RUAS SELVAGENS (1984)

O diretor Danny Steinmann é provavelmente mais conhecido por SEXTA-FEIRA 13 – PARTE V: UM NOVO COMEÇO, que acabou sendo seu último trabalho, não fez mais nada desde então. O que é uma pena, porque eu gosto desse capítulo da série SEXTA-FEIRA 13, acho que ele manda bem, é um cara que veio do cinema underground do fim dos anos 60, dirigiu um filme pornô nos anos 70, então é um cara que tem uma certa bagagem pra trabalhar elementos de cinema de exploração, que não é bem o cenário de SF13 – PARTE V, mas é o caso deste seu filme anterior, RUAS SELVAGENS (SAVAGE STREET). Um petardo oitentista, rip-off das continuações de DESEJO DE MATAR marcado pela presença de Linda Blair, a menininha possuída de O EXORCISTA, fazendo uma espécie de Charles Bronson de saia, em busca de vingança pra cima de uma gangue.

Blair vive uma garota durona chamada Brenda. Estudante honesta, que come pão na chapa com café com leite pela manhã e não se deixa intimidar por qualquer otário que mexa com ela, suas amigas, e sua irmã mais nova, Heather, a musa scream queen Linnea Quigley, mas que aqui faz um papel de muda, e Brenda tem o maior cuidado por ela. Numa noite de diversão em uma boate, Brenda e sua turma acabam se metendo em problemas com uma gangue chamada The Scars, composta por quatro sujeitos bizarros que só existem nesse universo para praticar crimes, roubo, estupro e assassinatos, tudo de boa, na molecagem. Apesar de atacarem e violarem mulheres indefesas, eles não parecem ligar muito para definições de sexualidade, e estão constantemente se tocando, beijam na boca entre si, o que torna a gangue, digamos, singular…

Mas ao mesmo tempo, esses caras não estão muito a fim de levar desaforo pra casa. Sobretudo de garotas empoderadas como Brenda. O clima vai esquentando entre eles ao passar dos dias, até que a pobre Heather é pega desavisada no colégio e carregada à força pra dentro do vestiário, onde é brutalmente espancada e estuprada pelos quatro meliantes, numa sequência bem desagradável. Assim que Brenda fica sabendo do ocorrido, decide mostrar aos punks que a vingança é plena sim, mesmo que “mate a alma e a envenene”. Armada com uma besta, vestida com um macacão de couro, Brenda dá uma de Paul Kersey e começa a caçar um a um noite adentro.

Linda Blair está realmente ótima em RUAS SELVAGENS, num papel que foi originalmente planejado para Cherie Currie (a vocalista do The Runaways). De fato ela parece deslocada em alguns momentos, mas isso não a impede de se jogar na personagem mesmo que seja num filme que provavelmente não merecesse tanto esforço assim em primeiro lugar. Estamos naquele terreno cinematográfico que importa mais a quantidade de sangue e peitos na tela do que uma boa demonstração de dramaturgia… Mas ela e Quigley resolveram atuar, o que deixa a coisa mais interessante.

Quigley, em especial, apresenta uma performance corajosa que surpreende bastante. Não apenas na tal cena do estupro, que é realmente forte pelo seu desempenho corporal expressivo, mas ela e Blair compartilham alguns momentos críveis e ternos. Seu relacionamento e sentimento entre irmãs são bem convincentes e ajuda bastante em fazer com que a gente se importe de forma legítima com elas e seus destinos.

Já o elenco masculino, especialmente os The Scars, parece estar se divertindo com suas performances, já que são mais estereótipos exagerados e ameaçadores de gangues dos anos 80, com seus trajes ridículos e diálogos cafonas. E eles têm que funcionar o suficiente para alimentar a fúria de Brenda em sua jornada de vingança e conseguem isso com muita eficiência. Destaque para o grande John Vernon, fazendo o diretor do colégio (e que havia trabalhado com Linda Blair um ano antes em CORRENTES DO INFERNO).

Gealmente, quando eu vejo um filme desse tipo, eu consigo relevar furos de roteiro, atuações péssimas, efeitos especiais toscos, problemas técnicos de várias espécias… Mas uma coisa que não suporto em um exploitation é que ele seja enfadonho. RUAS SELVAGENS está longe de ser um filme chato, mas é preciso dizer que tem seus momentos que convidam o espectador ao sono, deixam a impressão que as coisas demoram demais pra acontecer. Mas quando acontecem, já esquecemos que o ritmo tava fraco e tudo volta a funcionar muito bem. E Steinmann faz um trabalho sólido por trás das câmeras quando chega a hora de lidar com os “bens” do bom e velho cinema de exploração: o estupro, garotas em chuveiros coletivos, brigas de moças rasgando blusas, Linda Blair de topless numa banheira, de forma totalmente gratuita, refletindo sobre a vida, e o final, a caçada noite adentro com Brenda eliminando seus desafetos.

Tá certo que no caminho ela deve ter parado para gravar algumas fitas dela rindo loucamente, porque no armazém de tecidos onde os bandidos se escondem ela coloca gravadores cuidadosamente em vários pontos do local para enganar os meliantes com o som da risada. Não é curioso pensar em Brenda sentada com seu gravador rindo como uma louca por uns bons minutos para gravar tudo isso? Claro, o filme não mostra essa parte – assim como nunca mostram o Batman aplicando seu delineador antes de botar a máscara. Também não mostra Brenda fazendo seu “penteado de vingança”, que é um permanete que deve ter dado um puta trabalho pra fazer antes de sair à caça…

E aí é só alegria, ver Brenda matando sem dó nem piedade, com flechadas e usando armadilhas de urso (!!!) os estupradores de sua irmã funciona lindamente. Porque, vocês sabem, todos nós sentimos a necessidade ou desejo, bem lá no fundo, de dar um murro na cara de alguém quando somos injustiçados. Mesmo que isso nunca vá acontecer na vida real… Pelo menos no meu caso, afinal, sou pacifista. Mas a vontade de socar a cara de alguém é grande de vez em quando, sobretudo bolson… Ops, melhor deixar pra lá. Enfim, filmes como RUAS SELVAGENS exploram nosso anseio e quando a coisa funciona, é preciso elogiar.

Então temos aqui um sucesso. Quero dizer, eu não diria que RUAS SELVAGENS é realmente um bom filme no sentido tradicional, mas certamente para o tipo de cinema que faz é diversão pura, cumpre o que promete. Há um bocado de nudez gratuita, brigas de garotas, gangues de rua fazendo maldades, imagens de uma Los Angeles oitentista cheia de neons, pessoas com roupas e penteados malucos aparecendo na tela, trilha sonora típica do período e Linda Blair numa jornada de vingança praticada com flechadas e armadilhas para ursos. Elementos que compensam o ritmo desequilibrado e fazem disso aqui um pequeno clássico do cinema B exploitation americano.

PUNHOS DE FERRO (1981)

PUNHOS DE FERRO (FIRECRACKER no original, mas também conhecido como NAKED FIST) é uma produção da New World Pictures, de Roger Corman, filmado nas Filipinas, com direção do grande Cirio H. Santiago.

Na trama, uma americana chamada Susanne Carter (Jillian Kesner) chega às Filipinas para procurar sua irmã, uma repórter desaparecida na região. A busca rapidamente a leva ao The Arena, uma espécie de clube noturno com apresentações de artes marciais e, em ocasiões especiais, noites de lutas clandestinas com apostas cheio de figuras amigáveis. E a coisa é violenta mesmo, geralmente terminando com o perdedor pronto para ser levado para o hospital ou direto pro caixão. O local é dirigido por um sujeito chamado Erik (Ken Metcalfe), o tipo de personagem que logo de cara não temos dúvidas de que é o malvado da trama, e foi o último lugar onde a repórter foi vista.

Outro cara mau do filme é a atração principal da Arena, um jovem lutador americano, um bigodudo chamado Chuck (Darby Hinton). Durante suas investigações, Susanne é avisada de que o rapaz é barra-pesada, do crime, do tráfico, das coisas seriamente perigosas e que deve ficar longe dele. Acontece que, por um acaso, Susanne também é especialista em artes marciais e não se intimida. Obviamente, o couro vai comer entre os dois… Em vários sentidos.

Nas buscas por pistas do desaparecimento de sua irmã, Susanne é constantemente atacada por bandidos, pelos mais diversos motivos, e Jillian Kesner aparenta ter sido realmente treinada em algum tipo de arte marcial. Isso fica evidente nas inúmeras cenas de pancadaria que ela aborda com gosto. Seus movimentos parecem convincentes não importa o cenário, roupas que usa – ou não usa – ou a quantidade de adversários, a moça manda muito bem na porrada. E é preciso dizer que PUNHOS DE FERRO não perde muito tempo para nos alegrar no quesito pancadaria. Nos primeiros minutos, há uma luta na Arena em que Chuck empala seu adversário, e Susanne, ainda em sua roupas íntimas, é atacada por dois bandidos em seu quarto de Hotel assim que chega no local.

E a coisa não para. A cada 5 minutos há alguma situação envolvendo pessoas lutando, trocando tiros ou em perseguição. Mas as investigações de Susanne continuam. E aos poucos, quanto mais adentra no universo da Arena, ela acaba cada vez mais atraída por Chuck, mesmo sabendo do envolvimento dele com os possíveis responsáveis pelo desaparecimento da irmã. E, claro, a certa altura já dá pra imaginar que algum coração vai sair machucado, a coisa não vai acabar muito bem…

Apesar da intensidade da ação, para um filme produzido por Roger Corman nos anos 80, não há tanto material de exploração quanto poderia almejar e é preciso esperar um tempinho para ter uma dose maior de violência ou um bocado de pele a mais. Quando chega, no entanto, é sublime e faz valer o tempo esperado. A melhor sequência é a fuga noturna de Susanne de dois tarados que acaba fazendo com que seu vestido seja rasgado, de forma totalmente gratuita, obrigando que ela encare os meliantes e aplique seus golpes só com a “roupa de baixo”. E isso já é legal o suficiente. Mas a coisa melhora ainda mais quando um dos sujeitos pega uma foice bem afiada e se lança pra cima da moça…

Não se preocupem, ela consegue sair ilesa do ataque, mas a lâmina corta exatamente o necessário…

Aparentemente, a ideia inicial não era para que isso acontecesse. Mas Roger Corman sentiu que os atributos da protagonista não estavam o suficiente “explorados” quando ele viu o primeiro corte do filme. Então, contratou o diretor Allan Holzman (que viria a fazer filmes futuros para Corman) para adicionar um par de novas cenas que obrigou Kesner a se despir. A primeira, foi esta aqui.

A princípio era apenas para que ela lutasse de calcinha e sutiã, mas um acidente legítimo na hora das filmagens realmente fez a atriz perder o bojo e a convenceram de continuar filmando assim mesmo… É desses momentos mágicos do cinema de exploração. O que se segue a partir disso é uma mulher de topless descendo o cacete num macho escroto. Isso que é empoderamento! E se vai mostrar seios num filme, dá muito bem pra fazê-lo com um certo estilo. É só tomar essa sequência de PUNHOS DE FERRO como exemplo. Aqui temos estilo de sobra.

A outra sequência que foi filmada por Holzman é o sexo bizarro cujas preliminares Susanne tem suas roupas removidas por Chuck, muito lentamente, com um par de facas bem afiadas. Sabe-se que Kesner não ficou lá muito satisfeita com a ideia de adicionar novas cenas apenas para tê-la nua na tela, mas aceitou fazer de boa… A única coisa que a irritava mesmo era a impressão de que sempre parecia haver mais homens no set durante essas filmagens do que o habitual.

Mas é exatamente nesta cena de sexo que Kesner finalmente atua, atua de verdade, com expressão. Ela transmite bem o estado emocional de Susanne de forma bastante eficaz. A cena possui uma carga de tensão a mais, dada uma certa informação que é conhecida pelo espectador, mas não por Susanne ainda, a de que Chuck é, na verdade, o assassino de sua irmã, o que torna o sexo entre eles um ato bem perverso.

E para quem não sabe, Kesner era esposa do grande Gary Graver, diretor de inúmeros filmes que passavam na famigerada sessão de filmes da Band, o Cine Privé, e que foi parceiro e diretor de fotografia de Orson Welles em seus últimos anos. Tanto Graver quanto Kesner dedicaram boa parte da vida preservando materiais e o legado de Welles – o que inclui THE OTHER SIDE OF THE WIND, filme póstumo do diretor de CIDADÃO KANE que só viu a luz do dia mais de trinta anos depois de sua morte. Mas a própria Kesner não pôde ver isso acontecer, já que faleceu em 2007.

Sobre outros membros do elenco, não há muito o que destacar. Darbin Hinton até funciona bem como vilão apaixonado, mas é aquele tipo canastrão que a gente elogia mais pelo ridículo do que pelo talento. No geral as atuações são simplesmente horríveis. Só que estamos diante de um exploitation, então quem diabos se importa com a performances? O importante pra filmes dessa espécie é não ser chato. E o ritmo por aqui é ótimo, há uma abundância de ação, Cirio H. Santiago filma bem, aproveita as locações urbanas e campestres das regiões filipinas, e o filme ainda tem um pouco de nudez, sexo e perversidade para apimentar a coisa.

Inclusive, a relaçao que é estabelecida entre Susanne e Chuck torna o clímax, a luta final entre os dois, ainda mais intenso e cheio de nuances. Chuck claramente poderia matar Susanne com as próprias mãos, mas entra em conflito por estar enamorado, enquanto a moça só tem desejo de vingança no coração. O desfecho é dos mais violentos possíveis. E há ainda o envolvimento da polícia e de alguns personagens secundários, amigos que Susanne faz pelo caminho, todos juntos tentando descobrir o paradeiro da irmã desaparecida e desbaratar o esquema das drogas que rola com a turma do vilão, Erik. O que acrescenta ainda mais um dose de pancadaria e ação. Sobretudo por conta da participação de um sujeito que é um clone do Bruce Lee e que possui alguns dos melhores movimentos nas sequências de luta.

PUNHO DE FERRO não é o tipo de filme que vai ganhar um prêmio de valor artístico ou vai entregar alguma reflexão sobre a condição humana, mas no quesito entretenimento e pancadaria de qualidade (bom, pelo menos para o nível da produção) pode apostar que não há do que reclamar. Altamente recomendado.

QUATRO FILMES DA SHAW BROS.

TEMPLO DA LOTUS VERMELHA
(Temple of the Red Lotus, 1965)
dir: Hung Hsu Teng

Sinopse: Jimmy Wang Yu interpreta um jovem espadachim que parte numa jornada de vingança, procurando os assassinos de seus pais, e também em busca de uma amiga de infância que foi prometida como sua noiva. Quando ele chega no local, descobre que a família da noiva pode ser um bando de bandidos e começa a investigar a história por trás da rivalidade que eles têm com os monges no Templo da Lótus Vermelha.

Primeiro filme wuxia em cores da Shaw Brothers, meio que inaugura uma era de ouro do cinema de kung fu da produtora, o que por essas razões históricas já seria recomendável pra quem realmente tem interesse a entrar de cabeça nesse cinema e perceber sua evolução.

Porque de resto TEMPLO DA LOTUS VERMELHA não é grandes coisas. O drama é fraco e pesado, tem pouca ação (e quando acontece é rápida, sem muita criatividade, acho que a coisa ainda viria a melhorar nos anos seguintes nesse departamento), a jornada do herói, vivido por Jimmy Wang Yu, soa um bocado enfadonha, sem graça – a longa sequência que ele tem que fugir do castelo com sua companheira, enfrentando irmã, tia, mãe e avó da moça, uma de cada vez, é bem ridícula e me fez soltar altos bocejos…

Mas não deixa de ser legal ver alguns rostos que viriam a fazer sucesso pela Shaw na década seguinte, como Lo Lieh e Tien Feng. Nos créditos ainda aparecem nomes como Liu Chia-Liang e Yuen Woo Ping.

O filme faz parte de uma trilogia, formada por ainda por AS ESPADAS GÊMEAS (65) e A ESPADA E O ALAÚDE (67) que em algum momento vou acabar assistindo. Todos dirigidos por Hung Hsu Teng, mas confesso que depois deste aqui fiquei com preguiça.

THE OATH OF DEATH (1971)
dir: Pao Hsueh-Li

Sinopse: Três heróis tornam-se irmãos de sangue para lutar contra a tirania dos invasores tártaros. Um deles decide se infiltrar entre os inimigos e acaba ganhando uma posição de destaque. Não demora muito, fica evidente que o sujeito gostou da posição de poder e está disposta a sacrificar qualquer coisa e qualquer pessoa para mantê-la, incluindo seus irmãos de sangue.

Um dos filmes mais curiosos que vi da Shaw Bros. Um exemplar de espadachim que se alterna entre uma trama melodramática levada muito a sério e um filme excêntrico de artes marciais, bem puxado para o exploitation, mostrando muito sangue e selvageria, mas também um bocado de sexo e nudez fornecida por Ling Ling uma das estrelas residentes da Shaw.

Pao Hsueh-Li pode até não ser um Chang Cheh – as lutas são filmadas muito de perto, editadas com desleixo em alguns momentos, sem muita preocupação com a coreografia – mas ele se dedica tanto a transformar essas sequências num banho de sangue que fica difícil não elogiar os esforços. E os contextos que as batalhas ocorrem, mais a variedade de armas utilizadas deixa tudo ainda mais divertido. Os trinta segundos finais, um duelo onde um dos personagens centrais tem uma perna decepada por um chicote (!!!) e continua lutando para enfiar o braço no peito adentro de seu adversário é um dos momentos mais insanos que já vi num filme da Shaw… Só não esperem uma abundância de lutas durante o filme, a parte dramática realmente toma um tempo grande de projeção, com situações do tipo “amigo roubando mulher de amigo” e etc… Mas se você entrar na história e chegar inteiro até os minutos finais, não vai se decepcionar.

No elenco, temos Lo Lieh fazendo papel de herói desta vez e o grande Tien Feng. Mas vale reparar na pequena participação de Bolo Yeung como um dos soldados malvados.

THE MAGIC BLADE (1976)
Dir: Chor Yuen

Sinopse: Dois espadachins rivais unem forças para evitar que uma lendária arma mortal, chamada Peacock Dart, caia nas mãos do mestre das artes marciais, Sr. Yu, e de seu malvado submundo do crime.

Esse aqui é daqueles filmes que beira a perfeição. Ti Lung com sua espada giratória é o fodão dos fodões. É o Clint Eastwood do Wuxia, numa jornada de sangue, honra, contra os ardis de uma sociedade secreta, na busca em trazer justiça ao mundo, sem qualquer recompensa de volta. É também uma jornada cheia de MacGuffin’s que o roteiro, um fiapo de história, faz brotar do nada só para fazer a ação continuar surgindo na tela. No caso, a busca pelo tal Peacock Dart, que não pode de jeito nenhum cair nas mãos do velho mestre das artes marciais que comanda uma sociedade de assassinos.

Estamos diante de um filme de espadachim da melhor qualidade possível. E a ação é maravilhosa, tem aos montes, a criatividade do diretor Chor Yuen parece não ter fim na elabroação dessas cenas e na relação que a ação estabelece com os espaços, os mais variados cenários, ambientes e locações, num belo trabalho de manipulação cênica. A sequência final é daquelas que parecem capazes de reproduzir o equilíbrio cósmico do universo!

Lo Lieh, e Lily Li estão no elenco, além de outras figuras… Enfim, pra quem entra na vibe de ver filmes de artes marciais da Shaw Bros. um atrás do outro, como eu tô fazendo neste início de ano, tudo o que pedimos é mais filmes como THE MAGIC BLADE, uma dessas experências raras de imaginação sublime e um senso de aventura fabuloso que já de cara se tornou um dos meus favoritos da Shaw.

EXECUTIONERS FROM SHAOLIN (1977)
Dir: Liu Chia-Liang

Sinopse: Chen Kuan Tai é o protagonista aqui, liderando os sobreviventes do massacre no Templo de Shaolin pelas mãos do sacerdote Pai Mei, encarnado pelo Lo Lieh. O grupo se disfarça numa trupe de artistas de ópera e entre suas viagens, Hung conhece Yung Chun (Lily Li). Os dois se casam e têm um filho, mas Hung acaba sendo morto depois de tentar se vingar do massacre no Templo encarando Pai Mei duas vezes ao longo dos anos. O filho deles, Wen Ding (Wong Yu), une então o kung-fu do Tigre de seu pai com o kung-fu da garça da mãe para enfrentar Pai Mei, que teve seu ponto fraco descoberto por Hung.

Como qualquer filme dirigido pelo grande Liu Chia-Liang, a pancadaria rola pra todo canto. Já começa com uma participação de Gordon Liu, que enfrenta uma vários soldados manchu para dar cobertura para o grupo de Hung. Mesmo cravado de flechas o sujeito dá trabalho. É curioso como tudo por aqui possui um controle sobrenatural das artes marciais: política, religião, família e até o sexo. Logo depois de se casarem, Chen Kuan Tai tem que se esforçar para abrir as pernas de Lily Li… E isso não é numa alegoria, ela literalmente usa técnicas de artes marcias para manter as pernas fechadas e só vai liberar se o marido conseguir “destravar” a moça! haha!

Um dos grandes destaques do filme é Pai Mei, um dos vilões mais desgraçados que Lo Lieh já viveu, com seu ponto fraco que possui relação temporal e muda de lugar no seu corpo à medida em que relógio avança. O cara é quase indestrutível… E ainda tem um lance bizarro dele esconder os testículos contraindo a barriga e prendendo o pé dos adversários entre as pernas! Sensacional! E sim, muita gente vai se lembrar de Pai Mei como o personagem que Quentin Tarantino colocou em Kill Bill para treinar Beatrix Kiddo. Mas quem já tá mais familiarizado com o cinema de kung fu sabe que o personagem existe faz teeempo…

Exibido nos cinemas nacionais como OS CARRASCOS DE SHAOLIN.

VIGILANTE FORCE (1976)

VIGILANTE FORCE é um desses petardos que só poderia ter saído nos anos 70 ou primeira metade dos anos 80, com a ressaca de tudo que rolou nos EUA durante esse período. Produzido por Gene Corman (irmão do grande Roger Corman), foi, no entanto, o pau pra toda obra da Corman Factory, George Armitage, que esteve na origem do projeto, tendo escrito o roteiro e dirigido. Ok, um “pau pra toda obra” não muito prolífico como diretor se olhamos para a carreira de Armitage de mais de quarenta anos e só sete filmes dirigidos, mas que merece o “apelido”. Sujeito trabalhou como ator, escreveu diversos roteiros, dirigiu e frequentemente era produtor de seus próprios filmes, dando uma bela contribuição ao B Movie americano.

E um bom exemplo de sua filmografia é VIGILANTE FORCE. O cenário é Elk Hills, uma pequena cidade na Califórnia que passa por um período problemático, com um alto índice de criminalidade pelas ruas somado aos fins de semana celebrados com badernas e cadeiras voando nos bares locais. Povoado de trabalhadores de uma petroleira, sabe? Moçada com sede tanto de cerveja quanto de sangue e violência. A cidade tem se tornado um local pouco atrativo para quem almeja um bocado de paz. E Ben Arnold (Jan-Michael Vincent) só gostaria de desfrutar da vida com seus negócios, sua namorada, cuidar da filha… Mas constantemente se depara com tiroteios à céu aberto. Homens que não hesitam em sacar suas armas para assaltar e atirar nos policiais locais que intervêm. Em suma, a lei e a ordem foi banalizada e a força policial não tem a mínima capacidade para encarar a bandidagem.

A única solução parece ser encontrar reforço. E Ben joga ao grupo de conselheiros da cidade (formada pelo prefeito, o xerife, o dono do banco, etc) uma ideia que pode ser a solução ideal: pedir ajuda ao seu irmão, Aaron Arnold (Kris Kristofferson), que voltou recentemente do Vietnã e tem trabalhado como segurança numa cidadezinha a alguns quilômetros de distância. Aparentemente, a coisa tende a funcionar. Aaron é um cara durão, badass, que saberia lidar com a situação que a cidade se encontra. Além disso, ele contrata seus velhos companheiros veteranos do Vietnã e não demora muito esse bando está usando uniforme e agindo pelas ruas da cidade. E em um local como este, onde andar por aí com um rifle parece tão comum quanto levar seus filhos para passear, esses “mercenários” se passando por homens da lei acabam dando conta do recado.

Até que a vaca vai pro brejo…

Aaron e seus comparsas cruzam certos limites e começam a usar seus uniformes para assassinar desafetos, ganhar dinheiro de forma ilícita e se tornar os reis do crime local. O que provoca um conflito entre irmãos difícil de resolver… E um embate de Kris Kristofferson vs Jan-Michael Vincent é só o que precisamos pra ser feliz num filme B de ação setentista.

George Armitage não parece muito determinado em acertar o tom do filme, mas há algo tão sincero nessa tentativa de ir além de um simples filme de ação que, mesmo mantendo uma cara de B Movie, cinema grindhouse, com momentos dignos de um exploitation americano – como a sequência da briga de galo, por exemplo, e tudo que se desenrola ali – VIGILANTE FORCE consegue também trabalhar alguns temas bem interessantes. É um drama policial de ação com tudo o que temos direito, desde tiroteios, brigas, perseguições e explosões – o final lembra as sandices exageradas de um DESEJO DE MATAR III, que é algo maravilhoso, com excepcional trabalho de dublês – mas ao mesmo tempo trata-se de um conto amargo sobre poder, que lança um olhar sobre uma era pós-Watergate e Guerra do Vietnã, da reabilitação de veteranos que adquirem, no meio de uma guerra, outros valores sob o jugo da bandeira americana. Uma América cujos valores são tão deturpados que chega a ser difícil confiar em alguém. Até mesmo num irmão.

E nesse desencontro de tons, VIGILANTE FORCE chega num equilibrio esquisito, mas bem bacana, entre ser esse crime movie exploitation e uma obra de teor social. O resultado é estranhíssimo, com um ritmo bizarro, mas cheio de boas sacadas e reflexões em meio à situações de exploração. Além de contar com as belas atuações de Kristofferson – que tá assustador – e Jan-Michael Vincent, que deixa o filme ainda mais divertido. Destaque também para as personagens femininas de Victoria Principal e Bernadette Peters. E não deixem de notar a pequena participação do grande Dick Miller como pianista de um bar.

A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS (1973)

Último filme da franquia clássica. Aqui a coisa dá uma derrapada, meio que despiroca… Num mau sentido.

A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS se passa no máximo poucas décadas depois de A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS. Nesse intervalo, a Terra foi dizimada por um holocausto nuclear, mas não vemos isso acontecer. Fuén! Uma decepção para os fãs que sempre quiseram ver como a estátua da liberdade foi parar naquele estado do primeiro filme… Os macacos evoluíram num tempo récorde: já falam e raciocínam normalmente, algo que deveria acontecer em milênios, e temos até uma raça de humanos mutantes pós-nucleares que vivem sob as ruínas de LA.

Mas a falta de lógica temporal é o menor dos problemas de A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS. A história é ruim, os personagens, com exceção de um ou outro, parecem cansados da própria série; tudo parece desenrolar às pressas, com um ritmo desconjuntado, acaba não tendo nada muito marcante… O clímax é o mais sem graça possível (tanto a batalha final entre humanos e macacos quanto o duelo de Caesar contra um desafeto em cima de uma árvore).

Na trama, Caesar (novamente Roddy McDowall) lidera uma pacífica comunidade mista de macacos e humanos, mas seu modo de vida está ameaçado tanto por dentro quanto por fora da comunidade. Não apenas o General Aldo (Claude Akins) e seu exército de gorilas estão conspirando para derrubar Caesar, mas o governador Kolp (Severn Darden), que lidera a tal raça de mutante, decide atacar o acampamento.

Caesar quer conhecer mais sobre seu passado, sobre seus pais, então resolve fazer uma jornada com MacDonald (Austin Stoker) – não o mesmo MacDonald do último filme, mas o irmão do personagem, porque Hari Rhodes não retornou para o seu papel – e um orangotango chamado Virgil (um dos poucos personagens que salva), até as ruínas de Los Angeles onde estão os arquivos gravados dos depoimentos de Cornelius e Zira lá do terceiro filme. O problema é que dão de cara com os mutantes que vivem lá e desencadeia uma guerra.

Isso é basicamente o que temos de interessante no enredo. O resto é pura embromação. A maior parte do filme é bastante pálida. Há uma cena na qual o filho de Caesar é assassinado pelo general Aldo e não senti absolutamente nada pelo moleque… O filme não constrói nada de interessante sobre o personagem. Não constrói nada também sobre as motivações para o conflito entre macacos e o que resta dos humanos.

Fica evidente logo de cara que a Fox já não parecia muito interessada na franquia (apesar de TODOS os filmes da série terem sido sucessos comerciais) e reduziu consideravelmente o orçamento. Os realizadores tiveram que suar para criar algo. A grande batalha do título se resume nuns gatos pinga… Quero dizer, macacos pingados atirando de um lado para outro contra uns humanos que avançam leeeeentamente de carros, motos e um ônibus escolar em direção à comunidade, tudo filmado sem tensão e emoção alguma. E olha que o diretor é o mesmo J. Lee Thompson do filme anterior, cuja batalha final é épica!

Enfim, um balde de água fria depois de revisitar os outros filmes e ser surpreendido positivamente… E o que é aquele final, com a estátua de Caesar escorrendo uma lágrima? Decepcionado com o capítulo final da série, talvez? Até eu quase chorei de tão constrangedor… Nem John Huston fantasiado de macaco salva alguma coisa. Um fim amargo para uma série que ainda me fascina.

A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS (1972)

Depois que Cornelius e Zira foram mortos em FUGA DO PLANETA DOS MACACOS e descobrimos que seu bebê (Milo no filme anterior, mas aqui chamado Caesar) está seguro no circo de Armando (Ricardo Montalban), a história avança para vinte anos depois, quando a catástrofe de escala mundial anunciada no último filme – e que é determinante para a evolução dos macacos na mitologia da série – já aconteceu.

Trata-se de uma praga, altamente contagiosa – trazida na espaçonave que Zira e Cornelius usaram para vir do futuro – exterminou toda a população de cães e gatos da terra. Os humanos eram imunes, mas os pobres pets foram varridos… E assim, os símios começaram a substituir os animais domésticos. No entanto, quando as pessoas perceberam o quão inteligentes e rápidos em aprender as coisas são os macacos, eles foram adquirindo certas funções na sociedade, com trabalho braçal, todos na cidade usam macacos como empregados nos mais variados tipos de negócio…

Mas o tratamento é aquela coisa, estão sempre acorrentados e caso se comportem mal, são espancados. Caesar, agora com vinte anos e interpretado por Roddy McDowall (que em dois dos filmes anteriores fez o pai, Cornelius), não suporta a crueldade contra os macacos e acidentalmente solta um grito de revolta no meio da multidão. O ato o torna perigoso para o governo, que ainda se lembra do que Zira e Cornelius disseram anos atrás sobre o futuro da humanidade.

Armando e Caesar fogem, mas o humano acredita que assumir a culpa e se entregar pode melhorar a situação. Assim o faz, mas a interrogação é intensa, com tecnologia que impede Armando de mentir, portanto ele comete suicídio para esconder o que sabe sobre Caesar.

Enquanto isso, o pobre macaco falante acaba escondido dentro de um centro de treinamento de símios e mais tarde se torna o animal de estimação do governador. Ao mesmo tempo, planeja não apenas vingança contra o que fizeram com Armando, mas também uma revolução da sua espécie contra os humanos.

Questões de política racial sempre girou em torno dos filmes da série d’O PLANETA DOS MACACOS, isso é óbvio. Mas em nenhum momento essas relações raciais foram tão explícitas quanto em A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS. A revolta dos macacos remete aqui aos motins de Watts; os personagens exibem pensamentos claros sobre a libertação racial; temos o papel do governador Breck (Don Murray), que é um racista abjeto; temos Caesar, cuja liberdade, por qualquer meio necessário, reflete os aspectos mais extremos do nacionalismo negro…

E no fim vemos a coisa acontecer, o ponto de virada de toda a mitologia da série, além de temos uma das melhores, quiçá a melhor, sequência de ação de toda a franquia. Uma invasão épica do exército de primatas, minimamente organizado, carregando armas brancas e de fogo, às instalações governamentais, eliminando qualquer humano, estraçalhando tudo o que não os representa. J. Lee Thompson é o diretor da vez, mestre do cinema físico, de ação clássica, e conduz o caos com uma energia impressionante e deflagradora.

Mas existem dois desfechos de A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS. A versão que foi exibida nos cinemas em 1972 é bastante esperançosa e positiva, com os macacos encontrando a liberdade por meio da luta armada, ao mesmo tempo em que também mostram a seus captores humanos uma clemência que nunca foi-lhes dada. Com Caesar basicamente dando aquele ponto de vista da esquerda moderada, de que a libertação é necessária, mas podemos fazê-lo sem violência?

No final, um dos membros bonzinhos do governo, MacDonald (Hari Rhodes), que ajudou Caesar em determinado momento, tenta convencê-lo a parar de levar sua revolução para um caminho de violência e Caesar está prestes dar o sinal para que seus gorilas espanquem Breck até a morte.

Num primeiro corte do filme, Caesar não lhe dá ouvidos; Breck é brutalmente assassinado pelos gorilas enquanto Caesar fica orgulhoso entre a fumaça de uma civilização que está queimando. É desolador, um aceno à natureza inescapável da violência e destruição, que acaba por estar na sintonia niilista do restante da série.

Mas o público de teste da época não curtiu muito. Ficaram horrorizados. Todo o discurso sobre a crueldade e destrutividade que reside na natureza humana dos filmes anteriores estava tudo bem… Explodir o planeta terra com uma bomba atômica? Sem problema! A execução brutal dos simpáticos protagonistas do filme anterior? Que mal há nisso? Agora, uma alegoria sobre o movimento dos direitos civis e negros, com a revolta numa escalada de violência contra o homem branco? Isso não, de jeito nenhum!

Bom, como não havia orçamento suficiente para refazer o final, por meio da edição e diálogos adicionais conseguiram mudar as coisas. Caesar está prestes a matar Breck, apesar dos protestos de MacDonald, quando de repente Lisa, a macaca namorada de Caesar grita “Não!” Ela é a primeira macaca a falar e usa sua voz a serviço da paz. E assim Caesar muda de ideia. É um final muito mais suave. Todos os filmes anteriores tiveram situações levadas para uma crise, e a lógica era a de que ninguém consegue lidar com essas crises. Pela primeira vez na série, a crise é evitada; a mudança é feita, mas sem recorrer ao extremismo (apesar de todo derramamento de sangue).

No entanto, no lançamento em blu-ray do filme há alguns anos, resolveram incluir uma versão “unrated” que possui o final do corte original, terminando com Caesar sinalizando para que os gorilas arrebentassem o governador. E foi nessa versão que revi o filme ontem. Não quero entrar em polêmicas, mas pessoalmente prefiro este final aqui…

E olha, de uma forma geral me surpreendi bastante com o filme. Roddy McDowall tem sua melhor performance na série. E a forma direta e rápida que as coisas acontecem por aqui e a intensidade do último ato são coisas que realmente me fascinam. É provável que A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS seja o meu favorito logo depois do clássico de 68. Agora é rever o quinto e último capítulo, A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS (73), pra ver como se sai hoje em dia…

CRIME SEM SAÍDA (2019)

Eu já tava bem interessado em ver CRIME SEM SAÍDA (21 Bridges), mas acabei deixando passar. Com essa morte do Chadwick Boseman que pegou todo mundo de surpresa, foi o primeiro filme que veio à mente para homenageá-lo. Que me descupem os fãs de PANTERA NEGRA e outros filmes da Marvel, mas às vezes tudo o que preciso é de um thriller policial classudo que parece saído dos anos 90… E CRIME SEM SAÍDA dá conta do recado.

Boseman é o detetive de homicídios da NYPD Andre Davis, desses incorruptíveis, que diz que ser policial está no seu DNA. Mas que é pintado como “gatilho solto” pela rapaziada da corregedoria por conta do alto número de bandidos que eliminou no cumprimento do dever. Todas as ocorrências foram consideradas justificadas, mas há sempre um foco constante sobre ele por conta disso e também por um histórico familiar muito forte: era moleque ainda quando seu pai, um oficial respeitado e altamente condecorado, foi morto em ação. Seus superiores acham que esse trauma talvez seja a resposta para o seu alto número de meliantes despachados.

Mesmo assim, Davis é chamado para investigar um tiroteio no Brooklyn que deixou oito policiais mortos após o roubo de um enorme estoque de cocaína no porão de uma vinícola. Os dois autores da façanha são veteranos de guerra que agora trabalham como mercenários: Ray Jackson (Taylor Kitsch) e seu relutante cúmplice Michael Trujillo (Stephan James). Jackson se revela um matador sangue frio e foi quem realmente matou todos os policiais, enquanto Michael tentava sem sucesso conter a situação. Agora eles são forçados a descarregar toda a coca que puderem pegar, lavar o dinheiro e sair da cidade.

O problema é que Davis já mandou trancar Manhattan, interditou todas as 21 pontes (que é o título original da bagaça) que levam à ilha e os agentes do FBI dão a ele até 5h30 da manhã para encontrar os assassinos antes que eles assumam o caso. Por ordem do capitão McKenna do 85º distrito do Brooklyn (J.K. Simmons), Davis terá a detetive de narcóticos Frankie Burns (Sienna Miller) como parceira, e eles partem pra descobrir onde estão Jackson e Trujillo.

No entanto, quanto mais Davis se aprofunda nos detalhes, mais as coisas parecem cheirar mal. Várias questões envolvendo a participação da polícia no caso deixam o detetive com a pulga atrás da orelha…

Já deu pra perceber que estamos em terreno conhecido por aqui. Quem já viu meia dúzia de filmes de policiais corruptos consegue matar algumas questões facilmente. CRIME SEM SAÍDA não faz muito suspense sobre quem são policiais corruptos e alguns parecem ter isso estampado na testa. Mas o roteiro de Adam Mervis e Matthew Michael Carnahan (THE KINGDOM) não tá muito interessado em prezar por originalidade e alguns diálogos e situações dão aquela sensação de “putz, já vi isso em outro filme”. O que realmente importa por aqui é a tensão de como as coisas se desenrolam, numa única noite, num ritmo que mantém o espectador ligado do início ao fim.

Ajuda muito CRIME SEM SAÍDA ter um protagonista tão sólido em Chadwick Boseman, o cara manda muito bem. Realmente perdemos um herdeiro de um Denzel Washington… O elenco de apoio também é muito bom e vale a destacar a pequena, mas simpática, participação Keith David (ELES VIVEM) como um chefe de polícia.

A direção é do veterano da TV Brian Kirk (BOARDWALK IMPIRE, GAME OF THRONES), que faz um bom trabalho em manter o ritmo e a tensão das coisas em ponto de bala. Sabe também onde colocar a câmera para filmar tiroteios e perseguições bem feitas. A sequência do tiroteio no assalto do início, que resulta nos oito policiais mortos, por exemplo, é ótima e muito bem conduzida, mostra que o sujeito não tá pra brincadeira. Belo trabalho também do diretor de segunda unidade, o grande coordenador de dublês Spiro Razatos (VELOZES & FURIOSOS 8 e vários filmes da Marvel, onde deve ter topado com os Irmãos Russos, que são produtores deste aqui).

CRIME SEM SAÍDA não tem nenhuma pretensão além de entreter como um exemplar de thriller policial bastante competente. Como eu disse, não há nada de muito original, mas não deixa de ter bons momentos de tensão e ação e boas atuações. E ainda não vai ser a despedida de Chadwick Boseman das telas, aparentemente deixou um trabalho completo, que deve estrear ainda este ano. O rapaz tava indo bem…

SANDOKAN, O GRANDE (1963)

Coprodução italiana/francesa/espanhola, dirigida por Umberto Lenzi, SANDOKAN, O GRANDE (Sandokan, la tigre di Mompracem) foi baseada no primeiro dos romances do famoso personagem da literatura italiana, Sandokan, Os Tigres de Mompracem, do escritor italiano do século XIX Emilio Salgari. Na literatura, Sandokan é um pirata heróico que combate o tirânico Império Britânico e a Companhia das Índias nos mares do Sul asiático. Suas aventuras são contadas numa série de onze histórias, tendo aparecido pela primeira vez em 1883.

Nesta versão cinematográfica, Steve Reeves é quem dá vida ao corajoso e ousado pirata malaio Sandokan. E para quem conhece o sujeito, famoso por interpretar os fortões heróis do cinema de “sandália e espada” italiano, gênero conhecido por lá como PEPLUM, pode até estranhar vê-lo como como um pirata do século XIX em SANDOKAN, O GRANDE… Mas até que a coisa não muda tanto de figura não. Muda-se cenários e vestimentas, mas o senso de aventura dessas produções italianas permanecem.

Aparentemente o enredo do filme é apenas vagamente baseado no romance, mas captura o espírito de maneira bastante eficaz. Na trama, o pai de Sandokan é o rajá de um pequeno principado em Bornéu, que acabou deposto pelos britânicos e capturado. Agora pretendem executá-lo. Sandokan, que começa o filme já com certa notoriedade pelos seus feitos como líder de um grupo pirata, não tem intenção de permitir que isso aconteça, e resolve intervir tocando o terror pra cima do poderoso Império Britânico.

O primeiro passo de Sandokan e sua turma é um ataque à casa fortificada do comandante britânico Lord Guillonk (Leo Anchóriz), e no meio da confusão acaba sequestrando Mary Ann (Geneviève Grad), sobrinha de Guillonk. Ela obviamente fica indignada com a ideia de ser sequestrada por piratas, mas por outro lado aprendemos em SANDOKAN, O GRANDE que se você é uma jovem moça e acaba sequestrada pelo Steve Reeves fantasiado de pirata, arrojado, bonitão e másculo, talvez não seja tão ruim quanto parece…

Especialmente quando o sujeito salva-lhe a vida encarando um tigre no meio do mato…

Em determinado momento, o braço direito de Sandokan, o aventureiro português Yanez (Andrea Bosic), também ajuda a colocar na cabeça da moça algum esclarecimento sobre a autoritária política colonial britânica, e como os seus compatriotas – homens do seu tio inclusive – mataram membros da família de Sandokan. Ela começa a entender porque Sandokan não é lá grande fã dos britânicos. Yanez também aponta que os seguidores de Sandokan foram forçados a se tornarem piratas por conta das potências coloniais européias e o seu modo de agir na região.

A aventura progride, agora com Sandokan sendo caçado pelos homens de Lord Guillonk e se vê tendo que atravessar a ilha onde a trama transcorre, enfrentando os mais diversos e perigosos cenários para não ser pego. Isso significa enfrentar pântanos e selvas inexploradas, um feito bastante desafiador, mas ainda mais difícil com Mary Ann de reboque e com alguns companheiros feridos e, pior, tendo um traidor no grupo que ninguém sabe ainda quem é…

Aparentemente, o Sandokan da literatura é um líder inspirador e carismático, mas também impulsivo e inclinado a erros de julgamento. Um pouco diferente da sua versão para cinema. Steve Reeves decidiu, em vez disso, buscar dignidade e autoridade silenciosa. O que acaba sendo uma abordagem válida, tendo em vista que o ator não tinha lá muita desenvoltura para se expressar verbalmente diante das câmeras. O desempenho físico do sujeito foi mais que adequado.

Claro, há algum excesso de confiança de Sandokan que soa exagerado – seu plano de atravessar a ilha sobre pântanos intransitáveis ​​e entrando em terrítórios de tribos caçadores de cabeças não era lá uma ótima idéia, por exemplo. Mas os homens de Sandokan têm absoluta confiança nele, apesar disso não significar necessariamente que o sujeito saiba o que está fazendo. Mas aí é que entra umas das coisas mais legais em SANDOKAN, O GRANDE, que é como o protagonista é sortudo pra cacete. Não há nada racional ou calculista nele, é um homem que está sempre preparado para colocar sua fé no destino (ser salvo por um chimpanzé, por exemplo). Se Deus quiser, ele sobreviverá e continuará lutando. Seu fatalismo faz dele um herói fascinante.

Embora seja um filme de piratas, não há cenas de batalhas no mar. Provável que o orçamento não tenha sido suficiente para contemplar algo tão ambicioso. Mas quando se tem um diretor como Umberto Lenzi sabemos que estamos em boas mãos. Claro, é evidente que Lenzi ainda estava em início de carreira aqui, mas já tinha no currículo sete filmes, todos aventuras do gênero Peplum, então já tinha experiência de sobra pra comandar uma produção como esta.

Mesmo que o ritmo de SANDOKAN, O GRANDE tenha uma caída no meio, e comece a se arrastar um pouco, não demora muito pras coisas esquentarem. E quando a ação começa a aumentar no final, vale a pena a espera. A batalha final, por exemplo, é um bom espetáculo de ação. E Lenzi faz um trabalho sólido, nada muito inspirado, mas bem seguro na maior parte do tempo. A localização das filmagens no Sri Lanka também ajuda. São visualmente impressionantes e Lenzi sabe como aproveitar e dar uma sensação de autenticidade exótica.

Há sempre o perigo desse tipo de filme abusar da mensagem anticolonialista (que existe no romance de Salgari) e sucumbir à pregação excessiva. É algo que pode estragar um pouco a diversão, concordando ou não com a mensagem. Mas não acho que seja um problema em SANDOKAN, O GRANDE, até porque os britânicos são retratados como vilões quase cartunescos e maniqueístas.

No geral, SANDOKAN, O GRANDE é um filme de aventura agradável, sem grandes pretensões, e que tem algumas coisas divertidas a seu favor, como o cenário incomum e o seu herói exótico, Sandokan. São exemplos que, juntamente com a sequência final de batalha e outros momentos de ação, são suficientes para compensar alguns pequenos problemas de ritmo e coerência.

Steve Reeves retornaria ao papel de Sandokan no ano seguinte, em I PIRATI DELLA MALESIA, novamente dirido por Umberto Lenzi. Mas ao longo do tempo, o personagem ganhou novos filmes e novos intérpretes. É um universo vasto o de Sandokan, que eu ainda preciso explorar…

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INFERNO VERMELHO (1988)

Não tem muito como errar com a boa e velha fórmula do “filme de parceiros policiais“. Ou como ficou mais conhecido no seu próprio idioma original, os buddy cop movies. Era pegar dois sujeitos de personalidades, classes, culturas opostas, ou seja lá o que for, e colocá-los juntos para resolver crimes enquanto batem boca e defendem visões divergentes… É claro que colocar a Whoopi Goldberg fazendo parceria com um dinossauro de látex não é lá uma boa ideia… O dinossauro merecia um parceiro melhor. Mas os exemplos positivos de buddy cop movies temos aos montes. É como pizza, até quando é ruim é bom.

Um diretor que é sinônimo de buddy cop movies é Walter Hill, um dos responsáveis por definir as regras do sub-gênero ainda lá atrás no início de carreira, como roteirista, em HICKEY & BOGGS (72), dirigido pelo Robert Culp, ou no piloto DOG AND CAT (77), antes mesmo de realizar seu próprio exemplar nos anos 80, o clássico 48 HORAS (1982). E tão familiar com o tema, Hill sempre encontra um jeitinho de dar uma boa variada na fórmula.

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Em INFERNO VERMELHO (Red Heat) essa variação vem num trabalho de “choque cultural”. Tá certo que o resultado acaba sendo tão ingenuo e cartunesco quanto o de ROCKY 4, mas reflete a visão estereotipada coletiva da Rússia pelos americanos do período. Além de funcionar bem como pano de fundo de um filme de ação policial que se propõe a ser uma sátira de diferenças de costumes. Mas o verdadeiro desafio de Hill não era tão simples e poderia colocar todo o projeto a perder. Consistia em trocar as peças um pouco de lugar e convencer o público americano dos anos 80 a aceitar um soviético comunista como herói da história.

Uma grande sacada para resolver essa questão pode ter sido usada já na escolha do ator que faria esse herói, já que naquele período qualquer produção que Arnold Schwarzenegger se envolvesse seria quase automaticamente levada à aceitação pública. O cara era um astro, o “tough guy” do momento ao lado de Sylvester Stallone, e não seria o fato de encarnar um russo que mancharia sua imagem.

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Aliás, a gênese de INFERNO VERMELHO nasceu do desejo de Hill em dirigir Schwarzenegger, o que trazia ao mesmo tempo algumas questões que incomodavam o diretor, como o sotaque do austríaco, por exemplo, que não encaixava em nenhum personagem previamente pensado. Então, Hill veio com a ideia do sujeito ser soviético e a partir disso, com o ator em mente, é que ele, Harry Kleiner e Troy Kennedy-Martin escreveram o roteiro.

Schwarza se encaixou perfeitamente e Hill soube aproveitar a sua iconografia de modo fundamental. Basta reparar na entrada do ator em cena, na sequência inicial na sauna russa, com a câmera passeando pelo corpo de Schwarza imponente como se estivesse estabelecendo um componente dramático-visual relacionado ao físico. Schwarza desempenha seus papéis com presença física em qualquer filme do período, na maneira como seu bíceps aparece na tela, como os músculos do pescoço se comportam no enquadramento, como as veias sobressaltam na pele somando valor estético, é o que torna filmes como INFERNO VERMELHO, CONAN – O BÁRBARO e PREDADOR tão físicos.

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A trama de INFERNO VERMELHO a grande maioria dos fãs do gênero já conhece, mas vamos lá: Schwarza é o capitão Ivan Danko, um policial de Moscou altamente badass que vai parar em Chicago na cola de um perigoso criminoso russo (Ed O’Ross) que matou seu parceiro. Na América, após o estranhamento inicial, ele acaba ganhando a camaradagem, depois de muita resistência, de um controverso e espertinho policial de Chicago, vivido por James Belushi, que lhe ajuda a seguir os rastros do bandido.

O que se desenrola a partir dessa premissa não é exatamente importante, serve apenas de base para algumas questões que interessam a Hill e, obviamente, ao público ávido por este tipo de produto, como a ação física, a sátira escrachada e o relacionamento entre as duas figuras que vamos acompanhar nessa aventura.

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Uma das razões pela qual INFERNO VERMELHO funciona lindamente pra mim, e que eu já ressaltei, é que se assume logo de cara como uma sátira de “choque cultural” cheia de contornos cômicos que envolvem a jornada desse russo na América. É praticamente uma comédia de costumes e é difícil segurar o riso das situações que Danko, o policial russo comunista, passa na meca do capitalismo. A própria maneira como Hill trabalha a imagem para enfatizar certas coisas é muito forte aqui, como a forma que filma Moscou – clean, sóbria e contemplativa – se contrapondo a Chicago, o caos, a poluição sonora e visual, local sujo repleto de bandidos e putas. Danko liga a TV no quarto de hotel em que está instalado e rola um pornozão de boa. A reação dele é hilária: “Capitalistas“.

Em outras ocasiões já acho que o humor nem era intencional, mas não dá pra não rir com Danko, depois de encontrar um pacote de droga na perna de madeira de um sujeito, soltando um “cocainum!“. A química entre Schwarzenegger e Belushi também é um ponto forte nesse lado cômico do filme. Belushi nunca vai chegar aos pés de seu irmão, John Belushi, um ícone da comédia americana, mas até que ao seu modo conseguiu sair da sombra do irmão. Em INFERNO VERMELHO, o sujeito consegue pagar de badass ao mesmo tempo em que arranca boas risadas do público.

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Grande parte do diálogo entre Belushi e Schwarza consiste no primeiro soltando algo do tipo: “Do I look like a fucking cab to you?“, seguido por um “yes” monossilábico de Arnie… E basta para me deixar com um sorriso na cara.

Já a sequência que os dois discutem sobre o fato de Danko ter um periquito de estimação é simplesmente de rachar o bico… Além de Schwarza e Belushi, o elenco merece atenção com vários nomes interessantes que surgem na tela. Ed O’Ross encarna com desenvoltura o papel do vilão russo, temos Peter Boyle como chefe de polícia, Laurence Fishburne, Gina Gershon e uma impagável participação de Brion James.

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Outro principal motivo para qualquer fã de cinema de ação ter a obrigatoriedade de conferir INFERNO VERMELHO é justamente pelas sequências de ação. Hill foi um dos grandes nesse departamento, herdeiro direto de Sam Peckinpah, não economizava em virtuosismo ao filmar tiroteios e perseguições, mesmo que as sequências não sejam nada extravagantes.

Seus tiroteios são crus, filmados com classe, mas que rendem uma boa dose de brutalidade. Os dez primeiros minutos de INFERNO VERMELHO são de arregaçar! Temos Schwarza trocando socos com russos bombados numa sauna, que prossegue num campo aberto coberto de neve e, logo em seguida, um tiroteio classudo num bar que culmina na morte do parceiro do protagonista.

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Outro destaque é o tiroteio na espelunca em que Danko está hospedado. A edição simples, o trabalho com o movimento dos corpos e espaços, a violência dos tiros – causa e efeito bem definidos, filmados com clareza – e até uma prostituta peladona enchendo um bandido de chumbo, proporcionam uma boa dose de truculência.

A exceção da ausência de “espetáculo” na ação de Hill fica na sequência final, em que bandido e mocinho usam um ônibus cada um numa perseguição frenética em meio ao trânsito da cidade, dando um toque do exagero oitentista à obra, mas sem perder a elegância.

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INFERNO VERMELHO é daqueles filmes que eu posso rever e rever quantas vezes forem necessário e ainda vou estar longe de enjoar. Até a sua reflexão ingênua da dialética comunismo x capitalismo funciona bem numa trama que não tenta fazer nada de diferente em termos de estrutura dos buddy cop movies, mas tem a personalidade de seu diretor e entrega exatamente o que promete: ação de primeira qualidade, humor zoeiro e ainda cria um dos personagens russos mais casca-grossa do cinema americano.

Não é o melhor filme que Hill dirigiu, nem o melhor veículo que Arnold Schwarzengger estrelou, mas sem dúvida alguma é um dos produtos mais divertidos que ambos fizeram.

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Texto originalmente escrito para o Action News em maio de 2018.

THE MATRIX REVOLUTIONS (2003)

Minhas impressões da revisão de THE MATRIX REVOLUTIONS são meio malucas. Se por um lado eu consigo identificar tudo que desagradou os fãs na época (eu incluso), por outro já não me importei com nada e simplesmente embarquei nessa tragédia shakespeareana misturada com uma viagem pseudo-cyber-filosófica-espiritual cheia de ação épica… Achei um filme fascinante.

O grande problema pra mim desta vez foi bem diferente do que senti quando vi THE MATRIX REVOLUTIONS no cinema há quase duas décadas. Eu só queria que aquela bobagem toda acabasse o mais rápido possível…

Nesta revisão, não sei explicar porquê, acontece justamente o contrário. Eu queria mais e mais, eu queria uma série pra TV com vinte temporadas explorando a riqueza visual/espiritual/filosófica de THE MATRIX, eu simplesmente fiquei maravilhado e queria mais!

E, bom, as Wachowski se arriscaram pra caramba pra concluir essa bagaça. THE MATRIX tava no coração da moçada, quase todo mundo tinha curtido, tinha sua importância dentro dos blockbusters hollywoodianos, então este terceiro filme era muito aguardado. E elas vão lá e, PIMBA! não entregam nada daquilo que o público queria! Hahaha!

Convenhamos que o encerramento de uma série dessa magnitude nunca vai agradar todo mundo mesmo que tivessem feito “o básico”.

Mas THE MATRIX REVOLUTIONS acabou sendo uma aula de como subverter as expectativas do público e até mesmo de narrativa: por exemplo, colocando a tão aguardada batalha de Zion, dos homens contra as máquinas, no meio do filme, sem sequer contar com a presença do protagonista. Forçando toda a solução das suas questões filosóficas entregues numa única luta de tirar o fôlego entre Neo (Keanu Reeves) e o Agente Smith (Hugo Weaving).

A batalha de Zion é um esplendor que mal tenho palavras para descrever. Não lembro muito o que senti há quase vinte anos quando vi pela primeira vez, na tela grande, mas como não curti na época, é bem capaz de não ter achado grandes coisas.

Hoje foi bem diferente. São praticamente 30 minutos de espetáculo sensorial de ação de tirar o fôlego, que tem um peso poderosíssimo e uma sensação insuportável de ameaça, realmente convence – mesmo que por um momento – de que tudo está realmente fodido e que a humanidade vai ser extinta.

As irmãs Wachowski têm uma excelente percepção de onde colocar a câmera na ação. Os enquadramento nunca são óbvios, as figuras são milimetricamente posicionadas no quadro, um pouco distorcidas para ganhar movimento, apenas o suficiente para proporcionar um prazer visual que não é comum. A edição também é sólida: em nenhum momento a geografia é confusa ou incoerente.

E as cenas de artes marciais são compreensíveis. O que nos leva à luta entre Neo e Smith, toda belíssimamente construída, com quadros que remetem a um duelo de faroeste. Começa com os dois sujeitos em extremos opostos de uma longa rua, enquanto gotas de chuva os encharcam, entre duas filas de cópias do Agente Smith. É sublime.

Neo e Smith trocam algumas palavras antes de dar tudo de si numa briga de proporções épicas que carrega aquele aroma de inevitabilidade, como diria o Agente Smith.

Há uma outra sequência de ação que é menos lembrada do que esses dois mastodontes que citei aí em cima, mas que ainda impressionam: a que Morpheus (Laurence Fishburne), Trinity (Carrie-Ann Moss) e Seraph (Collin Chow) trocam tiros com uns caras que literalmente andam no teto do cenário… É uma dessas pequenas joias dentro do filme que também provam a maestria das Wachowski na condução da ação.

Mas uma das coisas mais importantes pra mim por aqui é como a coisa se resolve dentro de sua própria lógica filosófica de boteco e religiosidade de fundo de quintal (é quase uma versão sci-fi de passagens bíblicas), deixando um monte de ponta solta, um bocado de perguntas sem resposta, tudo tão aberto, pra desespero dos fãs.

Mas que ao mesmo tempo toca no fundamental: o nível de sacrifício exigido de seus personagens em algo reconhecidamente humano, fazendo-nos sentir o custo mortal por trás das figuras e feitos que se tornam lendas. Se THE MATRIX RELOADED rejeita os mitos que alimentamos, THE MATRIX REVOLUTIONS nos mostra como novos mitos são criados.

Enfim, depois dessa revisão, agradeço às Wachowski por não terem realizado algo pra agradar os fãs (não é mesmo, Disney?).

Passei tempo demais sem revisitar esse universo, deveria ter feito antes e mais vezes e redescoberto essa maravilha que é toda a saga THE MATRIX, especialmente se olharmos agora e percebermos que não tivemos nada remotamente parecido no gênero como essa trilogia desde então em Hollywood.

Que me perdoem os fãs da Marvel Cinematic Universe, mas todos os seus trocentos filmes juntos não dão nem pro cheiro que é a trilogia THE MATRIX.

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Quero saber as impressões de vocês. O que meus cinco leitores acham da trilogia THE MATRIX? Não deixem de comentar na caixa de comentários aqui do blog, ou no facebook, Twitter, Instagram… Bora papear.

THE MATRIX RELOADED (2003)

Pois, inspirado pelo último post, resolvi rever os outros dois exemplares da trilogia THE MATRIX de uma vez. Eu já esperava gostar de THE MATRIX RELOADED, novamente dirigido pelas irmãs Wachowski, até porque tinha lembranças vívidas de algumas sequências de ação e que confirmaram o nível de qualidade nessa revisão (uma em específico é uma obra-prima).

Então, acabou que não foi nenhuma surpresa me deparar com um filme tão maneiro. E obviamente a ação é importate… Crucial, eu diria – como verão à seguir – mas me interessou bastante tudo aquilo que o filme se propõe como continuação.

Na verdade, THE MATRIX RELOADED é bem funcional como capítulo intermediário e só faz sentido acompanhado dos outros dois. É quase impossível entender alguma coisa sem ver o seu antecessor e conferir logo em seguida o encerramento da bagaça, THE MATRIX REVOLUTIONS (que foi lançado no mesmo ano, alguns meses só de diferença, em 2003).

Não que a trama seja tão complexa ou difícil de acompanhar, mas toda a gama filosófica de mesa de bar do primeiro filme precisa estar na mente para perceber os seus desdobramentos por aqui. Nada muito complicado, mas que torna-se incompreensível se falta a parte inicial e fica incompleta sem o desfecho.

Então, pra que que serve MATRIX RELOADED?

Olha, eu poderia até dar uma resposta mais detalhada, explicar que serve pra expandir o universo do primeiro filme, explorar os personagens e até mesmo se aprofundar nos seus conceitos que agora transcendem as questões cyber filosóficas para se tornar algo mais energia-espiritual-budista e blá blá blá… Mas não.

A única coisa que eu consigo pensar como razão deste filme existir é pelo espetáculo sensorial do segmento de ação “da rodovia”. Sabem qual é? Sabem do que tô falando?

Tudo que rodeia esses momentos frenéticos, tudo que vem antes ou depois dessa pancadria, perseguições, tiros e explosões que são a matéria prima dessa sequência, só serve de pretexto para esse segmento em específico acontecer diante dos nossos olhos. Não tenho dúvida alguma de que é uma das melhores sequências de ação do século.

Então minha resposta é essa. Pra que serve MATRIX RELOADED? Pra isso:

Toda essa construção, essa sucessão de acontecimentos, é simplesmente do caralho! Eu perdi a noção do tempo, mas devem ser uns quinze minutos de ação frenética ininterrupta.

Começa com um kung fu de Neo (Keanu Reeves) contra uns sujeitos numa espécie de chateau, desce pra uma garagem com os Gêmeos que viram fumaça, dando um trabalho do cão pra Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie-Ann Moss) e o barraco acaba indo parar numa perseguição alucinante de carros, caminhões, viaturas de polícia, moto na contra-mão, com gêmeos-fumaça e os agentes da Matrix (aqueles caras fodões de terno e gravata do primeiro filme) perseguindo Morpheus, Trinity e um tal chaveiro numa rodovia de alta velocidade lotada de veículos.

A coisa termina quase num orgasmo com uma luta entre Morpheus e um dos agentes (vivido por ninguém menos que o grande Daniel Bernhardt, o sub-Van Damme dos anos 90, protagonista das continuações de O GRANDE DRAGÃO BRANCO e o petardo bad movie O GRANDE DRAGÃO DO FUTURO) em cima de um caminhão em movimento… Ufa! É o fino da grosseria!

Tudo lindamente bem filmado e coreografado pelas Wachowski. E os efeitos especiais até hoje impressionam… Honestamente, é essa sequência que faz valer o filme. Eu não queria mais saber das armações políticas em Zion, do ataque das máquinas no “mundo real”, do romance entre Neo e Trinity, se o Oráculo tava certa ou errada, ou pra que caralho serve o tal chaveiro. Eu queria simplesmente viver naquela sequência de ação por, sei lá, mais duas horas… Um clássico.

Sobre o restante de THE MATRIX RELOADED, é tudo o que se pode esperar de uma continuação para uma obra tão pop e cultuada do cinema da virada do milênio. Uma aventura de ficção-científica à altura de seu antecessor – apesar do fator novidade não existir mais aqui – mas que exige atenção do espectador e entretém com categoria.

Na trama, finalmente vemos Zion, a tal cidade do mundo real – e que rola umas raves hippies muito loucas sem qualquer motivo, a não ser mostrar corpos suados e com pouca roupa em movimento, ao som do batidão, o que pra mim tá bom…

Ficamos sabendo que as máquinas estão avançando em direção à cidade, cada vez mais perto de aniquilar os últimos 250 mil homens, mulheres e crianças da Terra, e é praticamente inevitável o confronto homem vs máquina.

A turminha Morpheus, Neo, Trinity e Link (Harold Perrineau) chegam na cidade. Personagens vão se apresentando, se reencontrando… O ritmo do filme é bem lento nesse início, com todas essas informações sendo lapidadas, com direito até a “reuniões de conselho” onde discute-se alguma coisa que parece importante (estilo Guerra Nas Estrelas). Rola até um Neo & Trinity fazendo saliências

Não sabemos ainda como Neo vai salvar a humanidade. Nem ele, na verdade, mas continua sua jornada de descobertas com o apoio de Morpheus e Trinity. Talvez a grande revelação do filme aconteça na sequência que Neo encontra o Arquiteto (Helmut Bakaitis) e descobre-se a existência de outros “Neo’s” e que ele na real não tem escolha alguma, a não ser seguir o que lhe foi determinado desde o princípio pelas máquinas.

Seu destino é jogar um jogo dentro dos termos já estabelecidos, o que é uma baita quebra de expectativa do que a rapaziada almejava pras continuações considerando o final do primeiro filme. Motivo pra ter deixado muita gente puta na época, o que já prova que foi a escolha certa das Wachowski.

Temos uns outros personagens novos, Jada Pinkett-Smith, Monica Belucci e Lambert Wilson, como Merovingian, importante pra trama. O Chaveiro também é crucial – mas que no fim das contas só serve mesmo para ser jogado de um lado para o outro na tal épica sequencia de ação.

Mas dessa nova galeria de figuras, os melhores pra mim são os tais Gêmeos, capangas do Merovingian, que tem por trás tem aquele conceito incrível de se transformarem em fumaça, em fantasmas, sei lá… Só sei que é massa!

Outro ponto a destacar é a presença de Hugo Weaving, o agente Smith, que ressurge com novos propósitos após sua “libertação” no final do primeiro filme (à princípio imagina-se que ele foi destruído por Neo). No entanto, só vamos entender totalmente seu arco em THE MATRIX REVOLUTION. Aqui em RELOADED sua participação ficou marcada pela sequência de pancadaria entre Neo e múltiplos Agentes Smith.

É outro momento de ação bem legal que até nessa revisão me surpreendeu, especialmente enquanto vemos atores e dublês, de carne e osso, atuando e encenando as coreografias. Quando entram em cena os bonecos de CGI rodopiando a coisa fica fake demais, parece jogo de Playstation 2, envelheceu mal pra caralho… Mas ainda gosto bastante, acho que faz parte do charme que essa cena possui.

É tudo muito divertido, barulhento e muito bem feito, até para os padrões atuais de cinema espetáculo de sci-fi/ação. Muito melhor e mais autoral, por exemplo, que qualquer filme da Marvel feito nos últimos quinze anos.

Foi realmente uma revisão proveitosa. Algum momento mais lento aqui, outro mais chato ali, especialmente no primeiro terço do filme. As cenas em Zion se demorassem mais um pouquinho iam me perder… Mas uma vez que a intensidade do ritmo aumenta e a ação entra pra valer, THE MATRIX REALOADED cresce muito. Um filmaço.

Em breve comento o que achei de THE MATRIX REVOLUTION. Vou deixar no suspense…

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E vocês? Há quanto tempo não assistem à trilogia? E o quais as suas impressões sobre a série da primeira vez que viram e nas revisões? Deixem aí uns comentários pra eu saber.

THE MATRIX (1999)

Escrevi esse textinho no início do ano passado, em 2019, exatamente vinte anos após o lançamento de THE MATRIX, para o extinto Action News. A minha intenção era rever toda a trilogia, como podem perceber no final do post… Como na época acabei revendo apenas este primeiro, vou republicar aqui no blog pra ver se animo finalmente revisitar os outros dois. Até porque um quarto filme vem aí…

Primeiro, é preciso ter consciência de que já se passaram vinte anos que THE MATRIX foi lançado e se tornou um fenômeno pop cultural, celebrado como um filme inovador em vários aspectos – revolucionário em termos de efeitos especiais e ação, e carregado de filosofia pós-moderna cibernética e blá, blá, blá. Mas e hoje? Como é ver THE MATRIX hoje? Muita coisa mudou de lá pra cá. O mundo vivia às vésperas da virada do milênio, a era da informática se iniciava, tudo o que apresentava em termos de comunicação e internet parecia tão distante da realidade; eu era um adolescente que peguei o VHS numa locadora e assisti, no mínimo, nove vezes antes de devolver rebobinado… Até as diretoras do filme, as irmãs Wachowski, ainda eram chamadas de irmãos Wachowski naquela altura… Sim, muita coisa mudou.

Resolvi encarar o filme de novo. Hoje. E se tem algo que NÃO muda é o fato de THE MATRIX ainda manter sua força em certos quesitos: alguns conceitos premonitórios, o visual cyberpunk que parece uma novela de William Gibson ganhando vida, e o fato de ser um cânone do cinema de ação na virada do século. Não dá pra conversar sobre cinema de ação do período sem que alguém cite Neo (Keanu Reeves) desviando de balas, com a câmera girando em slow motion, que ficou conhecido como “bullet time”, um tipo de cena que foi abusada à exaustão nos anos seguintes, mas que aqui ainda impressionava, era novidade; ou Neo encarando o agente Smith (Hugo Weaving) num metrô abandonado; Salvando Trinity (Carrie-Ann Moss) de um helicóptero em queda; ou enfrentando Morpheus (Laurence Fishburne) num treinamento de Kung Fu (cujo coreografo das cenas de luta foi o lendário Yuen Woo-ping)…

Lembro que na época era um filme considerado difícil de entender entre a molecada que tentava encarar a jornada do hacker Neo com mais prudência, prestando atenção no seu conceito filosófico. E toda a trama que envolve um mundo real e outro virtual, questões de livre arbítrio e identidade do indivíduo, e até um elemento religioso, com a concepção do “escolhido”, que volta para salvar o mundo, bagunçava mesmo a cabeça de um mancebo no final dos anos noventa que mal tinha entrado na internet na vida e só queria ver uns tiros, porrada e bomba. A trama nem era tão original assim, e depois foram se revelando vários filmes anteriores que tinham premissas similares.

É aquilo, THE MATRIX é a definição perfeita do que Hollywood costuma promover como algo “novo”, mas que acaba sempre sendo mais do mesmo… só que diferente.  Quem já tinha assistido na época filmes como EXISTENZ, do Cronenberg, DARK CITY, do Proyas, e O 13º ANDAR não deve ter visto nenhuma novidade por aqui, exceto a ação eletrizante, numa intensidade de encher os olhos, e que realmente tinha uma proposta inventiva. Mas era o tipo de filme que, de certa forma, nos levava a refletir, a fazer as perguntas sobre questões da vida sem conseguir obter respostas muito concretas.

Mas o que realmente encantava e, curiosamente, ainda encanta nessa revisão, é como THE MATRIX é divertido pra cacete! Quero dizer, se tu não tá a fim de ficar esquentando os miolos com os elementos filosóficos, ao menos temos aqui uma história cheia de momentos que te prendem na cadeira sem tirar os olhos da tela. Ou, basicamente, temos Keanu Reeves lutando, correndo, pulando, atirando, etc, por duas horas. “Eu sei kung-fu.” Esse tipo de coisa nunca envelhece. E obviamente é sempre importante destacar os efeitos especiais seminais, que realmente surpreendiam na época. Mesmo que em alguns momentos tenham ficado datados, mas faz parte. Tudo somado, THE MATRIX é um filme de ação sci-fi inteligente, com uma filosofia de boteco que tem seu charme. É frenético, bem dirigido, com momentos e personagens icônicos que ainda fascinam, um visual interessante, enfim, continua incrível.

Depois de THE MATRIX, as Wachowski criaram muito barulho com a expansão do universo do filme. Vieram as animações compiladas em ANIMATRIX e terminou numa das trilogias mais célebres da primeira metade dos anos 2000’s. Para alguns. Extremamente decepcionante para outros… Eu incluso. Até tenho boas memórias de RELOAD. No entanto, REVOLUTIONS era simplesmente intragável. O legal é que quase tudo desse período revelou-se bons filmes em revisões recentes. E é gratificante quando isso acontece, adoro mudar de opinião e descobrir maravilhas de coisas que eu detestava. Por isso vou rever o restante da trilogia. Volto pra falar se melhoraram com o tempo ou se ainda são as porcarias que tenho na memória…

★ ★ ★ ★


E termino esse post com essa imagem maravilhosa das filmagens de THE MATRIX 4, que poderiamos ver mais cedo, mas graças à pandemia só será lançado em 2022. A Lana Wachowski parece feliz em dirigir mais um capítulo dessa saga…

COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES (1967)

Depois do espião James Bond alcançar um tremendo sucesso com os quatro filmes anteriores, COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES (You Only Live Twice) pretendia marcar o fim da relação entre a franquia e Sean Connery, o ator que deu vida ao personagem até então. Cansado da atenção intrusiva que recebeu e o medo de ficar para sempre marcado como James Bond, Connery decidiu se desligar de vez da carreira de espião e seguir em frente com novos desafios… Ou talvez não. Apesar de todas as suas reclamações, Connery retornaria ao papel poucos anos depois, em OS DIAMANTES SÃO ETERNOS, de 1971. E renovaria sua licença para matar com o lançamento “não oficial” de 007 – NUNCA MAIS OUTRA VEZ já nos anos 80.

De qualquer forma, SÓ SE VIVE DUAS VEZES conclui a fase “clássica” de Connery como Bond.

Produzido durante a corrida espacial, COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES exibe uma atmosfera oportuna da política da guerra fria. O roteiro foi escrito pelo amigo de Ian Fleming (criador do personagem), Roald Dahl, e sua imaginação fértil serve muito bem ao filme, na maioria das vezes. Na trama, a União Soviética e os Estados Unidos se culpam pelo misterioso sumiço de suas cápsulas espaciais fora de órbita e a guerra nuclear entre as duas superpotências parece iminente.

O Serviço Secreto da coroa britânica descobre pistas que levam a crer que os foguetes estejam sendo mantidos no mar do Japão e designa Bond para a missão. Portanto, 007 vai para o Japão rastrear as cápsulas espaciais roubadas, correndo contra o relógio, e descobre que o maníaco Ernst Stavro Blofeld (Donald Pleasence) e sua organização terrorista SPECTRE planeja incitar uma guerra global em larga escala. Com a ajuda de agentes japoneses e um exército de ninjas liderados por Tiger Tanaka (Tetsuro Tamba), Bond mais uma vez se arrisca para salvar o mundo da destruição.

Com um enredo desses é até difícil apontar problemas em COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES, até porque talvez não tenha nada de errado mesmo, talvez uma certa falta de substância para se igualar aos exemplares que vieram antes, como se este aqui já assumisse uma veia escapista e de pura diversão. O próprio Connery aparenta cansaço ao longo do filme e, embora ainda possua a aura cool e de frescor que funciona tão bem, o sujeito já não tem tanto aqui a faísca necessária (não ajuda o fato de colocarem o sujeito numas situações bem constrangedoras, como a cerimômia de seu casamento de fachada com uma japonesa, entre outras coisas…)

Mas o filme ainda apresenta uma boa coleção de momentos memoráveis ao longo de suas quase duas horas. Naves espaciais que engolem outras naves, Donald Pleasance como Blofeld, piranhas que devoram pessoas, Bond se tornando um ninja… Lewis Gilbert faz sua estreia na série (retornaria dez anos depois com OS ESPIÃO QUE ME AMAVA) e trouxe um olhar mais moderno, fornecendo um bom ritmo e algumas das melhores sequências de ação da série até esse ponto.

Uma coisa que sinto falta é a presença de vilões mais marcantes em COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES. Como disse, temos Pleasence como Blofeld, o que já torna o filme essencial. Mas embora saibamos que o pior inimigo de Bond é quem está por trás dos planos diabólicos que afligem o nosso herói, Blofeld é quase uma entidade no decorrer da trama, sempre mostrado com seu gato no colo, sem revelar o rosto, da mesma forma que havia aparecido em CHANTAGEM ATÔMICA.

Quando seu rosto é revelado ao público e finalmente vemos o grande Pleasence encarnando o personagem, já é tarde de mais, já estamos no final do filme e não temos Pleasence o suficiente na tela… Ainda assim, o sujeito está sensacional, com um visual incrível e impecável na atuação.

O que realmente vale destacar em COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES são as sequências de aventura e ação. Há uma maravilhosa perseguição de carros pelas ruas de Tóquio, temos um combate no ar envolvendo vários helicópteros que é uma belezura, e o longo clímax, uma batalha épica e deflagradora num cenário colossal (mas com excelente uso de miniaturas e bonequinhos como figurantes) entre os capangas da SPECTRE e o grupo ninja de Tiger Tanaka, com muitas explosões e alta contagem de corpos. Mesmo cenas de ação menores são muito bem realizadas: a fuga de Bond no porto encarando dezenas de capangas com tiros e pontapés possui um moderno trabalho de câmera. Há uma pancadaria entre o nosso herói e um japonês brutamontes quebrando tudo num escritório que é massa. E ainda temos Bond encarando o braço direito de Blofeld, Hans, vivido pelo meu xará Ronald Rich, aos arredores de uma piscina repleta de piranhas. Emoção pura!

No elenco, algumas figurinhas que sempre estiveram presentes até aquele momento na série, como Bernard Lee vivendo ‘M’mais uma vez, assim como Louis Maxwell e Desmond Lewelyn retornam, respectivamente, como Moneypenny e ‘Q’. E há uma participação rápida e curiosa de Charles Gray, como um contato de Bond no Japão que não demora muito para ser eliminado. Só que o ator retornaria à série em OS DIAMANTES SÃO ETERNOS como Blofeld (o personagem faria uma radical mudança facial).  

No geral, COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES é uma brincadeira divertida, com ótimos cenários (de Ken Adam), cenas de ação espetaculares, efeitos especiais que impressionam ainda hoje, um vilão maravilhoso (que infelizmente aparece muito pouco, EU QUERIA MAIS PLEASENCE!!!) e uma das melhores trilhas de John Barry (o tema cantado por Nancy Sinatra é muito bom), o que torna sempre um prazer revisitar…

E se GOLDFINGER iniciou a tendência de aventura pitoresca nos filmes de Bond e CHANTAGEM ATÔMICA levou esse conceito a um nível muito maior e mais complexo, COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES continua a idéia e a torna ainda mais exagerada. Mas a progressão continua, a ação galhofeira que temos aqui nem é tão absurda assim em comparação com o que ainda estava por vir na série…

MIAMI CONNECTION (1987)

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Na época do seu lançamento, em meados dos anos 80, MIAMI CONNECTION passou batido. O longa foi um fracasso de bilheteria em meio a tantos filmes de ação de qualidade que o período nos proporcionava e acabou no limbo, onde permaneceu por mais de duas décadas. Y. K. Kim, que era um famoso instrutor coreano de Taekwondo que vivia em Orlando, Flórida e idealizador do projeto, quase chegou a falir com essa produção.

O sujeito escreveu o roteiro, produziu, dirigiu algumas cenas e atuou como um dos protagonistas – mesmo falando um inglês horrível. Em 2012, a Drafthouse Cinemas, sabe-se lá porque, resolveu redistribuir o filme, a recepção foi extremamente positiva e ganhou fanáticos seguidores.

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O que fez MIAMI CONNECTION ressurgir das cinzas para se tornar cult entres os fãs de filmes de ação e artes marciais, é algo que eu não tenho a mínima condição de explicar de forma racional. Mas finalmente eu me deparei com a obra, algo que já vinha adiando há algum tempo e agora posso, ao menos, especular as razões de seu culto.

Trata-se de um filme vagabundo, realizado à toque de caixa com péssimas atuações e um roteiro ingênuo e moralista que parece ter sido escrito por um pré-adolescente aficionado por filmes de luta, synth rock, ninjas e toda uma iconografia enraizada nos anos 80, mas sem qualquer noção da representação dramática das emoções humanas… Onde raios eu estou com a cabeça? Quem se interessa por dramaturgia quando temos uma gangue de NINJAS MOTOQUEIROS TRAFICANTES DE DROGAS encarando uma banda musical de lutadores de Taekwondo? Sim, MIAMI CONNECTION é uma porcaria em vários sentidos, só que o filme possui toda uma combinação de elementos desastrosos que resulta num universo muito particular dentro do gênero de ação e artes marciais e que, de alguma maneira, acaba em pura diversão cinematográfica.

Y. K. Kim, celebrando o resgate de “Miami Connection”.

A trama gira em torno de uma banda de synth rock chamada Dragon Sound, composta de amigos órfãos que lutam taekwondo e possuem etnias diferentes entre si; temos um italiano, um irlandês, um coreano, um negro, e por aí vai… Ou seja, é um filme com pluralidade inclusiva. Quando um deles começa a namorar uma mocinha, o irmão ciumento dela, que por acaso é o líder de uma perigosa gangue, acaba virando uma pedra no sapato da banda que, por este e outros motivos, entra numa guerra envolvendo traficantes de drogas e motociclistas ninjas.

É um filme muito bobo, para dizer o mínimo, que acaba tendo sua graça com seu humor involuntário, situações esdrúxulas, mas também porque não economiza em ação. Muita ação mesmo.

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A maioria delas se resume em sequências de pancadaria, onde o pequeno grupo que forma a banda (uns cinco sujeitos ao todo) encara sempre um número bem maior de oponentes. A coreografia não é nenhum primor, mas também não é de se jogar fora. E há alguns momentos sangrentos aqui e ali.

Dentre os heróis da trama, Y. K. Kim se destaca demonstrando boa habilidade na encenação das lutas. Tudo o que lhe falta em talento como ator, diretor, roteirista e seja lá mais o que tenha feito em MIAMI CONNECTION, ele esbanja competência nas cenas de luta, no uso do corpo, em movimentos que ficam bem na tela. É seu único trabalho no cinema.

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Lá pelas tantas, resolve-se criar um arco dramático com um dos personagens, Jim, que descobre que tem um pai. A coisa atinge um nível constrangedor. Há uma cena, em que Jim faz um monólogo em um longo plano, com a câmera estática, que é nível de teatrinho do ensino médio.

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Mas é o que acrescenta uma dose a mais de dramaticidade na sequência de ação final. Uma batalha difícil de definir e que acaba ficando entre algo de enternecedor e a falta de noção dos realizadores. Um troço tão ridículo e tão fascinante, tudo ao mesmo tempo.

O filme foi dirigido por Woo-Sang Park (de LOS ANGELES STREETFIGHTER, outro petardo do período), mas quando Y. K. Kim assistiu ao primeiro corte de MIAMI CONNECTION, não gostou muito do resultado. Resolveu que queria filmar mais algumas cenas para dar uma melhorada. Só que a essa altura, Park já não estava disponível e Kim meteu a mão na massa e dirigiu o que bem quis para melhorar o filme, e que acabou por ser a versão final. E se esta versão aqui ele achou que ficou boa, imagino o que deve ter sido a versão que ele achou ruim. Enfim…

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Mas acima de tudo, MIAMI CONNECTION possui uma boa energia, um típico exemplar feito com muito entusiasmado e por pessoas que claramente se divertiram muito fazendo (grande parte do elenco é formado pelos alunos de taekwondo de Kim). Só não sei se tudo isso que foi escrito aqui é suficiente para justificar o culto que surgiu pra cima do filme entre os fãs do gênero nos últimos anos. Mas ele merece ser visto, especialmente acompanhando de alguns malucos que curtem esse tipo de tralha, com algumas latinhas de cerveja, num domingo à tarde e chuvoso. Não existe programa melhor!

Os membros da “Dragon Sound”, reunidos novamente.

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Texto originalmente escrito e publicado no Action News.

ESCALADO PARA MORRER (1975)

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Não sei o que rolou na concepção do roteiro de ESCALADO PARA MORRER (The Eiger Sanction), quarto filme dirigido pelo Clint Eastwood, mas a impressão que dá é que pegaram três histórias diferentes, não conseguiram resolver nenhuma delas, e decidiram transformar tudo em um filme só, colando cada pedaço com fita adesiva… O resultado é uma bagunça, uma salada maluca que mistura ação, espionagem e aventura de alpinismo, com cenários, ritmos e tons completamente diferentes entre si. Se me dissessem que se trata de um roteiro abortado pra um 007 do Roger Moore, eu acreditava… Embora eu saiba que se trata de uma adaptação de uma novela de Rod Whitaker, que também ajudou a escrever o roteiro.

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Não quer dizer também que o filme seja um desastre completo. No meio da bagunça há muita coisa boa em ESCALADO PARA MORRER, um dos filmes mais físicos de Clint, que oferece a si mesmo um papel não muito simpático de um assassino profissional alpinista. Dá a Clint a oportunidade de se colocar em algumas impressionantes sequências de escalada, que são a principal razão do filme existir, é o que une os três blocos que formam a narrativa e que se destacam por sua diversidade e diferentes abordagens estéticas.

Na trama, Clint se passa por um professor de arte chamado Jack Hemlock, viciado em colecionar obras pintadas por grandes mestres da história da arte, mas logo se vê retornando para sua verdadeira vocação de assassino da CIA, hoje aposentado, quando é convencido pelo seu ex-chefe, o Sr. Dragon (Thayer David), um albino que não pode suportar a menor exposição à luz solar e precisa de cuidados médicos diários (típico personagem de um Bond Movie). A missão de Hemlock é matar dois sujeitos que estiveram envolvidos no assassinato de um agente americano, grande amigo de Hemlock, que lhe salvou a vida em uma ocasião. E sua participação na missão é essencial por envolver escaladas de montanhas, algo que o protagonista costumava ser muito hábil. O maior problema, no entanto, é justamente a tal montanha na qual ele deve escalar: a Eiger, de 3.970 metros de altitude, na Suíça, e que Hemlock já havia tentado escalar duas vezes e fracassado em ambas, quase perdendo a vida. Dureza.

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A primeira parte de ESCALADO PARA MORRER adota um visual típico de filme de espionagem (um pouco como em FIREFOX, outro filme que tem elementos do gênero, que Eastwood viria a dirigir nos anos 80). O personagem de Clint vai parar na Europa onde precisa exterminar seu primeiro alvo, um espião do serviço secreto russo. A imagem desse primeiro bloco é fria, acinzentada, bem diferente do cenário do bloco central do filme: Clint vai para o calor do espetacular Monument Valley para entrar em forma e treinar alpinismo ao lado de seu velho amigo George Kennedy (e de uma bela nativa que incentiva o personagem de Clint a continuar seu treinamento de maneira bastante entusiasmante…). E é onde também encara um de seus nêmesis, Miles Mellough, vivido brilhantemente por Jack Cassidy.

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Esse esforço todo é para a missão que acontece no último bloco, quando Clint precisa escalar a perigosa Eiger, nos Alpes suíços, com três outros companheiros, sendo que um deles é o seu alvo. Só que ele não sabe quem deve matar, a informação deverá chegar a qualquer momento durante a subida. Portanto, eles escalam a montanha…

Só que a intriga rapidamente entra em segundo plano. Eastwood parece mais interessado em filmar seus personagens o mais próximo possível dos cenários impressionantes e reais durante o ato de escalar. O próprio Clint não utiliza dublê em boa parte das sequências e podemos ver o sujeito em grandes alturas pendurado por algumas cordas… Funciona. No meio de toda patuscada que é o roteiro, temos um espetáculo de imagens dos Alpes e vários momentos que são verdadeiras aulas de tensão. A cinematografia é ótima, especialmente durante essas sequências climáticas de escalada, que acaba sendo o destaque definitivo do filme. E temos ainda um John Williams arrebentando na trilha sonora, o que deixa tudo ainda mais divertido.

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No geral, o filme não é muito memorável, mas é interessante observar como Clint resolve visualmente essa aventura, mesmo trabalhando com um roteiro tão capenga. As sequências de escalada são certamente algumas das melhores coisas que o suejeito já filmou na vida. Impressionantes para a época e ainda funcionam lindamente hoje. Obviamente as pessoas mais sensíveis às tendências atuais de problematizar qualquer coisa fora do lugar não vão deixar de reclamar de certas posturas machistas do personagem de Clint. Fruto de sua época… Até existe uma certa vulgaridade e cinismo em Hemlock, que é tipo de coisa que deixa tudo mais engraçado… Mas não vou ficar entrando nesse mérito. Realmente não me interessa.

007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA (1965)

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Após o sucesso de GOLFINGER, a febre do espião 007, James Bond, estava nas alturas. O crescente êxito comercial da série obviamente estava destinado a um quarto filme e a escolha foi a adptação do romance Thunderball, que Ian Fleming, o criador do personagem, escreveu no início da década de 60, que já era, na verdade, uma adaptação meio polêmica que gerou um enrolado processo judicial. O problema é que os roteiristas Kevin McClory e Jack Whittingham alegavam que Fleming havia baseado seu romance num script que os três escreveram em conjunto para a primeira tentativa frustrada de dar vida a James Bond na tela grande ainda nos anos 50.

Isso não faz muita diferença pra 007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA (Thunderball) no fim das contas. Mas no início da década de 80, a dupla conseguiu os direitos da história e acabou fazendo a sua versão, um remake chamado NUNCA MAIS OUTRA VEZ, com Sean Connery reprisando seu papel como 007… Pela última vez. O filme acabou não sendo considerado como exemplar oficial da saga Bond, pois os produtores Albert R. Broccoli e Harry Saltzman, que vinham produzindo a série, não tiveram nenhum envolvimento. E este aqui, que era para ter sido, à princípio, o filme de estreia da série, acabou sendo o quarto.

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Em 007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA, Bond (mais uma vez interpretado por Sean Connery) é enviado às Bahamas para recuperar duas bombas atômicas da OTAN que foram roubadas pela organização terrorista SPECTRE, cujas intenções é usá-las para destruir uma grande cidade nos Estados Unidos ou no Reino Unido caso suas demandas não sejam atendidas. Uma verdadeira… chantagem atômica!

Em Nassau, Bond fica frente à frente com o agente “número Dois” da SPECTRE, Emilio Largo (Adolfo Celi), que está por trás de toda a pilantragem do roubo das bombas. Durante as investigações e investidas e escapadas de seus inimigos, Bond também encontra tempo para dar umas beijocas na amante de Largo, Domino (Claudine Auger), que ainda não sabe que o facínora havia tirado a vida de seu irmão, membro da equipe de transporte aéreo das ogivas roubadas. Um bocado de ação, explosões, pancadria e perseguições, o filme culmina em uma impressionante sequência de batalha subaquática na qual Bond une forças com um grupo de Navy SEALs para encarar os homens de Largo e recuperar as ogivas.

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Tudo em 007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA foi intencionalmente expandido na tentativa de ser mais grandioso, mais épico, que os filmes pregressos da série (teve um orçamento maior ainda que o de GOLDFINGER): mais cenários, mais atores, mais explosões, mais tudo. Maior não é necessariamente melhor, é claro, e há momentos em que o filme parece se afundar naquelas águas caribenhas com o seu próprio peso. As suas mais de duas horas de duração entregam tanto momentos espetaculares de suspense e ação quanto sequências de marasmo total…  Mas não há como negar que o filme é visualmente impressionante e seus momentos mais movimentados compensam as cenas chatinhas.

Os pré-créditos, por exemplo, que envolvem um funeral, uma briga com um homem vestido de mulher e uma fuga utilizando um jetpack é um desses momentos mágicos que guardo na memória desde a primeira vez que assisti ao filme no SBT quando ainda era moleque. O final, além da épica batalha subaquática, ainda tem uma luta maluca e frenética entre Bond e Largo dentro de seu barco em alta velocidade que é incrível também… E no meio disso tudo, várias sequências que fazem de 007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA memorável.

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O tom exagerado e os excessos da fantasia do cinema de ação tão característicos da série e que começaram a criar forma em GOLDFINGER se tornam ainda mais proeminentes e expostas por aqui. Terence Young, que dirigiu os thrillers de espionagens mais sérios e realistas com o personagem, que são os dois primeiros exemplares de 007, retorna pela última vez no comando de um Bond movie e também entra na dança trabalhando a ação de forma lúdica e exagerada, com sequências que abusam dos equipamentos tecnológicos de Q e outros momentos excêntricos como Bond ficando preso numa piscina cheia de tubarões, ou a grandiosa execução do roubo das ogivas nucleares e a extravagante batalha subaquática… São tantos momentos cuidadosamente produzidos que o filme acabou ganhando o Oscar de melhores efeitos especiais.

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Como sempre, Sean Connery é magistral como Bond, ainda que seu desempenho comece a dar indícios de cansaço. A essa altura, Connery era um dos astros do cinema mais famosos do mundo e a repetição com o personagem parece ter diminuído um pouco seu entusiasmo. Não foi à toa que o sujeito foi se arriscar em projetos de diretores como Hitchcock e Sidney Lumet. Adolfo Celi como Emilio Largo é um grande vilão, meio subestimado, mas que consegue lançar um espectro ameaçador em toda as suas cenas.

Ainda no elenco, Claudine Auger faz uma bond girl adorável, assim como a mortal Luciana Paluzzi. Rik Van Nutter interpreta o agente da CIA/amigo de Bond, Felix Leiter, o terceiro dentre tantos atores que desempenharam o papel ao longo das décadas. Desmond Llewelyn, como sempre, rouba as atenções como Q, e Lois Maxwell (Miss Monneypenny) e Bernard Lee (M) são presenças reconfortantes nas cenas de Londres.

A música tema, uma das minhas favoritas da série, desta vez é cantada por Tom Jones.

Ainda prefiro GOLDFINGER e MOSCOU CONTRA 007, mas 007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA é dos obrigatórios Bond movies com o Connery.

007 CONTRA GOLDFINGER (1964)

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Se existe um filme da série 007 que se qualifica como um clássico imortal, este filme é 007 CONTRA GOLDFINGER (Goldfinger), de Guy Hamilton. Terceirto capítulo da série sobre o espião à serviço secreto da coroa britânica, James Bond, ganhou importância para a franquia porque, de certa maneira, foi o exemplar que estabeleceu uma ideia, para a maioria das pessoas, sobre o que de fato é um filme de James Bond.

007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO, o primeiro, que apresentou o personagem e sua famosa música tema, e MOSCOU CONTRA 007, o segundo, eram basicamente thrillers de espionagem ao espírito dos livros escritos por Ian Fleming, enraizado mais em intrigas palpáveis e de contextos reais, como a Guerra Fria. GOLDFINGER pegou elementos essenciais desses dois e deu um toque especial. Construiu um ícone maior que a vida, apresentou várias marcas registradas e tudo o que torna o personagem tão reconhecível e memorável.

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É aqui que começam também a explorar os limites entre a realidade e os excessos da fantasia do cinema de ação, uma das principais características da série. Um exemplo temos logo no início, quando Bond enxerga, através do reflexo da íris de uma moça, um bandido espreitando por trás prestes a atacá-lo. PELO REFLEXO DA ÍRIS!!! É pra isso que o cinema foi inventado… Temos também o famoso capanga que arranca a cabeça de estátuas arremessando seu chapéu-côco forrado de aço… Praticamente uma história em quadrinhos.

Depois disso, os filmes de Bond não se levaram muito a sério e, pessoalmente, fico feliz que isso tenha acontecido. Parte do que torna a série 007 tão fascinante pra mim é exatamente o tom exagerado, uma fórmula que começaram a desenvolver por aqui em GOLDFINGER. Uma fórmula que não vemos em DR. NO ou MOSCOU CONTRA 007

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Na trama, a preocupação com a estabilidade dos preços do ouro ao redor do globo coloca James Bond (mais uma vez interpretado por Sean Connery) na trilha de um contrabandista internacional de ouro, o excêntrico Auric Goldfinger (Gert Fröbe). Tendo encontrado o sujeito pela primeira vez em um hotel em Miami, Bond está ciente de que o homem é um adversário peculiar e muito perigoso. Goldfinger revela ser obcecado por duas coisas: ouro e levar vantagem a qualquer custo, seja numa partida de golfe ou até mesmo num amigável jogo de cartas à beira da piscina de um hotel.

Em relação ao “perigoso”, Bond descobre do pior jeito: Goldfinger não demonstra muito remorso em matar sua acompanhante quando ela o trai com o espião. Acaba assassinada de maneira única, asfixiada com seu corpo completamente coberto com tinta dourada. Uma das imagens clássicas da franquia.

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Bond visita Q, interpretado por Desmond Llewelyn, que ficou famoso entre os fãs da série por fazer esse personagem durante décadas. Suas engenhocas tecnológicas acabaram se tornando elemento essencial da franquia. E é aqui que Bond é apresentado pela primeira vez ao Aston Martin, seu veículo oficial e que utiliza logo em seguida para ficar na cola de Goldfinger. Ao se infiltrar em um complexo do vilão, Bond descobre o método engenhoso que seu adversário contrabandeia grandes remessas de ouro. Também descobre que Goldfinger tem algo maior planejado, uma operação com o codinome Grand Slam. Mas antes que ele possa sair do local, 007 é capturado. Só mais tarde ele realmente descobrirá quão grandioso é o Grand Slam

Mais momentos clássicos: Bond capturado, é amarrado a uma mesa com um cortador a laser em direção à sua “arma mais preciosa”. Como a cena do corpo coberto de tinta dourada, essa é outra das mais icônicas de toda a franquia. A paródia/homenagem dos Simpsons, no episódio You Only Move Twice, é evidência de seu poder na cultura pop.

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Tudo parece funcionar em GOLDFINGER – os personagens; o roteiro com um equilíbrio quase perfeito de humor irônico e convenções do thriller de espionagem, carregados de diálogos incríveis; o ritmo; a música tema de Shirley Bassey e John Barry… Continua sendo uma aventura atemporal, com o espião cínico, malandrão e mulherengo que adoramos. Claro, Bond dos anos 60 é um dinossauro sexista e misógino para os padrões chatos de hoje, mas Sean Connery é cool o suficiente para se safar. Falando nisso, não dá pra esquecer a bela Pussy Galore. Basta esse nome para garantir que seu papel seja lembrado entre a maiores Bond Girls. Mesmo com tão pouco tempo em cena…

Temos Goldfinger, um dos melhores vilões de toda a série, e seu capanga, o brutamontes Oddjob, o tal com o chapéu letal, que dá uma canseira ao nosso herói. A sequência de luta entre ele e Bond nas entranhas do depósito de ouro em Fort Knox é um dos grandes momentos do filme.

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Aliás, as cenas de ação de GOLDFINGER são de alto nível. O diretor Guy Hamilton era desses que sabia criar um bom espetáculo no gênero, com destaque para a perseguição de carros pelos bosques e no complexo de Goldfinger, no qual Bond utiliza vários acessórios que Q preparou em seu Aston Martin. E obviamente o deflagrador final, um tiroteio explosivo de grandes proporções e alta contagem de corpos. Hamilton voltaria a dirigir mais três exemplares do espião: 007 – OS DIAMANTES SÃO ETERNOS, COM 007 VIVA E DEIXE MORRER e 007 CONTRA O HOMEM COM A PISTOLA DE OURO. Esses dois últimos com Roger Moore no papel de Bond.

Todos esses elementos se combinam para tornar GOLDFINGER um clássico do cinema de ação e dos melhores e mais influentes filmes da série 007. Mesmo não sendo o meu favorito… Que aliás, não sei ainda exatamente qual é. Talvez A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE, ou O ESPIÃO QUE ME AMAVA, ou A CHANTAGEM ATÔMICA, que mal lembro, mas que me marcou muito quando era moleque… Enfim, comecei a rever novamente a série depois de uns vinte anos e até o final dessa “retrospectiva” eu descubro qual é o que mais gosto. Se calhar, acaba sendo mesmo GOLDFINGER. Sem dúvida vai estar entre os primeiros.

Os outros filmes do espião já comentados aqui no blog:

007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO
MOSCOU CONTRA 007

[CAGESPLOITATION] 211 (2018)

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211 começa com uma longa sequência no Afeganistão, mostrando um fraudador emboscado por um grupo de mercenários que exige um pagamento de alguns milhões de dólares. Daí inicia um monte de lenga-lenga envolvendo uma investigação da Interpol para pegar os mercenários… E há ainda uma subtrama já nos EUA com o policial vivido por Nicolas Cage, sua filha grávida e o seu genro, também policial, se preparando para a paternidade.

Demora uns bons vinte minutos antes que tudo isso se conecte e a história oficial de 211 comece a tomar forma: Um adolescente entra em uma briga na escola e, como punição, é enviado para fazer uma ronda junto com uma dupla policial, Cage e seu parceiro, que é justamente seu genro. Andam de um lado para o outro dentro da viatura até que os mercenários tentam assaltar um banco onde o fraudador do início do filme escondeu a grana. E os primeiros a chegarem ao local é jutamente o trio.

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Um monte de personagens e subtramas vão surgindo e se amontoando a partir daí e nada de Nicolas Cage realmente demonstrar seus talentos… Na verdade, leva un dez minutos para ele aparecer na tela pela primeira vez e quando diz sua primeira linha de diálogo, o filme já está bem adiantado. Quando finalmente rola o assalto e pega Cage, seu genro e o garoto no fogo cruzado, a coisa melhora um bocado, a ação é intensa e temos muito Cage trocando tiros com os mercenários. Mas o filme nunca consegue ajustar o foco e 211 acaba parecendo mais um piloto para uma série de TV abarrotado de personagens cujo interesse por parte do público é zero. Talvez se tivéssesmo um enredo mais centrado em Cage, o resultado fosse melhor…

Para quem estiver só interessado num filmeco de ação de baixo orçamento sem grandes pretensões, 211 até que diverte, tem bastante tiro e explosões filmadas com uma competência que me surpreendeu. Sequências como a da explosão da cafeteria e vários momentos das trocas de tiro entre a policia e os mercenários dão a impressão de uma produção bem mais abastada. A direção é de um tal York Shackleton… nunca ouvi falar. Já os admiradores de um Cagesploitation podem acabar saindo da sessão desapontados. Só para não perder viagem, há um breve momento que o sujeito entra no modo Crazy Cage, soltando uns berros surtados, que vai fazer qualquer fã do homem abrir um sorriso. Não é muito, mas já é alguma coisa…

ATOS DE VIOLÊNCIA (2018)

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A trama de ATOS DE VIOLÊNCIA é sobre três irmãos, um deles é Roman (Ashton Holmes), que está prestes a se casar com sua namorada, Mia (Melissa Bolona). Quando ela é sequestrada por traficantes de escravas durante sua festa de despedida de solteira, Roman pede a ajuda aos outros dois irmãos, militares veteranos (Cole Hauser e Shawn Ashmore), para recuperá-la.

Bruce Willis aparece em cena como um detetive especializado neste tipo de caso, tentando derrubar esses traficantes, mas obrigado a fazer tudo debaixo da lei, embora saiba que está de mãos atadas por conta do sistema corrompido. A capa do DVD até dá aquela destacada para Willis, vocês sabem, é o único famoso do elenco, então já colocam a cara dele na capa para atrair público. Mas uma coisa que gostei em ATOS DE VIOLÊNCIA é como o roteiro encontra uma maneira orgânica de trabalhar com o velho Bruce na história. Seu papel pode ser pequeno, mas pelo menos ele tem um personagem digno e com alguns momentos para relembrar seus dias de action hero. Apesar disso, Willis esteve no set por apenas um dia para gravar suas cenas, a maioria delas sentado atrás de uma mesa, embora nem dê pra sentir muito isso… hehe!

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Não pode faltar o famoso biquinho…

Já a história central, que envolve os três irmãos, até que me prendeu. Algumas atuações são horríveis e exageraram na dose de situações dramáticas piegas, mas curti a ideia dos irmãos badasses, com treinamento militar, tendo que utilizar suas habilidades num ambiente urbano. Destaque para Cole Hauser, figura já conhecida para quem aprecia filmes de ação DTV (recomendo especialmente THE HIT LIST, com Cuba Gooding Jr.), fazendo um personagem mais complexo, veterano de guerra sofrendo de estresse pós-traumático. Também é legal ver Mike Epps, mais conhecido por fazer comédias, encarnando o sádico e perigoso chefão da operação de tráfico de escravas.

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Alguns problemas de roteiro aqui e ali, fórmulas batidas e clichezentas suficientes para espantar o “cinéfilo brioche”, mas o filme até consegue entregar o que promete para os admiradores de um decente thriller de ação de baixo orçamento. As sequências de ação, por exemplo, se não são expressivas, ao menos são filmadas com certa competência e clareza. A direção é de um tal Brett Donowho… Nunca ouvi falar, mas o cara já tem algumas coisinhas no currículo. Alguém mais corajoso pode desbravar se tiver interesse.

ATOS DE VIOLÊNCIA é daquele jeito: não tem pretensão alguma de ganhar prêmio, mas é uma maneira divertida que um fã de ação sem grandes expectativas pode encontrar para passar 86 minutos de sua vida. Foi lançado em DVD no Brasil pela A2 Filmes, pelo selo Flashstar.

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PREMONIÇÃO (2005)

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PREMONIÇÃO até que é um suspense bem decente levando em conta o orçamento risível que teve, uma premissa preguiçosa e recheado de clichês, o elenco medíocre e os efeitos especiais toscos… Mas se as expectativas não forem muito altas e o espectador conseguir ignorar esses detalhes negativos e quiser assistir apenas um thriller vagabundo sem grandes pretensões, dá pra se divertir um bocado com essa tralha num sabadão…

A trama é basicamente uma variação de A HORA DA ZONA MORTA, aquela maravilha de David Cronenberg, com o Christopher Walken, baseado em Stephen King. Mas aqui temos Casper Van Dien como protagonista – um desses atores promissores dos anos 90 (pra mim sempre será o eterno Johnny Rico de TROPAS ESTELARES) que acabou relegado ao universo dos filmes de ação/terror lançados diretamente no mercado de vídeo. O sujeito interpreta Jack Barnes, um detetive que acaba tendo uma experiência de quase-morte no cumprimento do dever, durante uma perseguição de carro que acaba de forma trágica… E que a produção faz uso de stock footage, ou seja, utilizam imagens de uma perseguição de outro filme mais abastado – que eu não consegui identificar qual era – porque fica bem mais barato que filmar a própria sequência… É esse o nível da produção que temos aqui. hehehe!

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Bom, o fato é que Barnes volta à vida e agora passa a ter premonições de desastres que estão prestes a acontecer na cidade. Um vagão do metrô que descarrilha, o subsolo de um edifício que explode por causa de um vazamento de gás… E por aí vai. E à medida em que precisa lidar com esse dom, ou maldição, Barnes corre contra o tempo para tentar evitar as catástrofes que prevê, ao mesmo tempo em que investiga uma possível conexão desses desastres com um grupo terrorista (que no início do filme invade uma fábrica usando máscaras de George W. Bush… What a fuck?).

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Em momento algum o filme faz questão de dar algum sentido ou explicação sobre o fato do protagonista começar a ter essas visões, exceto pela experiência de quase-morte. Em determinado momento, o personagem conhece outro sujeito que teve a mesma experiência e, pimba, passou a ter visões. Então, ao que parece, uma experiência de quase-morte é suficiente para virar o próximo Nostradamus. Enfim, Barnes apenas passa a ter essas visões e pronto. Por mim, tudo bem, a última coisa que quero num filme desse tipo é ficar pensando em explicações lógicas.

A maior parte do filme seguimos os passos de Barnes nessa confusão, o que ajuda a manter o interesse, porque Van Dien até que apresenta um bom desempenho, consegue sergurar o tipo de obra que é PREMONIÇÃO. O restante do elenco é ruim de doer e alguns diálogos são terríveis. As cenas de ação são bem filmadas, com exceção da tal perseguição de carro com imagens de outro filme, que é uma bagunça (poucos sabem fazer esse tipo de “colagem” como um Jim Wynorski), mas a maioria das sequências mais excitantes são tiroteios que, se não chegam ao nível de um Michael Mann, ao menos são simples, secos e sem frescuras. O diretor é um tal Jonas Quastel, um canadense que já tem vários pequenos filmes de gênero lançados em “vídeo”.

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Não é um Michael Mann, mas tá tudo bem…

Mas o grande barato de PREMONIÇÃO são os efeitos especiais toscos e baratos. Capazes de revirar o estômago do espectador mais exigente, vulgo “cinéfilo brioche”, mas pra mim são as melhores partes do filme, renderam boas risadas. Especialmente a sequência final envolvendo um helicóptero em CGI ridículo e a cena do desastre no metrô, que é impressionante de tão mal feita.

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PREMONIÇÃO não merece um texto maior que este. Ficamos por aqui. Pode parecer um completo desastre, como nas visões do protagonista, mas definitivamente não é um filme ruim se você assistir com poucas expectativas. Tem disponível no Brasil em DVD.