MANDINGO (1975)

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Último sábado teve mais uma sessão do Cineclube Vertigo, capitaneado pelo grande Guilherme Ferraro. O filme que passou foi MANDINGO, do Richard Fleischer, que é um diretor que ando atualmente fascinado, descobrindo várias coisas, mas este aqui ainda não tinha assistido. Valeu a pena, é um filmaço, um épico subversivo e polêmico sobre escravidão com uma pegada sensacionalista, abusando de violência e nudez, mas também uma interessante reflexão histórica e precisa do racismo. Produzido pelo lendário Dino De Laurentiis, o filme também foi uma das principais inspirações de Quentin Tarantino em DJANGO LIVRE.

Lixo racista, obsceno… este é um filme pelo qual me senti sujo.

Isso aí foi o que o famoso crítico Roger Ebert escreveu sobre MANDINGO à época do lançamento. O sujeito não entendeu NADA. E se um filme faz um crítico respeitado como o Ebert escrever algo assim, só pode ser coisa boa. Mas realmente não é um filme fácil de se ver, o tratamento de Fleischer sobre o assunto é barra pesada, deixa o público desconfortável, é bem direto em confrontar a brutalidade da escravidão, e não apenas os males óbvios, mas o efeito moral corrosivo sobre todos os envolvidos, tanto vítima quanto opressor. O filme não faz concessão alguma em explorar as degradações diárias quase inimagináveis que são parte integrante de uma sociedade que trata as pessoas de pele negra como inferiores, como animais sem alma.

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O grande James Mason é Warren Maxwell, o dono de uma fazenda no século XIX que mantém seus escravos ignorantes em leitura, escrita e religião. Seu filho coxo, Hammond (Perry King) evita as afeições de mulheres brancas e prefere se deitar com escravas, até se apaixonar por uma delas. Seu pai fica cansado das suas relações inter-raciais e insiste em que ele se case com sua prima Blanche (Susan George) para manter as aparências e, mais importante, lhe arrumar um herdeiro. Certo dia, no mercado de escravos, Hammond compra um imponente mandingo chamado Mede (Ken Norton). Forte como um touro, o sujeito vai servir para a procriação, mas também como ficha de aposta em lutas entre mandingos. Blanche fica chateada que Hammond a despreza, sempre ocupado seduzindo sua escrava favorita, então ela resolve convidar Mede à sua cama. Fica grávida. Quando dá à luz ao tão aguardado herdeiro, adivinhem a cor do bebê…

MANDINGO lida com o tema das relações inter-raciais com bastante sensibilidade, praticamente como um melodrama sentimental. Mas o filme segue em um ritmo sinuoso e chega até a sofrer uma crise de personalidade em alguns trechos. Às vezes Fleischer parece que ele está tentando fazer um …E O VENTO LEVOU 2, outras vezes ele age como se estivesse filmando um exploitation sensacionalista de Gualtiero Jacopetti. Portanto, ao mesmo tempo em que MANDINGO se demonstra crítico e sério ao tratar de um assunto relevante como o racismo, há uma quantidade enorme de situações irreverentes para manter o público a um certo nível de entretenimento. Cenas de nudez e sexo gratuitos temos aos montes; Mason drenando constantemente seus pés reumáticos em meninos escravos; um escravo sendo pendurados de cabeça para baixo e espancados até que o traseiro fique ensanguentado; um líder rebelde de mentalidade moderna pouco antes de ser enforcado, solta uma máxima clássica da era blaxploitation: “Kiss my black ass!“… E por aí vai.

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A direção de Fleischer reflete bastante essa dualidade, é classuda na maior parte do tempo, com planos e enquadramentos bonitos e bem pensados. A fotografia é um deslumbre. Mas aí vem uma cena como a luta organizada entre os Mandingos e o diretor perde a compostura, filma com uma câmera nervosa como se fosse um filme B produzido pelo Roger Corman. A coisa é realmente brutal e está entre os muitos destaques de MANDINGO. O filme fica nesse contraste, que acaba sendo bem-vindo: Na superfície, um autêntico exploitation, mas que revela em suas camadas uma abordagem reflexiva e crítica sobre racismo.

As performances são um pouco desequilibradas, mas funcionam na maior parte do tempo. Mason faz um desempenho magistral, obviamente. É desses atores que dá gosto de ver em cena. Perry King é fraco, mas consegue dar conta, mesmo seu personagem sendo tão complexo, numa ambiguidade interessante em relação aos escravos. Susan George tá canastrona, exagerada e histérica além do necessário. Como disse o amigo Edu Aguilar, só o Peckinpah pra fazê-la atuar… Mas parece ao menos estar se divertindo como a esposa ignorada empunhando um chicote, com os olhos selvagens, espancando uma escrava grávida. Ken Norton também faz uma impressão considerável como Mede.

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Os entusiastas de blues também ficarão satisfeitos quando ouvirem a ótima música tema de Muddy Waters que abre o filme. MANDINGO teve uma continuação no ano seguinte, DRUM, que se passa quinze anos após os acontecimentos deste aqui. Também foi produzido por Dino De Laurentiis e dirigido Burt Kennedy, que teve problemas com o produtor e acabou sendo substituído por Steve Carver, que o finalizou. No elenco, Warren Oates. Uma tentativa discreta de firmar o sub-sub-gênero Slavesploitation no cinema de exploração do período…

Um pensamento sobre “MANDINGO (1975)

  1. black flag my war

    não perguntem aos brasileiro de bem
    “quem são vocês?”
    eles responderão
    “nós somos americanos!”

    us jordan peele 2019

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