SOUTHERN COMFORT (1981)

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SOUTHERN COMFORT é sobre um grupo da Guarda Nacional americana que realiza uns treinamentos de localização e navegação pelos pântanos da Louisiana, tentando encontrar um local específico, exercitando a utilização de mapas, etc. A maioria deles está levando o trabalho bem à sério, muito preocupados com as putas que vão comer quando terminar o exercício. Quero dizer, até mesmo as armas que levam em punho estão carregadas com festim. Em quem vão atirar? Estão em solo americano, não existe inimigo nesse treinamento…

Os problemas começam quando se dão conta de que estão completamente perdidos. Onde deveria haver tal objetivo, só tem água e mais água… Decidem então pegar “emprestado” algumas canoas que encontram num acampamento aparentemente abandonado à beira do rio, com alguns animais esfolados no local e tal… Mas deixam um bilhete pra quem quer que fosse. Depois de alguns minutos navegando, o pelotão descobre que está sendo observado à distância por um grupo de cajuns*, os possíveis donos das canoas. Eles gritam para que leiam o bilhete, mas os caipiras não se mexem. Um dos soldados então, decide ser o engraçadinho da turma e começa a atirar na direção dos sujeitos com uma metralhadora cheia de festim. Rá! Muito engraçado mesmo.

* Os Cajuns são os decendentes dos Acadianos, expulsos do Canadá, que se instalaram na Louisiana. [/Wikipédia mode off]

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Só que os cajuns respondem ao fogo, e a munição deles é bem real, para azar dos pobres militares. A primeira bala já acerta a testa do lider do pelotão (Peter Coyote) e, bom, vocês já podem começar a imaginar o que teremos aqui.

Walter Hill é um dos canônes em orquestrar sequências de ação, colocou Charles Bronson pra brigar em gaiolas em seu primeiro filme, realizou uma das obras mais representativas dos anos 70 com THE WARRIORS, fez algumas das perseguições de carros mais impressionantes que eu já vi em THE DRIVER, imitou Sam Peckinpah num western, enfim é um dos grandes mestres do cinema de ação americano e… agora é o diretor de um dos melhores filmes de caipiras psicopatas que existe!

Na época, era clara a intenção de Hill em fazer referência à guerra do Vietnam, mas o filme se manteve atual e até há poucos anos era difícil ver SOUTHERN COMFORT sem pensar no Iraque e outros países do Oriente Médio. Mantém sua análise, só muda o local. Quero dizer, temos aqui um pelotão americano, alguns deles agindo como autênticos imbecis, numa região na qual não entendem porcaria nenhuma de seus habitantes, sua cultura, não falam nem sua língua. Chega sem permissão, se achando os fodões, mas descobre rapidinho que a coisa não é bem assim. O adversário conhece o território, monta armadilhas, sabe onde se esconder e como monitorá-los…

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É o simbolo perfeito para o fracasso inevitável nesse tipo de negócio que o governo americano insiste em fazer de vez em quando ao longo de sua história.  E não importa se estão apenas “pegando emprestado uma canoa”… Com toda essa substância, fica difícil não preferir SOUTHERN COMFORT em relação a outros filmes do gênero “caipiras assassinos“, como DELIVERANCE, de John Boorman, por exemplo, que é mais aclamado (e não tiro os méritos).

Mesmo suprimindo a análise política, sobra ainda um puta thriller de caçada humana (o final, na vila dos cajuns, é de ficar com o coração na boca, a contrução da tensão é absurda), o qual destaca-se desde o roteiro, escrito à seis mãos pelo próprio Walter Hill, Michael Kane e David Giler, a utilização dos cenários naturais dos pântanos da Louisiana, passando pela direção habitualmente magistral de Hill e, principalmente, o elenco com feras do calibre de Powers Boothe, Keith Carradine, Fred Ward, Peter Coyote e especialmente um Brion James tão assustador quanto os piores monstros e psicopatas dos slashers oitentistas.

O IMPERADOR DO NORTE (Emperor of the North, 1973)

Sou da mesma opinião do velho amigo Osvaldo Neto, meu filme favorito estrelado pelo Ernest Borgnine, que faleceu essa semana aos 95 anos, é O IMPERADOR DO NORTE, do mestre Robert Aldrich. Mas não tinha como ser diferente. Borgnine sempre cativou o público com seus personagens simpáticos e sorridentes, mesmo em exemplares mais duros, como MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, de Sam Peckinpah (que seria o diretor deste aqui, após Martin Ritt desistir, mas acabou não concordando com o orçamento).

“O que aquele gordinho de cara engraçada está fazendo no meio dessa corja?!” Era essa a tônica de Borgnine… Mas aqui não! Em O IMPERADOR DO NORTE essa áurea de bonzinho vai às favas, num dos personagens mais brutais e sádicos que alguém poderia imaginar sob a figura de Ernest Borgnine! Ele vive o condutor responsável de um trem de carga, durante o climax da depressão americana, que ganhou fama por não dar moleza aos viajantes clandestinos que resolvem pegar “carona” em sua preciosa locomotiva. Apesar disso, outra grande figura surge em cena para o confronto, Lee Marvin, cujo persoangem também possui um reputação a zelar: a de maior caronista clandestino de trem que existe!

Sem perder tempo com estudos sociológidos do período em questão (embora as classes estejam obviamente demarcadas nas duas figuras centrais), O IMPERADOR DO NORTE é um filme solto, mais em clima de aventura do que um recorte fiel e chato da depressão americana, e se desenvolve em cima do duelo físico e psicológico desses gigantes, o “vagabundo” liberto e o durão empregado da ferrovia. E Aldrich é de uma inteligência impressionante, conduzindo todas as situações de modo que o confronto seja inevitável, intensamente dramático… E quando finalmente ocorre, é como duas núvens carregadas que se chocam, causando estrondos ensurdecedores!

Belo filme, cinematograficamente potente, ótima recriação do clima da época, os traços da miséria, os programas de rádio, as roupas velhas e rasgadas, um sentimento que parece saído de um livro de John Steinbeck (apesar de inspirado em Jack London). E aqui vai o meu adeus ao velho Borgnine. O bom é que o sujeito deixou alguns duzentos filmes para estarmos sempre nos reencontrando…