BURKE AND HARE (2010)

Eu não ando muito ligado nas comédias atuais, mas resolvi me arriscar neste aqui porque a) me pareceu ser um bom caso do típico humor britânico; b) além do tipo de humor, me pareceu ter uma mescla interessante com mistério e terror; c) tem o Simon Pegg, que é dos poucos rostos do gênero que acho bacana atualmente e d) o motivo principal, é que BURKE AND HARE é o retorno de John Landis à direção depois de não sei quantos anos sem fazer algo para cinema.

Duas escolas de anatomia na cidade de Edimburgo, por volta de 1820, competem pelo posto de melhor instituição, uma liderada pelo Dr. Monro (Tim Curry) e outra pelo Dr. Knox (Tom Wilkinson), que se vê obrigado a adquirir corpos por meios ilegais, já que Dr. Monro consegue um monopólio sobre a oferta de cadáveres na cidade. É aí que entram Burke (Pegg) e Hare (Andy Serkis), dois malandros que estão dispostos a tudo para ganhar uns trocados, o que incluí conseguir alguns defuntos para o Dr. Knox, mesmo que nem sempre encontrem o artefato sem vida.

O filme é ligeiramente baseado em histórias verdadeiras, inspiradas em assassinatos reais da época, e possui um tema interessante para criar situações engraçadas. Pena que na prática a coisa não funcionou tão bem pra mim. BURKE AND HARE não é ruim ao ponto de você desistir no meio do filme, mas também não possui nada de mais para chegar ao fim como uma experiência agradável. É longo demais e perde tempo com situações desinteressantes (como o romance de um dos protagonistas) e, já que estamos falando de algo assumidamente dentro do gênero comédia, falha por ser sem graça na maior parte do tempo. Não existem sequências memoráveis que ficam marcadas na mente, a não ser a curta cena onde Christopher Lee dá as caras.

Por outro lado, John Landis mantém a mão firme para o suspense e em alguns momentos envolvendo uma atmosfera mais densa o filme ganha um pouco de força. Não deixa ainda de ser meia boca o resultado final, mas prefiro um Landis ou John Carpenter fazendo filmes menores como este do que vê-los “coçando o saco em casa”.

O ESCRITOR FANTASMA (2010)

Vi este novo trabalho do Polanski, O ESCRITOR FANTASMA (The Ghost Writer), um thriller político sobre um escritor (Ewan McGregor) que recebe uma oferta lucrativa para concluir a autobiografia – como Ghost Writer – do ex-primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Adam Lang (Pierce Brosnan), que agora vive numa ilha nos Estados Unidos, rodeado de poucas pessoas e passando por sérias acusações políticas.

O problema é que o tal escritor foi contratado para substituir um outro autor que morreu de forma suspeita enquanto trabalhava nos mesmos escritos. E à medida em que vai descobrindo os podres do ex-primeiro ministro, mais o escritor percebe que está se envolvendo numa trama perigosa e que pessoas poderosas querem enterrar e esquecer certas verdades.

É uma trama simples, mas que Polanski dirige com precisão, dá um ritmo excelente: lento, reflexivo, sem muita pressa, mas com momentos de tensão realmente de roer as unhas. Todo o filme se baseia em climas e na construção atmosférica de puro suspense. Sim, o filme é anacrônico, mas para quem está de saco cheio das mesmas fórmulas de como se faz suspense atualmente, O ESCRITOR FANTASMA é um deleite.

E, bom, estamos falando de uma das maiores autoridades no assunto. REPULSA AO SEXO, O BEBÊ DE ROSEMARY, BUSCA FRENÉTICA e O INQUILINO são apenas alguns exemplos que provam a genialidade de Polanski na condução do suspense/horror de maneira correta.

E como se não bastasse filmar um thriller com maestria arrepiante, Polanski faz em O ESCRITOR FANTASMA alguns dos mais belos planos que vi recentemente numa sala de cinema. Ajuda muito o cenário peculiar que a trama se passa.

No campo das atuações, McGregor, ator sóbrio, cumpre muito bem suas responsabilidades como protagonista. Mas todo o elenco é um destaque. Tom Wilkinson está sinistro em sua participação, temos Eli Wallach e James Belushi apontando rapidamente e Pierce Brosnan, que surpreende num de seus melhores desepenhos. Kim Cattrall e Olivia Williams completam o time no lado feminino.

O ESCRITOR FANTASMA é o melhor Polanski em muitos anos. E isso quer dizer muita coisa. Se qualquer um da grande maioria dos diretores da atualidade fizesse um filme baseado nesse roteiro, seria um thriller genericão, mas por causa da criatividade e senso de arte de Polanski, o que temos é uma joia.

Curioso que o filme me lembrou outro trabalho do homem, O ÚLTIMO PORTAL, o qual foi bastante maltratado na época do lançamento, apesar de ser muito bom também. Preciso rever. Este aqui vem recebendo elogios da “crítica séria”, mas nada que realmente apresente a importância que o filme merece.