O BURACO DA AGULHA (1981)

Sugestão bem-vinda de um leitor – valeu, mister Antonio Manuel – uma vez que eu nunca tinha visto O BURACO DA AGULHA (EYE OF THE NEEDLE), apesar da curiosidade que tinha de saber como haviam adaptado o clássico best-seller de Ken Follett, que é daqueles thrillers literários de Segunda Guerra dificil de desgrudar os olhos durante a leitura. O filme até que não decepciona nesse sentido também, tem boa dose de tensão e ainda mistura uma faceta romântica que, se não é totalmente acertada, tá bem longe de ser um desastre. Foi dirigido pelo grande Richard Marquand, que é mais lembrado por ter sido a escolha de George Lucas para comandar O RETORNO DE JEDI justamente pelo seu trabalho por aqui (e por não fazer parte do Hollywood director’s union que andava dando dor de cabeça para Lucas).

Donald Sutherland vive aqui um frio e calculista espião nazista chamado Henry Farber e conhecido pelo codinome “Agulha” – por conta da sua arma favorita, uma faca com esse formato que utiliza sem piedade em qualquer um que interfira nos seus planos. Durante uma de suas missões no Reino Unido, descobre que os aliados construíram um imensa base militar fake para passar a ideia de uma futura invasão de tropas na França pelo Pas-de-Calais – sendo que o plano verdadeiro é o desembarque na Normandia. Farber, fornecido com evidências suficientes para desmascarar a farsa, deve ir de encontro a um submarino que o levará de volta à Alemanha para entregar as evidências em mãos à Hitler. Mas ao tentar chegar ao ponto de encontro, seu pequeno barco naufraga durante uma tempestade e o sujeito acaba em uma ilha quase deserta onde um casal o acolhe.

A primeira parte de O BURACO DA AGULHA é quase uma perseguição ininterrupta, um jogo de gato e rato entre Farber e a Scotland Yard. Serve também para demonstrar a habilidade e a natureza do assassino implacável que é o espião. Vemos o sujeito manipular a todos, aumentar o número de corpos por onde passa e manter-se sempre um passo à frente da polícia, que o rastreia pela Inglaterra após a descoberta das reais coordenadas do desembarque. Sutherland está genial e encontra aqui um de seus melhores personagens, a de um aterrorizante espião nazista cuja toda caracterização construída na primeira parte contribui para torná-la mais dramática na segunda metade do filme.

Sua tentativa de fuga o leva à Ilha de Stirm, onde ele conhece Lucy (Kate Nelligan), uma mulher solitária, casada com um oficial deficiente (por conta de um acidente de carro ocorrido logo depois de se casarem), encarnado por Christopher Cazenove. A coisa esquenta a partir daqui, conforme Farber, o nazista até então insensível e uma autêntica máquina de matar, começa a demonstrar lapsos e falhas ao se apaixonar e se entregar – sem revelar a essência de suas atividades. E Lucy não dificulta em nada a aproximação do visitante.

Kate Nelligan se opõe a imponência de Sutherland com uma presença frágil, mas determinada, o que tornará o embate final dos dois menos desequilibrado do que parece. Nesse ponto, no entanto, o filme fica meio perdido entre construir uma história romântica que acaba não se sustentando muito, mas que pra nossa sorte é regularmente interrompida pelas ações de Faber na sua tentativa de ainda alcançar o submarino, o que inclui mais assassinatos, como a que acontece no topo de um penhasco. Mesmo desequilibrado, o filme nunca se desfaz de sua tensão latente.

Mas O BURACO DA AGULHA retorna nos eixos quando a identidade do espião é revelada e o suspense beira ao Hitchcockiano, com as duas personagens tentando esconder suas descobertas e falsas pretensõe um do outro. E em seguida, desenrola uma caçada humana pela ilha onde os papéis acabam se invertendo. A frágil Lucy endurece sob o peso da ameaça de Farber, que agora apaixonado é incapaz de usar as habilidades assassinas exibidas desde o início do filme. O final é uma sequência tão tensa e violenta (com o direito a Lucy cortando os dedos de Farber com um machado) quanto carregada de emoção.

E é preciso muita sutileza dos atores para conseguir convencer de toda essa carga dramática na situação entre eles. E tanto Sutherland quanto Nelligan dão conta. No elenco, ainda temos um monte de rostos conhecidos do cinema britânico, como David Hayman, Ian Bannen, Rupert Frazer, Stephen MacKenna e outros.

A fotografia de Alan Hume é excelente, tende para as sombras, tons escuros, para imagens sombrias o que deve ter sido uma desgraça nas versões em VHS da época, com as nuances da iluminação se perdendo, preto e cinza se misturando. Hoje já temos transferência de Blu-ray, foi lançado lá fora pela Twilight Time, que é a versão que assisti e a imagem é impecável, com atenção aos detalhes em termos de contraste e paleta, o que contribui demais para a atmosfera, pro thriller bastante sólido que é esse O BURACO DA AGULHA, perfeito para uma noite escura e tempestuosa. Marquand – que tem bom olho para o suspense, para os personagens, dirige tudo de forma segura – e seu roteirista, Stanley Mann, fizeram um trabalho fantástico em capturar a essência do best-seller, enquanto os atores dão vida aos personagens criados por Follett. Recomendo tanto o filme quanto uma leitura no livro.

UM INVERNO DE SANGUE EM VENEZA (1973)

Provavelmente a cena mais interessante de UM INVERNO DE SANGUE EM VENEZA, de Nicolas Roeg, não é de suspense, tensão, horror, ou algo do tipo. É a sequência onde o casal vivido por Donald Sutherland e Julie Christie fazem amor. O primoroso trabalho de edição intercala planos que mostram o durante e o depois do coito, causando um efeito curioso somado à veracidade sexual que os atores depositam na cena. Na época do lançamento, acreditava-se que os dois efetivamente haviam dado um picote. A cena é um encaixe estranho à narrativa. É o único momento de calmaria pelo qual os protagonistas atravessam durante o filme, que é um dos exemplares de horror psicológico que mais me impressionou nos últimos tempos.

Desde o início, quando o restaurador John Baxter (Sutherland) está trabalhando, observando alguns slides de fotos de uma igreja italiana junto com sua esposa Laura (Christie) enquanto seus filhos brincam nos arredores da casa, nas paisagens campestres da Inglaterra, o que aparenta conforto na verdade é uma aula de construção atmosférica de suspense. Tudo é mostrado e montado de uma forma muito intensa e cada detalhe prepara o espectador para o que está por vir. A filha do casal, usando um casaco vermelho, brinca jogando uma bolinha em volta de um lago, seu pai sente que algo ruim está acontecendo e sai em direção ao local encontrando a menina afogada numa sucessão de imagens expressionistas que culmina com o grito angustiado de horror de Donald Sutherland com a filha morta nos braços.

O filme é subitamente transportado para Veneza, algum tempo depois. John Baxter está restaurando as imagens sacras de uma igreja e sua mulher o acompanha pela cidade entrecortada pelos canais, com suas ruas estreitas, prédios antigos e a atmosfera natural acinzentada pelo clima de inverno. Perfeito cenário onde se passa o restante do filme, no qual o diretor britânico Nicolas Roeg estabelece com um ritmo lento o desenvolvimento de uma misteriosa história. O suspense é trabalhado cuidadosamente nos ambientes e em elementos estéticos, como a cor vermelha do casaco da filha, que passa a servir de metáfora para acentuar o tom sobrenatural que entra em cena com duas irmãs (uma delas cegas) já senhoras de idade.

A cega é uma médium que diz ter visto o espírito da menina entre o casal num restaurante. Laura começa a se sentir bem com isso e passa a acreditar nas duas senhoras. É o momento nos leva a cena de sexo entre o casal. Mas John é cético e não acredita, “Nossa filha está morta! Morta!”. A atuação de Donald Sutherland dá bastante vigor ao filme, com seus olhos expressivos, enquanto é engolido pelos mistérios de Veneza. Vários acontecimentos estranhos iniciam a partir de então para contribuir com o clima de suspense, como a cena do acidente na igreja, a visão de John do barco fúnebre (que ultrapassa os limites do tempo numa inovadora sacada cronológica) e as aparições de uma figura pequenina usando um capuz vermelho vagando pelas ruas noturnas da cidade.

Existem vários outros momentos de UM INVERNO DE SANGUE EM VENEZA que vão desde o aterrorizante e perturbador até o sublime, que acompanham o espectador até o desfecho. Um filme realmente fascinante pela construção inspirada de um clima de horror que trabalha o psicológico do público e pelo estilo visual que influenciou vários diretores. E lógico, como não poderia ser diferente, apesar da forma misteriosa como foi filmada, a cidade de Veneza acaba se tornando um desses lugares obrigatórios para se visitar algum dia…