LISTEN TO ME MARLON (2015)

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Marlon Brando é um dos meus atores favoritos. Desses cânones do cinema, difícil encontrar alguém que não o admire como ator ou respeite seu talento, independente da personalidade que aparentemente apresentava fora das telas. Aliás, que personalidade! Uma figura tão misteriosa e complexa, ao mesmo tempo marcado como arrogante e interesseiro… Bom, hoje eu vi um documentário chamado LISTEN TO ME MARLON, que se não demonstra exatamente quem era Brando, ao menos dá uma ajuda para compreender melhor o ser humano por trás do mito.

O título sugere uma espécie de fluxo de consciência na qual o filme se baseia, que são as gravações de áudio que Brando fez ao longo das década como auto-análise. Ironicamente, sua intenção também era usar esse material como base para um documentário autobiográfico que contaria o “seu lado dos fatos”, relacionando sua vida pessoal e a carreira, como um dos atores mais geniais que já pisaram num set de filmagem.

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Tal como aconteceu com vários outros projetos do ator que nunca foram pra frente, seu doc nunca viu à luz do dia. No entanto, o diretor Stevan Riley teve acesso às gravações do próprio Brando e resolveu arriscar a empreitada. O resultado é um trabalho fascinante, um olhar sobre a trajetória de Brando através de suas próprias palavras, desde sua juventude conturbada, o sucesso como ator, o declínio e até os seus torturantes dias finais, assolado pelas famigeradas tragédias familiares.

A carreira de Brando é notória. As várias obras-primas que se meteu, os grandes personagens que já interpretou, tudo isso é passado com bastante interesse por Riley, com os devidos destaques para, por exemplo, O PODEROSO CHEFÃO, O ÚLTIMO TANGO EM PARIS e APOCALIPSE NOW. Mas o que mais me chama a atenção é justamente poder ouvir da sua boca, como um narrador inconsciente, sua opinião e reflexão não apenas diante dessas experiências como ator e o universo do cinema, mas especialmente sobre seus medos pessoais, sobre o mundo, as pessoas e a vida. Entendam, não existe uma narração convencional ou entrevistas com “pessoas próximas”. É praticamente o áudio de Marlon Brando divagando em cima das imagens dos filmes, fotos, filmagens caseiras… Isso é genial.

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Há vários momentos em LISTEN TO ME MARLON em que Brando verbaliza como ele se considerava um pai de família falho, uma situação que fica ainda mais evidenciada pelos acontecimentos dramáticos com seus filhos, Christian e Cheyenne, na última parte da vida. Brando viu Christian ser preso por assassinar o namorado de Cheyenne, e o subsequente suicídio de Cheyenne alguns anos mais tarde. Num devastador julgamento público, vemos Brando, que sempre tentou manter sua vida privada, rompendo em lágrimas enquanto lamenta seu fracasso como pai. O filme mostra que o próprio ator foi submetido a uma relação tensa com seu pai, um homem frio e insensível, e isso teria moldado sua forma de ser. Ao final, Brando conclui suas reflexões apontando que ele, seu pai, também teria uma vida difícil, fora abandonado pela mãe, e se tornou um produto dessa experiência.

Enfim, para quem tem interesse num dos grandes monstros do cinema, um dos maiores atores de todos os tempos, que foi Marlon Brando, é bem provável que encontre aqui um material curioso para se debruçar.