AJUSTE FINAL (Miller’s Crossing, 1990)

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É interessante perceber as mudanças das próprias opiniões. Revi recentemente O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ, um dos filmes que me fez gostar dos Irmãos Coen e já não vi muita graça… Por outro lado, reencontrei-me com AJUSTE FINAL. O primeiro contato que tivemos, no meio dos anos noventa passou em branco, sem relevância alguma. Muito Stallone e Schwarzenegger na cabeça, eu acho. Passados quase vinte anos, continuo com Stallone’s e Schwarzenegger’s na cabeça, mas que surpresa agradável! Seja lá o que tenha acontecido foi como assistir a outro filme. E é, sem dúvida alguma, um dos melhores trabalhos dos irmãos Coen.

O ano de 1990 foi bom para os filmes de gangsters, não? Scorsese lançou OS BONS COMPANHEIROS e o Coppola fechou sua famosa trilogia com a obra-prima O PODEROSO CHEFÃO – PARTE III (que me perdoem os fãs, é o melhor filme da série). Neste contexto que surge AJUSTE FINAL, uma obra menor diante destes dois colossos cinematográficos daquele período, mas que não deixa de ter encanto e personalidade. Sua proposta é um pouco diferente também. Enquanto os filmes de Scorsese e Coppola são épicos que trabalham seus personagens e universos de forma densa, detalhista e dramática, o filme dos Coen’s se revela mais como uma elegante diversão e conta com o roteiro perspicaz, diálogos afiados e o humor característico da dupla, além de uma boa dose de violência estilizada.

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A trama me lembra um pouco YOJIMBO, de Akira Kurosawa. Gabriel Byrne é Tom Reagan, o braço direito de Leo (Albert Finney), o grande chefão do crime na cidade. Tom cuida muito bem dos negócios do chefe, com muita lealdade, mas por trás mantém um romance com a noiva (Marcia Gay Harden pagando de femme fatale) do seu patrão. Quando a sacanagem é finalmente descoberta, Tom acaba banido da organização e passa a trabalhar para a facção rival, embora nunca se saiba ao certo de que lado o sujeito está jogando… Mas é aqui que AJUSTE FINAL concentra uma série de confrontos entre os personagens e situações tensas que me deixou vidrado até o último segundo.

Outro detalhe que não vai deixar o espectador tirar os olhos da tela é o elenco. Além dos já citados, temos John Polito, que tem alguns dos melhores momentos do filme como o chefe da organização rival; o excelente J. E. Freeman; o grandalhão Mike Starr; e os habituais colaboradores dos Coen’s, Steve Buscemi e John Turturro. E há uma pontinha ótima do diretor Sam Raimi. É preciso destacar a performance de Albert Finney, pelo menos na sequência mais impressionante de AJUSTE FINAL, o ataque que seu personagem sofre em sua casa e a maneira como reage com uma tommy gun cospe-fogo atirando freneticamente pra cima dos adversários. Mais badass impossível. No entanto, é Gabriel Byrne quem carrega o filme com uma atuação refinada e cheia de sutilezas.

Digno de nota também é o trabalho de fotografia e direção de arte, que colabora muito para a criação do universo de AJUSTE FINAL, que não tem a ambição pretensiosa de seus “concorrentes” do período, mas acabou se revelando numa pequena jóia do gênero que eu havia esquecido lá no início dos anos noventa.