AS AVENTURAS DE GWENDOLINE NO PARAÍSO (1984)

Just Jaeckin é um diretor francês que pode não ter o nome reconhecido imediatamente pela grande maioria, mas é preciso considerá-lo, em alguns nichos, com uma certa importância por conta de alguns trabalhos que realizou na década de 70. E tenho certeza que vocês vão concordar comigo mesmo nunca tendo ouvido falar o nome dele antes. Pois bem, o sujeito é ninguém menos que o diretor do clássico do Cine Privé EMMANUELE (1974), com a Sylvia Kristel. Precisa dizer mais alguma coisa?

Enfim, essa semana assisti ao seu último filme, AS AVENTURAS DE GWENDOLINE NO PARAÍSO (The Perils of Gwendoline in the Land of the Yik Yak ou The Perils of Gwendoline ou apenas Gwendoline,1984), uma aventura que eu já desconfiava que seria excêntrica e sexy por tudo que já li, pelas imagens que vi, pelo diretor e até pela fonte de inspiração da obra… E, olha, todas as expectativas foram atendidas.

A tal inspiração de GWENDOLINE é nas histórias em quadrinhos de John Willie, um artista e fotógrafo pioneiro do erotismo fetichista, editor de uma revista chamada Bizarre, também sobre o tema… Isso lá pela década de 40 e 50. Foi nessa publicação que ele apresentou essa personagem Sweet Gwendoline, a protagonista desse filme aqui. Uma personagem ingênua e virginal, do tipo ‘donzela em perigo’ cujas roupas estão sempre rasgadas, sempre sendo salva por um machão, mas que passa por uma jornada de descobertas de todo o tipo, até encontrar sua força interior para resolver as coisas.

GWENDOLINE é, de certa maneira, mais uma variação das aventuras ao estilo INDIANA JONES E OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA, como tantos outros que surgiram no período – coisas do mesmo tipo de TUDO POR UMA ESMERALDA (1984) e ALLAN QUARTERMAIN E AS MINAS DO REI SALOMÃO (1985). Bom, pelo menos é assim que começa o filme… Somos apresentados a Gwendoline, que ganhou vida na beldade Tawny Kitaen, e sua fiel amiga Beth (atriz e diretora Zabou Breitman). Elas chegam num porto em algum lugar do mar da China, dentro de uma caixa de madeira, sem passaportes ou dinheiro, e não demora muito Gwendoline é sequestrada por gângsters.

Eles querem algo dela, provavelmente vendê-la como escrava branca, mas não falam inglês, então ela não tem ideia do que eles querem. Mas ela fica lá amarrada, amordaçada, algo que vai acontecer algumas vezes durante o filme pra nos lembrarmos das origens fetichistas de John Willie. Então, Willard (Brent Huff, um sujeito que é a cara do Charlton Heston) quebra a janela, mata todos os bandidos – com direito à uma luta com um clone de Bruce Lee – e salva a nossa protagonista. Mas foi apenas sorte dela. Na verdade, Willard tinha algum dinheiro pra cobrar dos gangsters. Resgatar mulheres não é bem a sua linha.

Willard, à princípio, aparenta o típico herói americano de queixo quadrado que você encontraria em histórias em quadrinhos e seriados clássicos de matinê. A diferença é que ele é um filho da puta completo, mercenário e egoísta sem nenhum tipo de pureza heroica. É apenas um aventureiro implacável que não pensa em ninguém além de si mesmo.

No entanto, ele acabou se deparando com essas duas jovens indefesas. Willard não quer nada com elas, já está comprometido com o submundo local. Gwendoline quer procurar o pai caçador de borboletas que está desaparecido, e com muito esforço encontra um jeito de subornar Willard para ajudá-las a se aventurar em Yik Yak, uma terra praticamente desconhecida, que poucos se aventuraram, mas é onde o pai de Gwendoline desapareceu.

Já no início dessa jornada, eles descobrem, através de um colega do velho, que ele havia sido sacrificado por uma tribo selvagem para apaziguar antigos espíritos. Willard parece pronto para desistir, mas Gwendoline quer continuar a jornada e pegar a borboleta mais rara que existe em homenagem ao seu pai.

O que acontece a partir daí, na verdade, além de uma aventura tradicional cheia de perigos, com piratas, tribos canibais, animais famintos, etc, é que também se torna uma jornada de descobertas interiores da jovem Gwendoline mais do que qualquer outra coisa. O contato dela com Willard desperta sentimentos inexplorados e o filme sublinha suas transformações, sobretudo nas questões sexuais, no relacionamento com Willard, mesmo com a dose constante de um humor bem abobalhado que o material propõe.

Uma cena em especial é a que Willard, conduzindo as duas moças pela selva, convence-as a tirarem as camisas e usar o pano para pegar água durante uma tempestade. É uma sequência tola, completamente desnecessária e gratuita, mas é engraçada e destaca o tipo de homem que Willard é e quão frágil é nossa heroína, cegamente atraída pelo sujeito, mas que, em última análise, faz parte do processo de transformação que ela passa no decorrer da aventura até se tornar praticamente uma “guerreira amazona”. E cito as guerreiras amazonas por um motivo especial que já falo a seguir.

Uma coisa que ajuda muito no andamento do filme até aqui são as locações. Jaeckin não é bem um diretor com muita energia na câmera e, obviamente, não consegue obter o melhor de seus atores, que atuam quase de modo cartunesco – o que também contribui para o tom de história em quadrinhos que GWENDOLINE possui. Agora, os cenários são ótimos. Exóticos, com paisagens lindamente filmadas, permitem que as três figuras se movam sem nunca deixar o filme chato. Isso tanto nas locações naturais quanto em estúdio. O plano inicial do filme demonstra bem isso e de cara percebe-se também que é uma produção com um orçamento acima da média.

Orçamento que se confirma logo depois, quando o trio escapa da mesma tribo que selou o destino do pai de Gwendoline e desce para uma enorme fissura num deserto. Aqui o filme transcende para outra coisa. E já não é nem mais um rip

Os três personagens principais são tragados para dentro de um novo universo, até então totalmente desconhecido tanto para eles quanto para quem estava assistindo. O filme não dá qualquer pista para a chegada desse mundo paralelo, um império subterrâneo de guerreiras amazonas (aqui estão elas) governado por uma rainha má (Bernadette LaFont).

A partir daqui GWENDOLINE é quase uma obra-prima. O filme vira um espetáculo sensorial de cenários futuristas repleto de dispositivos de tortura, povoado por mulheres seminuas, com adereços fetichistas, bem condizente com o material que o filme adapta. Uma loucura. A cena da corrida de bigas, por exemplo, puxadas por moças é um toque fascinante (e tenho certeza que é uma espécie de homenagem a BEN HUR e o fato do Willard ser a cara do Charlton Heston, como já disse antes). O grande lance desse local é que fica dentro de uma caverna acima de um antigo vulcão que, segundo a lenda, um dia entrará em erupção e um tesouro em diamantes embutido em seu núcleo se perderá.

E dessa vez é Gwendoline que precisa lutar para salvar o dia. Sua transformação está completa e também percebe-se que sua paixão por Willard já está bem resolvida. Agora é entrar numa arena com outras guerreiras e lutar até morte. Enfim, o tipo de coisa que eu recomendo uma conferida, não adianta eu ficar descrevendo. E por mais louco que pareça esse híbrido de aventura excêntrica com cinema erótico, GWENDOLINE acaba rendendo algo muito divertido pelo seu caráter singular. Não existe nada parecido com isso aqui.

No elenco, destaque para a nossa Gwendoline, Tawny Kitaen (mais conhecida por ser a musa dos clipes do Whitesnake, ela foi casada com o David Coverdale), que está definitivamente em seu auge físico. E a câmera a ama tanto quanto ela ama a câmera. Tá certo que o roteiro não seja muito desafiador, mas ela lida bem com as coisas, tem presença na tela. Infelizmente faleceu no ano passado. Brent Huff é um herói galã o suficiente para que você possa entender por que Gwendoline se apaixona por ele e é interessante ver as reviravoltas que o relacionamento deles leva à medida que o filme se desenrola e a jornada de descobertas da jovem Gwendoline vai evoluindo. Zabou Breitman tá mais como alívio cômico, num filme que já tem um humor carregado por natureza, mas ela se sai bem, é encantadora.

Só posso dizer que realmente valeu a pena parar e finalmente conferir GWENDOLINE. É pura diversão do início ao fim. Na verdade, mais ao fim, quando a coisa realmente se torna uma experiência especial, surtada e única. O filme nunca é tão explícito quanto os trabalhos anteriores de Jaeckin, mas se mantém fiel à natureza sádica e fetichista do seu cinema e da obra de John Willie. E não deixa de funcionar nesse lado mais picante, em provocar com um grau de erotismo.

Mas o que é ainda mais prazeroso em GWENDOLINE é o fato do filme ser descaradamente bobo. Talvez nem fosse bem isso que Jaeckin havia pretendido com a ideia de ser um INDIANA JONES erótico. Ele poderia ter feito algo mais sério, mais artístico, mas acabou saindo essa bobagem, que é algo bem mais duradouro, uma comédia de aventura camp, praticamente uma história em quadrinhos filmada, que é muito mais agradável do que qualquer outra coisa.

2 pensamentos sobre “AS AVENTURAS DE GWENDOLINE NO PARAÍSO (1984)

  1. Vou procurar esse filme, eu tinha uma paixonite pela Tawny Kitaen, devido as inúmeras reprise do divertidissimo A Última Festa de Solteiro, onde ela era a noiva do Tom Hanks, acho que no papel mais amalucado dele. Nessa comédia a Tawny não aparecia tão “a vontade”, em compensação tinha aquela loira escultural que o personagem do Hanks “ganhava de presente” e que pedia pra ele “fazer amor com ela” (ai, ai!). Só que tem uma coisa que me encafifa as idéias até hoje: Como o Hanks e a Tawny usavam aquela batedeira manual para apimentar a relação?🤔

  2. Ótima postagem essa suas duas ultimas “EXPLOSED” e agora esse filme ” GWENDOLINE”, eu mesmo não conhecia ambos os filmes parabéns por resenha-los aqui com esse maravilhosos frames de ambos ,boa dica para quem não conhecia ambos os filmes ,valeu por ela,um abraço de Anselmo Luiz.

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