KINJITE: DESEJOS PROIBIDOS (1989)

Filme todo errado, fim de carreira, literalmente, pra uma galera envolvida – último filme do diretor J. Lee Thompson, último filme do Bronson pra cinema, uma das últimas produções da Cannon, já toda endividada e sem muito orçamento pra investir… Tudo isso meio que reflete também o tom desesperado de KINJITE: DESEJOS PROIBIDOS (Kinjite: Forbidden Subjects) em querer ser uma espécie de exploitation de extrema urgência, feito pra ganhar bilheteria, abordando temas apelativos, como tráfico humano, de menores, mas que só resulta mesmo num produto do mais baixo nível – racista, sexista, xenófobo para um caralho…

Bronson interpreta o tenente Crowe da polícia de Nova York. Ele tem uma obsessão por um cafetão e traficante de crianças chamado Duke (Juan Fernández), que está sempre à procura de carne fresca, incluindo a vestal Nicole Eggert na cena de abertura, que tinha 17 anos na época, e que recentemente postei sobre um filme com ela por aqui: THE HAUNTING OF MORELLA.

Crowe tem uma filha adolescente com quem é muito protetor (daí o interesse especial em Duke) e quando ela é apalpada no ônibus por um executivo japonês que se mudou para Los Angeles, o sujeito fica furioso, faz um discurso terrivelmente racista bem no meio de uma multidão de asiáticos. Aqui a coisa entra numa situação tão bizarra que os roteiristas mal se esforçam pra resolver… Mas tudo bem. O fato é que Crowe não sabe que o homem que tocou na sua filha teve sua própria criança, muito mais nova, sequestrada por Duke. Sem o seu conhecimento, Crowe agora está ajudando o abusador de sua filha…

O personagem de Bronson em KINJITE é uma espécie de extensão de seu personagem em DESEJO DE MATAR, o vigilante Paul Kersey. Um revoltado contra o sistema e angustiado pelo mundo violento que o rodeia. Ele bate nas pessoas, atira nelas e, pasmem, enfia um vibrador na bunda de um cara para arrancar informações dele… Há uma cena em que Crowe “sequestra” o próprio Duke e o faz comer um Rolex caríssimo. E depois coloca fogo no carro do traficante. O personagem do Bronson deveria procurar um psiquiatra urgente. Mas, como estamos diante de um filme, uma obra de ficção, é preciso dizer que essa cambada mereceu o tratamento do policial. Incluindo a punição de Duke no final do filme e que comento a seguir.

Duke é um vilão da pior espécie. O cara sequestra a menina japonesa, a leva para seu apartamente onde ele e seus capangas (um deles o grande Sy Richardson) fazem fila para “experimentá-la” antes de a entregar no mercado de prostituição infantil. Se existe algo que não dá pra acusar de KINJITE é de não ser subversivo. Eu diria até que poucos cineastas do underground chegariam a tão baixo nível…

Algumas cenas memoráveis: Obviamente que a do Bronson segurando um pênis de borracha seria um destaque. Outra que gosto é quando Crowe e seu parceiro colocam o personagem de Richardson de ponta cabeça na varanda de um prédio, só para assustá-lo e arrancar algumas informações, e o sujeito acaba despencando lá de cima numa piscina. É divertida. Mas fica melhor ainda pelo grau baixíssimo da produção. Richardson tem a pele negra e quando vemos o dublê boiando é um cara branco… Que situação. O clímax de KINJITE também é bacana, uma ceninha de ação, bem elaborada, com Bronson sendo o badass de sempre, empunhando um revólver e despachando meliantes. E, claro, agora sim, quando Duke é preso e está sendo colocado numa cela, os prisioneiros ficam alvoroçados. Um deles é ninguém menos que Danny Trejo, que tem apenas uma fala, mas é bem receptiva. Ele dá as boas-vindas ao recém chegado:

Sobre o executivo japonês, como disse, fica por isso mesmo. O cara recupera a sua filha, mas nunca acerta as contas com Crowe por ter passado a mão na filha do policial…

Enfim, apesar do mau gosto que paira no ar em vários momentos, vocês vão me desculpar, mas KINJITE é simplesmente impagável. Ver Charles Bronson segurando uma manjuba de borracha pra enfiar lá “onde o sol não brilha” de um sujeito é simplesmente algo que nem um Dirty Harry teria coragem. São MUITAS as sequências dessa porcaria que me fazem dar altas risadas e várias cenas que tornam isso aqui marcante, uma diversão das boas. O tipo de filme que acabo curtindo pelos motivos mais bizarros possíveis.

CROCODILO (2000)

Acreditem, pode parecer que não, tendo em vista alguns dos últimos posts aqui no blog, mas até eu tenho meus limites com o nível de ruindade de alguns filmes. E CROCODILO (Crocodile) parece testar esses limites ao máximo. Produzido pela Nu Image e dirigido pelo grande Tobe Hooper, que tem no currículo alguns dos maiores clássicos do horror de todos os tempos – O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, FORÇA SINISTRA – trata-se de um exemplar de eco-horror, que até possui seus momentos, mas no geral é um produto decepcionante para os fãs do diretor.

A trama possui uma semelhança passageira com outro filme de Hooper, a maravilha EATEN ALIVE, de 1976. Ambos contam com a presença de um hotel isolado e um grande réptil faminto. Mas em CROCODILO a coisa não gira em torno exatamente disso, ao contrário do filme de 76, apenas surge uma historinha contada ao redor de uma fogueira sobre o dono de um hotel no início do século XX, que importou um crocodilo egípcio ao local… A trama mesmo transcorre num Spring Break, quando oito jovens decidem se reunir numa casa-barco para curtir, beber e aproveitar a vista do lago… À medida que a coisa avança, eles descobrem que o lago esconde o tal crocodilo gigante que vai mastigar alegremente qualquer um que se aproxime de seus preciosos ovos.

O lado bom de CROCODILO é quando o dito cujo está em cena. Quero dizer, “bom” entre aspas, porque aqui entra o lado galhofa e tosco que eu realmente amo nesse tipo de filme, apesar de Tobe Hooper saber o que fazer com a câmera para criar um suspensezinho bacana e algumas cenas de violência. Só que os efeitos especiais, sobretudo o crocodilo de CGI, são alguns dos mais vagabundos que eu já vi na vida, parece imagens saídas de algum jogo de Playstation 1 do final dos anos 90, o que torna esses momentos deliciosamente mais incríveis. Uma lindeza.

Agora, o lado ruim é… Só todo o restante do filme. A trama meio que se arrasta na maior parte do tempo, algumas decisões que o filme toma são as mais equivocadas possíveis, gerando momentos absurdos de constrangedores, como a cena final da mocinha entregando ao crocodilo assassino o seu filhote (imagem acima)… O bagulho é, ao mesmo tempo, engraçadíssimo pela tosquice, mas também de um mau gosto que chego a duvidar se o Tobe Hooper realmente tava feliz em filmar algo do tipo (e com o resultado na pós-produção). 

Além disso, somos obrigados a acompanhar um grupo de personagens enfadonhos e irritantes, com seus dramas de relacionamento que ninguém dá a mínima. E todos interpretados sem o menor carisma por um elenco indiferente. Talvez se o co-produtor Boaz Davidson, que até recebe crédito pela história, tivesse realmente escrito o roteiro e aplicado sua visão da juventude, como demonstrou quando dirigiu a obra-prima O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM, os jovens protagonistas de CROCODILO teriam sido menos desagradáveis. Ou pelo menos teria valido a pena se preocupar com eles. Aqui, a gente só quer vê-los devorados pelo grande crocodilo o mais rápido possível…

Enfim, não vou nem me prolongar. Curioso pra saber se vocês acham que estou sendo muito injusto com o filme ou se esse é realmente o pior filme de Tobe Hooper. Deixem aí nos comentários alguma impressão, caso tenham assistido. E se você por acaso botou na cabeça que quer encarar essa tralha mesmo assim, recomendo deixar algumas latinhas de Itaipava bem geladas à mão para diminuir a dor. E assista com alguns amigos pra pelo menos tirar um sarro com o crocodilo de CGI. O filme vai continuar uma merda, mas pelo menos vai deixar a experiência mais interessante..

O ENIGMA DE TALOS (1998)

Filme de múmia, lançado em 1998, que foi eclipsado pelo seu “primo rico” no ano seguinte, A MÚMIA (99), de Stephen Sommers. Hoje ninguém mais lembra de O ENIGMA DE TALOS (Tale of the Mummy), dirigido pelo grande Russell Mulcahy. Mas não vou julgar… O filme é mesmo meia boca, um tipo de produto barato que, muito provavelmente, produziram às pressas pra tentar lançar no mercado de home video à tempo de aproveitar o sucesso do filme de Sommers. Acabaram se adiantando até demais. Só não deve ter dado muito certo sobre “aproveitar o sucesso”. O resultado é uma desgraça, a trama é toda bagunçada, cheia de momentos ridículos e constrangedores.

Mas lá fui eu ver, porque sou grande admirador do trabalho do Mulcahy (HIGHLANDER, RAZORBACK, etc…) e nunca tinha visto este ainda. E apesar de concordar com tudo que disse ali em cima, eu gosto dessa tralha. O que posso fazer? É o tipo de filme todo errado que me diverte, tem um elenco bacana e percebe-se que tentaram fazer algo… Diferente? Original? Por exemplo, um filme de múmia sem que aparecesse uma múmia na maior parte do tempo. Ao invés disso, a múmia é representada apenas pelas suas bandagens, sem corpo, que voam, rastejam e atacam as pessoas nas mais diversas formas. Se tivessem orçamento para fazer algo decente, acho que isso não soaria tão bizarro. Mas, bem, não tinham…

Senhoras e senhores, o assassino do filme.

A premissa de O ENIGMA DE TALOS até que é interessante, envolvendo o básico dos filmes de múmias – antigas maldições, reencarnação e ressurreição de algum feiticeiro egipcio de tempos longínquos. O filme começa no Egito, na década de 40, com uma escavação arqueológica malfadada que desenterra a tumba de um tal Talos. Liderando a expedição está Sir Richard Turkel (o inigualável Christopher Lee, que já foi múmia para a Hammer Films), que percebe tarde demais que a tumba contém uma força maligna. Sir Richard é forçado a se sacrificar e selar a tumba antes que o mal possa escapar.

Essa sequência inicial talvez seja a melhor de todo o filme. E demonstra o contraste da direção de Mulcahy, que é ótima, com suas composições elaboradas, bom trabalho de câmera, de atmosfera, mas com os efeitos especiais em CGI dos mais ordinários que os anos 90 nos proporcionava. Coisa do nível de MORTAL KOMBAT ANNIHILATION. Ou seja, uma maravilha!

Ainda na trama, passam-se décadas e a neta de Sir Richard, Samantha Turkel (Louise Lombard), que também se tornou arqueóloga, reabre a tumba na esperança de descobrir o que realmente aconteceu com seu avô. Dentro da tumba, Samantha e uma equipe de cientistas descobrem uma câmara mortuária incomum contendo o sarcófago de Talos. No entanto, em vez de encontrar uma múmia dentro do sarcófago, apenas suas bandagens são tudo o que parece ter sobrado do misterioso Talos.

E nisso temos outra sequência sensacional comandada pelo Mulcahy, com direito a participação de um jovem e desconhecido Gerard Butler…

Uma vez removidos dos confins da tumba, e levados para um museu em Londres, os envoltórios assumem vida própria, reivindicando órgãos de suas vítimas pela cidade. As mortes vão acontecendo com essas bandagens assassinas e o filme se transforma numa trama de investigação policial, tendo como protagonista Jason Scott Lee, um americano, investigador de polícia, que se envolve no caso e acaba tendo que proteger Samantha da força que foi libertada quando ela abriu o túmulo de Talos.

E pra deixar tudo ainda mais doido, quando Talos finalmente surge na tela, o sujeito tem um aspecto de alienígena, peladão, com pés de bode… Não sei que tipo de drogas os caras usaram pra conceber algo dese nível, mas queria também. É uma das coisas mais tronchas e engraçadas que já vi na vida.

Enfim, eu realmente não sei o que pode ter acontecido, mas a impressão que dá é que o dinheiro para a pós-produção desapareceu, acabou, alguém passou a mão, e no final das contas eles fecharam um filme muito bem realizado, bem dirigido, mas com efeitos especiais e outros detalhes realmente pífios. Claro, o roteiro não é mesmo dos melhores, a coisa é totalmente desconjuntada e sem sentido em alguns momentos e os últimos 20 minutos de filme deixa isso ainda mais evidente (embora o desfecho tenha umas surpresinhas que me deixaram com um sorriso no rosto), mas fica o sentimento de que começaram algo com uma ideia em mente e depois cagaram tudo…

Mas é aquilo, se você olhar para além da tosqueira, é um terrorzinho bem divertido e imaginativo, com Mulcahy em alta forma. O filme tem bom ritmo (existe uma versão que possui vinte minutos a mais e eu, sinceramente, dispenso), é altamente visual, as ideias, claro, são bizarras (como a cena do cara sendo sugado pra dentro de um vaso sanitário numa boate) mas funcionam de alguma maneira e os atores estão muito bem. O elenco conta ainda com Sean Pertwee (um dos destaques do filme), Jon Polito, Jack Davenport, Honor Blackman e a “Olívia Palito” Shelley Duvall.

É como se O ENIGMA DE TALOS fosse concebido para ser uma obra muito maior, um filme de múmia visionário. Vai saber o que aconteceu, acabou negligenciado de alguma forma… Mas os fãs de terror que conseguem separar um momento para serem menos exigentes e curtir umas tralhas certamente terão um tempinho de entretenimento com o filme. Nem que seja pra dar umas risadas das ataduras assassinas…

OLHOS NOTURNOS (1990)

Quando se pensa nas origens do subgênero “thriller erótico“, a maioria das pessoas vão imediatamente para INSTINTO SELVAGEM, de 1992, que acabou ganhando notoriedade e créditos pelo pioneirismo no estilo. Ignoram o fato de que existiam títulos lançados direto para vídeo que são anteriores ao filme de Paul Verhoeven, que definiram várias características e estética do gênero e que foram tão copiados quanto o filme do holandês, gerando um vasto número de exemplares nos anos 90. OLHOS NOTURNOS (Night Eyes) é um desses produtos seminais a que me refiro.

Não é lá um bom filme, é preciso dizer. Mas, independente da sua qualidade, possui um valor histórico imprescindível. Claro, valor sobretudo para os amantes de um erotic thriller do tipo que passava aos sábados nas madrugadas da Bandeirantes (e ainda passa, mas sem a mesma graça) na famigerada sessão Cine Privé. Para essa rapaziada, essa pequena produção dirigida por Jag Mundhra e estrelada por Andrew Stevens e Tanya Roberts tem lá sua importância. Agora, se você não se interessa por isso, pode viver sua vida tranquilamente sem ter contato com OLHOS NOTURNOS.

O Night Eyes do título original é o nome estranhamente pervertido da empresa de segurança privada administrada pelos irmãos Griffith, Will (Stevens) e Ernie (Cooper Huckabee). Na trama, um astro do rock, Brian Walker (Warwick Sims), contrata os serviços dos irmãos para vigiar sua esposa, Nikki, que ele acredita ser infiel e está pedindo divórcio. O que não faz o menor sentido. Já que eles estão se separando, já não moram nem na mesma casa, a mulher pode dar pra quem ela quiser sem que isso caracterize infidelidade… Mas, na lógica do filme, flagrar a mulher na cama com outro homem ajudaria o roqueiro no processo de divisão de bens. Sendo que logo na apresentação do casal, o filme mostra que quem pula a cerca, na verdade, é justamente o roqueiro…

Enfim, como a esposa é interpretada pela belezura Tanya Roberts, a eterna SHEENA – A RAINHA DAS SELVAS, obviamente a espionagem do pobre Will se transforma em voyeurismo, que então se converte em um caso ardente entre os dois. O problema é que ao mesmo tempo em que aproveita da parte boa dessa situação, Will agora se vê envolvido num plot cheio de perigos e mistérios…

Como thriller, NIGHT EYES até consegue se estruturar de forma decente. O diretor Jag Mundhra, que acabou se especializando nesse tipo de filme, tenta manter as coisas em movimento, tenta manter o interesse de alguma maneira, apesar de não ser eficiente a todo instante. Há vários momentos em que o ritmo é bem zoado, nada parece acontecer. A abertura e o desfecho do filme até possuem um climinha de suspense, uns tiros, luta, mas nada que impressione muito.

Mas, pelo menos o elenco oferece algumas boas atuações, principalmente Tanya Roberts, como uma femme fatale ambígua e sedutora. Andrew Stevens, que também produziu e escreveu o roteiro de OLHOS NOTURNOS, se esforça como protagonista e até que consegue dar um pouco de carisma ao seu personagem. Não deixa de ser interessante ver o sujeito ao longo da trama sendo lentamente tragado para os braços da mulher que ele deveria espionar.

Agora, como um exemplar de Cine Privé, ou seja, o quesito erótico, a coisa complica. Nudez e cenas de sexo são escassas, reduzidas ao mínimo por aqui. Tudo filmado com certa distância, apressada, sem explorar muito os padrões de imagem que o público desse tipo de produto gosta de ver. Como ressaltei, OLHOS NOTURNOS era o começo de uma nova safra, ajudou a dar o pontapé inicial no subgênero “erotic thriller“, então ainda estavam em fase de teste, tentando encontrar o tom que realmente interessava. E o que interessava, aparentemente, à Mundhra e Stevens neste primeiro momento era explorar mais os aspectos do thriller do que a pele dos atores. Algo que foi se invertendo ao longo tempo: mais peitos de fora e roteiros cada vez mais fracos.

Mas não se preocupem, porque o filme não deixa o espectador sem ao menos o básico:

Existem alguns exemplares icônicos do período que conseguiram equilibrar as duas coisas – suspense e teor erótico – e são autênticos clássicos do Cine Privé, como CONVITE À TRAIÇÃO (96), de Gary Graver, PRIVACIDADE OBCENA (1995), de Lee Frost, OBSESSÃO FATAL (1997), de Fred Olen Ray, e outros…

OLHOS NOTURNOS, apesar de não chegar aos pés de nenhum desses, foi um dos responsáveis por moldar seus estilos. Esses filmes devem muito mais a este aqui do que um INSTINTO SELVAGEM, CORPO EM EVIDÊNCIA, etc… Além disso, OLHOS NOTURNOS teve relativo sucesso na TV à cabo, VHS, e acabou ganhando três continuações ao longo dos anos 90, todas estreladas por Andrew Stevens. Então, para quem é fã do gênero, acho que vale uma conferida. Só não esperem muita coisa.

MORELLA: O ESPÍRITO SATÂNICO (1990)

Uma das fases mais emblemáticas do produtor e diretor Roger Corman foi o seu ciclo Edgar Allan Poe nos anos 60, adaptando livremente vários contos do autor e criando algumas maravilhas do cinema de horror americano do período. E tendo como presença quase constante o ator Vincent Price, no seu auge, a coisa se torna ainda mais obrigatória a qualquer amante do gênero. Já comentei alguns desses filmes aqui no blog (clique aqui).

Nos anos 80 e 90, Corman resolveu produzir refilmagens de seus filmes, sobretudo vários sci-fis que havia realizado nos anos 50, colocando seus pupilos para dirigir e atualizar seu imaginário para este novo momento. E obviamente retoma sua abordagem em Poe, como por exemplo MORELLA: O ESPÍRITO SATÂNICO (The Hauting of Morella), um conto gótico atmosférico bem ao estilo do que fazia nos anos 60 com Vincent Price, cujo conto original havia sido adaptado por Corman numa das historinhas que fazem parte da antologia MURALHAS DO PAVOR (1962).

E o diretor da vez, para esta nova versão, foi o grande Jim Wynorski.

O enredo é vagamente baseado no conto intitulado Morella, publicado em 1835. Na história original de Poe, a personagem Morella estuda os filósofos alemães Fichte e Schelling, conhecidos por seu “idealismo transcendental”, teoria sobre o qual os objetos da cognição humana são aparências e não coisas em si mesmas. Um troço filosófico pra cacete. Ainda no conto original, quando Morella morre, ela amaldiçoa sua filha recém-nascida que cresce para se parecer com ela. Após seu batismo, é possuída por sua mãe. Já nessa versão de Corman/Wynorski, Morella, interpretada por Nicole Eggert (uma daquelas moças de maiô vermelho da série SOS MALIBU), é brutalmente morta, queimada na fogueira, como uma bruxa e amaldiçoa sua filha recém-nascida na esperança de renascer nela.

Dezessete anos depois, sua filha Lenora (novamente Nicole Eggert, em papel duplo), é agora uma adolescente super protegida pelo seu pai, Gideon (David McCallum), arrasado e decrépito desde a morte da esposa. A governanta da casa, Coel Devereux (Lana Clarkson), serva de Morella e que sabe da maldição, acha que é hora de sua ama retornar e deixar Lenora ser possuída por sua mãe. Mas Lenora é forte e a possessão não dura o suficiente. Então o próximo plano é ressuscitar completamente o corpo de Morella dos mortos, e isso significa sacrifícios humanos, cujo sangue reconstrói o cadáver da mulher.

MORELLA: O ESPÍRITO SATÂNICO representa uma rara digressão a um horror mais sério para Jim Wynorski, evitando o humor irônico que tipifica seu trabalho. Algo que refletiu durante um tempo em alguns dos seus melhores trabalhos subsequentes, como 976-EVIL II (1991) e TENTAÇÃO (1995), e que redefinem várias das ideias e cenas de MORELLA: O ESPÍRITO SATÂNICO. Especificamente em situações que envolve a linha fina que separa fantasia e realidade. E Wynorski demonstra boa mão para criar uma atmosfera mais densa e trabalhar situações de puro horror. As sequências que envolvem o cadáver decomposto de Morella são especialmente interessantes, e quando Lenora navega por uma paisagem infernal, depois de atravessar um espelho, é um espetáculo visual de fantasmagoria que lembra bastante alguns momentos do próprio Corman em seus filmes dos anos 60.

Eu realmente fiquei surpreso com o resultado aqui. Tem tudo o que você espera de um horror gótico; cemitérios nebulosos, antigas catacumbas de pedra, candelabros por corredores de uma mansão escura, cerimônias macabras, banhos de sangue e elementos sobrenaturais pairando a trama. Como estamos em 1990 por aqui, o período em que MORELLA: O ESPÍRITO SATÂNICO foi realizado proporcionou alguns ingredientes a mais para misturar nessa receita gótica. Então temos uma adaptação de Poe com tudo aquilo que Corman não podia colocar trinta anos antes: boas doses de sangue e de peitos balançando na tela. O resultado é puro CINEMA!

E quem já está familiarizado com o cinema de Jim Wynorski, diretor que contribuiu bastante até com exemplares de filmes que passam (sim, ainda passam) no Cine Privé, sabe que não vai faltar por aqui uma quantidade admirável de pele aparecendo na tela. E nesse sentido, é impossível não destacar a presença escultural de Lana Clarkson, que além de permitir que seus dotes respirem um ar puro em algumas cenas, ainda está magnífica em seu papel como a ameaçadora Devereux.

A mulher está de arrasar por aqui. Maldito seja o Phil Spector! Gosto como até em momentos mais singelos, Clarkson consegue deixar a coisa estranhamente erótica, como a cena em que Eggert senta com o rosto numa altura bastante propícia ao lado dela, tudo muito bem enquadrado por Wynorski (imagem abaixo). A sequência em que ela dá uns amassos em Maria Ford (outra beldade habitual nos filmes do diretor), antes de assassiná-la e oferecer seu sangue à Morella, debaixo de uma cachoeira, é uma das mais belas de toda a carreira de Wynorski (também abaixo). E sim, nós sabemos que esse tipo de vestimenta não era usada no período que o filme se passa… Mas quem liga pra isso?

Nicole Eggert tem um desempenho bem decente como Morella/Lenora (mais como Morella, pra ser sincero) – papéis inicialmente oferecidos a Traci Lords, ex-atriz pornô que já havia trabalhado com Wynorski em NOT FOR THIS EARTH. Nada que fosse despertar a atenção de um prêmio de talento dramático para a moça, mas ela consegue convencer sua situação de crise existencial enquanto lida com sua linhagem contaminada por uma maldição.

É evidente que se você for um admirador mais purista do horror gótico de uma Hammer Films, Mario Bava ou do próprio Corman no Ciclo Poe dos anos 60, talvez ache THE HAUNTING OF MORELLA um bocado caído e apelativo. E realmente não é lá um grande filme. Mas, pra quem só quer ter 90 minutos (e isso aqui não chega nem a isso tudo) de diversão, é um filme que oferece vários atrativos. O enredo é simples. O visual é legal. E a quantidade de mulheres nuas é generosa. Então pra mim já tá muito melhor que a maioria dos filmes de horror da atualidade.

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CARNOSAUR (1993)

Depois do sucesso de PARQUE DOS DINOSSAUROS, de Steven Spielberg, em 1993, era evidente que algum produtor espertinho entraria na modinha dos filmes de dinossauros. E por que não? Roger Corman, que não é chamado de rei dos B Movies à toa, antes mesmo de saber se a coisa ia vingar colocou CARNOSAUR em produção ao mesmo tempo em que Spielberg fazia o seu blockbuster. Com um décimo do orçamento, é claro. O filme acabou sendo lançado antes até que o seu “primo rico”…

Na trama, um conglomerado secreto de agências governamentais dá à Dra. Jane Tiptree (Diane Ladd) financiamento e equipamentos para seus experimentos de biotecnologia. Mal sabem eles que ela usou seu gênio do mal e recursos do governo para criar uma nova raça de predadores, misturando genes de galinhas com os de lagartos pré-históricos. Seu plano é exterminar a humanidade com uma nova raça de dinossauros bio-projetados. A coisa só melhora, atingindo alto nível de absurdo: ela criou um vírus que infecta apenas mulheres, fazendo com que fiquem grávidas dando à luz a embriões de dinossauros. Seu plano diabólico é fazer com que todas as mulheres na Terra sejam infectadas, deixando a raça humana morrer enquanto os dinossauros assumiriam o controle.

Quando misteriosamente um caminhão de galinhas transporta um bebê dinossauro do tipo Velociraptor para fora do laboratório, a coisa dá-se início… Em outro cenário, num canteiro de obras, conhecemos o herói da trama, o vigia noturno Doc Smith (Raphael Sbarge), que é adepto a um goró e anda tendo alguns problemas com hippies abraçadores de árvores que invadem o local para se acorrentarem às máquinas, seja lá por qual motivo. Enquanto isso, corpos estraçalhados vão surgindo e o vírus vai infectando as mulheres da região.

Quando os dinossauros começam a estourar seus ventres, o governo dos EUA entra em cena pra tomar uma atitude: matar todas as mulheres infectadas, à la THE CRAZIES, de George A. Romero… Uma garota chamada Thrush (Jennifer Runyon), ligada aos manifestantes hippies, acaba se infectando. E por estar envolvida com nosso amigo Doc, ele resolve adentrar no laboratório secreto para encontrar um antídoto antes que ela dê à luz a um dinossauro. E antes também que as forças do governo exterminem todas as mulheres infectadas.

Para escrever esse roteiro maluco, Corman escalou Adam Simon, diretor de uma de suas produções, MORTE CEREBRAL (1990), a partir do romance Carnosaur, do autor de ficção científica australiano John Brosnan, que não gostou muito do resultado, mas viu a procura pelo seu pequeno romance aumentar de forma considerável no período… Mas realmente, quem já assistiu ou pelo menos chegou até a este ponto do texto já matou que isso aqui não é nenhum PARQUE DOS DINOSSAUROS, nem tinha a pretensão de ser outra coisa além de um filme de monstro de baixo orçamento que consegue incluir tudo o que precisamos para ter um bocado de diversão. Dinossauros, violência e personagens peculiares e agradáveis de assistir.

Há algumas figuras aqui que se destacam até mais do que os dinossauros, como Diane Ladd. Sobretudo perto do final quando ela começa a se tornar poética e monologar sobre a grandeza da Terra e a natureza horrível da humanidade… Sua personagem é totalmente ridícula, mas ela consegue fazer o apreciador de uma boa tralha a não desgrudar os olhos da tela. E o curioso é que enquanto Ladd fazia este filme de dinossauros de baixo orçamento, sua filha, Laura Dern, era uma das estrelas de PARQUE DOS DINOSSAUROS. Que fase… Ned Bellamy não é um ator muito conhecido, mas também tem uma participação engraçadíssima por aqui, como diretor do conglomerado. No elenco, ainda temos Clint Howard interpretando o estranho da cidade local, o seu papel habitual. E qualquer filme em que Clint Howard tem a cabeça arrancada por um dinossauro já vale uma olhada.

Não querendo fazer nenhum tipo de comparação entre as duas produções, mas ao contrário de PARQUE DOS DINOSSAUROS, em vez de ver uma infinidade de espécies diferentes, em CARNOSAUR somos apresentados a apenas dois tipos de dinossauros, Raptors e um T-Rex. Se você só pode escolher apenas duas espécies, essas são definitivamente as escolhas certeiras. E ambos são confeccionados por meio do uso de efeitos especiais práticos, bonecos animatrônicos, miniaturas, etc… Claro, eles nunca parecem particularmente convincentes, as pessoas ficaram mal acostumadas com os dinossauros de Spielberg, mas a coisa aqui realmente funciona.

Todos os dinossauros são visualmente honestos, bem projetados, há só o pequeno detalhe de fazê-los se moverem… Hahaha! São um bocado rígidos e desajeitados. O tiranossauro é perfeito, até que ele começa a se mover. Mas não me interpretem mal, não são efeitos amadores. Você nunca vê zíperes, cordas, orifícios ou outras falhas, e os dinossauros nunca parecem estar “flutuando” ou algo parecido. O grande John Beuchler ficou responsável pela coisa e, apesar do orçamento, cumpre o que promete.

Já as cenas de violência, essas sim, merecem destaque… CARNOSAUR tem uma boa dose de gore e não tem receio algum de matar personagens. Na verdade, fiquei bastante surpreso com algumas das mortes. O filme se dá ao trabalho de apresentar figuras para logo em seguida armar para serem dilacerados por uma das criaturas. A sequência que o grupo hippie, acorrentado nos tratores no campo de obra, acaba devorado por um Raptor, sem poder fugir e se defender, é um dos momentos mais sublimes do filme, com direito a membros arrancados e muito sangue… E quando começam a mostrar mulheres dando à luz a dinossauros, o resultado pode ser bem nojento. Talvez seja o filme com mais violência gráfica que o Corman produziu.

Adam Simon, além de ter escrito o roteiro, faz um trabalho decente também na cadeira de diretor. Não é um sujeito brilhante, mas sabe exatamente o que é preciso colocar na tela para alegrar o coração dos fãs de B Movies, e tenta manter o ritmo rápido e agitado o suficiente para tornar CARNOSAUR realmente divertido. Um momento ou outro que a coisa fica enrolada, como a sequência da revelação da Dr. Triptree, montada com ações paralelas, um pouco longa demais. Mas no geral, CARNOSAUR é essa belezura do baixo orçamento. Não tenta copiar PARQUE DOS DINOSSAUROS, até porque seus realizadores nem o tinham como referência, a não ser a ideia de que era preciso entrar na onda dos filmes de dinossauro, e fizeram com muita personalidade. E, claro, com um óbvio objetivo de ganhar alguma grana. Você pode até não ficar emocionado com efeitos especiais espetaculares de dinossauros em CGI, mas certamente vai sair satisfeito com o que Corman e sua trupe fizeram aqui. Que é ser basicamente um filme de dinossauros mastigando humanos.

E até que o que filme teve relativo sucesso, recebeu alguns comentários de críticos “sérios”, como Gene Siskel, a dupla de Roger Ebert no programa Siskel & Ebert, e se tornou uma referência no circuito de exibição de “meia-noite” nos anos 90. E para expandir ainda mais seu universo, acabou ganhando duas continuações nos anos seguintes que também valem uma conferida.

007 À SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE (1969)

Ainda não assisti ao último James Bond, 007 – SEM TEMPO PARA MORRER, mas lembro que já comentei aqui no blog alguns filmes da série na ordem cronológica:

007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO
MOSCOU CONTRA 007
007 CONTRA GOLDFINGER
007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA
e COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES

Todos esses foram estrelados por Sean Connery, vivendo o papel do espião mais famoso do cinema. O filme seguinte é este 007 À SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE, que é uma espécie de anomalia na franquia 007. Lembro que quando era moleque, acostumado com os filmes do Roger Moore que passavam exaustivamente nas tardes da TV aberta, achei este aqui muito estranho. Era como se eu não estivesse vendo um filme de 007, o que pra minha cabeça de guri era algo negativo e me sentia enganado… Mas não tenho certeza de quando começou, passei a conhecer mais a mitologia James Bond, e em um certo ponto da vida comecei a me sentir particularmente atraído por essa bizarrice aqui. Ainda assim, vamos notar que tem um bocado de coisas fora do lugar…

A começar pelo herói. Pela primeira vez na franquia oficial, James Bond não foi encarnado por Sean Connery. Mas até aí tudo bem, qualquer um poderia ter assumido o posto e dado sequência na franquia. Só que George Lazenby, a figura escolhida para substituir Connery, acabou fazendo apenas este aqui, o que contribui para o “corpo estranho” que é o filme dentro do cânone do espião britânico.

Lazenby, que foi também o único ator fora da Grã Bretanha a viver o papel (ele é australiano), foi escolhido para ser 007 após um encontro ocasional com o produtor Albert R. Broccoli, que o convidou para fazer uma entrevista e testes de cena. O sujeito era modelo, boa pinta, tinha presença, e, enfim, existe muito material que aborda a peculiar escolha de Lazenby e que vocês podem encontrar por aí para saber mais. Mas antes mesmo de À SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE estrear nos cinemas, o ator recusou a sequência, 007 – OS DIAMANTES SÃO ETERNOS, cujas razões existem versões aos montes: alegou que o espião era muito anacrônico e não estava em sintonia com a contra-cultura da época; outra versão diz que o contrato era muito rígido e exigente, para sete filmes, e ele também queria tentar outros papéis… No entanto, uma das versões mais frequentes que se ouve por aí é de que os próprios produtores se desentenderam com Lazenby, e como a bilheteria de SUA MAJESTADE não foi lá grandes coisas resolveram trazer Sean Connery de volta… 

Outra característica deste sexto filme da franquia que o torna uma anomalia é que ele se esquiva de alguns elementos habituais e dos exageros acrobáticos que a série vinha se definindo ao longo de cada filme até aquele momento. COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES já dava pra perceber que o tom de aventura pitoresca, exagerada e fantasiosa já tinha se estabelecido, com suas vastas sequências de ação cartunescas e tramas mirabolantes. Mas sabe-se lá porquê, parecem ter decidido que SUA MAJESTADE precisava ser um pouco mais sério. E é evidente que ao tentar reduzir os absurdos bondnianos, acaba reduzindo também o que torna filmes 007 o que eles realmente são. Uma das coisas mais significativas pra mim é a falta da música tema durante os créditos iniciais. Temos a canção “We Have All the Time in the World“, que foi a última que Louis Armstrong gravou – e viria a falecer dois anos depois – mas foi a primeira vez na franquia que não incluíram a música nos créditos de abertura (exceto, claro, DR. NO que é tocado basicamente o tema oficial de James Bond).

A própria trama do filme é mais, digamos, intimista, sem grandes ameaças de escala global, como nos filmes anteriores. Bond salva uma mulher que tenta se suicidar em uma praia deserta e acaba se envolvendo com ela. Mais tarde, descobre que ela é a notória Condessa Teresa di Vicenzo , ou simplesmente Tracy (interpretada por Diana Rigg), como gosta de ser chamada, filha do criminoso Marc Ange Draco, que passa a ser um aliado do espião britânico para combater a organização secreta Spectre e, ao mesmo tempo, localizar o paradeiro do chefe dessa organização, Blofeld (aqui vivido de forma maravilhosa por Telly Savalas), que escapou de 007 no filme anterior. Bond se disfarça de genealogista com o pretexto de se infiltrar e investigar a clínica de pesquisa de alergia de Blofeld, no alto dos Alpes suíços. E é basicamente nesse cenário exótico que o enredo transcorre.

Bom, quer goste ou não desse estilo mais pé no chão de Bond, ou do Lazenby no papel principal, definitivamente isso acaba não influenciando o meu gosto pelo filme e pelo personagem em SUA MAJESTADE. Neste universo mais “realista”, o espião se torna mais identificável e, de certa forma, mais carismático pra mim. Acho que, a essa altura, seria complicado explorar de maneira mais próxima a persona de Bond com Sean Connery cansado de viver o personagem, como já era visível em SÓ SE VIVE DUAS VEZES, o que o transformava em apenas um herói acidental. Aqui, com Lazenby, parece ter um certo frescor. Tudo sobre o personagem de James Bond e que tipo de pessoa ele é devido ao que faz é melhor trabalhado. Vê-se claramente suas motivações na trama: encontrar seu arquiinimigo Blofeld e casar com a bond girl Tracy, por quem se apaixona. O que nos leva a outro detalhe bizarro por aqui que o diferencia do que era visto até então, que é o súbito interesse de Bond pela monogamia. O que não impede de realizar a difícil tarefa de ir pra cama com várias mulheres, obviamente. No entanto, por estar apaixonado por Tracy, o filme desenvolve um maior sentido de consequência emocional em comparação aos episódios anteriores nos relacionamentos de Bond. Sobretudo com o desfecho trágico e dramático que o filme possui. Certamente o momento mais sombrio de toda a franquia 007.

Mas além de ser um dos Bonds mais emocionalmente fortes, SUA MAJESTADE também tem algumas das melhores sequências de ação da série. Tiroteios, algumas ceninhas de luta, e MUITAS perseguições. Uma das minhas favoritas é a perseguição noturna de esqui, com Bond descendo pela encosta da montanha onde fica a clínica de Blofeld. O vilão e seus homens o perseguem e Bond tem de suar pra sair vivo do local, matando vários capangas no processo. Não é uma sequência tão extravagante. Como já ressaltei, este filme é um bocado mais “realista”. Mas a ação é ótima, tem um sentido de escala e energia cinematográfica que ainda faz funcionar mesmo mais de meio século depois. Simples, bem filmada e sem frescuras. Essa sequência vai parar num outro cenário onde a ação continua frenética, quando Bond encontra Tracy numa cidadezinha, mas os homens de Blofeld ainda estão atrás dele. Tracy acaba dirigindo no meio de uma corrida de carros e acaba causando um caos na pista. Pra mim, uma das melhores cenas de ação em qualquer Bond Movie.

Há ainda outro momento clássico de perseguição que envolve Bond na cola de Blofeld em um trenó num clímax deflagrador. Enquanto os dois voam numa pista de gelo, Bond tenta atirar em Blofeld e este arremessa granadas de seu próprio trenó. O negócio é que, elogiar a ação de SUA MAJESTADE, é elogiar também seu diretor, Peter H. Hunt, que fazia sua estreia na função por aqui, embora para esse tipo de sequência mais movimentada o sujeito já fosse um mestre, tendo atuado como editor, assistente de diretor ou diretor de segunda unidade em TODOS os 007 anteriores. O cara era bruto! O cinéfilo que aprecia um bom filme de ação old school vai lembrar de um dos maiores clássicos de Hunt, PERSEGUIÇÃO MORTAL (81), um filmaço classudo em que Lee Marvin persegue Charles Bronson num cenário coberto de neve…

Mesmo nos momentos sem ação, Hunt sempre parece saber onde colocar sua câmera para manter as coisas atrativas, seja enquadrando as cenas mais íntimas entre Bond e Tracy ou seja a viagem de helicóptero para os Alpes, na qual ficamos acompanhando tudo o tempo todo com Bond, vendo as imagens das várias estações de esqui próximas de sua perspectiva. Por falar em gente foda, a fotografia de Michael Reed é excelente. Facilmente um dos filmes mais bonitos do espião até aquele momento. Desde a sequência inicial, uma cena de luta na praia, com suas sombras densas e escuras, até as maravilhas das paisagens dos Alpes Suíços, há muito para se olhar por aqui e admirar. John Glen foi o editor, outro cabra foda, que depois também viria a dirigir alguns filmes da série já na fase com Roger Moore e Timothy Dalton. E manda muito bem por aqui, é o Bond Movie mais freneticamente editado até então, muitas vezes utilizando várias câmeras simultâneas para cortar rapidamente entre os planos, especialmente na ação, o que o torna visualmente empolgante. Glen também exibe sua habilidade em montar sequências mais tensas, como a do escritório do advogado Gumbold, bem ao estilo Hitchcock de fazer suspense.

Eu preciso de um pequeno parágrafo que seja para falar do grande Telly Savalas como Blofeld. O sujeito é um vilão e tanto. Segurando seus cigarros do seu jeito característico, exala esse mal diferente de qualquer outro vilão de Bond – certamente diferente de um Donald Pleasance, o Blofeld do filme anterior, que também está genial, mas que não deixa ser uma caricatura. Aqui Savalas faz um trabalho dinâmico, adicionando uma leve camada de ameaça até mesmo numa conversa casual. O primeiro encontro de Blofeld com Bond é um desses momentos especiais do filme. E vale destacar Tracy de Diana Rigg, para além de sua importância no cânone. Ela também parece ser a mais empoderada de todas as Bond Girls do período. É evidente que na ação final acabe de fora, mas ela chega a derrotar um brutamontes sozinha, sem ajuda de ninguém, e ainda é ela quem está ao volante na sequência de perseguição na pista de corrida. O que já é um avanço.

Existem alguns problemas menores em SUA MAJESTADE. O ritmo desacelera um pouco durante um bom tempo na clínica de Blofeld, e a duração do filme acaba parecendo um pouco longa demais. Mas nada que impeça de SUA MAJESTADE ser um dos meus Bond Movies favoritos de toda a franquia. Pode ter lá suas peculiaridades, ser uma anomalia, e até não ter o melhor Bond nele – eu não cheguei a falar muito sobre isso, mas deixo claro que eu até gosto do Lazenby, ele tem presença, um certo charme e é bom nas sequências de ação, mas convenhamos que não chega aos pés de Connery. Entretanto, no que diz respeito ao thriller de espionagem que o filme é e o que representa à mitologia de James Bond, definitivamente 007 À SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE tá numa posição privilegiada no meu ranking 007, um lugar especial onde poucos outros filmes da franquia habitam (um dia eu posto meu top 10 James Bond por aqui)… E olha que eu gosto praticamente de todos os filmes da série do espião britânico. Mas, como dizem os jovens, este aqui é top.

CAÇADA MORTAL, aka CAÇADOR DE MORTE (1978)

Walter Hill disse certa vez que o roteiro de CAÇADA MORTAL (The Driver) foi o mais puro que já escreveu. A história é simples: Ryan O’Neal (em um papel escrito para Steve McQueen) é um motorista especializado em fugas de assaltos. Bruce Dern é o detetive na sua cola.

E é isso.

Alguns detalhes de trama são acrescentados, como a mulher misteriosa interpretada por Isabelle Adjani, que faz um meio de campo entre os dois sujeitos; há perseguições de carros, assaltos, traições… Mas a narativa é de um minimalismo tão absurdo que Hollywood não estava lá muito acostumada num filme de gênero. Não é surpresa, portanto, notar que CAÇADA MORTAL foi bem recebido na Europa, mas na América foi um fracasso financeiro e de crítica.

Mas CAÇADA MORTAL conseguiu se induzir na consciência coletiva e se tornar um modelo para diretores e alguns dos melhores thrillers americanos que vieram posteriormente. Podemos citar produções mais recentes, como DRIVE, de Nicolas Winding Refn, e BABY DRIVER, de Edgar Wright (esse nem gosto tanto, mas é divertido), mas olhando mais pra trás dá pra notar sua influência em diretores como Michael Mann – que chegou a cogitar Walter Hill para dirigir sua obra-prima, FOGO CONTRA FOGO (foi recusado pelo próprio Hill… Ainda bem) – até Quentin Tarantino, que chamou de um dos filmes mais cool de todos os tempos. James Cameron já afirmou algumas vezes que tinha CAÇADA MORTAL em mente quando escreveu O EXTERMINADOR DO FUTURO. Até nos videogames também há quem se apoderou do filme, como o clássico Driver, lançado para o Playstation 1, onde jogamos com um motorista de fuga da máfia em altas perseguições. A relação do jogo com o filme nunca foi assumida, mas é muito óbvia e pode ser facilmente percebida, especialmente quando o jogador dirige o mesmo modelo Chevy vintage visto por aqui.

Enfim, acho que não preciso dizer mais nada sobre a importância de CAÇADA MORTAL, não é mesmo?

Além disso, é um puta filmaço que fala por si só. Um filme sobre um homem que é aquilo que faz. Nos créditos finais Ryan O’Neil aparece sem nome, apenas como The Driver, O Motorista (assim como Dern aparece como The Detective e Adjani como The Player). E dirigir é como o motorista se expressa. O carro é quase uma extensão física e psicológica dele.

Há uma sequência – provavelmente a minha favorita do filme – quando uns ladrões o desafiam, perguntando se ele é realmente tão bom no volante antes de contratá-lo para um golpe. E o motorista não argumenta, não é agressivo, não parte pra briga. Apenas diz a eles para entrarem no carro. E então ele começa as fazer manobras em alta velocidade dentro de um estacionamento, até iniciar a destruição da ostentosa Mercedes, peça por peça, com o veículo ainda em movimento e os donos do carro desesperados no banco de trás. Acho que é algo que define bem esse personagem. O motorista diz apenas 350 palavras no filme inteiro, mas por detrás de um volante, ele fala muito.

Hill, portanto, leva ao extremo essa ideia de uma linha narrativa com enredos minimalistas em filmes que mais declinam do que reproduzem um gênero, sobretudo nesse início de carreira. É como se com Walter Hill os personagens vão do ponto A ao ponto B em uma economia tanto narrativa quanto de meios visuais e psicológico na caracterização dos personagens que se definem apenas na ação. Essa lógica é trabalhada por aqui nos personagens, como já mencionei, mas também tanto numa forma de atemporalidade quanto na criação de uma espécie de realidade alternativa.

Se o diretor posteriormente moldou esse tipo de realidade de forma mais concreta – o universo das gangues de THE WARRIORS, a ambientação retro-futurista de RUAS DE FOGO – com CAÇADA MORTAL ele cria uma terra de fantasia estilizada, emoldurada na sensação dos anos 70, um mundo de pessoas que usam as mesmas roupas, de indivíduos que falam pouco, mas dizem muito com os olhos – a influência do cinema policial francês aqui é óbvia, especialmente Jean-Pierre Melville – uma espécie de film noir misturado com a ilegalidade do faroeste, com fugas e perseguições envolvendo carros em vez de cavalos. Walter Hill, assim como John Carpenter, acredita que todos os seus filmes são essencialmente faroestes.

Ryan O’Neal é uma escolha curiosa para este samurai/cowboy moderno de CAÇADA MORTAL. É um ator mais brando e Hill sabe como usar isso em proveito do filme. É evidente que se McQueen tivesse aceitado o papel ou um Clint Eastwood assumisse o personagem, talvez a recepção local fosse maior na época. Mas a performance sem emoção, bressoniana, de O’Neal ajuda a dar a seu personagem uma aura de frieza e mistério. Para criar contraste, Hill dá a O’Neal um adversário extravagante e expressivo na forma de Bruce Dern, que interpreta o obcecado em capturá-lo. É uma combinação caótica, e o filme explora perfeitamente os estilos de atuação extremamente diversos desses dois grandes atores. Já a francesa Adjani é o mistério em pessoa, uma espécie de femme fatale gélida, quase uma entidade, que vaga por esses polos.

Como não poderia faltar, CAÇADA MORTAL tem sequências de ação de arrepiar os cabelos, uma maestria com trabalho de câmera que traz o espectador para dentro da ação. As cenas de perseguição estão no mesmo nível e talvez até melhores que algumas das sequências mais famosas do tipo, como a de BULLITT e OPERAÇÃO FRANÇA.

Mas o filme é ancorado mesmo pela disputa desses dois homens em lados opostos da lei, o motorista e o detetive, cada um tentando ser mais esperto que o outro. No meio de perseguições de carros e do jogo de gato e rato desses dois, Hill cria o que poderia ser descrito como uma obra de travessura existencial. Em menos de 90 minutos, o filme funciona não apenas como uma exploração em profundidade das coisas que motivam esses indivíduos a fazer o que fazem, mas também funciona como um interessante estudo de sobrevivência, com ideias que transcendem o típico filme de mocinhos vs. bandidos. O viés minimalista é que também faz maravilhas e contribui muito nesse sentido. Até as partituras tensas do mestre da paranóia dos anos 70, Michael Small, dá lugar a uma “trilha sonora” cheia de pneus cantando e latarias amassadas. A irônica conclusão resulta em algo divertido e abstrato (a aparição final de Bruce Dern e uma horda de policiais) e o final sugere o que será um ciclo sem fim para esses sujeitos, numa espécie de purgatorio onde esses personagens habitam e ficam girando em círculo eternamente.

CAÇADA MORTAL é provavelmente a obra-prima de Walter Hill, que é um desses caras fodas que possuem várias obras-primas no currículo. E se você ainda não viu, acredito que vai ser uma boa experiência, vai estar diante de uma bela surpresa.


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TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA (1974)

Teve uma época da vida que eu assisti a TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA pelo menos umas dez vezes num curto espaço de tempo, de tão fascinado que fiquei por este petardo de Sam Peckinpah. Eu andava a descobrir seus filmes e quando cheguei neste aqui era como se eu não quisesse mais sair dele. Mas isso já tem muito tempo e eu fiquei afastado por um longo período. Chegou a hora de revisitar…

Só que ao mesmo tempo em que trata-se de uma obra que gera tanto fascínio, TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA é o tipo de filme que é preciso de uma sessão de descarrego logo depois que os créditos finais aparecem na tela. Ou, no mínimo, um banho. Tamanho é o mergulho na atmosfera de decadência, miséria e imundice das suas imagens. Provavelmente reflexo da posição precária que Sam Peckinpah se encontrava quando fez este filme tão pessoal.

A sua trajetória até ALFREDO GARCIA é conhecida: alguns anos antes, o homem havia garantido um lugar de destaque na indústria depois de MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969), filme que até hoje considero sua obra-prima e que já devo ter revisto mais vezes que este aqui, mas como se sabe, a personalidade difícil de Peckinpah e seu eterno gosto pelo álcool, o vício em drogas e paranóia começaram a se tornar mais perceptíveis com o passar dos anos.

A recepção crítica e o sucesso de bilheteria se alternavam. Seu thriller filmado na Inglaterra, SOB O DOMÍNIO DO MEDO (1971), com Dustin Hoffman, foi muito bem recebido, mas veículos “menores” como THE BALLAD OF CABLE HOGUE (1970) e JUNIOR BONNER (1972) passaram mais ou menos despercebidos. E logo depois, mais um sucesso, com um OS IMPLACÁVEIS (1972). Um Peckinpah cada vez mais cínico chegou à conclusão de que o público só queria violência em câmera lenta… Quando abordava motivos com mais sensibilidade, que são os casos de CABLE HOGUE e JUNIOR BONNER, a coisa não ia tão bem. Pelo visto, a percepção de “Bloody” Sam estava certa.

Donnie Fritts, Sam Peckinpah e Kris Kristofferson em locação de TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA

O fracasso de seu PAT GARRETT & BILLY THE KID (1973), que foi todo retalhado e recosturado pelo estúdio, foi a gota d’água e deixou Peckinpah amargurado a tal ponto que decidiu trabalhar fora do sistema de estúdio em uma tentativa de recuperar o controle criativo. Para a sua sorte, a United Artists – conhecida por ser indulgente com “cineastas autores” naquela época – deu-lhe dinheiro suficiente para fazer seu próximo filme no México com uma equipe totalmente mexicana, exceto um ou outro membro… E aí chegamos em TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA, um western moderno visto como uma das declarações mais pessoais – e radicais – de Peckinpah, embora o produto final peculiar tivesse deixado o público frio e os críticos da época um bocado perdidos.

Independente disso, aqui está uma obra AUTORAL, que de acordo com Peckinpah, foi o único filme que realizou que saiu do jeito que ele queria, sem interferência de influências externas e de produtores. O mais próximo de um “Peckinpah puro”.

Peckinpah coloca seus óculos entre os seios de Isela Vega nas filmagens de TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA

Na verdade, “sem influências externas” entre aspas, porque muita “influência” foi ingerida pra dentro de Peckinpah e durante as filmagens não era muito difícil ver o diretor dando umas surtadas ou caindo de bêbado, sempre entupido de álcool ou drogas, tornando o resultado deste filme um raro exemplarar daquela coisa fugaz e maravilhosa que é uma obra de arte verdadeiramente psicótica. O filme marcou o fim de uma espécie de período áureo da carreira de Peckinpah, antes que seus demônios o dominassem de vez e o controle criativo fosse novamente podado – ainda que grandes filmes tenham vindo depois na sua filmografia.

A trama de TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA começa quando El Jefe (Emilio Fernandez), um poderoso fazendeiro mexicano, descobre a identidade do homem que engravidou sua filha e emite uma ordem para que a cabeça do sujeito seja entregue a ele a um alto preço. O alvo é Alfredo Garcia. Dos envolvidos na busca, seguimos um casal de assassinos gays americanos (Robert Webber e Gig Young) que começa a revirar o submundo da Cidade do México, mostrando a foto de Alfredo. Eventualmente, entram em um bar onde encontram um “pianista” americano chamado Bennie (Warren Oates), que acredita poder ser capaz de ajudá-los. Bennie, na verdade, conhece bem Alfredo, sabe que ele tem um caso com sua “namorada”, a prostituta Elita (Isela Vega), e sabe que pode ganhar uma boa grana entregando o sujeito aos americanos. O problema é que ao conversar com Elita, Bennie descobre que Alfredo já está morto.

Com a intenção de encontrar o corpo, Bennie faz um trato com os assassinos de que entregará a cabeça de Alfredo Garcia por uma boa grana. E parte então em uma viagem com Elita, uma jornada pelo México em busca do local onde homem está enterrado, o que obviamente não vai terminar como planejado. Com todas as esperanças destruídas, Benny, sozinho, acaba carregando a cabeça podre de Alfredo Garcia em um saco pelo deserto enquanto assassinos o perseguem. A reação de El Jefe à entrega da cabeça deve ter sido exatamente a mesma dos produtores quando Peckinpah entregou o filme. O mal-estar existencial dos anos 70 no seu melhor.

O absurdo da odisséia de Benny e Elita é exacerbada por contrastes. Momentos de pura delicadeza se transformam em rompantes de violência em questão de segundos. Logo no início da viagem, por exemplo, há uma longa sequência bucólica onde os amantes se enlaçam debaixo de uma árvore que termina por Benny propondo Elita em casamento. Mais tarde, eles topam fazer um piquenique à beira da estrada. Toda esta seção do filme, que concentra na relação danificada entre os pombinhos, acaba culminando na sequência dos dois motoqueiros (incluindo Kris Kristofferson) aparecendo no local para ameaçá-los. O que dá a Peckinpah a oportunidade de um desses momentos complexos que pontuam sua carreira, deixam as pessoas com a pulga atrás da orelha, bradado de misógino. Evidente que estamos falando da cena do quase “estupro consentido”, que reserva à Elita um papel pelo menos tão ambíguo quanto o da esposa de Dustin Hoffman, vivida por Susan George, em SOB O DOMÍNIO DO MEDO. E é provável que Isela Vega tenha o desempenho feminino mais forte já visto num filme de Peckinpah.

O ritmo do filme vai ganhando em intensidade – e ficando mais subversivo e amoral – à medida em que se aproxima do momento no qual Bennie precisa desenterrar aquela cabeça. Ao longo do caminho, os corpos vão se acumulando. Se estamos acostumados no cinema a ver pessoas atirando uns nos outros para salvar uma cabeça, em ALFREDO GARCIA os indivíduos fazem isso para obter uma cabeça já cortada… Depois, a força do filme passa a ser conseguir fazer essa cabeça cortada e carregada dentro de uma sacola de lona coberta de moscas um personagem por si só. Sobretudo nas sequências em que Warren Oates está ao volante de seu velho carro amassado, travando discursos e praguejos em direção à cabeça, a quem apelida carinhosamente de “Al”. Há aqui um certo humor diante da bizarrice que é a situação, mas que não consegue perdurar. É tudo muito sombrio e trágico para se achar engraçado.

E obviamente é preciso destacar aqui o desempenho de Warren Oates, que está monumental, provavelmente o maior papel que o sujeito já teve na vida. E estamos falando de um dos gigantes do cinema americano dos anos 70. Aqui ele possui uma presença absurda em cena, todo ensebado, esfarrapado, usando os óculos escuros enormes do próprio Peckinpah, e que quase nunca os remove da cara. Há uma sequência que seu personagem acorda no seu cafofo e começa a jogar tequila vagabunda nas partes íntimas, depois de passar a noite com Elita, tentando desesperadamente acabar com os carrapatos que o estão matando de coceira. É o tipo de herói que Peckinpah tinha para oferecer no momento…  

Lá pelas tantas, o objetivo principal de Benny na trama se torna inútil, pra não dizer niilista, com sua obsessão indo muito além do dinheiro que ele tanto almejava. Agora, o que ele quer é encontrar resposta, sentido, algo que justifique toda a loucura. “Eu nunca estive em nenhum lugar que gostaria de voltar”, diz ele em num certo momento; e o filme parece ser um bocado sobre isso, sobre este indivíduo arriscando tudo para não prosseguir neste mundo, apesar de acabar sempre atraído de volta pra toda a loucura que está acontecendo, atraído como as moscas que circulam em torno da cabeça de Alfredo Garcia, a tal ponto que o fedor da morte, da desgraça, parece que nunca sairá totalmente. Até o espectador se sente impregnado…

Mas indo contra o que Benny disse, a sequência final de TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA nos leva de volta ao ponto de partida, no rancho de El Jefe. Bennie ainda não esteve lá, mas nós já estivemos e esse retorno nos leva às raízes da loucura, um lugar de onde não há saída e tudo o que resta a ser feito é continuar avançando, mesmo à base de balas, enquanto ainda é possível, sabendo como isso vai acabar. Os últimos cinco minutos do filme são tão verdadeiros consigo mesmos quanto em qualquer filme já feito.

Por mais massacrado que tenha sido pela crítica na época, o filme teve seus defensores – Roger Ebert, por exemplo, deu-lhe quatro estrelas e chamou-o de “obra-prima bizarra”. E como o culto a Peckinpah cresceu ao longo das décadas e hoje permanece vivo no coração de qualquer cinéfilo que queira manter o respeito, a reputação de TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA cresceu à medida em que fica claro o retrato feio, imundo e decadente do universo que é apresentado aqui juntamente com a beleza e poesia que pode ser encontrada nessa feiura. E eu não poderia deixar de finalizar citando Carlão Reichenbach sobre Peckinpah e o filme em questão, o qual considerava uma obra-prima às avessas: “Sua obra quase teratológica parecia purgar a raiva atávica, revelando um mundo sórdido onde só cascavéis e escorpiões pareciam ter alma.

A ÚLTIMA NOITE (2002)

O melhor filme para se assistir nesta data de hoje, 11 de setembro, definitivamente é este petardo do diretor Spike Lee. O meu grande amigo e parceiro de Cine Poeira Osvaldo Neto escreveu esse textinho sobre A ÚLTIMA NOITE no seu instagram e republico por aqui.

por Osvaldo Neto

Acredito que exista um motivo particular pelo qual A ÚLTIMA NOITE (The 25th Hour, 2002) está sendo lembrado com frequência nesses 20 anos dos atentados do 11 de Setembro em Nova Iorque. O potente longa dirigido por SPIKE LEE (mais um…) não é, de fato, um filme sobre os atentados como aconteceu com AS TORRES GÊMEAS, de Oliver Stone, e VÔO UNITED 93, de Paul Greengrass.

O motivo é que A ÚLTIMA NOITE é um filme sobre gente, onde Spike novamente usa essa cidade como uma personagem da narrativa. Só que desta vez ele consegue êxito em capturar a confusão emocional, a melancolia e impotência da população de NY (e por consequência, qualquer cidadão americano comum) pouco após esse evento que marcaria a História mundial.

Seria impossível para um Spike Lee seguir na produção deste filme sem lidar com os ataques às duas torres do WTC. Seria impossível para um Spike Lee afastar a sua câmera e dos diálogos de algo a ser dito e mostrado naquele momento… Como ele sempre faz desde o início de sua carreira. Não daria mesmo para fingir que nada aconteceu.

Hollywood, a grande máquina do cinema escapista, não queria falar sobre o 11 de Setembro. Foram vários os filmes tiveram cenas editadas e modificadas e lançamentos adiados, mas o Spike Lee foi lá e deu o seu recado ainda em 2002.  

É isso, pessoal. Vejam ou revejam A ÚLTIMA NOITE, filmaço que entra fácil num TOP 5 do diretor. 

ADIEU, BELMONDO

A imagem é de O DEMÔNIO DAS 11 HORAS, de Jean-Luc Godard, que é pelo qual Jean-Paul Belmondo vai ser mais lembrado, como um ícone do cinema francês, da Nouvelle Vague, ator de Godard, Truffaut, Resnais, etc… E, obviamente, de forma merecida. Belmondo é um ícone do cinema francês. Ponto.

Mas aqui no blog vamos celebrá-lo como o astro de ação que se tornou, com filmes deflagradores e badasses. E, pasmem, fazendo suas próprias cenas perigosas, dispensando dublês. Como nessa cena impressionante de THE BURGLARS (1971), de Henry Verneuil:

Belmondo sobreviveu aos stunts no cinema, mas agora, aos 88 anos, vai descansar. RIP.

NEW YORK NINJA

De vez em quando, alguns milagres acontecem… Em 1984, um filme chamado NEW YORK NINJA teve sua produção iniciada. E só pelo nome já daria vontade de assistir. O problema é que nunca foi finalizado. Inicialmente dirigido e estrelado por John Liu (THE INVENCIBLE ARMOUR) e produzido pelo lendário produtor de exploitation nova iorquino Arthur Schweitzer (BIOHAZARD e MUTANT WAR), o projeto foi abandonado ao fim das filmagens, seja lá por qual motivo. Nunca foi editado, todos os materiais de som se perderam, nem o roteiro existe mais.

O filme permaneceu incompleto até que a distribuidora Vinegar Syndrome encontrou o negativo original e comprou os direitos de NEW YORK NINJA. Num esforço que durou dois anos de trabalho, a empresa deu aquela caprichada na restauração da imagem, mixaram um novo áudio, contrataram até um especialista em leitor labial para decifrar os diálogos e o produtor/editor Kurtis Spieler terminou o filme com o elenco de dubladores mais inesperado da história do cinema. Entre eles, Don “The Dragon” Wilson, Michael Berryman, Cynthia Rothrock e Linnea Quigley.

O fato é que agora temos um novo acontecimento nos aguardando, um filme de ninja filmado nos anos 80 e finalizado em 2021. O inédito NEW YORK NINJA verá a luz do dia e em breve poderemos assistir a essa pepita, que parece ser uma belezura nos moldes de clássicos como SAMURAI COP, ACTION USA e MIAMI CONNECTION! Ah, Vinegar Syndrome, como eu amo vocês…

Confiram o trailer:

DJANGO (1966)

PRIMEIRO, quero agradecer imensamente aos que já começaram a contribuir com o blog no apoia-se. Vocês são demais e em breve prometo novidades exclusivas pra vocês. Quem ainda não apoia, infomações no fim do texto.


Nem me lembro qual foi a última vez que postei sobre Spaghetti Western aqui no blog, algo que já me foi cobrado algumas vezes. Já que no último fim de semana eu acabei revendo um dos primeiros filmes que me apresentou ao gênero, aqui vamos nós. Quiçá foi o primeiro mesmo… Já não me lembro. Era muito moleque quando meu pai colocou no VHS um tal DJANGO (1966), de um tal Sergio Corbucci, estrelado por um tal Franco Nero, e desde então fiquei fascinado pelo “bang bang à italiana“. Embora eu nem tivesse consciência desses nomes ou de onde vinham essas produções…

hoje já dá pra perceber algumas coisas. Como, por exemplo, a influência de POR UM PUNHADO DE DÓLARES (1964), de Sergio Leone, que pode ser sentida em DJANGO, mas ao mesmo tempo, depois de ver um bocado de faroestes do tipo, acho que ambos os filmes precisam ser colocados em pé de igualdade no que se refere a sua representatividade no Spaghetti Western.

Sabemos que o filme de Leone não foi o primeiro exemplar do gênero, mas é considerado o produto seminal do ciclo e Corbucci claramente prestou atenção no estilo exagerado, no cinismo, o revisionismo e anti-heroísmo mítico do western de Leone. Só que ele pegou tudo isso e elevou ao extremo. Se a paisagem vista em POR UM PUNHADO DE DÓLARES estava empoeirada e suja, então a paisagem em DJANGO tinha que ser um lamaçal desgraçado. Se POR UM PUNHADO DE DÓLARES era pessimista, DJANGO era niilista. E por aí vai…

O que se seguiu a partir daqui é notório, é só procurar quantos spin-offs não oficiais que o personagem título teve nos anos seguintes, quantas produções mudando seus títulos para encaixar o nome “Django” e aproveitar o sucesso do filme de Corbucci… Enfim, POR UM PUNHADO DE DÓLARES é um filme seminal, sim senhor, mas acredito que DJANGO exerceu tanta, ou até mais, influência nos westerns europeus que o filme de Leone.

DJANGO já começa mostrando suas intenções excêntricas na sequência dos créditos iniciais, apresentando essa figura de preto, vista de costas, puxando um caixão por uma paisagem inóspita, pelo terreno lamacento, cheio de obstáculos para esse sujeito que sequer possui um cavalo. E o olhar do diretor de fotografia, e também cineasta, Enzo Barboni, impregna as locações com uma desolação ameaçadora. Algo que se mantém até o fim. A coisa é atenuada, no entanto, pela beleza da inesquecível música-tema do argentino Luis Enríquez Bacalov. “Djangoooooo! Django, have you always been alone? Djangoooooo! Django, have you never loved again?…“. Um dos maiores clássicos entre as trilhas sonoras do western europeu e que gruda fácil nos ouvidos. Há dias me pego cantarolando essa merda…

A primeira indicação das habilidades quase sobrenaturais de Django em manusear um revólver é quando ele salva Maria (Loredana Nusciak), logo no começo do filme, de ser queimada viva por um grupo de assassinos de capuz vermelho a serviço do Major Jackson (Eduardo Fajardo). Mas é preciso notar que enquanto Django age com o habitual sangue-frio na eliminação dos homens de Jackson, ele fica parado olhando à distância, poucos minutos antes, Maria sendo açoitada por um trio de mexicanos.

Isso nos dá algumas indicações da atitude duvidosa de Django. Em certo momento ele deixa claro para a grata Maria que suas ações foram totalmente egoístas, o que reverbera nas suas concepções de moralidade, ideais e crenças ao longo do filme. É uma figura um tanto contraditória esse Django. Sua busca é puramente de vingança, mas isso não o impede, por exemplo, de tentar enriquecer roubando o ouro dos mexicanos que ele havia ajudado a saquear. Não sabemos muito bem o que esperar de Django. O que o torna ainda mais fascinante…

O roteiro de Sergio e Bruno Corbucci também é evasivo em relação ao passado de Django. Ele lutou na Guerra Civil, fato que permanece uma espécie de pano de fundo vago, nunca referido pelo protagonista. Além de um certo histórico com o lider dos revolucionários mexicanos, o General Hugo, vivido por José Bódalo. O desempenho de Franco Nero, com semblante inexpressivo na maior parte do tempo, contribui pra isso.

Os outros personagens do filme possuem menos desenvolvimento ainda. O Major Jackson, por exemplo. Sabemos que ele que matou a mulher de Django. E só. O filme não tem muitos detalhes a oferecer. De resto, Jackson é apenas o malvado sádico da trama, que comanda um bando que utiliza capuzes vermelhos, uma clara alusão à KKK. Enfim, um racista que pratica tiro ao alvo com camponeses mexicanos, numa sequência emblemática, que contribui para a alegoria política do filme. E é suficiente, não precisamos muito de substância para acompanhar os personagens desse universo.

Uma coisa que eu não lembrava, e que me surpreendeu, é uma quantidade incomum de violência e a alta contagem de corpos. Claro, um dos momentos mais marcantes e que eu nunca esqueci é a clássica sequência que mostra Django abrindo seu caixão para revelar uma metralhadora, com a qual ele literalmente elimina um exército dos homens de Jackson em meio à lama e à decadência de uma cidade fronteiriça sem nome. Mas o que me chama a atenção é que o clima de uma violência latente permanece durante todo o filme. Há uma cena que um padre tem sua orelha cortada e logo depois a enfiam na sua boca; Django tem suas mãos quebradas por tentar roubar o ouro dos mexicanos e o aspecto delas é bem gráfico, as mãos de Django devem ter levantado algumas sombrancelhas em 1966…

Embora o filme, de uma forma superficial, também tome emprestado o alguns princípios básicos do plot de YOJIMBO (1961), outra relação que possui com POR PUNHADO DE DÓLARES, que é uma refilmagem do filme de Kurosawa, no qual um homem chega a uma cidade e se encontra no centro de duas facções rivais, Corbucci não leva isso muito adiante. Sempre fica bem claro que Django tem como alvo o Major Jackson. E a cidade que serve de cenário a esses eventos é um espaço notavelmente desesperado e desolado; é habitada quase exclusivamente por prostitutas, e elas estão tão decadentes quanto as vigas podres do edifício do salão. Um cenário apropriado para essa figura enigmática e mítica que é Django. Seu coração sombrio, que bate apenas para se vingar do assassino de sua esposa, combina com o cinismo áspero que se esconde em cada canto deste mundo perverso.

É como se o velho oeste de Corbucci não fosse a terra da promessa ou de novos futuros, mas o fim da linha para pessoas que não têm outro lugar para ir. E DJANGO é um filme que não contém esperança alguma. E talvez seja a sua grande contribuição para a humanidade, ou pelo menos como influência no Spaghetti Western. E é inteiramente apropriado que o filme termine em um cemitério, com Django alcançando aquilo para que vive.


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CINE POEIRA – NOVOS EPISÓDIOS E NOVIDADES NO YOUTUBE

Os dois últimos episódios da terceira temporada do CINE POEIRA já estão disponíveis no tocador de podcast da preferencia de vocês. Mas vocês podem ouvir por aqui, no blog, também:

O CHEFÃO DE NOVA YORK (Black Caesar, 1973), de Larry Cohen

Clássico do blaxploitation, também um dos melhores filmes de um grande artesão do cinema de gênero: produção, roteiro e direção de ninguém menos que Larry Cohen. O longa narra a rápida ascensão e a vertiginosa queda de Tommy Gibbs, um implacável gângster negro. Gibbs – interpretado pelo ícone Fred Williamson – se revelará um anti-herói bem mais complexo e intrigante do que a média dos personagens que habitaram o cinema de ação e policial dos anos 70.

Recentemente fiz um textinho do filme aqui pro blog. É só clicar aqui.

A OUTRA FACE (Face/Off, 1997), de John Woo

Como de costume, o último episódio de uma temporada do CINE POEIRA sempre destaca um clássico imbatível. O filme da vez é A OUTRA FACE, provavelmente a obra-prima de John Woo durante o período em que ele trabalhou no cinemão hollywoodiano. John Travolta vs Nicolas Cage em um grande embate de atuações e sequências memoráveis de ação, com uma história de inesperada carga dramática para os padrões do gênero. O resultado final é um longa que tinha tudo para não funcionar e ser um corpo estranho na filmografia deste genial autor do cinema chamado John Woo. Mas funciona! E como funciona! É com muito prazer que encerramos a terceira temporada do CINE POEIRA com esse brilhante espetáculo de ação que só o melhor do blockbuster do final dos anos 90 poderia nos proporcionar.

CINE POEIRA NO YOUTUBE

ATENÇÃO: o podcast CINE POEIRA agora tem um canal no YouTube! Aos poucos estamos colocando os episódios das três temporadas por lá. Enquanto isso, vocês já podem se inscrever, dar like nos vídeos, compartilhar nas redes, com os amigos… E em breve teremos novidades, conteúdos exclusivos no canal.

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OPERAÇÃO YAKUZA (1974)

O roteiro original de OPERAÇÃO YAKUZA (The Yakuza), de Sydney Pollack, foi escrito por Leonard e Paul Schrader em uma tentativa desesperada de vender algo comercial. Eles estavam falidos e escreveram o roteiro em poucas semanas. Por sua vez, o agente deles conseguiu vender o roteiro, brilhantemente apresentado como uma mistura de O PODEROSO CHEFÃO com Bruce Lee, e os Schraders levaram para casa 300 mil dólares – um recorde de venda de roteiro na época. Robert Towne foi trazido depois só para dar aquela refinada, aquela reescrita marota eficaz com sua voz mais sensível, mas a essência pertence à psique dos Schraders, com um debruce sobre honra errática e disciplina rígida. E que não tem nada a ver nem com O PODEROSO CHEFÃO, muito menos com Bruce Lee…

A trama é centrada, na maior parte do tempo, em Harry Kilmer, interpretado pelo maior de todos, Robert Mitchum, enquanto ele retorna ao Japão para ajudar um velho amigo, George Tanner (Brian Keith), a resgatar sua filha das garras da Yakuza. Eu disse retornar porque Kilmer já tem um histórico no Japão de longa data e muitas pontas soltas para atar… Como, por exemplo, reencontrar a japonesa Eiko Tanaka (Keishi Keiko), que foi o seu grande amor, e encarar seu irmão, Ken Tanaka (o lendário Ken Takakura), que o odeia. Isso leva a uma complexa trama de conflitos internos do personagem de Mitchum, que acrescenta um ingrediente a mais dentro da jornada de violência pelo submundo de Tóquio na qual ele tem que percorrer.

Vários diretores foram cogitados para dirigir OPERAÇÃO YAKUZA e acabaram sendo preteridos ou pulando fora do barco (Frankenheimer, Aldrich, Scorsese), até parar nas mãos de Sydney Pollack, que na época era um dos mais interessantes do cinema americano. Mesmo que pareça uma escolha estranha para este tipo de material, que é um autêntico noir yakuza, um petardo badass, sobretudo depois do sucesso do romance NOSSO AMOR DE ONTEM (1973), com Robert Redford e Barbra Streisand, que o diretor havia lançado um ano antes. Mas Pollack provou que podia transitar perfeitamente entre gêneros e, olhando em retrospecto, é notável como ele contribuiu para definir o modelo de thriller dos anos 70 com filmes como OS TRÊS DIAS DO CONDOR ( 1975). E OPERAÇÃO YAKUZA é um prólogo perfeito para suas habilidades. No entanto, Pollack dizia que não queria fazer um filme de “gênero” do jeito que Schrader imaginou. Por isso a presença de Towne no roteiro, para alinhar as coisas com a visão dramática de Pollack.

E, obviamente, o talento de Pollack para dirigir grandes atores é um diferencial e faz do elenco de OPERAÇÃO YAKUZA um dos destaques. Posso dizer com toda segurança que é uma das grandes atuações de Robert Mitchum. A vulnerabilidade de seu personagem, que tenta posar de durão, raramente foi tão complexa, tão fascinante. Nesse sentido, só deve ficar abaixo de seu desempenho em OS AMIGOS DE EDDIE COYLE, de Peter Yates. Gosto bastante do persoangem de Richard Jordan, um desses rostos frequentes do cinema dos anos 70 que acabou esquecido. Aqui ele faz Dusty, um jovem guarda-costas sensível impressionado pelos códigos de honra japoneses.

Depois há Ken Takakura, uma dos maiores astros do Japão e que mantém sua aura cool intacta durante o filme todo. Não é um personagem que fala muito, mas seu rosto taciturno, de poucas expressões, diz muito mais que palavras. E o homem sabe como manusear uma katana. Juntos, Mitchum e Ken têm uma química que surge do improvável e ganha contornos de tragédia com algumas revelações ao longo da trama. A oferta de Mitchum para o sujeito nos minutos finais do filme é digna de antologia nas carreiras desses dois gigantes do cinema.

Lindamente fotografado por dois diretores de fotografia, Duke Callaghan (nas poucas sequências que se passam nos EUA) e Kozo Okazaki (no restante do filme), OPERAÇÃO YAKUZA também recria fielmente as composições widescreen habituais do cinema japonês. E Pollack aproveita bem tudo que compõe, nos mínimos detalhes, a construção desse universo, seja à nível estético dos ambientes, das ruas, da arquitetura, seja à nível cultural e filosófico. O sujeito tava inspirado por aqui, provavelmente OPERAÇÃO YAKUZA é a melhor produção americana a fazer a ponte EUA-Japão.

Pollack se destaca até mesmo na ação. Temos várias sequências de lutas, tiros, filmadas de forma classuda. A violência é ao mesmo tempo estilizada, mas com um peso dramático realista. Quando alguém é perfurado por uma espada, tremem e murmuram enquanto morrem; conforme membros são cortados, os personagens mostram náusea e repulsa; enquanto as balas voam no caos que é um tiroteio, as pessoas gritam e tropeçam desajeitadamente (é bem provável que Pollack tenha assistido a algum filme de Kinji Fukasaku do período). O confronto final em uma base da yakuza é puro cinema, são quase dez minutos de tensão, com a katana de Takakura fazendo um estrago, enquanto Mitchum distribui bala pra todo lado. Uma das grandes sequências de ação dos anos 70.

Fiquei feliz de saber que o DVD nacional, que foi por onde revi esse filmaço, vem com comentários de Sydney Pollack. Ele demonstra bastante orgulho de OPERAÇÃO YAKUZA e o considera um de seus melhores filmes. Eu não tenho como discordar. É disparado o meu filme favorito do homem.

FORÇA SINISTRA (1985)

Eu não assistia a FORÇA SINISTRA (Lifeforce), de Tobe Hooper, por anos e anos e praticamente a única coisa que me recordava era… Bom, se você já assistiu a este filme alguma vez na sua vida, vai saber exatemente o que é. Se não viu, vai saber no momento em que botar os olhos… Mas vamos ser adultos por aqui. Ano passado eu revi para gravar um episódio do Cine Poeira e desde então tenho aceitado o fato de que se trata não apenas de um dos meus sci-fi‘s favoritos, mas de um dos meus filmes favoritos da vida. Estou realmente convencido disso. É a obra-prima de Tobe Hooper, uma das produções mais caprichadas da Cannon Films e revi mais uma vez agora para tirar a prova e saber se eu não estava ficando doido. Bem, talvez eu esteja, mas pelo menos não tenho dúvidas. Realmente se trata de um dos grandes fimes da história do cinema, na minha opinião.

A história da produção de FORÇA SINISTRA começa com um romance cujo título é The Space Vampire, publicado em 1976, escrito por Colin Wilson (escritor, filósofo e especialista em sobrenatural). Com um conceito interessante, obviamente atraiu a atenção de Hollywood no período e o livro rapidamente se transforma em um projeto de filme. Eu não li o romance, mas tenho informações que dizem que não é o material mais fácil de se adaptar. Um terço da história se passa no espaço e o resto na terra onde acontece uma caça aos vampiros espaciais, tudo narrado por formulações filosóficas… Do tipo que acho que seria necessário um Kubrick ou um Tarkovsky para levar adiante tal feito.

Mas, como sabemos, de vez em quando os executivos de Hollywood são muito insistentes. Algum estúdio realmente comprou os direitos do livro, deixando o trabalho dos futuros roteiristas num difícil desafio de adaptar. Calhou, em algum momento, à Dan O’Bannon e Don Jakoby o afazer. Ao longo do tempo, como era de se esperar, o livro foi passando de mãos em mãos entre os estúdios até parar com os nossos guerreiros da Cannon Films, que realmente tocaram o projeto adiante, em meados dos anos 80. Naquele período, ninguém menos que o diretor de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, o inigualável Tobe Hooper, acabara de ser contatado pelo estúdio. O sujeito estava numa fase estranha e a polêmica que cercou as filmagens de POLTERGEIST (ainda seu maior sucesso comercial) fez a carreira de Hooper estagnar. Esteve associado por um tempo ao projeto de A VOLTA DOS MORTOS VIVOS, que acabaria sendo dirigido pelo já citado Dan O’Bannon, mas foi com a Cannon que Hooper voltou às atividades sob um contrato para três filmes, sendo que um deles obrigatoriamente deveria ser O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2.

Mas antes, jogaram no colo de Hooper o famigerado projeto de FORÇA SINISTRA. Com um orçamento absurdo de US$ 25 milhões de dólares, que era coisa pra burro na época, foi a produção mais cara da Cannon até então. Uma mistura de ficção científica e horror, que não esconde lá suas ambições de tentar aproveitar o sucesso de um filme como ALIEN – O 8º PASSAGEIRO, de Ridley Scott e roteiro de quem? Mais uma vez o nosso amigo Dan O’Bannon. Mas basta assistir ao filme para perceber que a visão e o autorismo de Tobe Hooper se sobressaem. Fica evidente que o homem está feliz em reencontrar as câmeras depois de três anos sem filmar, criando um espetáculo visual/sensorial único, demonstrando maestria na condução de sequências grandiosas, mostrando a seus detratores que ele era capaz de administrar um grande orçamento e efeitos especiais. Que era capaz de fazer um filme especial.

E esse filme, meus caros, é FORÇA SINISTRA.

Na trama, enquanto investigava o cometa Halley, que passava perto da Terra em 1986, a tripulação americana/britânica da espaçonave Churchill, comandada pelo coronel Tom Carlsen (Steve Railsback), descobre uma nave misteriosa escondida na cauda do cometa. Um grupo da tripulação decide se aventurar dentro da nave e descobre coisas magníficas do imaginário sci-fi, como morcegos gigantes mumificados, bem como três sarcófagos de vidro nos quais estão dois homens e uma mulher (Mathilda May), que são levados a bordo do Churchill.

Logo depois, toda a comunicação com a nave é perdida e é enviado um outro ônibus espacial para investigar. Eles descobrem um Churchill destruído por dentro por conta de um incêndio, mas os três corpos misteriosos ainda estão intactos. Eles são trazidos à terra, em Londres, para ser mais exato. Quando esses corpos despertam, inicia-se um verdadeiro apocalipse na cidade. Descobrimos que o Col. Carlsen não morreu. Ele voltou à Terra em uma cápsula de fuga com sua própria história sobre o que aconteceu, mas mesmo que ele possa dar algumas respostas, já não se sabe se vão ser capazes de evitar a destruição em massa que está ocorrendo em Londres.

De certa maneira, apesar da trama parecer simples, a forma como as coisas transcorrem deixa uma impressão de bagunça narrativa. O roteiro de O’Bannon e Jakoby é tão errático em como está estruturado, que é difícil entender o quão coerente isso poderia parecer nas páginas do script. Mas ao mesmo tempo, é tudo o que você deseja em um filme desse tipo – tem cenas no espaço sideral, temos zumbis-vampiros, temos caos e explosões enormes. Tem até uma garota nua andando por aí matando pessoas! Que é, obviamente “aquilo” que eu lembrava antes de rever… É uma trama totalmente dispersa, mas tratada por Tobe Hooper de forma tão fascinante, que não há como negar que ele definitivamente sabe como tirar vantagem do material, da escala monumental do apocalipse instaurado e, claro, do conceito de uma garota nua por aí a matar pessoas.

Mathilda May passa 99% de seu tempo na tela completamente nua. Apesar disso, não posso dizer que a nudez é gratuita. A maioria dessas cenas são tiradas diretamente do livro e da essência dessas criaturas, esses vampiros espaciais que se alimentam das forças vitais humana, sendo o sexo um desses elementos. Portanto, o teor sexual não foi adicionado apenas para apimentar o filme. Embora, é claro, os atributos físicos de Mathilda May certamente ajudaram a vender o filme…

Ainda sobre o elenco, uma das questões que atingiu a produção foi a recusa consecutiva de vários atores renomados que, normalmente, não são tão criteriosos nas escolhas de seus papeis (como Christopher Lee e Klaus Kinski). Hooper então recorre a Steve Railsback, que está muito bem no seu personagem. Aparentemente, houve uma tentativa consciente de fazer o seu Col. Carlsen morrer ainda na nave espacial, Churchill, fazendo um filme sem personagem principal, o que só aumentaria a sensação de desorientação que podemos sentir às vezes. É até meio estranho, portanto, vê-lo retornando ao filme depois… Mas acho que perceberam a enrascada que teriam sem uma figura central.

Com as filmagens feitas na Inglaterra, Hooper acabou tendo outras escolhas interessantes para completar seu elenco, apesar de Chris Lee e Klaus Kinski serem insubstituíveis. Mas o cinema inglês está cheio de atores secundários de qualidade, como Peter Firth, Frank Finlay, Michael Gothard e Aubrey Morris, que entregam ótimos momentos por aqui. Sem esquecer um quase desconhecido Patrick Stewart, que viria a ser o futuro Jean-Luc Picard da série Star Trek: The Next Generation e o professor Xavier dos X-MEN.

O papel dos vampiros espaciais também apresentou algumas questões, sobretudo para escolher o papel feminino, já que a maioria das atrizes anglo-saxãs recusou a proposta, pela grande parcela de cenas de nudez. Foi, portanto, Mathilda May, uma francesa, que herdou o papel, mostrando verdadeiro talento, apesar de uma presença quase silenciosa, mas numa performance muito, digamos, física.

Uma das coisas mais legais de FORÇA SINISTRA é o fato de toda a ação na Terra se passar em Londres e arredores. E o filme tem mesmo uma atmosfera da tradição do horror/sci-fi britânico, acho que seria o mais próximo de algo produzido pela Hammer Films se eles ainda existissem nos anos 80. Não há indícios de que foi dirigido por um sujeito do Texas ou produzido por uma dupla de primos israelenses malucos. Desde os atores e diálogos, o tom levemente melodramático das situações, o estilo visual com movimentos de câmera mais contidos, o ritmo menos apressado. Talvez seja esse o motivo do fiasco? O filme não querer ser mais um épico sci-fi americano exagerado, mas sim um épico sci-fi britânico exagerado e de muito bom gosto? O fato é que o filme foi um grande fracasso quando lançado, uma indicação real de que a fórmula da Cannon realmente não funcionaria em uma escala de blockbuster.

Mas pelo menos cada centavo gasto do gordo orçamento é visível na tela, desde os incríveis efeitos visuais de John Dykstra até um monte de coisas legais com animatrônicos, algumas cenas de violência, cenários incríveis, tanto em miniaturas quanto em escala gigantesca. O final é um dos melhores que existe, de uma intensidade impressionante e belas imagens de puro horror. A enorme nave espacial pairando sobre Londres atraindo as almas de todas as pessoas que estão infectadas através de um enorme feixe azul. Ao mesmo tempo, a infecção está se espalhando e transforma cada indivíduo na cidade em um monstro/vampiro/zumbi; cenas dessas criaturas em massa acabando com Londres, pontos de referência sendo feitos em pedaços, uma atmosfera de loucura destrutiva e, no meio disso tudo, uma cena de sexo alucinante entre Railsback e Mathilda May em uma igreja no meio do feixe azul. Tobe Hooper era foda…

FORÇA SINISTRA era o filme que deveria ter revivido a carreira de Hooper, o que não aconteceu, comercialmente falando. Mas, como já mencionei, isso aqui foi um fracasso. Hoje tem ganhado seus fãs, incluindo o autor desse blog. Hooper acabou cumprindo seu contrato com a Cannon, entregando os dois filmes que ele ainda devia ao estúdio: INVASORES DE MARTE e a maravilha que é O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2. Ou seja, o sujeito continuou em atividade, entregando ainda alguns dos mais belos exemplares do horror americano nas décadas seguintes, como COMBUSTÃO ESPONTANEA e THE MANGLER (esse eu sei que muita gente odeia, mas foda-se, não é mesmo?), construindo uma carreira fascinante e se consolidando como um dos maiores mestres do gênero.

Não deixem de conferir o episódio do Cine Poeira, onde eu, Luiz e Osvaldo conversamos sobre FORÇA SINISTRA (é só clicar aqui) e separem um tempinho para ler meu manifesto no Apoia-se. Precisamos da contribuição de vocês para mais posts como este e com mais frequência. É só clicar no botão abaixo:

THE STREETFIGHTER (1974)

Morreu Sonny Chiba, um dos maiores astros do cinema de gênero. Aproveito para republicar esse textinho que escrevi na época para o finado Action News sobre o clássico cult japonês THE STREETFIGHTER, de Shigehiro Ozawa, um dos meus filmes de artes marciais de cabeceira. Na ocasião, tinha acabado de rever na tela grande, numa mostra de cinema de Kung Fu que rolou em São Paulo, em 2017. Me senti como Christian Slater levando Patricia Arquette ao cinema em TRUE ROMANCE, de Tony Scott. Mas sem a Patricia Arquette…

Quando o filme começa, somos apresentados a Takuma Tsurugi (Chiba) se passando de monge budista dentro de uma prisão, para fazer um agrado a um prisioneiro condenado no corredor da morte, chamado Tateki Shikenbaru (Masashi Ishibashi). Tsurugi é um dos anti-heróis mais infames e desprezíveis da história dos filmes de luta! E Shikenbaru sente o cheiro de sujeira, percebe que Tsurugi é qualquer coisa, menos um monge, e já parte para a porrada. Mas o famigerado Tsuguri revela que, na verdade, está do lado do seu oponente… Mesmo depois de lhe aplicar uns bons golpes.

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Tsurugi dá a Shikenbaru um soco secreto de karatê que o coloca em um breve coma. O sujeito, na real, foi contratado para impedir que Shikenbaru seja executado. E os efeitos de seu soco especial só dão resultado instantes antes do condenado ter a corda colocado no pescoço pelo carrasco. Segundo a lei, mesmo prestes a ser enforcado, o prisioneiro tem direito a atendimento médico caso seja necessário. E Shikenbaru aparentemente está muito mal… Chamam uma ambulância e ele é levado para um hospital. No caminho, acaba interceptado pelo companheiro fiel de Tsurugi, Rakuda Zhang (Goishi Yamada), que desce o porrete nos motoristas da ambulância e foge de lá no veículo com Shikenbaru ainda em coma.

Foi o casal de irmãos de Shikenbaru que pagou Tsurugi para tirá-lo da prisão. No entanto, quando os irmãos aparecem no apartamento de Tsurugi procurando Shikenbaru, ele informa que enviou o sujeito para algum lugar seguro em Hong Kong. E na hora de realizar o pagamento, o casal explica que não tem o restante do dinheiro do resgate. Tsurugi fica furioso e inicia uma peleja com os dois e os resultados são trágicos. O irmão mais novo de Shikenbaru acidentalmente cai da janela e morre. E para melhorar ainda mais a situação, Tsurugi, um sujeito muito prático para resolver as coisas, vende a irmã de Shikenbaru para o mercado de prostituição como escrava sexual para compensar seu insulto. Agora, vocês têm uma noção porque Tsurugi é considerado um patife escroto filho da puta… E mesmo assim torcemos por ele durante todo o filme.

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É preciso dar certa ênfase no arco do personagem de Shikenbaru, como veremos a seguir, mas o fio condutor de THE STREETFIGHTER é outro, completamente diferente. É legal notar como o filme não é apenas pancadaria e que por trás de tudo há uma trama bem contada e elaborada que torna o filme muito mais interessante. O que rola, na verdade, é que um tal de Mataguchi (Fumio Watanabe) deseja contratar Tsurugi para um trabalho. Um barão do petróleo chamado Hammett faleceu e toda sua fortuna foi herdada por sua adorável filha, Sarai (Yutaka Nakajima). Os empregadores de Mataguchi são um braço da Yakuza em Hong Kong e querem sequestrar a moça e forçá-la a assinar a papelada para transferir a bolada para o bolso deles. Mas Tsurugi decide não aceitar o trabalho, porque simplesmente não confia nos chineses.

Além do insulto contra os mafiosos, o problema é que agora Tsurugi sabe demais. Precisa ser eliminado e vira alvo da organização mafiosa. Um grupo de meliantes é enviado para cuidar do sujeito, irrompendo seu apartamento forçando o nosso anti-herói a demonstrar toda a sua técnica em aplicar os mais violentos golpes possíveis em seus desafetos. A cena é um espetáculo e é a síntese do que podemos esperar em termos de ação em THE STREETFIGHTER.

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Pancadarias brutais e grosseiras, grande parte da ação acontecendo em ambientes minúsculos e fechados, como corredores, escadas ou quartos apertados cheio de móveis; a câmera nervosa do diretor Shigehiro Ozawa, com ângulos e movimentos inusitados; ao invés de prezar por coreografias elaboradas, aposta mais nas habilidades de Chiba, nas suas expressões corporais e faciais (leia-se caretas!) e, obviamente, na técnica de respiração do sujeito, que é cem vezes mais exagerada do que os gritos que são a marca registrada de Bruce Lee; e, claro, uma boa dose de violência gratuita.

Não é a toa que THE STREETFIGHTER foi o primeiro filme a obter uma classificação X nos Estados Unidos POR VIOLÊNCIA! Como vocês sabem, geralmente a classificação X é usualmente colocada para filmes de sexo explícito. Na época, os anúncios de jornais americanos que anunciavam o filme continham a citação “AVISO: A MPAA classificou este filme como inadequado para espectadores menores de 17 anos por causa de suas extraordinárias sequências de luta“. Obviamente, com o passar dos anos, o impacto da violência estilizada de THE STREETFIGHTER é bem menor. Mas até hoje fico realmente impressionado com algumas cenas… Não faltam por aqui ossos quebrados, dedos nos olhos, crânios esmagados (um deles numa visão de Raio X), gargantas arrancadas, dentes estourados com um soco e até mesmo as bolas de um sujeito são arrancadas com as mãos!!! Isso mesmo! Tsurugi castra um sujeito sem anestesia com as próprias mãos. Tudo extremamente visceral! São litros e litros de um sangue vermelhão precisamente derramado, quase artisticamente colocado nas cenas…

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Depois de sobreviver ao ataque da Yakuza, Tsurugi resolve mudar de lado e se vingar de Mataguchi. Candidata-se ao posto de guarda-costas de Sarai. Mas antes, precisa encarar o tio da moça, Masaoka, o diretor de uma escola japonesa de Karatê. Mais uma sequência de luta magistral, com Chiba posudo, inspirando, fungando e rosnando. No decorrer da luta, Tsurugi descobre que Masaoka conhecia seu pai. O velho se sente mal por fazer Tsurugi se lembrar de como seu velho foi morto, taxado de traidor e fuzilado na frente do filho, e lhe dá o trabalho de proteger Sarai.

Mas como já disse, Tsurugi é um filho da puta. E um filho da puta sempre será um bastardo cruel desprezível. A ideia de “trocar de lado” e proteger Sarai, na verdade, consiste em tentar ele mesmo colocar as mãos no dinheiro da moça. E mesmo sabendo disso, continuamos torcendo por Tsurugi. Mas para isso, o sujeito vai ter uma jornada de violência, enfrentando vários capangas na porrada e uma variedade de lutadores exóticos, como um brutamontes chinês, um cego que esconde uma espada na sua bengalinha, ao estilo Zatoichi, e até o nosso velho amigo Shikenbaru, que retorna ao Japão com sede de vingança por conta do que fez com sua irmã e pela morte do irmão.

A vingança de Shikenbaru acaba tendo vida própria dentro do filme. Possui um peso tão forte na trama de THE STREETFIGHTER que a batalha dos dois personagens ao final, a bordo do navio de petróleo, numa noite chuvosa, só poderia ganhar ares épicos e um desfecho dramático típico de uma tragédia japonesa.

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O sucesso de THE STREETFIGHTER e do personagem de Sonny Chiba gerou ainda duas continuações, THE RETURN OF STREETFIGHTER e THE STREETFIGHTER LAST REVENGE, que expandem o universo de Tsurugi, apesar de inferiores. São divertidos e violentos, mas não aproveitam a figura de Tsurugi como neste primeiro. Takuma Tsurugi é uma figura fascinante, por mais politicamente incorreta que seja, e o desempenho de Sonny Chiba é uma força selvagem da natureza, especialmente ao realizar suas performances nas cenas de luta, na maneira quase primitiva de se impor diante dos adversários. Acaba sendo cômico em alguns momentos, mas percebe-se o talento expressivo de um ator criando uma assinatura. E Tsurugi é a assinatura de Sonny Chiba, ícone do cinema de artes marciais. Ganhou até uma bela homenagem de Quentin Tarantino em KILL BILL, no papel de Hatori Hanzo.

R.I.P. Sonny Chiba.

NOTAS SOBRE FILMES RECENTES

JUNGLE CRUISER (2021)

Dir: Jaume Collet-Serra

Inchado até o talo e bem irregular. Até gosto do toque feminista, tem algumas ceninhas bacanas de ação, o conceito visual dos exploradores espanhois amaldiçoados é bem feito, criativo, e o Jesse Plemons parece se divertir como vilão alemão. Mas é um filme que me deixa com sono a maior parte do tempo. E não convence de maneira alguma com a química entre The Rock e Emily Blunt, que tá mais pra uma versão forçada da Bela e a Fera. Mas também ninguém estava esperando um filme mais “Collet-Serra” do que um “Disney Movie”, não é mesmo? Não precisava de um diretor autoral pra fazer isso aqui. Podiam chamar um Gary Ross ou Francis Lawrence que dava na mesma. 

Torcendo pro Collet-Serra voltar a fazer filmes com o Liam Neeson.

O ESQUADRÃO SUICIDA (2021)

Dir: James Gunn

Nem sou tão detrator do primeiro ESQUADRÃO SUICIDA (apesar de ser mesmo fraquinho) e acho o David Ayer um diretor bem interessante. Mas ele realmente se fodeu quando se meteu com a Warner/DC. James Gunn parece transitar melhor pelos corredores dos grandes estúdios e leva muito jeito pra trabalhar nesses tipos de projetos, com esses orçamentos volumosos (de um cara que surgiu ali no underground, da TROMA, é algo a ser estudado). E, sobretudo, consegue impor sua visão pessoal. O nível é MUITO superior aqui, o tipo de espetáculo divertido, engraçado, subversivo e violento que se espera desse material e de um filme do James Gunn.

DUPLA EXPLOSIVA 2 – E A PRIMERA-DAMA DO CRIME (2021)

Dir: Patrick Hughes

O australiano Patrick Hughes mantém as coisas num bom ritmo, em constante movimento durante toda a duração, que é mais longa que deveria, quase duas horas pra um filme desse é praticamente auto sabotagem. Mas entrei na onda e deu pra se divertir… Gosto bastante do primeiro filme, que postei aqui há um tempinho, acho até um bocado subestimado. Achei esse aqui ainda melhor, trabalha uns temas interessantes, de forma boba, mas que não prejudica o que interessa. A coisa tem potencial pra ser uma franquia, se não no mesmo nível que um MISSÃO IMPOSSÍVEL, VELOZES E FURIOSOS ou JOHN WICK, pelo menos agradável, com um universo muito próprio e personagens engraçadíssimos (Salma Hayek em especial…). E apesar de ter OS MERCENÁRIOS 3 no currículo, Hughes filma bem ação. Evidente que o tom cartunesco do filme permite certos exageros e humor abobalhado na ação, o que pode não agradar a todos. Mas é inegável o talento do sujeito em filmar perseguições, pancadria e tiroteios com bastante energia. Que venham mais filmes da série.

NEM UM PASSO EM FALSO (2021)

Dir: Steven Soderbergh

Cai numas armadilhas bestas que poderiam ser evitadas: excesso de personagens, reviravoltas e subtramas que deixa a coisa inchada bem mais que deveria, em especial na segunda metade. Mas o filme é tão consistente naquilo que propõe, em tecer uma teia curiosa de crime, roubos, assassinatos, traições, com um humor ácido peculiar e uma atmosfera noir interessante, que acaba tendo sua graça no fim das contas… Óbvio que o elenco acaba sendo um destaque, sobretudo Ray Liotta, um Brendan Fraser incrivelmente obeso e Bill Duke genial como sempre.

VAL (2021)

Dir: Leo Scott e Ting Poo

Obviamente que eu queria ver o Val Kilmer falando sobre as produções de ação e terror vagabundos direct to video dos anos 2000, mas aí já seria pedir demais… De todo modo, é um belo documentário, um retrato interessante e sensível de uma figura fascinante, bizarra e problemática do cinema americano que foi do ápice do estrelato ao fundo do poço e resolveu filmar tudo em vídeo. Uma vida inteira toda registrada. Vale a pena. Produção da Amazon, então tá disponível no streaming deles.