CINE POEIRA – EPISÓDIO 07

No episódio desta semana do podcast CINE POEIRA , conversamos sobre PERIGO: DIABOLIK!, de Mario Bava.

O longa, adaptado dos quadrinhos de Angela e Luciana Giussani,  passou a ter um lugar de carinho entre os admiradores do cinema ‘pop‘ e ‘cult‘ europeu dos anos 60, assim como o elenco e seu diretor, que estava em um momento bem inspirado.

Homenageamos também o compositor Ennio Morricone (1928-2020), que entregou para o filme mais uma de suas várias trilhas sublimes e inesquecíveis.

O episódio pode ser ouvido aqui mesmo no blog:

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OS INTOCÁVEIS, aka The Untouchables (1987)

Assisti a uns filmes bem legais esta semana para comentar aqui no blog, mas não tive tempo ainda para escrever. E não, ainda não vi outro Castellari, mas fiquem tranquilos que em breve eu posto mais do italiano. Hoje revi este filmaço do Brian De Palma e decidi arriscar algumas palavras. De Palma é um dos meus diretores americanos preferidos ainda em atividade e é sempre interessante dissertar sobre seus filmes – se é que o sujeito ainda está realmente em atividade, só acredito nisso quando PASSION, seu próximo filme anunciado, estiver em fase de pós produção.

Enquanto isso, ficamos com as maravilhas que já realizou durante a carreira, como é o caso de OS INTOCÁVEIS, sobre o incorruptível agente do Tesouro, Eliot Ness, que trava uma batalha contra o execrável gangster Al Capone durante a Lei Seca americana e blá, blá, blá…

O enredo é bastante conhecido por todo mundo e já foi diversas vezes explorado em filmes e séries, mas não significa que tenha deixado de ser interessante. Além do belo roteiro, escrito por David Mamet, a grande proeza de OS INTOCÁVEIS está na eloquente e estilosa direção de De Palma, além da colaboração de alguns monstros da atuação, como Robert De Niro e Sean Connery e os jovens Kevin Costner, Andy Garcia e até Billy Drago. Trilha sonora marcante de Ennio Morricone, impecável direção de arte e fotografia, não poderia sair nada menos que um autêntico clássico daqui!

O Capone de Robert De Niro é algo simplesmente extraordinário. Bons tempos quando o ator podia fazer apenas umas cinco ou seis aparições num filme e ainda assim surpreender a cada cena. O sujeito leu todas as biografias de Capone, viu todos os filmes sobre o cara e conferiu ainda documentários da época para compor o personagem.

O resultado está na tela em cada gesto, cada olhar, cada sorriso, já vi esse filme umas quinze vezes e toda vez fico espantado com o desempenho do De Niro. Ao mesmo tempo que inspira simpatia, fazendo seus “capachos” rirem com suas piadas, o sujeito é totalmente brutal, como na impactante cena da explosão de ódio com um taco de baseboll na mão. Deve ser o Capone definitvo do cinema, não?

O fato é que Capone é um total contraponto do bem absoluto personificado no Eliot Ness de Kevin Costner, que não é ator que guardo muita admiração, mas até que se sai bem como o herói bonzinho. Já o velho Sean Connery é outro nível e mereceu o seu Oscar de coadjuvante pelo seu trabalho impecável em OS INTOCÁVEIS.

O sujeito faz o papel de Jim Malone, um correto guarda de rua prestes a se aposentar e por isso, a princípio, não aceita fazer parte do grupo. Mas depois se encarrega de fazer o “trabalho sujo” e ações mais violentas contra Capone. “Ele puxa uma faca, você saca o revólver. Ele manda um dos seus para o hospital, você manda um deles para o necrotério. Essa é a Lei de Chicago”. Uma aula de interpretação.

Malone ajuda Ness a escolher a dedo um cadete, que ainda não foi comprado por Capone, e entra em cena um jovem Andy Garcia. O quarto Intocável é o desajeitado, mas decidido, fiscal de rendas, vivido por Charles Martin Smith, que não hesita quando Malone lhe oferece uma escopeta para entrar em ação.

 

E o que não poderia faltar em OS INTOCÁVEIS são boas sequências de tiroteios em que o quarteto se envolve, estraçalhando os inimigos com chumbo grosso, como na parte que se passa na fronteira com o Canadá, quando interceptam um carregamento de bebidas. A dose de violência também não vai deixar na mão os amantes de uma sangreira, como o assassinato no elevador. Noutra cena, logo no início, De Palma explode uma garotinha segurando uma bomba numa maleta… se fosse filmado hoje, nesta “maravilha” de mundo politicamente correto que vivemos, o filme teria vários problemas… Temos até Brian De Palma brincando de Dario Argento, com o ponto de vista subjetivo na cena do meliante que tenta entrar na casa de Malone. Um puta trabalho de câmera!

Mas o ponto máximo de OS INTOCÁVEIS foi a cena da escadaria da Union Station, um misto de suspense e ação de cortar a respiração. Ness tenta capturar uma testemunha chave para o julgamento de Capone. O cerco armado. Uma mulher que acaba de chegar de viagem aparece com um carrinho de bebê e, com muita dificuldade, resolve subir a escadaria enquanto o local vai se enchendo de figuras ameaçadoras. Basta esses simples elementos em jogo para que De Palma bote para arregaçar num tiroteio desenfreado, cuidadosamente esculpido e editado, para servir tanto de atrativo para o público, demonstrando as façanhas dos Intocávais, quanto homenagem à uma das cenas mais famosas do cinema mudo, o massacre na escadaria do filme russo O ENCOURAÇADO DE POTENKIM, de Sergei Eisenstein.

Numa época em que eu não fazia idéia de quem era Brian De Palma, lá pelos meus dez anos, no início dos anos 90, tive contato com OS INTOCÁVEIS enquanto passava numa madrugada no Corujão da Globo e como não era sempre que eu podia dormir tão tarde, gravei em VHS. Aquela fita ficou até gasta de tantas vezes que passava no velho vídeo cassete quatro cabeças do meu velho. O filme não é nem o meu favorito do De Palma, mas acabo tendo uma ligação bem maior por conta da nostalgia, por ser um dos vários exemplares responsáveis por me fazer amar tanto o cinema.

GLI OCCHI FREDDI DELLA PAURA (1971)

 

Já que me cobraram para continuar com textos do ciclo Castellari, vamos voltar às atividades com o homem! Apenas justificando a parada, já disse algumas vezes que sou tremendamente desorganizado com essas peregrinações de diretores. Então, podem me cobrar, caso eu abandone o italiano de novo. Outro motivo deve ter sido porque eu não achei GLI OCCHI FREDDI DELLA PAURA grandes coisas, o que me desanimou um bocado pra escrever algo e acabei esquecendo.

Sempre li que era um giallo, mas no fim das contas é um filme de “invasão de casa com reféns”, estilo HORAS DE DESESPERO, clássico com o Bogart, ou então a refilmagem do Cimino, com o Mickey Rourke. Claro que pensar que era uma coisa e na verdade ser outra não foi o motivo de não ter me agradado tanto. O filme começa brincando com os elementos do giallo, com uma mulher indefesa sendo molestada por um sujeito apontando-lhe uma faca… mas fica só na brincadeira mesmo. Trata-se de uma apresentação teatral. A cena é interessante, Castellari demonstra jeito pra esse tipo de atmosfera, a trilha do Morricone também contribui. É uma bela homenagem ao gênero, de qualquer modo…

Mas o restante do filme é a trama de um advogado e uma prostituta submetidos como reféns por um casal homossexual de bandidos. O problema é que Castellari não consegue extrair muita coisa interessante dessa situação. Pra ser honesto, eu achei o filme chato pra cacete em determinados momentos, diferente de um THE HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK, do Ruggero Deodato, que consegue manter a tensão do início ao fim tendo a mesma situação que este aqui. Mas vá lá, o elenco até que manda bem (Frank Wolff, Gianni Garko, Fernando Rey, etc) e nem tudo no filme é de se jogar fora. Mas no geral, fiquei um pouco decepcionado.