ESPECIAL DON SIEGEL #22: OS ABUTRES TÊM FOME (Two Mules for Sister Sara, 1970)

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por GABRIEL LISBOA

Se quando falei sobre MADIGAN foquei no início do filme, acho melhor começar pelo fim com essa análise e por isso esse texto tem vários spoilers. Começo com a sequência final de OS ABUTRES TÊM FOME e mais pra frente conto direito a estória. Enfim. Estamos no meio de uma invasão de um grande grupo de revolucionários mexicanos a uma base fortificada de interventores franceses no México (acho que nunca havia visto um filme com esse contexto histórico). Clint está do lado dos mexicanos, mandando para o saco todos os invasores da terra da “omelette du fromage”. Em determinado momento ele segura numa corda presa a um cavalo com uma mão e na outra acende uma dinamite. Ele toca o cavalo que avança arrastando Clint pelo chão, desviando das balas. O homem se solta, joga a dinamite num portão e depois de ter aberto a passagem corre enquanto balas ricocheteiam do seu lado. Coisa linda. Eu até tinha achado que tudo tinha acontecido no mesmo plano quando comecei a escrever mas depois voltei para rever a cena e notar os dois cortes rápidos.

Acho que aí podemos pensar um pouco sobre o que faz uma boa cena ou filme de ação já que em outros posts o Ronald ressaltou esse ponto da filmografia de Don Siegel, que eu não conhecia muito bem. Alguns pontos como trabalhar com uma profundidade de campo, planos abertos, respeitar os momentos dos cortes para que não interfiram com nosso interesse pela realidade do evento (coisas que André Bazin já falava em 1950 sobre NANOOK) são essenciais. Até gostaria de ficar falando mais sobre isso, mas já vi que ia enrolar demais. Quem sabe numa próxima. Mas o que fica de interessante sobre esse filme do Siegel é confirmar que toda cena de ação precisa ser construída e pensada para evoluir criativamente. Na maioria das vezes até dentro de um certo padrão. E é o tipo de coisa que raramente cansa os amantes do cinema de ação. A entrada furtiva, as explosões para confundir os inimigos, os tiroteios e no fim a trocação de sopapos e pontapés. Vários exemplares desse estilo seguem essa sequência e muitas vezes até nos decepcionamos se alguma coisa atrapalha o andar dessa carruagem. Siegel deixa ação fluir. Até há uma cena com uma metralhadora giratória que Clint usa para matar alguns soldados. E por pouco tempo, o que não deixa que esse artifício, por exemplo, canse pela repetição.

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Uma pausa para fazer propaganda de THE STRANGER AND THE GUNFIGHTER, com o Lee Van Cleef e Lo Lieh, um baita filme. Na sequência de ação final Cleef prende uma dessas gatling gun em dois cavalos e sai se arrastando enquanto gasta munição. A temática desse filme também lembra a de ABUTRES. Um sujeito estranho ao terreno hostil dos desertos do velho oeste é auxiliado por um cara durão e ambicioso para alcançar seu objetivo. Em THE STRANGER o peixe fora d’agua é um mestre do kung-fu que precisa ler pistas tatuadas em bundas de prostitutas em busca do tesouro do tio. Em ABUTRES o enredo não é tão interessante mas a dinâmica de Clint Eastwood com Shirley MacLaine, que interpreta uma freira simpática a causa dos Juaristas, é muito boa. O roteiro ajuda muito porque sempre coloca-os em várias situações de tensão. O primeiro encontro dos dois acontece quando a Sister Sara do título, personagem de MacLaine, está prestes a ser abusada por três canalhas. Hoogan, o personagem de Clint, resgata a moça seminua e depois descobre que ela é uma freira por suas roupas. Ela está sendo procurada por uma tropa de franceses por ajudar os revolucionários. Os dois fogem e depois, a noite, acabam percebendo que tem o mesmo interesse: acabar com o forte que comentei no início, ele pelos tesouros ali guardados e ela por raiva dos “colonizadores”.

Coincidências a parte, é na virada da personagem de Sara que a coisa fica um pouco confusa. Vou estragar a grande surpresa do filme. Sara na verdade não é uma freira mas uma prostituta. Ela matou um oficial e por isso odeia o regimento. Não há uma noção humanitária que a motiva em punir os opressores. Pelo que entendi era isso. Outro ponto é que no começo do filme ela mente dizendo que ia três vezes por semana “ensinar línguas” para os franceses como freira e por isso ela sabe tanto sobre a base. Então economicamente seria vantajoso para o prostíbulo a instalação vizinha com aquele bando de soldados. Ou não? Se ela só estava sendo procurada, poderia fugir e ponto. O desejo de destruir a base francesa faz até mais sentido para uma freira já que elas geralmente se envolvem em conflitos, assim como padres e afins. Quando vi A MISSÃO fiquei pensando nisso. Nossa noção de religiosidade é tão bombardeada com escândalos de lideres religiosos e doutrinas absurdas que hoje é difícil fazer um filme com uma personagem com uma perspectiva solidária sem parecer piegas ou inverossímil. Achei engraçado o lance dela, por fim, ser uma prostituta. E tem o fato de que ela e Clint “precisarem” ficar juntos no final. Mas ia achar interessante se o filme fosse um percursor do gênero freiras badass e do nunsploitation. Sara é uma personagem feminina forte pra caramba.

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Já o personagem do Clint é uma cópia do Estranho-Sem-Nome dos filmes do Leone. Não sei se posso chamar de cópia já que se trata do mesmo ator, mas gostaria de ver um pouco de variação num papel como esse interpretado por ele, um tempero que deixaria o personagem mais interessante. Sempre com a cara feita de pedra. Quem sabe um dia assisto PAINT YOUR WAGON para ver como ele e o Lee Marvin se saem num musical. Duas outras semelhanças com os westerns de Leone são as filmagens fora do lugar-comum do oeste americano e a trilha de Ennio Morricone. O filme foi gravado no México e vários membros da equipe são mexicanos. Quando li um pouco sobre esse tipo de realização bilíngue, no caso dos westerns italianos, fiquei interessado em entender um pouco mais como eram realizadas as filmagens. É algo que seria muito interessante de ver se naquela época os produtores se preocupassem com extras do DVD. Quanto a trilha de Morricone, assim como em qualquer filme em que compõe sua música, fica difícil não se empolgar com as variações e sons incomuns presentes nos temas e o uso dos leitmotivs. Tenho mais vontade de assistir EXORCISTA 2 por “Magic and Ecstasy” do que pelo próprio filme. Era alguém que merecia um documentário por décadas de trabalho.

Não me lembro de ter lido sobre esse filme em lugar algum, mas me surpreendi e gostei bastante. Talvez o filme não tenha um reconhecimento maior porque usa de várias fórmulas batidas de westerns e screwball comedies. Mas é tão bem encaixado, com bom ritmo e diálogos que a diversão é garantida. É o caso de 007. Eu acho que deveriam parar de fazer filmes de James Bond. Vinte e quatro filmes é muita coisa! Confundo as cenas e as tramas de vários deles (dá-lhe cena de esqui e mergulho). Mas bastou ver o trailer de SPECTRE para me empolgar. Amor e ódio a Hollywood. Agora, só não me venham refilmar AVENTUREIROS DO BAIRRO PROIBIDO, seus sanguessugas!

Gabriel Lisboa, além de eventualmente colaborar por aqui, edita o excelente blog Cine Bigode.

ESPECIAL DON SIEGEL #21: MORTE DE UM PISTOLEITO (Death of a Gunfighter, 1969)

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Assisti finalmente, para dar continuidade ao eterno Especial Don Siegel, o faroeste humanista MORTE DE UM PISTOLEIRO, que acabou renegado pelo diretor por alguns motivos que explico mais adiante, até porque trata-se de um belíssimo exemplar de western, com personagens interessantes e um contexto histórico reflexivo. Portanto não é pelo resultado que Siegel  não quis seu nome nos créditos.

A premissa, pra começar, é excelente. À beira do século XX, a pequena cidade de Cottownwood Springs, no Texas, está determinada a modernizar-se, deixar para trás o ultrapassado e arcaico sistema do velho oeste. O problema é o xerife do local, Frank Patch, vivido pelo grande Richard Widmark, um homem da lei brutão, à moda antiga, que coleciona no currículo uma variedade de mortos em tiroteios questionáveis. Quando mata em legítima defesa o bêbado Luke numa noite qualquer, os líderes da cidade decidem, após uma calorosa reunião, tomar uma drástica decisão: é hora de mudar seu representante da lei.

Até aí tudo bem. Eles pedem educadamente a Frank que renuncie seu cargo, mas o sujeito casca-grossa se recusa, lembrando que quando foi contratado foi-lhe prometido que ficaria no trabalho de xerife o tempo que quisesse, e dane-se o resto. A coisa poderia ir para um tribunal, o problema é que Frank, além de tudo, conhece profundamente cada um dos segredos sujos e repugnantes da cidade e de seus líderes, o que não seria nada agradável vir à tona… Decidem então agir como o próprio Frank, à moda antiga, usando a violência como última alternativa para tirar o indesejável xerife do caminho.

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Já vimos alguns faroestes com a temática do moderno x arcaico, as transformações que interfeririam na vida de pistoleiros e cowboys do velho oeste com a virada do século, como MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, de Sam Peckinpah, ou  OS ÚLTIMOS MACHÕES, de Andrew V. McLaglen, e vários outros. E é legal notar como MORTE DE UM PISTOLEIRO entra no meio desse conjunto de obras reforçando de maneira singular o tema, trabalhando o anacronismo de um xerife que ainda acredita na honra e em fazer seu trabalho da maneira que tem que fazer, ou morrer tentando. Numa das melhores performances de Richard Widmark que eu já vi, o grande destaque do filme.

Civilização é uma coisa incrível“, diz o personagem de John Saxon – que faz aqui uma ótima participação – depois dos tais “homens de bem”, os líderes da cidade que querem progredir a qualquer custo, decidem matar o xerife covardemente. Ao mesmo tempo, é interessante como o filme cria uma identificação do público com o xerife Frank, torcemos por ele até os últimos minutos, mas começamos nós mesmo a perceber que a única maneira dele alcançar sua redenção é realmente parando a sete palmos debaixo da terra, numa sequência final das mais emocionantes e corajosas que Siegel já filmou. Mais um para entrar na galeria dos seus finais fortes, sem concessões e niilistas.

E que viva o cinema transgressor de Don Siegel como  MORTE DE UM PISTOLEIRO e abaixo o cinema bunda-mole atual! 

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Por falar no Siegel, o filme entra no seu Especial aqui no blog, porque evidentemente percebe-se a mão do diretor em vários momentos, como o já citado desfecho, mas também nas cenas de tiroteio, com seu estilo cru e seco, filmando apenas o essencial com a segurança e habilidade que lhe é atribuída.

Mas a verdade é que a maior parte de MORTE DE UM PISTOLEIRO foi dirigido por Robert Totten, que pelas constantes “diferenças artísticas” com  Widmark acabou afastado após vinte e cinco dias de filmagens. Siegel chegou depois e finalizou o filme em apenas nove dias. Como não era totalmente o diretor, não quis levar o crédito, ao mesmo tempo, Widmark não queria o nome de Totten na direção, consequentemente utilizaram o nome Allen Smithee para compor o letreiro de créditos.

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MORTE DE UM PISTOLEIRO, além de um baita faroeste, entra na lista de filmes curiosos por ter aberto o precedente, para o cinema, da utilização do nome “Alan Smithee” (ou Alain Smithee, ou Allan Smithee, ou Allen, enfim, variações…) toda vez que um diretor renega seu filme. A filmografia de Smithee é até bem extensa se forem conferir no imdb e vários diretores de peso já o utilizaram, como Richard C. Sarafian, Dennis Hopper, John Frankenheimer, Stuart Rosenberg e Kevin Yagher…

MAIS FORTE QUE A VINGANÇA (Jeremiah Johnson, 1972)

E continua a onda de westerns de aventura setentistas por aqui. No último post, esqueci de citar o belo MAIS FORTE QUE A VINGANÇA. Então republico aqui o que escrevi há uns três anos no blog antigo.

O que dizem os escritos sobre o verdeiro Jeremiah Johnson, um sujeito que decidiu abdicar-se do mundo civilizado para descobrir os mistérios da vida na natureza, caçando animais e enfrentando índios, frio e solidão, é que acabou se tornando um bárbaro assassino comedor de fígados de peles-vermelhas… Lenda ou não, daria um bom exploitation que explorasse essa característica. Ou, nas mãos de um poeta da violência como Peckinpah, poderia render uma obra, digamos, diferenciada. E, de fato, o diretor de STRAW DOGS realmente foi cotado para dirigir MAIS FORTE QUE A VINGANÇA, cujo roteiro é do grande John Milius e teria Clint Eastwood no papel de Johnson.

Provavelmente por conta do álcool e outros entorpecentes, Bloody Sam acabou de lado – como vários outros projetos que o mestre não conseguiu se firmar – e Sydney Pollack ocupou a cadeira de diretor. Robert Redford, no fim das contas, foi quem encarnou o personagem do título original. O roteiro de Milius se manteve, mas aposto que o filme acabou suavizado… Não que isso seja um problema. MAIS FORTE QUE A VINGANÇA segue outra linha. É uma aventura contemplativa e reflexiva, um belíssimo western histórico que conta com um personagem magnífico, cuja vida retratada aqui, independente do grau de violência mostrada na tela, é simplesmente fascinante.

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Nunca sabemos os motivos que levaram Johnson a abandonar tudo. Sabemos apenas que foi soldado e há indícios de desilusões com o ser humano, mas seu passado é misterioso. Acompanhamos o protagonista a partir do momento que decide encarar a hostilidade da natureza. Mas seus primeiros passos como homem das montanhas não é fácil e é interessante vê-lo passando maus bocados em situações que dialogam com os clássicos embates “homem vs natureza”, na qual diretores como Werner Herzog transformariam em temas fundamentais. Continuar lendo

FÚRIA SELVAGEM (Man in the Wilderness, 1971)

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Ainda na toada de O REGRESSO resolvi rever MAN IN THE WILDERNESS, de Richard C. Sarafian pra ver o que dava. Que filme sensacional! É muito melhor do que eu lembrava e bem diferente do filme do Iñarritu… Mas numa estúpida comparação das versões, este aqui ganharia de lavada. O filme me fez pensar um bocado na carreira de Sarafian, diretor de talento gigante mas extremamente subestimado e pouco lembrado. E quando o fazem é por VANISHING POINT, lançado no mesmo ano deste aqui. É um baita filmaço que ganhou seu status de filme cult com merecimento, mas não consigo ver lógica para que MAN IN THE WILDERNESS não tenha virado um clássico entre os westerns de aventura setentistas, ao lado de O PEQUENO GRANDE HOMEM, O HOMEM CHAMADO CAVALO, O GRANDE BUFALO BRANCO, e outros…

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E Sarafian estava em estado de graça quando filmou a história de Zach Bass, vivido por Richard Harris, num de seus melhores desempenhos, um desbravador do velho oeste que, após ser atacado por um urso selvagem, é deixado para morrer no meio do nada. Recupera-se dos ferimentos e parte para se vingar dos antigos companheiros, entre eles o diretor John Huston. Como disse no texto de O REGRESSO, o plot do filme de Iñarritu é exatamente a mesma coisa, mas os desdobramentos a partir desses eventos é que distanciam uma obra da outra. A começar pelo lado alegórico que contempla a obra de Sarafian, e que é justamente a parte piegas do filme de Iñarritu. Na verdade, não tinha intenção de ficar fazendo comparações, mas é difícil num momento em que O REGRESSO está tão em voga e tão fresco na cabeça… Vocês sabem, gosto dessa nova versão como um grande filme de aventura, mas está longe de ser a jornada mística e espiritual que Iñarritu gostaria que fosse em comparação com o que Sarafian realiza em MAN IN THE WILDERNESS. O processo de ressurreição e transformação, tanto na recuperação física, quanto psicológica, de Harris é arrebatador na sua perfeita comunhão com a natureza, na sua busca pela sobrevivência, encarando fome, frio, animais e o caralho e transcendendo seu desejo de vingança à outro nível espiritual… Continuar lendo

THE HOST (1960)

Já tinha escrito sobre esse curta no blog antigo, mas como me deu saudade do Jack Hill, resolvi republicar. Hill já havia  dirigido algumas cenas de THE WASP WOMAN (59), que já comentei por aqui, para o seu mentor, Roger Corman, quando este precisou prolongar a duração do filme. O futuro diretor de SPIDER BABY nem chegou a ser creditado. A produção que marca a estreia oficial de Hill na direção é THE HOST, este curta metragem em preto e branco realizado quando ainda era estudante da UCLA e bem antes de se tornar um dos grandes mestres do cinema grindhouse americano.

Um fugitivo da lei encontra no México uma cidade antiga aparentemente abandonada. Entra para beber água e quase leva um tiro. Descobre que existe uma pequena população vivendo por lá e um espanhol que achou um tesouro no local e precisa roubar um cavalo para fugir. Persuadido por uma bela habitante, o fugitivo acaba matando o espanhol e se torna um deus. Quando descobre, também, onde o tesouro se encontra, decide ir embora levando tudo consigo. Mas é tarde. Já levaram seu cavalo. I Don’t want to be a god!!! – grita desesperado o sujeito nas últimas palavras ecoadas no filme. Continuar lendo

O REGRESSO (The Revenant, 2015)

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2016, o ano em que gostei de um filme de Alejandro Gonzales Iñarritu. E gostei mesmo. Não que eu ache o sujeito dos piores diretores da atualidade, até tenho boas lembranças de 21 GRAMAS, por exemplo… Mas acho que AMORES BRUTOS não se segura numa revisão e BABEL e BIUTIFUL não fedem nem cheiram, na minha opinião. Meu problema era mais com BIRDMAN, uma punhetagem visual e egocêntrica pra lá de chata, que quase me causou úlcera no estômago… Não fosse a bela atuação do Michael Keaton, eu teria me jogado pela janela do meu apartamento… Ainda bem que moro no primeiro andar… Enfim, um ano depois, ou seja, agora, Iñarritu me aparece com O REGRESSO, um filme de aventura que, pelo trailer, já me enchia os olhos. A impressão que dava é que todo o estilo, ou seja, a masturbação visual, de BIRDMAN poderia trazer algo interessante à uma narrativa mais estimulante, como um filme de aventura, por exemplo. E de certa forma isso acabou acontecendo. 

O REGRESSO foi inspirado na mesma obra que deu origem a MAN IN THE WILDERNESS (1971), de Richard C. Sarafian, com Richard Harris interpretando um membro de um grupo de desbravadores do velho oeste que é deixado para morrer depois de ser atacado por um urso selvagem. Recupera-se dos ferimentos e parte para se vingar dos antigos companheiros. O plot do filme de Iñarritu, é exatamente a mesma coisa. Troca-se alguns detalhes, Harris por DiCaprio e a tecnologia atual que permite Iñarritu trabalhar um visual dentro daquilo que é sua verdadeira intenção com o filme. O fato é que O REGRESSO, assim como BIRDMAN, não deixa de ser mais uma demonstração de exibicionismo do diretor, que chega e diz “Olha, mamãe, o que sei fazer!” e começa a punhetagem e fazer acrobacias com a câmera para ser chamado de gênio e logo depois colocar a mão em mais um Oscar. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #16: FLAMING STAR (1960)

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Elvis Presley pode ter sido o Rei do Rock, mas no cinema seu trabalho se resume a um punhado de bobagens ingênuas em veículos para o sujeito entoar suas canções e beijar garotas. Nada contra, mas também nada muito estimulante. Mas aí vem um diretor badass da estirpe de um Don Siegel, se metendo a dirigir um western que não se priva de tratar de temas delicados, não se esquiva de cenas de extrema violência (em comparação com as produções do período), e lhe é exigido que Elvis, o ator/cantor mimado e mais preocupado com sua imagem do que na qualidade de seus filmes, seja o protagonista.

Para a nossa sorte, prevaleceu o lado mais interessante dessa história. E o resultado do encontro Siegel x Elvis não poderia ser diferente: FLAMING STAR é considerado a obra-prima e o “filme sério” de Elvis Presley, mas mais do que isso, o filme é uma das mais perfeitas demonstrações de como Siegel era um diretor talentoso em vários aspectos. E já que estamos de volta com o especial do homem, nada melhor ressaltar sua grandeza defronte de uma produção como essa, que poderia ter sido mais um exemplar banal de Elvis usando um chapéu e tocando violão, mas que acaba por ser uma joia, um dos grandes westerns do período e maior do que tudo que Siegel havia feito até então.

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Sim, e me me refiro em comparação com VAMPIROS DE ALMAS e THE LINE UP, seus grandes trabalhos até aqui. E Siegel até permite, logo no início da fita, que Elvis pegue um violão e toque e cante para seus familiares, num clima leve de faroeste matinée. Mas esse clima logo se dissipa quando um personagem leva uma machadada na cabeça num ataque índio e o diretor não nos poupa de toda brutalidade. E ele deixa bem claro: estamos diante de um filme de Don Siegel e não de Elvis Presley. Continuar lendo

BONE TOMAHAWK (2015)

BONE TOMAHAWK acabou virando o mais novo “clássico cult de todos os tempos” dos últimos dois meses, o que na minha opinião é até bastante compreensível, pra não dizer que não acho um exagero. Só não sei se com o passar do tempo vai conseguir manter essa distinção. Tirando, evidentemente, o “de todos os tempos”Mas tem tudo pra ser lembrado como um dos grandes westerns da atualidade. E é óbvio que por ser um western, gênero que tanto amo (e que neste ano inclusive já nos brindou com algumas pérolas, como THE HOMESMAN, de Tommy Lee Jones, e SLOW WEST, de John Maclean), além de ser estrelado por ninguém menos que Kurt Russell, BONE TOMAHAWK já seria filme a ser aguardado com boa vontade e sorriso no rosto. Mas acho que nem o espectador mais otimista podia esperar uma obra tão rara, brutal e fascinante. Especialmente vindo de um diretor estreante.

Eu já sabia de antemão que o filme era um híbrido entre western com horror. Mas esse detalhe eu não quis revelar ao meu pai, com quem assisti e que não teria feito se soubesse da verdade. O velho não assiste horror de maneira alguma… A não ser os clássicos da Universal ou da Hammer, que segundo ele são bonitos e não assustam. Mas botar para ele ver horror da atualidade – apesar da maioria perder feio em estilo e atmosfera em relação aos mais antigos, mas que possuem uma carga histérica de violência e sustos que botariam o velho pra correr – já é motivo para sair resmungando e borrando de medo. Uma mocinha medrosa… Mas enfim, por que eu tô difamando meu pai dessa maneira? Bom, não faço ideia, só sei que perdi totalmente o raciocínio… Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #4: ONDE IMPERA A TRAIÇÃO (The Duel at Silver Creek, 1952)

Primeiro filme colorido da carreira de Don Siegel e, mais importante, seu primeiro western. Tá certo que o diretor nunca chegou a fazer uma obra-prima do gênero, mas seus esforços sempre renderam excelentes exemplares, como OS ABUTRES TÊM FOME (1970) e O ÚLTIMO PISTOLEIRO (1976), que marca o encerramento da carreira do maior ator de faroeste de todos os tempos, John Wayne. Se formos considerar O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS (1971) como um western, aí é outra história… Mas talvez a maior contribuição de Siegel no gênero tenha sido a de mentor de dois cabras porretas, Sam Peckinpah (seu assistente por muitos anos) e Clint Eastwood, o que o coloca merecidamente no panteão dos grandes mestres do faroeste. Continuar lendo

HOJE TEM!

A rede de cinemas Cinemark está com uma bela iniciativa, tem lançado alguns clássicos restaurados em suas salas e já nos deu a oportunidade de rever alguns exemplares como CASABLANCA, de Michael Curtiz, e PSICOSE, de Alfred Hitchcock, em alta definição. Mas agora a coisa ficou séria e atualmente encontra-se em cartaz RASTROS DE ÓDIO, uma das grandes obras-primas de John Ford. Já perdi as contas de quantas vezes revi, na TV, em DVD, mas não dá pra perder agora na tela grande. Continuar lendo

KEOMA (1976)

KEOMA deve ter sido o meu primeiro Spaghetti… ou será que foi TRÊS HOMENS EM CONFLITO? Não importa, a verdade é que esse filme marca a infância de qualquer moleque com um mínimo de interesse na sétima arte. Não que eu tivesse muita consciência deste interesse na época, mas até hoje me lembro daquela VHS da Poletel que meu velho alugou numa sexta feira no fim dos anos oitenta.

Na época em que KEOMA foi realizado, o spaghetti western já tinha esfriado. O ciclo já não rendia algo interessante há tempos, mas mesmo assim, a dupla Enzo G. Castellari e Franco Nero, que já haviam trabalhado juntos antes em uns três filmes, estavam convictos e centrados em realizar um projeto de faroeste, mas não qualquer faroeste, eles sentiam que KEOMA seria algo maior, e foram em frente na tentativa de arranjar financiadores.

Depois do sinal verde para a produção, o roteiro final só chegou nas mãos de Castellari três dias antes de começarem as filmagens. Ele próprio e Franco Nero não gostaram do que leram. Castellari diz em uma entrevista que jogou tudo fora e sem tempo pra reescrever começou a elaborar as cenas no dia a dia das filmagens, deixando as suas principais inspirações sublinharem a narrativa. De Ingmar Bergman à Sam Peckinpah, as influências foram absorvidas naturalmente e o resultado não poderia ser diferente: KEOMA foi um sucesso e se tornou um símbolo do Spaghetti Westen.

Todo mundo já deve conhecer a história, que é tratada em tons de tragédia clássica. Pra começar, Keoma (Franco Nero) é um mestiço, filho de uma índia com um fazendeiro branco. Após retornar da guerra civil, ele encontra a região onde vivia sendo comandada por Caldwell (Donald O’Brien). Como sabemos que isto aqui é um faroeste, não preciso nem dizer que tipo de sujeito é esse Caldwell, não é mesmo? Mas as coisas pioram quando Keoma descobre que seus três meio-irmãos (que sempre lhe trataram muito mal) estão do lado do facínora, para a desgraça do pai de todos eles, vivido por William Berger.

No elenco, ainda temos Woody Strode, Olga Karlatos, e uma série de figuras sempre presente nas produções populares do cinema italiano. Mas o grande nome do filme não poderia ser outro: Franco Nero, com uma atuação sólida e expressiva, provavelmetne a minha favorita de sua longa carreira.

Um dos grandes méritos de KEOMA é conseguir agradar tranquilamente os fãs do Western bruto, mais movimentado, e também aqueles que procuram algo com mais substância, e o que não falta por aqui são elementos filosoficamente dramáticos. E como de costume, a direção de Castellari constitui de algo absurdamente magistral. É de fazer chorar qualquer amante do cinema, desde os enquadramentos expressivos, as sacadas de montagem e, claro, as sequências de ação e tiroteios fazendo uso da câmera lenta ao melhor estilo Peckinpah.

Agora, vocês podem não concordar, até porque é apenas a minha opinião e estou aberto à boa e velha discussão, mas que KEOMA merecia uma música tema mais decente, eu acho que merecia. Não que eu não goste da que está lá, é muito marcante e até funciona. Mas se o visual colhe com êxitos momentos notáveis durante todo o filme, onde será que estava o Morricone pra fechar este spaghetti western crepuscular de forma sonoramente brilhante?

CANNIBAL! THE MUSICAL (1993)

Outro filme sugerido para o mês de horror aqui no blog foi este CANNIBAL! THE MUSICAL… er, embora não se enquadre muito bem ao gênero. Na verdade, foi realizado pelos criadores do desenho South Park, a dupla Trey Parker e Matt Stone, então seria um equívoco esperar algo sério por aqui, mas isso pouco importa! O filme é delicioso, estranho, engraçado e com altas doses de gore! As filmagens aconteceram quando os dois dementes ainda eram alunos do curso de cinema na Universidade do Colorado e algum tempinho depois a produtora Troma resolveu lançar essa tralha pelo mundo à fora.

E fizeram um bem danado! Lembro que perdi a chance de comprar o DVD quando fui na Master Class do Lloyd Kauffman em São Paulo, porque, se não estou enganado, o Felipe M. Guerra pegou o último exemplar que tinha à venda e eu acabei tendo que me contentar com o obscuro DEF BY TEMPTATION, que também deve ser uma maravilha… tem o Samuel L. Jackson no elenco e é dirigido por um cara chamado James Bond III!!! Quando eu der uma espiada, eu comento por aqui.

Mas voltando ao CANNIBAL, trata-se de um bizarrento musical que mistura elementos verídicos da história americana, western, aventura e, claro, antropofagia, como o título já indica, com direito à várias sequências grotescas de violência trash. O enredo segue a jornada de Alfred Packer, um ingênuo cowboy, com uma paixão animalesca por sua égua, que acaba se transformando no guia de uma expedição de seis homes em busca de ouro pelos confins dos Estados Unidos. Durante o percurso, uma galeria de personagens hilários cruza o caminho do grupo e várias atribulações comprometem a missão. O problema é que Packer é o único a retornar com vida da jornada e acabam lhe acusando de comer, literalmente, seus companheiros de viagem.

Momento desabafo: acho que o gênero comédia, de uma forma geral, se tornou um troço meio intragável a partir de determinado período, quando o politicamente correto parece ter virado um consenso. Por isso é sempre legal celebrar uns exemplares libertos, ácidos e com personalidade, como CANNIBAL, filme sem grandes pretensões, mas com um humor peculiar e ousadia de sobra! Uma pena Parker & Stone terem feitos  poucos trabalhos para cinema…

Parker, em especial, é um talento fora do comum e em CANNIBAL ele escreve o roteiro e todas as canções, dirige, estrela com muita desenvoltura e até empresta a sua voz nas cenas de cantoria. Matt Stone também dá a sua contribuição como produtor, roteirista e interpreta um dos caçadores de ouro. O resto do elenco é quase todo formado por amadores e mandam muito bem… inclusive Stan Brakhage também marca presença. Sim, o mestre do cinema experimental era professor da dupla na época. Tenho a impressão de que não era bem isso aqui que o sujeito esperava de seus aplicados alunos.

MATE TODOS ELES E VOLTE SÓ (1968)

… aka Ammazzali tutti e torna solo
… aka Kill Them All and Come Back Alone

Filme que fecha um primeiro ciclo de Spaghetti Westerns do diretor Enzo G. Castellari, que se arriscaria em outros gêneros nos dois trabalhos seguintes antes de voltar ao faroeste. Mas não sei, pode ser impressão minha, me pareceu que o diretor já estava meio de saco cheio de trabalhar com os elementos do gênero, ou de contar uma história bem inserida neste universo do “bang bang”, e escreveu, em parceria com Tito Capri e Joaquim Romero Marchent (diretor de um dos westerns italianos mais violentos que se tem notícia: CONDENADOS A VIVIR), uma historinha sem muita substância sobre um grupo de mercenários, liderados pelo ótimo Chuck Connors, contratados para roubar um milhão de dólares que se encontra dentro de um forte do exército da união, em plena guerra civil americana. Sem optar por explorar os personagens, conflitos psicológicos, aprofundar de forma dramática no tema da traição que acontece bastante na trama, MATE TODOS ELES E VOLTE SÓ acaba tendo um plot bem básico, que beira ao simplório…

Em compensação, o que temos aqui em termos de ação é algo extraordinário! O filme pode muito bem ser resumido como uma sucessão de sequências frenéticas e exageradas de tiroteios, explosões, pancadarias, tudo muito bem orquestrado pelo diretor que se especializou neste tipo de coisa. Não é a toa que consideramos Castellari entre os grandes mestres do cinema de ação ao lado de John Woo, Sam Peckinpah, John Flynn, etc… E se não temos aqui personagens profundos, ao menos cada um deles tem sua especialidade voltada para ação (o atirador de facas, um grandalhão fortão, um acrobata e até um especialista em explosivos que carrega uma bazuca!!!). No elenco, temos várias figuras reconhecíveis no faroeste italiano, mas sem grandes destaques em desempenhos, com exceção de Connors e do já frequente colaborador de Castellari, Frank Wolff.

Talvez com um pouco mais de atenção a certos detalhes no roteiro, trama e personagens, teríamos uma obra prima. Mas do jeito que está MATE TODOS ELES E VOLTE SÓ já se torna obrigatório como um dos Spaghetti Westerns mais movimentados e recheados de ação que eu já vi!

JOHNNY HAMLET (1968)

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O famoso personagem de Shakespeare já foi adaptado para as telas do cinema nas mais possíveis contextualizações. Mas imaginem ver Hamlet, com toda a carga de conflitos que o sujeitinho carrega na obra do dramaturgo inglês, só que na pele de um jovem rápido no gatilho do velho oeste. É exatamente o que temos em JOHNNY HAMLET, um autêntico encontro de Shakespeare com o Spaghetti Western, sob o olhar inspirado de Enzo G. Castellari.

Johnny Hamilton (Andrea Giordana) é um jovem soldado confederado que retorna, após dois anos, da guerra civil americana. Ele descobre que durante sua ausência seu pai foi morto misteriosamente e sua mãe está casada com seu tio, Claudius (Horst Frank), que agora é dono de todas as terras de seu falecido irmão. A culpa pelo assassinato de seu pai caiu para cima de um bandido chamado Santana, que, aparentemente, já foi morto por Claudius. Achando tudo isso meio estranho, Johnny, com a ajuda de Dazio (Gilbert Roland), um amigo de seu pai, tenta descobrir o que realmente aconteceu.

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Quem conhece a peça Hamlet, vai perceber que a maioria dos personagens permanece fiel aos escritos de Shakespeare, como Claudius, a mãe, Polonius, que aqui surge como o xerife, Rozencrantz e Guildenstern… Emily, uma jovem que serve de par romântico a Johnny é claramente inspirada em Ophelia. A trama, de uma forma geral, possui reviravoltas e situações bem mais condizentes a um spaghetti, para manter um ritmo mais movimentado, mas são todas alterações bem-vindas que surtem efeitos positivos ao resultado do filme e podem agradar até o apreciador mais exigente, tanto de spaghetti quanto de Hamlet

Na verdade, não duvido que JOHNNY HAMLET agrade a qualquer pessoa que realmente goste de cinema, que valoriza a forma, um visual criativo, porque é impossível escrever qualquer coisa sobre esta obra sem destacar o trabalho notável da direção de Enzo G. Castellari. O sujeito dá ao filme uma riqueza estética impressionante, equivalente aos grandes mestres do gênero. Somos fisgados a partir da primeira cena, onde vemos uma sequência de sonho, cheia de elementos de horror e um belíssimo uso das cores. Logo depois, o nosso protagonista acorda em uma praia com uma trupe circense, um universo surreal que serve de introdução para o famoso monólogo “ser ou não ser”. E o nível de qualidade estética se mantém firme até o último segundo desta bela obra-prima do gênero.

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E pensar que a ideia original de JOHNNY HAMLET surgiu de outro diretor italiano, Sergio Corbucci, que teve de abandonar o projeto pelo seu envolvimento com outras produções. Corbucci também era um mestre do gênero, mas seu estilo talvez não tivesse a mesma força poética do olhar de Castellari. Num exercício de imaginação, não trocaria o que temos aqui por nada…

Como muitos Spaghetti Westerns, JOHNNY HAMLET foi retitulado em outros países como mais um filme da série DJANGO. Um detalhe que não custa lembrar é que esses italianos eram todos picaretas. Mudavam títulos, redublavam cenas, faziam o que fosse possível para promover seus filmes. Naquela época, DJANGO, do já citado Corbucci, foi um dos grandes sucessos do gênero e o que surgiu de produção explorando a popularidade do personagem não é brincadeira! No Brasil, foi lançado em DVD pela distribuidora Ocean há alguns anos, como JOHNNY HAMLET mesmo. A capa é feia e pode parecer apenas mais um exemplar comum do gênero, no entanto, trata-se de um filme obrigatório em todos os sentidos.

SUMMER LOVE, aka Dead Man’s Bounty (2006)

Como um velho admirador de bons atores “decadentes” ou subestimados pelos grandes estúdios, estava de olho no que o Val Kilmer estava fazendo nos últimos anos. Pra quem ainda não sabe, além de pequenas aparições em filmes porte maior (DÉJÀ VU, VÍCIO FRENÉTICO), o sujeito se transformou, nada mais, nada menos, em ator de filme de ação policial em produções B lançadas diretamente no mercado de vídeo. Não vai demorar muito para que o ex-Batman esteja numa lista ao lado de outros astros do gênero, como Wesley Snipes, Van Damme, Dolph Lundgren, etc…

Há uns 3 anos atrás, o Osvaldo Neto havia me falado deste SUMMER LOVE, um western de produção polonesa que conta com o Val Kilmer no elenco em uma peculiar participação. Mas só agora resolvi dar atenção. Kilmer estava em algum festival europeu, quando uns produtores poloneses chegaram até ele com uma maleta contendo US$50.000 propondo a ele uma participação no filme que estavam realizando. Acrescentaram ainda que só precisariam dele durante um dia das filmagens e ele não soltaria nem uma frase… e assim, temos aqui, um western europeu com o Kilmer no elenco.

Aliás, uma das coisas que SUMMER LOVE tem tirado como vantagem ao longo dos últimos anos é que se trata do primeiro faroeste polonês. Os especialistas do gênero, ou do cinema polonês (aqueles que vão além de Skolimowski e Kieslowski), podem confirmar essa história… afinal, o filme é muito recente.

O estreante diretor Piotr Uklanski utiliza da força criativa de suas belas imagens para narrar uma história cheia de formulações simbólicas, de narrativa poética e lenta, sobre um misterioso vaqueiro (Karel Roden) que chega a uma pequena cidade carregando o corpo de um homem procurado pela polícia. Lá ele se envolve num bizarro triângulo envolvendo a única mulher da cidade (Katarzyna Figura) e o xerife (Boguslaw Linda), que é apaixonado por ela…

E onde o Val Kilmer entra nessa história? Acertou quem disse que ele é o defunto! Seu personagem já surge em cena morto nos primeiros minutos, com as moscas rondando sua carcaça, os olhos esbugalhados e de vez em quando aparece alguns enquadramentos com angulos diferenciados representando a “visão” do morto… muito bizarro.

SUMMER LOVE é uma realização totalmente delirante, talvez um pouco oca, com sua alegoria sem muito sentido, pelo menos pra mim, mas muito lúcida. Consciente, ao menos, da força imagética que algumas belas sequências e enquadramentos possuem e que alimenta um ponto de vista muito pessoal de seu diretor. E ganha mais moral ainda por usar o western como forma de expressão. Uma pena que este tenha sido o primeiro e único trabalho desse polonês maluco!

UMA BALA PARA O GENERAL (El Chuncho, Quien Sabe?, 1966), de Damiano Damiani

Nada melhor que fechar o sabadão com um Spaghetti Western arrasador! Sabe aquele filme ou diretor que você sempre ouviu todos os amigos comentarem que é muito bom, que todas as resenhas que você lê sempre são positivas e percebe que está dando mole e ainda não viu uma das obras fundamentais de algum gênero que gosta? Pois então, é exatamente o meu caso com UMA BALA PARA O GENERAL, de Damiano Damiani. Não sei porque não havia assistido antes!

Trata-se de um exemplar do mesmo subgênero de VAMOS A MATAR COMPAÑEROS, que postei aqui no blog outro dia, o Zapata Western, filmes sobre revolução mexicana, etc. UMA BALA PARA O GENERAL transcorre justamente neste universo do México revolucionário e conta a estória de um jovem americano que se junta a um grupo de revolucionários, liderados por Chuncho, e ajuda na peleja contra as autoridades e no tráfico de armas entre os rebeldes. A princípio, o que o gringo parece almejar é dinheiro, mas a ambiguidade de seu olhar e da forma de agir conota objetivos obscuros, que ficam claros apenas ao final.

Os personagens principais são perfeitamente construídos, assim como um bom SW tem de ser pra deixar sua marca! E o elenco também auxilia muito nesse sentido. Gian Maria Volonté cai perfeitamente na pele de Chuncho, o líder da nobre causa mexicana e de uma sinceridade impressionante. O gringo, que é chamado de Niño, é vivido por Lou Castel, um sujeito frio, capitalista e certamente “não gosta da fruta”. Por último, um personagem que merecia mais presença em cena, mas no pouco que aparece Klaus Kinski registra seu momento com maestria encarnando o meio irmão de Chuncho. É um fanático religioso que acha que está participando de uma missão religiosa ao invés da libertação de seu país.

Damiani conduz um filme bem movimentado, com bastante ação e muito tiroteio, mas o aspecto humano nunca é ignorado. Chuncho, apesar de ser considerado um bandoleiro pela polícia, age em prol de seu povo e mesmo quando esquece seus princípios e acaba movendo-se por dinheiro, consegue fazer a escolha certa ao final, jogando na cara do espectador o ponto de vista esquerdista de seus realizadores. UMA BALA PARA O GENERAL é daqueles filmes magnificamente bem filmados, com bela trilha de Morricone, lindamente fotografado, um dos melhores do gênero! Não perde o foco de seus elementos políticos nem deixa de ser um grande espetáculo.

Recomendo também o texto do amigo lusitano Pedro Pereira, do blog Por um Punhado de Euros.

10.000 DÓLARES PARA DJANGO (10.000 dollari per un massacro, 1967), de Romolo Guerrieri

Mais um Western Spaghetti pra moçada que curte o gênero. 10.000 DÓLARES PARA DJANGO, como o título já anuncia, trata de mais um belo exemplar que aproveita o lendário personagem que Franco Nero, Terence Hill e até o ítalo-brasileiro Anthony Steffen deram vida outrora. Típico desses italianos espertinhos usufruindo do sucesso de outro filme, mas ok, contanto que façam coisas boas como é o caso deste aqui.

Talvez nem fosse necessário explorar a figura do mítico Django – aliás, o título original nem apela nesse sentido – porque o filme possui um lado significativo de boas idéias, personagens interessantes e uma realização técnica das melhores possíveis, que por si só renderia uma obra única. Por outro lado, tem um dos enredos mais estranhos no qual o espectador é sempre surpreendido pelas reviravoltas, o que nem sempre é bom quando há em excesso. No mais, uma parte compensa a outra de tal modo que no fim, os fãs do bang bang à italiana não têm do que reclamar!

Quem encarna o personagem desta vez é Gianni Garko (sob o pseudônimo de Gary Hudson), figurinha carimbada do western macarrônico tendo interpretado outros grandes indivíduos como Sartana e Camposanto. Em 10.000 DÓLARES PARA DJANGO, o protagonista é um caçador de recompensa que parte para um ultimo serviço, já que sua próxima vítima vale os 10.000 dólares do título que ele tanto almeja para largar essa vida e ir viver com uma bela francesinha (Loredana Nusciak). Mas isso é basicão da trama, durante o percurso, rola o seqüestro de uma moça, assalto a uma diligencia, questões de amizade, confiança e vingaça!

O contraponto de Django é Claudio Camaso, que interpreta o perigoso vilão da estória, Manuel. O problema é que Camaso parece que está sempre de rímel nos olhos e fica com cara de viado, não que isso prejudique o andamento da coisa, mas o ator precisa demonstrar a masculinidade diversas vezes pra provar que é macho de verdade e mesmo assim, ainda fiquei com dúvidas…

nofa!
Ah, vai me dizer que não é rímel?

Mas deixando esses detalhes de lado, temos a direção de Romolo Guerrieri que é ótima desde a abertura do filme (que é genial, Django acordando à beira da praia com um defunto do lado) até o desfecho melancólico; Guerrieri é bastante seguro nos enquadramentos, nas seqüências de ação e na direção de atores; e a linda trilha de Nora Orlandi ajuda a intensificar a dramaticidade da obra, como todo bom e velho western à parmegiana tem que ser. Então, podem ir sem medo: 10.000 DÓLARES PARA DJANGO é, sem dúvida, um dos grandes momentos deste gênero italiano que eu tanto adoro!

O VINGADOR SILÊNCIOSO (Il Grande Silenzio, 1968)

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Ainda não sou um profundo conhecedor da filmografia de Sergio Corbucci e já li por aí que o sujeito fez uns filmes bem fraquinhos ao longo da carreira. Mas quando a coisa é boa (como DJANGO, de 1966, e este aqui), ele acerta em cheio e é por isso que é fácil classificá-lo como um dos maiores realizadores de Spaghetti Western. O VINGADOR SILÊNCIOSO é provavelmente um dos melhores e o mais pessimista exemplar do gênero. E é por esse pessimismo, principalmente no controverso desfecho, que não é de se estranhar que o filme nunca tenha sido lançado nos Estados Unidos.

O VINGADOR SILÊNCIOSO é estrelado pelo ator francês Jean-Louis Trintignant e o grande Klaus Kinski. Só isso já o torna imperdível. No lugar do francês, a primeira escolha era Franco Nero, que já havia trabalhado com o diretor, mas estava com a agenda lotada. Trintignant só aceitou fazer o filme porque era muito amigo do produtor e sob a condição de que não precisasse decorar nenhuma fala. Criaram então um personagem mudo, cujas cordas vocais foram cortadas quando criança. E Trintignant está perfeito vivendo Silêncio, este herói trágico em busca de vingança e lutando contra caçadores de recompensas inescrupulosos. Já Kinski interpreta justamente um caçador de recompensa sem escrúpulos.

O filme se passa nas locações frias e cobertas de neve do estado do Utah, onde um grupo de bandidos se esconde nas florestas aos arredores da cidade de Snow Hill esperando a anistia prometida pelo novo governador para poder retornar à cidade e levar uma vida normal. Obrigado a roubar para poder se alimentar durante o exílio involuntário, cada cabeça do grupo vale uma boa grana e vários caçadores de recompensa invadem a região como lobos em busca de caça. Loco (Kinski) é um deles, o mais perigoso e ganancioso. Ao matar um desses fugitivos, Pauline, a mulher do defunto, recruta Silêncio para matar Loco.

A grande sacada de Corbucci foi dar alma a cada um de seus personagens principais. Não só aos dois protagonistas, mas também ao Xerife, interpretado por Frank Wolff e Pauline, a bela Vonetta McGee (que não é lá grande coisa como atriz, mas que compensa com outros atributos). Todos eles são movidos por algum instinto muito bem definido, como a vingança e a cobiça. Mas quando essas motivações dão lugar a um jorro de emoções, fica difícil resistir. Há uma cena belíssima quando Silencio e Pauline fazem amor sob a sedutora melodia de Ennio Morricone, ato que os torna tão humanos quanto poderiam ser e talvez por isso Silencio se torne tão vulnerável a partir deste ponto, muito diferente daquele pistoleiro onipotente do início.

E o final é extremamente chocante e brutal. Quebra qualquer paradigma dos heróis míticos e invencíveis criados pelo western hollywoodiano. A forma como Corbucci retrata os vilões (especialmente Kinski com aqueles olhos azuis expressivos de gelar a espinha) e os refugiados da floresta reforça ainda mais o sentido dilacerante da conclusão, e Silêncio, ao se apaixonar por Pauline e tornar-se mais humano, acaba enfraquecido, e já não pertence mais aquele universo instintivo. E como todos sabem, na natureza são os mais fortes que sobrevivem.

SEVEN MEN FROM NOW (1956)

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Meu primeiro contato com o cinema de Budd Boetticher. SEVEN MEN FROM NOW é um western inteligente, puramente cinematográfico e alegoricamente interessante. O elenco é encabeçado por Randolph Scott e, que inicia aqui uma pareceria com o diretor que rendeu alguns clássicos famigerados (aliás, os outros filmes desta parceria eu já tenho e vou comentando na medida em que for assistindo). Com roteiro do grande Burt Kennedy, o filme gira em torno de Scott, que interpreta um ex-xerife atrelado numa caçada por sete sujeitos que assassinaram sua esposa em um assalto; ao longo do caminho ele encontra algumas pessoas que o acompanha nessa jornada, como um casal que ruma para Califórnia numa carroça e um antigo desafeto do protagonista, vivido por Lee Marvin (fazendo um belo contraste, o sempre robusto Marvin x Scott e seu jeitão lacônico). Boetticher é bem seguro narrativamente e sabe utilizar as simbologias do gênero, a paisagem, o espaço, as cores, tudo em favor de um estilo simples e respeitador dos princípios da expressão da imagem cinematográfica, o que torna cada plano um espetáculo visual único.