falência. O sujeito só foi recuperar a grana com o sucesso das duas continuações de PUSHER, que são outras pérolas da filmografia do dinamarquês.

O BURACO DA AGULHA (1981)

Sugestão bem-vinda de um leitor – valeu, mister Antonio Manuel – uma vez que eu nunca tinha visto O BURACO DA AGULHA (EYE OF THE NEEDLE), apesar da curiosidade que tinha de saber como haviam adaptado o clássico best-seller de Ken Follett, que é daqueles thrillers literários de Segunda Guerra dificil de desgrudar os olhos durante a leitura. O filme até que não decepciona nesse sentido também, tem boa dose de tensão e ainda mistura uma faceta romântica que, se não é totalmente acertada, tá bem longe de ser um desastre. Foi dirigido pelo grande Richard Marquand, que é mais lembrado por ter sido a escolha de George Lucas para comandar O RETORNO DE JEDI justamente pelo seu trabalho por aqui (e por não fazer parte do Hollywood director’s union que andava dando dor de cabeça para Lucas).

Donald Sutherland vive aqui um frio e calculista espião nazista chamado Henry Farber e conhecido pelo codinome “Agulha” – por conta da sua arma favorita, uma faca com esse formato que utiliza sem piedade em qualquer um que interfira nos seus planos. Durante uma de suas missões no Reino Unido, descobre que os aliados construíram um imensa base militar fake para passar a ideia de uma futura invasão de tropas na França pelo Pas-de-Calais – sendo que o plano verdadeiro é o desembarque na Normandia. Farber, fornecido com evidências suficientes para desmascarar a farsa, deve ir de encontro a um submarino que o levará de volta à Alemanha para entregar as evidências em mãos à Hitler. Mas ao tentar chegar ao ponto de encontro, seu pequeno barco naufraga durante uma tempestade e o sujeito acaba em uma ilha quase deserta onde um casal o acolhe.

A primeira parte de O BURACO DA AGULHA é quase uma perseguição ininterrupta, um jogo de gato e rato entre Farber e a Scotland Yard. Serve também para demonstrar a habilidade e a natureza do assassino implacável que é o espião. Vemos o sujeito manipular a todos, aumentar o número de corpos por onde passa e manter-se sempre um passo à frente da polícia, que o rastreia pela Inglaterra após a descoberta das reais coordenadas do desembarque. Sutherland está genial e encontra aqui um de seus melhores personagens, a de um aterrorizante espião nazista cuja toda caracterização construída na primeira parte contribui para torná-la mais dramática na segunda metade do filme.

Sua tentativa de fuga o leva à Ilha de Stirm, onde ele conhece Lucy (Kate Nelligan), uma mulher solitária, casada com um oficial deficiente (por conta de um acidente de carro ocorrido logo depois de se casarem), encarnado por Christopher Cazenove. A coisa esquenta a partir daqui, conforme Farber, o nazista até então insensível e uma autêntica máquina de matar, começa a demonstrar lapsos e falhas ao se apaixonar e se entregar – sem revelar a essência de suas atividades. E Lucy não dificulta em nada a aproximação do visitante.

Kate Nelligan se opõe a imponência de Sutherland com uma presença frágil, mas determinada, o que tornará o embate final dos dois menos desequilibrado do que parece. Nesse ponto, no entanto, o filme fica meio perdido entre construir uma história romântica que acaba não se sustentando muito, mas que pra nossa sorte é regularmente interrompida pelas ações de Faber na sua tentativa de ainda alcançar o submarino, o que inclui mais assassinatos, como a que acontece no topo de um penhasco. Mesmo desequilibrado, o filme nunca se desfaz de sua tensão latente.

Mas O BURACO DA AGULHA retorna nos eixos quando a identidade do espião é revelada e o suspense beira ao Hitchcockiano, com as duas personagens tentando esconder suas descobertas e falsas pretensõe um do outro. E em seguida, desenrola uma caçada humana pela ilha onde os papéis acabam se invertendo. A frágil Lucy endurece sob o peso da ameaça de Farber, que agora apaixonado é incapaz de usar as habilidades assassinas exibidas desde o início do filme. O final é uma sequência tão tensa e violenta (com o direito a Lucy cortando os dedos de Farber com um machado) quanto carregada de emoção.

E é preciso muita sutileza dos atores para conseguir convencer de toda essa carga dramática na situação entre eles. E tanto Sutherland quanto Nelligan dão conta. No elenco, ainda temos um monte de rostos conhecidos do cinema britânico, como David Hayman, Ian Bannen, Rupert Frazer, Stephen MacKenna e outros.

A fotografia de Alan Hume é excelente, tende para as sombras, tons escuros, para imagens sombrias o que deve ter sido uma desgraça nas versões em VHS da época, com as nuances da iluminação se perdendo, preto e cinza se misturando. Hoje já temos transferência de Blu-ray, foi lançado lá fora pela Twilight Time, que é a versão que assisti e a imagem é impecável, com atenção aos detalhes em termos de contraste e paleta, o que contribui demais para a atmosfera, pro thriller bastante sólido que é esse O BURACO DA AGULHA, perfeito para uma noite escura e tempestuosa. Marquand – que tem bom olho para o suspense, para os personagens, dirige tudo de forma segura – e seu roteirista, Stanley Mann, fizeram um trabalho fantástico em capturar a essência do best-seller, enquanto os atores dão vida aos personagens criados por Follett. Recomendo tanto o filme quanto uma leitura no livro.

O SILÊNCIO DO LAGO (1988)

O SILÊNCIO DO LAGO (Vanishing, no título em inglês, ou Spoorloos, no original em holandês) é um bom ponto de partida para conhecer a obra do diretor George Sluizer. Não que ele seja um diretor essencial para se conhecer, mas vai que alguém se interesse… No entanto, O SILÊNCIO DO LAGO, esse sim, vale a pena. É seu filme mais famoso e fez um baita sucesso internacional no período, ganhou status cult e chegou a ter um remake americano em 1993, dirigido pelo próprio Sluizer e que ainda não vi, mas aparentemente não conseguiu o mesmo resultado (cometeu o velho pecado de mudar o final original para um mais otimista…).

O filme é uma divagação sobre considerar a vida cotidiana salva e segura até que seja alterada por uma desgraça em um único instante. Saskia (Johanna der Steege) não esperava encontrar Raymond Lemorne (interpretado pelo falecido Bernard-Pierre Donnadieu) em um ponto de parada de uma rodovia lotado de viajantes. Ela não esperava encontrar um homem que se descobriu psicopata ainda jovem e passou anos ensaiando o momento em que sequestraria uma mulher aleatória. Lemorne exibe o verdadeiro mal, mas consegue esconder sob a pele de respeitável empregado de classe média, casado com uma esposa devotada e duas filhas. Depois de várias tentativas fracassadas, o sujeito consegue drogar e sequestrar uma mulher – que por acaso é Saskia. O que ele planeja fazer com sua vítima após o sequestro é um segredo sabiamente mantido do público até os momentos finais do filme.

O namorado de Saskia, Rex (Gene Bervoets), é um pouco ingênuo no início, mas quando Saskia simplesmente desaparece debaixo do nariz de dezenas de pessoas, dá-se início ao seu processo de transformação. O SILÊNCIO DO LAGO também é sobre violência inesperada e aleatória que pode acontecer em qualquer lugar – até mesmo em uma loja de conveniência visivelmente “segura” em um posto de gasolina lotado de famílias no meio do dia. É assustador. E a forma como Sluizer conduz tudo isso é algo belo, de alto calibre, desde a tensão inicial da sequência do túnel, passando pelo jogo de gato e rato entre Rex e Lemorne, até o aterrorizante final – quando Rex faz uma aposta arriscada para descobrir o que realmente aconteceu com Saskia.

Stanley Kubrick chamou O SILÊNCIO DO LAGO de o filme mais assustador que ele já tinha visto e procurou Sluizer para discutir como ele editou o filme. O que faz bastante sentido, já que o suspense é todo construído sobre a necessidade de saber o que realmente aconteceu com a moça sequestrada. O que deve ter causado um bocado em Kubrick, um homem que claramente tinha uma curiosidade voraz. E assim como seu sequestrador, O SILÊNCIO DO LAGO é cuidadoso com suas revelações, aumentando a tensão em um ritmo desconfortável e lento, mas deveras perturbador. Sluizer usa essa curiosidade do público como uma arma à seu favor, criando um vínculo simpático com Rex e uma fascinação obsessiva por Lemorne. E a conclusão é sem dúvida um dos finais mais enervantes do cinema de horror dos anos 80.

ALONE (2020)

Para quem se interessou minimamente pelo cinema de ação dos últimos quinze anos, o nome JOHN HYAMS deveria soar familiar. Filho do diretor Peter Hyams (OUTLAND, CAPRICÓRNIO UM), o sujeito entrou na cena com alguns dos melhores e mais ousados exemplares recentes do gênero: as continuações altamente badasses de SOLDADO UNIVERSAL, contando ainda com a presença dos atores originais, Van Damme – com quem seu pai havia trabalhado nos anos 90 (TIMECOP e MORTE SÚBITA) – e Dolph Lundgren. Davam a impressão de bons cartões de visitas de Hyams para abocanhar projetos mais ambiciosos, talvez sob a batuta de algum grande estúdio. Talento e potencial o cara demonstrou. Mas acabou não acontecendo…

Apesar da positiva recepção que seus filmes de ação tiveram, Hyams passou os anos seguintes na televisão, produzindo e dirigindo uma série de zumbis, Z NATION, e seu spin-off na Netflix, BLACK SUMMER. Seu longa seguinte só foi sair em 2018, uma comédia que passou batida e quase ninguém viu, chamada ALL SQUARE. Eu mesmo não parei pra ver… E aparentemente o cara tava se afastando de tudo o que queríamos dele.

No entanto, eis que nesse estranhíssimo ano de 2020, John Hyams está de volta. Tá certo que ainda não é com algo exatamente na mesma linha dos seus filmes de ação, infelizmente, mas ao menos ele retorna com um material bem interessante, que é ALONE, um pequeno survival horror film muito bem executado, demonstrando que o sujeito não perdeu a mão.

Na trama temos Jessica (Jules Willcox), uma mulher se mudando para sua cidade natal para recomeçar após uma tragédia em sua vida. Acaba tendo uns transtornos com um carro preto na rodovia, dirigindo agressivamente e aparentemente a seguindo. Eventualmente, ela conhece o motorista do carro (Marc Menchaca), que está tentando ser legal, parece inofensivo, mas continua aparecendo nos lugares que Jessica encosta o seu veículo. O que acaba não sendo muita coincidência. O Homem realmente tem planos nada agradáveis pra ela… Até que a moça finalmente sai da estrada por conta de um pneu misteriosamente furado e o sujeito aproveita pra aparecer e deixar suas intenções bem claras. Agora, Jessica terá que retirar forças sabe-se lá de onde para sobreviver tanto dos perigos da floresta quanto do homem que certamente a matará se tiver a chance. Vai enfrentar frio, chuva, ferimentos, a ameaça de um psicopata, tudo isso enquanto sua própria vida já está em pedaços.

Composto por uma série de blocos, cada um com seu próprio título e particularidades diferentes, ALONE não é o tipo de filme que vai reinventar a roda, não vai jogar uma nova luz de genialidade ao gênero ou subverter suas convenções. É basicamente mais uma trama de sobrevivência como milhares que existem por aí. A diferença é que é feito com tanta habilidade, personalidade e confiança que acaba se destacando da concorrência. É ter um diretor do calibre de Hyams por atrás das câmeras, que pega esse material tão manjado e transforma em puro prazer visual, em um exercício formal despojado (uso criativo do foco, das lentes, da luz, dos espaços), consegue criar uma experiência realmente tensa e exaustiva.

O trabalho com o elenco também é muito bom. Ambos atores centrais, Willcox e Menchaca, chamam a atenção (não conhecia nenhum dos dois). Mas ainda temos uma participação mais que especial do grande Anthony Heald (O SILÊNCIO DOS INOCENTES).

No entanto, é um filme que realmente pertence a Willcox. Seguimos cada movimento de sua personagem do início ao fim, sentimos o esforço de continuar lutando, continuar sobrevivendo. É uma mulher a princípio perdida emocionalmente (ficamos sabendo mais tarde os motivos de sua desestabilização), que se transforma e demonstra uma força interior real. E Willcox se entrega no papel com uma expressividade no olhar muito forte. E o público realmente torce por ela, como se estivesse na mesma situação. Quando chega o confronto final entre Jessica e seu caçador, sente-se como se estivesse dando cada soco, cada chute por ela…

E essa sequência é um deleite, quase dá pra matar a saudade do cinema físico que Hyams realizou no início da carreira…

Em última análise, ALONE lança um olhar para o horror de ser uma mulher que é assediada e atacada por um homem. Mesmo antes de as coisas se tornarem ameaçadoras, o Homem (que não tem nome no filme, sua identidade não importa) não a deixa em paz, apesar de seus pedidos para que o fizesse. É só uma questão de tempo, demonstra o filme, até que a coisa descambe para a violência.

Altamente recomendado, ALONE é desses filmes a não se perder este ano. E esperamos que John Hyams não demore pra vir com mais surpresas como essa. Quem sabe aquele projeto da refilmagem de MANIAC COP, com a produção do Nicolas W. Refn, que haviam anunciado há uns anos?

A CONVERSAÇÃO (1974)

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Fazia uns vinte anos que assisti A CONVERSAÇÃO (The Conversation), de Francis F. Coppola. A única assistida, aliás, num VHS de locadora… Não sei porque nunca mais revi, mas é desses filmes que eu senti que não precisaria de uma revisão tão cedo, tamanho foi o impacto. Mas vinte anos já é demais, então hoje resolvi revisitar e continua uma belezura…

A CONVERSAÇÃO de vez em quando é lembrado como o filme que o Coppola dirigiu entre os dois primeiros PODEROSO CHEFÃO. E talvez até tenha sido prejudicado ao sair espremido no meio desses dois mastodontes cinematográficos (saiu inclusive no mesmo ano de CHEFÃO II e ambos foram indicados a melhor filme no Oscar)… Mas não consigo ver outro momento tão ideal para o filme ser lançado. Um filme tão enraizado dentro do seu contexto, praticamente um emblema do cinema político paranóico dos anos 70, num cenário que o escândalo de Watergate estava deflagrando… E é aí que testemunhamos o trabalho diário de Harry Caul (Gene Hackman), um especialista em escutas, que atua como freelancer para espionar quem quer que seja. E o cara é realmente bom naquilo que faz. Consegue captar uma conversa particular a 200 metros e obter uma representação perfeita dos diálogos. Na sua missão atual, ele ouve uma conversa meio perturbadora.

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A CONVERSAÇÃO, assim como todo o “movimento” do cinema da Nova Hollywood, é fortemente influenciado por cineastas europeus, e neste caso específico, Michelangelo Antonioni e seu BLOW UP, de 1966 – que trata de um fotógrafo que acredita ter capturado um assassinato no fundo de uma de suas fotos. Em A CONVERSAÇÃO, Harry acredita que a conversa que ele gravou – aparentemente um caso habitual de traição – pode ser evidência de um próximo assassinato, e fica obcecado com o que ouve na fita, analisando cada inflexão vocal para tentar descobrir quais os significados por trás das palavras.

À medida que as correções de Harry são feitas no som, a imagem do casal é mostrada para nós, remontada, com ângulos ligeiramente diferentes, cada vez destacando um pequeno detalhe que nos escapou e que vai se resignificando. Lembra também John Travolta em UM TIRO NA NOITE, de Brian De Palma, que por sempre “assistirem a mesma cena”, constantemente ouvirem os mesmos sons, eles acabam contaminando completamente esse universo, e daí em diante surge a fantasia, o que culmina, em A CONVERSAÇÃO, num final magnífico, cuja obsessão paranóica de Caul se transforma em tortura íntima e moral. Em questionamento ético.

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A visão da sociedade, quase kafkaniana é terrível, visionária e completamente atual, no qual a sociedade está sob vigilância, que a esfera privada foi pulverizada pela obsessão pela segurança. E Coppola sabe como fazer tudo isso minar numa impressionante estrutura formal e narrativa de suspense. E isso talvez seja uma das coisas mais legais em A CONVERSAÇÃO, uma obra que trata sobre esses assuntos relevantes sem deixar de lado os aspectos do suspense. É um baita thriller atmosférico e psicológico, que não dá muitas alternativas para o seu protagonista, que acaba trancado em sua própria armadilha, afundado na paranóia que ele próprio ajudou a criar.

Acho que vale ainda destacar a construção de Harry Caul, um desses personagens que acaba se tornando o seu ofício. Mas uma das grandes sacadas de A CONVERSAÇÃO é permitir que o personagem expresse dilemas e dúvidas morais durante cenas de intimidade, no confessionário de uma igreja ou diante de uma mulher compassiva. Caul se ressente de várias coisas, sem admitir completamente, e vai-se desenhando um personagem atormentado, que tem dificuldade em assumir moralmente as consequências de seu trabalho. Especialmente para quem possui uma fé religiosa, como é o caso de Harry, que tem consciência de que tomar o lugar de um Deus onisciente é um pecado grave, e ele sente todos os espinhos.

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Gene Hackman oferece um desempenho sutil e vigorosamente internalizado, mais silencioso do que estamos acostumados. Mas com grande força nos pequenos detalhes, uma das melhores atuações do sujeito. Gosto de brincar que INIMIGO DO ESTADO, de Tony Scott, lançado vinte e poucos anos depois, seja uma espécie de continuação de A CONVERSAÇÃO e que o personagem de Hackman, um paranóico gênio de vigilância tecnológica, talvez seja uma versão envelhecida de Harry Caul… John Cazale, Robert Duvall, Frederic Forest, Harrison Ford e Teri Garr também estão por aqui, nomes que já haviam trabalhado com Coppola e outros que ainda viriam a repetir a parceria.

Coppola dirigiu nos anos 70 mais três filmes. Os dois CHEFÕES que citei e APOCALYPSE NOW. Por vários motivos A CONVERSAÇÃO acabou não sendo tão celebrado quanto esses outros. Mas merecia. É um puta filme, um dos thrillers setentistas dos mais tensos, e uma dos melhores trabalhos de direção do homem. Enfim, não pretendo mesmo ficar vinte anos de novo sem revisitar essa maravilha.

PULP (1972)

Recentemente fiz este post explicando algumas questões que envolvem o antigo blog coletivo O DIA DA FÚRIA e os dois textos inéditos que acabaram surgindo na última tentativa de ressuscitar o projeto… Postei um texto do Marcelo Valletta sobre CARTER – O VINGADOR e disse que depois postava o segundo. Bom, o “depois” é hoje. Publico aqui o outro texto, que é de minha autoria mesmo…

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Mike Hodges comparou PULP ao seu trabalho anterior, CARTER – O VINGADOR, como filmes similares: a mesma trama contada de maneira diferente. De alguma forma, é até justa essa comparação no sentido de ter mais uma vez um protagonista vivido por Michael Caine se metendo num intrincado entrecho envolvendo o assassinato e abuso de uma jovem e o receio com pessoas em posição de poder por trás do crime.

Mas é uma comparação que não se sustenta por muito tempo e basta uma conferida em ambas produções para notar o contraste de suas dramaturgias, dos cenários, dos personagens, com alternâncias na dosagem de ingredientes e no tom, principalmente no humor. Como todos os primeiros projetos de Hodges eram explicitamente relacionados a crimes densos e pesados – CARTER – O VINGADOR, por exemplo, era sombrio e niilista – não é difícil entender porque o diretor optou pelo contraste através do humor. Hodges, no entanto, permaneceu fiel ao seu amor pela ficção policial, e PULP se revela uma comédia de crime e sátira política que ironiza não apenas os antigos filmes noir e seu material original – o título já evidencia, a literatura pulp – como também a natureza de decadência dos escritores desse tipo de romance.

Não que o protagonista de PULP seja um derrotado na vida, mas é um sujeito que vive no fim do mundo e precisa “prostituir” seu talento nunca reconhecido, escondido sob pseudônimos variados, escrevendo livros policiais de gosto duvidoso, curtos e baratos. Mickey King (Caine) é esse cara, cuja obra inclui títulos como The Organ Grinder e My Gun is Long, só para terem a noção do nível do material… Se bem que eu gostaria de ler um romance pulp chamado My Gun is Long.

Logo no início de PULP, percebe-se o tom da coisa: o mais recente trabalho de Mickey está entregue numa editora, numa sala de digitação ocupada por filas de jovens moças que ouvem sua prosa semi-pornográfica através de fones de ouvido enquanto digitam a obra. As reações das mocinhas já são suficientes para arrancar algumas risadas do público. Entra em cena Michael Caine, enquanto os créditos surgem na tela. Cigarro no canto da boca, terno branco, óculos de aros grossos e a cabeleira loura. E é sob a ótica dessa figura, acompanhado por uma narração em off, digna dos mais esdrúxulos casos policiais, que vamos seguir a trama.

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O próximo trabalho de Mickey é escrever, como ghost writer, as memórias de um ex-astro de Hollywood de filmes de gangster, Preston Gilbert (Mickey Rooney), que vive em Malta, sob o calor do sol do Mediterrâneo. Mas durante a longa jornada para chegar ao local onde vive o tal ator, várias situações estranhas, personagens excêntricos e um assassinato misterioso entram no caminho de Mickey. Quando chega ao seu destino, o sujeito já está metido até o pescoço numa trama espinhosa. Finalmente levado à presença de Gilbert, fica intrigado pelo falar excessivo do ex-ator. E nós, o público, ficamos de queixo caído com uma das atuações mais soberbas de Mickey Rooney.

Rooney já estava fora de moda no período e Hodges teve que insistir bastante para tê-lo no elenco, “a única pessoa que poderia desempenhar o personagem“, segundo o próprio diretor. Seu personagem é um grande falastrão, nada discreto, um gigante de baixa estatura que vive no limiar entre a realidade e a ficção que protagonizava nas telas em variados papéis criminosos. Liberado ao overacting, o resultado é uma atuação monstruosa, muita coisa vindo do próprio Rooney, em momentos de ensaio ou improviso na qual Hodges mantinha sempre a câmera ligada.

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Quando Gilbert é assassinado durante uma festa, Mickey percebe que agora também se tornou um alvo por saber demais. A partir daí, a trama vai ganhando contornos mais sérios, Gilbert estava envolvido em um escândalo sexual que havia sido encoberto porque outras pessoas poderosas foram implicadas… Como em CARTER – O VINGADOR.

Ghost Writer do defunto, acredita-se que Gilbert tenha passado os detalhes do escândalo para Mickey, que começa a investigar por conta própria o mistério numa tentativa de se salvar. O protagonista encontra a verdade, mas no percurso, se depara com a podridão burguesa e se esquiva de outra tentativa de assassinato, que deixa o seu pretenso assassino morto (Mickey ainda brinca com o cadáver: “Lembre-se de que você é pulp, e para o pulp voltarás“), mas Mickey fica ferido na perna e acaba numa forçada reclusão na mansão de luxo de algum fulano da alta classe, que quer mantê-lo assim, quietinho, longe de tudo e de todos. E agora passa seu tempo escrevendo um romance pulp que ninguém vai ler… Os poderosos mais uma vez se saem melhor.

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Na obra de Hodges, seu ponto de vista político inevitavelmente acaba se expondo de alguma forma e em PULP não é diferente. Há uma cena que um carro de som, cheio de fotos de um candidato fascista em campanha, entoa um discurso vindo das suas caixas sonoras – era a voz do próprio Mussolini… Como o filme não chegou a passar na Itália na época, ninguém entendeu a “piada”. Preocupado com a autenticidade daquilo que filmava, Hodges fez muita pesquisa sobre o estado do fascismo italiano do período, visitou o túmulo de Mussolini, comprou no mercado negro LPs com discursos do ditador italiano, e toda uma atmosfera opressora acaba transparecendo em PULP de forma incômoda, ainda que não influencie diretamente, pelo menos na maior parte do tempo, no mistério que o personagem de Caine se envolve. Mas é uma forma de Hodges deixar transparecer sua aversão ao fascismo, poder, exploração e corrupção.

A ideia era filmar PULP na Itália, porque o contexto político que tanto interessa ao diretor estava acontecendo lá. Em plenos anos 70, houve um aumento significativo de votos fascistas nas eleições italianas, algo totalmente incompreensível, um retorno à imbecilidade e que reflete uma estupidez coletiva que vem perdurando. Impossível não encontrar paralelo na realidade atual do Brasil… O filme acabou não sendo rodado na península, pois todos os locais que Hodges e a produção queriam usar tinha sempre que lidar com a máfia local, uma situação que o diretor não queria levar muito adiante. Gangsters, só na ficção.

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Mas  Hodges sempre foi simpático com o fato de ter que filmar em Malta, sob o sol do Mediterrâneo, o que enfatiza ainda mais o contraste frio e sombrio dos locais que havia filmado no Reino Unido em seus filmes anteriores. O que contribui até para uma certa leveza. PULP talvez seja o filme mais leve de Hodges (mesmo tendo realizado comédias puras mais tarde). Dá para dar boas risadas, principalmente no primeiro terço de filme antes que o personagem de Caine entre de vez no mistério.

Com PULP, Hodges demonstra repertório sem deixar sua assinatura autoral em segundo plano, apesar de nunca ter alcançado uma merecida popularidade. Nem mesmo quando foi para Hollywood, onde filmou obras com mais recurso, como FLASH GORDON, por exemplo, acabou tendo resultados sem grandes expressões e os que se  lembram de seu nome ainda é pelo seu longa de estréia, CARTER – O VINGADOR. PULP é um de seus trabalhos que acabou entrando relativamente no esquecimento, nunca teve o impacto desejado, sua concepção política crítica não é tão evidente, o que remove uma certa relevância que poderia ter na época. Embora seja um filme engraçado, com bons momentos e mais uma vez Michael Caine oferecendo uma performance de alto nível.

No Brasil, recebeu o título de DIÁRIO DE UM GANGSTER.

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10 MINUTOS PARA MORRER (1983)

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10 MINUTOS PARA MORRER é o filme que o Charles Bronson sai à caça de um assassino peladão. O filme que meu pai dizia que “terminava com o Bronson dando um tiro na testa de um bandido“…

Bronson interpreta Leo Kessler, um detetive veterano, mais de 20 anos de carreira na força policial, mas cansado de ver o sistema de justiça trabalhar contra ele. Agora, em busca de um perigoso assassino, Kessler e seu jovem pareceiro, o novato Paul McCann (Andrew Stevens), começam a se aproximar de Warren Stacy (Gene Davis), o principal suspeito por violentas mortes. O problema é que seus elaborados álibis e métodos quase impecáveis de cometer tais crimes sem deixar rastros impedem que os policiais encerrem o caso com provas definitivas de que ele seja o assassino. Sobra a intuição e a experiência do velho Kessler, que tem absoluta convicção que Stacy é o homem por trás das mortes.

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10 MINUTOS PARA MORRER não é um daqueles filmes em que temos que adivinhar quem é o assassino. Sabemos quem é o maluco desde o início e que Kessler está certo no seu “palpite”. Enquanto isso, o assassino desfruta de sua liberdade, deixando mais corpos espalhados e perseguindo a filha do protagonista, instaurando um perigoso jogo de gato e rato. Kessler, que em determinado momento acaba sendo demitido da polícia por suas ações ilegais na tentativa de incriminar Stacy, agora é um agente livre que decide permanecer na cola do assassino 24 horas por dia. O filme termina de forma pesada, quando Stacy pratica uma carnificina no dormitório cheio de enfermeiras onde mora a filha de Kessler. E quando o ex-policial encurrala o assassino, Stacy faz um monólogo explicando seus atos como uma “doença”, como uma insanidade: “A sociedade terá que lidar comigo para sempre!“. Mas Kessler resolve tomar medidas para garantir que isso nunca aconteça.

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Dirigido com a classe e segurança de J. Lee Thompson, que colaborou em quase todos os filmes do Bronson nesse período, e produzido pela Cannon, 10 MINUTOS PARA MORRER se destaca como um dos melhores filmes do velho Bronson nos anos 80. Um eficaz thriller policial, com atmosfera suja, desprezível, cheio de nudez e violência. Pode ser um pouco chocante, visto hoje, devido ao viés conservador, uma reflexão sobre a pena de morte numa parábola sobre um policial cuja a experiência na aplicação da lei se mostra, repetidamente, que o sistema não funciona. E quando o sistema não funciona, só lhe resta meter uma bala na cabeça de bandido…  Bolsominions vão ejacular com esse filme, obviamente, pois não tem capacidade mental de perceber o contracenso, o paradoxo de sua ideologia. Mas com a perda de seu idealismo, o homem da lei de Kessler simplesmente se cansa dessa merda toda. Seu único objetivo era impedir que mais mulheres fossem assassinadas e quando a justiça falha, o resultado é mais mortes violentas…

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É aquela coisa, como ser humano eu detesto reacionários e fascistas. Como cinéfilo, eu admiro o cinema radical que levanta esse tipo de reflexão. Trata-se de repelir a hipocrisia. E 10 MINUTOS PARA MORRER, mesmo que não tivesse essa consciência reflexiva, consegue isso. Ideologias à parte, sobra ainda um filmaço de “polícia à caça de um maníaco assassino”. E temos ainda uma cena fantástica, na qual Bronson questiona o suspeito sobre um determinado acessório de masturbação, segurando o objeto em mãos, que é simplesmente genial, deveria estar entre os grandes momentos da carreira do homem!

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Vale destacar Gene Davis como o assassino sádico e calculista Warren Stacy, um dos mais pervertidos e violentos assassinos a serem retratados na tela no início dos anos 80, junto com Joe Spinell, em MANIAC, de William Lustig (sem a mesma profundidade psicológica, no entanto). Obviamente a característica mais marcante é o fato do sujeito estar sempre peladão na hora de cometer seus crimes. Ele tira toda sua roupa antes de matar, mesmo que precise andar um pouco até chegar à vítima. O que seria especialmente horrível ver um homem nu vindo em sua direção balançando o pau e uma faca… E enquanto a maioria dos personagens acha Stacy assustador, um creepy, sua boa aparência e educação o ajuda a se misturar na sociedade e a adicionar um certo nível de suspense ao seu comportamento, o que é agravado pelas grandes mudanças de estado mental do personagem ao longo do filme.

Enfim, para um thriller policial do início dos anos 80, 10 MINUTOS PARA MORRER oferece tudo o que você esperara de uma produção da Cannon estrelada pelo Bronson. Para os fãs do homem, é imperdível.

007 CONTRA GOLDFINGER (1964)

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Se existe um filme da série 007 que se qualifica como um clássico imortal, este filme é 007 CONTRA GOLDFINGER (Goldfinger), de Guy Hamilton. Terceirto capítulo da série sobre o espião à serviço secreto da coroa britânica, James Bond, ganhou importância para a franquia porque, de certa maneira, foi o exemplar que estabeleceu uma ideia, para a maioria das pessoas, sobre o que de fato é um filme de James Bond.

007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO, o primeiro, que apresentou o personagem e sua famosa música tema, e MOSCOU CONTRA 007, o segundo, eram basicamente thrillers de espionagem ao espírito dos livros escritos por Ian Fleming, enraizado mais em intrigas palpáveis e de contextos reais, como a Guerra Fria. GOLDFINGER pegou elementos essenciais desses dois e deu um toque especial. Construiu um ícone maior que a vida, apresentou várias marcas registradas e tudo o que torna o personagem tão reconhecível e memorável.

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É aqui que começam também a explorar os limites entre a realidade e os excessos da fantasia do cinema de ação, uma das principais características da série. Um exemplo temos logo no início, quando Bond enxerga, através do reflexo da íris de uma moça, um bandido espreitando por trás prestes a atacá-lo. PELO REFLEXO DA ÍRIS!!! É pra isso que o cinema foi inventado… Temos também o famoso capanga que arranca a cabeça de estátuas arremessando seu chapéu-côco forrado de aço… Praticamente uma história em quadrinhos.

Depois disso, os filmes de Bond não se levaram muito a sério e, pessoalmente, fico feliz que isso tenha acontecido. Parte do que torna a série 007 tão fascinante pra mim é exatamente o tom exagerado, uma fórmula que começaram a desenvolver por aqui em GOLDFINGER. Uma fórmula que não vemos em DR. NO ou MOSCOU CONTRA 007

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Na trama, a preocupação com a estabilidade dos preços do ouro ao redor do globo coloca James Bond (mais uma vez interpretado por Sean Connery) na trilha de um contrabandista internacional de ouro, o excêntrico Auric Goldfinger (Gert Fröbe). Tendo encontrado o sujeito pela primeira vez em um hotel em Miami, Bond está ciente de que o homem é um adversário peculiar e muito perigoso. Goldfinger revela ser obcecado por duas coisas: ouro e levar vantagem a qualquer custo, seja numa partida de golfe ou até mesmo num amigável jogo de cartas à beira da piscina de um hotel.

Em relação ao “perigoso”, Bond descobre do pior jeito: Goldfinger não demonstra muito remorso em matar sua acompanhante quando ela o trai com o espião. Acaba assassinada de maneira única, asfixiada com seu corpo completamente coberto com tinta dourada. Uma das imagens clássicas da franquia.

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Bond visita Q, interpretado por Desmond Llewelyn, que ficou famoso entre os fãs da série por fazer esse personagem durante décadas. Suas engenhocas tecnológicas acabaram se tornando elemento essencial da franquia. E é aqui que Bond é apresentado pela primeira vez ao Aston Martin, seu veículo oficial e que utiliza logo em seguida para ficar na cola de Goldfinger. Ao se infiltrar em um complexo do vilão, Bond descobre o método engenhoso que seu adversário contrabandeia grandes remessas de ouro. Também descobre que Goldfinger tem algo maior planejado, uma operação com o codinome Grand Slam. Mas antes que ele possa sair do local, 007 é capturado. Só mais tarde ele realmente descobrirá quão grandioso é o Grand Slam

Mais momentos clássicos: Bond capturado, é amarrado a uma mesa com um cortador a laser em direção à sua “arma mais preciosa”. Como a cena do corpo coberto de tinta dourada, essa é outra das mais icônicas de toda a franquia. A paródia/homenagem dos Simpsons, no episódio You Only Move Twice, é evidência de seu poder na cultura pop.

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Tudo parece funcionar em GOLDFINGER – os personagens; o roteiro com um equilíbrio quase perfeito de humor irônico e convenções do thriller de espionagem, carregados de diálogos incríveis; o ritmo; a música tema de Shirley Bassey e John Barry… Continua sendo uma aventura atemporal, com o espião cínico, malandrão e mulherengo que adoramos. Claro, Bond dos anos 60 é um dinossauro sexista e misógino para os padrões chatos de hoje, mas Sean Connery é cool o suficiente para se safar. Falando nisso, não dá pra esquecer a bela Pussy Galore. Basta esse nome para garantir que seu papel seja lembrado entre a maiores Bond Girls. Mesmo com tão pouco tempo em cena…

Temos Goldfinger, um dos melhores vilões de toda a série, e seu capanga, o brutamontes Oddjob, o tal com o chapéu letal, que dá uma canseira ao nosso herói. A sequência de luta entre ele e Bond nas entranhas do depósito de ouro em Fort Knox é um dos grandes momentos do filme.

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Aliás, as cenas de ação de GOLDFINGER são de alto nível. O diretor Guy Hamilton era desses que sabia criar um bom espetáculo no gênero, com destaque para a perseguição de carros pelos bosques e no complexo de Goldfinger, no qual Bond utiliza vários acessórios que Q preparou em seu Aston Martin. E obviamente o deflagrador final, um tiroteio explosivo de grandes proporções e alta contagem de corpos. Hamilton voltaria a dirigir mais três exemplares do espião: 007 – OS DIAMANTES SÃO ETERNOS, COM 007 VIVA E DEIXE MORRER e 007 CONTRA O HOMEM COM A PISTOLA DE OURO. Esses dois últimos com Roger Moore no papel de Bond.

Todos esses elementos se combinam para tornar GOLDFINGER um clássico do cinema de ação e dos melhores e mais influentes filmes da série 007. Mesmo não sendo o meu favorito… Que aliás, não sei ainda exatamente qual é. Talvez A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE, ou O ESPIÃO QUE ME AMAVA, ou A CHANTAGEM ATÔMICA, que mal lembro, mas que me marcou muito quando era moleque… Enfim, comecei a rever novamente a série depois de uns vinte anos e até o final dessa “retrospectiva” eu descubro qual é o que mais gosto. Se calhar, acaba sendo mesmo GOLDFINGER. Sem dúvida vai estar entre os primeiros.

Os outros filmes do espião já comentados aqui no blog:

007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO
MOSCOU CONTRA 007

ATOS DE VIOLÊNCIA (2018)

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A trama de ATOS DE VIOLÊNCIA é sobre três irmãos, um deles é Roman (Ashton Holmes), que está prestes a se casar com sua namorada, Mia (Melissa Bolona). Quando ela é sequestrada por traficantes de escravas durante sua festa de despedida de solteira, Roman pede a ajuda aos outros dois irmãos, militares veteranos (Cole Hauser e Shawn Ashmore), para recuperá-la.

Bruce Willis aparece em cena como um detetive especializado neste tipo de caso, tentando derrubar esses traficantes, mas obrigado a fazer tudo debaixo da lei, embora saiba que está de mãos atadas por conta do sistema corrompido. A capa do DVD até dá aquela destacada para Willis, vocês sabem, é o único famoso do elenco, então já colocam a cara dele na capa para atrair público. Mas uma coisa que gostei em ATOS DE VIOLÊNCIA é como o roteiro encontra uma maneira orgânica de trabalhar com o velho Bruce na história. Seu papel pode ser pequeno, mas pelo menos ele tem um personagem digno e com alguns momentos para relembrar seus dias de action hero. Apesar disso, Willis esteve no set por apenas um dia para gravar suas cenas, a maioria delas sentado atrás de uma mesa, embora nem dê pra sentir muito isso… hehe!

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Não pode faltar o famoso biquinho…

Já a história central, que envolve os três irmãos, até que me prendeu. Algumas atuações são horríveis e exageraram na dose de situações dramáticas piegas, mas curti a ideia dos irmãos badasses, com treinamento militar, tendo que utilizar suas habilidades num ambiente urbano. Destaque para Cole Hauser, figura já conhecida para quem aprecia filmes de ação DTV (recomendo especialmente THE HIT LIST, com Cuba Gooding Jr.), fazendo um personagem mais complexo, veterano de guerra sofrendo de estresse pós-traumático. Também é legal ver Mike Epps, mais conhecido por fazer comédias, encarnando o sádico e perigoso chefão da operação de tráfico de escravas.

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Alguns problemas de roteiro aqui e ali, fórmulas batidas e clichezentas suficientes para espantar o “cinéfilo brioche”, mas o filme até consegue entregar o que promete para os admiradores de um decente thriller de ação de baixo orçamento. As sequências de ação, por exemplo, se não são expressivas, ao menos são filmadas com certa competência e clareza. A direção é de um tal Brett Donowho… Nunca ouvi falar, mas o cara já tem algumas coisinhas no currículo. Alguém mais corajoso pode desbravar se tiver interesse.

ATOS DE VIOLÊNCIA é daquele jeito: não tem pretensão alguma de ganhar prêmio, mas é uma maneira divertida que um fã de ação sem grandes expectativas pode encontrar para passar 86 minutos de sua vida. Foi lançado em DVD no Brasil pela A2 Filmes, pelo selo Flashstar.

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PREMONIÇÃO (2005)

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PREMONIÇÃO até que é um suspense bem decente levando em conta o orçamento risível que teve, uma premissa preguiçosa e recheado de clichês, o elenco medíocre e os efeitos especiais toscos… Mas se as expectativas não forem muito altas e o espectador conseguir ignorar esses detalhes negativos e quiser assistir apenas um thriller vagabundo sem grandes pretensões, dá pra se divertir um bocado com essa tralha num sabadão…

A trama é basicamente uma variação de A HORA DA ZONA MORTA, aquela maravilha de David Cronenberg, com o Christopher Walken, baseado em Stephen King. Mas aqui temos Casper Van Dien como protagonista – um desses atores promissores dos anos 90 (pra mim sempre será o eterno Johnny Rico de TROPAS ESTELARES) que acabou relegado ao universo dos filmes de ação/terror lançados diretamente no mercado de vídeo. O sujeito interpreta Jack Barnes, um detetive que acaba tendo uma experiência de quase-morte no cumprimento do dever, durante uma perseguição de carro que acaba de forma trágica… E que a produção faz uso de stock footage, ou seja, utilizam imagens de uma perseguição de outro filme mais abastado – que eu não consegui identificar qual era – porque fica bem mais barato que filmar a própria sequência… É esse o nível da produção que temos aqui. hehehe!

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Bom, o fato é que Barnes volta à vida e agora passa a ter premonições de desastres que estão prestes a acontecer na cidade. Um vagão do metrô que descarrilha, o subsolo de um edifício que explode por causa de um vazamento de gás… E por aí vai. E à medida em que precisa lidar com esse dom, ou maldição, Barnes corre contra o tempo para tentar evitar as catástrofes que prevê, ao mesmo tempo em que investiga uma possível conexão desses desastres com um grupo terrorista (que no início do filme invade uma fábrica usando máscaras de George W. Bush… What a fuck?).

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Em momento algum o filme faz questão de dar algum sentido ou explicação sobre o fato do protagonista começar a ter essas visões, exceto pela experiência de quase-morte. Em determinado momento, o personagem conhece outro sujeito que teve a mesma experiência e, pimba, passou a ter visões. Então, ao que parece, uma experiência de quase-morte é suficiente para virar o próximo Nostradamus. Enfim, Barnes apenas passa a ter essas visões e pronto. Por mim, tudo bem, a última coisa que quero num filme desse tipo é ficar pensando em explicações lógicas.

A maior parte do filme seguimos os passos de Barnes nessa confusão, o que ajuda a manter o interesse, porque Van Dien até que apresenta um bom desempenho, consegue sergurar o tipo de obra que é PREMONIÇÃO. O restante do elenco é ruim de doer e alguns diálogos são terríveis. As cenas de ação são bem filmadas, com exceção da tal perseguição de carro com imagens de outro filme, que é uma bagunça (poucos sabem fazer esse tipo de “colagem” como um Jim Wynorski), mas a maioria das sequências mais excitantes são tiroteios que, se não chegam ao nível de um Michael Mann, ao menos são simples, secos e sem frescuras. O diretor é um tal Jonas Quastel, um canadense que já tem vários pequenos filmes de gênero lançados em “vídeo”.

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Não é um Michael Mann, mas tá tudo bem…

Mas o grande barato de PREMONIÇÃO são os efeitos especiais toscos e baratos. Capazes de revirar o estômago do espectador mais exigente, vulgo “cinéfilo brioche”, mas pra mim são as melhores partes do filme, renderam boas risadas. Especialmente a sequência final envolvendo um helicóptero em CGI ridículo e a cena do desastre no metrô, que é impressionante de tão mal feita.

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PREMONIÇÃO não merece um texto maior que este. Ficamos por aqui. Pode parecer um completo desastre, como nas visões do protagonista, mas definitivamente não é um filme ruim se você assistir com poucas expectativas. Tem disponível no Brasil em DVD.

PLAY MISTY FOR ME (1971)

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Em 1971 Clint Eastwood era uma das principais figuras do cinema comercial americano, tendo construído seu nome em filmes de faroeste e ação. PLAY MISTY FOR ME, no Brasil lançado como PERVERSA PAIXÃO, foi sua primeira investida como diretor e a surpresa inicial é o fato do filme ser um crazy bitch thriller ao estilo de ATRAÇÃO FATAL, sobre um DJ de rádio que se torna o objeto de obsessão mórbida de uma fã obcecada. Um filme de romance às avessas que se torna um autêntico pesadelo. E, convenhamos, é algo que está bem longe dos filmes de ação pelos quais Clint era então conhecido.

Mas olhando hoje, quase 50 anos depois, percebe-se claramente que PLAY MISTY FOR ME trata-se de um trabalho muito pessoal de Clint, cheio de interesses e obsessões que de certa forma o acompanharam durante toda a sua carreira. Uma das principais características é o fato dele mesmo incorporar o protagonista, um apresentador de rádio responsável por um programa de jazz. O filme é, portanto, literalmente invadido pela música, onipresente, dos mais populares ritmos aos mais elegantes (Errol Garner, com a música Misty, citada no título do filme) e para quem não sabe o homem é um aficcionado por jazz e blues… Muita gente reclama do prolongamento da sequência do festival, mas acho que é a melhor exemplificação dessa lógica, esses minutos “ao vivo” do festival de Monterey, onde Eastwood filma os músicos e o público em transe, etc… Uma magnífica declaração de amor de Clint à música.

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A trama de PLAY MISTY FOR ME é sobre David Garver, este disc-jockey de fala mansa que Clint interpreta. Depois de uma noite caliente com sua fã número um, Evelyn (Jessica Walter), ele dá a ela a velha desculpa “Eu te ligo depois“. Só que ela realmente acredita nas palavras do sujeito. Logo, ela está surgindo na casa dele com compras, ligando em horários estranhos e aparecendo completamente nua em sua porta. À princípio David tolera o comportamento dela, mas quando ele resolve volta para Tobie (Donna Mills), um antigo romance, Evelyn entra no modo full-crazy bitch stalker. Invade a casa dele histérica, destrói seus móveis, estraga uma importante entrevista de emprego, até esfaqueia sua empregada antes de ir atrás da namorada de David. Ao final, por ser Clint Eastwood, ele não tem nenhum problema (SPOILER) em dar um soco na cara dela e vê-la cair com tudo e se espatifar nas pedras de uma ribanceira à beira-mar…

O legal é que PLAY MISTY FOR ME não gasta muito tempo enrolando. É bem direto no tema do “perseguidor obcecado” e alguns dos melhores momentos ilustram a facilidade com que David cai nas armadilhas de Evelyn e o quão impossível é para ele se livrar. Chega a ser angustiante… E David acaba sendo cúmplice em sua própria crise. O filme prenuncia cuidadosamente o lado sombrio de Evelyn, de um modo até exagerado no maniqueísmo, sem sutilezas, e o filme enfatiza que a única coisa que impede David de sentir o perigo é sua própria arrogância. E a luxúria, claro, já que David é um mulherengo cujo relacionamento com Tobie está sendo testado por conta de suas conquistas extracurriculares. E como o colega de David, Al (James McEachin), diz com uma piscadela: “Quem vive à espada, morre pela espada“.

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A última hora de filme compensa bem a premissa, com várias cenas tensas de suspense e violência. E Jessica Walter devora o seu papel, criando um monstro memorável, baseado em emoções críveis e perversas. Talvez falte a tal sutileza à personagem, mas dentro da proposta tão direta na qual o filme lida com o assunto, ela convence fácil com uma atuação expressiva e perturbadora. Clint também faz um bom trabalho na frente da câmera, desempenhando basicamente o mesmo que em todos os seus filmes, exceto que ele quase não mata ninguém por aqui. E transa mais (prefere usar a outra arma, se você me entende)…

Na direção, Clint se deixa guiar pelos ensinamentos de seus mestres, Sergio Leone (com vários planos detalhes dos olhos de seus personagens) e Don Siegel (e é até comovente que Clint tenha colocado Siegel para fazer um pequeno papel como o barman favorito de David). Mas muito do estilo autoral da direção de Eastwood se manifesta nesse seu primeiro trabalho, especialmente o uso da iluminação escura, no cuidado com as composições e no ritmo lânguido… Não deixa de ter falhas (pesa a mão alguns momentos melosos demais entre David e Tobie) e uma certa hesitação entre ser classicista ou Nova Hollywood… Mas o resultado não deixa de funcionar. PLAY MISTY FOR ME é uma sólida estreia, um thriller angustiante muito bem executado para o primeiro esforço de um diretor que se tornaria um dos melhores do ramo.

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PARASITA (2019)

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Vi PARASITA já faz um tempinho, mas como o filme tá estreando nos cinemas pelo Brasil acho que vale a pena fazer uns comentários. Até porque é um dos grandes filmes de 2019. E também porque adoro o trabalho do Bong Joon-ho, esse diretor coreano que possui o talento de aproximar como poucos o riso, o cômico, ao grito de horror. E é exatamente o que acontece por aqui em PARASITA, que levou a Palma de Ouro em Cannes deste ano e que proporciona ao mesmo tempo um prazer extraordinário e um profundo mal-estar. O tipo de filme que você se sente tanto revigorado (pelo poder cinematográfico de Bong) quanto nocauteado (pela acidez como aborda o lado podre da sociedade).

E Cannes parece ter confirmado um certo apreço por filmes que retratam famílias à margem, como no vencedor do ano passado, ASSUNTO DE FAMÍLIA (Shoplifters), de Hirokazu Koreeda. Em PARASITA temos um pai, mãe, filha e filho, que vivem juntos em certa harmonia, mas em condições miseráveis, no subsolo de um edifício, no qual a única janela se abre para um beco sujo onde os bêbados usam para mijar. O filho acaba contratado como professor particular de inglês por uma família rica (que vive em uma bela casa, grande, arquitetura moderna, com vista para a cidade), falsificando um diploma. Em seguida, organiza para que sua irmã seja contratada como terapeuta de educação artística. Ela arruma um jeito de fazer o motorista dessa família ser demitido para que seu pai seja contratado no lugar. E o pai reserva o mesmo destino à fiel governanta, para que sua esposa seja contratada…

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Em determinado momento, quando a família está sozinha nesta casa, desfrutando de uma viagem de seus chefes, apossam-se de boa comida, fartura, bebida e conforto. Ficam totalmente bêbados e sentimentais… E é quando começamos a sentir Bong brincando de fazer suspense, revelando a verdadeira face de PARASITA. É quando a sátira transcende e toma uma forma mais obscura e aterradora. Quase um filme de horror sobre luta de classes, sem qualquer tipo de condescendência. E o mais incrível, sem perder o humor.

Não há espaço para “vilões” e “mocinhos” no olhar de Bong. Os chefes ricos têm seus defeitos, seus lados doentios e ridículos. Mas também são pessoas boas e atenciosas. Quanto à família pobre de golpistas, existe uma sinceridade e um desespero que faz seus membros lutarem para sair da situação que se encontram. Mas ao mesmo tempo, são isso mesmo: golpistas. A única solução que encontram para sair do subterrâneo é a farsa. Mas PARASITA não é filme de ficar fazendo julgamentos moralistas pra cima dos personagens, que os utiliza em prol de uma inteligente sátira sobre as classes da sociedade. Que é curiosamente cômica, mas não deixa de causar um abalo perturbador.

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Para finalizar, um elogio. Fiel ao diretor desde MEMÓRIAS DE UM ASSASSINO, Song Kang-ho, que faz o papel do pai da família golpista, confirma mais uma vez que é um dos grandes atores da atualidade.

DOMINO (2019)

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Tem momentos em DOMINO que você percebe que está diante de um grande filme de Brian De Palma, especialmente na primeira meia hora. O filme começa extremamente bem, câmera linda, um trabalho de zoom incrível, e a sequência que culmina numa perseguição pelos telhados em Bruxelas faz uma bela homenagem a UM CORPO QUE CAI. Depois, DOMINO dá uma caída feia, a coisa vai se tornando progressivamente desinteressante e sem se dar conta estamos vendo um thriller direct to video dos mais vagabundos e preguiçosos. O que não deixa de ser, já que foi a cara que o estúdio resolveu dar ao filme (para quem não sabe, DOMINO teve uma produção desastrosa, faltou dinheiro, De Palma não teve o corte final…). Deu pra sentir o estrago. Montagem horrível, ritmo cai, umas cenas sem motivo algum de existir, em termos narrativos a coisa fica bizarra mesmo… No meio disso tudo, temos mais uma sequência genial, a do atentado terrorista num festival de cinema. DOMINO cresce de novo no final, com uma sequência daquelas para entrar numa antologia de momentos fodas do De Palma, um mestre que domina o tempo como poucos.

O saldo final é positivo. Tem falhas, muitas, filme torto pra caralho. Mas é bom pela câmera, pelo estilo, por grandes cenas que o De Palma conseguiu encaixar em alguns momentos. Momentos bem dignos mesmo… Como fã de giallo, nada tenho contra obras construídas a partir de grandes cenas, interligadas de maneira confusa e bagunçadas, como é o caso de DOMINO. E há algumas ideias que De Palma trabalha obsessivamente que são bem interessantes, um manifesto sobre a imagem do terror, em como essa imagem é realizada, manipulada, divulgada, o uso inventivo de mobiles (os dois celulares acoplados numa metralhadora filmando um atentado; o homem-bomba que precisa esperar o drone se aproximar para apertar o botão), na concepção e divulgação dessa imagem… Ideias que têm um significado bem interessante no filme e no cinema de De Palma em geral. Resumindo, é fácil ficar do lado de obras-primas inquestionáveis, difícil mesmo é tentar entender obras tortas como DOMINO. Só acho uma pena mesmo que o estúdio não tenha permitido ao filme qualquer vôo mais alto, mesmo com o esforço do De Palma.

WOMAN OF DESIRE (1994)

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WOMAN OF DESIRE é um desses filmes aleatórios que por algum motivo, provavelmente pelo elenco, acabei catando de algum tracker e assisti um dia desses. E por algum outro motivo que nunca vou saber explicar, vou postar alguma coisa sobre ele… Temos Jeff Fahey, Steven Bauer em papel duplo, temos o maior ator de todos tempos, Robert Mitchum, e a musa dos anos 80 Bo Derek, que, apesar de inexpressiva, não desperdiça nosso tempo com sua beleza e muitas cenas com pouca roupa. Pronto, já temos motivos suficientes para assistir a esse neo-noir sem-vergonha dos anos 90.

Dirigido por Robert Ginty, mais conhecido pelo trabalho na frente das câmeras em filmes de ação exagerados dos anos 80, como THE EXTERMINATOR, de James Glickenhaus, WOMAN OF DESIRE é sobre um sujeito, Jack (Fahey) que é encontrado totalmente nu em uma praia sem lembrar direito o que aconteceu e como chegou ali. Ao mesmo tempo, Christina (Derek) está no hospital local contando sobre uma noite muito estranha dentro de um pequeno iate, no qual, segundo a moça, Jack trabalhava como capitão transportando ela e Ted (Bauer), quando os dois sujeitos começam uma violenta discussão que acaba em briga. Jack teria atirado em Ted, que caiu no mar e seu corpo desapareceu, logo depois o sujeito estuprou Christina e uma tempestade jogou ambos no mar.

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As coisas não parecem boas para Jack, que contacta seu advogado, interpretado por Mitchum, que passa a remontar os eventos como um quebra-cabeça. E o filme vai encaixando as peças, abusando de flashbacks e uma variedade de reviravoltas confusas, envolvendo irmãos gêmeos, um jogo de sedução perigoso entre Jack e Christina, até que a coisa toda vira um filme de tribunal, com um looongo julgamento, que desemboca num tiroteio em um desfile de rua no pequeno balneário onde a trama se passa, e tudo é finalmente explicado.

Parece interessante, mas não é bem assim. A direção pesada e “televisiva” de Ginty não é lá muito inspirada, sem estímulos visuais. Não consegue criar muito a atmosfera que um Eric Red, Bradford May ou Bobby Roth criavam nesse tipo de produto nos anos 90. E a trama é enfadonha na maior parte do tempo, apesar da premissa, inicialmente, ser interessante. Não é das melhores performances de Fahey, ator que geralmente eu gosto bastante, mas não me parece muito feliz aqui. Já o trio restante tenta salvar a sessão. Bauer e Mitchum estão sempre ótimos em cena, mesmo um Mitchum já envelhecido, mamado de uísque em cada frame, mas que tem o vigor que sempre exalou em décadas atuando. E Derek não precisa fazer muita coisa, contanto que esteja beeem à vontade, se é que me entendem. Num bom dia, aquele que você acordar com o pé direito e quiser encarar um thrilerzinho vagabundo, fica a dica de WOMAN OF DESIRE.

[CAGESPLOITATION] O PACTO (2011)

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Eu adoro como o Nicolas Cage se entrega de uma maneira tão especial nos papéis que faz, mesmo em filmes péssimos. Concordo com essa ideia de que ele acabou meio que criando um gênero de si mesmo. Quero dizer, um filme de suspense, ação, terror, pode ser bom ou ruim, mas se tem o Nic Cage como protagonista, automaticamente o filme fica bom e o gênero não importa mais, porque estamos diante de um Cagesploitation!

Um bom exemplar do que andei assistindo da fase “atual” do Cage foi este O PACTO, que é um thriller bem bobinho, mas que faz uma baita diferença por tê-lo como protagonista. Cage é Will Gerard, professor de inglês de uma escola secundária de New Orleans, cuja esposa Laura (January Jones), numa noite qualquer, é brutalmente estuprada. No hospital, Will é abordado pelo misterioso Simon (Guy Pearce) que afirma saber quem é o estuprador e vai “cuidar dele” para Will. Só que agora ele ficará devendo um favor quando for solicitado. Naquela mesma noite, o estuprador é morto.

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Seis meses depois, Simon contata Will e o instrui a matar um pedófilo que anda à solta pela cidade. Quando Will se recusa a retribuir o favor, Simon e sua equipe, que parece estar sempre em qualquer hora e qualquer local de New Orleans, começa a transformar a vida do sujeito num inferno. Will, um simples professor, se vê obrigado a lidar com mortes misteriosas, traição e um intrigante jogo de gato e rato que põe em risco a sua vida e da sua esposa. E esse simples professor acaba se tornando num herói de ação, porque, claro, é o Nic Cage! Ele se mete em altas confusões para manter a pele intacta.

À medida em que o filme continua e o roteiro vai revelando várias surpresas absurdas, acumulando plot twist totalmente desnecessários, Cage vai ficando cada vez mais solto, com um desempenho que lhe é característico: caretas, gritaria, correria enlouquecido… Que é realmente a marca registrada do sujeito e que os fãs adoram. Guy Pearce é sempre bom de se ver e está muito bem como vilão. O filme conta com ainda no elenco com Harold Perrineau, Xander Berkeley, Iron E. Singleton (O T-Dog da série THE WALKING DEAD) e uma pequena participação de Jennifer Carpenter. Tobey Maguire, aquele ator que só é lembrado pelos filmes do Homem-Aranha do Sam Raimi, foi um dos produtores. E a direção é do veterano Roger Donaldson (O INFERNO DE DANTE e A EXPERIÊNCIA).

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Como eu disse, O PACTO é um exemplar bem besta como thriller, mas ao mesmo tempo não deixa de ser uma patetice agradável nível Supercine, para se ver naquele sábado à noite que você acabou não tendo nada melhor para fazer. Os fãs de Nic Cage obviamente vão ter um gostinho a mais. Quando o sujeito está realmente interessado no material, nem roteiro ruim deixa de ser divertido…