A CONVERSAÇÃO (1974)

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Fazia uns vinte anos que assisti A CONVERSAÇÃO (The Conversation), de Francis F. Coppola. A única assistida, aliás, num VHS de locadora… Não sei porque nunca mais revi, mas é desses filmes que eu senti que não precisaria de uma revisão tão cedo, tamanho foi o impacto. Mas vinte anos já é demais, então hoje resolvi revisitar e continua uma belezura…

A CONVERSAÇÃO de vez em quando é lembrado como o filme que o Coppola dirigiu entre os dois primeiros PODEROSO CHEFÃO. E talvez até tenha sido prejudicado ao sair espremido no meio desses dois mastodontes cinematográficos (saiu inclusive no mesmo ano de CHEFÃO II e ambos foram indicados a melhor filme no Oscar)… Mas não consigo ver outro momento tão ideal para o filme ser lançado. Um filme tão enraizado dentro do seu contexto, praticamente um emblema do cinema político paranóico dos anos 70, num cenário que o escândalo de Watergate estava deflagrando… E é aí que testemunhamos o trabalho diário de Harry Caul (Gene Hackman), um especialista em escutas, que atua como freelancer para espionar quem quer que seja. E o cara é realmente bom naquilo que faz. Consegue captar uma conversa particular a 200 metros e obter uma representação perfeita dos diálogos. Na sua missão atual, ele ouve uma conversa meio perturbadora.

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A CONVERSAÇÃO, assim como todo o “movimento” do cinema da Nova Hollywood, é fortemente influenciado por cineastas europeus, e neste caso específico, Michelangelo Antonioni e seu BLOW UP, de 1966 – que trata de um fotógrafo que acredita ter capturado um assassinato no fundo de uma de suas fotos. Em A CONVERSAÇÃO, Harry acredita que a conversa que ele gravou – aparentemente um caso habitual de traição – pode ser evidência de um próximo assassinato, e fica obcecado com o que ouve na fita, analisando cada inflexão vocal para tentar descobrir quais os significados por trás das palavras.

À medida que as correções de Harry são feitas no som, a imagem do casal é mostrada para nós, remontada, com ângulos ligeiramente diferentes, cada vez destacando um pequeno detalhe que nos escapou e que vai se resignificando. Lembra também John Travolta em UM TIRO NA NOITE, de Brian De Palma, que por sempre “assistirem a mesma cena”, constantemente ouvirem os mesmos sons, eles acabam contaminando completamente esse universo, e daí em diante surge a fantasia, o que culmina, em A CONVERSAÇÃO, num final magnífico, cuja obsessão paranóica de Caul se transforma em tortura íntima e moral. Em questionamento ético.

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A visão da sociedade, quase kafkaniana é terrível, visionária e completamente atual, no qual a sociedade está sob vigilância, que a esfera privada foi pulverizada pela obsessão pela segurança. E Coppola sabe como fazer tudo isso minar numa impressionante estrutura formal e narrativa de suspense. E isso talvez seja uma das coisas mais legais em A CONVERSAÇÃO, uma obra que trata sobre esses assuntos relevantes sem deixar de lado os aspectos do suspense. É um baita thriller atmosférico e psicológico, que não dá muitas alternativas para o seu protagonista, que acaba trancado em sua própria armadilha, afundado na paranóia que ele próprio ajudou a criar.

Acho que vale ainda destacar a construção de Harry Caul, um desses personagens que acaba se tornando o seu ofício. Mas uma das grandes sacadas de A CONVERSAÇÃO é permitir que o personagem expresse dilemas e dúvidas morais durante cenas de intimidade, no confessionário de uma igreja ou diante de uma mulher compassiva. Caul se ressente de várias coisas, sem admitir completamente, e vai-se desenhando um personagem atormentado, que tem dificuldade em assumir moralmente as consequências de seu trabalho. Especialmente para quem possui uma fé religiosa, como é o caso de Harry, que tem consciência de que tomar o lugar de um Deus onisciente é um pecado grave, e ele sente todos os espinhos.

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Gene Hackman oferece um desempenho sutil e vigorosamente internalizado, mais silencioso do que estamos acostumados. Mas com grande força nos pequenos detalhes, uma das melhores atuações do sujeito. Gosto de brincar que INIMIGO DO ESTADO, de Tony Scott, lançado vinte e poucos anos depois, seja uma espécie de continuação de A CONVERSAÇÃO e que o personagem de Hackman, um paranóico gênio de vigilância tecnológica, talvez seja uma versão envelhecida de Harry Caul… John Cazale, Robert Duvall, Frederic Forest, Harrison Ford e Teri Garr também estão por aqui, nomes que já haviam trabalhado com Coppola e outros que ainda viriam a repetir a parceria.

Coppola dirigiu nos anos 70 mais três filmes. Os dois CHEFÕES que citei e APOCALYPSE NOW. Por vários motivos A CONVERSAÇÃO acabou não sendo tão celebrado quanto esses outros. Mas merecia. É um puta filme, um dos thrillers setentistas dos mais tensos, e uma dos melhores trabalhos de direção do homem. Enfim, não pretendo mesmo ficar vinte anos de novo sem revisitar essa maravilha.

TONIGHT FOR SURE (1962)

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Se você cavucar o início de carreira de algumas figuras consagradas do cinema, pode ser que encontre alguns esqueletos enterrados. O diretor Francis Ford Coppola é um desses casos e, pouca gente sabe, mas muito antes de se tornar um dos principais autores do cinema americano pós-anos 70, com obras-primas grandiosas como O PODEROSO CHEFÃO e APOCALIPSE NOW, o sujeito já tinha uma filmografia cheia de produções questionáveis do cinema exploitation, B-Movies esquecidos e hoje pouco comentados, trabalhou até como pupilo de Roger Corman (inclusive o filme que dá nome ao blog, o horror DEMENTIA 13, é um trabalho pouco lembrado de Coppola). Mas nada que o diretor tenha que se envergonhar também, TONIGHT FOR SURE por exemplo, é bem melhor que um YOUTH WITHOUT YOUTH ou JACK, trabalhos que Coppola realizou já tendo seu nome celebrado.

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TONIGHT FOR SURE é um típico “Nudie“, gênero do sexploitation que surgiu no fim dos anos 50 no cinema americano e cuja principal função era explorar corpos femininos em completa nudez. É evidente que na época devia fazer alguns marmanjos correrem atrás desse tipo de material, mas vistos hoje, são filmes bem ingênuos, a maioria filmadas em campo de nudismo ou boates de striptease, sem erotizar muito as situações. Pepecas e manjubas nunca eram mostradas e o que se via era predominantemente seios e bundas balançados em jogos de vôlei, à beira de piscinas ou em apresentações burlescas de striptease… Curioso que um dos principais representantes na direção do gênero era uma mulher, Doris Wishman, que realizou um bom número de exemplares, como NUDE ON THE MOON. E, pois é, pode acreditar, é esse o tipo de filme que o Coppola fez por aqui.

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A trama é sobre dois sujeitos moralistas que se encontram e decidem lutar contra a crescente onda de luxúria no mundo. Um deles é um caipira que entra na cidade em um burro atrapalhando o trânsito, o outro é um dândi engomadinho da cidade grande. Com a intenção de algum tipo de desordem que repercuta na pouca-vergonha que o mundo se encontra, eles entram num Club de striptease antes do show começar e, na surdina, prendem algo na caixa de rede elétrica, programada para detonar à meia-noite.

Enquanto esperam pela detonação, eles se sentam na boate e trocam histórias sobre os males do pecado e das mulheres lascivas (e claro, enquanto estão tagarelando, garotas burlescas estão se exibindo no palco atrás deles e gradativamente eles vão se aproximando, sentando em mesas mais perto das mulheres que se apresentam). O caubói relata como um amigo passou a ter ilusões “terríveis” em que todas as mulheres ao seu redor estavam nuas. O outro conta sua história, se revelando um devasso que prega a moralidade como uma desculpa para bancar de voyeur num estúdio de fotografia Pin-Up.

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Com apenas uma hora de projeção, TONIGHT FOR SURE não possui nenhuma sutileza, os homens são caricatos e idiotas e as mulheres são carne. A única pretensão de Coppola aqui é criar situações para mostrar alguns peitos de fora. Só isso. A direção de Coppola, então com pouco mais de vinte anos, é pesada, com um lampejo ou outro de criatividade num ângulo ousado ou movimento de câmera (a fotografia é do grande Jack Hill, futuro mestre do exploitation americano e que na época era colega de classe de Coppola na UCLA), mas ninguém poderia prever que o mesmo sujeito fosse virar referência de autorismo dez anos depois, que ganharia o Oscar de melhor diretor, que venceria Cannes!

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Os atores são horríveis, o humor do filme é pastelão da pior qualidade e a produção é bem pobre, mas até que dá pra tirar um sarro e se divertir um bocadinho. E mais um detalhe positivo, Coppola pelo menos encontrou alguns mulheres bem mais apetitosas que as habituais habitantes que povoam os Nudies.

Mas no fim das contas, TONIGHT FOR SURE é só mais um exemplar mediano do gênero que eu nunca teria sequer contato caso não fosse dirigido pelo Coppola. Vale pela curiosidade para conhecer as raízes capengas de um grande mestre.

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DEMENTIA 13 em Blu-Ray

Não, o meu blog ainda não virou filme. Mas o primeiro longa de Francis Ford Coppola, de 1963, e que dá o seu título a este blog, vai receber em Abril uma versão totalmente restaurada para o lançamento no formato em alta definição. Em um dos meus primeiros posts, há uns três anos, eu explicava de onde vinha o título do blog.  Acho que para um espaço que possui a proposta que temos aqui, era um título legal… hoje já não acho, mas agora é tarde, não vou mudar.
 
DEMENTIA 13 foi produzido em 1963 pelo grande Roger Corman, quando este dirigia THE YOUNG RACERS na Irlanda (em locações de pequenos paises europeus sai muito mais barato do que filmar em locações nos Estados Unidos) e o jovem Coppola era seu assistente de direção. Para DEMENTIA 13, Coppola reaproveitou o cenário e os atores do filme de Corman.

O número 13 do título aparece porque já existia um filme de 1955 chamado DEMENTIA. A realização de Coppola não é uma obra prima do cinema de horror, mas é um bom filme carregado de clima, estética gótica estilo Mario Bava, um pouco de violência e já demonstrava a criatividade do diretor que viria ainda fazer obras primas como o A CONVERSAÇÃO e APOCALYPSE NOW. Chegou a ser lançado em DVD no Brasil numa versão vagabunda ripada de um VHS, que valeu para matar a curiosidade tanto dos fãs do terror, quanto para os admiradores do diretor.

Agora, a edição em Blu Ray vai ser obrigatória, em widescreen e etc. Não deve chegar no Brasil, infelizmente… mas fica aí uma boa dica.

DEMENTIA 13

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De onde raios saiu esse nome Dementia 13? É o que alguns de vocês devem estar se perguntando, ou não? Além de ser um nome bacana para um blog que possui uma proposta como este aqui, DEMENTIA 13 é o título de um dos primeiros filmes do diretor americano Francis Ford Coppola.

O filme foi produzido em 1963 pelo grande Roger Corman, quando este dirigia THE YOUNG RACERS na Irlanda (Corman é o rei das produções de baixo orçamento e filmar em locações de pequenos países europeus sai muito mais barato do que filmar nos Estados Unidos) e o jovem Coppola era seu assistente de direção. Para DEMENTIA 13, Coppola reaproveitou o cenário e os atores do filme de Corman.

O número 13 do título aparece simplesmente porque já existia um filme de 1955 chamado DEMENTIA. A realização de Coppola não é uma obra-prima do cinema de horror, mas é um bom filme carregado de clima, estética gótica estilo Mario Bava, um pouco de violência e já demonstrava a criatividade do diretor que viria ainda fazer obras primas como a trilogia O PODEROSO CHEFÃO, A CONVERSAÇÃO, APOCALYPSE NOW e meu favorito, O SELVAGEM DA MOTOCICLETA. Chegou a ser lançado em DVD no Brasil numa versão vagabunda ripada de um VHS, mesmo assim vale como curiosidade tanto para os fãs do terror, quanto para os admiradores do diretor.