THE JOURNEY: ABSOLUTION (1997)

David DeCoteau é desses diretores de gênero de baixo orçamento, surgidos nos anos 80, que recomendo conhecer. É da mesma linhagem que um Jim Wynorski e Fred Olen Ray, que filmam em grande quantidade, com poucos recursos e entregam aquilo que os amantes de um filme B almejam: boas doses de violência e mulheres nuas em filmes curtos e despretenciosos cheio de atores legais… E com relativa qualidade.

O que torna DeCoteau especial é que ele é gay, então mesmo que seus filmes sejam realizados para um público hétero, não vão faltar muitas cenas de homens suados semi nus desfilando na tela. Em 1997, o sujeito lançou seu filme mais “ambicioso”, LEATHER JACKET LOVE STORY, um projeto autoral, em preto e branco, de temática gay, que passou em festivais de filmes independentes no período e que parece ser bem interessante. Sobretudo vindo de um diretor de tranqueiras como o DeCoteau. Nem Olen Ray e Wynorski fizeram algo do gênero…

De todo modo, naquele mesmo ano, DeCoteau volta a abraçar suas raízes ordinárias e lança também THE JOURNEY: ABSOLUTION, que é mais coerente com a sua obra. Enquanto LEATHER JACKET LOVE STORY rodava festivais, no mercado de vídeo chegava esse trabalho de contrato para a EGM Films do produtor John Eyres, uma ficção científica das mais vagabundas. A trama se se passa num futuro cuja maior parte da Terra havia sido destruída por um asteróide. Na trama, acompanhamos uma pequena colônia militar, na Nova América, que conseguiu sobreviver no Ártico, povoada basicamente por homens de pouca roupa que passam seus dias se exercitando.

Quando soldados começam a desaparecer misteriosamente nessa colônia, as autoridades enviam Ryan Murphy (Mario Lopez) para investigar tais desaparecimentos e o líder tirânico do local, o sargento Bradley (vivido pelo grande Richard Grieco). Enquanto testemunha cerimônias bizarras e técnicas de treinamento brutais, Murphy percebe que soldados desaparecidos é apenas o começo de uma conspiração que vai além do nosso mundo, envolvendo invasão alienígena e etc…

Sim, a trama parece promissora, mas não se apeguem muito a isso…

O que realmente temos em THE JOURNEY: ABSOLUTION é Mario Lopez e seus companheiros de quarto correndo pra lá e pra cá pelo cenário, pulando, abraçando e brigando em roupas íntimas. Afinal, como disse, é um filme dirigido pelo Decoteau, então obviamente a coisa vai dar a impressão de estarmos assistindo a um comercial de cuecas da Calvin Klein.

Eventualmente umas amiguinhas aparecem pra agradar ambos os públicos…

Lopez tem um rosto reconhecível, fez algum sucesso na televisão, mas se ele tava achando que esse tipo de material iria ajudar a dar um gás na carreira, acho que se enganou. Aqui ele até se esforça como herói, mas não consegue exatamente passar a ideia de fodão badass. Porém, para o tipo de produção que temos aqui, ele funciona como o herói solitário tentando investigar o local enquanto tem que lidar com um bando de rapazes desconfiados da sua presença. E para o propósito de DeCoteau de filmar jovens de corpos esculturais sem camiseta, o cara serviu bem.

Enquanto isso, o grande Richard Grieco engole o cenário com uma atuação maravilhosa, expansiva, suando, cospindo e gritando profusamente, até que os vasos sanguíneos em sua testa ameaçam se libertar, como ele “odeia ianques e retardados“. Isso quando não está cheirando roupas íntimas…

Grieco é um baita ator, uma dessas figuras do cinema B americano subestimadíssima, que nunca teve o merecido reconhecimento. E aqui mostra um bocado do que é capaz, parece estar se divertindo muito. É absurdamente ridículo, do jeito que a gente gosta.

E temos a personagem de Jaime Pressly, cuja aparição com a outra amiguinha da imagem lá de cima são as únicas presenças femininas do filme. Elas surgem meio que do nada nesse universo de homens pra dar uma alegrada no público que não quer ver só nádegas masculinas… O que inclui uma cena de sexo, típica de um Cine Privé, protagonizada por Pressly e Lopez.

O IMDB informa que THE JOURNEY: ABSOLUTION foi produzido com um orçamento de US $1,7 milhão. Vão me desculpar, mas já vi filmes com orçamentos menores com resultados bem mais interessantes. A coisa aqui parece que foi filmada com 1/3 desse orçamento. Basta observar as sequências com efeitos especiais, explosões digitais, é tudo muito tosco. Deve ser algum esquema de lavagem de dinheiro… Ou talvez Jaime Pressly cobrou bem caro pra ficar à vontade nas ceninhas acima. Nunca saberemos.

Não é exatamente um filme de ação, mas temos alguns momentos bacanas, com uns tiros e lutas. São escassas, concentradas mais no último ato e nada especiais também, mas até que são dignas e filmadas sem frescura.

E é isso por hoje. Não tenho lá muito o que falar de THE JOURNEY: ABSOLUTION, mas recomendo. Não é um filme exatamente bom, o roteiro, no fim das contas é um fiapo e não se sustenta por muito tempo, o ritmo acaba prejudicado e é meio chatão em alguns momentos, mas pode agradar os amigos que curtem uma boa e velha tralha de baixo orçamento dos anos 90. Ou pra quem quer ver moços musculosos em roupas íntimas, malhando e ficando suados. Então, não é de todo ruim… É medíocre, exagerado, ridículo, mas também tem seus momentos de humor involuntário e com Grieco em estado de graça.

URBAN MENACE (1999)

URBAN MENACE é um daqueles “filmes treta” do Albert Pyun, que, para quem já acompanha o blog há mais tempo, sabe que é um dos diretores favoritos do recinto. E pra quem conhece mais ainda a figura, sabe também que o sujeito vivia se metendo em encrenca pra fazer seus filmes. Neste aqui, Pyun deveria ir para a Eslováquia e fazer, em apenas 18 dias, uma antologia, filme com várias historinhas, de crime urbano. Em 1999 já não era muito modinha os chamados hood films, mas os anos 90 nos deu uma boa safra desse tipo de crime movie protagonizado por rappers metidos a gangster, mas era isso que o Pyun faria por aqui. E teria no elenco umas figuras como Snoop Dogg, Big Pun, Fat Joe, Ice-T, que também teria participação na trilha sonora, com trechos de um novo álbum que havia lançado na época…

Mas, enfim, sabem como é o Pyun. Em vez fazer o que foi contratado, um único filme, o sujeito resolveu fazer três longas metragens nesses 18 dias. Daí saiu este URBAN MENACE, CORRUPT e THE WRECKING CREW. Tudo reutilizando o mesmo elenco, locações e equipamentos. Ah, e fez os três filmes ao mesmo tempo, com os atores muitas vezes nem sabendo pra qual filme estavam fazendo tal cena em determinados momentos. Imaginem a qualidade dessas produções…

Independente dos resultados, Pyun conseguiu terminar a façanha no prazo. O problema foi na hora de voltar. Nessa entrevista que fizemos com ele há dez anos, Pyun nos conta que várias fitas miniDV com as filmagens foram perdidas pela Air France no transporte de volta para os Estados Unidos. Então, segundo ele, teve que finalizar apenas com a metade do que havia sido filmado de cada um. Na verdade, o que descobri depois de alguns anos, é que o diretor usou imagens de uma versão workprint do filme para substituir as partes que foram perdidas. Tanto que a janela dos filmes é em letterbox, pra esconder o timecode na parte inferior da tela. Mas, isso são detalhes. Embora expliquem porque a imagem do filme é uma bosta.

Não assisti ainda a CORRUPT e THE WRECKING CREW, mas URBAN MENACE eu parei aleatoriamente pra ver essa semana. E não me decepcionei. Esperava uma porcaria e o que vi foi exatamente isso. Uma porcaria. Mas é um filme tão ruim, mas tão ruim, que me peguei fascinado com sua inépcia, com sua imagem tosca, com as atuações e diálogos ridículos… Um exemplar de Pyun da pior espécie e, por isso mesmo, adorei.

O filme é uma mistura de gangsta/hood movie com elementos de horror. Começa com a cara do Ice-T olhando diretamente pra nós, como um narrador/comentarista social que fala para a câmera seu discurso, desferindo palavões e ameaças. É o que URBAN MENACE tem de melhor.

A trama é sobre um pastor (Snoop Dogg) que busca vingança contra o sindicato do crime local (chefiados por Big Pun & Fat Joe) pela morte de sua família e pelo incêndio de sua igreja. Não se sabe ao certo se o pastor morreu também no incêndio ou se é o fantasma (a resposta acaba sendo revelada mais pro final), mas seja o que for, ele se esconde num armazém abandonado e criminosos são enviados ao local para o matar. Na maior parte do tempo, Snoop Dogg age como uma entidade, um espírito que vaga pelos escombros e corredores do local levando a morte. E Pyun usa uns efeitos especiais e de edição da pior qualidade pra enfatizar o tom de ambiguidade nessa persona fantasmagórica de Snoop Dogg.

Mas quem seguimos realmente nessa história são três capangas (liderados por T.J. Storm), que passam o resto do filme andando em círculos pelos corredores do local procurando Snoop Dogg, ou correndo atrás dele quando o avistam (para ser mais específico, o dublê do Snoop Dogg)… E fica nisso, praticamente toda a narrativa se passa nesse armazém, com diálogos bestas, fotografia horrorosa e toda estourada, fora de foco, e os caras tentando pegar o Snoop. Pelo menos a trilha do Ice-T é maneira.

Quando o filme te leva pra outra situação, em outra locação, na base do sindicato do crime, com Big Pun e Fat Joe sentados conversando com seus capangas, a coisa piora ainda mais – ou melhora, dependendo do seu humor – e temos alguns dos piores trabalhos de câmera, edição, enquadramentos e mise en scene que já vi na vida. É de rolar de rir!

No final, todos os bandidos decidem invadir o armazém. Snoop Dogg faz uma chacina, dando tiro em todo mundo. É uma sequência até divertida, demonstra o velho Pyun experimental do cinema de ação de baixo orçamento, com resultado interessante. Tosco. Mas interessante… E, enfim, URBAN MENACE só tem 72 minutos. Contando os créditos. Claro, às vezes dá a impressão que possui 3 horas de duração, com os persoangens zanzando por um tempão pelos cenários e a cara do Snoop Dogg inserida na edição de forma ordinária. Mas tudo bem. Eu adoro essas porcarias, achei tudo engraçadíssimo, então gostei de URBAN MENACE. Só não vou recomandar e dizer que vale a pena assistir, porque tenho minhas dúvidas se até os leitores que gostam de uma tralha não se decepcionariam com isso aqui. Portanto, estejam avisados.

Curiosidades: Um dos bandidos também enviados ao local para matar o Snoop Dog é vivido por Vincent Klyn, o Fender, de CYBORG – O DRAGÃO DO FUTURO, a obra-prima de Pyun. E o roteiro, se é que podemos chamar esse lixo de roteiro, foi escrito por Tim Story, que alguns anos mais tarde dirigiria aqueles filmes do QUARTETO FANTÁSTICO dos anos 2000… Podem acreditar, URBAN MENACE é, pelo menos, melhor que esses aí.

Em breve comento também CORRUPT e THE WRECKING CREW, que provavelmente devem ser tão ruins quanto esse. Mal posso esperar!

GAROTAS SELVAGENS (1998)

John McNaughton, que até então era um cineasta visto com certa seriedade, surpreendeu, seja de forma positiva ou negativa, com GAROTAS SELVAGENS (Wild Things), produção que, a princípio, talvez fosse mais adequada para um “direto para vídeo” do que uma produção de Hollywood de orçamento razoavelmente alto (e as continuações de GAROTAS SELVAGENS dão uma boa noção do que o filme seria em circunstâncias normais). Por outro lado, os realizadores e o estúdio talvez tenham reconhecido que os elementos do cinema de exploração – intrigas vulgares, violência, sexo, nudez e garotas com preferências sexuais heterodoxas – poderiam dar ao filme uma nova qualidade, se realizado de modo correto.

O resultado é uma espécie de pastiche de neo-noir, com traminhas de crime e traição, personagens amorais, mas como se as fêmeas fatais do gênero pairassem sobre um capítulo de Malhação. GAROTAS SELVAGENS realmente tinha tudo pra ser muito ruim, mas é tão auto-consciente no que tá fazendo, além de safado e divertido, que fica difícil não resistir a essa pequena joia do final dos anos 90, que revi recentemente e continua um barato.

Ambientado na Flórida, somos apresentados ao professor Sam Lombardo (Matt Dillon), que é acusado de estuprar suas alunas, Kelly (Denise Richards) e Suzie (Neve Campbell), duas garotas er… selvagens. Você sabe que muita coisa ainda vai acontecer quando o assunto é encerrado no tribunal com menos de meia hora de filme, a deixa para que o vira-revira da história entre em ação com esse trio (e mais o policial vivido por Kevin Bacon). E também não adiantaria ficar aqui resumindo a trama, não porque vá estragar as várias surpresas e reviravoltas que o filme guarda (se é que alguém aí ainda não assistiu), mas porque, de uma forma ou de outra, a história não faz mesmo nenhum sentido… Haha!

O que vale a pena é acompanhar esses personagens inseridos em um contexto de sátira hiper-inflacionada dos elementos noir atualizados para a época. Os golpistas da trama são jovens de colégios, o dinheiro é absurdo de alto, o escândalo bem mais sensacionalista na sociedade e o sexo bem mais intenso. Um item que, aliás, chama a atenção pelo tom apelativo para um filme mainstream, usado como anzol para o grande público. Sobretudo na cena envolvendo uma trinca sexual, que chega com a sutileza de um filme pornô “com historinha”.

Cenas como Denise Richards saindo de uma piscina em câmera lenta, com um maiô transparente, ou Kevin Bacon em um nu frontal saindo do chuveiro são tão coreografadas, e de certo modo desnecessárias, que redefinem a palavra “gratuito”. Eu, particularmente, não tenho problema nenhum com isso, só acho que com toda essa exploração o filme não tem coragem de mostrar com todas as letras um óbvio envolvimento homossexual entre os personagens de Dillon e Bacon, embora, o faça quando o assunto é entre as duas garotas.

Mas enfim, seria mais uma revelação num mar de reviravoltas que GAROTAS SELVAGENS tem para oferecer. E que avança com um enredo que, embora simples e compreensível, começa a se enrolar nessa brincaderia dos “plot twist“. É, ao mesmo tempo, justamente a piada que McNaughton e o roteirista Stephen Peters querem contar e o tiro no pé do próprio filme. Uma vez que as reviravoltas começam a acontecer, elas nunca param, com novas revelações a cada poucos minutos quando o filme entra em sua meia hora final. E em consequência perdem força. Ainda assim, esse tipo de coisa acaba funcionando como uma comédia, mesmo que involuntária.

O elenco de GAROTAS SELVAGENS acaba sendo um destaque. Especialmente para esse tipo de filme, que precisa de talentos peculiares, por exemplo, como o de Denise Richards, que além de fazer bem o seu papel, mostra algumas outras qualidades na frente das câmeras. Neve Campbell também está ótima, fazendo um tipo mais ambiguo, assim como Matt Dillon e o olhar ameaçador de Kevin Bacon. Marc Macauley e Thereza Russell fazem boas participações, mas o show mesmo é roubado por Bill Murray em um papel curto, mas incrivelmente eficaz, como um advogado picareta.

GAROTAS SELVAGENS não é um filme perfeito, nem é um desses clássicos esquecidos dos anos 90 que precisava de uma redescoberta obrigatória… É bobo e tem quase duas horas de duração que podem ser ocupadas com coisa melhor. No entanto, para quem tem um gosto mais, digamos, vulgar pra cinema, é um belo exemplar que vale a pena conhecer caso alguém ainda não tenha visto.

O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA – DO PIOR AO MELHOR

Outro dia lançaram um novo filme da série O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA na Netflix, então eu resolvi ver toooodos os filmes da franquia que ainda não tinha assistido e rever os que já tinha conferido antes de encarar esse mais recente. O resultado foi esse ranking, do pior ao melhor, já incluindo o tal novo filme da Netflix:

9. Na última posição, ficou O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3D – A LENDA CONTINUA (Texas Chainsaw 3D, 2013), de John Luessenhop. Na maioria das vezes eu sou a favor da desmitificação e revisionismo de padrões, ícones e cânones no cinema, mas transformar o Leatherface numa espécie de anti-herói, um tipo de protetor, e alguém que mereça algum cuidado e carinho, é algo que eu não sei ainda como lidar. Especialmente depois de ver cada filme da franquia em sequência. Talvez se o filme fosse bom, eu não ficaria me procupando muito com esses detalhes, mas é bem meia boca na maior parte do tempo, a tram demora pra engrenar, e não consegui entrar muito na dos personagens na primeira metade do filme. 

A segunda metade já vira aquele banho de sangue padrão, sem muito brilho, mas sempre divertido de acompanhar, com algumas boas mortes… E tendo ainda Alexandra Daddario como protagonista, que é uma belezinha. Enfim, tem seus momentos. Mas é bem estúpido.

8. Agora, daqui pra frente é só alegria. Não que os filmes da série sejam geniais (na verdade, dois são sim, mas vamos esperar as primeiras posições), mas no geral me divertem em maior ou menor grau. MASSACRE NO TEXAS (Leatherface, 2017), de Alexandre Bustillo & Juliem Maury, já ganha uns pontinhos por tentar contar uma história diferente de tudo relacionado ao cânone de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA. A maior parte da trama se passa em meados dos anos 60, com o jovem Leatherface escapando de uma instituição mental. Há uma espécie de componente whodunnit no filme, porque é mostrado que os internos têm seus nomes alterados para evitar a associação com seu passado criminoso, então nem sabemos exatamente quem é o Leatherface no grupo fugitivo até certo momento chave. E o filme é incrivelmente violento, incluindo um tiroteio em um restaurante ao estilo ASSASSINOS POR NATUREZA.

Longe de ser perfeito, surpreende pela visão brutal do horror da dupla francesa Bustillo e Maury (L’INTÉRIEUR e LIVIDE), que conduz com segurança um filme agressivo, macabro (a cena de sexo com o cadáver é um troço bizarro), com bons personagens e atuaçõs fortes (Stephen Dorff e Lily Taylor estão muito bem), excelentes efeitos de gore práticos, belo clima e até mesmo uma história convincente de origem, bem respeitosa ao personagem do título.

7. Olha o novo filme aí. O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA: O RETORNO DE LEATHERFACE (Texas Chainsaw Massacre, 2021), de David Blue Garcia, tem uma sequência em um ônibus de festa, com um monte de influenciadores digitais sendo cortados em pedaços pelo Leatherface que é simplesmente uma delícia e já vale o filme. Que aliás, só tem cerca de 80 minutos de duração. Então, por mais bobo e descartável que seja, é difícil até culpá-lo por desperdiçar seu tempo, porque ocupa tão pouco… E a contagem de corpos é altíssima, tem várias mortes legais, uns momentos bem tensos, umas sacadas visuais interessantes – como Leatherface no meio dos girassóis. Que venham mais filmes da franquia, mesmo que sejam massacrados pela crítica, mas tão divertidos como este aqui.

6. LEATHERFACE: O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3 (Leatherface: The Texas Chainsaw Massacre III, 1990), de Jeff Burr. A década de 80 ficou marcada pela ascensão do slasher, não apenas como um subgênero, mas como uma fonte de criação de ícones de terror na cultura popular. A New Line, estúdio que trouxe Freddy Krueger ao mundo, resolveu colocar as mãos numas outras franquias, como O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, com a ideia de que Leatherface precisava ser o próximo grande ícone do gênero. Então, o terceiro filme da série colocou seu nome no título, um tempinho a mais de tela, com o personagem confeccionando uma de suas máscaras de pele humana, e até mesmo presenteou-o com uma motosserra mais épica, de aço inoxidável com a frase “The Saw Is Family” gravadas na lâmina.

A intenção também era desviar-se do humor de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2 e devolvê-la às raízes do horror mais puro do filme original; contrataram David J. Schow pra isso, um pioneiro da literatura “splatterpunk” para escrever o roteiro, e na direção, Jeff Burr, que não é um Tobe Hooper, mas sempre mandou bem em produções pequenas, embora aqui tivesse que lidar com vários problemas durante as filmagens, além da série de cortes da MPAA, que meteu tanto a tesoura nas cenas de violência que até a versão unrated é branda.

O resultado, convenhamos, não é lá grandes coisas, mas ao longo do tempo se tornou um “filme do coração”, um pequeno e belo exemplar do horror noventista, que muitos odeiam, eu sei, mas que tenho um carinho especial. Acho divertidíssimo, é direto, não chega a 90 minutos de duração e consegue entregar um certo nível de insanidade que a franquia precisa.

O problema é que a trama é basicamente uma recauchutagem do filme original e o casal protagonista, interpretados por Kate Hodge e William Butler, são muito chatos. Temos novamente uma sequência que recria o jantar, sem a mesma força dos dois filmes anteriores, mas, vejamos, temos a mocinha com as mão pregadas à marteladas numa cadeira, um jovem Viggo Mortensen como um dos canibais, chamado Tex, um sujeito pendurado de cabeça para baixo pronto para ser abatido com uma martelada, Leatherface com sua nova motosserra cromada, personagens da família canibal nunca visto antes. E de quebra, a presença de Ken Foree como herói badass que surge nesta mesma cena metralhando todo mundo, para logo depois encarar Leatherface no mano a mano dentro de um mangue cheio de pedaços de corpos. Cacete, não tem como não se divertir com essa porcaria…

5. Se O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA: O INÍCIO (The Texas Chainsaw Massacre: The Beginning, 2006), de Jonathan Liebesman, é um filme que não justifica tanto sua existência – a de ser um prequel do remake de 2003, mostrando como os Hewitts (a nova família) se tornaram canibais assassinos e contando as origens de Leatherface – ao menos se justifica como um filme de horror muito eficiente, mais direto, sujo, violento pra cacete e com um trabalho de tensão bem muito competente, de fazer o espectador pregar na poltrona durante um bom tempo. Não deixa de ser descartável, mas para quem quer ver uma boa dose de matança, com Leatherface fazendo bom uso de sua motosserra, este aqui é altamente recomendável… R. Lee Ermey, que já havia brilhado no filme de 2003, continua um destaque. E para o roteiro trouxeram mais uma vez o pioneiro “splatterpunk” David J. Schow, que já havia trabalhado no filme acima, MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3.

4. Eu não diria que O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (The Texas Chainsaw Massacre, 2003), de Marcus Nispel, seja um filme obrigatório, não é nada lá muito memorável. Mas uma coisa que eu não lembrava e que foi uma grande revelação pra mim nessa revisão é o fato de ser um remake que não tenta ser o original e muda tudo aquilo que lhe convém – trama, situações, personagens… Não que isso o torne melhor, mas pelo menos lhe dá alguma autenticidade dentro de sua proposta conceitual, mesmo que o resultado geral seja genérico em tom e visual. O problema é que o Marcus Nispel filma mal, com um ou outro momento de destaque. Um diretor mais talentoso teria transformado isso aqui num clássico do horror dos anos 2000. Mas ok, ainda assim, tudo funciona pra mim de alguma maneira, sobretudo no terceiro ato quando o filme se torna só uma frenética – e realmente tensa – perseguição de Leatherface à final girl de Jessica Biel, com alguns momentos bem inspirados e violentos. No fim, fiquei bem satisfeito. Me parece um filme que se arrisca mais, o que acaba adicionando uns pontos à seu favor, mesmo que falhe em algumas coisas no percurso.

Mas aí entra o xerife de R. Lee Ermey, que é o que o filme tem de mais desconcertante, e uma das melhores coisas da franquia inteira. Tudo sobre a presença do sujeito é simplesmente aterradora, tensa e desagradável de assistir – uma performance que merecia ser mais lembrada. O sujeito era foda.

3. O quarto filme da franquia, O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA: O RETORNO (The Texas Chainsaw Massacre: The Next Generation, 1995), foi escrito e dirigido por Kim Henkel – que é o co-criador do primeiro filme, o clássico de 74, junto com Tobe Hooper. Henkel considera o filme uma paródia da franquia (ele até recria algumas cenas do original), mas o público na época não achou muita graça e foi um fracasso nas bilheterias. Desde então, vem ganhando um status cult e agora eu entendi porquê (esse foi um dos que eu nunca tinha assistido antes)… Trata-se de um dos filmes mais surtados, bizarros, anarquistas, doentios, com um humor debochado dos mais absurdos que eu já vi dentro de uma franquia de horror mais conhecida. Em determinado momento eu pensei que tava vendo um filme do David Lynch… As atuações de Matthew McConaughey e Renée Zellweger, os dois nomes que acabaram ficando famosos, acompanham toda a loucura com a mesma intensidade de suas performances; e o filme também apresenta um Leatherface travestido, o que é simplesmente genial. Toda vez que lembro desse filme, gosto ainda mais.

2. O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2 (Texas Chainsaw Massacre 2, 1986) foi produzido pela Cannon Group como parte de um acordo com Tobe Hooper, que poderia dirigir este aqui contanto que fizesse mais dois filmes para o estúdio. Foi inicialmente planejado como uma continuação muito maior, mais épica e bizarra, com uma cidade inteira de canibais. De certa forma, continua sendo um filme “maior”, mais épico e bizarro, porém o orçamento foi reduzido durante a produção e algumas ideias foram deixadas de lado. Não sei se estava no projeto inicial, mas Dennis Hopper está aqui como um Texas Ranger obcecado, parente de vítimas do primeiro filme. Ele quer se vingar e vai usar motosserras para atingir seu objetivo! E só por isso, já dá pra colocar o filme num pedestal.

Lembro da decepção que foi ver esse filme pela primeira vez. Provavelmente porque não esperava a total mudança de tom, mais carregado no humor, e é tudo ainda mais exagerado, mais colorido, em muitos aspectos o oposto do primeiro filme. Mas com várias revisões que fui fazendo ao longo dos anos passei a apreciá-lo cada vez mais. Hoje considero uma obra-prima. sobretudo por compreender melhor a ideia de Hooper em fazer uma continuação que reagisse aos anos 80, numa sátira autoconsciente do próprio produto que criou e também pelo contexto daquela época, de uma América oitentista cheia de traumas e ressaca das últimas décadas…

Certamente não era a continuação que os fãs do primeiro filme queriam, há uma recusa em atender as expectativas, um grande foda-se pra tudo isso. Mas ainda assim estamos falando de Tobe Hooper, então, para quem embarca na loucura, vai se deliciar com alguns dos momentos mais antológicos do horror nos anos 80. Como Leatherface descobrindo o “amor” e usando sua motosserra como extensão de seu… Bom, vocês sabem. Ou Dennis Hopper encarando Leatherface num duelo de motosserras, que é algo para se ver de joelhos. E apesar de Hopper estar maravilhoso, é preciso destacar Bill Moseley, que dá uma “roubada de cena” quando aparece. Pode não estar no mesmo nível do primeiro (óbvio, até porquê pouquíssimos filmes estão), mas de alguma maneira acabou sendo uma continuação perfeita de um filme perfeito.

1. Obviamente que o primeiro lugar seria do clássico de 1974. Não tinha como ser diferente. O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (Texas Chain Saw Massacre, 1974), de Tobe Hooper, continua uma das experiências mais perturbadoras mesmo depois de tantas revisões, e permanece na mente como um pesadelo. Ok, “pesadelo filmado” é uma daquelas expressões que acabaram banalizadas pelo seu uso excessivo, mas aqui não existe definição mais perfeita. Tobe Hooper tira toda a gordura habitual do gênero, concentra-se no essencial e nos serve um filme aterrador, sublime e revolucionário; horror na sua forma mais pura e cristalina: um pesadelo filmado.

A antológica sequência do jantar com a família de canibais é um é uma das coisas mais absurdas e subversivas que existe no gênero até hoje; a mise-en-scène de Hooper, os ângulos oblíquos dos enquadramentos, a luz desorientadora, o pandemônio auditivo potencializados pelos gritos desesperados de Marilyn Burns, possui todos os ingredientes daquilo que é feito um… pesadelo. E convenhamos: só a ideia de um psicopata brutamontes, com uma máscara feita de pele humana, portando uma motosserra perseguindo uma garota inocente é algo simplesmente genial. Com isso em mente, o filme culmina numa das sequências mais inesquecíveis da minha vida, uma perseguição final que tem desfecho na icônica imagem cristalizada de Leatherface (Gunnar Hansen), perfilado contra o sol fumegante, agitando sua motosserra como numa dança macabra. Obra-prima, clássico, etc, qualquer termo desse tipo é pouco pra classificar isso aqui.

THE ARENA (1974)

A New World Pictures, produtora de Roger Corman, financiou THE ARENA, uma variação do tema WIP (Women in Prison), filmes de exploração com mulheres passando sufoco em prisões, só que aqui ambientado durante os dias do antigo Império Romano. Mark Damon, que foi ator de alguns filmes de Corman nos anos 60, havia se aposentado das atuações e se tornou um produtor de cinema na Europa e pegou THE ARENA pra começar. Filmado na Itália com um elenco majoritariamente europeu, apresentando muitos rostos familiares de uma série de filmes de Eurohorror, como Paul Muller e Rosalba Neri, o filme é marcado também pela presença da então crescente musa do exploitation Pam Grier o que o torna um híbrido incomum de peplum italiano dos anos 1960 e um grindhouse americano dos anos 1970.

Grier e Margaret Markov (que já haviam se unido anteriormente em BLACK MAMA, WHITE MAMA, de 1972) co-estrelam como Mamawe, da Núbia, e Bodicia, uma sacerdotisa da Bretanha. Ambas são sequestradas de suas terras natais por soldados romanos e rapidamente, junto com outras mulheres, encontram-se no leilão no mercado de escravos. Acabam compradas pelo organizador politico conectado aos jogos locais, Timarchus, tanto como escravas sexuais para o entretenimento dos amigos poderosos de Timarchus quanto como garçonetes das arenas durante os jogos. Apenas Bodicia e Mamawe mantêm uma aparência de dignidade sob o jugo da servidão, desafiador até mesmo para a altiva supervisora ​​de Timarchus, Cornélia (interpretada por Rosalba Neri).

Quando as garotas se envolvem em uma briga de comida que destrói a cozinha, um dos amigos de Timarchus sugere transformá-las em gladiadoras para a arena. Ansioso para manter os cidadãos que compram ingressos interessados nesse tipo de entretenimento, Timarchus logo tem as mulheres treinando para o combate sob a tutela do mestre gladiador Septimus (Peter Cester), um lutador careca enorme que comete o erro de se apaixonar por uma de suas novas alunas, Lucinia (Mary Count).

A primeira competição pública entre as gladiadoras é um evento cômico, sem que ninguém seja ferida ou morta. Mas a multidão sedenta de sangue fica facilmente entediada. O próximo confronto deverá ser até a morte. Mamawe e Bodicia percebem que cada uma delas vão acabar morrendo em algum momento na areia encharcada de sangue da arena, a menos que tomem uma atitude, façam uma revolução, numa tentativa de liberdade.

Essencialmente, esses filmes nos convidam a desfrutar vicariamente os prazeres do poder, testemunhando uma sucessão de espetáculos sádicos e, quando a roda gira pro outro lado, vemos o ciclo se repetir com as posições de vítima e vitimizador invertidas. Portanto, ao final, ver os poderosos se ajoelhando diante do poder feminino dessas gladiadoras já faz valer o filme. O significado pode ser tomado como sadiano: pegue o que puder, antes que a próxima contra-revolução chegue. Ou até budista: que atitude tomar para escapar do ciclo cármico. Seja como for, reforça a validade da máxima de John Dalberg-Acton: “o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente“. Sim, é muita besteira intelectual/filosófica para justificar um filme como THE ARENA. Na verdade, o que o justifica é bem mais simples: Grier, Markov e outras moças no modo “vamos vestir se o papel exigir” e uma abundância de sequências de batalhas e duelos em arenas.

Não é nem um filme muito notável ou particularmente bom, mas também não é uma perda de tempo, especialmente se você tem interesse nessas questões, nas aventuras de “Espada e Sandália” e, obviamente, em senhoritas com pouquíssimas roupas. O ritmo do filme é bom, há muita ação, sobretudo os quinze minutos finais, que é uma longa batalha frenética de libertação, e é um daqueles filmes que tem muita coisa para se olhar. Certamente se beneficiou do acesso aos Estúdios Cinecittà de Roma, que possui muitos cenários e figurinos prontos, então o visual de THE ARENA é incrível, se pensarmos que foi feito com pouquíssimo orçamento.

O diretor de THE ARENA é o pupilo de Corman, Steve Carver, que mais tarde faria CAPONE, com Ben Gazzara, e um dos melhores veículos de Chuck Norris, McQUADE – O LOBO SOLITÁRIO. Aqui era sua estreia na direção e já colocado numa prova de fogo por Corman: enviado à Itália, pra filmar uma produção de época, com pouco dinheiro e prazo apertado, com uma equipe italiana e maioria dos atores europeus. E sem falar o idioma. O tipo de experiência que o cara entra como um aspirante à cineasta e sai como um mestre do filme B.

Alguns talentos locais lhe auxiliaram na empreitada, como o seu diretor de fotografia, as lentes de ninguém menos que Aristide Massaccesi, também conhecido como JOE D’AMATO, um dos maiores gênios do exploitation italiano. Na pontuação musical, temos Francesco De Masi, então você percebe que a coisa é decente no fim das contas, mesmo que a mise-en-scene seja em grande parte sem inspiração. Claro, considerando a situação até que Steve Carver se sai bem, mas, por favor, não dava pra exigir tanto do rapaz, que estava mais preocupado em filmar dentro do prazo do que fazer composições estéticas…

Mas para aquilo pelo qual o filme se propõe, de ser um típico exploitation com o selo de Roger Corman, um passatempo curto com bastante batalhas e uns peitos de fora, até que THE ARENA funciona perfeitamente.

ROEDORES DA NOITE (1995)

Com o DRÁCULA (92) do Coppola trazendo Bram Stoker e o horror gótico novamente às atenções no início dos anos 90, uma série de filmes de baixo orçamento, dos mais variados níveis de qualidade, procurou surfar na onda e tirar proveito do hype. E obviamente o rei dos B Movies, Roger Corman, não ia ficar de fora dessa. ROEDORES DA NOITE (Burial of the Rats), produzido pelo sujeito e dirigido por um cara legal chamado Dan Golden, é o resultado da empreitada.

Produção para TV, filmado na Rússia, nos estúdios Mosfilm – quando estavam praticamente falidos após a queda da União Soviética – ROEDORES DA NOITE não é lá um filme que eu classificaria como “bom” no sentido tradicional, mas é aquele tipo de produto que acabo gostando, e até me surpreendendo de alguma maneira, pelos motivos errados. O tipo de porcaria que pode ser muito divertido quando realizado por pessoas que realmente sabem o que estão fazendo. E que têm muita força de vontade pra fazer algo legal…

A “força de vontade”:

A trama de ROEDORES DA NOITE é inspirada num conto de Bram Stoker e protagonizada pelo próprio escritor. Em algum lugar na França do século IXX, o jovem Stoker (vivido por Kevin Alber) é sequestrado por um culto de mulheres guerreiras, que usam pouquíssimas roupas, odeiam homens e se auto intitulam “Rat Women“. Uma das integrantes é a bela Madeleine, interpretada por uma das habituais aqui do blog, Maria Ford. As “Rat Women” são lideradas por uma Rainha, que é encarnada por ninguém menos que a ex-Senhora John Carpenter, Adrienne Barbeau. Com ela à frente, essas mulheres guerreiras comandam hordas de ratos famintos e carnívoros para se vingar de todos os homens misóginos da região. E é nessa situação que o pobre Stoker foi parar…

Enquanto isso, o pai do futuro escritor enfrenta a indiferença da polícia local na busca por seu filho. Mas Stoker consegue dar seus pulos, sobrevive à tortura num pêndulo balançando sobre um poço de ratos, e ainda consegue atrair a atenção da bondosa Madeleine, apesar da desconfiança e ciúmes de uma colega, Anna (Olga Kabo). Além disso, seu talento para a escrita convence a rainha a deixá-lo viver e participar de algumas missões para documentar seus grandes feitos, registrar ao restante do mundo esse universo de mulheres peculiares. Aos poucos também, o mancebo Stoker conquista o coração (e outras coisas mais) de Madeleine… A situação do sujeito melhorou, não é mesmo?

ROEDORES DA NOITE lembra um pouco os filmes do ciclo Edgar Allan Poe, produções baseadas nesse escritor que o Corman dirigiu nos anos 60 e que resultou em alguns dos melhores filmes de horror do período. O tipo de produto que, realizado nos anos 90 com orçamento reduzido, feito nos moldes clássicos, já não fazia o menor sentido, exceto se os realizadores explorassem aquilo que não podiam trinta anos antes. E aqui exploram. Podem ter certeza disso… Aquela “força de vontade” a qual me referi ali em cima…

No entanto, nem só de molecagem e safadeza vive ROEDORES DA NOITE. Não que seja um daqueles filmes que se transformam em obras místicas transcendentais, nada disso. Mas me peguei prestando atenção em como o filme se torna em algum momento numa aventura realmente divertida, que me prendeu, com uma agradável veia romântica… Claro, não dá pra exigir muito do tal do Kevin Alber, que não é lá muito talentoso, além de ser feio pra burro, mas Maria Ford consegue fazer o seu lado com graciosidade e honestidade. Uma heroína exemplar: espirituosa, boa de esgrima e escassamente vestida.

Enquanto isso, temos Adrienne Barbeau, que praticamente passa o filme inteiro sentada no seu trono de rainha, maravilhosa, sob sua enorme peruca. E com um bando de ratos em seus pés. E o animal que não lhe agradar pode sofrer um terrível fim, como na cena em que Barbeau ordena que um dos ratos seja decapitado numa mini-guilhotina, seja lá por qual motivo… Só sei que é dos momentos mais bizarros – e engraçados – de ROEDORES DA NOITE.

Aliás, falando sobre os ratos, eles acabam tendo uma participação bem menor do que o esperado, já que os títulos, tanto no original quanto na nossa tradução nacional, remetem a eles. No entanto, sempre que aparecem, vale a pena. Em quinze segundos, esses dóceis animais são capazes de devorar um corpo deixando só o esqueleto de suas vítimas. A sequência final, quando Barbeau escolhe deixar seu destino cruel nas mãos desses ratinhos, é algo a se destacar…

Ainda no elenco, temos as participações especiais de Linnea Quigley e Nikki Fritz. As duas deviam estar perdidas nos sets na Rússia, fazendo sabe-se lá o que, e o Dan Golden deve ter chamado pra filmar alguma coisa. Juntas, as duas participações não dura nem dez segundos.

Aliás, que final! Uma batalha de proporções épicas – calma, estou considerando para o tipo de produção que temos aqui – com o exército francês invadindo o castelo das “Rat Women” e sendo recebidos pelas guerreiras em lutas de espadas frenéticas. Por mais risível que seja a encenação e o óbvio baixo orçamento da produção, Corman e Dan Golden conseguiram criar um espetáculo minimamente divertido que remete aos clássicos filmes de espadachim dos anos 40 e 50…

E enterrado sob a fartura de bobagens, mulheres com pouca roupa e muita luta de espada, existem lá no fundo algumas ideias bastante interessantes sobre a escrita/literatura como uma força de libertação ideológica e um discurso feminista de mulheres que procuram vingar os erros de uma sociedade dominada por homens. Mas os roteiristas de ROEDORES DA NOITE – e acredito que o público também – não estavam muito interessados em explorar com grande profundidade esse tipo de coisa num filme como esse.

Aqui é mais Corman garantindo que tudo funcione como um bom exploitation, com o elenco tirando a roupa com a maior frequência possível, uma boa dose de sangue, descolando cenários inusitados e bem legais lá na puta que pariu pra dar aquele ar de produção bem mais cara do que a realidade. A direção de Dan Golden (NAKED OBSESSION e HAUNTED SEA) também ajuda. Não é nada magistral, mas ele sabe onde colocar sua câmera.

Vejamos um exemplo e analisemos o talento do homem na direção:

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IL MAESTRO ESTÁ DE VOLTA

Dez anos depois de DRACULA 3D, il maestro dell’orrori Dario Argento ataca, no auge dos seus 81 anos, com OCCHIALI NERI, que hoje ganhou essa belíssima arte aí em cima.

Baseado em um roteiro de 2002 que Argento e Franco Ferrini escreveram e que foi arquivado quando Cecchi Gori, a produtora, pediu falência, a trama segue Diana, uma jovem que perdeu a visão e encontra um guia em um menino chinês chamado Chin. Juntos, eles vão rastrear um assassino perigoso através da escuridão da Itália.

OCCHIALI NERI tem estreia marcada agora em fevereiro no Festival de Berlim.

NECRONOMICON: O LIVRO PROIBIDO DOS MORTOS (1993)

Taí um filme que nunca tinha visto e que tem vários sujeitos legais envolvidos. Pra quem não conhece, NECRONOMICON tem três diretores relativamente respeitáveis – pelo menos pra quem se interessa por cinema de gênero – cada um fazendo um episódio que forma uma antologia inspirada em H.P. Lovecraft.

Bom, na época apenas um deles era mais conhecido, Brian Yuzna, que falei dele recentemente por aqui, os outros dois eram estrangeiros em Hollywood: o francês, então iniciante, Christophe Gans, bem antes de fazer coisas como PACTO DOS LOBOS e a adaptação do jogo SILENT HILL. E o japonês Shusuke Kaneko, da trilogia GAMERA.

Temos uma história base que mantém três outras histórias conectadas, que segue a tradição das antologias de horror. Nessa trama, somos apresentados ao próprio H. P. Lovecraft, vivido por ninguém menos Jeffrey Combs (RE-ANIMATOR), carregado de tanta maquiagem que até demorei pra reconhecê-lo, em busca do lendário Necronomicon numa biblioteca cheia de mistérios e guardada por monges. Proibido de frequentar certos aposentos do local, Lovecraft dá um jeito de despistar os monges e encontra o livro escondido num cofre. E então, o sujeito começa a escrever ali mesmo as histórias que veremos durante o filme.

THE DROWNED é o primeiro e mostra um Christophe Gans como um diretor bem promissor, com talento para o visual. O rapaz só havia realizado até aquele momento um curta metragem no início dos anos 80. Na trama, Bruce Payne (o vilão de PASSAGEIRO 57) é o herdeiro de um antigo hotel caindo aos pedaços, local que guarda algumas lembranças ruins. Payne descobre que seu antepassado (interpretado por um brilhante Richard Lynch) usou o amaldiçoado Necronomicon para trazer de volta sua esposa e filho mortos, só que as consequências desse ato foram terríveis… E acontece que o personagem de Payne recentemente perdeu sua mulher amada num acidente. Como o sujeito não aprendeu com os erros do seu antepassado, ele usa o livro para trazer de volta seu amor perdido (encarnada pela musa do cinema erótico noventista Maria Ford), obviamente com resultados não lá muito agradáveis. Mas para o espectador é só alegria. Dirigido com estilo e aquela energia de iniciante, o episódio tem boa atmosfera, momentos perturbadores e ótimos efeitos especiais.

O segundo episódio é THE COLD, de Shusuke Kaneko, um conto sobre uma jovem que aluga um quarto numa casa onde um cientista solitário e recluso (interpretado por David Warner) reside no andar superior estranhamente gelado e que talvez seja mais velho do que aparenta. Quando a moça faz amizade com o triste e frágil cientista, ela descobre que ele encontrou o segredo da imortalidade. Claro, esse tipo de porcaria tem um preço… O sujeito só pode permanecer vivo aplicando constantes injeções de fluido espinhal humano fresquinho.

Ainda que eu goste da premissa e algumas ceninhas (especialmente no final quando abusam de efeitos especiais práticos, com muito sangue e gosma verde), é o episódio mais fraco de NECRONOMICON. É sabido que Kaneko não falava inglês quando filmou e provável que a barreira da comunicação deve ter sido um problema, embora em alguns momentos dá pra sentir o diretor tentando extrair uma dramaticidade considerável desta parábola sobre o preço horrível que se deve pagar por enganar o destino. Mas no geral THE COLD não é lá grandes coisas.

O filme volta nos trilhos com WHISPERS de Yuzna. É o meu favorito, o mais surtado e absurdo de NECRONOMICON. Yuzna realmente mostrou pros outros dois colegas como se faz! A história se passa, curiosamente, em um ambiente moderno, urbano; uma policial segue um suspeito até uma instalação aparentemente abandonada que abriga horrores inimagináveis e os monstros mais antigos da humanidade. Atraída para as profundezas, a policial é empurrada para dentro de um buraco que na verdade são as entranhas de um monstro e tem que lidar com criaturas sugadoras de medula óssea e até o corpo oco reanimado do seu parceiro num cenário saído de um filme do Mario Bava. Yuzna, que é um grande fã do bizarro e surreal, preenche seu segmento com imagens “porraloucas” e um banho de sangue daqueles, que vai satisfazer os fãs de um horror mais visceral.

Depois o filme retorna à história base, com Lovecraft agora tentando fugir da biblioteca. Acho que não disse ainda, mas essa parte também é dirigida pelo Yuzna. E Jeffrey Combs arrasa até o último minuto. Vale destacar alguns nomes responsáveis pelos efeitos especiais old school de NECRONOMICON, elemento fundamental por aqui, artistas soberbos do nível de Tom Savini, Todd Masters e Screaming Mad George.

Mas NECRONOMICON é bem mais que efeitos especiais e imagens grotescas, violentas, ou monstros com tentáculos que sugam o sangue de suas vítimas. É também uma meditação provocativa e interessante sobre o domínio do homem em relação à sua realidade, à um submundo assustador que, se invadido por nós, indivíduos estúpidos e curiosos, pode se tornar uma jornada fascinante, mas também mortal.

Infelizmente, NECRONOMICON não conseguiu ser lançado nos cinemas nos EUA, sabe-se lá porquê. Mas como teve dinheiro investido por produtores japoneses e franceses, os caras lançaram o filme nos cinemas em seus territórios para recuperar o investimento. Em seguida, a New Line adquiriu os direitos de distribuição, mas decidiu que era mais seguro lançar direto em vídeo do que arriscar dinheiro em uma campanha para lançar nos cinemas. Três anos depois, acabou chegando nas prateleiras das locadoras. Até hoje tenho a impressão de que é um filme pouco visto. Não é nenhum marco obrigatório do cinema de horror, mas é um filme que merecia uma conferida.

FAVORITOS DE 2021

Já adiantei no twitter e instagram um top 10 dos filmes que mais gostei neste ano, mas aqui aproveito pra estender a lista em quantidade e também acrescentar os filmes de 2020 que acabei assistindo só em 2021. E é preciso dizer, este ano deu de lavada. Foi um grande ano, com filmes realmente bons e, caramba, não é sempre que dá pra reunir gente gabaritada como Clint Eastwood, Steven Spielberg, Abel Ferrara, Paul Verhoeven, Ridley Scott, M. Night Shyamalan e Paul Schrader numa mesma lista de melhores do ano…

Então, vamos ao que interessa, segue aí um top 20 com as produções que mais me marcaram em 2021, com alguns breves comentários marotos sobre cada:

#20. CLIFF WALKERS (2021), de Zhang Yimou: Noir de espionagem chinês. Não é das tarefas mais fáceis de acompanhar a trama, cheia de detalhes contextuais da época que a história se passa e excesso de personagens, mas depois que se acostuma é bem envolvente.

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#19. A WRITER’S ODISSEY (2021), de Lu Yang: Fantasia espetacular de ação, um pouco pesado no CGI e na duração, mas bem divertido e com umas boas alfinetadas contra o corporativismo estatal.

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# 18. ONE SHOT (2021), de James Nunn: A devoção de Scott Adkins ao cinema de ação de baixo orçamento é pra sempre nos lembrar que ainda há vida inteligente no gênero.

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#17. THE POWER OF THE DOG (2021), de Jane Campion: Belo conto de desmistificação do cowboy, do velho oeste. Sobre desejos reprimidos pela imposição da pose de machão.

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#16. DON’T LOOK UP (2021), de Adam McKay: Documentário sobre como o negacionismo de pessoas ineptas como Trump/Bolsonaro fodem o mundo.

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#15. WIFE OF A SPY (2020), de Kyioshi Kurosawa: Um Kurosawa menor, na minha opinião, mas com força suficiente pra demonstrar porque o sujeito é um dos maiores em atividade.

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#14. THE WOMAN WHO RAN (2020), de Hong Sang-soo: A cena do sujeito discutindo sobre os gatos já é candidata a uma das melhores da década.

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#13. RAGING FIRE (2021), de Benny Chan: RIP Benny Chan. Você era foda.

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#12. MALIGNANT (2021), James Wan: Às vezes eu sinto falta de um filme de horror de qualidade, só que mais escrachado e galhofeiro. E isso aqui acertou em cheio nisso.

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#11. MONSTER HUNTER (2020), de Paul W. S. Anderson: Gosto como a coisa toda é urgente e direto na sua proposta: o filme é sobre Milla Jovovich e Tony Jaa enfrentando monstros gigantes. Ponto. É o que ele entrega e entrega de forma linda. Não preciso mais que isso. Ajuda muito eu já ter uma queda pelo cinema do PWSA.

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#10. OLD (2021), de M. Night Shyamalan: Reflexivo, tenso e aterrador. É tudo o que se poderia esperar do diretor caso dirigisse um longo episódio do seriado ALÉM DA IMAGINAÇÃO.

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#09. THE CARD COUNTER (2021), de Paul Schrader: O mal não é uma força vaga e nebulosa, existem pessoas físicas reais com endereço fixo que a pratica. Mais do mesmo dos filmes que Paul Schrader tem feito. Ou seja, maravilhoso.

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#08. CRY MACHO (2021), de Clint Eastwood: Auto-consciência de um ícone envelhecido, olhando para o que representou, com alguns arrependimentos aqui e provas de sabedoria ali. Já não há muito o que fazer, Clint agora só quer sossego ali naquela cidadezinha mexicana, dançando uns clássicos com aquela senhora do restaurante que faz uma comida boa, e soltar reflexões ao rapaz do galo como “essa coisa de macho é superestimada”… Clint já não está lá mais interessando em encontrar algum punk pra “fazer o seu dia”

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#07. BENEDETTA (2021), de Paul Verhoeven: O Holandês maluco e suas provocações, expondo a podridão dos jogos de poder e hieraquia da igreja católica. E ainda faz uma belo exemplar de numsploitation que deixariam Jess Franco e Joe D’Amato orgulhosos.

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#06. WEST SIDE STORY (2021), de Steven Spielberg: A câmera de Spielba continua um deleite. Cada plano desse filme é um espetáculo. O melhor do diretor desde MUNIQUE (2005).

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#05. DRIVE MY CAR (2021), de Ryusuke Hamaguchi: Conto delicado de quase três horas sobre personagens quebrados, revirando memórias e tentando superar suas perdas numa relação que se estabelece a partir de um carro véio que o protagonista possui.

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#04. THE LAST DUEL (2021), de Ridley Scott: Questões modernas através de uma lente medieval. Ridley Scott continua mostrando porque é um dos grandes mestres em atividade. Pena que não consegui ver HOUSE OF GUCCI a tempo, corria o risco de ter dois filmes do homem nessa lista.

Zeros and Ones | The Film Stage

#03. ZERO AND ONES (2021), de Abel Ferrara: Não entendi um caralho em termos de trama. Mas é uma das experiências atmosféricas mais fascinantes da carreira do Ferrara. E o fato de ser todo revestido pelo contexto da pandemia a coisa fica ainda mais intensa e angustiante.

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#02. MATRIX RESURRECTIONS (2021), de Lana Wachowski: Quanto mais nerdolas e fanboys dos filmes anteriores têm odiado esse novo MATRIX, mais eu tenho amado. O “blockbuster anti-blockbuster” do ano. Um tapa na cara do público acostumado com as fórmulas de filmes de bonecos que vêm se acumulando nos últimos 15 anos em Hollywood.

Limbo movie review: Hong Kong crime thriller starring Lam Ka-tung, Mason  Lee and Cya Liu sees director Soi Cheang return to his nihilistic best |  South China Morning Post

#01. LIMBO (2021), de Soi Cheang: E o filme do ano é essa pedrada que vem da China, dirigido por Pou Soi Cheang, que já fez alguns filmaços, ACCIDENT (2009), MOTORWAY (2012), SPL 2 (2015)… Desses diretores que é obrigatório conhecer. Trata-se de um neo-noir em preto e branco expressivo, com o alguns códigos básicos habituais do gênero: dois detetives, um jovem e outro experiente, que estão à caça de um serial killer. Mas a coisa se subverte como uma das experiências visuais mais impressionantes que eu tive em muito tempo (vem sendo filmado desde 2017, com um cuidado estético de cair o queixo). Trágico, psicológico, atuações sublimes e sequências de tensão de tirar o fôlego – sem contar a questão visual, que é realmente a grande força do filme – LIMBO é a obra-prima de 2021.

Até o ano que vem.

PROGENY: O INTRUSO (1998)

Essa semana vi esse pequeno filme do produtor/diretor Brian Yuzna que não tinha assistido ainda. Boa descoberta. O Yuzna é um cara que respeito e sempre que paro pra ver umas coisas dele, saio no mínimo agraciado com uma boa diversão.

Depois de produzir alguns trabalhos de Stuart Gordon, como o clássico oitentista RE-ANIMATOR e FROM BEYOND, Yuzna rapidamente conquistou uma reputação como cineasta com seu petardo SOCIETY, de 1989 (no Brasil: SOCIEDADE DOS AMIGOS DO DIABO). O sujeito, ao longo da carreira, conseguiu criar um universo original e certo senso de eficiência no horror, com algumas belezinhas nos anos 90, como O DENTISTA, NATAL SANGRENTO 4: A INICIAÇÃO e as continuações de RE-ANIMATOR. Rapidamente se tornou uma figura cult, embora alguns de seus filmes sofressem com um orçamento limitado que o impedia de prosperar como um Carpenter, Craven, Romero, Tobe Hooper… E um desses trabalhos que sofre com isso é justamente PROGENY: O INVASOR, uma fita de baixíssimo orçamento sobre abdução alienígena, que não tem nada de original, mas que se destaca pela forma na qual Yuzna conduz as coisas, pelo elenco afiado e, bom, por não tentar ficar inventando a roda e deixar de ser aquilo que é: um bom horror sci-fi noventista.

Mais uma vez Yuzna se reúne com o já citado parceiro de longa data, Stuart Gordon, que aqui atua como roteirista, junto com Aubrey Solomon, fazendo um belo trabalho de pesquisa, estudando casos “reais” de abdução, para chegar num enredo rigoroso e personagens mais, digamos, realistas. Temos, portanto, muitos elementos habituais deste tipo de evento (luzes estranhas no meio da noite, perda da noção de tempo durante o fenômeno, paranóia e crises de identidade, etc.), de forma que a história às vezes remete muito ao livro Communion, de Whitley Streiber (e à sua adaptação pra cinema, que tem o título no Brasil de ESTRANHOS VISITANTES), considerado uma autêntica bíblia da ufologia.

Além disso, PROGENY adiciona uma pegada de O BEBÊ DE ROSEMARY misturado com ARQUIVO X na trama, deixando as coisas ainda mais interessantes. Devo dizer que o filme não é lá uma obra-prima, mas armado com todo esse trabalho de pesquisa, as influências, mais o talento natural de Gordon/Yuzna, o resultado não é nada mau. PROGENY é redondinho e bem escrito, demonstra hábil na arte de detalhar a degradação de um casal em crise, personagens oprimidos por eventos estranhos, diante do horror e do inexplicável, e que funciona também como boa alegoria do casal diante do “horror” do primeiro filho.

O filme começa quando o cirurgião Craig Barton (Arnold Vosloo) faz amor com sua esposa Sherry (Jillian McWhirter) e uma luz azul ofuscante surge do nada e clareia o aposento. O casal recupera a consciência duas horas depois, sem nenhuma memória do que aconteceu. Craig então começa a sofrer de insônia, problemas de comportamento, agressividade… Sherry fica grávida e começa a sentir dores estranhas no abdômen. Em sessões de hipnose o casal relembra o que aconteceu naquela noite e a revelação não vai ser das melhores para eles. Mas para o público, é só alegria, já que se trata de abduções, nave espacial, alienígenas cheios de tentáculos roçando no corpo nu de Sherry e, obviamente, o que cresce na barriga da mulher é puro terror.

Yuzna faz umas escolhas interessantes, abraça a narrativa, no drama e paranoia dos protagonistas, sendo mais comedido do que o normal em cenas de choque e violência, deixando a atmosfera tomar conta e a tensão aumentar. E faz com que as sequências mais apelativas, com um bocado de gore, quando chega a hora, se mostrem mais imprevisíveis e especiais. Um bom exemplo é a sequência do flashback de Sherry, que mostra o que rolou durante aquelas duas horas, dentro da nave alienígena, um dos momentos mais angustiantes do filme. Assim como o final, quando a coisa descamba de vez pra uma violência mais gráfica, com tripas e sangue rolando na tela. E tudo muito bem feito. Os efeitos especiais de PROGENY são bastante satisfatórios, na maior parte do tempo, para uma produção de orçamento tão curto. O visual dos aliens pode decepcionar, mas é curioso como Yuzna faz a coisa dar certo de alguma maneira. Cortesia também do grande mestre Screaming Mad George, que já havia realizado os efeitos especiais de outros filmes do diretor.

Yuzna também aproveita para apoiar as câmeras no seu elenco, que é de qualidade. Vosloo ficou marcado interpretando o papel título em A MÚMIA, de 99, sempre demonstrou talento fazendo outros vilões, como em O ALVO, mas aqui prova que conseguia carregar um filme como protagonista e se sai muito bem. McWhirter acaba se destacando mais, num papel corajoso, com muitas sequências de nudez, e bastante expressividade corporal. Em várias entrevistas ela conta como foi difícil, tanto físico e emocional, o seu trabalho por aqui. O resultado na tela é fascinante.

Outras figuras aparecem por aqui pra acalentar o coração dos fãs de cinema B, como o grande Brad Dourif em papel pequeno, como um especialista em ufologia, que vale a pena acompanhar; e Wilford Brimley, que é sempre divertido.

Longe de ser dos melhores filmes de Yuzna, PROGENY teve lançamento limitadíssimo nos cinemas em poucos países, após circular em alguns festivais especializados no gênero. No fim, acabou tendo lançamento no mercado em vídeo, com até relativo sucesso. Hoje anda esquecido, mas foi um prazer redescobrir essa jóia. Boas referências, belo clima, boas atuações. Mais do que se vê em muitos filmes de horror lançados nos últimos anos. PROGENY é certamente um dos trabalhos obrigatórios para conhecer mais do diretor.

KINJITE: DESEJOS PROIBIDOS (1989)

Filme todo errado, fim de carreira, literalmente, pra uma galera envolvida – último filme do diretor J. Lee Thompson, último filme do Bronson pra cinema, uma das últimas produções da Cannon, já toda endividada e sem muito orçamento pra investir… Tudo isso meio que reflete também o tom desesperado de KINJITE: DESEJOS PROIBIDOS (Kinjite: Forbidden Subjects) em querer ser uma espécie de exploitation de extrema urgência, feito pra ganhar bilheteria, abordando temas apelativos, como tráfico humano, de menores, mas que só resulta mesmo num produto do mais baixo nível – racista, sexista, xenófobo para um caralho…

Bronson interpreta o tenente Crowe da polícia de Nova York. Ele tem uma obsessão por um cafetão e traficante de crianças chamado Duke (Juan Fernández), que está sempre à procura de carne fresca, incluindo a vestal Nicole Eggert na cena de abertura, que tinha 17 anos na época, e que recentemente postei sobre um filme com ela por aqui: THE HAUNTING OF MORELLA.

Crowe tem uma filha adolescente com quem é muito protetor (daí o interesse especial em Duke) e quando ela é apalpada no ônibus por um executivo japonês que se mudou para Los Angeles, o sujeito fica furioso, faz um discurso terrivelmente racista bem no meio de uma multidão de asiáticos. Aqui a coisa entra numa situação tão bizarra que os roteiristas mal se esforçam pra resolver… Mas tudo bem. O fato é que Crowe não sabe que o homem que tocou na sua filha teve sua própria criança, muito mais nova, sequestrada por Duke. Sem o seu conhecimento, Crowe agora está ajudando o abusador de sua filha…

O personagem de Bronson em KINJITE é uma espécie de extensão de seu personagem em DESEJO DE MATAR, o vigilante Paul Kersey. Um revoltado contra o sistema e angustiado pelo mundo violento que o rodeia. Ele bate nas pessoas, atira nelas e, pasmem, enfia um vibrador na bunda de um cara para arrancar informações dele… Há uma cena em que Crowe “sequestra” o próprio Duke e o faz comer um Rolex caríssimo. E depois coloca fogo no carro do traficante. O personagem do Bronson deveria procurar um psiquiatra urgente. Mas, como estamos diante de um filme, uma obra de ficção, é preciso dizer que essa cambada mereceu o tratamento do policial. Incluindo a punição de Duke no final do filme e que comento a seguir.

Duke é um vilão da pior espécie. O cara sequestra a menina japonesa, a leva para seu apartamente onde ele e seus capangas (um deles o grande Sy Richardson) fazem fila para “experimentá-la” antes de a entregar no mercado de prostituição infantil. Se existe algo que não dá pra acusar de KINJITE é de não ser subversivo. Eu diria até que poucos cineastas do underground chegariam a tão baixo nível…

Algumas cenas memoráveis: Obviamente que a do Bronson segurando um pênis de borracha seria um destaque. Outra que gosto é quando Crowe e seu parceiro colocam o personagem de Richardson de ponta cabeça na varanda de um prédio, só para assustá-lo e arrancar algumas informações, e o sujeito acaba despencando lá de cima numa piscina. É divertida. Mas fica melhor ainda pelo grau baixíssimo da produção. Richardson tem a pele negra e quando vemos o dublê boiando é um cara branco… Que situação. O clímax de KINJITE também é bacana, uma ceninha de ação, bem elaborada, com Bronson sendo o badass de sempre, empunhando um revólver e despachando meliantes. E, claro, agora sim, quando Duke é preso e está sendo colocado numa cela, os prisioneiros ficam alvoroçados. Um deles é ninguém menos que Danny Trejo, que tem apenas uma fala, mas é bem receptiva. Ele dá as boas-vindas ao recém chegado:

Sobre o executivo japonês, como disse, fica por isso mesmo. O cara recupera a sua filha, mas nunca acerta as contas com Crowe por ter passado a mão na filha do policial…

Enfim, apesar do mau gosto que paira no ar em vários momentos, vocês vão me desculpar, mas KINJITE é simplesmente impagável. Ver Charles Bronson segurando uma manjuba de borracha pra enfiar lá “onde o sol não brilha” de um sujeito é simplesmente algo que nem um Dirty Harry teria coragem. São MUITAS as sequências dessa porcaria que me fazem dar altas risadas e várias cenas que tornam isso aqui marcante, uma diversão das boas. O tipo de filme que acabo curtindo pelos motivos mais bizarros possíveis.

CROCODILO (2000)

Acreditem, pode parecer que não, tendo em vista alguns dos últimos posts aqui no blog, mas até eu tenho meus limites com o nível de ruindade de alguns filmes. E CROCODILO (Crocodile) parece testar esses limites ao máximo. Produzido pela Nu Image e dirigido pelo grande Tobe Hooper, que tem no currículo alguns dos maiores clássicos do horror de todos os tempos – O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, FORÇA SINISTRA – trata-se de um exemplar de eco-horror, que até possui seus momentos, mas no geral é um produto decepcionante para os fãs do diretor.

A trama possui uma semelhança passageira com outro filme de Hooper, a maravilha EATEN ALIVE, de 1976. Ambos contam com a presença de um hotel isolado e um grande réptil faminto. Mas em CROCODILO a coisa não gira em torno exatamente disso, ao contrário do filme de 76, apenas surge uma historinha contada ao redor de uma fogueira sobre o dono de um hotel no início do século XX, que importou um crocodilo egípcio ao local… A trama mesmo transcorre num Spring Break, quando oito jovens decidem se reunir numa casa-barco para curtir, beber e aproveitar a vista do lago… À medida que a coisa avança, eles descobrem que o lago esconde o tal crocodilo gigante que vai mastigar alegremente qualquer um que se aproxime de seus preciosos ovos.

O lado bom de CROCODILO é quando o dito cujo está em cena. Quero dizer, “bom” entre aspas, porque aqui entra o lado galhofa e tosco que eu realmente amo nesse tipo de filme, apesar de Tobe Hooper saber o que fazer com a câmera para criar um suspensezinho bacana e algumas cenas de violência. Só que os efeitos especiais, sobretudo o crocodilo de CGI, são alguns dos mais vagabundos que eu já vi na vida, parece imagens saídas de algum jogo de Playstation 1 do final dos anos 90, o que torna esses momentos deliciosamente mais incríveis. Uma lindeza.

Agora, o lado ruim é… Só todo o restante do filme. A trama meio que se arrasta na maior parte do tempo, algumas decisões que o filme toma são as mais equivocadas possíveis, gerando momentos absurdos de constrangedores, como a cena final da mocinha entregando ao crocodilo assassino o seu filhote (imagem acima)… O bagulho é, ao mesmo tempo, engraçadíssimo pela tosquice, mas também de um mau gosto que chego a duvidar se o Tobe Hooper realmente tava feliz em filmar algo do tipo (e com o resultado na pós-produção). 

Além disso, somos obrigados a acompanhar um grupo de personagens enfadonhos e irritantes, com seus dramas de relacionamento que ninguém dá a mínima. E todos interpretados sem o menor carisma por um elenco indiferente. Talvez se o co-produtor Boaz Davidson, que até recebe crédito pela história, tivesse realmente escrito o roteiro e aplicado sua visão da juventude, como demonstrou quando dirigiu a obra-prima O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM, os jovens protagonistas de CROCODILO teriam sido menos desagradáveis. Ou pelo menos teria valido a pena se preocupar com eles. Aqui, a gente só quer vê-los devorados pelo grande crocodilo o mais rápido possível…

Enfim, não vou nem me prolongar. Curioso pra saber se vocês acham que estou sendo muito injusto com o filme ou se esse é realmente o pior filme de Tobe Hooper. Deixem aí nos comentários alguma impressão, caso tenham assistido. E se você por acaso botou na cabeça que quer encarar essa tralha mesmo assim, recomendo deixar algumas latinhas de Itaipava bem geladas à mão para diminuir a dor. E assista com alguns amigos pra pelo menos tirar um sarro com o crocodilo de CGI. O filme vai continuar uma merda, mas pelo menos vai deixar a experiência mais interessante..

O ENIGMA DE TALOS (1998)

Filme de múmia, lançado em 1998, que foi eclipsado pelo seu “primo rico” no ano seguinte, A MÚMIA (99), de Stephen Sommers. Hoje ninguém mais lembra de O ENIGMA DE TALOS (Tale of the Mummy), dirigido pelo grande Russell Mulcahy. Mas não vou julgar… O filme é mesmo meia boca, um tipo de produto barato que, muito provavelmente, produziram às pressas pra tentar lançar no mercado de home video à tempo de aproveitar o sucesso do filme de Sommers. Acabaram se adiantando até demais. Só não deve ter dado muito certo sobre “aproveitar o sucesso”. O resultado é uma desgraça, a trama é toda bagunçada, cheia de momentos ridículos e constrangedores.

Mas lá fui eu ver, porque sou grande admirador do trabalho do Mulcahy (HIGHLANDER, RAZORBACK, etc…) e nunca tinha visto este ainda. E apesar de concordar com tudo que disse ali em cima, eu gosto dessa tralha. O que posso fazer? É o tipo de filme todo errado que me diverte, tem um elenco bacana e percebe-se que tentaram fazer algo… Diferente? Original? Por exemplo, um filme de múmia sem que aparecesse uma múmia na maior parte do tempo. Ao invés disso, a múmia é representada apenas pelas suas bandagens, sem corpo, que voam, rastejam e atacam as pessoas nas mais diversas formas. Se tivessem orçamento para fazer algo decente, acho que isso não soaria tão bizarro. Mas, bem, não tinham…

Senhoras e senhores, o assassino do filme.

A premissa de O ENIGMA DE TALOS até que é interessante, envolvendo o básico dos filmes de múmias – antigas maldições, reencarnação e ressurreição de algum feiticeiro egipcio de tempos longínquos. O filme começa no Egito, na década de 40, com uma escavação arqueológica malfadada que desenterra a tumba de um tal Talos. Liderando a expedição está Sir Richard Turkel (o inigualável Christopher Lee, que já foi múmia para a Hammer Films), que percebe tarde demais que a tumba contém uma força maligna. Sir Richard é forçado a se sacrificar e selar a tumba antes que o mal possa escapar.

Essa sequência inicial talvez seja a melhor de todo o filme. E demonstra o contraste da direção de Mulcahy, que é ótima, com suas composições elaboradas, bom trabalho de câmera, de atmosfera, mas com os efeitos especiais em CGI dos mais ordinários que os anos 90 nos proporcionava. Coisa do nível de MORTAL KOMBAT ANNIHILATION. Ou seja, uma maravilha!

Ainda na trama, passam-se décadas e a neta de Sir Richard, Samantha Turkel (Louise Lombard), que também se tornou arqueóloga, reabre a tumba na esperança de descobrir o que realmente aconteceu com seu avô. Dentro da tumba, Samantha e uma equipe de cientistas descobrem uma câmara mortuária incomum contendo o sarcófago de Talos. No entanto, em vez de encontrar uma múmia dentro do sarcófago, apenas suas bandagens são tudo o que parece ter sobrado do misterioso Talos.

E nisso temos outra sequência sensacional comandada pelo Mulcahy, com direito a participação de um jovem e desconhecido Gerard Butler…

Uma vez removidos dos confins da tumba, e levados para um museu em Londres, os envoltórios assumem vida própria, reivindicando órgãos de suas vítimas pela cidade. As mortes vão acontecendo com essas bandagens assassinas e o filme se transforma numa trama de investigação policial, tendo como protagonista Jason Scott Lee, um americano, investigador de polícia, que se envolve no caso e acaba tendo que proteger Samantha da força que foi libertada quando ela abriu o túmulo de Talos.

E pra deixar tudo ainda mais doido, quando Talos finalmente surge na tela, o sujeito tem um aspecto de alienígena, peladão, com pés de bode… Não sei que tipo de drogas os caras usaram pra conceber algo dese nível, mas queria também. É uma das coisas mais tronchas e engraçadas que já vi na vida.

Enfim, eu realmente não sei o que pode ter acontecido, mas a impressão que dá é que o dinheiro para a pós-produção desapareceu, acabou, alguém passou a mão, e no final das contas eles fecharam um filme muito bem realizado, bem dirigido, mas com efeitos especiais e outros detalhes realmente pífios. Claro, o roteiro não é mesmo dos melhores, a coisa é totalmente desconjuntada e sem sentido em alguns momentos e os últimos 20 minutos de filme deixa isso ainda mais evidente (embora o desfecho tenha umas surpresinhas que me deixaram com um sorriso no rosto), mas fica o sentimento de que começaram algo com uma ideia em mente e depois cagaram tudo…

Mas é aquilo, se você olhar para além da tosqueira, é um terrorzinho bem divertido e imaginativo, com Mulcahy em alta forma. O filme tem bom ritmo (existe uma versão que possui vinte minutos a mais e eu, sinceramente, dispenso), é altamente visual, as ideias, claro, são bizarras (como a cena do cara sendo sugado pra dentro de um vaso sanitário numa boate) mas funcionam de alguma maneira e os atores estão muito bem. O elenco conta ainda com Sean Pertwee (um dos destaques do filme), Jon Polito, Jack Davenport, Honor Blackman e a “Olívia Palito” Shelley Duvall.

É como se O ENIGMA DE TALOS fosse concebido para ser uma obra muito maior, um filme de múmia visionário. Vai saber o que aconteceu, acabou negligenciado de alguma forma… Mas os fãs de terror que conseguem separar um momento para serem menos exigentes e curtir umas tralhas certamente terão um tempinho de entretenimento com o filme. Nem que seja pra dar umas risadas das ataduras assassinas…

OLHOS NOTURNOS (1990)

Quando se pensa nas origens do subgênero “thriller erótico“, a maioria das pessoas vão imediatamente para INSTINTO SELVAGEM, de 1992, que acabou ganhando notoriedade e créditos pelo pioneirismo no estilo. Ignoram o fato de que existiam títulos lançados direto para vídeo que são anteriores ao filme de Paul Verhoeven, que definiram várias características e estética do gênero e que foram tão copiados quanto o filme do holandês, gerando um vasto número de exemplares nos anos 90. OLHOS NOTURNOS (Night Eyes) é um desses produtos seminais a que me refiro.

Não é lá um bom filme, é preciso dizer. Mas, independente da sua qualidade, possui um valor histórico imprescindível. Claro, valor sobretudo para os amantes de um erotic thriller do tipo que passava aos sábados nas madrugadas da Bandeirantes (e ainda passa, mas sem a mesma graça) na famigerada sessão Cine Privé. Para essa rapaziada, essa pequena produção dirigida por Jag Mundhra e estrelada por Andrew Stevens e Tanya Roberts tem lá sua importância. Agora, se você não se interessa por isso, pode viver sua vida tranquilamente sem ter contato com OLHOS NOTURNOS.

O Night Eyes do título original é o nome estranhamente pervertido da empresa de segurança privada administrada pelos irmãos Griffith, Will (Stevens) e Ernie (Cooper Huckabee). Na trama, um astro do rock, Brian Walker (Warwick Sims), contrata os serviços dos irmãos para vigiar sua esposa, Nikki, que ele acredita ser infiel e está pedindo divórcio. O que não faz o menor sentido. Já que eles estão se separando, já não moram nem na mesma casa, a mulher pode dar pra quem ela quiser sem que isso caracterize infidelidade… Mas, na lógica do filme, flagrar a mulher na cama com outro homem ajudaria o roqueiro no processo de divisão de bens. Sendo que logo na apresentação do casal, o filme mostra que quem pula a cerca, na verdade, é justamente o roqueiro…

Enfim, como a esposa é interpretada pela belezura Tanya Roberts, a eterna SHEENA – A RAINHA DAS SELVAS, obviamente a espionagem do pobre Will se transforma em voyeurismo, que então se converte em um caso ardente entre os dois. O problema é que ao mesmo tempo em que aproveita da parte boa dessa situação, Will agora se vê envolvido num plot cheio de perigos e mistérios…

Como thriller, NIGHT EYES até consegue se estruturar de forma decente. O diretor Jag Mundhra, que acabou se especializando nesse tipo de filme, tenta manter as coisas em movimento, tenta manter o interesse de alguma maneira, apesar de não ser eficiente a todo instante. Há vários momentos em que o ritmo é bem zoado, nada parece acontecer. A abertura e o desfecho do filme até possuem um climinha de suspense, uns tiros, luta, mas nada que impressione muito.

Mas, pelo menos o elenco oferece algumas boas atuações, principalmente Tanya Roberts, como uma femme fatale ambígua e sedutora. Andrew Stevens, que também produziu e escreveu o roteiro de OLHOS NOTURNOS, se esforça como protagonista e até que consegue dar um pouco de carisma ao seu personagem. Não deixa de ser interessante ver o sujeito ao longo da trama sendo lentamente tragado para os braços da mulher que ele deveria espionar.

Agora, como um exemplar de Cine Privé, ou seja, o quesito erótico, a coisa complica. Nudez e cenas de sexo são escassas, reduzidas ao mínimo por aqui. Tudo filmado com certa distância, apressada, sem explorar muito os padrões de imagem que o público desse tipo de produto gosta de ver. Como ressaltei, OLHOS NOTURNOS era o começo de uma nova safra, ajudou a dar o pontapé inicial no subgênero “erotic thriller“, então ainda estavam em fase de teste, tentando encontrar o tom que realmente interessava. E o que interessava, aparentemente, à Mundhra e Stevens neste primeiro momento era explorar mais os aspectos do thriller do que a pele dos atores. Algo que foi se invertendo ao longo tempo: mais peitos de fora e roteiros cada vez mais fracos.

Mas não se preocupem, porque o filme não deixa o espectador sem ao menos o básico:

Existem alguns exemplares icônicos do período que conseguiram equilibrar as duas coisas – suspense e teor erótico – e são autênticos clássicos do Cine Privé, como CONVITE À TRAIÇÃO (96), de Gary Graver, PRIVACIDADE OBCENA (1995), de Lee Frost, OBSESSÃO FATAL (1997), de Fred Olen Ray, e outros…

OLHOS NOTURNOS, apesar de não chegar aos pés de nenhum desses, foi um dos responsáveis por moldar seus estilos. Esses filmes devem muito mais a este aqui do que um INSTINTO SELVAGEM, CORPO EM EVIDÊNCIA, etc… Além disso, OLHOS NOTURNOS teve relativo sucesso na TV à cabo, VHS, e acabou ganhando três continuações ao longo dos anos 90, todas estreladas por Andrew Stevens. Então, para quem é fã do gênero, acho que vale uma conferida. Só não esperem muita coisa.

MORELLA: O ESPÍRITO SATÂNICO (1990)

Uma das fases mais emblemáticas do produtor e diretor Roger Corman foi o seu ciclo Edgar Allan Poe nos anos 60, adaptando livremente vários contos do autor e criando algumas maravilhas do cinema de horror americano do período. E tendo como presença quase constante o ator Vincent Price, no seu auge, a coisa se torna ainda mais obrigatória a qualquer amante do gênero. Já comentei alguns desses filmes aqui no blog (clique aqui).

Nos anos 80 e 90, Corman resolveu produzir refilmagens de seus filmes, sobretudo vários sci-fis que havia realizado nos anos 50, colocando seus pupilos para dirigir e atualizar seu imaginário para este novo momento. E obviamente retoma sua abordagem em Poe, como por exemplo MORELLA: O ESPÍRITO SATÂNICO (The Hauting of Morella), um conto gótico atmosférico bem ao estilo do que fazia nos anos 60 com Vincent Price, cujo conto original havia sido adaptado por Corman numa das historinhas que fazem parte da antologia MURALHAS DO PAVOR (1962).

E o diretor da vez, para esta nova versão, foi o grande Jim Wynorski.

O enredo é vagamente baseado no conto intitulado Morella, publicado em 1835. Na história original de Poe, a personagem Morella estuda os filósofos alemães Fichte e Schelling, conhecidos por seu “idealismo transcendental”, teoria sobre o qual os objetos da cognição humana são aparências e não coisas em si mesmas. Um troço filosófico pra cacete. Ainda no conto original, quando Morella morre, ela amaldiçoa sua filha recém-nascida que cresce para se parecer com ela. Após seu batismo, é possuída por sua mãe. Já nessa versão de Corman/Wynorski, Morella, interpretada por Nicole Eggert (uma daquelas moças de maiô vermelho da série SOS MALIBU), é brutalmente morta, queimada na fogueira, como uma bruxa e amaldiçoa sua filha recém-nascida na esperança de renascer nela.

Dezessete anos depois, sua filha Lenora (novamente Nicole Eggert, em papel duplo), é agora uma adolescente super protegida pelo seu pai, Gideon (David McCallum), arrasado e decrépito desde a morte da esposa. A governanta da casa, Coel Devereux (Lana Clarkson), serva de Morella e que sabe da maldição, acha que é hora de sua ama retornar e deixar Lenora ser possuída por sua mãe. Mas Lenora é forte e a possessão não dura o suficiente. Então o próximo plano é ressuscitar completamente o corpo de Morella dos mortos, e isso significa sacrifícios humanos, cujo sangue reconstrói o cadáver da mulher.

MORELLA: O ESPÍRITO SATÂNICO representa uma rara digressão a um horror mais sério para Jim Wynorski, evitando o humor irônico que tipifica seu trabalho. Algo que refletiu durante um tempo em alguns dos seus melhores trabalhos subsequentes, como 976-EVIL II (1991) e TENTAÇÃO (1995), e que redefinem várias das ideias e cenas de MORELLA: O ESPÍRITO SATÂNICO. Especificamente em situações que envolve a linha fina que separa fantasia e realidade. E Wynorski demonstra boa mão para criar uma atmosfera mais densa e trabalhar situações de puro horror. As sequências que envolvem o cadáver decomposto de Morella são especialmente interessantes, e quando Lenora navega por uma paisagem infernal, depois de atravessar um espelho, é um espetáculo visual de fantasmagoria que lembra bastante alguns momentos do próprio Corman em seus filmes dos anos 60.

Eu realmente fiquei surpreso com o resultado aqui. Tem tudo o que você espera de um horror gótico; cemitérios nebulosos, antigas catacumbas de pedra, candelabros por corredores de uma mansão escura, cerimônias macabras, banhos de sangue e elementos sobrenaturais pairando a trama. Como estamos em 1990 por aqui, o período em que MORELLA: O ESPÍRITO SATÂNICO foi realizado proporcionou alguns ingredientes a mais para misturar nessa receita gótica. Então temos uma adaptação de Poe com tudo aquilo que Corman não podia colocar trinta anos antes: boas doses de sangue e de peitos balançando na tela. O resultado é puro CINEMA!

E quem já está familiarizado com o cinema de Jim Wynorski, diretor que contribuiu bastante até com exemplares de filmes que passam (sim, ainda passam) no Cine Privé, sabe que não vai faltar por aqui uma quantidade admirável de pele aparecendo na tela. E nesse sentido, é impossível não destacar a presença escultural de Lana Clarkson, que além de permitir que seus dotes respirem um ar puro em algumas cenas, ainda está magnífica em seu papel como a ameaçadora Devereux.

A mulher está de arrasar por aqui. Maldito seja o Phil Spector! Gosto como até em momentos mais singelos, Clarkson consegue deixar a coisa estranhamente erótica, como a cena em que Eggert senta com o rosto numa altura bastante propícia ao lado dela, tudo muito bem enquadrado por Wynorski (imagem abaixo). A sequência em que ela dá uns amassos em Maria Ford (outra beldade habitual nos filmes do diretor), antes de assassiná-la e oferecer seu sangue à Morella, debaixo de uma cachoeira, é uma das mais belas de toda a carreira de Wynorski (também abaixo). E sim, nós sabemos que esse tipo de vestimenta não era usada no período que o filme se passa… Mas quem liga pra isso?

Nicole Eggert tem um desempenho bem decente como Morella/Lenora (mais como Morella, pra ser sincero) – papéis inicialmente oferecidos a Traci Lords, ex-atriz pornô que já havia trabalhado com Wynorski em NOT FOR THIS EARTH. Nada que fosse despertar a atenção de um prêmio de talento dramático para a moça, mas ela consegue convencer sua situação de crise existencial enquanto lida com sua linhagem contaminada por uma maldição.

É evidente que se você for um admirador mais purista do horror gótico de uma Hammer Films, Mario Bava ou do próprio Corman no Ciclo Poe dos anos 60, talvez ache THE HAUNTING OF MORELLA um bocado caído e apelativo. E realmente não é lá um grande filme. Mas, pra quem só quer ter 90 minutos (e isso aqui não chega nem a isso tudo) de diversão, é um filme que oferece vários atrativos. O enredo é simples. O visual é legal. E a quantidade de mulheres nuas é generosa. Então pra mim já tá muito melhor que a maioria dos filmes de horror da atualidade.

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CARNOSAUR (1993)

Depois do sucesso de PARQUE DOS DINOSSAUROS, de Steven Spielberg, em 1993, era evidente que algum produtor espertinho entraria na modinha dos filmes de dinossauros. E por que não? Roger Corman, que não é chamado de rei dos B Movies à toa, antes mesmo de saber se a coisa ia vingar colocou CARNOSAUR em produção ao mesmo tempo em que Spielberg fazia o seu blockbuster. Com um décimo do orçamento, é claro. O filme acabou sendo lançado antes até que o seu “primo rico”…

Na trama, um conglomerado secreto de agências governamentais dá à Dra. Jane Tiptree (Diane Ladd) financiamento e equipamentos para seus experimentos de biotecnologia. Mal sabem eles que ela usou seu gênio do mal e recursos do governo para criar uma nova raça de predadores, misturando genes de galinhas com os de lagartos pré-históricos. Seu plano é exterminar a humanidade com uma nova raça de dinossauros bio-projetados. A coisa só melhora, atingindo alto nível de absurdo: ela criou um vírus que infecta apenas mulheres, fazendo com que fiquem grávidas dando à luz a embriões de dinossauros. Seu plano diabólico é fazer com que todas as mulheres na Terra sejam infectadas, deixando a raça humana morrer enquanto os dinossauros assumiriam o controle.

Quando misteriosamente um caminhão de galinhas transporta um bebê dinossauro do tipo Velociraptor para fora do laboratório, a coisa dá-se início… Em outro cenário, num canteiro de obras, conhecemos o herói da trama, o vigia noturno Doc Smith (Raphael Sbarge), que é adepto a um goró e anda tendo alguns problemas com hippies abraçadores de árvores que invadem o local para se acorrentarem às máquinas, seja lá por qual motivo. Enquanto isso, corpos estraçalhados vão surgindo e o vírus vai infectando as mulheres da região.

Quando os dinossauros começam a estourar seus ventres, o governo dos EUA entra em cena pra tomar uma atitude: matar todas as mulheres infectadas, à la THE CRAZIES, de George A. Romero… Uma garota chamada Thrush (Jennifer Runyon), ligada aos manifestantes hippies, acaba se infectando. E por estar envolvida com nosso amigo Doc, ele resolve adentrar no laboratório secreto para encontrar um antídoto antes que ela dê à luz a um dinossauro. E antes também que as forças do governo exterminem todas as mulheres infectadas.

Para escrever esse roteiro maluco, Corman escalou Adam Simon, diretor de uma de suas produções, MORTE CEREBRAL (1990), a partir do romance Carnosaur, do autor de ficção científica australiano John Brosnan, que não gostou muito do resultado, mas viu a procura pelo seu pequeno romance aumentar de forma considerável no período… Mas realmente, quem já assistiu ou pelo menos chegou até a este ponto do texto já matou que isso aqui não é nenhum PARQUE DOS DINOSSAUROS, nem tinha a pretensão de ser outra coisa além de um filme de monstro de baixo orçamento que consegue incluir tudo o que precisamos para ter um bocado de diversão. Dinossauros, violência e personagens peculiares e agradáveis de assistir.

Há algumas figuras aqui que se destacam até mais do que os dinossauros, como Diane Ladd. Sobretudo perto do final quando ela começa a se tornar poética e monologar sobre a grandeza da Terra e a natureza horrível da humanidade… Sua personagem é totalmente ridícula, mas ela consegue fazer o apreciador de uma boa tralha a não desgrudar os olhos da tela. E o curioso é que enquanto Ladd fazia este filme de dinossauros de baixo orçamento, sua filha, Laura Dern, era uma das estrelas de PARQUE DOS DINOSSAUROS. Que fase… Ned Bellamy não é um ator muito conhecido, mas também tem uma participação engraçadíssima por aqui, como diretor do conglomerado. No elenco, ainda temos Clint Howard interpretando o estranho da cidade local, o seu papel habitual. E qualquer filme em que Clint Howard tem a cabeça arrancada por um dinossauro já vale uma olhada.

Não querendo fazer nenhum tipo de comparação entre as duas produções, mas ao contrário de PARQUE DOS DINOSSAUROS, em vez de ver uma infinidade de espécies diferentes, em CARNOSAUR somos apresentados a apenas dois tipos de dinossauros, Raptors e um T-Rex. Se você só pode escolher apenas duas espécies, essas são definitivamente as escolhas certeiras. E ambos são confeccionados por meio do uso de efeitos especiais práticos, bonecos animatrônicos, miniaturas, etc… Claro, eles nunca parecem particularmente convincentes, as pessoas ficaram mal acostumadas com os dinossauros de Spielberg, mas a coisa aqui realmente funciona.

Todos os dinossauros são visualmente honestos, bem projetados, há só o pequeno detalhe de fazê-los se moverem… Hahaha! São um bocado rígidos e desajeitados. O tiranossauro é perfeito, até que ele começa a se mover. Mas não me interpretem mal, não são efeitos amadores. Você nunca vê zíperes, cordas, orifícios ou outras falhas, e os dinossauros nunca parecem estar “flutuando” ou algo parecido. O grande John Beuchler ficou responsável pela coisa e, apesar do orçamento, cumpre o que promete.

Já as cenas de violência, essas sim, merecem destaque… CARNOSAUR tem uma boa dose de gore e não tem receio algum de matar personagens. Na verdade, fiquei bastante surpreso com algumas das mortes. O filme se dá ao trabalho de apresentar figuras para logo em seguida armar para serem dilacerados por uma das criaturas. A sequência que o grupo hippie, acorrentado nos tratores no campo de obra, acaba devorado por um Raptor, sem poder fugir e se defender, é um dos momentos mais sublimes do filme, com direito a membros arrancados e muito sangue… E quando começam a mostrar mulheres dando à luz a dinossauros, o resultado pode ser bem nojento. Talvez seja o filme com mais violência gráfica que o Corman produziu.

Adam Simon, além de ter escrito o roteiro, faz um trabalho decente também na cadeira de diretor. Não é um sujeito brilhante, mas sabe exatamente o que é preciso colocar na tela para alegrar o coração dos fãs de B Movies, e tenta manter o ritmo rápido e agitado o suficiente para tornar CARNOSAUR realmente divertido. Um momento ou outro que a coisa fica enrolada, como a sequência da revelação da Dr. Triptree, montada com ações paralelas, um pouco longa demais. Mas no geral, CARNOSAUR é essa belezura do baixo orçamento. Não tenta copiar PARQUE DOS DINOSSAUROS, até porque seus realizadores nem o tinham como referência, a não ser a ideia de que era preciso entrar na onda dos filmes de dinossauro, e fizeram com muita personalidade. E, claro, com um óbvio objetivo de ganhar alguma grana. Você pode até não ficar emocionado com efeitos especiais espetaculares de dinossauros em CGI, mas certamente vai sair satisfeito com o que Corman e sua trupe fizeram aqui. Que é ser basicamente um filme de dinossauros mastigando humanos.

E até que o que filme teve relativo sucesso, recebeu alguns comentários de críticos “sérios”, como Gene Siskel, a dupla de Roger Ebert no programa Siskel & Ebert, e se tornou uma referência no circuito de exibição de “meia-noite” nos anos 90. E para expandir ainda mais seu universo, acabou ganhando duas continuações nos anos seguintes que também valem uma conferida.

007 À SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE (1969)

Ainda não assisti ao último James Bond, 007 – SEM TEMPO PARA MORRER, mas lembro que já comentei aqui no blog alguns filmes da série na ordem cronológica:

007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO
MOSCOU CONTRA 007
007 CONTRA GOLDFINGER
007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA
e COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES

Todos esses foram estrelados por Sean Connery, vivendo o papel do espião mais famoso do cinema. O filme seguinte é este 007 À SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE, que é uma espécie de anomalia na franquia 007. Lembro que quando era moleque, acostumado com os filmes do Roger Moore que passavam exaustivamente nas tardes da TV aberta, achei este aqui muito estranho. Era como se eu não estivesse vendo um filme de 007, o que pra minha cabeça de guri era algo negativo e me sentia enganado… Mas não tenho certeza de quando começou, passei a conhecer mais a mitologia James Bond, e em um certo ponto da vida comecei a me sentir particularmente atraído por essa bizarrice aqui. Ainda assim, vamos notar que tem um bocado de coisas fora do lugar…

A começar pelo herói. Pela primeira vez na franquia oficial, James Bond não foi encarnado por Sean Connery. Mas até aí tudo bem, qualquer um poderia ter assumido o posto e dado sequência na franquia. Só que George Lazenby, a figura escolhida para substituir Connery, acabou fazendo apenas este aqui, o que contribui para o “corpo estranho” que é o filme dentro do cânone do espião britânico.

Lazenby, que foi também o único ator fora da Grã Bretanha a viver o papel (ele é australiano), foi escolhido para ser 007 após um encontro ocasional com o produtor Albert R. Broccoli, que o convidou para fazer uma entrevista e testes de cena. O sujeito era modelo, boa pinta, tinha presença, e, enfim, existe muito material que aborda a peculiar escolha de Lazenby e que vocês podem encontrar por aí para saber mais. Mas antes mesmo de À SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE estrear nos cinemas, o ator recusou a sequência, 007 – OS DIAMANTES SÃO ETERNOS, cujas razões existem versões aos montes: alegou que o espião era muito anacrônico e não estava em sintonia com a contra-cultura da época; outra versão diz que o contrato era muito rígido e exigente, para sete filmes, e ele também queria tentar outros papéis… No entanto, uma das versões mais frequentes que se ouve por aí é de que os próprios produtores se desentenderam com Lazenby, e como a bilheteria de SUA MAJESTADE não foi lá grandes coisas resolveram trazer Sean Connery de volta… 

Outra característica deste sexto filme da franquia que o torna uma anomalia é que ele se esquiva de alguns elementos habituais e dos exageros acrobáticos que a série vinha se definindo ao longo de cada filme até aquele momento. COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES já dava pra perceber que o tom de aventura pitoresca, exagerada e fantasiosa já tinha se estabelecido, com suas vastas sequências de ação cartunescas e tramas mirabolantes. Mas sabe-se lá porquê, parecem ter decidido que SUA MAJESTADE precisava ser um pouco mais sério. E é evidente que ao tentar reduzir os absurdos bondnianos, acaba reduzindo também o que torna filmes 007 o que eles realmente são. Uma das coisas mais significativas pra mim é a falta da música tema durante os créditos iniciais. Temos a canção “We Have All the Time in the World“, que foi a última que Louis Armstrong gravou – e viria a falecer dois anos depois – mas foi a primeira vez na franquia que não incluíram a música nos créditos de abertura (exceto, claro, DR. NO que é tocado basicamente o tema oficial de James Bond).

A própria trama do filme é mais, digamos, intimista, sem grandes ameaças de escala global, como nos filmes anteriores. Bond salva uma mulher que tenta se suicidar em uma praia deserta e acaba se envolvendo com ela. Mais tarde, descobre que ela é a notória Condessa Teresa di Vicenzo , ou simplesmente Tracy (interpretada por Diana Rigg), como gosta de ser chamada, filha do criminoso Marc Ange Draco, que passa a ser um aliado do espião britânico para combater a organização secreta Spectre e, ao mesmo tempo, localizar o paradeiro do chefe dessa organização, Blofeld (aqui vivido de forma maravilhosa por Telly Savalas), que escapou de 007 no filme anterior. Bond se disfarça de genealogista com o pretexto de se infiltrar e investigar a clínica de pesquisa de alergia de Blofeld, no alto dos Alpes suíços. E é basicamente nesse cenário exótico que o enredo transcorre.

Bom, quer goste ou não desse estilo mais pé no chão de Bond, ou do Lazenby no papel principal, definitivamente isso acaba não influenciando o meu gosto pelo filme e pelo personagem em SUA MAJESTADE. Neste universo mais “realista”, o espião se torna mais identificável e, de certa forma, mais carismático pra mim. Acho que, a essa altura, seria complicado explorar de maneira mais próxima a persona de Bond com Sean Connery cansado de viver o personagem, como já era visível em SÓ SE VIVE DUAS VEZES, o que o transformava em apenas um herói acidental. Aqui, com Lazenby, parece ter um certo frescor. Tudo sobre o personagem de James Bond e que tipo de pessoa ele é devido ao que faz é melhor trabalhado. Vê-se claramente suas motivações na trama: encontrar seu arquiinimigo Blofeld e casar com a bond girl Tracy, por quem se apaixona. O que nos leva a outro detalhe bizarro por aqui que o diferencia do que era visto até então, que é o súbito interesse de Bond pela monogamia. O que não impede de realizar a difícil tarefa de ir pra cama com várias mulheres, obviamente. No entanto, por estar apaixonado por Tracy, o filme desenvolve um maior sentido de consequência emocional em comparação aos episódios anteriores nos relacionamentos de Bond. Sobretudo com o desfecho trágico e dramático que o filme possui. Certamente o momento mais sombrio de toda a franquia 007.

Mas além de ser um dos Bonds mais emocionalmente fortes, SUA MAJESTADE também tem algumas das melhores sequências de ação da série. Tiroteios, algumas ceninhas de luta, e MUITAS perseguições. Uma das minhas favoritas é a perseguição noturna de esqui, com Bond descendo pela encosta da montanha onde fica a clínica de Blofeld. O vilão e seus homens o perseguem e Bond tem de suar pra sair vivo do local, matando vários capangas no processo. Não é uma sequência tão extravagante. Como já ressaltei, este filme é um bocado mais “realista”. Mas a ação é ótima, tem um sentido de escala e energia cinematográfica que ainda faz funcionar mesmo mais de meio século depois. Simples, bem filmada e sem frescuras. Essa sequência vai parar num outro cenário onde a ação continua frenética, quando Bond encontra Tracy numa cidadezinha, mas os homens de Blofeld ainda estão atrás dele. Tracy acaba dirigindo no meio de uma corrida de carros e acaba causando um caos na pista. Pra mim, uma das melhores cenas de ação em qualquer Bond Movie.

Há ainda outro momento clássico de perseguição que envolve Bond na cola de Blofeld em um trenó num clímax deflagrador. Enquanto os dois voam numa pista de gelo, Bond tenta atirar em Blofeld e este arremessa granadas de seu próprio trenó. O negócio é que, elogiar a ação de SUA MAJESTADE, é elogiar também seu diretor, Peter H. Hunt, que fazia sua estreia na função por aqui, embora para esse tipo de sequência mais movimentada o sujeito já fosse um mestre, tendo atuado como editor, assistente de diretor ou diretor de segunda unidade em TODOS os 007 anteriores. O cara era bruto! O cinéfilo que aprecia um bom filme de ação old school vai lembrar de um dos maiores clássicos de Hunt, PERSEGUIÇÃO MORTAL (81), um filmaço classudo em que Lee Marvin persegue Charles Bronson num cenário coberto de neve…

Mesmo nos momentos sem ação, Hunt sempre parece saber onde colocar sua câmera para manter as coisas atrativas, seja enquadrando as cenas mais íntimas entre Bond e Tracy ou seja a viagem de helicóptero para os Alpes, na qual ficamos acompanhando tudo o tempo todo com Bond, vendo as imagens das várias estações de esqui próximas de sua perspectiva. Por falar em gente foda, a fotografia de Michael Reed é excelente. Facilmente um dos filmes mais bonitos do espião até aquele momento. Desde a sequência inicial, uma cena de luta na praia, com suas sombras densas e escuras, até as maravilhas das paisagens dos Alpes Suíços, há muito para se olhar por aqui e admirar. John Glen foi o editor, outro cabra foda, que depois também viria a dirigir alguns filmes da série já na fase com Roger Moore e Timothy Dalton. E manda muito bem por aqui, é o Bond Movie mais freneticamente editado até então, muitas vezes utilizando várias câmeras simultâneas para cortar rapidamente entre os planos, especialmente na ação, o que o torna visualmente empolgante. Glen também exibe sua habilidade em montar sequências mais tensas, como a do escritório do advogado Gumbold, bem ao estilo Hitchcock de fazer suspense.

Eu preciso de um pequeno parágrafo que seja para falar do grande Telly Savalas como Blofeld. O sujeito é um vilão e tanto. Segurando seus cigarros do seu jeito característico, exala esse mal diferente de qualquer outro vilão de Bond – certamente diferente de um Donald Pleasance, o Blofeld do filme anterior, que também está genial, mas que não deixa ser uma caricatura. Aqui Savalas faz um trabalho dinâmico, adicionando uma leve camada de ameaça até mesmo numa conversa casual. O primeiro encontro de Blofeld com Bond é um desses momentos especiais do filme. E vale destacar Tracy de Diana Rigg, para além de sua importância no cânone. Ela também parece ser a mais empoderada de todas as Bond Girls do período. É evidente que na ação final acabe de fora, mas ela chega a derrotar um brutamontes sozinha, sem ajuda de ninguém, e ainda é ela quem está ao volante na sequência de perseguição na pista de corrida. O que já é um avanço.

Existem alguns problemas menores em SUA MAJESTADE. O ritmo desacelera um pouco durante um bom tempo na clínica de Blofeld, e a duração do filme acaba parecendo um pouco longa demais. Mas nada que impeça de SUA MAJESTADE ser um dos meus Bond Movies favoritos de toda a franquia. Pode ter lá suas peculiaridades, ser uma anomalia, e até não ter o melhor Bond nele – eu não cheguei a falar muito sobre isso, mas deixo claro que eu até gosto do Lazenby, ele tem presença, um certo charme e é bom nas sequências de ação, mas convenhamos que não chega aos pés de Connery. Entretanto, no que diz respeito ao thriller de espionagem que o filme é e o que representa à mitologia de James Bond, definitivamente 007 À SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE tá numa posição privilegiada no meu ranking 007, um lugar especial onde poucos outros filmes da franquia habitam (um dia eu posto meu top 10 James Bond por aqui)… E olha que eu gosto praticamente de todos os filmes da série do espião britânico. Mas, como dizem os jovens, este aqui é top.

CAÇADA MORTAL, aka CAÇADOR DE MORTE (1978)

Walter Hill disse certa vez que o roteiro de CAÇADA MORTAL (The Driver) foi o mais puro que já escreveu. A história é simples: Ryan O’Neal (em um papel escrito para Steve McQueen) é um motorista especializado em fugas de assaltos. Bruce Dern é o detetive na sua cola.

E é isso.

Alguns detalhes de trama são acrescentados, como a mulher misteriosa interpretada por Isabelle Adjani, que faz um meio de campo entre os dois sujeitos; há perseguições de carros, assaltos, traições… Mas a narativa é de um minimalismo tão absurdo que Hollywood não estava lá muito acostumada num filme de gênero. Não é surpresa, portanto, notar que CAÇADA MORTAL foi bem recebido na Europa, mas na América foi um fracasso financeiro e de crítica.

Mas CAÇADA MORTAL conseguiu se induzir na consciência coletiva e se tornar um modelo para diretores e alguns dos melhores thrillers americanos que vieram posteriormente. Podemos citar produções mais recentes, como DRIVE, de Nicolas Winding Refn, e BABY DRIVER, de Edgar Wright (esse nem gosto tanto, mas é divertido), mas olhando mais pra trás dá pra notar sua influência em diretores como Michael Mann – que chegou a cogitar Walter Hill para dirigir sua obra-prima, FOGO CONTRA FOGO (foi recusado pelo próprio Hill… Ainda bem) – até Quentin Tarantino, que chamou de um dos filmes mais cool de todos os tempos. James Cameron já afirmou algumas vezes que tinha CAÇADA MORTAL em mente quando escreveu O EXTERMINADOR DO FUTURO. Até nos videogames também há quem se apoderou do filme, como o clássico Driver, lançado para o Playstation 1, onde jogamos com um motorista de fuga da máfia em altas perseguições. A relação do jogo com o filme nunca foi assumida, mas é muito óbvia e pode ser facilmente percebida, especialmente quando o jogador dirige o mesmo modelo Chevy vintage visto por aqui.

Enfim, acho que não preciso dizer mais nada sobre a importância de CAÇADA MORTAL, não é mesmo?

Além disso, é um puta filmaço que fala por si só. Um filme sobre um homem que é aquilo que faz. Nos créditos finais Ryan O’Neil aparece sem nome, apenas como The Driver, O Motorista (assim como Dern aparece como The Detective e Adjani como The Player). E dirigir é como o motorista se expressa. O carro é quase uma extensão física e psicológica dele.

Há uma sequência – provavelmente a minha favorita do filme – quando uns ladrões o desafiam, perguntando se ele é realmente tão bom no volante antes de contratá-lo para um golpe. E o motorista não argumenta, não é agressivo, não parte pra briga. Apenas diz a eles para entrarem no carro. E então ele começa as fazer manobras em alta velocidade dentro de um estacionamento, até iniciar a destruição da ostentosa Mercedes, peça por peça, com o veículo ainda em movimento e os donos do carro desesperados no banco de trás. Acho que é algo que define bem esse personagem. O motorista diz apenas 350 palavras no filme inteiro, mas por detrás de um volante, ele fala muito.

Hill, portanto, leva ao extremo essa ideia de uma linha narrativa com enredos minimalistas em filmes que mais declinam do que reproduzem um gênero, sobretudo nesse início de carreira. É como se com Walter Hill os personagens vão do ponto A ao ponto B em uma economia tanto narrativa quanto de meios visuais e psicológico na caracterização dos personagens que se definem apenas na ação. Essa lógica é trabalhada por aqui nos personagens, como já mencionei, mas também tanto numa forma de atemporalidade quanto na criação de uma espécie de realidade alternativa.

Se o diretor posteriormente moldou esse tipo de realidade de forma mais concreta – o universo das gangues de THE WARRIORS, a ambientação retro-futurista de RUAS DE FOGO – com CAÇADA MORTAL ele cria uma terra de fantasia estilizada, emoldurada na sensação dos anos 70, um mundo de pessoas que usam as mesmas roupas, de indivíduos que falam pouco, mas dizem muito com os olhos – a influência do cinema policial francês aqui é óbvia, especialmente Jean-Pierre Melville – uma espécie de film noir misturado com a ilegalidade do faroeste, com fugas e perseguições envolvendo carros em vez de cavalos. Walter Hill, assim como John Carpenter, acredita que todos os seus filmes são essencialmente faroestes.

Ryan O’Neal é uma escolha curiosa para este samurai/cowboy moderno de CAÇADA MORTAL. É um ator mais brando e Hill sabe como usar isso em proveito do filme. É evidente que se McQueen tivesse aceitado o papel ou um Clint Eastwood assumisse o personagem, talvez a recepção local fosse maior na época. Mas a performance sem emoção, bressoniana, de O’Neal ajuda a dar a seu personagem uma aura de frieza e mistério. Para criar contraste, Hill dá a O’Neal um adversário extravagante e expressivo na forma de Bruce Dern, que interpreta o obcecado em capturá-lo. É uma combinação caótica, e o filme explora perfeitamente os estilos de atuação extremamente diversos desses dois grandes atores. Já a francesa Adjani é o mistério em pessoa, uma espécie de femme fatale gélida, quase uma entidade, que vaga por esses polos.

Como não poderia faltar, CAÇADA MORTAL tem sequências de ação de arrepiar os cabelos, uma maestria com trabalho de câmera que traz o espectador para dentro da ação. As cenas de perseguição estão no mesmo nível e talvez até melhores que algumas das sequências mais famosas do tipo, como a de BULLITT e OPERAÇÃO FRANÇA.

Mas o filme é ancorado mesmo pela disputa desses dois homens em lados opostos da lei, o motorista e o detetive, cada um tentando ser mais esperto que o outro. No meio de perseguições de carros e do jogo de gato e rato desses dois, Hill cria o que poderia ser descrito como uma obra de travessura existencial. Em menos de 90 minutos, o filme funciona não apenas como uma exploração em profundidade das coisas que motivam esses indivíduos a fazer o que fazem, mas também funciona como um interessante estudo de sobrevivência, com ideias que transcendem o típico filme de mocinhos vs. bandidos. O viés minimalista é que também faz maravilhas e contribui muito nesse sentido. Até as partituras tensas do mestre da paranóia dos anos 70, Michael Small, dá lugar a uma “trilha sonora” cheia de pneus cantando e latarias amassadas. A irônica conclusão resulta em algo divertido e abstrato (a aparição final de Bruce Dern e uma horda de policiais) e o final sugere o que será um ciclo sem fim para esses sujeitos, numa espécie de purgatorio onde esses personagens habitam e ficam girando em círculo eternamente.

CAÇADA MORTAL é provavelmente a obra-prima de Walter Hill, que é um desses caras fodas que possuem várias obras-primas no currículo. E se você ainda não viu, acredito que vai ser uma boa experiência, vai estar diante de uma bela surpresa.


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TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA (1974)

Teve uma época da vida que eu assisti a TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA pelo menos umas dez vezes num curto espaço de tempo, de tão fascinado que fiquei por este petardo de Sam Peckinpah. Eu andava a descobrir seus filmes e quando cheguei neste aqui era como se eu não quisesse mais sair dele. Mas isso já tem muito tempo e eu fiquei afastado por um longo período. Chegou a hora de revisitar…

Só que ao mesmo tempo em que trata-se de uma obra que gera tanto fascínio, TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA é o tipo de filme que é preciso de uma sessão de descarrego logo depois que os créditos finais aparecem na tela. Ou, no mínimo, um banho. Tamanho é o mergulho na atmosfera de decadência, miséria e imundice das suas imagens. Provavelmente reflexo da posição precária que Sam Peckinpah se encontrava quando fez este filme tão pessoal.

A sua trajetória até ALFREDO GARCIA é conhecida: alguns anos antes, o homem havia garantido um lugar de destaque na indústria depois de MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969), filme que até hoje considero sua obra-prima e que já devo ter revisto mais vezes que este aqui, mas como se sabe, a personalidade difícil de Peckinpah e seu eterno gosto pelo álcool, o vício em drogas e paranóia começaram a se tornar mais perceptíveis com o passar dos anos.

A recepção crítica e o sucesso de bilheteria se alternavam. Seu thriller filmado na Inglaterra, SOB O DOMÍNIO DO MEDO (1971), com Dustin Hoffman, foi muito bem recebido, mas veículos “menores” como THE BALLAD OF CABLE HOGUE (1970) e JUNIOR BONNER (1972) passaram mais ou menos despercebidos. E logo depois, mais um sucesso, com um OS IMPLACÁVEIS (1972). Um Peckinpah cada vez mais cínico chegou à conclusão de que o público só queria violência em câmera lenta… Quando abordava motivos com mais sensibilidade, que são os casos de CABLE HOGUE e JUNIOR BONNER, a coisa não ia tão bem. Pelo visto, a percepção de “Bloody” Sam estava certa.

Donnie Fritts, Sam Peckinpah e Kris Kristofferson em locação de TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA

O fracasso de seu PAT GARRETT & BILLY THE KID (1973), que foi todo retalhado e recosturado pelo estúdio, foi a gota d’água e deixou Peckinpah amargurado a tal ponto que decidiu trabalhar fora do sistema de estúdio em uma tentativa de recuperar o controle criativo. Para a sua sorte, a United Artists – conhecida por ser indulgente com “cineastas autores” naquela época – deu-lhe dinheiro suficiente para fazer seu próximo filme no México com uma equipe totalmente mexicana, exceto um ou outro membro… E aí chegamos em TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA, um western moderno visto como uma das declarações mais pessoais – e radicais – de Peckinpah, embora o produto final peculiar tivesse deixado o público frio e os críticos da época um bocado perdidos.

Independente disso, aqui está uma obra AUTORAL, que de acordo com Peckinpah, foi o único filme que realizou que saiu do jeito que ele queria, sem interferência de influências externas e de produtores. O mais próximo de um “Peckinpah puro”.

Peckinpah coloca seus óculos entre os seios de Isela Vega nas filmagens de TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA

Na verdade, “sem influências externas” entre aspas, porque muita “influência” foi ingerida pra dentro de Peckinpah e durante as filmagens não era muito difícil ver o diretor dando umas surtadas ou caindo de bêbado, sempre entupido de álcool ou drogas, tornando o resultado deste filme um raro exemplarar daquela coisa fugaz e maravilhosa que é uma obra de arte verdadeiramente psicótica. O filme marcou o fim de uma espécie de período áureo da carreira de Peckinpah, antes que seus demônios o dominassem de vez e o controle criativo fosse novamente podado – ainda que grandes filmes tenham vindo depois na sua filmografia.

A trama de TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA começa quando El Jefe (Emilio Fernandez), um poderoso fazendeiro mexicano, descobre a identidade do homem que engravidou sua filha e emite uma ordem para que a cabeça do sujeito seja entregue a ele a um alto preço. O alvo é Alfredo Garcia. Dos envolvidos na busca, seguimos um casal de assassinos gays americanos (Robert Webber e Gig Young) que começa a revirar o submundo da Cidade do México, mostrando a foto de Alfredo. Eventualmente, entram em um bar onde encontram um “pianista” americano chamado Bennie (Warren Oates), que acredita poder ser capaz de ajudá-los. Bennie, na verdade, conhece bem Alfredo, sabe que ele tem um caso com sua “namorada”, a prostituta Elita (Isela Vega), e sabe que pode ganhar uma boa grana entregando o sujeito aos americanos. O problema é que ao conversar com Elita, Bennie descobre que Alfredo já está morto.

Com a intenção de encontrar o corpo, Bennie faz um trato com os assassinos de que entregará a cabeça de Alfredo Garcia por uma boa grana. E parte então em uma viagem com Elita, uma jornada pelo México em busca do local onde homem está enterrado, o que obviamente não vai terminar como planejado. Com todas as esperanças destruídas, Benny, sozinho, acaba carregando a cabeça podre de Alfredo Garcia em um saco pelo deserto enquanto assassinos o perseguem. A reação de El Jefe à entrega da cabeça deve ter sido exatamente a mesma dos produtores quando Peckinpah entregou o filme. O mal-estar existencial dos anos 70 no seu melhor.

O absurdo da odisséia de Benny e Elita é exacerbada por contrastes. Momentos de pura delicadeza se transformam em rompantes de violência em questão de segundos. Logo no início da viagem, por exemplo, há uma longa sequência bucólica onde os amantes se enlaçam debaixo de uma árvore que termina por Benny propondo Elita em casamento. Mais tarde, eles topam fazer um piquenique à beira da estrada. Toda esta seção do filme, que concentra na relação danificada entre os pombinhos, acaba culminando na sequência dos dois motoqueiros (incluindo Kris Kristofferson) aparecendo no local para ameaçá-los. O que dá a Peckinpah a oportunidade de um desses momentos complexos que pontuam sua carreira, deixam as pessoas com a pulga atrás da orelha, bradado de misógino. Evidente que estamos falando da cena do quase “estupro consentido”, que reserva à Elita um papel pelo menos tão ambíguo quanto o da esposa de Dustin Hoffman, vivida por Susan George, em SOB O DOMÍNIO DO MEDO. E é provável que Isela Vega tenha o desempenho feminino mais forte já visto num filme de Peckinpah.

O ritmo do filme vai ganhando em intensidade – e ficando mais subversivo e amoral – à medida em que se aproxima do momento no qual Bennie precisa desenterrar aquela cabeça. Ao longo do caminho, os corpos vão se acumulando. Se estamos acostumados no cinema a ver pessoas atirando uns nos outros para salvar uma cabeça, em ALFREDO GARCIA os indivíduos fazem isso para obter uma cabeça já cortada… Depois, a força do filme passa a ser conseguir fazer essa cabeça cortada e carregada dentro de uma sacola de lona coberta de moscas um personagem por si só. Sobretudo nas sequências em que Warren Oates está ao volante de seu velho carro amassado, travando discursos e praguejos em direção à cabeça, a quem apelida carinhosamente de “Al”. Há aqui um certo humor diante da bizarrice que é a situação, mas que não consegue perdurar. É tudo muito sombrio e trágico para se achar engraçado.

E obviamente é preciso destacar aqui o desempenho de Warren Oates, que está monumental, provavelmente o maior papel que o sujeito já teve na vida. E estamos falando de um dos gigantes do cinema americano dos anos 70. Aqui ele possui uma presença absurda em cena, todo ensebado, esfarrapado, usando os óculos escuros enormes do próprio Peckinpah, e que quase nunca os remove da cara. Há uma sequência que seu personagem acorda no seu cafofo e começa a jogar tequila vagabunda nas partes íntimas, depois de passar a noite com Elita, tentando desesperadamente acabar com os carrapatos que o estão matando de coceira. É o tipo de herói que Peckinpah tinha para oferecer no momento…  

Lá pelas tantas, o objetivo principal de Benny na trama se torna inútil, pra não dizer niilista, com sua obsessão indo muito além do dinheiro que ele tanto almejava. Agora, o que ele quer é encontrar resposta, sentido, algo que justifique toda a loucura. “Eu nunca estive em nenhum lugar que gostaria de voltar”, diz ele em num certo momento; e o filme parece ser um bocado sobre isso, sobre este indivíduo arriscando tudo para não prosseguir neste mundo, apesar de acabar sempre atraído de volta pra toda a loucura que está acontecendo, atraído como as moscas que circulam em torno da cabeça de Alfredo Garcia, a tal ponto que o fedor da morte, da desgraça, parece que nunca sairá totalmente. Até o espectador se sente impregnado…

Mas indo contra o que Benny disse, a sequência final de TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA nos leva de volta ao ponto de partida, no rancho de El Jefe. Bennie ainda não esteve lá, mas nós já estivemos e esse retorno nos leva às raízes da loucura, um lugar de onde não há saída e tudo o que resta a ser feito é continuar avançando, mesmo à base de balas, enquanto ainda é possível, sabendo como isso vai acabar. Os últimos cinco minutos do filme são tão verdadeiros consigo mesmos quanto em qualquer filme já feito.

Por mais massacrado que tenha sido pela crítica na época, o filme teve seus defensores – Roger Ebert, por exemplo, deu-lhe quatro estrelas e chamou-o de “obra-prima bizarra”. E como o culto a Peckinpah cresceu ao longo das décadas e hoje permanece vivo no coração de qualquer cinéfilo que queira manter o respeito, a reputação de TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA cresceu à medida em que fica claro o retrato feio, imundo e decadente do universo que é apresentado aqui juntamente com a beleza e poesia que pode ser encontrada nessa feiura. E eu não poderia deixar de finalizar citando Carlão Reichenbach sobre Peckinpah e o filme em questão, o qual considerava uma obra-prima às avessas: “Sua obra quase teratológica parecia purgar a raiva atávica, revelando um mundo sórdido onde só cascavéis e escorpiões pareciam ter alma.