ALONE (2020)

Para quem se interessou minimamente pelo cinema de ação dos últimos quinze anos, o nome JOHN HYAMS deveria soar familiar. Filho do diretor Peter Hyams (OUTLAND, CAPRICÓRNIO UM), o sujeito entrou na cena com alguns dos melhores e mais ousados exemplares recentes do gênero: as continuações altamente badasses de SOLDADO UNIVERSAL, contando ainda com a presença dos atores originais, Van Damme – com quem seu pai havia trabalhado nos anos 90 (TIMECOP e MORTE SÚBITA) – e Dolph Lundgren. Davam a impressão de bons cartões de visitas de Hyams para abocanhar projetos mais ambiciosos, talvez sob a batuta de algum grande estúdio. Talento e potencial o cara demonstrou. Mas acabou não acontecendo…

Apesar da positiva recepção que seus filmes de ação tiveram, Hyams passou os anos seguintes na televisão, produzindo e dirigindo uma série de zumbis, Z NATION, e seu spin-off na Netflix, BLACK SUMMER. Seu longa seguinte só foi sair em 2018, uma comédia que passou batida e quase ninguém viu, chamada ALL SQUARE. Eu mesmo não parei pra ver… E aparentemente o cara tava se afastando de tudo o que queríamos dele.

No entanto, eis que nesse estranhíssimo ano de 2020, John Hyams está de volta. Tá certo que ainda não é com algo exatamente na mesma linha dos seus filmes de ação, infelizmente, mas ao menos ele retorna com um material bem interessante, que é ALONE, um pequeno survival horror film muito bem executado, demonstrando que o sujeito não perdeu a mão.

Na trama temos Jessica (Jules Willcox), uma mulher se mudando para sua cidade natal para recomeçar após uma tragédia em sua vida. Acaba tendo uns transtornos com um carro preto na rodovia, dirigindo agressivamente e aparentemente a seguindo. Eventualmente, ela conhece o motorista do carro (Marc Menchaca), que está tentando ser legal, parece inofensivo, mas continua aparecendo nos lugares que Jessica encosta o seu veículo. O que acaba não sendo muita coincidência. O Homem realmente tem planos nada agradáveis pra ela… Até que a moça finalmente sai da estrada por conta de um pneu misteriosamente furado e o sujeito aproveita pra aparecer e deixar suas intenções bem claras. Agora, Jessica terá que retirar forças sabe-se lá de onde para sobreviver tanto dos perigos da floresta quanto do homem que certamente a matará se tiver a chance. Vai enfrentar frio, chuva, ferimentos, a ameaça de um psicopata, tudo isso enquanto sua própria vida já está em pedaços.

Composto por uma série de blocos, cada um com seu próprio título e particularidades diferentes, ALONE não é o tipo de filme que vai reinventar a roda, não vai jogar uma nova luz de genialidade ao gênero ou subverter suas convenções. É basicamente mais uma trama de sobrevivência como milhares que existem por aí. A diferença é que é feito com tanta habilidade, personalidade e confiança que acaba se destacando da concorrência. É ter um diretor do calibre de Hyams por atrás das câmeras, que pega esse material tão manjado e transforma em puro prazer visual, em um exercício formal despojado (uso criativo do foco, das lentes, da luz, dos espaços), consegue criar uma experiência realmente tensa e exaustiva.

O trabalho com o elenco também é muito bom. Ambos atores centrais, Willcox e Menchaca, chamam a atenção (não conhecia nenhum dos dois). Mas ainda temos uma participação mais que especial do grande Anthony Heald (O SILÊNCIO DOS INOCENTES).

No entanto, é um filme que realmente pertence a Willcox. Seguimos cada movimento de sua personagem do início ao fim, sentimos o esforço de continuar lutando, continuar sobrevivendo. É uma mulher a princípio perdida emocionalmente (ficamos sabendo mais tarde os motivos de sua desestabilização), que se transforma e demonstra uma força interior real. E Willcox se entrega no papel com uma expressividade no olhar muito forte. E o público realmente torce por ela, como se estivesse na mesma situação. Quando chega o confronto final entre Jessica e seu caçador, sente-se como se estivesse dando cada soco, cada chute por ela…

E essa sequência é um deleite, quase dá pra matar a saudade do cinema físico que Hyams realizou no início da carreira…

Em última análise, ALONE lança um olhar para o horror de ser uma mulher que é assediada e atacada por um homem. Mesmo antes de as coisas se tornarem ameaçadoras, o Homem (que não tem nome no filme, sua identidade não importa) não a deixa em paz, apesar de seus pedidos para que o fizesse. É só uma questão de tempo, demonstra o filme, até que a coisa descambe para a violência.

Altamente recomendado, ALONE é desses filmes a não se perder este ano. E esperamos que John Hyams não demore pra vir com mais surpresas como essa. Quem sabe aquele projeto da refilmagem de MANIAC COP, com a produção do Nicolas W. Refn, que haviam anunciado há uns anos?

A CONVERSAÇÃO (1974)

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Fazia uns vinte anos que assisti A CONVERSAÇÃO (The Conversation), de Francis F. Coppola. A única assistida, aliás, num VHS de locadora… Não sei porque nunca mais revi, mas é desses filmes que eu senti que não precisaria de uma revisão tão cedo, tamanho foi o impacto. Mas vinte anos já é demais, então hoje resolvi revisitar e continua uma belezura…

A CONVERSAÇÃO de vez em quando é lembrado como o filme que o Coppola dirigiu entre os dois primeiros PODEROSO CHEFÃO. E talvez até tenha sido prejudicado ao sair espremido no meio desses dois mastodontes cinematográficos (saiu inclusive no mesmo ano de CHEFÃO II e ambos foram indicados a melhor filme no Oscar)… Mas não consigo ver outro momento tão ideal para o filme ser lançado. Um filme tão enraizado dentro do seu contexto, praticamente um emblema do cinema político paranóico dos anos 70, num cenário que o escândalo de Watergate estava deflagrando… E é aí que testemunhamos o trabalho diário de Harry Caul (Gene Hackman), um especialista em escutas, que atua como freelancer para espionar quem quer que seja. E o cara é realmente bom naquilo que faz. Consegue captar uma conversa particular a 200 metros e obter uma representação perfeita dos diálogos. Na sua missão atual, ele ouve uma conversa meio perturbadora.

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A CONVERSAÇÃO, assim como todo o “movimento” do cinema da Nova Hollywood, é fortemente influenciado por cineastas europeus, e neste caso específico, Michelangelo Antonioni e seu BLOW UP, de 1966 – que trata de um fotógrafo que acredita ter capturado um assassinato no fundo de uma de suas fotos. Em A CONVERSAÇÃO, Harry acredita que a conversa que ele gravou – aparentemente um caso habitual de traição – pode ser evidência de um próximo assassinato, e fica obcecado com o que ouve na fita, analisando cada inflexão vocal para tentar descobrir quais os significados por trás das palavras.

À medida que as correções de Harry são feitas no som, a imagem do casal é mostrada para nós, remontada, com ângulos ligeiramente diferentes, cada vez destacando um pequeno detalhe que nos escapou e que vai se resignificando. Lembra também John Travolta em UM TIRO NA NOITE, de Brian De Palma, que por sempre “assistirem a mesma cena”, constantemente ouvirem os mesmos sons, eles acabam contaminando completamente esse universo, e daí em diante surge a fantasia, o que culmina, em A CONVERSAÇÃO, num final magnífico, cuja obsessão paranóica de Caul se transforma em tortura íntima e moral. Em questionamento ético.

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A visão da sociedade, quase kafkaniana é terrível, visionária e completamente atual, no qual a sociedade está sob vigilância, que a esfera privada foi pulverizada pela obsessão pela segurança. E Coppola sabe como fazer tudo isso minar numa impressionante estrutura formal e narrativa de suspense. E isso talvez seja uma das coisas mais legais em A CONVERSAÇÃO, uma obra que trata sobre esses assuntos relevantes sem deixar de lado os aspectos do suspense. É um baita thriller atmosférico e psicológico, que não dá muitas alternativas para o seu protagonista, que acaba trancado em sua própria armadilha, afundado na paranóia que ele próprio ajudou a criar.

Acho que vale ainda destacar a construção de Harry Caul, um desses personagens que acaba se tornando o seu ofício. Mas uma das grandes sacadas de A CONVERSAÇÃO é permitir que o personagem expresse dilemas e dúvidas morais durante cenas de intimidade, no confessionário de uma igreja ou diante de uma mulher compassiva. Caul se ressente de várias coisas, sem admitir completamente, e vai-se desenhando um personagem atormentado, que tem dificuldade em assumir moralmente as consequências de seu trabalho. Especialmente para quem possui uma fé religiosa, como é o caso de Harry, que tem consciência de que tomar o lugar de um Deus onisciente é um pecado grave, e ele sente todos os espinhos.

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Gene Hackman oferece um desempenho sutil e vigorosamente internalizado, mais silencioso do que estamos acostumados. Mas com grande força nos pequenos detalhes, uma das melhores atuações do sujeito. Gosto de brincar que INIMIGO DO ESTADO, de Tony Scott, lançado vinte e poucos anos depois, seja uma espécie de continuação de A CONVERSAÇÃO e que o personagem de Hackman, um paranóico gênio de vigilância tecnológica, talvez seja uma versão envelhecida de Harry Caul… John Cazale, Robert Duvall, Frederic Forest, Harrison Ford e Teri Garr também estão por aqui, nomes que já haviam trabalhado com Coppola e outros que ainda viriam a repetir a parceria.

Coppola dirigiu nos anos 70 mais três filmes. Os dois CHEFÕES que citei e APOCALYPSE NOW. Por vários motivos A CONVERSAÇÃO acabou não sendo tão celebrado quanto esses outros. Mas merecia. É um puta filme, um dos thrillers setentistas dos mais tensos, e uma dos melhores trabalhos de direção do homem. Enfim, não pretendo mesmo ficar vinte anos de novo sem revisitar essa maravilha.

PULP (1972)

Recentemente fiz este post explicando algumas questões que envolvem o antigo blog coletivo O DIA DA FÚRIA e os dois textos inéditos que acabaram surgindo na última tentativa de ressuscitar o projeto… Postei um texto do Marcelo Valletta sobre CARTER – O VINGADOR e disse que depois postava o segundo. Bom, o “depois” é hoje. Publico aqui o outro texto, que é de minha autoria mesmo…

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Mike Hodges comparou PULP ao seu trabalho anterior, CARTER – O VINGADOR, como filmes similares: a mesma trama contada de maneira diferente. De alguma forma, é até justa essa comparação no sentido de ter mais uma vez um protagonista vivido por Michael Caine se metendo num intrincado entrecho envolvendo o assassinato e abuso de uma jovem e o receio com pessoas em posição de poder por trás do crime.

Mas é uma comparação que não se sustenta por muito tempo e basta uma conferida em ambas produções para notar o contraste de suas dramaturgias, dos cenários, dos personagens, com alternâncias na dosagem de ingredientes e no tom, principalmente no humor. Como todos os primeiros projetos de Hodges eram explicitamente relacionados a crimes densos e pesados – CARTER – O VINGADOR, por exemplo, era sombrio e niilista – não é difícil entender porque o diretor optou pelo contraste através do humor. Hodges, no entanto, permaneceu fiel ao seu amor pela ficção policial, e PULP se revela uma comédia de crime e sátira política que ironiza não apenas os antigos filmes noir e seu material original – o título já evidencia, a literatura pulp – como também a natureza de decadência dos escritores desse tipo de romance.

Não que o protagonista de PULP seja um derrotado na vida, mas é um sujeito que vive no fim do mundo e precisa “prostituir” seu talento nunca reconhecido, escondido sob pseudônimos variados, escrevendo livros policiais de gosto duvidoso, curtos e baratos. Mickey King (Caine) é esse cara, cuja obra inclui títulos como The Organ Grinder e My Gun is Long, só para terem a noção do nível do material… Se bem que eu gostaria de ler um romance pulp chamado My Gun is Long.

Logo no início de PULP, percebe-se o tom da coisa: o mais recente trabalho de Mickey está entregue numa editora, numa sala de digitação ocupada por filas de jovens moças que ouvem sua prosa semi-pornográfica através de fones de ouvido enquanto digitam a obra. As reações das mocinhas já são suficientes para arrancar algumas risadas do público. Entra em cena Michael Caine, enquanto os créditos surgem na tela. Cigarro no canto da boca, terno branco, óculos de aros grossos e a cabeleira loura. E é sob a ótica dessa figura, acompanhado por uma narração em off, digna dos mais esdrúxulos casos policiais, que vamos seguir a trama.

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O próximo trabalho de Mickey é escrever, como ghost writer, as memórias de um ex-astro de Hollywood de filmes de gangster, Preston Gilbert (Mickey Rooney), que vive em Malta, sob o calor do sol do Mediterrâneo. Mas durante a longa jornada para chegar ao local onde vive o tal ator, várias situações estranhas, personagens excêntricos e um assassinato misterioso entram no caminho de Mickey. Quando chega ao seu destino, o sujeito já está metido até o pescoço numa trama espinhosa. Finalmente levado à presença de Gilbert, fica intrigado pelo falar excessivo do ex-ator. E nós, o público, ficamos de queixo caído com uma das atuações mais soberbas de Mickey Rooney.

Rooney já estava fora de moda no período e Hodges teve que insistir bastante para tê-lo no elenco, “a única pessoa que poderia desempenhar o personagem“, segundo o próprio diretor. Seu personagem é um grande falastrão, nada discreto, um gigante de baixa estatura que vive no limiar entre a realidade e a ficção que protagonizava nas telas em variados papéis criminosos. Liberado ao overacting, o resultado é uma atuação monstruosa, muita coisa vindo do próprio Rooney, em momentos de ensaio ou improviso na qual Hodges mantinha sempre a câmera ligada.

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Quando Gilbert é assassinado durante uma festa, Mickey percebe que agora também se tornou um alvo por saber demais. A partir daí, a trama vai ganhando contornos mais sérios, Gilbert estava envolvido em um escândalo sexual que havia sido encoberto porque outras pessoas poderosas foram implicadas… Como em CARTER – O VINGADOR.

Ghost Writer do defunto, acredita-se que Gilbert tenha passado os detalhes do escândalo para Mickey, que começa a investigar por conta própria o mistério numa tentativa de se salvar. O protagonista encontra a verdade, mas no percurso, se depara com a podridão burguesa e se esquiva de outra tentativa de assassinato, que deixa o seu pretenso assassino morto (Mickey ainda brinca com o cadáver: “Lembre-se de que você é pulp, e para o pulp voltarás“), mas Mickey fica ferido na perna e acaba numa forçada reclusão na mansão de luxo de algum fulano da alta classe, que quer mantê-lo assim, quietinho, longe de tudo e de todos. E agora passa seu tempo escrevendo um romance pulp que ninguém vai ler… Os poderosos mais uma vez se saem melhor.

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Na obra de Hodges, seu ponto de vista político inevitavelmente acaba se expondo de alguma forma e em PULP não é diferente. Há uma cena que um carro de som, cheio de fotos de um candidato fascista em campanha, entoa um discurso vindo das suas caixas sonoras – era a voz do próprio Mussolini… Como o filme não chegou a passar na Itália na época, ninguém entendeu a “piada”. Preocupado com a autenticidade daquilo que filmava, Hodges fez muita pesquisa sobre o estado do fascismo italiano do período, visitou o túmulo de Mussolini, comprou no mercado negro LPs com discursos do ditador italiano, e toda uma atmosfera opressora acaba transparecendo em PULP de forma incômoda, ainda que não influencie diretamente, pelo menos na maior parte do tempo, no mistério que o personagem de Caine se envolve. Mas é uma forma de Hodges deixar transparecer sua aversão ao fascismo, poder, exploração e corrupção.

A ideia era filmar PULP na Itália, porque o contexto político que tanto interessa ao diretor estava acontecendo lá. Em plenos anos 70, houve um aumento significativo de votos fascistas nas eleições italianas, algo totalmente incompreensível, um retorno à imbecilidade e que reflete uma estupidez coletiva que vem perdurando. Impossível não encontrar paralelo na realidade atual do Brasil… O filme acabou não sendo rodado na península, pois todos os locais que Hodges e a produção queriam usar tinha sempre que lidar com a máfia local, uma situação que o diretor não queria levar muito adiante. Gangsters, só na ficção.

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Mas  Hodges sempre foi simpático com o fato de ter que filmar em Malta, sob o sol do Mediterrâneo, o que enfatiza ainda mais o contraste frio e sombrio dos locais que havia filmado no Reino Unido em seus filmes anteriores. O que contribui até para uma certa leveza. PULP talvez seja o filme mais leve de Hodges (mesmo tendo realizado comédias puras mais tarde). Dá para dar boas risadas, principalmente no primeiro terço de filme antes que o personagem de Caine entre de vez no mistério.

Com PULP, Hodges demonstra repertório sem deixar sua assinatura autoral em segundo plano, apesar de nunca ter alcançado uma merecida popularidade. Nem mesmo quando foi para Hollywood, onde filmou obras com mais recurso, como FLASH GORDON, por exemplo, acabou tendo resultados sem grandes expressões e os que se  lembram de seu nome ainda é pelo seu longa de estréia, CARTER – O VINGADOR. PULP é um de seus trabalhos que acabou entrando relativamente no esquecimento, nunca teve o impacto desejado, sua concepção política crítica não é tão evidente, o que remove uma certa relevância que poderia ter na época. Embora seja um filme engraçado, com bons momentos e mais uma vez Michael Caine oferecendo uma performance de alto nível.

No Brasil, recebeu o título de DIÁRIO DE UM GANGSTER.

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10 MINUTOS PARA MORRER (1983)

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10 MINUTOS PARA MORRER é o filme que o Charles Bronson sai à caça de um assassino peladão. O filme que meu pai dizia que “terminava com o Bronson dando um tiro na testa de um bandido“…

Bronson interpreta Leo Kessler, um detetive veterano, mais de 20 anos de carreira na força policial, mas cansado de ver o sistema de justiça trabalhar contra ele. Agora, em busca de um perigoso assassino, Kessler e seu jovem pareceiro, o novato Paul McCann (Andrew Stevens), começam a se aproximar de Warren Stacy (Gene Davis), o principal suspeito por violentas mortes. O problema é que seus elaborados álibis e métodos quase impecáveis de cometer tais crimes sem deixar rastros impedem que os policiais encerrem o caso com provas definitivas de que ele seja o assassino. Sobra a intuição e a experiência do velho Kessler, que tem absoluta convicção que Stacy é o homem por trás das mortes.

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10 MINUTOS PARA MORRER não é um daqueles filmes em que temos que adivinhar quem é o assassino. Sabemos quem é o maluco desde o início e que Kessler está certo no seu “palpite”. Enquanto isso, o assassino desfruta de sua liberdade, deixando mais corpos espalhados e perseguindo a filha do protagonista, instaurando um perigoso jogo de gato e rato. Kessler, que em determinado momento acaba sendo demitido da polícia por suas ações ilegais na tentativa de incriminar Stacy, agora é um agente livre que decide permanecer na cola do assassino 24 horas por dia. O filme termina de forma pesada, quando Stacy pratica uma carnificina no dormitório cheio de enfermeiras onde mora a filha de Kessler. E quando o ex-policial encurrala o assassino, Stacy faz um monólogo explicando seus atos como uma “doença”, como uma insanidade: “A sociedade terá que lidar comigo para sempre!“. Mas Kessler resolve tomar medidas para garantir que isso nunca aconteça.

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Dirigido com a classe e segurança de J. Lee Thompson, que colaborou em quase todos os filmes do Bronson nesse período, e produzido pela Cannon, 10 MINUTOS PARA MORRER se destaca como um dos melhores filmes do velho Bronson nos anos 80. Um eficaz thriller policial, com atmosfera suja, desprezível, cheio de nudez e violência. Pode ser um pouco chocante, visto hoje, devido ao viés conservador, uma reflexão sobre a pena de morte numa parábola sobre um policial cuja a experiência na aplicação da lei se mostra, repetidamente, que o sistema não funciona. E quando o sistema não funciona, só lhe resta meter uma bala na cabeça de bandido…  Bolsominions vão ejacular com esse filme, obviamente, pois não tem capacidade mental de perceber o contracenso, o paradoxo de sua ideologia. Mas com a perda de seu idealismo, o homem da lei de Kessler simplesmente se cansa dessa merda toda. Seu único objetivo era impedir que mais mulheres fossem assassinadas e quando a justiça falha, o resultado é mais mortes violentas…

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É aquela coisa, como ser humano eu detesto reacionários e fascistas. Como cinéfilo, eu admiro o cinema radical que levanta esse tipo de reflexão. Trata-se de repelir a hipocrisia. E 10 MINUTOS PARA MORRER, mesmo que não tivesse essa consciência reflexiva, consegue isso. Ideologias à parte, sobra ainda um filmaço de “polícia à caça de um maníaco assassino”. E temos ainda uma cena fantástica, na qual Bronson questiona o suspeito sobre um determinado acessório de masturbação, segurando o objeto em mãos, que é simplesmente genial, deveria estar entre os grandes momentos da carreira do homem!

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Vale destacar Gene Davis como o assassino sádico e calculista Warren Stacy, um dos mais pervertidos e violentos assassinos a serem retratados na tela no início dos anos 80, junto com Joe Spinell, em MANIAC, de William Lustig (sem a mesma profundidade psicológica, no entanto). Obviamente a característica mais marcante é o fato do sujeito estar sempre peladão na hora de cometer seus crimes. Ele tira toda sua roupa antes de matar, mesmo que precise andar um pouco até chegar à vítima. O que seria especialmente horrível ver um homem nu vindo em sua direção balançando o pau e uma faca… E enquanto a maioria dos personagens acha Stacy assustador, um creepy, sua boa aparência e educação o ajuda a se misturar na sociedade e a adicionar um certo nível de suspense ao seu comportamento, o que é agravado pelas grandes mudanças de estado mental do personagem ao longo do filme.

Enfim, para um thriller policial do início dos anos 80, 10 MINUTOS PARA MORRER oferece tudo o que você esperara de uma produção da Cannon estrelada pelo Bronson. Para os fãs do homem, é imperdível.

007 CONTRA GOLDFINGER (1964)

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Se existe um filme da série 007 que se qualifica como um clássico imortal, este filme é 007 CONTRA GOLDFINGER (Goldfinger), de Guy Hamilton. Terceirto capítulo da série sobre o espião à serviço secreto da coroa britânica, James Bond, ganhou importância para a franquia porque, de certa maneira, foi o exemplar que estabeleceu uma ideia, para a maioria das pessoas, sobre o que de fato é um filme de James Bond.

007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO, o primeiro, que apresentou o personagem e sua famosa música tema, e MOSCOU CONTRA 007, o segundo, eram basicamente thrillers de espionagem ao espírito dos livros escritos por Ian Fleming, enraizado mais em intrigas palpáveis e de contextos reais, como a Guerra Fria. GOLDFINGER pegou elementos essenciais desses dois e deu um toque especial. Construiu um ícone maior que a vida, apresentou várias marcas registradas e tudo o que torna o personagem tão reconhecível e memorável.

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É aqui que começam também a explorar os limites entre a realidade e os excessos da fantasia do cinema de ação, uma das principais características da série. Um exemplo temos logo no início, quando Bond enxerga, através do reflexo da íris de uma moça, um bandido espreitando por trás prestes a atacá-lo. PELO REFLEXO DA ÍRIS!!! É pra isso que o cinema foi inventado… Temos também o famoso capanga que arranca a cabeça de estátuas arremessando seu chapéu-côco forrado de aço… Praticamente uma história em quadrinhos.

Depois disso, os filmes de Bond não se levaram muito a sério e, pessoalmente, fico feliz que isso tenha acontecido. Parte do que torna a série 007 tão fascinante pra mim é exatamente o tom exagerado, uma fórmula que começaram a desenvolver por aqui em GOLDFINGER. Uma fórmula que não vemos em DR. NO ou MOSCOU CONTRA 007

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Na trama, a preocupação com a estabilidade dos preços do ouro ao redor do globo coloca James Bond (mais uma vez interpretado por Sean Connery) na trilha de um contrabandista internacional de ouro, o excêntrico Auric Goldfinger (Gert Fröbe). Tendo encontrado o sujeito pela primeira vez em um hotel em Miami, Bond está ciente de que o homem é um adversário peculiar e muito perigoso. Goldfinger revela ser obcecado por duas coisas: ouro e levar vantagem a qualquer custo, seja numa partida de golfe ou até mesmo num amigável jogo de cartas à beira da piscina de um hotel.

Em relação ao “perigoso”, Bond descobre do pior jeito: Goldfinger não demonstra muito remorso em matar sua acompanhante quando ela o trai com o espião. Acaba assassinada de maneira única, asfixiada com seu corpo completamente coberto com tinta dourada. Uma das imagens clássicas da franquia.

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Bond visita Q, interpretado por Desmond Llewelyn, que ficou famoso entre os fãs da série por fazer esse personagem durante décadas. Suas engenhocas tecnológicas acabaram se tornando elemento essencial da franquia. E é aqui que Bond é apresentado pela primeira vez ao Aston Martin, seu veículo oficial e que utiliza logo em seguida para ficar na cola de Goldfinger. Ao se infiltrar em um complexo do vilão, Bond descobre o método engenhoso que seu adversário contrabandeia grandes remessas de ouro. Também descobre que Goldfinger tem algo maior planejado, uma operação com o codinome Grand Slam. Mas antes que ele possa sair do local, 007 é capturado. Só mais tarde ele realmente descobrirá quão grandioso é o Grand Slam

Mais momentos clássicos: Bond capturado, é amarrado a uma mesa com um cortador a laser em direção à sua “arma mais preciosa”. Como a cena do corpo coberto de tinta dourada, essa é outra das mais icônicas de toda a franquia. A paródia/homenagem dos Simpsons, no episódio You Only Move Twice, é evidência de seu poder na cultura pop.

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Tudo parece funcionar em GOLDFINGER – os personagens; o roteiro com um equilíbrio quase perfeito de humor irônico e convenções do thriller de espionagem, carregados de diálogos incríveis; o ritmo; a música tema de Shirley Bassey e John Barry… Continua sendo uma aventura atemporal, com o espião cínico, malandrão e mulherengo que adoramos. Claro, Bond dos anos 60 é um dinossauro sexista e misógino para os padrões chatos de hoje, mas Sean Connery é cool o suficiente para se safar. Falando nisso, não dá pra esquecer a bela Pussy Galore. Basta esse nome para garantir que seu papel seja lembrado entre a maiores Bond Girls. Mesmo com tão pouco tempo em cena…

Temos Goldfinger, um dos melhores vilões de toda a série, e seu capanga, o brutamontes Oddjob, o tal com o chapéu letal, que dá uma canseira ao nosso herói. A sequência de luta entre ele e Bond nas entranhas do depósito de ouro em Fort Knox é um dos grandes momentos do filme.

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Aliás, as cenas de ação de GOLDFINGER são de alto nível. O diretor Guy Hamilton era desses que sabia criar um bom espetáculo no gênero, com destaque para a perseguição de carros pelos bosques e no complexo de Goldfinger, no qual Bond utiliza vários acessórios que Q preparou em seu Aston Martin. E obviamente o deflagrador final, um tiroteio explosivo de grandes proporções e alta contagem de corpos. Hamilton voltaria a dirigir mais três exemplares do espião: 007 – OS DIAMANTES SÃO ETERNOS, COM 007 VIVA E DEIXE MORRER e 007 CONTRA O HOMEM COM A PISTOLA DE OURO. Esses dois últimos com Roger Moore no papel de Bond.

Todos esses elementos se combinam para tornar GOLDFINGER um clássico do cinema de ação e dos melhores e mais influentes filmes da série 007. Mesmo não sendo o meu favorito… Que aliás, não sei ainda exatamente qual é. Talvez A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE, ou O ESPIÃO QUE ME AMAVA, ou A CHANTAGEM ATÔMICA, que mal lembro, mas que me marcou muito quando era moleque… Enfim, comecei a rever novamente a série depois de uns vinte anos e até o final dessa “retrospectiva” eu descubro qual é o que mais gosto. Se calhar, acaba sendo mesmo GOLDFINGER. Sem dúvida vai estar entre os primeiros.

Os outros filmes do espião já comentados aqui no blog:

007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO
MOSCOU CONTRA 007

ATOS DE VIOLÊNCIA (2018)

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A trama de ATOS DE VIOLÊNCIA é sobre três irmãos, um deles é Roman (Ashton Holmes), que está prestes a se casar com sua namorada, Mia (Melissa Bolona). Quando ela é sequestrada por traficantes de escravas durante sua festa de despedida de solteira, Roman pede a ajuda aos outros dois irmãos, militares veteranos (Cole Hauser e Shawn Ashmore), para recuperá-la.

Bruce Willis aparece em cena como um detetive especializado neste tipo de caso, tentando derrubar esses traficantes, mas obrigado a fazer tudo debaixo da lei, embora saiba que está de mãos atadas por conta do sistema corrompido. A capa do DVD até dá aquela destacada para Willis, vocês sabem, é o único famoso do elenco, então já colocam a cara dele na capa para atrair público. Mas uma coisa que gostei em ATOS DE VIOLÊNCIA é como o roteiro encontra uma maneira orgânica de trabalhar com o velho Bruce na história. Seu papel pode ser pequeno, mas pelo menos ele tem um personagem digno e com alguns momentos para relembrar seus dias de action hero. Apesar disso, Willis esteve no set por apenas um dia para gravar suas cenas, a maioria delas sentado atrás de uma mesa, embora nem dê pra sentir muito isso… hehe!

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Não pode faltar o famoso biquinho…

Já a história central, que envolve os três irmãos, até que me prendeu. Algumas atuações são horríveis e exageraram na dose de situações dramáticas piegas, mas curti a ideia dos irmãos badasses, com treinamento militar, tendo que utilizar suas habilidades num ambiente urbano. Destaque para Cole Hauser, figura já conhecida para quem aprecia filmes de ação DTV (recomendo especialmente THE HIT LIST, com Cuba Gooding Jr.), fazendo um personagem mais complexo, veterano de guerra sofrendo de estresse pós-traumático. Também é legal ver Mike Epps, mais conhecido por fazer comédias, encarnando o sádico e perigoso chefão da operação de tráfico de escravas.

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Alguns problemas de roteiro aqui e ali, fórmulas batidas e clichezentas suficientes para espantar o “cinéfilo brioche”, mas o filme até consegue entregar o que promete para os admiradores de um decente thriller de ação de baixo orçamento. As sequências de ação, por exemplo, se não são expressivas, ao menos são filmadas com certa competência e clareza. A direção é de um tal Brett Donowho… Nunca ouvi falar, mas o cara já tem algumas coisinhas no currículo. Alguém mais corajoso pode desbravar se tiver interesse.

ATOS DE VIOLÊNCIA é daquele jeito: não tem pretensão alguma de ganhar prêmio, mas é uma maneira divertida que um fã de ação sem grandes expectativas pode encontrar para passar 86 minutos de sua vida. Foi lançado em DVD no Brasil pela A2 Filmes, pelo selo Flashstar.

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PREMONIÇÃO (2005)

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PREMONIÇÃO até que é um suspense bem decente levando em conta o orçamento risível que teve, uma premissa preguiçosa e recheado de clichês, o elenco medíocre e os efeitos especiais toscos… Mas se as expectativas não forem muito altas e o espectador conseguir ignorar esses detalhes negativos e quiser assistir apenas um thriller vagabundo sem grandes pretensões, dá pra se divertir um bocado com essa tralha num sabadão…

A trama é basicamente uma variação de A HORA DA ZONA MORTA, aquela maravilha de David Cronenberg, com o Christopher Walken, baseado em Stephen King. Mas aqui temos Casper Van Dien como protagonista – um desses atores promissores dos anos 90 (pra mim sempre será o eterno Johnny Rico de TROPAS ESTELARES) que acabou relegado ao universo dos filmes de ação/terror lançados diretamente no mercado de vídeo. O sujeito interpreta Jack Barnes, um detetive que acaba tendo uma experiência de quase-morte no cumprimento do dever, durante uma perseguição de carro que acaba de forma trágica… E que a produção faz uso de stock footage, ou seja, utilizam imagens de uma perseguição de outro filme mais abastado – que eu não consegui identificar qual era – porque fica bem mais barato que filmar a própria sequência… É esse o nível da produção que temos aqui. hehehe!

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Bom, o fato é que Barnes volta à vida e agora passa a ter premonições de desastres que estão prestes a acontecer na cidade. Um vagão do metrô que descarrilha, o subsolo de um edifício que explode por causa de um vazamento de gás… E por aí vai. E à medida em que precisa lidar com esse dom, ou maldição, Barnes corre contra o tempo para tentar evitar as catástrofes que prevê, ao mesmo tempo em que investiga uma possível conexão desses desastres com um grupo terrorista (que no início do filme invade uma fábrica usando máscaras de George W. Bush… What a fuck?).

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Em momento algum o filme faz questão de dar algum sentido ou explicação sobre o fato do protagonista começar a ter essas visões, exceto pela experiência de quase-morte. Em determinado momento, o personagem conhece outro sujeito que teve a mesma experiência e, pimba, passou a ter visões. Então, ao que parece, uma experiência de quase-morte é suficiente para virar o próximo Nostradamus. Enfim, Barnes apenas passa a ter essas visões e pronto. Por mim, tudo bem, a última coisa que quero num filme desse tipo é ficar pensando em explicações lógicas.

A maior parte do filme seguimos os passos de Barnes nessa confusão, o que ajuda a manter o interesse, porque Van Dien até que apresenta um bom desempenho, consegue sergurar o tipo de obra que é PREMONIÇÃO. O restante do elenco é ruim de doer e alguns diálogos são terríveis. As cenas de ação são bem filmadas, com exceção da tal perseguição de carro com imagens de outro filme, que é uma bagunça (poucos sabem fazer esse tipo de “colagem” como um Jim Wynorski), mas a maioria das sequências mais excitantes são tiroteios que, se não chegam ao nível de um Michael Mann, ao menos são simples, secos e sem frescuras. O diretor é um tal Jonas Quastel, um canadense que já tem vários pequenos filmes de gênero lançados em “vídeo”.

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Não é um Michael Mann, mas tá tudo bem…

Mas o grande barato de PREMONIÇÃO são os efeitos especiais toscos e baratos. Capazes de revirar o estômago do espectador mais exigente, vulgo “cinéfilo brioche”, mas pra mim são as melhores partes do filme, renderam boas risadas. Especialmente a sequência final envolvendo um helicóptero em CGI ridículo e a cena do desastre no metrô, que é impressionante de tão mal feita.

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PREMONIÇÃO não merece um texto maior que este. Ficamos por aqui. Pode parecer um completo desastre, como nas visões do protagonista, mas definitivamente não é um filme ruim se você assistir com poucas expectativas. Tem disponível no Brasil em DVD.

PLAY MISTY FOR ME (1971)

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Em 1971 Clint Eastwood era uma das principais figuras do cinema comercial americano, tendo construído seu nome em filmes de faroeste e ação. PLAY MISTY FOR ME, no Brasil lançado como PERVERSA PAIXÃO, foi sua primeira investida como diretor e a surpresa inicial é o fato do filme ser um crazy bitch thriller ao estilo de ATRAÇÃO FATAL, sobre um DJ de rádio que se torna o objeto de obsessão mórbida de uma fã obcecada. Um filme de romance às avessas que se torna um autêntico pesadelo. E, convenhamos, é algo que está bem longe dos filmes de ação pelos quais Clint era então conhecido.

Mas olhando hoje, quase 50 anos depois, percebe-se claramente que PLAY MISTY FOR ME trata-se de um trabalho muito pessoal de Clint, cheio de interesses e obsessões que de certa forma o acompanharam durante toda a sua carreira. Uma das principais características é o fato dele mesmo incorporar o protagonista, um apresentador de rádio responsável por um programa de jazz. O filme é, portanto, literalmente invadido pela música, onipresente, dos mais populares ritmos aos mais elegantes (Errol Garner, com a música Misty, citada no título do filme) e para quem não sabe o homem é um aficcionado por jazz e blues… Muita gente reclama do prolongamento da sequência do festival, mas acho que é a melhor exemplificação dessa lógica, esses minutos “ao vivo” do festival de Monterey, onde Eastwood filma os músicos e o público em transe, etc… Uma magnífica declaração de amor de Clint à música.

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A trama de PLAY MISTY FOR ME é sobre David Garver, este disc-jockey de fala mansa que Clint interpreta. Depois de uma noite caliente com sua fã número um, Evelyn (Jessica Walter), ele dá a ela a velha desculpa “Eu te ligo depois“. Só que ela realmente acredita nas palavras do sujeito. Logo, ela está surgindo na casa dele com compras, ligando em horários estranhos e aparecendo completamente nua em sua porta. À princípio David tolera o comportamento dela, mas quando ele resolve volta para Tobie (Donna Mills), um antigo romance, Evelyn entra no modo full-crazy bitch stalker. Invade a casa dele histérica, destrói seus móveis, estraga uma importante entrevista de emprego, até esfaqueia sua empregada antes de ir atrás da namorada de David. Ao final, por ser Clint Eastwood, ele não tem nenhum problema (SPOILER) em dar um soco na cara dela e vê-la cair com tudo e se espatifar nas pedras de uma ribanceira à beira-mar…

O legal é que PLAY MISTY FOR ME não gasta muito tempo enrolando. É bem direto no tema do “perseguidor obcecado” e alguns dos melhores momentos ilustram a facilidade com que David cai nas armadilhas de Evelyn e o quão impossível é para ele se livrar. Chega a ser angustiante… E David acaba sendo cúmplice em sua própria crise. O filme prenuncia cuidadosamente o lado sombrio de Evelyn, de um modo até exagerado no maniqueísmo, sem sutilezas, e o filme enfatiza que a única coisa que impede David de sentir o perigo é sua própria arrogância. E a luxúria, claro, já que David é um mulherengo cujo relacionamento com Tobie está sendo testado por conta de suas conquistas extracurriculares. E como o colega de David, Al (James McEachin), diz com uma piscadela: “Quem vive à espada, morre pela espada“.

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A última hora de filme compensa bem a premissa, com várias cenas tensas de suspense e violência. E Jessica Walter devora o seu papel, criando um monstro memorável, baseado em emoções críveis e perversas. Talvez falte a tal sutileza à personagem, mas dentro da proposta tão direta na qual o filme lida com o assunto, ela convence fácil com uma atuação expressiva e perturbadora. Clint também faz um bom trabalho na frente da câmera, desempenhando basicamente o mesmo que em todos os seus filmes, exceto que ele quase não mata ninguém por aqui. E transa mais (prefere usar a outra arma, se você me entende)…

Na direção, Clint se deixa guiar pelos ensinamentos de seus mestres, Sergio Leone (com vários planos detalhes dos olhos de seus personagens) e Don Siegel (e é até comovente que Clint tenha colocado Siegel para fazer um pequeno papel como o barman favorito de David). Mas muito do estilo autoral da direção de Eastwood se manifesta nesse seu primeiro trabalho, especialmente o uso da iluminação escura, no cuidado com as composições e no ritmo lânguido… Não deixa de ter falhas (pesa a mão alguns momentos melosos demais entre David e Tobie) e uma certa hesitação entre ser classicista ou Nova Hollywood… Mas o resultado não deixa de funcionar. PLAY MISTY FOR ME é uma sólida estreia, um thriller angustiante muito bem executado para o primeiro esforço de um diretor que se tornaria um dos melhores do ramo.

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PARASITA (2019)

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Vi PARASITA já faz um tempinho, mas como o filme tá estreando nos cinemas pelo Brasil acho que vale a pena fazer uns comentários. Até porque é um dos grandes filmes de 2019. E também porque adoro o trabalho do Bong Joon-ho, esse diretor coreano que possui o talento de aproximar como poucos o riso, o cômico, ao grito de horror. E é exatamente o que acontece por aqui em PARASITA, que levou a Palma de Ouro em Cannes deste ano e que proporciona ao mesmo tempo um prazer extraordinário e um profundo mal-estar. O tipo de filme que você se sente tanto revigorado (pelo poder cinematográfico de Bong) quanto nocauteado (pela acidez como aborda o lado podre da sociedade).

E Cannes parece ter confirmado um certo apreço por filmes que retratam famílias à margem, como no vencedor do ano passado, ASSUNTO DE FAMÍLIA (Shoplifters), de Hirokazu Koreeda. Em PARASITA temos um pai, mãe, filha e filho, que vivem juntos em certa harmonia, mas em condições miseráveis, no subsolo de um edifício, no qual a única janela se abre para um beco sujo onde os bêbados usam para mijar. O filho acaba contratado como professor particular de inglês por uma família rica (que vive em uma bela casa, grande, arquitetura moderna, com vista para a cidade), falsificando um diploma. Em seguida, organiza para que sua irmã seja contratada como terapeuta de educação artística. Ela arruma um jeito de fazer o motorista dessa família ser demitido para que seu pai seja contratado no lugar. E o pai reserva o mesmo destino à fiel governanta, para que sua esposa seja contratada…

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Em determinado momento, quando a família está sozinha nesta casa, desfrutando de uma viagem de seus chefes, apossam-se de boa comida, fartura, bebida e conforto. Ficam totalmente bêbados e sentimentais… E é quando começamos a sentir Bong brincando de fazer suspense, revelando a verdadeira face de PARASITA. É quando a sátira transcende e toma uma forma mais obscura e aterradora. Quase um filme de horror sobre luta de classes, sem qualquer tipo de condescendência. E o mais incrível, sem perder o humor.

Não há espaço para “vilões” e “mocinhos” no olhar de Bong. Os chefes ricos têm seus defeitos, seus lados doentios e ridículos. Mas também são pessoas boas e atenciosas. Quanto à família pobre de golpistas, existe uma sinceridade e um desespero que faz seus membros lutarem para sair da situação que se encontram. Mas ao mesmo tempo, são isso mesmo: golpistas. A única solução que encontram para sair do subterrâneo é a farsa. Mas PARASITA não é filme de ficar fazendo julgamentos moralistas pra cima dos personagens, que os utiliza em prol de uma inteligente sátira sobre as classes da sociedade. Que é curiosamente cômica, mas não deixa de causar um abalo perturbador.

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Para finalizar, um elogio. Fiel ao diretor desde MEMÓRIAS DE UM ASSASSINO, Song Kang-ho, que faz o papel do pai da família golpista, confirma mais uma vez que é um dos grandes atores da atualidade.

DOMINO (2019)

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Tem momentos em DOMINO que você percebe que está diante de um grande filme de Brian De Palma, especialmente na primeira meia hora. O filme começa extremamente bem, câmera linda, um trabalho de zoom incrível, e a sequência que culmina numa perseguição pelos telhados em Bruxelas faz uma bela homenagem a UM CORPO QUE CAI. Depois, DOMINO dá uma caída feia, a coisa vai se tornando progressivamente desinteressante e sem se dar conta estamos vendo um thriller direct to video dos mais vagabundos e preguiçosos. O que não deixa de ser, já que foi a cara que o estúdio resolveu dar ao filme (para quem não sabe, DOMINO teve uma produção desastrosa, faltou dinheiro, De Palma não teve o corte final…). Deu pra sentir o estrago. Montagem horrível, ritmo cai, umas cenas sem motivo algum de existir, em termos narrativos a coisa fica bizarra mesmo… No meio disso tudo, temos mais uma sequência genial, a do atentado terrorista num festival de cinema. DOMINO cresce de novo no final, com uma sequência daquelas para entrar numa antologia de momentos fodas do De Palma, um mestre que domina o tempo como poucos.

O saldo final é positivo. Tem falhas, muitas, filme torto pra caralho. Mas é bom pela câmera, pelo estilo, por grandes cenas que o De Palma conseguiu encaixar em alguns momentos. Momentos bem dignos mesmo… Como fã de giallo, nada tenho contra obras construídas a partir de grandes cenas, interligadas de maneira confusa e bagunçadas, como é o caso de DOMINO. E há algumas ideias que De Palma trabalha obsessivamente que são bem interessantes, um manifesto sobre a imagem do terror, em como essa imagem é realizada, manipulada, divulgada, o uso inventivo de mobiles (os dois celulares acoplados numa metralhadora filmando um atentado; o homem-bomba que precisa esperar o drone se aproximar para apertar o botão), na concepção e divulgação dessa imagem… Ideias que têm um significado bem interessante no filme e no cinema de De Palma em geral. Resumindo, é fácil ficar do lado de obras-primas inquestionáveis, difícil mesmo é tentar entender obras tortas como DOMINO. Só acho uma pena mesmo que o estúdio não tenha permitido ao filme qualquer vôo mais alto, mesmo com o esforço do De Palma.

WOMAN OF DESIRE (1994)

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WOMAN OF DESIRE é um desses filmes aleatórios que por algum motivo, provavelmente pelo elenco, acabei catando de algum tracker e assisti um dia desses. E por algum outro motivo que nunca vou saber explicar, vou postar alguma coisa sobre ele… Temos Jeff Fahey, Steven Bauer em papel duplo, temos o maior ator de todos tempos, Robert Mitchum, e a musa dos anos 80 Bo Derek, que, apesar de inexpressiva, não desperdiça nosso tempo com sua beleza e muitas cenas com pouca roupa. Pronto, já temos motivos suficientes para assistir a esse neo-noir sem-vergonha dos anos 90.

Dirigido por Robert Ginty, mais conhecido pelo trabalho na frente das câmeras em filmes de ação exagerados dos anos 80, como THE EXTERMINATOR, de James Glickenhaus, WOMAN OF DESIRE é sobre um sujeito, Jack (Fahey) que é encontrado totalmente nu em uma praia sem lembrar direito o que aconteceu e como chegou ali. Ao mesmo tempo, Christina (Derek) está no hospital local contando sobre uma noite muito estranha dentro de um pequeno iate, no qual, segundo a moça, Jack trabalhava como capitão transportando ela e Ted (Bauer), quando os dois sujeitos começam uma violenta discussão que acaba em briga. Jack teria atirado em Ted, que caiu no mar e seu corpo desapareceu, logo depois o sujeito estuprou Christina e uma tempestade jogou ambos no mar.

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As coisas não parecem boas para Jack, que contacta seu advogado, interpretado por Mitchum, que passa a remontar os eventos como um quebra-cabeça. E o filme vai encaixando as peças, abusando de flashbacks e uma variedade de reviravoltas confusas, envolvendo irmãos gêmeos, um jogo de sedução perigoso entre Jack e Christina, até que a coisa toda vira um filme de tribunal, com um looongo julgamento, que desemboca num tiroteio em um desfile de rua no pequeno balneário onde a trama se passa, e tudo é finalmente explicado.

Parece interessante, mas não é bem assim. A direção pesada e “televisiva” de Ginty não é lá muito inspirada, sem estímulos visuais. Não consegue criar muito a atmosfera que um Eric Red, Bradford May ou Bobby Roth criavam nesse tipo de produto nos anos 90. E a trama é enfadonha na maior parte do tempo, apesar da premissa, inicialmente, ser interessante. Não é das melhores performances de Fahey, ator que geralmente eu gosto bastante, mas não me parece muito feliz aqui. Já o trio restante tenta salvar a sessão. Bauer e Mitchum estão sempre ótimos em cena, mesmo um Mitchum já envelhecido, mamado de uísque em cada frame, mas que tem o vigor que sempre exalou em décadas atuando. E Derek não precisa fazer muita coisa, contanto que esteja beeem à vontade, se é que me entendem. Num bom dia, aquele que você acordar com o pé direito e quiser encarar um thrilerzinho vagabundo, fica a dica de WOMAN OF DESIRE.

[CAGESPLOITATION] O PACTO (2011)

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Eu adoro como o Nicolas Cage se entrega de uma maneira tão especial nos papéis que faz, mesmo em filmes péssimos. Concordo com essa ideia de que ele acabou meio que criando um gênero de si mesmo. Quero dizer, um filme de suspense, ação, terror, pode ser bom ou ruim, mas se tem o Nic Cage como protagonista, automaticamente o filme fica bom e o gênero não importa mais, porque estamos diante de um Cagesploitation!

Um bom exemplar do que andei assistindo da fase “atual” do Cage foi este O PACTO, que é um thriller bem bobinho, mas que faz uma baita diferença por tê-lo como protagonista. Cage é Will Gerard, professor de inglês de uma escola secundária de New Orleans, cuja esposa Laura (January Jones), numa noite qualquer, é brutalmente estuprada. No hospital, Will é abordado pelo misterioso Simon (Guy Pearce) que afirma saber quem é o estuprador e vai “cuidar dele” para Will. Só que agora ele ficará devendo um favor quando for solicitado. Naquela mesma noite, o estuprador é morto.

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Seis meses depois, Simon contata Will e o instrui a matar um pedófilo que anda à solta pela cidade. Quando Will se recusa a retribuir o favor, Simon e sua equipe, que parece estar sempre em qualquer hora e qualquer local de New Orleans, começa a transformar a vida do sujeito num inferno. Will, um simples professor, se vê obrigado a lidar com mortes misteriosas, traição e um intrigante jogo de gato e rato que põe em risco a sua vida e da sua esposa. E esse simples professor acaba se tornando num herói de ação, porque, claro, é o Nic Cage! Ele se mete em altas confusões para manter a pele intacta.

À medida em que o filme continua e o roteiro vai revelando várias surpresas absurdas, acumulando plot twist totalmente desnecessários, Cage vai ficando cada vez mais solto, com um desempenho que lhe é característico: caretas, gritaria, correria enlouquecido… Que é realmente a marca registrada do sujeito e que os fãs adoram. Guy Pearce é sempre bom de se ver e está muito bem como vilão. O filme conta com ainda no elenco com Harold Perrineau, Xander Berkeley, Iron E. Singleton (O T-Dog da série THE WALKING DEAD) e uma pequena participação de Jennifer Carpenter. Tobey Maguire, aquele ator que só é lembrado pelos filmes do Homem-Aranha do Sam Raimi, foi um dos produtores. E a direção é do veterano Roger Donaldson (O INFERNO DE DANTE e A EXPERIÊNCIA).

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Como eu disse, O PACTO é um exemplar bem besta como thriller, mas ao mesmo tempo não deixa de ser uma patetice agradável nível Supercine, para se ver naquele sábado à noite que você acabou não tendo nada melhor para fazer. Os fãs de Nic Cage obviamente vão ter um gostinho a mais. Quando o sujeito está realmente interessado no material, nem roteiro ruim deixa de ser divertido…

AMEI UM ASSASSINO (1948); CLASSICLINE

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Vi mais essa pérola, em DVD, lançada pela ClassiclineAMEI UM ASSASSINO, de Norman Foster, veste uma roupagem iconográfica de film noir, com todos os elementos visuais característicos, para narrar um melodrama denso e muito interessante. O filme é um realização da Norma Productions, que tinha o ator Burt Lancaster, que é o protagonista aqui, como um dos fundadores. Foi ele quem lutou para manter o título original da fita, o belíssimo KISS THE BLOOD OFF MY HANDS, que é homônimo ao romance que fora adaptado. Com esse título irresistível, fica difícil não dar um conferida.

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Ambientado numa Londres pós-Segunda Guerra Mundial, Lancaster é um típico outsider à deriva ferrado na vida. Ex-combatente, vive à margem tentando viver um dia de cada vez. A coisa piora pro sujeito quando acaba se metendo numa briga em um pub. Após acidentalmente matar um homem, parte em fuga e cruza o seu caminho com o da enfermeira interpretada por Joan Fontaine. Adicionado ao tempero, temos ainda um Robert Newton inspirado, como um bandido lowlife, que testemunhou o crime do protagonista e tenta o manter sob o seu controle.

O legal é que AMEI UM ASSASSINO sempre vai brincando com as expectativas, com um enredo que tece de formas inesperadas o seu desenvolvimento particularmente surpreendente. Nunca se sabe o que vai acontecer a seguir e o filme vai sempre se renovando, especialmente na relação amorosa que surge entre Lancaster e Fontaine. Ainda em início de carreira, Lancaster começa meio travado, mas aos poucos vai se soltando e ao final, temos mais uma grande atuação do sujeito. O filme faz um bom trabalho ao mostrar suas ações como resultado dos efeitos da guerra. Na verdade, o filme possui essa relação sombria e evidente do trauma e desilusão do pós-guerra na Europa.

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AMEI UM ASSASSINO até pode ser considerado do gênero noir, possui alguns elementos gráficos e temas que o coloquem como tal, embora no fim das contas a coisa vá desaparecendo de certa maneira, tomando outra forma, mais ligada à herança do melodrama, restando apenas essa roupagem estética da cinematografia de Russell Metty, que é expressiva e que traz toda a nebulosidade da Londres pós-guerra para a tela. Os becos escuros e apertados, um trabalho de sombras fantástico digno dos melhores noirs

A perseguição que acontece no início, com Lancaster fugindo da polícia pelas ruelas escuras, é um bom exemplo, além de ser uma aula de enquadramentos e movimentos de câmera. Prova que o diretor Norman Foster aprendeu tudo direitinho como assistente de Orson Welles. A sequência em que envolve a personagem de Joan Fontaine, Robert Newton e uma tesoura também é um primor em como se trabalhar o suspense utilizando apenas luzes, sombras e close-ups.

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AMEI UM ASSASSINO foi lançado pela Classicline em dezembro do ano passadoO disco é apresentado em uma excelente edição de imagem, no formato de tela e áudio originais. Acompanha trailer de cinema e uma galeria de fotos e cartazes como extra. O DVD pode ser adquirido nas melhores lojas ou na loja virtual da própria distribuidora.

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O MUNDO MARCHA PARA O FIM (1965)

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Outro dia estava vendo um filme de espionagem dirigido pelo John Sturges. Não conhecia a obra, mas do diretor, é quase impossível errar na escolha. Ao menos, o que vi do Sturges, só clássicos do autêntico cinema badass: SETE HOMENS E UM DESTINO, FUGINDO DO INFERNO, CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO, SEM LEI E SEM ALMA, entre outras coisas boas.

Sturges sempre teve certo prestígio e respeito entre os admiradores do “cinema de ação raiz”, mas já a crítica séria subestima diretores que não possuem uma veia autoral, como é, de fato, o caso de Sturges. O sujeito era um típico diretor “Pistoleiro de Aluguel”, desses que sabem atirar muito bem, mas acabam não deixando muito rastro. Ou seja, não possuem um caráter autoral, embora façam seu trabalho muito bem feito. E em se tratando de filmes de ação, o cara sabia muito bem onde colocar sua câmera e como orquestrar o que se passava na frente dela, como preencher os espaços da tela larga do CinemaScope.

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O tal filme de espionagem em questão é um bom exemplo disso. O título do filme no Brasil é O MUNDO MARCHA PARA O FIM, adaptação de um livro de Alistair MacLean, autor de clássicos suspenses de guerra, como OS CANHÕES DE NAVARONE. No elenco temos George Maharis e um grisalho Dana Andrews, cuja carreira já estava em declínio. No início do filme, acontece uma invasão num laboratório ultrassecreto de guerra química e bacteriológica do governo americano, quando um dos cientistas havia acabado de aperfeiçoar um novo vírus, que fora apelidado de “the satan bug“, que é também o título original do filme. Quando em contato com a atmosfera, o vírus parece ser completamente imparável e um único frasco poderia, em teoria, acabar com toda a vida na Terra. É tão perigoso que os cientistas estavam considerando seriamente destruí-lo, pela suspeita de ser letal demais para ter algum uso prático.

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Para um caso tão urgente, é necessário um tipo muito especial de agente para resolver as coisas e fazer, digamos, um trabalho sujo. E o homem certo é Lee Barrett (Maharis), um espião dissidente, que foi demitido de todos os cargos que ocupou, tido como encrenqueiro e causador de dor de cabeça para o governo. Ou seja, Mas o homem perfeito para o trabalho de pegar os terroristas e recuperar o perigoso vírus. Daí pra frente o filme não para…

John Sturges não tinha um grande orçamento para trabalhar, mas sabe muito bem  o que fazer com este tipo de material, e segura o filme com boa dose de tensão. Não temos aqui nenhum discurso entediante do vilão insano que tenta justificar suas ações e, apesar do assunto e do contexto da época, o filme acaba não sendo levado para o lado político… É um thriller de ação, puro e simples. O filme também não perde tempo com explicações pseudocientíficas elaboradas. Tudo o que precisamos saber é que o vilão tem uma arma super poderosa em mãos e ele deve ser parado à qualquer custo. É-nos dado apenas o suficiente para tornar essa ameaça assustadora e não deixar que o público desgrude os olhos da tela. E considerando o baixo orçamento, algumas sequências de ação são bastante impressionantes, com perseguições de carro, tiroteios e até uma luta em um helicóptero em pleno ar.

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Não sei se esse aqui já foi lançado no Brasil em DVD, mas fica a dica para alguma distribuidora brasileira o lançamento desta e de outras obras do Sturges não tão conhecidas e que fariam sucesso no mercado de vídeo. O MUNDO MARCHA PARA O FIM é um desses filmes esquecidos de um grande diretor que a vale a pena uma conferida.

THE CAREY TREATMENT (1972)

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Blake Edwards é mais conhecido por suas comédias inventivas dos anos 60 estreladas pelo Peter Sellers, como A PANTERA COR DE ROSA, por exemplo. Portanto, foi uma boa descoberta este filme fora do habitual do diretor, que recebeu o título bizarro no brasil de RECEITA: VIOLÊNCIA. Relevemos e vamos tratá-lo pelo original, THE CAREY TREATMENT. Trata-se de um filme que assume uma relevância social interessante quando visto hoje, usando o tema do aborto como ponto de partida para um thriller, num contexto em que os EUA debatia muito a questão e que hoje ainda é assunto no “Fla x Flu” político brasileiro, como sabemos. O filme retrata a situação da gravidez indesejada que resulta em garotas e mulheres desesperadas subornando pessoas não qualificadas para realizarem abortos clandestinos, como até hoje acontece, e faz ecoar um certo lado sombrio de uma América apodrecida, por mais que as aparências demonstrem o contrário, e evoca memórias perturbadoras de um período particularmente controverso na consciência moral americana.

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James Coburn tem aqui um de seus melhores papéis como o Dr. Peter Carey, um patologista de atitude rebelde, mas estimado profissionalmente, que se muda de LA para Boston para ocupar uma posição de destaque num hospital conceituado da cidade. Carey, esbanjando carisma, não perde tempo em fazer amigos, especialmente com a graciosa nutricionista chefe, interpretada por Jennifer O’Neill. No entanto, o sujeito logo se vê envolvido em uma investigação intrincada quando um colega cirurgião (James Hong) é preso por assassinato após realizar um aborto ilegal na filha de 15 anos do administrador do hospital, vivido por Dan O’Herlihy.

Carey acredita piamente na inocência de seu amigo e decide começar sua própria investigação. O caso logo revela a sordidez que algumas pessoas proeminentes e respeitadas da cidade prefeririam manter escondidas sob as aparências. E Carey se vê correndo certos riscos quando se aproxima mais da verdade por trás da morte da jovem.

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Não há nada particularmente excepcional sobre o roteiro e o andamento da coisa em THE CAREY TREATMENT, exceto o tema espinhoso como pano de fundo. No entanto, tudo funciona tão bem dentro dos moldes de um thriller setentista, tão bem conduzido por Edwards, que vale a pena a conferida. E ainda temos Coburn num momento inspirando com seu personagem fascinante, sempre expressivo, sorridente e cativante por fora, mas internamente nutrindo um constante desprezo e desconfiança por figuras de autoridade. Além de ter uma veia badass: uma simpatia de pessoa, mas caso haja a necessidade, no instante seguinte troca socos com quem estiver em seu caminho.

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De vez em quando o filme exagera um bocado na dose e se esforça para deixar as coisas mais movimentadas sem muita necessidade, já que essencialmente a trama de mistério metódica bastaria. A sequência em que Carey praticamente sequestra uma jovem em seu carro e pisa fundo desafiando a morte para induzi-la a revelar informações, é um desses exemplos. Mas é tudo tão bem concebido que esses exageros nem chegam a ser um problema. THE CAREY TREATMENT continua envolvente e Coburn se beneficia de sua química com a galeria de coadjuvantes interessantes que aparecem por aqui, incluindo O’Herlihy, Pat Hingle e James Hong. Há também a excelente trilha sonora do grande compositor Roy Budd que vale a pena destacar.

DVD REVIEW: A CRIADA (2016); A2 FILMES

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Eu gosto pra cacete do diretor coreano Park Chan-Wook. Vocês não? Só que parece que ele nunca mais vai fazer algo do nível de um OLDBOY (03) ou SYMPATHY FOR MR. VENGEANCE (04), obras que colocaram o sujeito no mapa. Mas isso não quer dizer que Park deixou de fazer bons filmes e obviamente recomendo a apreciação de seus trabalhos posteriores… com algumas exceções. Mas para quem já é fã do homem, vai aí uma dica: A CRIADA, último filme de Park, foi lançado em DVD no Brasil pela A2 Filmes, através do selo Mares.

A CRIADA é um thriller com viés feminista baseado no romance de estilo vitoriano Na Ponta dos Dedos, de Sarah Waters, só que transferido para a Coreia ocupada pelos japoneses na década de 30.

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A belezinha Kim Min-hee da foto acima interpreta a herdeira Lady Hideko, que vive isolada e dominada por seu tio cruel, Kouzuki (Cho Jin-woong), que cobiça sua herança. A moça nunca sai da propriedade da família e seu único contato com pessoas de fora é numa série de leitura semanal de literatura erótica para convidados exclusivos, que é forçada a participar pelo seu tio.

Entonces, as coisas mudam um bocado quando entra em cena um casal de vigaristas que elaboram um esquema para botar as mãos nos dotes da moça. Kim Tae-ri interpreta uma ladra talentosa que é contratada como criada da mansão e Ha Jung-woo é um vigarista esperto que se finge Conde. O esquema é fazer com que Hideko se apaixone pelo falso conde e assim meter a mão na grana.

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Só que as coisas não saem exatamente como planejado e ao invés de se apaixonar pelo vigarista, o jogo de sedução acaba rolando entre as duas moças… A falsa criada começa a pensar duas vezes sobre o esquema enquanto cresce sua relação com Hideko, e a curiosidade de Hideko sobre o amor/sexo logo resulta nas duas mulheres compartilhando uma cama em sequências muy calientes. Logo, a farsa toma novos contornos numa intrincada narrativa de pontos de vistas e reviravoltas mirabolantes.

O que se segue é um filme sobre essas duas personagens femininas, que lutam contra os homens numa cultura tão dominadora, para se livrar de suas correntes e reivindicar seu próprio destino.

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A única coisa que me incomoda um pouco em A CRIADA é lá pelas tantas perceber que Park exagera um pouco na duração e uma sutil enxugada daria mais ritmo à narrativa, que já é lenta pela natureza do estilo do diretor – o que não é uma crítica, a câmera, os planos, tudo tem uma lentidão poética que faz muito bem ao filme – mas uns 15 minutos a menos teriam ajudado. Mas é preciso destacar algumas coisas que compensam esse pequeno incômodo: a intricada trama nunca deixa de ter interesse, as atuações, o trio de protagonistas funciona maravilhosamente bem e as duas atrizes tem muita química, especialmente nas cenas de sexo. Fazia tempo que não via no cinema mainstream recente cenas de lesbianismo tão excitantes. A fotografia é impecável, a direção de Park demonstra o trabalho de um artista consciente, que sabe contar uma história e ainda agradar aos olhos. E chega, today let’s keep it short, baby.

Como disse antes, a A2 Filmes lançou A CRIADA em DVD por aqui. Podem procurar que vão encontrar nas melhores lojas do ramo. Vale a pena ter um desses na coleção. Park Chan-Wook é sempre obrigatório. Não deixe de curtir também a página da distribuidora no Facebook para ficar por dentro das novidades.

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DVD REVIEW: RAMPAGE 2 – A PUNIÇÃO (Rampage: Capital Punishment, 2014); A2 Filmes

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Uwe Boll ataca novamente neste segundo capítulo da jornada de Bill Williamson (Brendan Fletcher), o exército de um homem só, fortemente armado e blindado, que saiu atirando contra tudo e contra todos em RAMPAGE (2009), como vocês puderam conhecer no post anterior. Sim, esse cara está de volta e mais chateado do que nunca… E a A2 Filmes nos brindou lançando RAMPAGE 2 – A PUNIÇÃO no mercado de home video nacional.

Como não conseguiram pegar o rapaz no primeiro filme, Bill mais uma vez sai pelas ruas com seu traje de kevlar e artilharia suficiente para armar um pequeno batalhão depois de ficar um ano escondido. Mas neste novo capítulo da série RAMPAGE, Bill tem um plano definido, não é só matança desenfreada. Ele invade uma estação de notícias local, coloca um grupo de pessoas como refém e obriga a transmitir ao vivo em rede nacional seu discurso anti-sistema. Claro que quem entra em seu caminho eventualmente acaba levando uma dose de chumbo…

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Inclusive, o filme abre com uma situação bem bizarra. Num beco qualquer da cidade, Bill senta numa cadeira, fuma um cigarro e tranquilamente espera uma pessoa qualquer passar. Atira. Depois de acertar um desavisado, ele levanta, arrasta o corpo para ficar fora da vista, senta-se na cadeira e repete o processo até acumular uma boa quantidade de corpos, sem que ninguém faça nada, ou que a polícia seja acionada… Dessas cenas que só poderia sair da mente perturbada do alemão maluco. Continuar lendo

[CAGESPLOITATION] LOOKING GLASS (2018)

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Estamos ainda em março e LOOKING GLASS já é o segundo lançamento do incansável Nicolas Cage no ano (o primeiro foi o excelente MOM AND DAD, que comentei aqui outro dia). Trata-se de um pequeno thriller lançado direto no mercado de home video e que se sai bem cumprindo a sua proposta de ser um suspense intrigante e divertido. Na trama, basicamente, temos um casal em crise depois da perda da filha pequena, arrendando um pequeno motel à beira de estrada para manter a cabeça ocupada, respirar novos ares e mudar de vida. Só que misteriosos assassinatos do passado que aconteceram no local “voltam” para atormentar a vida do protagonista vivido por Cage.

O roteiro em si não tem nenhuma novidade, é bem convencional e até mesmo previsível, não vão faltar por aqui situações curiosas, personagens estranhos, assim como os típicos clichês dos filmes de Motel à beira da estrada… Mas LOOKING GLASS tem a vantagem de ser bem curtinho e o diretor Tim Hunter (mais conhecido para quem acompanha os seriados da atualidade) não deixa muito espaço para encheção de linguiça, usando a figura de Cage para atrair a atenção durante todo o filme. Um Cage mais contido, mas sempre com muita presença em cena e alguns bons momentos para suas surtadas habituais… O elenco de apoio também é bom, com Robin Tunney, Marc Blucas e o bom e velho Ernie Lively. Bill Bolender faz uma pequena participação. O filme é simples, rápido e eficiente, exatamente o tipo que aprecio quando quero matar um tempinho. Vale assisti-lo num sábado à noite para reviver os bons tempos dos Supercine na Globo nos anos 90.

DVD REVIEW: A VIDA É MARAVILHOSA (1979); CPC UMES FILMES

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O que mais me surpreende foi terminar de assistir a um belíssimo exemplar como A VIDA É MARAVILHOSA e perceber o quanto ele é obscuro em relação a outros thrillers políticos italianos do período. Não sei se chegou a ser lançado no Brasil nos cinemas ou em VHS na época, mas pelo menos hoje não existe desculpa, temos a oportunidade de conferir essa preciosidade desconhecida em DVD, pela distribuidora CPC UMES filmes.

A expressão “A vida é Maravilhosa” utilizada no título, na verdade trata-se de um código utilizado por revolucionários que lutam contra uma ditadura. A produção, que é uma parceria Russa e Italiana, é sobre o piloto Antonio Murillo (Giancarlo Gianinni) que, após ser expulso do exército depois se recusar a atirar contra uma embarcação que transportava mulheres e crianças em algum local na África, só quer uma vida sossegada dirigindo seu taxi e fumando um cigarro atrás do outro. Mas acaba entrando numa enrascada política com as autoridades locais depois que se apaixona por Mary (Ornella Muti), a garçonete de um café, que serve de fachada para revolucionários que tentam desmantelar o autoritarismo que assola o país.

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Dirigido por Grigory Chukhray (A BALADA DE UM SOLDADO), A VIDA É MARAVILHOSA se estrutura basicamente em duas partes. A primeira é como híbrido de thriller político italiano e romance barroco russo, com o personagem de Gianinni tendo que espreitar pela noite para não levar chumbo da polícia ou participando de reuniões secretas, com direito até de um MacGuffin Hitchcockiano representado numa bolsa misteriosa que passa de mão em mão até chegar em Murillo, no qual tanto as autoridades quanto os revolucionários querem tomar posse. Tudo isso em conjunto com sequências mais tenras, em que Gianinni divide a tela com Muti, e o olhar mais humano e poético de Chukhray se reforça, como na sequência na praia ou quando Murillo mostra a Mary seu sonho de consumo, um avião de pequeno porte, o que representa um alento em meio a tempos complicados.

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A segunda parte da trama é um “prison movie“, não tão barra pesada, mas com o suficiente para que o personagem de Gianinni coma o pão que o diabo amassou por conta da enrascada que entrou. E aí temos um gostinho do que é estar preso sob uma ditadura: a trama passeia entre torturas físicas e psicológicas, mas também a angústia da distância da pessoa amada, além da elaboração de um plano de fuga que culmina numa rebelião na prisão e uma perseguição de carro num climax bem agitado. Mas o filme nunca descamba nem para a ação poliziesca, nem para o dramalhão carregado, mas consegue passar o efeito catártico das situações mesmo com um incomum tom de humor que paira sobre toda a narrativa.

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Apesar de italianos e dublados em russo, grande parte da força de A VIDA É MARAVILHOSA se concentra em Ornella Muti e Giancarlo Gianinni. Este último num desempenho inspirado, é o sarcasmo em pessoa, o que ajuda a manter uma certa dignidade ao personagem de Murillo mesmo quando acuado por autoridades e nas situações mais adversas. Já Muti, uma das mulheres mais lindas da história do cinema, demonstra grande talento representando uma figura forte e determinada, embora ambígua em alguns momentos.

A direção Chukhray é simples e possui um tratamento realista, reforçado com uma pontuada câmera na mão que dá um maior dinamismo, mas também de rara beleza com composições visuais requintadas, que coloca o filme no mesmo penteão dos thrillers políticos europeus ao lado de obras de diretores como Costa-Gavras, Marco Bellochio, Gillo Pontecorvo, Damiano Damiani e Elio Petri.

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Embora nunca se fale o nome do país onde a história se passa, há vários momentos que aparecem placas e pichações nos muros no idioma português. Portanto, enquanto assistia, achei bem provável que A VIDA É MARAVILHOSA fosse filmada na Portugal do ditador Salazar, nos anos 70. Informações e resenhas sobre este filme são escassas, o que me deixa ainda mais estupefato como ele é obscuro. Mas num fórum que encontrei num canto da internet, veio a confirmação com uns gajos lusitanos a discutirem:

No último excerto, a montagem/edição não fez coincidir as zonas de Lisboa captadas pelas diferentes câmaras… Na que “olha para a frente” o taxi anda pela zona riberinha perto alcântara (há uma parte inclusive na Ponte 25 de Abril, ainda com duas faixas), e na que está de lado e apanha o protagonista, vejo zona aleatórias de Lisboa – a Almirante Reis, o Jardim Constantino, a saída do túnel do Campo Grande...”

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Nesse mesmo fórum descobri que existem duas versões do filme. A Russa, que é esta restaurada pela Mosfilm e que a CPC UMES Filmes lançou aqui no Brasil, e a Italiana, que me parece inacessível, não faço ideia se existe em circulação. A diferença é que nesta versão do país da bota algumas coisas ficam mais explícitas, como deixar claro que a trama realmente se passa em Portugal e que o país africano que está sob ataque no início do filme é Angola.

De qualquer maneira, é um filme que não precisa de posições geográficas, o que o torna universal e necessário. E em períodos obscuros como a que vivemos atualmente, vale a pena se deparar com um A VIDA É MARAVILHOSA para lembrar que independente de visões políticas, censura, autoritarismo e fascismo são merdas que precisam ser combatidas.

E é preciso também que  A VIDA É MARAVILHOSA seja descoberto o mais rápido possível. O filme está disponível no catálogo da CPC UMES Filmes e pode ser adquirido na loja virtual da distribuidora. E não deixe de curtir a página deles no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

DVD REVIEW: FORA DA TRILHA (Off Piste, 2016); A2 FILMES

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A primeira coisa a se fazer para apreciar FORA DA TRILHA é ignorar um bocado as artes promocionais, a capa do DVD e até o trailer da obra, que prometem muita ação num filme movimentado e visceral, quando na verdade o que temos aqui é um drama bucólico, lento e pesado sobre cicatrizes do passado. Tendo isso em mente, dá para apreciar melhor, sem decepções, o que temos aqui. Até porque esta pequena produção independente britânica é um belo exemplar que me surpreendeu bastante.

Stanley Winters (Henry Douthwaite) é um ex-membro do SAS (Serviço Aéreo Especial, do Reino Unido), que, após um horrível acidente traumático numa operação em Belfast, na Irlanda, se retira para os alpes franceses para tentar esquecer seu passado sombrio e cuidar de sua mãe cega. Doze anos depois, Niamh O’Brian (Lara Lemon) sai de Belfast à procura de vingança pelo responsável da tragédia que dizimou sua família. No entanto, como a sua saída repentina deixa uma série de perguntas sem resposta, o namorado de Niamh começa a persegui-la para descobrir exatamente onde a moça foi, e quem é a pessoa pelo qual ela viajou centenas de quilômetros para se encontrar…

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Obviamente, a moça vai parar nos alpes franceses e sua busca chega em Stanley. Não é nenhuma surpresa… Não que o filme escancare isso logo de cara, mas é uma coisa que fica óbvia logo no início. A verdadeira surpresa de FORA DA TRILHA, no entanto, é o ótimo estudo desses personagens que possuem marcas profundas de um passado trágico e se encontram cara a cara para resolver as questões que os desequilibraram na vida. Mas nada acontece num tom de thriller tenso como as já citadas artes promocionais indicavam, a coisa funciona mais como um jogo de xadrez melancólico, impossível de prever os próximos movimentos.

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Evitando certos clichês e se arriscando até demais num roteiro que falha em alguns momentos por conta dessa ousadia narrativa (que é bem-vinda, é melhor errar ousando do que acertar ficando na mesmice genérica do cinema atual), FORA DA TRILHA é um belo filme de personagens fortes, um visual estonteante de encher os olhos, muito bem utilizados pelo diretor Glen Kirby – E o cenário branco e montanhoso é perfeito, captura bem a solidão invernal desse conto de retribuição e redenção. Além de um ritmo lento e contemplativo sem pressa alguma na exposição narrativa. Qualidades que às vezes escapam de um produto independente de gênero Direct to Video.

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FORA DA TRILHA é uma baita surpresa lançada no Brasil pela A2 Filmes, através do selo Flashstar e está disponível para locação em DVD e também nas melhores plataformas online do Brasil!

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