O IRLANDÊS (The Irishman, 2019)

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Sei que muita gente torce o nariz pelo velho Scorsese pós-2000, com essa ideia de que ele não é mais o mesmo, que seu talento diminuiu, seus filmes pioraram, blá, blá, blá… Pra mim sempre foi um deleite todas as vezes em que parei para assistir a um novo filme do homem nas últimas duas décadas. Mas realmente há muito tempo que um filme dele não alcançava de modo tão expressivo as suas ambições como o faz O IRLANDÊS. É o ápice, um desses monumentos que vez ou outra nos aparece, cada vez mais raro, e que traz uma sensação de PURO CINEMA (apesar da ironia de ter sido produzido pela Netflix). Um filme para mostrar ao mundo um autor que ainda está pulsando, que ainda pode nos maravilhar.

E uma das principais maravilhas do filme vem na forma do testemunho representado por vários dos melhores atores da história. Robert De Niro, Al Pacino, Harvey Keitel, Joe Pesci, que foi literalmente retirado da aposentadoria voluntária para dar vida a um dos grandes papéis de sua carreira. E é fascinante perceber como o tempo passou pra esses sujeitos, agora com as caras enrugadas, velhos, frágeis, que no fim das contas é o próprio assunto d’O IRLANDÊS. O tempo que passa, as coisas pelas quais rememoramos da vida, envelhecer… Um épico que reflete as diferentes passagens da vida e o destino inevitável que nos espera. Para alguns, no entanto, por sorte ou azar, há tempo suficiente para refletir sobre o passado e as escolhas realizadas.

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Frank Sheeran (De Niro), o irlandês do título, é um desses exemplos. É o único que restou. Velho, doente, numa casa de repouso, ninguém acreditaria que fora um dia um dos maiores assassinos que trabalhou para a máfia italiana. Mas ele conta sua história, a partir da década de 1950 e vai se estendendo por mais de 40 anos. Um veterano de guerra que virou motorista de caminhão, se envolve com Russell Bufalino (Pesci) e sua família criminosa na Pensilvânia, sobe na vida para se tornar um homem de respeito, mesmo ao custo de perder o amor de sua esposa e filhas. Eventualmente, ele vai trabalhar para Jimmy Hoffa (Al Pacino), o lendário presidente do sindicato dos caminhoneiros, que na época era um dos homens mais poderosos da América. E cujo desaparecimento permanece um completo mistério, embora o filme tente trazer alguma luz para o assunto baseando-se nos relatos do próprio Sheeran (publicado no magnífico livro I Heard You Paint Houses, de Charles Brandt), mas que não são efetivamente comprovados e talvez nunca saibamos a verdade dos fatos.

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Superficialmente, temos então Scorsese voltando ao chamado “filme de máfia” pelo qual é bastante celebrado por obras como OS BONS COMPANHEIROS e CASSINO. E O IRLANDÊS é mais um olhar definitivo e abrangente sobre esse estilo de vida marcado por crimes, violência, mas também a busca por dinheiro fácil e consagração. No caso de Sheeran é uma vida melancólica. Uma vida definida pela passividade e pela constante subserviência aos seus superiores e à falha como pai, como “chefe de família”. Um vazio personificado melhor pelo papel quase simbólico da filha, que envolve pouco mais que uma participação especial de Anna Paquin, mas que não deixa de ser uma performance crucial para o estudo sobre o personagem.

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Há uma infinidade de coisas para analisar e refletir em O IRLÂNDES… Os aspectos históricos por exemplo são curiosos, como a política da época e a corrupção criminal se confundem, ou caminham juntas (invasão da Baía dos Porcos em Cuba, o assassinato de Kennedy, etc…). Mas as questões intimistas me fascinam mais. A ideia de examinar homens violentos que são levados a um apocalipse interno, a melancolia do envelhecimento, a morte, as pessoas descartadas no caminho… Vi o filme duas vezes e até agora não cansei de pensar nessas questões…

Sobre CGI e tecnologias de rejuvenescimento, caguei. Pouco me importa se ficou tosco ou se agora já dá pra fazer um filme com o James Dean… Estava tão imerso na história que não me dei o trabalho de ficar reparando nesses detalhes. Importa pra mim é a aula de cinema de Scorsese, que dirige como o mestre que é, com a sabedoria de quem possui uma carreira repleta de várias obras-primas. Consegue alternar momentos engraçadíssimos com sequências assustadoras e sombrias. Três horas e meia de ritmo e de uma certa energia do diretor. Lento, claro, para quem não está acostumado, mas nunca chato. E sempre se movendo com altos e baixos emocionais como uma montanha russa, à medida em que o glamour e o humor vão gradativamente combinando com a realidade violenta e sombria.

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E são vários os momentos que já nasceram clássicos. Angelo Bruno (Keitel) e Russell repreendendo Sheeran no restaurante; a preparação de Sheeran para matar Joe Gallo; o encontro de Hoffa com Tony Pro na prisão; a festa de homenagem à Sheeran; são dezenas e dezenas de momentos memoráveis. E a última hora… Meu Deus… Só essa última hora de O IRLANDÊS já seria suficiente para uma obra-prima. Mas eu queria destacar mesmo toda a sequência que se inicia com a viagem de Sheeran para “encontrar” Hoffa. Fazer o que tem que fazer. Aquele suspense dramático pra cacete… BANG BANG, dois tiros na cabeça, mais um trabalho rotineiro. E a viagem de volta num silêncio sepulcral arrasador. Momentos dignos de antologia. Das melhores coisas que Scorsese já filmou na vida.

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Aliás, todos os assassinatos de Sheeran são filmados mais ou menos do mesmo modo. Com um certo distanciamento, o enquadramento pegando os atores de corpo inteiro, e o modus operandi de Sheeran geralmente é o mesmo: aproximação objetiva, dois tiros rápidos na cabeça, discreto, e a vítima não tem tempo nem de tirar as mãos do bolso. E Scorsese em nenhum momento faz dessas cenas um espetáculo. E da mesma maneira acontece com Hoffa. Muda o contexto dramático e isso basta para a cena de seu assassinato ser tão poderosa, tão devastadora. Mesmo mostrada de forma tão rápida e direta. Hoffa foi um amigo abstraído para um objetivo. Uma traição transformada em trabalho. Que filme monumental!

Importa também pra mim De Niro, Pacino e Pesci, três gigantes que agora acrescentam outras performances icônicas à história deles. E aquela última hora de filme… Meu Deus… A última hora de filme é de rasgar o coração.

O TRAIDOR (Il Traditore, 2019)

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Ok, sei que vai ser impossível não fazer piada com o nome do sujeito, mas vamos tentar… Até porque vou ter que citá-lo várias vezes por aqui. Mas Tommaso Buscetta foi o primeiro pentito, um arrependido da Cosa Nostra, que ajudou a justiça italiana na luta contra a máfia, especialmente contra o império do sanguinário Salvatore Riina. Buscetta, desiludido após a traição de um capo, e enfrentando prisão e risco de vida, trabalha com o juiz Falcone fornecendo informações sobre o funcionamento da Cosa Nostra nos anos 80. E é esse, bem por alto, o mote de O TRAIDOR, novo filme do italiano Marco Bellocchio, um dos grandes mestres do cinema ainda em atividade.

Na longa e interminável história da máfia italiana (da qual as séries GOMORRA e SUBURRA são hoje o eco contemporâneo), a traição de Buscetta e o julgamento que se seguiu por quase dois anos foi um marco. Centenas de mafiosos foram condenados nos anos 80 e 90 por causa do Buscetta… Como todo mundo sabe, Buscetta é bom, mas para alguns é motivo de prisão e morte… er… Ok, já parei.

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Bom, Marco Bellocchio se interessa bastante na jornada do protagonista ao longo desse período, desde sua fuga para o Brasil (quando a gangue de Riina estava começando o derramamento de sangue) até sua prisão (seguida de torturas e tentativa de suicídio) e depois a extradição à Itália com sua decisão de colaborar com o sistema de justiça e ganhar uma nova vida nos Estados Unidos com sua família, cuja esposa era brasileira e em O TRAIDOR é interpretada pela Maria Fernanda Cândido. Chama a atenção o fato de Buscetta nunca se considerar um traidor, mas de ter sido traído, por vários motivos, pela Cosa Nostra, o que dá ao personagem uma complexidade de herói assombrado por certo espírito de justiça, ainda que seja difícil de enxergar quando se trata de alguém que passou a vida como um “soldado” na máfia…

Uma grande parte do filme é dedicada aos julgamentos, aos tribunais que se transformam em um teatro de bufonaria, onde a máfia se coloca como vítimas em confrontos verbais que oscilam entre retaliação, lamento e ridículo. Se não houvesse tantas mortes por trás de todo esse circo poderíamos até rir, mas a triste visão desses assassinos prontos para qualquer coisa (fingir demência, costurar a boca, mostrar o pau) para economizar tempo e tentar se safar demonstra o cinismo e frieza dignos de psicopatas. As travessuras dos gangsters presos lembram bastante algumas cenas de DIAVOLO IN CORPO, que Bellocchio realizou em 1986, e que representava julgamentos de estudantes ativistas. Já comentei sobre esse filme aqui.

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Bem distante da tradição mítica dos filmes de Mafia (como O PODEROSO CHEFÃO), O TRAIDOR parece mais um filme ensaio com inclinações documentais. Bellocchio faz um trabalho denso e didático, que raramente excede seu status de “arquivo”, com direito a nomes, número de mortes, informações e fatos expostos na tela em detrimento de emoções, mas que confere um realismo quase palpável para tratar desse lado sombrio e silencioso da Itália. Mesmo as várias sequências de assassinatos são frequentemente vistas com uma crueza de gelar a espinha. A exceção talvez seja no plano filmado de dentro de um carro que é arremessado pelos ares numa explosão. Desses momentos que prova a maestria de um veterano como Bellocchio. E quando há emoções, é especialmente no rosto maciço de Pierfrancesco Favino, formidável na pele de Buscetta, um retrato ao mesmo tempo frágil e determinado, que é um dentre tantos motivos de fascínio por O TRAIDOR. Sem dúvida mais um pra lista “melhores de 2019”.

O IRLANDÊS

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Na verdade, fui assistir logo que estreou, já na última quinta-feira. Ainda não consegui parar para elaborar um texto maior aqui pro blog, mas desde então não consegui parar de pensar em THE IRISHMAN, o que de certa forma é bom porque não quero parar de pensar no filme ainda… Scorsese nunca foi tão pesado, sombrio. Um épico íntimo e melancólico. Saí do cinema como se sai de um funeral. Obra-prima.

OS BONS COMPANHEIROS (1990)

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Mais um para o esquenta do THE IRISHMAN, novo filme de Martin Scorsese que está aproximando cada vez mais da estreia na Netflix. Na verdade, acho que essa semana já teremos cinemas passando o filme, se não estou enganado. Bom, enquanto não tenho certeza, vamos de OS BONS COMPANHEIROS (Goodfellas), que foi o segundo grande filme de máfia do Scorsese depois daquela lindeza que é CAMINHOS PERIGOSOS, que eu comentei aqui na semana passada.

Gosto de fazer um paralelo de OS BONS COMPANHEIROS com os filmes de máfia do Coppola, a saga d’O PODEROSO CHEFÃO, que é uma visão mais romantizada do crime organizado, representando a nata da máfia que governa como monarcas. Enquanto o filme de Scorsese é uma espécie de refutação, que retrata os bandidos e soldados que povoam o submundo da máfia e a fragilidade de suas próprias existências. Não os bandidinhos ralé de CAMINHOS PERIGOSOS, mas criminosos que chegam a atingir certo status, mas ainda estão longe do topo. Isso não quer dizer que uma abordagem é melhor que a outra, apenas são diferentes. Em vez de ver homens honoráveis, quase míticos, como Don Corleone, em OS BONS COMPANHEIROS somos levados a ver como a coisa funciona para aqueles que estão tentando sobreviver no submundo: assaltos, brigas, tráfico de drogas, a violência que deflagra completamente sem sentido…

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OS BONS COMPANHEIROS foi baseada no livro Wiseguy do jornalista Nicholas Pileggi, que conta a vida do gângster, que se torna informante, Henry Hill. O sujeito é um meio-siciliano meio irlandês que cresceu no Brooklyn e desde novo idolatra os gangsters que trabalham do outro lado da rua. Vendo-os indo e vindo como bem entenderem, Hill fica determinado a ser um deles. Isso acaba o levando a trabalhar para Tuddy (Frank DiLeo), cujo irmão, Paul (Paul Sorvino), é o chefe do bairro. Ignorando os apelos de sua família, que tenta mantê-lo longe dos bandidos, o jovem Henry (Christopher Serrone) decide que essa é a vida que ele levará. Não tem mais necessidade de estudos, trabalho “normal” ou outras atividades comuns dos adolescentes. Ele só quer aprender a ganhar dinheiro.

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A história avança e Henry (agora encarnado por Ray Liotta) cresce, unindo forças com os compatriotas Jimmy Conway (Robert De Niro) e Tommy DeVito (Joe Pesci). Em Jimmy, Henry encontra um mentor. Um criminoso experiente e um homem que realmente gosta do crime e da política do submundo. Mas como ele é irlandês, nunca poderá ser um “homem feito” oficialmente, ou seja, nunca vai subir os níveis na “cadeia alimentar” da Cosa Nostra. Mas Jimmy tem bastante poder trabalhando para Paulie, supervisionando os vários esquemas de Henry e Tommy. Este último é a dinamite prestes a explodir. Um psicopata que rotineiramente rompe em fúria assassina.

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A vida dos caras se resume em fazer todo tipo de crime – desde simples assaltos de caminhões de carga à um complexo roubo em um aeroporto – e desfrutar de um certo prestígio que essa vida lhes dá, ganhando “respeito” no submundo e frequentando os melhores restaurantes da cidade. Após assassinatos indevidos, passagens pela prisão, o movimento nos 70 para o mundo do narcotráfico, o caminho de todos começa a mudar, para o bem ou para o mal. Mais para o mal, na verdade… Até o ponto em que Henry precisa fazer a escolha da sua vida: arriscar a sobrevivência nesse mundo ou testemunhar contra seus amigos.

Para um filme de duas horas e meia de duração, OS BONS COMPANHEIROS se move num ritmo frenético e vertiginoso que é simplesmente uma delícia de se acompanhar. Scorsese tem o completo domínio de seu filme, que é um bom exemplo para se recorrer quando se pensa no virtuosismo de Scorsese como diretor. Há sequências que são verdadeiras aulas de cinema, como os famosos planos com a câmera deslizando pelas boates enquanto os personagens interagem entre si. Ou então na sequência em que os corpos dos membros da equipe do assalto da Lufthansa começam a aparecer por toda a cidade. A câmera se move graciosamente e vai revelando corpos em Cadillacs, caminhões de lixo ou pendurados em congeladores de carne, com as tensões do piano da clássica “Layla” tocando ao fundo.

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São várias sequências clássicas. Como o arco que envolve o assassinato brutal de Billy Batts (Frank Vincent), e o trio principal se livrando do corpo. Mas um dos momentos que mais me impressionou nessa revisão – e que já não lembrava da sua intensidade – é o capítulo próximo ao final do filme, quando a vida de Henry fica completamente fora de controle. O sujeito sabe que já não pode contar muito com Jimmy e Paulie e depende cada vez mais da venda de cocaína como sua única renda. E em um dia específico, Scorsese mostra os malabarismos de Henry em realizar várias tarefas – entregar silenciadores de armas para Jimmy, encontrar seu contato do tráfico, pegar seu irmão, organizar a próxima viagem de contrabando para uma garota – enquanto vai ficando cada vez mais surtado, estressado e paranoico além do seu limite. Especialmente por conta de um helicóptero que o protagonista acredita de pés juntos que está o seguindo aonde quer que vá.

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E Scorsese retrata sensorialmente esse sentimento de paranoia e estresse apenas pela maneira como filma e edita. Em parceria com sua colaboradora de longa data, a editora Thelma Schoonmaker, a montagem é cheia de cortes rápidos para mostrar o ritmo frenético em que a mente de Henry funciona, à mil por hora, e realmente sentimos o cara à ponto de explodir a qualquer momento. Além disso, a trilha sonora de toda essa sequência é perfeita, pulando entre estilos e humores, como “Monkey Man”, dos Rolling Stones, “What Is Life”, de George Harrison e “Manish Boy”, de Muddy Waters… Tudo embalado de forma descontrolada, como deve ser.

O elenco é uma das forças de OS BONS COMPANHEIROS. Não consigo pensar em nenhuma outra performance na carreira de Ray Liotta que seja tão expressiva quanto seu desempenho como Henry Hill. Robert De Niro certamente tem melhores atuações, inclusive trabalhando com Scorsese, mas seu Jimmy, com a natureza calculista e insensível necessária para o personagem é sem dúvida mais um dos destaques de sua carreira. Lorraine Bracco também merece reconhecimento como Karen Hill, a esposa de Henry que também é consumida pelo estilo de vida dos mafiosos. É interessante observar sua progressão de dona de casa ingênua para basicamente uma comparsa nas operações de drogas do marido. Além dos já citados, o filme ainda tem uma participação bacana de Samuel L. Jackson, Michael Imperioli e algumas pontinhas ao fundo de Vincent Gallo.

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Mas o grande destaque, o tour de force de OS BONS COMPANHEIROS, é Joe Pesci. Ele é a versão moderna dos personagens vividos por James Cagney nos dias dourados de Hollywood. O homem é um psicopata e suas repentinas e inesperadas explosões de violência são realmente chocantes. Cenas como o assassinato à sangue frio do jovem Spider (Imperioli) por não lhe trazer uma bebida causa certa impressão até mesmo a quem já está acostumado com filmes de máfia. Ao mesmo tempo, Tommy é um sujeito leal e que pode ser incrivelmente engraçado. Todo mundo lembra da famosa cena “Funny how? What’s funny about it?” entre Tommy e Henry, mas há outros momentos que sempre me fazem rir. Coisas como Tommy tentando convencer Henry a ir a um encontro de casais, ou depois que ele atira em Spider e Henry declara que o garoto está morto e Tommy responde com naturalidade: “Good shot. What do you want from me? Good shot. Fuckin’ rat anyway.

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Enfim, é um filme muito rico, com vários momentos marcantes e imagens icônicas e eu não saberia como continuar abordando tudo o que gostaria sem que soasse chato e repetitivo e uma punhetagem (que é o que este texto já virou há muito tempo)… Ficaria dias falando sobre tudo pelo qual sou apaixonado em OS BONS COMPANHEIROS. Pelo que me lembre, foi o primeiro filme de Scorsese que assisti, quando ainda era moleque nos anos 90 e nunca me canso de rever. Richard Linklater diz que este filme só se revela mesmo como obra-prima lá pela terceira ou quarta vez que você o vê. Como eu já perdi as contas de quantas vezes já vi, “obra-prima” é pouco pra ele. Até hoje me impressiona como OS BONS COMPANHEIROS é um filme que pode ser tão popular e divertido e, ao mesmo tempo, atingir o nível mais alto de sofisticação das maiores obras de arte do cinema.

PS: Apesar de tantos elogios, ainda prefiro CAMINHOS PERIGOSOS.

CAMINHOS PERIGOSOS (1973)

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Comecei um “esquenta” para o THE IRISHMAN, próximo filme de Martin Scorsese que está a estrear logo ali em poucas semanas pela Netflix. CAMINHOS PERIGOSOS (Mean Streets), que já não assistia há uns quinze anos, foi o primeiro da lista a rever, porque primeiro eu queria voltar à essa trilogia de “máfia italiana” que o Scorsese fez. Os outros filmes são OS BONS COMPANHEIROS e CASSINO.

Não sei se vou conseguir escrever algo a tempo sobre os outros dois, mas queria postar pelo menos sobre este aqui, porque nessa revisão meu ardor pelo filme foi reacendido. Vocês sabem, passam os anos e o distanciamento torna a relação com certos filmes um bocado nebulosa, embora eu sempre tenha gostado de CAMINHOS PERIGOSOS desde a primeira vez que vi. Por isso a importância de rever, de lembrar exatamente porque amamos os filmes. E por que eu amava CAMINHOS PERIGOSOS? Não lembrava mais com tanta clareza…

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Certamente é o trabalho mais autobiográfico do diretor. Charlie (Harvey Keitel) é quase um alter ego de Scorsese, habitante da Little Italy, em NY, imerso no mundo da criminalidade da região. Mas também torturado pela santidade, redenção, necessidade de perdão pelos pecados e que vai à igreja, aproxima sua mão nas chamas das velas debaixo da cruz de Cristo para sentir um resquício do calor que lhe espera no inferno… Em sua sede de redenção, ele se põe como protetor de um bandidinho local, o maluco Johnny Boy (Robert De Niro trabalhando pela primeira vez com Scorsese), como se protegendo esse delinquente sua salvação estaria garantida.

Mas Johnny não parece se importar muito. Prefere sair com garotas, encher a cara, explodir caixas de correio, se meter em brigas… gosta dos jogos do submundo e aumentar suas dívidas com pequenos mafiosos. Como salvar alguém que não quer ser salvo? E podemos nos redimir salvando os outros? Redenção e fé: dois temas constantes de Scorsese que reflete num filme doloroso, mas dotado de energia impressionante e um certo bom humor. O universo de Scorsese ocasionalmente tem essa de estar entre o burlesco e a violência. Algumas situações realmente merecem boas risadas (“Whats a mook?“), mas no final tudo é brutal e sem esperança, tudo têm consequências e, no apagar das luzes, uma bala pode atravessar o teu pescoço.

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Na direção, Scorsese cria um verdadeiro caos de som e imagens encenadas de maneira muito expressiva: câmera na mão, edição frenética, estética de documentário ao estilo John Cassavetes, cores saturadas, close-ups apertados de rostos e corpos – tem até uma cena que a câmera fica acoplada à Keitel – diálogos afiados, tudo embalado numa trilha sonora da moda (The Ronettes, Rolling Stones, Clapton…).

Tanto no nível temático quanto no visual, tanto na direção dos atores quanto no tom muito pessoal na criação desse universo, mesmo com as referências da Nouvelle Vague europeia, mas também pelo gosto pelo cinema americano, enfim, o filme se impõe como algo nunca visto na sua época. Sua influência ao longo das décadas é absurda. Ou seja, motivos suficientes para amar CAMINHOS PERIGOSOS é o que não falta… Que venha THE IRISHMAN!

CÃES DE ALUGUEL (1992)

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Revisão de CÃES DE ALUGUEL. E não é que continua uma belezura? É claro que vendo com os olhos de hoje, com mais bagagem e menos vislumbre que na época de adolescente, quando descobri o filme, percebe-se a mão pesada do Tarantino em alguns momentos. Já entrei em alguns debates com verdadeiros fãs do filme sobre isso, amigos que consideram CÃES DE ALUGUEL a obra-prima do diretor. Respeito de forma absoluta. No entanto, pessoalmente, acho que possui alguns problemas de decupagem, com certos trechos cansativos e muito teatrais (especialmente a que constrói o personagem do Tim Roth)… Mas esse tipo de questão é normal para um estreante, que se arriscou num trabalho autoral, com sua assinatura, como é o caso de Tarantino. E é um cinema feito com tanta paixão e honestidade que esses probleminhas nem incomodam e é difícil não ficar absorvido por aquele universo tão peculiar.

A cena de abertura é uma das minhas favoritas, com uma câmera que gira em torno da gangue de assaltantes vestidos de ternos pretos, discutindo uma tese genial a respeito do verdadeiro significado da letra de “Like a Virgin“, da Madonna. Daí pra frente Tarantino nos coloca em um mundo que é ao mesmo tempo familiar e diferente. E acho que é esse o charme dos seus primeiros filmes. Ele compreende tão bem o tipo específico de cinema de crime e ação, que acaba encontrando novas maneiras de abordar o gênero, tornando-os renovados, cheios de frescor. Em CÃES DE ALUGUEL é o filme de gangster e de assalto, cujo roubo de uma joalheria nunca é mostrado, apenas suas consequências. Tudo embalado numa interessante estrutura não-linear que ajuda a ter uma ideia de quem são esses indivíduos e como entraram na jogada.

O elenco e os vários duelos entre os atores acabam sendo o grande destaque de CÃES DE ALUGUEL, até porque já aqui neste primeiro trabalho Tarantino demonstra que seu forte é a criação de diálogos fantásticos. Temos Harvey Keitel (que também foi produtor do filme) e Tim Roth matando a pau; Lawrence Tierney e Chris Penn (irmão do Sean) também estão ótimos. Mas quem realmente se sobressai nessa turma toda é Steve Buscemi como o arisco Mr. Pink e, acima de todos, Michael Madsen, como Mr. Blue, que protagoniza a sequências mais violenta do filme, a que seu personagem corta a orelha de um policial ao som de Stuck in the Middle With You, do Stealers Wheel. Essa combinação de violência irônica e humor negro é essencial para entender uma das facetas do estilo de Tarantino. Mas também o universo de referências e reverência ao cinema pelo qual Tarantino é apaixonado, o uso da trilha sonora, a abordagem moderna e desconstruída de certos gênero… E tudo já está aqui, em CÃES DE ALUGUEL, um dos filmes mais importantes dos anos 90 e que só foi eclipsado porque o próprio Tarantino lançou dois anos depois PULP FICTION, querendo ou não, um dos filmes mais cultuados e influentes dos últimos trinta anos.

AL CAPONE (1959); Classicline

Al Capone (1959)

directed by Richard Wilson

shown: Rod Steiger

AL CAPONE começa com o jovem personagem título chegando a Chicago, em 1919. O filme abre num longo plano sequência que apresenta o sujeito de modo magistral. A câmera se movimenta e passeia pela vastidão de um bar, entre figurantes bêbados, garçonetes, mesas e balcão, até que adentra no recinto Rod Steiger na pele do famigerado gangster, com o nome do filme preenchendo a tela, enquanto o plano continua por um bom tempo. Poderia durar até mais, poderia durar para sempre; desses momentos que provam que não estamos diante de um filme qualquer. Há, no mínimo, personalidade por parte dos realizadores de AL CAPONE.

Richard Wilson é o nome do diretor. Richard quem? Sim, um talento subestimado e desconhecido. Foi assistente de Orson Welles em CIDADÃO KANE e SOBERBA, dirigiu uma dezena de filmes, mas nunca teve o merecido reconhecimento, o que é uma pena, porque o sujeito tem bons trabalhos no curto currículo, como ARMADO ATÉ OS DENTES, CONVITE A UM PISTOLEIRO, PAGA OU MORRE e obviamente este aqui, que é cheio de detalhes e sacadas visuais, como a da abertura, que enriquece ainda mais a experiência.

Voltando, Al Capone chega ao local para trabalhar como guarda-costas para Johnny Torrio, um mafioso que age sob a batuta do seu tio, um velho capo de influência política, Big Jim Colosimo. O velho, com a administração de Johnny, dirige vários clubes onde jogo e prostituição rolam soltos. Quando a Proibição de álcool chega em 1920, Johnny e Big Jim entram para o contrabando de inebriantes e ficam ricos. Quando Big Jim se recusa a fazer um acordo com os líderes de outras gangues para decidir os direitos de distribuição de bebidas alcoólicas em Chicago, é Capone quem convence Johnny a esquecer os laços familiares e a tomar uma decisão, “puramente comercial”, de permitir que ele execute Big Jim. Continuar lendo

INNOCENT BLOOD (1992)

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É uma pena que o LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES seja o único filme de horror do John Landis a ser mais lembrado. Até quem não faz ideia de quem seja o diretor geralmente conhece, ou pelo menos ouviu falar do filme. Quero dizer, é óbvio que possui todos os méritos, mas acho injusto hoje ninguém lembrar de INNOCENT BLOOD. Claro, é compreensível quando se trata de uma produção que foi muito mal nas bilheterias, como é o caso aqui, mas não deixa de ser um dos melhores trabalhos do Landis.

Temos aqui um filme de vampiro de premissa original, bem dirigido, com elenco finíssimo, efeitos especiais práticos, sangrentos e ótima maquiagem. Sem falar na trilha sonora jazzística que encaixa uns Frank Sinatra… E mesmo assim, veio o fracasso. Alguns distribuidores ainda tentaram desesperadamente aproveitar o sucesso do outro filme do Landis para atrair público, como na Austrália, onde o filme foi lançado como A FRENCH VAMPIRE IN AMERICA.

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Esse lance de títulos é algo sempre divertido. No Brasil foi chamado de INOCENTE MORDIDA. Até aí tudo bem, nada de mais. Só não chega aos pés dos nossos amigos de Portugal, onde foi lançado com um hilário NÃO HÁ PESCOÇO QUE AGUENTE, ou os nossos hermanos argentinos que colocaram TRANSILVANIA MI AMOR! 😀

Mas o filme realmente tem uma francesa, a Anne Parillaud (NIKITA), que interpreta Marie, uma bela e sexy vampira que só mata gente má do mundo do crime para saciar sua sede de sangue. Numa noite qualquer, ela arranca a garganta de um gangster italiano (Chazz Palminteri) e acaba se envolvendo com a mafia de Nova York. O grande Robert Loggia vive Sallie “The Shark”, o chefão do bando, que também acaba se tornando vítima de Marie. Só que depois de mordê-lo, nunca tem chance de matá-lo em definitivo. Depois, Marie descobre que Sallie se transformou num vampiro e agora cria um exército de mordedores de pescoço na mafia de Nova York! No meio dessa confusão, Anthony LaPaglia desempenha o papel de um policial infiltrado no grupo de Sallie, tendo que lidar com a bela vampira e com a máfia de chupadores de sangue!

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A cena inicial de INNOCENT BLOOD mostra Anne Parillaud nua em pêlo, belissimamente iluminada. Claro, uma das melhores coisas do filme é o estilo de John Landis, um sujeito que nunca precisou demonstrar virtuosismos com a câmera, mas sabe compor enquadramentos com muito talento e é um mestre da mise en scène. O filme é um luxo nesse sentido e um dos melhores trabalhos de direção de Landis, junto com LOBISOMEM AMERICANO, OS IRMÃOS CARA DE PAU e UM ROMANCE PERIGOSO. Mesmo o lado cômico, que é sempre muito forte no trabalho Landis, funciona muito bem aqui.

Depois de dois terços do filme, o ritmo diminui um bocado, mas sempre com um detalhe ou outro para manter o interesse. E com o elenco que temos aqui, fica difícil desgrudar os olhos da tela. Parillaud está deslumbrante, mas quem rouba a cena é mesmo Robert Loggia. O elenco ainda conta com David Proval, Tony Sirico, Kim Coates, Luis Guzman e um hilário Don Rickles. E claro, uma das marcas registradas da Landis são as pequenas aparições de figuras cultuadas ou outros diretores em seus filmes, e aqui temos Frank Oz, Dario Argento, Sam Raimi em momentos bem divertidos. Também Tom Savini, Forrest J. Ackerman e até Linnea Quigley!

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Outra marca registrada de Landis é que não importa o gênero que seja o filme, se é comédia, ação, horror, enfim, qualquer trabalho de John Landis você pode esperar uma televisão ligada passando uma cena de um clássico do horror e monstros.

Não dá pra deixar de destacar também os maravilhosos efeitos especiais. Um dos melhores que eu já vi dos anos 90. Os efeitos de maquiagem de Steve Johnson são simplesmente incríveis e há uma cena quando um dos personagens se queima do sol que é deslumbrante – está quase no mesmo nível da transformação do lobisomem em UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES. O filme também não economiza em sangue e gore, e os fãs desse tipo de coisa não precisam se preocupar com isso. Já eu curto mais o lado erótico que Landis conseguia incluir, mesmo num filme mainstream.

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Uma curiosidade, o filme inicialmente seria dirigido pelo grande Jack Sholder (diretor subestimadíssimo), e teria Lara Flynn Boyle e Dennis Hopper. Quando Sholder pulou fora do projeto, Landis assumiu o lugar e substituiu, seja lá por qual motivo, os dois atores por Parillaud e Loggia. E apesar de amar o Loggia por aqui, daria tudo para ver uma versão surtada de um vampiro mafioso vivido por Dennis Hopper. Teria sido lindo!

Mas do jeitinho que é, mesmo com seus problemas, INNOCENT BLOOD ainda é um dos meus filmes de vampiros favoritos. Está lá junto com alguns exemplares da Hammer, o DRACULA de John Badham, MARTIN de George Romero, THE HUNGER de Tony Scott, DRÁCULA do Coppola e, claro, BLOOD FOR DRACULA, de Paul Morrissey.

BONNIE & CLYDE (1967)

A presepada na entrega do prêmio de melhor filme ontem, no Oscar, foi simplesmente linda! E a melhor maneira que encontrei para homenagear o casal que nos brindou com esses momentos de puro constrangimento, desorganização e magia foi republicar esse textinho de BONNIE & CLYDE direto do blog antigo.

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Dizem que o ator (e produtor do filme) Warren Beatty precisou implorar de joelhos perante a cúpula da Warner para levar às telas de cinema a vida de Bonnie e Clyde, o famoso casal que roubava bancos na época da depressão americana. Cabeças duras, como sempre, os executivos não tinham ideia de que BONNIE & CLYDE (no Brasil, UMA RAJADA DE BALAS) iria se tornar uma das obras mais influentes do cinema americano e mudaria totalmente a maneira de tratar a violência no cinema mainstream de Hollywood.

Hollywood, claro! Porque violência, sangue e gore já existia há muito tempo no cinema americano (Herschell Gordon Lewis que o diga). Mas seria injusto desmerecer a maneira como a violência é abordada aqui. Tomemos por exemplo um dos primeiros assaltos, quando Michael J. Pollard estaciona o que deveria ser o carro de fuga. A situação vira uma cena cômica até que PIMBA! Soa um tiro na cabeça de um funcionário do banco, muito sangue é espalhado na tela e acaba a palhaçada!

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Não é preciso nem tocar no assunto do desfecho de BONNIE & CLYDE também, não é? Aquele brutal, sangrento, perturbador, chocante! Sam Peckinpah deve ter ficado com água na boca imaginando o que poderia fazer com seus próximos filmes, não é a toa que tivemos pouco tempo depois um WILD BUNCH e o cabra ficou conhecido como “poeta da violência”.

Também há a influencia da Nouvelle Vague francesa. As primeiras imagens que mostram Faye Dunaway nua em seu quarto parecem saídas de um filme do Truffaut. Por falar no realizador francês, a direção de BONNIE & CLYDE quase parou em suas mãos antes de ir para o excelente e subestimado Arthur Penn, que realizou por aqui um belíssimo trabalho. Simples, mas moderno, um novo frescor para um estilo de trabalho estético e de câmera que não era muito comum no período no cinema americano. O cara já havia demonstrado traços experimentais em filmes anteriores, especialmente MICKEY ONE, também com o Beatty, que é um autêntico filme de vanguarda.

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Além de Dunaway (que esté maravilhosamente linda), Beatty e Pollard, o filme conta com a presença de Gene Hackman e Estelle Parsons. Todos indicados ao Oscar, mas apenas esta última levou a estatueta pra casa, e merecida, embora todo o elenco esteja ótimo. Temos até uma pequena participação do Gene Wilder. A fotografia também merece destaque, há uma cena em que uma nuvem passa por cima dos atores tapando o sol que é uma coisa absurda de linda…

Assistir a BONNIE & CLYDE é recompensador, principalmente quando é a primeira vez, como foi o meu caso. Retirou um peso da minha consciência cinéfila…

Escrito originalmente em novembro de 2009.

BIG BAD MAMA (1974)

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Uma daquelas pérolas que os anos 70 nos deu. Estamos no período da depressão americana, temos a Lei Seca, assalto à bancos, tiroteios à rodo com Tommy Gun’s cuspindo fogo e Angie Dickinson peladona! Precisa de mais alguma coisa para BIG BAD MAMA ficar melhor? Ah, claro, a presença hilária de Dick Miller numa produção do grande Roger Corman.

Naquele período, Corman começava a fazer dinheiro com pequenos gangster movies e resolveu apostar na anti-heroína Wilma McClatchie, a tal Big Bad Mama do título, vivida por Dickinson, e suas duas filhas espirituosas e sapecas, que embarcam numa jornada no mundo do crime, no qual estão sempre envolvidas em roubos, sequestros, perseguições, tiroteios, num road movie alucinante de ação e com vários personagens interessantes cruzando o caminho das três protagonistas. Como o ladrão de bancos encarnado por Tom Skerritt, o romântico jogador compulsivo na pele de William Shatner e o policial durão vivido por Miller, com suas expressões impagáveis, definitivamente uma das melhores coisas de BIG BAD MAMA. Sempre que está prestes a concluir sua missão de capturar Big Mama, algo dá errado e suas reações são, no mínimo, de rachar o bico! Não tem como não ser fã desse eterno coadjuvante…

A direção é de Steve Carver, que no ano seguinte fez outro filme ótimo do gênero para Corman: CAPONE, com Ben Gazzara no papel título. Dirigiu depois Chuck Norris pelo menos duas vezes, como o McQUADE – O LOBO SOLITÁTIO, que eu acho um filmaço! BIG BAD MAMA é o seu primeiro longa e já demonstra boa habilidade trabalhando muitas sequências de ação, um senso de humor bem equilibrado, mantendo as coisas num ritmo ágil e divertido… é claro que a pulsão sexual e a quantidade de nudez também ajudam, especialmente com as personagens das filhas (Susan Sennett e Robbie Lee) bem à vontade e Angie Dickinson, nos seus 43 anos, expondo seus atributos de deixar muita mulher de vinte com inveja.

BIG BAD MAMA recebeu o título A MULHER DA METRALHADORA aqui no Brasil e ganhou uma continuação nos anos 80, dirigido por outro pupilo de Corman, Jim Wynorski.

SEU ÚLTIMO REFÚGIO (High Sierra, 1941)

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Vi outro Raoul Walsh por esses dias, HIGH SIERRA, um filmaço com elementos noir e estrelado pelo Humphrey Bogart, talvez o maior ator que o gênero já teve. Cínico como sempre, mas fazendo um anti-herói, um habilidoso ladrão ao invés do habitual detetive que o consagrou em filmes como O FALCÃO MALTÊS e À BEIRA DO ABISMO, impressiona muito seu desempenho por aqui, na pele de Roy “Mad Dog” Earle. E, convenhamos, companhar um Bogart inspirado torna qualquer filme uma experiência única.

A trama de HIGH SIERRA começa quando Earle sai da cadeia e já tenta emendar um novo golpe: um assalto a um hotel cheio de milionários. Contando com a ajuda de dois cúmplices inexperientes e uma dançarina que se apaixona por ele (Ida Lupino), Earle aguarda instruções em uma cabana nas montanhas, planejando se endireitar após este último assalto. É interessante olhar para Earle, perceber a sua complexidade e peculiaridades. Apesar da “profissão”, o sujeito não é um mal intencionado – embora utilize violência quando precisa. O passado sugere que Earle seja vítima do sistema e por isso se vê obrigado a ajudar uma família que passa necessidades, após perder tudo e tentar a sorte na cidade grande. Um reflexo da própria vida do protagonista, uma maneira de se reconectar com o que realmente gostaria de ser. O filme é sobre Earle tentando aceitar sua identidade, aceitar o fato de que é um bandido e tentar mudar isso é impossível. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #13: O SÁDICO SELVAGEM (The Lineup, 1958)

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Dez anos antes de estrelar o melhor filme que existe no universo (TRÊS HOMENS EM CONFLITO, de Sergio Leone), Eli Wallach estreava na tela grande com BABY DOLL, de Elia Kazan. O ego inflou, o sucesso lhe subiu a cabeça, e quando foi contratado para viver o gangster psicopata Dancer, em THE LINEUP, ficou aborrecido por seu segundo filme ser um crime movie aparentemente rotineiro, um passo atrás em relação ao seu prestigioso debut. No entanto, estamos tratando de um filme de Don Siegel e talvez Wallach não soubesse do que o homem era capaz de fazer. O fato é que aos poucos, enquanto as filmagens iam acontecendo, o ator percebeu a profundidade e complexidade do personagem que estava compondo e passou a ficar mais simpático ao projeto. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #12: BABY FACE NELSON (1957)

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E eis que Don Siegel resolve fazer um filme meio biográfico de uma das figuras criminosas mais fascinantes da história americana, Lester J. Gillis, mais conhecido por seu apelido, Baby Face Nelson. Tal fascínio é menos por uma eventual identificação do personagem com o público – o cara era um psicopata desprezível – e mais pelas possibilidades de um estudo de personagem cheio de características dramáticas e psicológicas e pelo momento histórico rico em detalhes. E a visão de Siegel sobre o sujeito em BABY FACE NELSON não poderia ser diferente: crua, revisionista e extremamente brutal. Continuar lendo

AJUSTE FINAL (Miller’s Crossing, 1990)

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É interessante perceber as mudanças das próprias opiniões. Revi recentemente O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ, um dos filmes que me fez gostar dos Irmãos Coen e já não vi muita graça… Por outro lado, reencontrei-me com AJUSTE FINAL. O primeiro contato que tivemos, no meio dos anos noventa passou em branco, sem relevância alguma. Muito Stallone e Schwarzenegger na cabeça, eu acho. Passados quase vinte anos, continuo com Stallone’s e Schwarzenegger’s na cabeça, mas que surpresa agradável! Seja lá o que tenha acontecido foi como assistir a outro filme. E é, sem dúvida alguma, um dos melhores trabalhos dos irmãos Coen.

O ano de 1990 foi bom para os filmes de gangsters, não? Scorsese lançou OS BONS COMPANHEIROS e o Coppola fechou sua famosa trilogia com a obra-prima O PODEROSO CHEFÃO – PARTE III (que me perdoem os fãs, é o melhor filme da série). Neste contexto que surge AJUSTE FINAL, uma obra menor diante destes dois colossos cinematográficos daquele período, mas que não deixa de ter encanto e personalidade. Sua proposta é um pouco diferente também. Enquanto os filmes de Scorsese e Coppola são épicos que trabalham seus personagens e universos de forma densa, detalhista e dramática, o filme dos Coen’s se revela mais como uma elegante diversão e conta com o roteiro perspicaz, diálogos afiados e o humor característico da dupla, além de uma boa dose de violência estilizada.

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A trama me lembra um pouco YOJIMBO, de Akira Kurosawa. Gabriel Byrne é Tom Reagan, o braço direito de Leo (Albert Finney), o grande chefão do crime na cidade. Tom cuida muito bem dos negócios do chefe, com muita lealdade, mas por trás mantém um romance com a noiva (Marcia Gay Harden pagando de femme fatale) do seu patrão. Quando a sacanagem é finalmente descoberta, Tom acaba banido da organização e passa a trabalhar para a facção rival, embora nunca se saiba ao certo de que lado o sujeito está jogando… Mas é aqui que AJUSTE FINAL concentra uma série de confrontos entre os personagens e situações tensas que me deixou vidrado até o último segundo.

Outro detalhe que não vai deixar o espectador tirar os olhos da tela é o elenco. Além dos já citados, temos John Polito, que tem alguns dos melhores momentos do filme como o chefe da organização rival; o excelente J. E. Freeman; o grandalhão Mike Starr; e os habituais colaboradores dos Coen’s, Steve Buscemi e John Turturro. E há uma pontinha ótima do diretor Sam Raimi. É preciso destacar a performance de Albert Finney, pelo menos na sequência mais impressionante de AJUSTE FINAL, o ataque que seu personagem sofre em sua casa e a maneira como reage com uma tommy gun cospe-fogo atirando freneticamente pra cima dos adversários. Mais badass impossível. No entanto, é Gabriel Byrne quem carrega o filme com uma atuação refinada e cheia de sutilezas.

Digno de nota também é o trabalho de fotografia e direção de arte, que colabora muito para a criação do universo de AJUSTE FINAL, que não tem a ambição pretensiosa de seus “concorrentes” do período, mas acabou se revelando numa pequena jóia do gênero que eu havia esquecido lá no início dos anos noventa.

OS INTOCÁVEIS, aka The Untouchables (1987)

Assisti a uns filmes bem legais esta semana para comentar aqui no blog, mas não tive tempo ainda para escrever. E não, ainda não vi outro Castellari, mas fiquem tranquilos que em breve eu posto mais do italiano. Hoje revi este filmaço do Brian De Palma e decidi arriscar algumas palavras. De Palma é um dos meus diretores americanos preferidos ainda em atividade e é sempre interessante dissertar sobre seus filmes – se é que o sujeito ainda está realmente em atividade, só acredito nisso quando PASSION, seu próximo filme anunciado, estiver em fase de pós produção.

Enquanto isso, ficamos com as maravilhas que já realizou durante a carreira, como é o caso de OS INTOCÁVEIS, sobre o incorruptível agente do Tesouro, Eliot Ness, que trava uma batalha contra o execrável gangster Al Capone durante a Lei Seca americana e blá, blá, blá…

O enredo é bastante conhecido por todo mundo e já foi diversas vezes explorado em filmes e séries, mas não significa que tenha deixado de ser interessante. Além do belo roteiro, escrito por David Mamet, a grande proeza de OS INTOCÁVEIS está na eloquente e estilosa direção de De Palma, além da colaboração de alguns monstros da atuação, como Robert De Niro e Sean Connery e os jovens Kevin Costner, Andy Garcia e até Billy Drago. Trilha sonora marcante de Ennio Morricone, impecável direção de arte e fotografia, não poderia sair nada menos que um autêntico clássico daqui!

O Capone de Robert De Niro é algo simplesmente extraordinário. Bons tempos quando o ator podia fazer apenas umas cinco ou seis aparições num filme e ainda assim surpreender a cada cena. O sujeito leu todas as biografias de Capone, viu todos os filmes sobre o cara e conferiu ainda documentários da época para compor o personagem.

O resultado está na tela em cada gesto, cada olhar, cada sorriso, já vi esse filme umas quinze vezes e toda vez fico espantado com o desempenho do De Niro. Ao mesmo tempo que inspira simpatia, fazendo seus “capachos” rirem com suas piadas, o sujeito é totalmente brutal, como na impactante cena da explosão de ódio com um taco de baseboll na mão. Deve ser o Capone definitvo do cinema, não?

O fato é que Capone é um total contraponto do bem absoluto personificado no Eliot Ness de Kevin Costner, que não é ator que guardo muita admiração, mas até que se sai bem como o herói bonzinho. Já o velho Sean Connery é outro nível e mereceu o seu Oscar de coadjuvante pelo seu trabalho impecável em OS INTOCÁVEIS.

O sujeito faz o papel de Jim Malone, um correto guarda de rua prestes a se aposentar e por isso, a princípio, não aceita fazer parte do grupo. Mas depois se encarrega de fazer o “trabalho sujo” e ações mais violentas contra Capone. “Ele puxa uma faca, você saca o revólver. Ele manda um dos seus para o hospital, você manda um deles para o necrotério. Essa é a Lei de Chicago”. Uma aula de interpretação.

Malone ajuda Ness a escolher a dedo um cadete, que ainda não foi comprado por Capone, e entra em cena um jovem Andy Garcia. O quarto Intocável é o desajeitado, mas decidido, fiscal de rendas, vivido por Charles Martin Smith, que não hesita quando Malone lhe oferece uma escopeta para entrar em ação.

 

E o que não poderia faltar em OS INTOCÁVEIS são boas sequências de tiroteios em que o quarteto se envolve, estraçalhando os inimigos com chumbo grosso, como na parte que se passa na fronteira com o Canadá, quando interceptam um carregamento de bebidas. A dose de violência também não vai deixar na mão os amantes de uma sangreira, como o assassinato no elevador. Noutra cena, logo no início, De Palma explode uma garotinha segurando uma bomba numa maleta… se fosse filmado hoje, nesta “maravilha” de mundo politicamente correto que vivemos, o filme teria vários problemas… Temos até Brian De Palma brincando de Dario Argento, com o ponto de vista subjetivo na cena do meliante que tenta entrar na casa de Malone. Um puta trabalho de câmera!

Mas o ponto máximo de OS INTOCÁVEIS foi a cena da escadaria da Union Station, um misto de suspense e ação de cortar a respiração. Ness tenta capturar uma testemunha chave para o julgamento de Capone. O cerco armado. Uma mulher que acaba de chegar de viagem aparece com um carrinho de bebê e, com muita dificuldade, resolve subir a escadaria enquanto o local vai se enchendo de figuras ameaçadoras. Basta esses simples elementos em jogo para que De Palma bote para arregaçar num tiroteio desenfreado, cuidadosamente esculpido e editado, para servir tanto de atrativo para o público, demonstrando as façanhas dos Intocávais, quanto homenagem à uma das cenas mais famosas do cinema mudo, o massacre na escadaria do filme russo O ENCOURAÇADO DE POTENKIM, de Sergei Eisenstein.

Numa época em que eu não fazia idéia de quem era Brian De Palma, lá pelos meus dez anos, no início dos anos 90, tive contato com OS INTOCÁVEIS enquanto passava numa madrugada no Corujão da Globo e como não era sempre que eu podia dormir tão tarde, gravei em VHS. Aquela fita ficou até gasta de tantas vezes que passava no velho vídeo cassete quatro cabeças do meu velho. O filme não é nem o meu favorito do De Palma, mas acabo tendo uma ligação bem maior por conta da nostalgia, por ser um dos vários exemplares responsáveis por me fazer amar tanto o cinema.

O ASSASSINO DE SHANTUNG (The Boxer from Shantung, 1972)

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Comprei bastante DVD’s visitando as lojas e sebos no centro de São Paulo nesta última viagem. Estava na companhia do Takeo, que ficava fazendo suas recomendações. Acabei tendo que comprar uma mala só pra carregar pra casa a quantidade de DVD’s que adquiri. Então já sabem, tenho muitas pérolas pra ver e comentar aqui no blog (falo como se antes eu não tivesse… Esse vício de acumular filmes me consome)! Hoje conferi O ASSASSINO DE SHANTUNG, um dos maiores clássicos da Shaw Brothers, dirigido pelo genial Chang Cheh, e que o Herax já havia me recomendado há mais de um ano. É, demorei muito pra assistir, mas até que valeu a pena esperar para ter o DVD nacional em mãos, lançado pela China Vídeo. É simplesmente um puta filmaço!

Tendo em mente que se trata de uma espécie de SCARFACE das artes marciais, dá pra ter uma noção do que o enredo tem para oferecer. A trama aborda a típica história do sujeito do interior que vai à cidade grande em busca de uma vida melhor, acaba se envolvendo com o submundo da máfia e etc, e se torna um chefão do crime organizado. Mas como se trata de um filme de luta da Shaw Bros., temos aqui um jovem lutador de kung fu, Ma Yongzhen (Chen Kuan-tai), que vai a Xangai tentar a sorte. Envolve-se com as gangues locais e como é lutador extremamente habilidoso, forte pra burro, Ma constrói sua ascensão à base da porrada, até chegar ao topo!

Ma-in-ActionO ASSASSINO DE SHANTUNG até ensaia algum discurso social sobre o tema, mas o que sobra mesmo são os momentos de pancadaria. As lutas não possuem o alto nível de coreografia como em futuras produções e Chen Kuan-tai não é exatamente um Bruce Lee, mas até que são muito boas, principalmente porque Chang Cheh tem muita noção do que precisa para criar cenas de impacto visual, seja na forma como a câmera se movimenta no acompanhamento dos personagens, ou no apelativo uso da violência e tinta vermelha como sangue. Ter Lau Kar Leung como responsável pela coreografia também deve ter ajudado bastante! A sequência final é de uma brutalidade impressionante! Cheh é um mestre em criar finais violentíssimos e este aqui é um de seus mais sangrentos!

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Ainda sobre esse desfecho, achei muito semelhante alguns detalhes entre os finais de O ASSASSINO DE SHANTUNG e a versão dos anos 80 de SCARFACE, dirigido por Brian De Palma. Vou soltar alguns SPOILERS, estejam avisados. Nos dois filmes os personagens continuam pelejando mesmo feridos. Ma com uma machadinha enfiada na barriga continua lutando contra vários oponentes e Al Pacino sendo alvejado por todos os lados permanece de pé atirando. Os dois também são pegos por trás, de surpresa, e ambos caem de uma certa altura sem vida. Será que estou divagando ou não passa de coincidência? Não tenho a informação de que De Palma tenha assistido a este aqui para se inspirar…

Independente de ter inspirado ou não o diretor americano, O ASSASSINO DE SHANTUNG é, com toda certeza, uma obra de grande influencia para o cinema de artes marciais dos anos 70! Recomendo fortemente essa belezinha com o padrão Chang Cheh de qualidade!

MACHINE GUN KELLY (1958)

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Já devo ter comentado sobre o Roger Corman num dos primeiros posts do blog, mas vale a pena relembrar. Corman foi um dos grandes mestres do cinema B americano, prolífico produtor e diretor de cinema fantástico, western, policial e exploitation de todas as espécies, além de ter revelado vários cineasta como Scorsese, Coppola, Monte Hellman, Joe Dante, e uma lista infindável. Uma de suas principais características é a velocidade na qual realiza suas produções. MACHINE GUN KELLY, por exemplo, teve apenas oito dias de filmagens e faz parte de uma série de gangster movies que realizou na época.

O filme é livremente inspirado na vida de George Kelly – conhecido como Machine Gun Kelly pelo fetiche que tem por sua metralhadora – um perigoso bandido da década de 30, que foi impulsionado pela mulher ambiciosa a trilhar o caminho do crime. Quem encarna o sujeito é ninguém menos que Charles Bronson; e quem pensa que ele era um iniciante naquela época está enganado. MACHINE GUN KELLY era seu vigésimo segundo filme (embora tenha sido seu primeiro com maior importância) e sua interpretação está entre as melhores que o ator já compôs, principalmente no que se refere aos detalhes da construção de personagem, como a fobia pela morte, por exemplo.

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A direção de Corman é inspirada. Com uma simples cena ele resume toda a essência do personagem de Bronson, aquela em que o ator brinca de bater palma com a criança sequestrada. Além disso, a criatividade do diretor para driblar o baixo orçamento é absurda, como no primeiro assalto logo no início, onde mostra apenas a sombra do policial que é baleado pela metralhadora de Kelly numa solução bem simples e muito funcional; isso sem contar os diálogos muito bem colocados no roteiro de R. Wright Campbell (roteirista de várias produções do Corman e de HELLS ANGELS ON WHEELS, de Richard Rush).

Mas MACHINE GUN KELLY possui algumas irregularidades narrativas que decorrem por causa da pressa da produção, do baixo orçamento, o que afeta o ritmo. O filme começa muito bem, mas tem suas decaídas, não preza muito por cenas de ação e tudo isso não permite que o filme saia do limbo preconceituoso que a crítica “séria” tem com os filmes B, pois na verdade nenhum destes detalhes atrapalha a diversão. O fato é que é um ótimo filme e a forma como Corman trata psicologicamente seu personagem é digna de um cinema inventivo muito além de seu tempo.

WISE GUYS (1986)

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Para quem está acostumado com os filmes de Brian De Palma, sempre carregados de tramas violentas, homenagens à Hitchcock e suspenses elaborados por uma câmera virtuosa, vai se surpreender com o diretor no comando de WISE GUYS. Uma comédia leve e divertida que o diretor aceitou fazer a convite do produtor Aaron Russo, após realizar DUBLÊ DE CORPO (84). O início da carreira de De Palma é marcada por algumas comédias que satirizavam politicamente o modo de vida americano da época, como GREETINGS (68) e HI, MOM! (70), ambos estrelados por um jovem Robert de Niro antes de iniciar sua parceria com o diretor Martin Scorsese. Ou seja, De Palma já havia provado antes o talento do ator.

Mas vamos ao WISE GUYS cuja história gira em torno de dois membros atrapalhados da máfia de New Jersey, interpretados por Danny De Vito e Joe Piscopo. O filme remete aos trabalhos do Scorsese mostrando a uma máfia de baixa categoria e sem o glamour de Tony Montana do filme SCARFACE (83), que De Palma havia dirigido alguns anos antes. Os dois sujeitos, na verdade, recebem sempre os trabalhos mais pífios e são ridicularizados pelos outros membros. Ao receberem a “grande missão” de apostarem num cavalo de corrida, acabam colocando o dinheiro em outro cavalo, achando que o favorito de seu chefe perderia, o que não acontece. Os dois são marcados como traidores, mas ao invés de matá-los subitamente, Tony Castelo (Dan Hedaya), o chefão da parada, coloca-os com a missão de matar um ao outro.

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WISE GUYS é um ótimo exercício de direção para De Palma que, apesar de não realizar nenhuma acrobacia com sua câmera, deixa seus atores brilharem livremente no gênero que já estão à vontade. Danny De Vito surpreende com um dos papéis mais engraçados de sua carreira e Joe Piscopo demonstra toda sua expressividade cômica. O elenco ainda é formado com Frank Vincent, Harvey Keitel e Lou Albano (talvez o personagem mais divertido). O filme não foi muito bem de bilheteria nos Estados Unidos e acabou sendo esquecido automaticamente, infelizmente. Mas realmente não é nenhuma maravilha. Algumas situações do roteiro poderiam ser melhor exploradas e o final é um tanto forçado e preguiçoso.

No Brasil recebeu o título cretino de QUEM TUDO QUER, TUDO PERDE, o que contribuiu ainda mais para o esquecimento por aqui. Além disso, o estúdio resolveu meter o dedo no material final contra a vontade de De Palma. Mas nada que estrague a diversão, principalmente nos dois primeiros atos, quando a história é conduzida de maneira simples com ótimos momentos, como a cena em que De Vito recebe a ordem de ligar o carro de seu chefe, uma aula de montagem e tensão cômica. Ou o assassinato na igreja, praticamente uma mistura genial do pastelão com o rigor intrigante do suspense de De Palma.