O DIA DO CHACAL (1973)

Há alguns anos eu devorei todos os livros que consegui encontrar do Frederick Forsyth, um dos maiores escritores de thrillers políticos, na minha opinião. Usando sua experiência como jornalista e correspondente diplomático, o sujeito é muito preciso e detalhista nas tramas que escreve ao mesmo tempo em que consegue criar uma atmosfera tensa que coloca o leitor imerso na história. Lembro que quase perdia os pontos de ônibus que eu precisava descer de tão mergulhado que eu estava quando li O Dossiê Odessa, por exemplo. Enfim, eu não sei analisar literatura, isso eu deixo para outros, então paro por aqui…

Vamos falar de filme. Depois de ler O Dia do Chacal, primeiro romance ficcional de Forsyth, lançado em 1971, fiquei tentado a rever O DIA DO CHACAL (The Day of the Jackal), do diretor Fred Zinnemann e estrelado por Edward Fox e Michel Lansdale. Não com intuito de fazer uma comparação entre livro e filme, mas vislumbrar como Zinnemann transformou esse belo thriller em imagens.

Filme revisto (só tinha assistido uma única vez em VHS há trocentos anos) e, embora não seja lá uma obra espetacular, O DIA DO CHACAL consegue ser, em sua essência, um interessante e mortal, jogo de gato e rato. A trama é basicamente a mesma do livro, com pouquíssimas interferências: No início dos anos 60, com a Argélia recebendo a independência do presidente Charles de Gaulle, a aliança clandestina militante conhecida como Organisation Armée Secrète falha em uma tentativa de assassiná-lo. Em poucos meses, muitos dos conspiradores foram capturados e executados.

Os demais líderes da OAS, sem recursos financeiros, refugiam-se na Áustria e decidem contratar um assassino profissional para fazer o trabalho. E o escolhido é o “famoso” matador conhecido apenas como Chacal (Fox). Famoso entre aspas mesmo, porque a trama é totalmente ficcional e não tem nada a ver com Ilich Ramírez Sánchez, mais conhecido como “Carlos, o Chacal”, esse sim, um famoso mercenário revolucionário. E que curiosamente a alcunha de Chacal foi-lhe dada pela imprensa depois que foi encontrada no seu quarto de Hotel uma cópia de O Dia do Chacal, de Forsyth.

Como disse, a rapaziada da OAS tava sem grana pra bancar um profissional tão caro. Então orquestrou vários assaltos a banco para cobrir a taxa de meio milhão de dólares para que Chacal cumprisse sua missão de matar De Gaulle. Depois de capturar e interrogar um membro da OAS, as autoridades francesas descobrem a existência do assassino e, suspeitando que outro atentado à vida de De Gaulle possa ser iminente, colocam o comissário Claude Lebel (Lonsdale) em seu encalço. E a trama de O DIA DO CHACAL torna-se uma verdadeira caçada humana, com o Chacal se movendo pela Europa, arquitetando seu plano, usando disfarces e falsas identidades, enquanto Lebel tenta seguir os seus passos.

É o tipo de filme que persuade seu público a ficar em cima do muro em relação a essas figuras. Por mais que queiramos ver o Chacal frustrado por Lebel, é impossível deixar de admirar o assassino enquanto seu plano meticuloso e aparentemente infalível se concretiza. Deve-se, em grande parte, às atuações de ambos atores principais. Edward Fox, em seu primeiro grande papel, tem muita presença em cena, com semblante de um cavalheiro inglês imperturbável, com um sorriso cativante, sedutor, mas frio o suficiente para matar qualquer um que se coloque em seu caminho. O contraponto é Lonsdale como o policial corpulento e astuto, que mantém sua aura serena intacta, mesmo com a pressão que vem dos superiores.

Fred Zinnemann é um diretor competente, mas nunca me despertou muito entusiasmo. Mesmo seus filmes mais conhecidos e premiados costumam ficar na média do padrão, sem grandes inspirações. A exceção talvez seja MATAR OU MORRER, dentre os que vi, e mesmo assim tá longe de ser dos meus faroestes favoritos. Mas aqui Zinnemann abraçou o projeto e fez escolhas acertadas em benefício do seu filme, como vetar a escolha de Sir Roger Moore (e outros nomes) como Chacal e escolher Fox, que não era tão famoso. Ou a decisão de não utilizar trilha sonora durante praticamente todo o filme, o que privilegia a fotografia de Jean Tournier com uma atmosfera que carrega um senso de realismo semi-documental nas jornadas de Chacal e Lebel. Além disso, Zinnemann manda bem em manter a tensão em boa parte da projeção: o simples ato de acompanhar Chacal em atividade, com seus procedimentos detalhistas, na sua determinação em cumprir sua missão de forma meticulosa, e o rastro de morte que deixa pelo caminho, torna-se um prazer ao espectador.

Não há grandes momentos espetaculares em O DIA DO CHACAL. Mas temos um final bem orquestrado, dentro das limitações de Zinnemann como diretor, no meio do desfile do Dia da Libertação, na Champs-Élysées. Há um tom anti climático, mas que é eficiente, com Lebel tentando inutilmente localizar o assassino enquanto o Chacal se posiciona para dar o tiro mortal com seu rifle customizado. A propósito, essas cenas foram filmadas durante um desfile real e várias pessoas na multidão podem ser notados olhando diretamente para a câmera enquanto Lonsdale se move entre elas.

O DIA DO CHACAL é realmente um bom filme, sobretudo à quem interessa por thrillers policiais classudos dos anos 70. Claro que, pensando nos diretores já veteranos do período, fico imaginando esse material nas mãos de um Richard Fleischer, John Huston, Robert Aldrich, até de um John Frankenheimer (que chegou a demonstrar interesse pelo projeto)… Provável que teríamos uma obra-prima. Infelizmente não temos, mas é um belo thriller. Já o livro do Forsyth é sensacional. Fica a recomendação.

Em 1997, saiu O CHACAL, adaptação atualizada do livro de Forsyth, que não quis ter seu nome associado à produção. Foi dirigido por Michael Caton-Jones, que também não é lá nenhum mestre, mas não faz feio. E tem um bom duelo entre Richard Gere e um Bruce Willis atípico na época, numa ousada atuação encarnando o Chacal. O elenco ainda tem boas performances de Sidney Poitier e Diane Venora. Não é um grande filme, muita gente caiu matando, mas tenho simpatia. Desses produtos estranhos dos anos 90 que me divertem. Qualquer hora dessas eu revejo e comento por aqui também.