PERFORMANCE (1970)

Antes de adentrar em PERFORMANCE, filme que finalmente assisti esta semana, deixem-me  falar um pouquinho dos dois grandes responsáveis por esta maluca e psicodélica obra existir. PERFORMANCE foi o primeiro filme dirigido por dois sujeitos que viriam se tornar grandes diretores, e que aqui acabaram dividindo os créditos na função: Nicolas Roeg & Donald Cammell.

O primeiro vocês já devem conhecer, fez alguns filmes cultuados, especialmente nos anos 70, como WALKABOUT, INVERNO DE SANGUE EM VENEZA e O HOMEM QUE CAIU NA TERRA. A partir dos anos 80 seu trabalho começa a ficar meio ignorado e não tão celebrado, embora ainda tenha grandes filmes. Na altura em que realizou PERFORMANCE, Roeg já era um respeitável diretor de fotografia, tendo no currículo umas coisas bonitas como ORGIA DA MORTE, de Roger Corman, FAHRENHEIT 451, de François Truffaut, e DOUTOR JIVAGO, de David Lean. E foi para essa função, de diretor de fotografia, que Roeg fora contratado, inicialmente, em PERFORMANCE.

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Mick Jagger com Nicolas Roeg

Agora, talvez você nunca tenha ouvido falar do outro sujeito. Donald Cammell não possui o mesmo prestígio de Roeg, mais por “ignorância” da cinefilia, que nunca lhe deu a devida atenção, do que por seu talento. Quem pega para ver seus filmes nota logo de cara que o sujeito era especial. Infelizmente se suicidou em abril de 1996 deixando apenas quatro filmes finalizados (e vários clipes do U2), após uma luta inglória de décadas tentando conseguir realizar obras autorais e inovadoras, tendo seus filmes mutilados pelas produtoras… Além de PERFORMANCE, fez DEMON SEED, WHITE OF THE EYE e WIDE SIDE.

Na época, Cammell era roteirista, foi ele quem escreveu PERFORMANCE e à princípio ele seria o único diretor. Tinha em mente Marlon Brando como protagonista, um gangster americano vivendo em Londres chamado Chas que acaba se envolvendo com um astro do Rock, interpretado pelo vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger. Brando acabou não pegando o papel e sobrou para James Fox.

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Anita Pallenberg com Donald Cammell

Apesar de ser essencialmente um filme britânico, PERFORMANCE foi produzido pela Warner Bros., cujo interesse no projeto era oportunidade de lançar uma comédia ao estilo de OS REIS DO IÊ IÊ IÊ e HELP, ambos dirigidos por Richard Lester e estrelados pelos Beatles, algo que o próprio Cammell havia sugerido ao vender a ideia para a produtora. O problema é que enquanto Cammell trabalhava no roteiro, o sujeito ficou meio obcecado com temas menos tradicionais, como identidade de gênero, sexualidade, drogas e violência, o que levava o projeto para um lado bem mais sombrio.

A coisa chegou num ponto que, quando as filmagens começaram, Cammell tomou consciência de que não tinha ideia do que estava fazendo atrás das câmeras e precisava de mais alguém para ser os olhos, que cuidasse do visual, enquanto ele focava em criar a atmosfera que queria e a tensão entre os atores… Foi aí que Roeg assumiu a parceria e dividiu a responsabilidade na direção.

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As filmagens rolaram em 1968. E quando o pessoal da Warner viu o produto final, ficaram horrorizados… O filme não tinha nada a ver com o que eles esperavam  e arquivaram PERFORMANCE indefinidamente. Dois anos depois, quando a Warner mudou algumas cabeças, na renovação que foi o cinema da Nova Hollywood, o filme finalmente viu a luz do dia, no final de 1970 (após uma dramática remontagem).

E tudo isso revela alguns indícios que as histórias sobre a conturbada produção de PERFORMANCE são quase tão malucas e interessantes quanto o próprio filme. Alguns mitos surgiram, alguns nem são verdadeiros, outros são:

  1. Dizem que James Fox ficou tão imerso no seu personagem, que acabou indo longe demais, se envolveu com bandidos de verdade para estudar o seu papel. Ficou tão transtornado que terminou o filme como um cristão “nascido de novo”. Ficou um bom  tempo longe do cinema depois dessa experiência. Seu filme seguinte data de 1976.
  2. Uma das histórias que mais gosto é a que Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, teria ficado incomodado com as cenas de sexo que a namorada, Anita Pallenberg, filmou com Jagger, que eram, digamos, muito realistas… E há relatos que os dois realmente não estavam “atuando” e chegaram às vias de fato. Richards teve que ser banido dos sets de tanto que enchia o saco da equipe, bebendo e se drogando sem parar…
  3. Aliás, o consumo de grandes quantidades de drogas eram incentivadas pelo próprio Cammell aos atores durante as filmagens para que vivessem os personagens de forma mais autêntica, com direito à uma cena em que Pallenberg é filmada injetando heroína à vera…
  4. Algumas dessas filmagens do coito de Jagger com Pallenberg deram um problemão danado quando os negativos foram enviados pra reveleção e o laboratório se recusou a processar as imagens. Foram consideradas pornográficas. Há relatos que muito desse material foi destruído. Mas o que sobreviveu aparentemente foi editado (supostamente pelo próprio Cammell) em um pequeno filme pornô que ganhou um prêmio em algum festival pornô underground de Amsterdã…

Enfim, mesmo todos os contos mais excessivos envolvendo sexo, drogas e, bom, você sabe, rock ‘n’ roll, durante a produção, nunca eclipsou o poder visceral do próprio filme, tornando-se uma peça chave do famigerado momento final dos anos 60, tanto em forma quanto em conteúdo.

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PERFORMANCE começa como uma historinha de gângster, mas embebedada com algumas excentricidades visuais, com uma experimental, totalmente confusa e estranha montagem (algo que se repetiria no cinema de Roeg) que alterna imagens numa edição caótica com sobreposição, justaposição e cortes rápidos entre as cenas, mais especificamente de duas pessoas fazendo sexo, um Rolls Royce se deslocando pelas ruas, o discurso de um advogado num tribunal, entre outras coisas. E eu não tava entendo um caralho!

Aos poucos a narrativa vai entrando nos eixos, embora nunca fique, digamos, normal. A trama, na superfície, é até simples: Chas (Fox) é um jovem gângster do tipo durão utilizado quando a situação necessita de força bruta e violência, que trabalha para um mafioso chamado Harry Flowers (Johnny Shannon). Harry adverte Chas para não se envolver num determinado caso: uma sala de apostas administrada por um dos antigos associados de Chas. Mas o rapaz ignora e acaba fazendo merda, causando um problemão danado para Harry. Agora, Chas se vê com a cabeça à prêmio, foge e se refugia em uma casa cujos habitantes vivem o último suspiro da ideologia hippie, entre eles, Turner (Jagger), um astro de rock recluso. Turner e suas duas amiguinhas (Pallenberg e Michele Breton) permitem que Chas fique no local e logo o fluxo constante de alucinógenos e sexualidade andrógina afetam a realidade de Chas.

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Mas os jogos constantes entre Turner e Chas vão muito além de um encontro de dois mundos. Claro, PERFORMANCE reúne dois universos insulares e incompatíveis, o submundo criminal britânico e a contracultura dos anos 60, mas uma vez que os dois mundos colidem, Roeg/Cammell dão o próximo passo para mesclar os envolvidos criando um retrato vívido da natureza mutável da identidade e dualidade, da transferência de personas, de uma estranha simbiose entre o violento mafioso e o roqueiro hippie. Chas se torna Turner e Turner se torna Chas. Tudo conduzido num estado de desordem, cuja realidade não possui mais limites.

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Enfim, PERFORMANCE é desses filmes que faz questão de deixar o público confuso e instável até finalmente chegar num ponto de se acostumar com a estranheza narrativa, com a estranheza das situações, especialmente quando a Chas finalmente se conecta com Turner. É como se Roeg e Cammell dissessem já nas primeiras imagens: “Não fique muito confortável, porque o bagulho é louco!“. Mas o filme também é dessas experiências fascinantes e hipnotizantes que o cinema desse período conseguia proporcionar, desde a edição estilisada, o visual psicodélico, aos excelentes desempenhos de Fox e Jagger. Quem estiver a fim de algo que foge completamente dos padrões, vale a pena conhecer PERFORMANCE.

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