ANGEL FACE (1952)

_angel_face_4

Em 1952, o famigerado magnata e produtor de filmes Howard Hughes estava tão decidido a forçar a atriz Jean Simmons a fazer mais um filme para ele, que resolveu dar ao diretor Otto Preminger o controle artístico completo da produção, se ele conseguisse filmar em 18 dias, que era exatamente o que restava do contrato dela depois de seu último trabalho. Batalhas judiciais à parte entre a atriz e o produtor, Preminger aproveitou a chance e o resultado foi ANGEL FACE (no Brasil, o título um bocado ridículo, ALMA EM PÂNICO), um filme que é ao mesmo tempo um ótimo exemplo de film noir e uma obra pouco convencional dentro do gênero.

Robert Mitchum é o motorista de ambulância Frank Jessup, que é chamado, logo no início do filme, para a mansão de um escritor, cuja esposa quase morreu devido aos efeitos de um vazamento de gás. Um acidente? A mulher não pensa assim. No decorrer do atendimento, ele conhece a filha do escritor, Diane (Jean Simmons), cujas reações a esses eventos são estranhas, para dizer o mínimo. Jessup tem uma namorada, Mary, mas Diane o persegue nas noites e ele se vê fascinado por essa jovem bonita, mas enigmática. Uma típica configuração clássica do noir, com o sujeito sendo puxado para o abismo por uma femme fatale com intenções nefastas.

e2z9so

No entanto, as coisas não são tão “preto no branco” por aqui, existem nuances, Preminger não nos dá nada tão direto, tão óbvio. Seus personagens realizam ações que consideram essenciais para sua própria proteção ou para a proteção de alguém que ama. Podem até estar errados, mas é assim que eles vêem as coisas, é assim que Diane acredita no que faz. E Preminger nunca entrega soluções fáceis ou faz julgamentos sobre essas ações, prefere jogar a responsabilidade para que o público faça seus próprios julgamentos. Até mesmo o comportamento de um personagem que pode ser interpretado como “vilão” da trama segue uma lógica de que seus atos podem ser vistos como razoáveis e morais, dependendo do ponto de vista, e de como entendemos a situação. E o que vemos é Diane atuando em algum sentido como uma clássica femme fatale, mas quando se espera que ela faça algo que uma femme fatale faria, ela faz o oposto.

img238_4927_angel3nx8

Toda essa espécie de desconstrução de modelos só é possível porque ANGEL FACE é um desses exemplos do período clássico do studio system – onde os produtores tinham o controle das obras – só que, como já disse, feito por um diretor que estava na posição de impor sua própria visão sem interferências, de poder atuar como um autêntico autor – não é toa que Preminger ganhou destaque entre a crítica francesa do período. Acredito que, por isso tudo, podemos colocar na conta do diretor sequências brutais, como a do carro que despenca na ribanceira, com os corpos dos ocupantes sendo estraçalhados (bonecos, obviamente, mas de um realismo impressionante), algo que provavelmente um produtor mais afrescalhado, no auge de 1952, teria vetado…

Preminger voltaria a trabalhar com Mitchum em O RIO DAS ALMAS PERDIDAS, que já comentei aqui no blog, numa das minhas fases mais “Mitchuniana”… Aliás, o sujeito está muito bem em ANGEL FACE. É um trabalho mais discreto, mas com boa presença. Quem acaba se destacando mesmo é Jean Simmons, nessa personagem complexa, ambígua, uma irresistível femme fatale atípica, que não se parece em nada com as traidoras de noirs como PACTO DE SANGUE, de Billy Wilder, e ALMAS PERVERSAS, de Fritz Lang.

Em 1964, Jean-Luc Godard colocou ANGEL FACE como um dos dez maiores filmes americanos da era do som. De fato é um grande filme.

O RIO DAS ALMAS PERDIDAS (River of No Return, 1954)

large_river_of_no_return_blu-ray_08

O primeiro que enjoar das postagens com o Robert Mitchum vai ser a mulher do padre… Até porque depois que se mergulha de cabeça na obra deste estupendo ator fica difícil parar. É como um vício. Mas um dos bons, saudável, recomendável aos amantes de boas atuações. E, neste ofício, Mitchum foi um dos grandes… Quiçá o maior… Se cuida, Lee Marvin!

O RIO DAS ALMAS PERDIDAS foi o último que vi estrelado por Mitchum.

Dirigido pelo gênio Otto Preminger, o filme é um western de aventura que se passa durante a famigerada corrida do ouro do final do século IXX. O fazendeiro Matt Calder (Bob Mitchum), que vive em uma fazenda remota com seu jovem filho Mark, ajuda um casal que perde o controle de sua jangada num rio nas proximidades. Um deles é Harry Weston, um jogador profissional que está tentando chegar à cidade mais próxima o mais rápido possível para registrar uma reivindicação de uma mineiradora que ele alega ter ganho em um jogo de poker. Sem cavalo, achou que a melhor maneira era descer o perigoso rio de jangada… Junto dele, sua namorada, a bela Kay (Marilyn Monroe), uma cantora de salão.

Quando Calder se recusa a deixar Weston “pegar emprestado” seu único rifle e seu único cavalo para seguir viagem, o clima fica pesado entre os dois. O local é cercado de índios e é o rifle de Calder que protege ele e seu filho dos peles-vermelhas. Além disso, o cavalo é seu “instrumento” para arar a terra nas suas plantações… Mas, como sabemos, Weston precisa urgentemente chegar à cidade mais próxima. Demonstrando ser um grandessíssimo filho da puta, o jogador acerta a cabeça de Calder e parte montado no animal levando o rifle do protagonista embora. A trairagem foi tão grande que até Kay resolve ficar para trás.

800__river_of_no_return_blu-ray_05_

Incapazes de se defender de um iminente ataque índio, Calder, seu filho e Kay só vêem na jangada e nas perigosas águas do rio o único meio de manterem a pele intácta. E assim, a aventura de O RIO DAS ALMAS PERDIDAS começa, com esse improvável trio tentando sobreviver às correntesas do rio com a jangada e aos eventuais ataques de índios. E só um pensamento que dá força a Calder nessa jornada: vingança.

Parece divertidão, não é? Uma montanha-russa em forma de filme de aventura. Pois é, o produtor do filme, Stanley Rubin, também achava que deveria ser assim. No entanto,  O RIO DAS ALMAS PERDIDAS é bem mais complexo, intimista e reflexivo do que parece. E grande parte dessa lógica de aventura descompromissada se perde graças a Otto Preminger.

Na ocasião, Rubin achava que Preminger teria sido uma escolha equivocada. Queria alguém mais ligado a aventuras mais rotineiras, alguém que já tivesse dirigido western, algo que Preminger nunca tinha feito. Rubin queria mesmo o grande Raoul Walsh, que já era célebre por balancear filmes escapistas com um bocado de substância… Mas o chefão da Fox, o lendário Darryl F. Zanuck, precisava arranjar um projeto rápido para Preminger, porque já estava pagando um sálario astronômico na época de 2.500 dólares por semana com o sujeito trabalhando ou não. Preminger, a princípio, não queria saber muito de  O RIO DAS ALMAS PERDIDAS, mas aceitou na boa após ler o roteiro e perceber que poderia explorar alguns conceitos, tanto estéticos quanto humanos com aqueles personagens. O que gerou certo desconforto entre Stanley Rubin e o diretor, que sempre teve fama de autoritário. Continuar lendo