DRACULA (1931)

Revi o DRACULA do Tod Browning, estrelado pelo grande Bela Lugosi. Nunca fui grande fã desta versão e cheguei a comentar no início do texto que fiz sobre FRANKENSTEIN, de James Whale, há alguns meses, que “FRANKENSTEIN sempre me pareceu bem mais avançado e moderno, resistindo mais ao teste do tempo. Posso ver e rever que não me canso. Já o filme de Browning… Não que eu não goste de DRACULA, que também tem sua inegável importância para o gênero, mas não me encanta tanto quanto outros exemplares de horror do período.

Bom, eu era jovem e não sabia de nada quando vi DRACULA nas primeiras vezes. E ainda não sei muita coisa. Mas revi agora em blu-ray e, pronto, foi dessas revisões que muda tudo. Daí que sempre ressalto a importância de rever determinados filmes. Estes não mudam, mas a nossa sensibilidade sim. E ao longo do tempo obras que achamos menores acabam se revelando maravilhas do cinema. Como é o caso de DRACULA.

Pode-se dizer que trata-se da primeira versão oficial levada para as telas do romance de Bram Stoker, considerando que NOSFERATU (22), de Murnau, seja a versão pirata do romance. Essa história todo mundo conhece, os caras não compram os direitos de adaptação do livro, e mesmo assim seguiram em frente achando que ninguém ia se importar. O filme é maravilhoso, mas a rapaziada se ferrou. Mesmo com todas as diferenças em relação ao material original, não teve jeito… A viúva de Stoker chegou a processar e ganhar uma ação contra o estúdio alemão, mas acabou não recebendo nada, porque a produtora faliu…

Enfim, quem acabou adquirindo os direitor foi a Universal. Mas depois de tanto escreve e reescreve de quase uma década, o roteiro de DRACULA acabou tomando como ponto de partida uma peça de teatro da Broadway, que havia sido um enorme sucesso. E essa decisão talvez tenha sido a mais importante. A estrutura complexa do romance de Bram Stoker nunca foi muito propícia à adaptações e praticamente todas as versões pra cinema do livro suprimem vastos trechos da bagagem detalhada que Stoker usa na sua narrativa.

Por outro lado rolou um custo criativo nesta decisão que fez com que o filme ganhasse tantos detratores. O lance é que o roteiro herdou estratégias narrativas que vinham das origens teatrais do material. Isso é evidente na natureza desequilibrada do filme. Os primeiros vinte minutos de DRACULA, que transcorrem na Transilvania progridem num ritmo legal, é bem mais dinâmico, que vai sempre se renovando esteticamente, explorando cenários, praticamente tudo aqui é clássico, icônico. Mas no momento em que a ação muda para Londres, o filme dá uma desascelerada e imputa seus princípios teatrais… Mas, olha, confesso que não tive problema algum com isso nessa revisão.

Até porque a direção de Browning e o trabalho de câmera atmosférico de Karl Freund (com sua bagagem vinda do expressionismo alemão) mantém sua força. Gosto bastante também dos diálogos e os atores estão ótimos. É bom lembrar que apesar desse material ter sido readaptado, imitado e parodiado tantas vezes ao longo dos anos, aqui temos a origem de tudo. É curioso ver os perosnagens discutindo as coisas pela primeira vez antes de se tornarem clichês. E temos algumas sequências bem legais, como os duelos travados entre Van Helsing (Edward Van Sloan) e o Conde Drácula. Uma das melhores é quando o famoso caçador de vampiros percebe que o conde não está refletindo sua imagem num pequeno espelho de um porta-charutos.

E obviamente algo que se destaca e ainda nos fascina acima de tudo é termos a presença deste ator magnífico em cena que é BELA LUGOSI. Muitos atores ao longo da história viveram o personagem, mas nenhum como Lugosi, com seu forte sotaque e um magnetismo bizarro, o sujeito realmente capturou o poder do personagem e acabou sendo um pioneiro em filmes de terror, deu o tom para a maneira como os vampiros foram percebidos pelo público nos anos seguintes. E foi uma diferença gritante entre o vampiro de NOSFERATU, o Conde Orlok, vivido por Max Schreck, uma criatura repulsiva de se olhar, do Dracula de Lugosi, um esbelto e educado aristocrata que tem a possibilidade de transitar livremente pela sociedade, pelo mundo dos mortais, para satisfazer seu desejo de sangue.

O vampiro de Lugosi dependia de sua própria personalidade e estilo de atuação imaginativa para criar um retrato tão distinto na personificação da criatura. O “monstro” que vemos na tela e o vampiro saído das páginas escritas por Stoker fizeram uma combinação perfeita, tornando Lugosi, o ator, e o personagem, Drácula, autênticos sinônimos. Curioso que Lugosi só conseguiu o papel depois que a escolha preferida da Universal havia morrido – Lon Channey, que já havia trabalhado com Browning em diversos filmes anteriores. Lugosi acabou escolhido, mas tinha a vantagem de já ter vivido o personagem na tal peça na Broadway alguns anos antes.

Outra coisa que me chama a atenção e deixa essa segunda metade do filme mais interessante é como em 1931, o diretor Tod Browning já era bastante direto sobre o ato de “chupar sangue” como um eufemismo para o sexo. Browning realizou DRACULA um ano depois que o Código Hays começou a censurar as produções, numa tentativa de “limpar” os filmes. Mas Browning foi capaz de eoncontrar maneiras de driblar os censores em vários momentos, como nas cenas em que Drácula adentra o quarto de Mina à noite e inclina-se sedutoramente sobre sua figura adormecida ou, ainda quando Dracula envolve-a possessivamente em sua capa numa dos gestos mais eróticos do filme.

E há as três esposas de Drácula (e até hoje me surpreende que Browning tenha escapado dessa também), em seus longos vestidos brancos espectrais, pairando sobre Renfield (Dwight Frye, que é outro destaque) no castelo, preparando-se para um banquete… Aliás, como são incríveis todos os planos que envolvem essas três esposas, a forma como Browning realiza composições com esses corpos dentro dos quadros é um trabalho de mise en scène assustadoramente bonito.

Esta versão de Browning continua não sendo a minha favorita sobre o lendário vampiro. Ao longo dos anos tivemos vários exemplares que aprecio mais: o da Hammer, O VAMPIRO DA NOITE (1958), com o Christopher Lee encarnando o personagem; a do Coppola, já nos anos 90, é provavelmente a minha favorita; a do John Badham, DRACULA, de 1979, também é maravilhosa; e até a do Paul Morrissey, BLOOD FOR DRACULA, com Udo Kier fazendo o vampirão é um bom concorrente nessa disputa… No entanto, DRACULA, de Todd Browning, depois dessa revisão, já entra na lista de favoritos, sem dúvidas.

E foi o seu sucesso que encorajou a Universal a produzir e lançar um segundo filme de horror no mesmo ano de 1931, FRANKENSTEIN, dando início em definitivo ao famoso ciclo de filmes de monstro da Universal (depois ainda viria A MÚMIA, O HOMEM INVISÍVEL, O LOBISOMEM e várias continuações de todos esses).

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FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM (1943)

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FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM (Frankenstein Meets the Wolf Man) foi o primeiro dos grandes crossovers de monstros da Universal. O que na verdade faz parte de uma tentativa desesperada de açoitar um cavalo morto. Já que o filme anterior do Monstro de Frankenstein já demonstrava o desgaste da fórmula*. Embora nos anos 40 ainda surgissem coisas interessantes, como O LOBISOMEM, que comentei no post anterior, ou passatempos patetas, como este aqui, que apesar da bobagem inerente da ideia, é um filme que acaba sendo bem mais divertido do que tinha o direito de ser…

*Quando me refiro a “desgaste da fórmula”, falo especificamente dos “filmes de monstros”… Frankenstein, Drácula, Homem Invisível, personagens que ganharam várias continuações na Universal. No entanto, de um modo geral, a Universal continuava fazendo filmes brilhantes de Horror.

Grande parte de FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM é mais uma continuação de O LOBISOMEM do que de FANTASMA DE FRANKENSTEIN. A trama se passa quatro anos após os eventos que levaram a Larry Talbot, o Lobisomem, mais uma vez encarnado por Lon Chaney Jr., à derrocada. Ladrões de túmulos invadem a cripta da família Talbot, acreditando que dinheiro e jóias foram enterrados com o corpo de Larry, mas quando abrem o caixão, com a lua cheia no céu, o Lobisomem volta à vida.

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Alguns dias depois, Larry acorda num hospital em Cardiff, bem longe do local onde estava seu túmulo. Sua surpresa por estar vivo logo dá lugar ao desespero quando percebe a terrível verdade: que não pode morrer. E tudo o que o sujeito quer é exatamente isso, morrer. Portanto, vai à procura de alguém que possa ajudá-lo. Ele encontra a cigana Maleva, a mãe de Bela, o homem que o transformou em um lobisomem no filme anterior. Maleva diz que há alguém que pode ajudá-lo: o famoso Dr. Frankenstein. Só que quando encontram o castelo de Frankenstein, descobrem que os moradores o incendiaram para destruir o Doutor e seu monstro, como vimos em FANTASMA DE FRANKENSTEIN. Mas no local, procurando os diários do cientista, Larry encontra o monstro envolto de gelo, vivo!

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Acreditando que o monstro pode lhe dizer onde os escritos do Dr. Frankenstein estão escondidos – que contêm o segredo da vida e da morte – Larry libera o monstro. Mas não conseguem encontrar os documentos.

Larry não desiste e encontra a filha do Dr. Frankenstein, que eventualmente ajuda a encontrar o diário do cientista. Na sua busca pela morte, Larry acha outro aliado, o médico que o tratou no hospital, o Dr. Frank Mannering, que restaura o laboratório de Frankenstein no castelo demolido para livrar o protagonista de sua agonia, mas os resultados não são exatamente o que Larry esperava.

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O fato de FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM funcionar de certa maneira tem muito a ver com as pessoas talentosas envolvidas na produção. Curt Siodmak havia escrito o belo roteiro de O LOBISOMEM, e mesmo que aqui a coisa não saia tão certo – a história é extremamente forçada e alguns diálogos são terríveis – dá pra perceber que contém algumas idéias interessantes. Roy William Neill era diretor de vários filmes de Sherlock Holmes da Universal e tinha jeito para suspense, para a construção de uma atmosfera gótica e sombria que ajuda a tornar o filme visualmente atrativo.

Além disso, temos mais uma vez Jack Pierce fazendo as maquiagens. As cenas de transformação do Lobisomem, por exemplo, são até melhores do que a do filme anterior do personagem. Tecnicamente, FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM acaba se revelando um filme muito bom, com vários ótimos momentos isolados. A revelação do monstro atrás da parede de gelo é um destaque, assim como o confronto maluco entre os dois personagens título perto do fim… Que poderia ter uma duração um pouco maior. Mas dá pro gasto.

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No elenco, Lon Chaney Jr mais uma vez apresenta uma performance sensível como o trágico Larry Talbot. E Bela Lugosi, depois de tentar o papel de monstro de Frankenstein desde o primeiro filme, lá em 1931, finalmente consegue encarnar o personagem. Não é das suas melhores atuações (ele está muito melhor como Ygor), mas o faz com certa personalidade. Claro, nem parece o mesmo monstro dos filmes anteriores, mas isso acaba não importando… Até porque esses filmes de monstros da Universal não estão nem aí para a lógica. No FANTASMA DE FRANKENSTEIN, por exemplo, haviam colocado o cérebro de Ygor no corpo do monstro. Mas ao acordar aqui, isso é totalmente ignorado e o personagem age como o monstro estúpido de sempre. Como disse, isso pouco importa.

No fim das contas, apesar dos realizadores estarem claramente espremendo as últimas gotas da laranja, FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM é feito com um grau de habilidade que o material talvez nem merecesse… Mas é uma bobagem bem agradável de se assistir.

O LOBISOMEM (1941)

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Tive que acrescentar um adendo à maratona de filmes sobre Frankenstein que venho postando aqui no blog. O Adendo é O LOBISOMEM (The Wolf Man) e vou explicar o porquê. Depois de FANTASMA DE FRANKENSTEIN, o personagem só retorna em FRANKENSTEIN MEETS THE WOLF MAN, que é o primeiro crossover do personagem com outro monstro clássico da Universal. Então, nada mais justo que apresentar este outro monstro e falar um pouquinho deste seu primeiro filme.

Só que estamos falando de um Lobisomem específico, cujo protagonista é Larry Talbot, vivido por Lon Channey Jr. Porque O LOBISOMEM não foi, obviamente, o primeiro filme de lobisomem… Não foi nem o primeiro filme de lobisomem da Universal, que ainda na década de 30 havia lançado THE WEREWOLF OF LONDON (1935). Mas este aqui foi o filme responsável por colocar lobisomens no mapa, definindo o modelo no qual a maioria dos futuros filmes com o personagem seria inspirado.

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Larry Talbot é o segundo filho de um barão inglês, Sir John Talbot (Claude Rains). Como não é o primogênito, não podia herdar a propriedade ou nenhum título e, sentindo que seu pai pouco se importava com ele, fez as malas e se mudou para os Estados Unidos. Como resultado da morte inesperada do filho mais velho de Sir John, tudo mudou. Larry voltou ao seio da família após dezoito anos, embora talvez mais por um vago senso de dever familiar do que por qualquer outra coisa. No entanto, quando Sir John sugere que eles devem esquecer o passado e reatar os laços, Larry aceita sua posição como herdeiro.

Quando Larry conhece Gwen (Evelyn Ankers), o sujeito começa a se sentir mais animado no local. Embora esteja noiva do chefe de guarda de Sir John, a moça também parece demonstrar algum interesse no protagonista. Tudo está indo bem até a fatídica noite em que Larry e Gwen visitam um campo cigano, acompanhado por Jenny, amiga de Gwen, que deseja ler sua sorte. Mas o cigano Bela (Bela Lugosi) fica meio agitado quando olha para a palma da mão dela e vê um pentagrama. Momentos depois, Larry vê Jenny sendo atacada por um lobo e vai salvá-la. Acaba mordido, mas consegue matar o animal. Os únicos corpos encontrados, no entanto, são o de Jenny e de Bela. Nenhum lobo… Bela era, naturalmente, um lobisomem, e agora esse também será o destino de Larry.

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O roteiro original de Curt Siodmak tinha o personagem de Larry como um americano chamado Larry Gill, que não tinha qualquer relação com Sir John Talbot. Ele simplesmente veio à Inglaterra para instalar um telescópio para o velho. Mais importante, essa primeira versão sugeria que Larry simplesmente acreditava que ele era um lobisomem, mas a questão da transformação física ficava ambígua. Ainda há vestígios dessa versão no filme quando Sir John acredita que seu filho está sofrendo de uma ilusão provocada por algum choque, e que o lobisomem é uma metáfora para o lado sombrio da personalidade humana. Uma metáfora que teria se tornado real na mente de Larry.

Embora essa versão tenha ideias interessantes, e de fato é a base para o excelente CAT PEOPLE, de Jacques Tourneur e produzido por Val Lewton no ano seguinte. A Universal, no entanto, tomou a decisão de pedir a Siodmak que reescrevesse o script para tornar o lobisomem um monstro real, sem ambiguidade. Afinal, é o que o público da Universal esperaria. Os filmes de Lewton/Tourneur adotaram uma abordagem diferente de se fazer horror, mas ambas aproximações são válidas à sua maneira.

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Em O LOBISOMEM, Lon Chaney Jr. tem a sua melhor performance. Ele faz de Larry Talbot um personagem dramático e complexo que talvez seja a chave para o grande sucesso do filme. Ele é o mais trágico de todos os monstros da Universal, um homem que não fez nada para merecer seu destino. E Chaney consegue transmitir tudo isso sem recorrer a um sentimentalismo barato. Outro ator que vale destacar é Claude Rains como Talbot pai, excelente como sempre. Bela Lugosi brilha no seu breve tempo na tela, mas é  vergonhosamente subutilizado. Merecia muito mais…

O diretor George Waggner pode não ter sido o realizador mais inspirado do mundo, mas é bom o suficiente para trabalhar os elementos de horror com competência, consegue criar uma atmosfera densa e ainda dá uma boa atenção ao estado psicológico do protagonista. A fotografia e direção de arte se combinam para tornar O LOBISOMEM visualmente aterrorizante, especialmente nas cenas noturnas, nas florestas e pântanos envoltos de névoa, todos cenários construídos em estúdio. Acabam parecendo artificiais, mas num bom sentido, dando ao filme a sensação de um conto de fadas sombrio. E ainda temos a maquiagem de lobisomem criada por Jack P. Pierce (o mesmo da série de FRANKENSTEIN), que mais uma vez torna icônico o visual de um monstro clássico.

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Posso dizer com toda certeza que O LOBISOMEM é um dos grandes filmes de monstro do período e sua estrutura de tragédia grega é fascinante, que funciona maravilhosamente bem como um filme de horror, mas com um impacto emocional maior do que a maioria dos filmes do gênero que a Universal produzia.

FANTASMA DE FRANKENSTEIN (1942)

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FANTASMA DE FRANKENSTEIN (Ghost of Frankenstein) é o quarto filme da série do monstro de Frankenstein que a Universal produziu e, não surpreende em nada, é o mais fraco até então. Mas ainda é divertido por vários motivos.

E uma das coisas que mais me alegra nesses filmes é como os realizadores forçavam a barra na cara dura para continuar a história. Personagens mortos voltam sem qualquer explicação, conveniências caem no colo do espectador, que simplesmente tem que aceitar e se divertir com tanta bobagem. Mas que no fim das contas tem seu charme. FANTASMA DE FRANKENSTEIN, por exemplo, começa quase imediatamente após os eventos de O FILHO DE FRANKENSTEIN, que comentei recentemente. Descobrimos que mesmo cravado de balas, Ygor (Bela Lugosi) sobreviveu. Os moradores da região decidem que queimar o Castelo Frankenstein e matar de vez Ygor é o único jeito de levar paz ao local. Infelizmente, para eles, não apenas falham em matar Ygor, como também ao usarem explosivos no castelo trazem o monstro (agora encarnado por Lon Chaney Jr.), que havia caído num poço de enxofre fervente, de volta à vida.

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Agora, numa dessas demonstrações de que a Universal estava espremendo as ideias forçadas até a última gota, Ygor e o monstro partem para uma cidade vizinha em busca de OUTRO filho do Dr. Frankenstein, o também doutor Ludwig Frankenstein (Cedric Hardwicke), que convenientemente é um especialista em doenças da mente…

Mal chegam ao local e imediatamente começa a confusão. O monstro tenta ajudar uma menina, mas acaba matando duas pessoas da cidade no processo. Acaba preso, mas é claro que a polícia não pode segurá-lo por muito tempo. Depois de escapar, Ygor e o monstro se abrigam na casa de Ludwig, que é chantageado para ajudá-los a tornar o monstro mais forte. Ludwig propõe um plano: substituir o cérebro da criatura por um saudável (lembrando que lá no primeiro filme, o monstro recebe o cérebro de um psicopata). Felizmente, Ludwig tem em mãos o cérebro de seu jovem assistente, convenientemente morto pelo monstro. Só que Ygor tem seu próprio plano, que é utilizar o seu cérebro, e assim ele e a criatura se tornariam um só.

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Bela Lugosi em FANTASMA DE FRANKENSTEIN mais uma vez rouba a cena interpretando Ygor. O desempenho um bocado sem vida de Cedric Hardwicke como Ludwig Frankenstein e o monstro inexpressivo de Lon Chaney Jr, que não consegue substituir Boris Karloff à altura, facilita para que Lugosi se destaque. O sujeito estava ainda em plena forma e o roteiro faz seu personagem dominante, da mesma maneira que em O FILHO DE FRANKENSTEIN. Lionel Atwill – que fez outro papel no filme anterior – retorna agora como assistente-chefe de Ludwig Frankenstein, Dr. Bohmer, que é um personagem muito mais interessante e complexo do que o próprio Ludwig. Bohmer foi o mentor científico de Ludwig até que um erro infeliz destruiu sua carreira. Suas ambições de restaurar sua reputação estão associadas às maquinações de Ygor.

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Ainda sobre o elenco, A ausência de Karloff obviamente é uma grande perda. O ator não se interessou muito em reviver o monstro e usar a pesada maquiagem de Jack P. Pierce. E é também lamentável que Basil Rathbone, que tinha feito o excelente Wolf Frankenstein no filme anterior, não estivesse disponível.

Como era habitual nos filmes de monstros da Universal, o roteiro de FANTASMA DE FRANKENSTEIN passou por várias reescritas, mas o diretor Erle C. Kenton era, na melhor das hipóteses, um artesão habilidoso que conseguiu pelo menos manter o ritmo e não deixar a coisa se transformar num tédio. E o filme tem pouco mai de uma hora, passa voando. O FILHO DE FRANKENSTEIN, em 1939, havia sido a última tentativa da Universal de continuar sua tradição de filmes de terror com uma produção abastada. Fizeram obviamente bons filmes de terror depois disso, mas eram B movies, com orçamentos mais discretos, como é o caso de FANTASMA DE FRANKENSTEIN. O filme não possui cenários suntuosos e imaginativo em comparação aos filmes anteriores, mas até que não são ruins. E a fotografia é excelente, como em todos os filmes de monstros da Universal. Sombria e recheada de elementos góticos.

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FANTASMA DE FRANKENSTEIN marcou uma desaceleração significativa no ciclo de filmes com o universo Frankenstein pela Universal. Foi a última produção, por exemplo, a ter o Monstro de Frankenstein numa “aventura” solo. Todos os filmes seguintes o personagem dividiu a tela com outros monstros da produtora, como DRACULA e WOLF MAN… De qualquer maneira, FANTASMA DE FRANKENSTEIN vale uma conferida. Os roteiristas já estavam tirando leite de pedra para trazer um novo parente de Frankenstein e poder continuar a história, mas não significa que seja um filme ruim. É legal para quem já está acostumado com esse tipo de produção e ainda tem o Lugosi mais uma vez demonstrando porque é um dos maiores ícones do horror clássico.

O FILHO DE FRANKENSTEIN (1939)

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Em 1938, a Universal relançou nos cinemas as suas duas primeiras produções do ciclo de filmes de Monstros: DRÁCULA, de Tod Browning, e FRANKENSTEIN, de James Whale, que comentei aqui no blog recentemente. Foi um sucesso. Parecia que o apetite do público por filmes de terror estava mais forte do que nunca. Então, a Universal tomou a sábia decisão de fazer um terceiro exemplar com o monstro de Frankenstein – sem a direção de James Whale, mas com um sujeito talentoso no comando, Rowland V. Lee, e uma escala generosa de cenários e direção de arte. O resultado veio no ano seguinte, o excelente O FILHO DE FRANKENSTEIN (Son of Frankenstein).

O estúdio decidiu ainda que o elenco seria encabeçado por seus dois maiores astros do gênero. Boris Karloff voltaria a encarnar o seu icônico monstro e Bela Lugosi, mais conhecido com seu papel em DRÁCULA, contracenaria com seu “rival”. Peter Lorre faria o filho do infame Dr. Frankenstein, mas recusou, então foram atrás de Basil Rathbone, uma decisão acertadíssima.

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Rathbone é o Dr. Wolf Frankenstein, que não é o típico cientista louco como seu pai. É um educado professor universitário que passou sua carreira nos EUA vivendo a reputação infame de seu pai, o Dr. Frankenstein, que deu vida ao notório monstro feito de pedaços de cadáveres. Como herdou o Castelo de seu pai, do outro lado do Atlântico, achou que seria uma boa ideia morar lá com a esposa e o filho pequeno. Porque achou que seria uma boa, permanece um mistério… Obviamente, depois do que vimos nos dois filmes anteriores, os moradores da região ficaram ressabiados com a ideia de um novo Dr. Frankenstein vivendo novamente no local. Até porque tem havido uma série misteriosa de assassinatos por aquelas plagas.

Wolf Frankenstein, já no local, aproveita para investigar o laboratório de seu pai, que vimos que fora quase todo destruído no segundo filme. Lá ele encontra Ygor (Lugosi), ferreiro que costumava ganhar dinheiro extra roubando túmulos para o antigo Dr. Frankenstein. Ele foi enforcado por seus crimes, mas sobreviveu. Seu pescoço quebrou mas a medula espinhal ficou intacta e ele agora tem um osso saliente no pescoço, dando-lhe a aparência bizarra e curvada típica dos personagens clássicos filmes de horror. Legalmente o sujeito está morto, portanto, mesmo vagando normalmente pela região, Ygor está fora do alcance da lei. Só que ele não esqueceu os oito homens do júri que o condenaram.

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E Ygor não é o único indivíduo que “retornou” dos mortos. O monstro ainda vive, aparentemente em uma espécie de coma. Ygor implora ao novo Dr. Frankenstein para trazê-lo de volta à vida. A curiosidade científica de Wolf é despertada com a ideia de que ele poderia recuperar a reputação de seu falecido pai continuando seu trabalho. E bota a mão na massa, sem muito sucesso. Alguns dias depois, no entanto, seu filho menciona um gigante perambulando e Wolf percebe que o Monstro caminha novamente.

Só que seus problemas se acumulam. Mais assassinatos vão acontecendo e o chefe da polícia, o inspetor Krogh (Lionel Atwill, genial), está começando a ficar cada vez mais desconfiado que um mal do passado pode ter retornado ao local. Krogh perdeu um braço para o monstro na infância, então ele tem um interesse pessoal nos trabalhos científicos da família Frankenstein.

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Boris Karloff novamente interpreta o Monstro com bastante força, mas com Bela Lugosi se destacando no papel de Ygor, um personagem bem mais interessante e substancial do que o do Monstro em O FILHO DE FRANKENSTEIN. Lugosi ganha muito tempo de tela e, de fato, domina o filme. É uma das raras ocasiões de sua carreira, depois de interpretar o personagem título em DRACULA, que Lugosi tirou o melhor proveito da Universal. E aproveita a oportunidade apresentando uma performance poderosa que é um dos destaques de sua carreira.

O Wolf Frankenstein de Rathbone é um homem que, desde o início, se encontra numa situação pela qual está irremediavelmente mal preparado e começa a perder o controle. O desempenho de Rathbone se aproxima cada vez mais da histeria e lá pelas tantas, o sujeito dá um espetáculo de atuação. Mas quem realmente rouba a cena é Lionel Atwill, excelente como um sujeito cumprindo seu dever conjuntamente tentando não deixar seus sentimentos pessoais atrapalharem. E Atwill se diverte bastante com o seu braço mecânico, que adiciona um toque engraçado, ao mesmo tempo grotesco.

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O roteiro de O FILHO DE FRANKENSTEIN foi escrito duas vezes. E o produtor-diretor Rowland V. Lee não gostou de nenhuma das duas versões e começou ele mesmo a reescrever. Ainda estava reescrevendo-o quando as filmagens começaram e nunca houve realmente um roteiro final. Ainda assim, Lee manda bem na direção, o filme tem bom ritmo e alguns momentos atmosféricos. E mesmo assim continuou reescrevendo o roteiro enquanto prosseguia com as filmagens. Surpreendentemente, as coisas acabam se encaixando bem, mesmo com a longa duração de quase 100 minutos, o que é um exagero em comparação aos outros filmes de monstro do período. A direção de arte também contribuiu enormemente para o sucesso do filme, com alguns dos melhores cenários que eu já vi nesses filmes de horror da Universal.

O filme foi um triunfo retumbante nas bilheterias e gerou um bom lucro para a produtora. Seja lá por quais motivos, os filmes de horror seguintes da Universal não tiveram o mesmo orçamento, sempre menor, mesmo O FILHO DE FRANKENSTEIN provando que um filme de terror bem feito, bem produzido, é ouro nas bilheterias. Visualmente, fica no mesmo nível dos filmes de Whale, FRANKENSTEIN e A NOIVA DE FRANKENSTEIN. Possui uma história sólida, cenários incríveis, personagens complexos e ótimas performances (especialmente de Lugosi e Atwill). E eu não poderia pedir mais que isso. Altamente recomendado para quem gosta dos filmes anteriores e do ciclo de filmes de monstro da Universal.

OS ASSASSINATOS DA RUA MORGUE (Murders in the Rue Morgue, 1932)

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De vez em quando eu entro numa de ensaiar uma maratona dos clássicos de horror da Universal, mas sempre assisto dois ou três e já abandono… Vamos ver se escrevendo sobre algum deles eu fico mais animado. OS ASSASSINATOS DA RUA MORGUE, de Robert Florey, adaptação de Edgar Allan Poe e com o grande Bela Lugosi no elenco, foi um dos últimos que vi e que vale a pena expor algumas coisas por aqui.

Aliás, diretor e ator quase haviam trabalharam juntos anteriormente no grande clássico do horror, FRANKENSTEIN. Não aconteceu, como se sabe. E tanto para Florey, substituído por James Whale, quanto para Bela Lugosi, a dissociação de FRANKESTEIN sinalizou inúmeros pontos de inflexão na carreira de ambos: Florey nunca mais teve a oportunidade de dirigir uma produção de tanto potencial, e Lugosi, ao se afastar do projeto, permitiu o surgimento de seu rival de tela, Boris Karloff, que, não demoraria muito, acabaria lhe eclipsando.

O prêmio de consolação do estúdio para Lugosi e Florey foi OS ASSASSINATOS DA RUA MORGUE, que não teve o sucesso crítico ou popular que suas carreiras precisavam, apesar de ser um dos mais interessante e ousados filmes de horror do período, acredito eu, pelo menos dentre os poucos que já vi até o momento.

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É que Florey pega pesado na referência do expressionismo alemão, criando quadros realmente fortes e atmosféricos de uma Paris carregada e sombria para além da conta, além de nos oferecer algumas imagens inesquecíveis, e transgressoras para o período, de Bela Lugosi amarrando moças sequestradas a quadros de madeira em forma de X e lhes fazendo transfusões de sangue de gorila… De arrepiar.

Na trama, Bela Lugosi é o Dr. Mirakle, cientista que trabalha no campo da evolução humana e que está experimentando a hibridização entre macacos e humanos em Paris em 1845. Ele financia suas experiências exibindo seu gorila de estimação em um espetáculo em festivais. Fruto de suas experiências, ocasionalmente mulheres são encontradas flutuando no Rio Sena. E seu encontro com um estudante de medicina, o famoso Dupin (que nas histórias originais de Poe era um perspicaz detetive aos moldes de Sherlock Holmes), e sua namorada desencadeia uma série de incidentes infelizes…

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A história original de Poe tem o lance do mistério revelado num final surpreendente, mas aqui Florey transforma o texto de Poe num relato de puro horror com o fato de que já sabemos de antemão o que está acontecendo desde o início. Possivelmente uma sacada sábia, mas o roteiro de OS ASSASSINATOS DA RUA MORGUE (que teve ajuda do diretor John Huston) parece cheio de equívocos em alguns momentos, prejudicado pela decisão da Universal de fazer refilmagens e invadir o filme, que já estava concluído. No entanto, é uma obra que espreita um suspiro de inspiração audaz por parte de Florey em uma estética das mais sombrias e sinistras daquele período.

Altamente recomendado para quem quer se enveredar por aquelas plagas do cinema de horror, mas quer conhecer bons exemplares fora dos ciclos dos monstros clássicos, como DRÁCULA, FRANKENSTEIN, A MÚMIA e etc…