DRACULA (1931)

Revi o DRACULA do Tod Browning, estrelado pelo grande Bela Lugosi. Nunca fui grande fã desta versão e cheguei a comentar no início do texto que fiz sobre FRANKENSTEIN, de James Whale, há alguns meses, que “FRANKENSTEIN sempre me pareceu bem mais avançado e moderno, resistindo mais ao teste do tempo. Posso ver e rever que não me canso. Já o filme de Browning… Não que eu não goste de DRACULA, que também tem sua inegável importância para o gênero, mas não me encanta tanto quanto outros exemplares de horror do período.

Bom, eu era jovem e não sabia de nada quando vi DRACULA nas primeiras vezes. E ainda não sei muita coisa. Mas revi agora em blu-ray e, pronto, foi dessas revisões que muda tudo. Daí que sempre ressalto a importância de rever determinados filmes. Estes não mudam, mas a nossa sensibilidade sim. E ao longo do tempo obras que achamos menores acabam se revelando maravilhas do cinema. Como é o caso de DRACULA.

Pode-se dizer que trata-se da primeira versão oficial levada para as telas do romance de Bram Stoker, considerando que NOSFERATU (22), de Murnau, seja a versão pirata do romance. Essa história todo mundo conhece, os caras não compram os direitos de adaptação do livro, e mesmo assim seguiram em frente achando que ninguém ia se importar. O filme é maravilhoso, mas a rapaziada se ferrou. Mesmo com todas as diferenças em relação ao material original, não teve jeito… A viúva de Stoker chegou a processar e ganhar uma ação contra o estúdio alemão, mas acabou não recebendo nada, porque a produtora faliu…

Enfim, quem acabou adquirindo os direitor foi a Universal. Mas depois de tanto escreve e reescreve de quase uma década, o roteiro de DRACULA acabou tomando como ponto de partida uma peça de teatro da Broadway, que havia sido um enorme sucesso. E essa decisão talvez tenha sido a mais importante. A estrutura complexa do romance de Bram Stoker nunca foi muito propícia à adaptações e praticamente todas as versões pra cinema do livro suprimem vastos trechos da bagagem detalhada que Stoker usa na sua narrativa.

Por outro lado rolou um custo criativo nesta decisão que fez com que o filme ganhasse tantos detratores. O lance é que o roteiro herdou estratégias narrativas que vinham das origens teatrais do material. Isso é evidente na natureza desequilibrada do filme. Os primeiros vinte minutos de DRACULA, que transcorrem na Transilvania progridem num ritmo legal, é bem mais dinâmico, que vai sempre se renovando esteticamente, explorando cenários, praticamente tudo aqui é clássico, icônico. Mas no momento em que a ação muda para Londres, o filme dá uma desascelerada e imputa seus princípios teatrais… Mas, olha, confesso que não tive problema algum com isso nessa revisão.

Até porque a direção de Browning e o trabalho de câmera atmosférico de Karl Freund (com sua bagagem vinda do expressionismo alemão) mantém sua força. Gosto bastante também dos diálogos e os atores estão ótimos. É bom lembrar que apesar desse material ter sido readaptado, imitado e parodiado tantas vezes ao longo dos anos, aqui temos a origem de tudo. É curioso ver os perosnagens discutindo as coisas pela primeira vez antes de se tornarem clichês. E temos algumas sequências bem legais, como os duelos travados entre Van Helsing (Edward Van Sloan) e o Conde Drácula. Uma das melhores é quando o famoso caçador de vampiros percebe que o conde não está refletindo sua imagem num pequeno espelho de um porta-charutos.

E obviamente algo que se destaca e ainda nos fascina acima de tudo é termos a presença deste ator magnífico em cena que é BELA LUGOSI. Muitos atores ao longo da história viveram o personagem, mas nenhum como Lugosi, com seu forte sotaque e um magnetismo bizarro, o sujeito realmente capturou o poder do personagem e acabou sendo um pioneiro em filmes de terror, deu o tom para a maneira como os vampiros foram percebidos pelo público nos anos seguintes. E foi uma diferença gritante entre o vampiro de NOSFERATU, o Conde Orlok, vivido por Max Schreck, uma criatura repulsiva de se olhar, do Dracula de Lugosi, um esbelto e educado aristocrata que tem a possibilidade de transitar livremente pela sociedade, pelo mundo dos mortais, para satisfazer seu desejo de sangue.

O vampiro de Lugosi dependia de sua própria personalidade e estilo de atuação imaginativa para criar um retrato tão distinto na personificação da criatura. O “monstro” que vemos na tela e o vampiro saído das páginas escritas por Stoker fizeram uma combinação perfeita, tornando Lugosi, o ator, e o personagem, Drácula, autênticos sinônimos. Curioso que Lugosi só conseguiu o papel depois que a escolha preferida da Universal havia morrido – Lon Channey, que já havia trabalhado com Browning em diversos filmes anteriores. Lugosi acabou escolhido, mas tinha a vantagem de já ter vivido o personagem na tal peça na Broadway alguns anos antes.

Outra coisa que me chama a atenção e deixa essa segunda metade do filme mais interessante é como em 1931, o diretor Tod Browning já era bastante direto sobre o ato de “chupar sangue” como um eufemismo para o sexo. Browning realizou DRACULA um ano depois que o Código Hays começou a censurar as produções, numa tentativa de “limpar” os filmes. Mas Browning foi capaz de eoncontrar maneiras de driblar os censores em vários momentos, como nas cenas em que Drácula adentra o quarto de Mina à noite e inclina-se sedutoramente sobre sua figura adormecida ou, ainda quando Dracula envolve-a possessivamente em sua capa numa dos gestos mais eróticos do filme.

E há as três esposas de Drácula (e até hoje me surpreende que Browning tenha escapado dessa também), em seus longos vestidos brancos espectrais, pairando sobre Renfield (Dwight Frye, que é outro destaque) no castelo, preparando-se para um banquete… Aliás, como são incríveis todos os planos que envolvem essas três esposas, a forma como Browning realiza composições com esses corpos dentro dos quadros é um trabalho de mise en scène assustadoramente bonito.

Esta versão de Browning continua não sendo a minha favorita sobre o lendário vampiro. Ao longo dos anos tivemos vários exemplares que aprecio mais: o da Hammer, O VAMPIRO DA NOITE (1958), com o Christopher Lee encarnando o personagem; a do Coppola, já nos anos 90, é provavelmente a minha favorita; a do John Badham, DRACULA, de 1979, também é maravilhosa; e até a do Paul Morrissey, BLOOD FOR DRACULA, com Udo Kier fazendo o vampirão é um bom concorrente nessa disputa… No entanto, DRACULA, de Todd Browning, depois dessa revisão, já entra na lista de favoritos, sem dúvidas.

E foi o seu sucesso que encorajou a Universal a produzir e lançar um segundo filme de horror no mesmo ano de 1931, FRANKENSTEIN, dando início em definitivo ao famoso ciclo de filmes de monstro da Universal (depois ainda viria A MÚMIA, O HOMEM INVISÍVEL, O LOBISOMEM e várias continuações de todos esses).

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FRANKENHOOKER (1990)

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FRANKENHOOKER é um dos filmes mais dementes do Frank Henenlotter, o mesmo gênio do cinema de horror/comédia de baixo orçamento que realizou a trilogia BASKET CASE e BRAIN DAMAGE, só pra ter uma noção do nível de insanidade que é isso aqui. Só fui assistir agora, era o único filme de “ficção” do Henenlotter que não tinha visto ainda (agora tenho que ver os documentários, que parecem muito bons),  mas trata-se de uma obra que ganhou, desde seu lançamento em 1990, um status cult, graças à ideia maluca de ressignificar o mito de Frankenstein às avessas, cujo “monstro” trazido à vida é formado por membros de prostitutas que explodiram ao fumar um super crack, tudo embalado no humor escrachado títpico do diretor!

Quando o filme começa, Elizabeth Shelley (Patty Mullen) está animada para dar ao pai o seu presente de aniversário, um cortador de grama poderoso, turbinado e com controle remoto construído pelo seu noivo, Jeffrey Franken (James Lorinz), um jovem gênio eletricista – que curte realizar experiências medicinais como hobbie. Elizabeth aperta o botão no controle para fazer uma demonstração aos convidados na festinha de aniversário do querido pai e antes que você perceba, ela é triturada como uma salada de repolho pela máquina…

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O tempo passa e, lidando com sua própria dor, Jeffrey começa a formular um plano para trazer de volta sua amada noiva. Usando seus conhecimentos de eletricidade e medicina, o sujeito desenha, durante os créditos de abertura, o que é a gênese do renascimento de Elizabeth. Uma das poucas coisas que sobrou da moça no acidente foi sua cabeça, que o rapaz mantém num líquido rosa na garagem de sua casa, que serve também de laboratório. O que Jeffrey precisa agora é de um corpo…

E a bizarrice se intensifica. Para dar uma estimulada no cérebro e fluir seus sucos criativos, Jeffrey cutuca seu crânio com uma furadeira elétrica e quando as sinapses inspiradoras começam a disparar, ele descobre que a melhor maneira de reconstruir sua namorada é, obviamente, contratar prostitutas e escolher as melhores partes de cada e remontar sua amada. Então ele vai até Nova York e inicia o processo de seleção no típico cenário que Henelotter adora filmar: as ruas sujas e escuras de uma NY decrépita e de atmosfera decadente como vimos no primeiro BASKET CASE.

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Depois de conhecer algumas amáveis ​​damas da noite e tentar convencê-las a ajudá-lo, Jeffrey acaba apresentado ao cafetão delas, um sujeito parrudo chamado Zorro (Joseph Gonzalez), que negocia todo o esquema dentro de um banheiro de boate lotado de crackudos. No fim,  Zorro permite que Jeffrey faça uma reuniãozinha com algumas de suas melhores mulheres numa espelunca de hotel…

É quando rola a sequência mais inacreditável de FRANKENHOOKER. Várias garotas semi nuas, com o pobre Jeffrey fantasiado de médico, analisando a massa corpórea das moças, medindo a espessura das coxas, o formato dos mamilos, os moldes das bundas, o comprimento das pernas e braços, enfim, cada centimetro que possa encaixar no quebra-cabeça que vai ser montar o corpo perfeito para sua Elizabeth. E as prostitutas sem entender direito o que está acontecendo…

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Até que elas encontram uma sacola gigante de crack que Jeffrey havia manipulado para deixá-las mais à vontade, mas que acabou resultando numa droga tão podersa que os efeitos colaterais são bem graves… Basicamente faz o usuário explodir, simples assim. A pessoa fuma a pedra e BUM! Explode. E é o que acontece, um espetáculo de corpos de prostitutas explodindo, ao som do que Jeffrey se refere à “música do demônio”, com direito ao Zorro arrombando a porta e sendo nocauteado por uma perna que voa na sua cara… Um grande momento de garbo e elegâncio do cinema de Frank Henelotter.

No fim, depois de todos os corpos explodidos, e membros femininos espalhados pra tudo quanté lado, Jeffrey reúne todas as partes que ele precisa usar e as leva para casa onde finalmente constrói um novo corpo para Elizabeth, anexado à sua cabeça decepada. Uma esperada tempestade chega bem à tempo e o corpo reconstruído recebe a voltagem necessária para reviver. Mas o resultado não sai exatamente como Jeffrey esperava…

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Grotesco e engraçado, FRANKENHOOKER é, assim como os outros filmes do diretor, um paradoxo, ao mesmo tempo inteligente e completamente idiota. Mas no fim das contas, Henelotter faz aqui algumas interessantes reflexões, um conto moral sobre a desilusão na idealização romantica que as pessoas comumente fazem da pessoa amada. E Jeffrey sabe que ao ressuscitar Elizabeth nada seria como era antes, mas ao menos ele idealiza uma alma gêmea que possa amar como no passado… Mas não é exatamente isso o que acontece à princípio. E o filme vai mais além, porque o sujeito ainda fica obcecado com uma construção detalhadamente perfeita do corpo, o que não deixa de ser uma análise curiosa sobre a ditadura da beleza. No desfecho, Jeffrey acaba provando do seu próprio remédio e definitivamente “ganhando” um corpo perfeito.

Henenlotter, um verdadeiro fã do universo do B-Movie dilui essas ideias no tom desinibido do filme e nas muitas homenagens que ele faz (FRANKENSTEIN, é claro, mas também para O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER e coisas do tipo) e nas suas próprias compulsões estéticas. No entanto, a restrição orçamentária acaba sendo um obstáculo à sua liberdade de ação e os efeitos especiais são os primeiros a sofrer.

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Mas aí que tá a graça da coisa. Até porque FRANKENHOOKER é o tipo de filme que o próprio realizador não faz questão que levemos tudo à sério. Portanto, esse aspecto dos “defeitos” especiais não é exatamente uma falha, pelo contrário, acaba fornecendo um charme a mais, especialmente na tal cena com as prostitutas explodindo, que é o tipo de sequência que exige muita trucagem e pirotecnia, onde o resultado tosco fica mais evidente… E mesmo assim, Henenlotter consegue deixar tudo lindo, com muito mais alma do que qualquer esforço gerado por computador.

No que diz respeito às atuações, a coisa deve ser encarada com o mesmo espírito. Ninguém aqui vai ganhar nenhum prêmio importante, nenhum mérito artístico por suas performances, e os atores sabem disso, mas até que funcionam bem para o que é exigido. Vale destacar, por exemplo, o desempenho adorável de Patty Mullen, em especial depois de ser ressuscitada, com toda expressão facial e corporal que a personagem requer.

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Aparentemente, Bill Murray é um grande fã de FRANKENHOOKER, que foi citado na capa do DVD do filme, lançado em 2006, dizendo “Se você for assistir só a um filme este ano, que seja FRANKENHOOKER”. Não seria uma escolha ruim… E, bom, para quem já está familiarizado com o trabalho de Frank Henenlotter, já sabe exatamente o que esperar disso aqui. Mas se você não essa familiaridade acho que este post deve dar conta. Recomendo também aos fãs do universo de Frankenstein para apreciarem a mais uma possibilidade de expansão desse universo tão vasto criado por Mary Shelley e que aqui é acrescentado alguns ingredientes que nunca decepcionam: muito sangue, nudez e motivos para boas risadas.

ESCOLA NOTURNA, aka OLHOS DO TERROR (Night School, 1981)

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ESCOLA NOTURNA não é lá dos melhores slashers que eu já vi. É um exemplar bem comum de um modo geral, com algumas ideias decentes que acabam prejudicadas pela previsibilidade do roteiro, que não consegue segurar por muito tempo a identidade do assassino ou suas motivações… Mas tem algumas peculiaridades redentoras que fazem valer a pena uma conferida. Ei, é um filme que tem um assassino de capacete de motociclista com uma faca decapitando moças! Então momentos de diversão é o que não falta.

É curioso que ESCOLA NOTURNA teve o “privilégio” de constar na famigerada lista dos “Video Nasties“, filmes que foram censurados, mutilados ou proibidos, especialmente em território britânico no período; este aqui acabou tendo lançamento por lá só em 1987. Vendo hoje, me surpreende essa decisão porque ESCOLA NOTURNA está longe de ser dos mais sangrentos ou subversivos filmes de horror em comparação com vários outros exemplares da época. A quantidade de elementos sexuais e nudez é pouca e em termos de violência, a maioria dos assassinatos acontecem fora de campo… O que se vê são as consequências dos crimes. Uma cabeça que acaba em um vaso sanitário ou outra que desce lentamente entre os peixes de um aquário público, sob os olhos horrorizados dos visitantes, e por aí vai… Porque nosso assassino não apenas decepa-lhes a cabeça, mas também as mergulha na água, uma particularidade que intrigará o investigador da polícia, interpretado pelo italiano Leonard Mann.

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E essas execuções absurdas e misóginas (as vítimas são todas mulheres) são mais como rituais, e a suspeita então volta-se para um professor de antropologia libertino que não hesita em praticar “aulas particulares intensivas” com suas alunas, se é que me entendem… Além disso, ele é o único professor do sexo masculino numa faculdade para moças (na qual as vítimas eram estudantes). Descobrimos também que ele não é o único garanhão da escola. A diretora do colégio parece, er… gostar das mesmas coisas que ele, e não pretende ter competição. Mas a verdade por trás dos assassinatos será bem diferente no fim das contas…

Quem dirige ESCOLA NOTURNA é o veterano Ken Hughes, bom artesão que brinca com todos os clichês do slasher: assassino neurótico emergindo dos mais variados lugares, vítimas jovens, câmera subjetiva, enquadramentos peculiares… Para ser justo, eu curti o filme porque tem mais a cara de um Giallo do que slasher. Lembra muito os filmes italianos feito na mesma época. Desde a trilha sonora de Brad Fiedel até a presença de Leonard Mann, mais conhecido pelos papeis em Spaghetti Western, tudo contribui para dar a impressão de que estamos diante de um suspense policial italiano.

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Algumas sequências são bem interessantes e vale destacar, como a do restaurante, onde o diretor literalmente brinca de esconde-esconde com o espectador e a cabeça de uma das vítimas; na parte erótica, temos uma excêntrica cena de sexo num chuveiro em que o professor de antropologia esfrega um tolete de tinta vermelha em sua aluna/amante (Rachel Ward). No final, sobra tempo até para uma frenética perseguição de carro e moto pelas ruas apertadas da cidade… No entanto, ESCOLA NOTURNA também pode desapontar pelo fato de ter esse motociclista armado com um facão decapitando as moças, algo muito promissor, mas, como já disse, quase nunca vemos as tais decapitações de fato.

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Mas é um filme de detetive/assassino honesto, com boa atmosfera de horror em alguns momentos e alguns toques de um humor ácido (voluntários ou não). Cabeças rolando, mistério (embora fácil de resolver), lesbianismo, excentricidades antropológias… Os entusiastas do slasher vão se divertir.

BLACK DEMONS (1991)

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Há alguns anos eu comentei por aqui os dois filmes da série DEMONS, dirigidos pelo Lamberto Bava e produzidos pelo Dario Argento. Quem nunca leu, pode conferir clicando aqui e aqui. Mas o que isso tem a ver com BLACK DEMONS, de Umberto Lenzi? A princípio, nada. No entanto, como a picaretagem italiana não tem fim, resolveram lançar o filme na Itália com o título DEMONI 3, mesmo não tendo absolutamente nenhuma relação com os filmes anteriores… Só que os caras foram ainda mais longe e a série DEMONS acabou ganhando outras “continuações” sem qualquer sentido… Mas isso é assunto pra outros posts.

Hoje vamos de DEMONI 3, ou melhor, BLACK DEMONS, que é como prefiro chamar… Não é dos filmes mais lembrados do Umberto Lenzi, talvez porque não seja mesmo lá grandes coisas em comparação com a fase de ouro do horror italiano e com a própria obra do diretor, mas não deixa de ser uma dessas tralhas divertidas do gênero que foram esquecidas ao longo dos anos. A história é simples, mas eficaz: três estudantes estrangeiros vem parar aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, para pesquisar sobre religiões africanas, vodu e coisas do tipo. Dick (Joe Balogh), ao se afastar dos outros, acaba se envolvendo em um ritual de macumba e, de alguma forma, é possuído pelo misterioso poder da magia negra.

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Do Rio, o trio parte para Belo Horizonte… Só que numa estradinha de chão rodeado de matagal, porque é exatamente assim as rodovias que vão do Rio à BH, né? Mas tudo bem, a gente entende que Lenzi quer fazer o público de fora pensar que o Brasil é só mato, animais selvagens e voodoo, ao mesmo tempo em que todos os brasileiros falam inglês. Durante a viagem, o veículo do trio quebra e acabam sendo ajudados por um casal que mora nas proximidades e que lhes oferece repouso enquanto resolvem o problema do carro.

A casa é uma dessas antigas mansões de algum barão do café do século IXX que usava escravos como mão de obra. Não muito longe dalí, há justamente um cemitério com os túmulos de seis escravos que, segundo uma lenda, foram mortos por seus senhores um século antes e que em algum momento retornariam em busca de vingança. Quando Dick, possuído por seja lá o que for, é levado quase em transe a este cemitério e começa a tocar a música que gravou durante o ritual de magia negra, ele acaba tornando a lenda em realidade. Os escravos saem das tumbas e começam a realizar sua sangrenta vingança…

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Mas para chegar a até aqui não é das tarefas das mais fáceis… BLACK DEMONS tem um ritmo lento, a produção é barata e acaba não tendo tantos atrativos como outros exemplares do horror italiano. No entanto, consegui entrar na onda do filme, até porque Lenzi tem bom domínio narrativo, mesmo trabalhando com tão pouco e com roteiro e atores tão ruins. O uso que o sujeito faz das locações, das paisagens do Rio de Janeiro, das favelas e do interior são muito bons. Sem contar que a iconografia dos rituais e do universo de magia negra tornam a história genérica um pouco mais interessante.

E quando a violência finalmente acontece, Lenzi não hesita em mostrar tudo graficamente nos mínimos detalhes. Há pelo menos três mortes mais explícitas, com direito a olhos arrancados e gargantas cortadas com muito sangue. Os próprios zumbis são muito bem feitos, com feridas nojentas e a deterioração mostrada em detalhes.

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Um dos maiores problemas de BLACK DEMONS acaba sendo os atores. Joe Balogh é quem se destaca, mas o restante do elenco, principalmente os “talentos” brasileiros locais, são terríveis. A exceção é a mulher que interpreta a criada da casa, tem carisma, mesmo falando um inglês péssimo. O próprio Lenzi afirma em entrevista que os problemas de atuação foram um dos motivos de tornar o filme mais fraco do que previa que fosse. Também é divertido que o filme tenha um toque levemente político, a ideia de escravos negros, agora zumbis de pele escura, atacando pessoas brancas, é uma peculiaridade curiosa. Lenzi fala um pouco sobre isso no extras do DVD, mas ainda sente que é apenas um filme de terror sem significados mais profundos.

Mesmo com seus problemas, não achei tão ruim BLACK DEMONS. A violência é das boas, os zumbis são brutais e matam sem piedade e a direção de Lenzi é inspirada, apesar da precariedade da produção. E é só isso o que eu poderia querer de um filme como esse…

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FOI DEUS QUE MANDOU (1975)

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FOI DEUS QUE MANDOU (God Told Me To) poderia ter sido o que O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA foi para Tobe Hooper, ou o que HALLOWEEN foi pro Carpenter. Produções relativamente pobres que renderam muito mais que o esperado. Infelizmente Larry Cohen não teve a mesma sorte. Até que é um filme bem realizado, cheio de idéias e reflexões filosóficas que transcende gêneros, que dialoga e propõe um olhar social. É uma pena, portanto, que tenha sido condenado ao limbo, onde só mesmo interessados por cinema grind house e produções de baixo orçamento de gênero têm o devido contato.

A abordagem de Cohen aqui é de um pessimismo quase poético. Em seu nível superficial, FOI DEUS QUE MANDOU é uma história de investigação policial, que se passa em Nova York. O filme começa com um atirador, empoleirado em uma torre de água no alto de um prédio, usando pessoas aleatórias nas ruas como alvo. Cohen filma com uma câmera na mão, no meio da multidão, num estilo seco e documental de fazer um Cassavetes se encher de orgulho, enquanto os tiros ecoam entre os prédios e os corpos começam a se acumular.

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Tony LoBianco (OPERAÇÃO FRANÇA) é o detetive Peter Nichols, que sobe a torre para confrontar o atirador e obtém uma resposta ao caos sofrido por esse homem. Quando perguntado a razão dele estar atirando nas pessoas, e antes de mergulhar em sua morte suicida, o atirador diz ao detetive que Deus lhe disse para fazê-lo. Um olhar desesperado atravessa o rosto de Nichols. As palavras “foi Deus que mandou” são poderosas o suficiente para afastá-lo de sua complacência e abrir o seu tormento psicológico há tanto tempo reprimido. Talvez palavras poderosas o suficiente para sacudir sua perda de crença religiosa e se tornar um ímpeto para a autodescoberta.

Em relação à religião, FOI DEUS QUE MANDOU não é uma jornada cheia de redenção ao estilo do que Martin Scorsese fazia na época. A cidade de Cohen em Nova York é tão suja e decadente quanto em CAMINHOS PERIGOSOS e TAXI DRIVER, mas Cohen não oferece a oportunidade para o resgate de Nichols como Scorsese faz com seus personagens. Para Travis Bickle (Robert De Niro em TAXI DRIVER), a redenção vem através de uma jornada de escuridão neurótica e uma explosão de violência. Já Cohen resolve impor à Nichols uma excursão às trevas do misticismo ou infiltração alienígena, mas cujo resultado não deixa de ser perturbador em sua abordagem à falibilidade humana e à perda da conexão com Deus.

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Nichols, em certo sentido, segue os passos de Travis Bickle, mas Cohen também se recusa a aceitar a realidade como base para sua história. Onde Travis sai do controle em um pano de fundo real, Cohen intercala o deslizamento de Nichols com o fantástico. O mistério para Nichols não é apenas descobrir quem está por trás dessa série de assassinatos realizados por pessoas que o fazem “à mando de Deus”, mas uma jornada existencial de autodescoberta. Os assassinatos são um catalisador para Nichols descobrir onde ele próprio se insere nessa trama. Todas as mortes levam à ele, que por sua vez levam a um homem chamado Bernard Philips (Richard Lynch), que se diz Deus, mas que acaba por ser uma espécie de mistura reencarnada de Cristo e do Diabo.

O discurso apocalíptico de Philips de alguma forma leva Nichols para sua mãe, que está em uma casa de repouso. Ao que parece, ela foi sequestrada por alienígenas quando era jovem e algum tempo depois concebeu Nichols, embora fosse virgem na época. Isto, naturalmente, alude à Virgem Maria e ao nascimento de Jesus Cristo. No universo de Cohen, não é despropositado fazer essas conexões.

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FOI DEUS QUE MANDOU funciona bem como complemento para outros trabalhos talvez mais conhecidos de Larry Cohen, como I’TS ALIVE (74) e Q (82). Todos os três filmes são visões apocalípticas que evidenciam a ira de Deus em resposta às desilusões da estrutura familiar (IT’S ALIVE), um Deus que envia uma serpente alada contra a humanidade (Q) e, no mais emblemático, FOI DEUS QUE MANDOU, acentua a incapacidade do homem de discernir o poder de Deus, especialmente o do antigo testamento, vingativo, que usa o homem como peão para sua própria destruição.

A CASA DO DRÁCULA (1945)

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Mais um adendo à peregrinação dos filmes de Frankenstein da Universal que tenho feito aqui no blog. Depois de A CASA DE FRANKENSTEIN, o monstro retorna agora, ainda que minimamente, em A CASA DO DRÁCULA (House of Dracula).

Descrever a trama deste aqui é um exercício praticamente inútil, especialmente se você tem acompanhado as postagens recentes sobre o tema… A fórmula é basicamente a mesma dos últimos filmes, os personagens também são exatamente os mesmos – Drácula, monstro de Frankenstein, Talbott/Lobisomem – os mesmos temas… E existe ainda o risco de começarmos a procurar coisas que façam sentido nessas bagunças que misturam monstros, mas será tudo em vão. De qualquer maneira, vamos lá…

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O personagem que vai conduzir o fio desta vez, em A CASA DO DRÁCULA, é o Dr. Franz Edelmann (Onslow Stevens), um médico idealista, especializado, aparentemente, no tratamento de monstros, já que sua sala de espera está cheia de vampiros, lobisomens e o Monstro de Frankenstein… Na verdade, a trama começa quando o Conde Drácula (John Carradine) aparece. Ao que tudo indica, o vampirão está entediado com a vida eterna e quer se tornar um humano normal. E o Dr. Edelmann tem um tratamento revolucionário para isso, que envolve transfusão de sangue e algo a ver com glândulas, cirurgia craniana e, bom, não vale a pena se apegar nesses detalhes…

Larry Talbott, o Lobisomem, novamente encarnado por Lon Chaney Jr., também aparece por aqui com seu eterno desejo de morrer. Como as coisas não correm bem, o sujeito tenta tirar a vida se jogando de um penhasco. Felizmente, há uma caverna subterrânea na qual Larry acaba indo parar. O médico o resgata, e quem eles encontram soterrado no local? Claro… O Monstro de Frankenstein. Eu sei que isso vai ser difícil de acreditar, mas a partir daqui o enredo consegue ficar ainda mais bizarro. Cenas de transfusões de sangue com o Drácula, tentativas de reviver o monstro de Frankenstein, assassinatos misteriosos e, claro, a multidão de aldeões portadores de tocha empenhados em destruir tudo. Como vimos em todos os filmes anteriores…

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Lon Chaney Jr. repetindo a mesma performance como Larry Talbott/Lobisomem já deu, né? O sujeito até tenta dar alguma dignidade à sua atuação, mas é uma causa perdida a essa altura. John Carradine prova ser o Drácula mais chato da história. As únicas duas atuações que merecem destaque são a de Onslow Stevens como Dr. Edelmann, com uma pegada meio “O Médico e o Monstro”, e Jane Adams, que faz a enfermeira assistente do doutor e que, para não perder o costume, é corcunda.

De resto, não há uma construção muito boa de suspense ou mistério. Na verdade, a impressão que dá é de desespero da Universal em manter sua audiência interessada em filmes de monstro, realizando qualquer porcaria pra ver se dava certo… E olha que eles nem tinham feito ainda ABBOTT E COSTELLO CONTRA FRANKENSTEIN. Mas apesar da bobagem, eu até gosto deste, me divirto com a dupla de comediantes se metendo em confusão com os ícones do horror. Já A CASA DO DRÁCULA, é só um desperdício de celuloide…

A CASA DE FRANKENSTEIN (1944)

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A CASA DE FRANKENSTEIN (House of Frankenstein), lançado um ano depois de FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM, foi um dos infames (mas comercialmente bem-sucedido) filmes de crossover de monstros da Universal. Aqui temos Drácula, Lobisomem e o Monstro de Frankenstein, embora talvez curiosamente seus papéis não sejam realmente centrais. Não é lá um filme muito bom, mas tem seus momentos e é estranhamente agradável de se assistir. Até porque possui uma variedade formidável de ícones do horror do período em seu elenco: Boris Karloff retornando à serie, John Carradine, Lon Chaney Jr e J. Carrol Naish.

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Na trama, o Dr. Gustav Niemann (Boris Karloff) continua o trabalho do famoso Dr. Frankenstein e, como resultado, agora está apodrecendo na prisão. Ele ainda sonha em retomar o trabalho, mas parece improvável que seja capaz de fazê-lo encarcerado. Então o destino intervém – a prisão é atingida por um vendaval que destrói os seus muros, permitindo que Niemann e um outro prisioneiro, o corcunda Daniel (J. Carrol Naish), escapem.

Agora, Niemann pode voltar às suas experiências. Mas há duas tarefas que ele precisa realizar primeiro: encontrar os cadernos do Dr. Frankenstein e se vingar dos homens cujo testemunho o colocou na prisão. Então, com Daniel como seu fiel assistente, ele tem uma série de atividades ambiciosas para colocar em prática. E a partir daqui o filme vira uma bagunça de monstros surgindo pra todo lado…

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Na fuga, um encontro casual com um show itinerante da Câmara dos Horrores dirigido por um tal professor Lampini (George Zucco) oferece a Niemann a oportunidade útil de disfarce perfeito, permitindo que viaje pelos campos sem ser reconhecido ou atraindo suspeita. Uma das exposições de Lampini é o esqueleto de Drácula. É claro que ninguém acredita que é o esqueleto do famoso vampiro, mas quando Niemann remove a estaca do esqueleto, descobre que é realmente o Conde Drácula, que volta à vida.

Encerrado o arco com o Drácula, Niemann está ansioso para voltar ao seu laboratório, especialmente depois de encontrar não apenas os preciosos cadernos do Dr. Frankenstein, mas também os corpos congelados do Lobisomem e do Monstro de Frankenstein. O cientista tem um interesse particular em transplantes de cérebro e agora ele tem muitos cérebros e muitos corpos para brincar. E obviamente, como se trata de um filme horror, você não pode sair por aí ressuscitando mortos e transplantando cérebros de monstros sem que algo dê errado. E nesse caso, o que dá errado é um trágico triângulo amoroso entre o corcunda, o lobisomem e uma cigana…

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Talvez o grande problema de A CASA DE FRANKENSTEIN seja justamente essa combinação desnecessária de vários monstros… Quero dizer, claro que eu adoro a ideia de juntar esses ícones do horror num mesmo filme, mas que seja de uma maneira bem pensada. Por aqui, a trama do Dr. Niemann com seu fiel ajudante, o corcunda Daniel, já tinha material suficiente para um grande filme. Mas resolveram entuchar de monstros sem exatamente uma conexão lógica com o enredo.

O roteiro de Edward T. Lowe Jr (baseado na história de Curt Siodmak) não consegue resolver essa dificuldade. O trecho de Drácula, por exemplo, acaba sendo como um curta-metragem dentro do filme. A história do Lobisomem apaga totalmente a presença do Monstro de Frankenstein, que acaba desempenhando apenas um papel insignificante no final. Como disse, o principal foco da trama é a história da obsessão de Niemann por superar as conquistas de Frankenstein, combinada com os trágicos envolvimentos românticos causados ​​pela chegada da bela cigana Ilonka (Elena Verdugo) no pobre corcunda Daniel. E isso bastava.

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Se os vários aspectos da trama nunca se juntam com muito sucesso, é preciso destacar pelo menos que o filme é tecnicamente bem executado. O diretor Erle C. Kenton mantém um ritmo frenético e oferece muitas emoções ao longo dessa bagunça. Alguns toques visuais são bem interessante (como a cena do assassinato do morcego-vampiro visto apenas em silhueta). A Universal sempre teve a proeza de conseguir fazer com que seus filmes de terror menores, sem grandes orçamentos, parecessem produções mais ricas e aqui não é exceção. Os cenários são impressionantes, especialmente a caverna de gelo onde Frankenstein e Lobisomem são encontrados. As cenas de transformação de monstros são bem feitas, especialmente a do Drácula que vai do estágio de esqueleto até chegar a um vampiro de carne e osso.

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E as atuações, como sempre, variam de boas à excelentes. O desempenho de Karloff é interessante, com seu Dr. Niemann sempre afável, falado em voz baixa e até gentilmente, mas basta alguém se colocar em seu caminho e ele os descarta com crueldade de tirar o fôlego. É como se ele estivesse tão obcecado por seu trabalho que matar é apenas uma pequena irritação. Só é meio estranho vê-lo de volta à série sendo que ele fora o primeiro monstro de Frankenstein, nos três filmes maids marcantes. Portanto é meio bizarro vê-lo contracenando com o monstro (desta vez interpretado por Glenn Strange, que se tornaria oficialmente o monstro nos filmes seguintes produzidos pela Universal).

Lon Chaney Jr. poderia ter interpretado Larry Talbott/Lobisomem até de olhos fechados a essa altura, mas ele adiciona seus toques característicos de pathos, a tragédia, a vontade morrer, o que é sempre bom de ver. John Carradine é um Drácula sinistro e eficaz, uma pena que aparece tão pouco, mas no filme seguinte, A MANSÃO DE DRÁCULA, ele retorna ao personagem. J. Carrol Naish é quem acaba se destacando por aqui como o corcunda Daniel, um assassino de sangue frio, um fiel ajudante e uma vítima de um amor que deu errado.

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A CASA DE FRANKENSTEIN pode até ser desconjuntado, é um pouco mais do que um amontoado de idéias não muito originais e de acumulação de monstros sem qualquer sentido, mas tudo é tão  bem executado visualmente que não se pode deixar de perdoar seus defeitos. E é sempre divertido vê-los tentando espremer ainda mais de uma fórmula tão desgastada. Acaba por ser mais um filme de monstro da Universal que recomendo uma conferida.

FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM (1943)

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FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM (Frankenstein Meets the Wolf Man) foi o primeiro dos grandes crossovers de monstros da Universal. O que na verdade faz parte de uma tentativa desesperada de açoitar um cavalo morto. Já que o filme anterior do Monstro de Frankenstein já demonstrava o desgaste da fórmula*. Embora nos anos 40 ainda surgissem coisas interessantes, como O LOBISOMEM, que comentei no post anterior, ou passatempos patetas, como este aqui, que apesar da bobagem inerente da ideia, é um filme que acaba sendo bem mais divertido do que tinha o direito de ser…

*Quando me refiro a “desgaste da fórmula”, falo especificamente dos “filmes de monstros”… Frankenstein, Drácula, Homem Invisível, personagens que ganharam várias continuações na Universal. No entanto, de um modo geral, a Universal continuava fazendo filmes brilhantes de Horror.

Grande parte de FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM é mais uma continuação de O LOBISOMEM do que de FANTASMA DE FRANKENSTEIN. A trama se passa quatro anos após os eventos que levaram a Larry Talbot, o Lobisomem, mais uma vez encarnado por Lon Chaney Jr., à derrocada. Ladrões de túmulos invadem a cripta da família Talbot, acreditando que dinheiro e jóias foram enterrados com o corpo de Larry, mas quando abrem o caixão, com a lua cheia no céu, o Lobisomem volta à vida.

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Alguns dias depois, Larry acorda num hospital em Cardiff, bem longe do local onde estava seu túmulo. Sua surpresa por estar vivo logo dá lugar ao desespero quando percebe a terrível verdade: que não pode morrer. E tudo o que o sujeito quer é exatamente isso, morrer. Portanto, vai à procura de alguém que possa ajudá-lo. Ele encontra a cigana Maleva, a mãe de Bela, o homem que o transformou em um lobisomem no filme anterior. Maleva diz que há alguém que pode ajudá-lo: o famoso Dr. Frankenstein. Só que quando encontram o castelo de Frankenstein, descobrem que os moradores o incendiaram para destruir o Doutor e seu monstro, como vimos em FANTASMA DE FRANKENSTEIN. Mas no local, procurando os diários do cientista, Larry encontra o monstro envolto de gelo, vivo!

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Acreditando que o monstro pode lhe dizer onde os escritos do Dr. Frankenstein estão escondidos – que contêm o segredo da vida e da morte – Larry libera o monstro. Mas não conseguem encontrar os documentos.

Larry não desiste e encontra a filha do Dr. Frankenstein, que eventualmente ajuda a encontrar o diário do cientista. Na sua busca pela morte, Larry acha outro aliado, o médico que o tratou no hospital, o Dr. Frank Mannering, que restaura o laboratório de Frankenstein no castelo demolido para livrar o protagonista de sua agonia, mas os resultados não são exatamente o que Larry esperava.

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O fato de FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM funcionar de certa maneira tem muito a ver com as pessoas talentosas envolvidas na produção. Curt Siodmak havia escrito o belo roteiro de O LOBISOMEM, e mesmo que aqui a coisa não saia tão certo – a história é extremamente forçada e alguns diálogos são terríveis – dá pra perceber que contém algumas idéias interessantes. Roy William Neill era diretor de vários filmes de Sherlock Holmes da Universal e tinha jeito para suspense, para a construção de uma atmosfera gótica e sombria que ajuda a tornar o filme visualmente atrativo.

Além disso, temos mais uma vez Jack Pierce fazendo as maquiagens. As cenas de transformação do Lobisomem, por exemplo, são até melhores do que a do filme anterior do personagem. Tecnicamente, FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM acaba se revelando um filme muito bom, com vários ótimos momentos isolados. A revelação do monstro atrás da parede de gelo é um destaque, assim como o confronto maluco entre os dois personagens título perto do fim… Que poderia ter uma duração um pouco maior. Mas dá pro gasto.

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No elenco, Lon Chaney Jr mais uma vez apresenta uma performance sensível como o trágico Larry Talbot. E Bela Lugosi, depois de tentar o papel de monstro de Frankenstein desde o primeiro filme, lá em 1931, finalmente consegue encarnar o personagem. Não é das suas melhores atuações (ele está muito melhor como Ygor), mas o faz com certa personalidade. Claro, nem parece o mesmo monstro dos filmes anteriores, mas isso acaba não importando… Até porque esses filmes de monstros da Universal não estão nem aí para a lógica. No FANTASMA DE FRANKENSTEIN, por exemplo, haviam colocado o cérebro de Ygor no corpo do monstro. Mas ao acordar aqui, isso é totalmente ignorado e o personagem age como o monstro estúpido de sempre. Como disse, isso pouco importa.

No fim das contas, apesar dos realizadores estarem claramente espremendo as últimas gotas da laranja, FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM é feito com um grau de habilidade que o material talvez nem merecesse… Mas é uma bobagem bem agradável de se assistir.

O LOBISOMEM (1941)

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Tive que acrescentar um adendo à maratona de filmes sobre Frankenstein que venho postando aqui no blog. O Adendo é O LOBISOMEM (The Wolf Man) e vou explicar o porquê. Depois de FANTASMA DE FRANKENSTEIN, o personagem só retorna em FRANKENSTEIN MEETS THE WOLF MAN, que é o primeiro crossover do personagem com outro monstro clássico da Universal. Então, nada mais justo que apresentar este outro monstro e falar um pouquinho deste seu primeiro filme.

Só que estamos falando de um Lobisomem específico, cujo protagonista é Larry Talbot, vivido por Lon Channey Jr. Porque O LOBISOMEM não foi, obviamente, o primeiro filme de lobisomem… Não foi nem o primeiro filme de lobisomem da Universal, que ainda na década de 30 havia lançado THE WEREWOLF OF LONDON (1935). Mas este aqui foi o filme responsável por colocar lobisomens no mapa, definindo o modelo no qual a maioria dos futuros filmes com o personagem seria inspirado.

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Larry Talbot é o segundo filho de um barão inglês, Sir John Talbot (Claude Rains). Como não é o primogênito, não podia herdar a propriedade ou nenhum título e, sentindo que seu pai pouco se importava com ele, fez as malas e se mudou para os Estados Unidos. Como resultado da morte inesperada do filho mais velho de Sir John, tudo mudou. Larry voltou ao seio da família após dezoito anos, embora talvez mais por um vago senso de dever familiar do que por qualquer outra coisa. No entanto, quando Sir John sugere que eles devem esquecer o passado e reatar os laços, Larry aceita sua posição como herdeiro.

Quando Larry conhece Gwen (Evelyn Ankers), o sujeito começa a se sentir mais animado no local. Embora esteja noiva do chefe de guarda de Sir John, a moça também parece demonstrar algum interesse no protagonista. Tudo está indo bem até a fatídica noite em que Larry e Gwen visitam um campo cigano, acompanhado por Jenny, amiga de Gwen, que deseja ler sua sorte. Mas o cigano Bela (Bela Lugosi) fica meio agitado quando olha para a palma da mão dela e vê um pentagrama. Momentos depois, Larry vê Jenny sendo atacada por um lobo e vai salvá-la. Acaba mordido, mas consegue matar o animal. Os únicos corpos encontrados, no entanto, são o de Jenny e de Bela. Nenhum lobo… Bela era, naturalmente, um lobisomem, e agora esse também será o destino de Larry.

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O roteiro original de Curt Siodmak tinha o personagem de Larry como um americano chamado Larry Gill, que não tinha qualquer relação com Sir John Talbot. Ele simplesmente veio à Inglaterra para instalar um telescópio para o velho. Mais importante, essa primeira versão sugeria que Larry simplesmente acreditava que ele era um lobisomem, mas a questão da transformação física ficava ambígua. Ainda há vestígios dessa versão no filme quando Sir John acredita que seu filho está sofrendo de uma ilusão provocada por algum choque, e que o lobisomem é uma metáfora para o lado sombrio da personalidade humana. Uma metáfora que teria se tornado real na mente de Larry.

Embora essa versão tenha ideias interessantes, e de fato é a base para o excelente CAT PEOPLE, de Jacques Tourneur e produzido por Val Lewton no ano seguinte. A Universal, no entanto, tomou a decisão de pedir a Siodmak que reescrevesse o script para tornar o lobisomem um monstro real, sem ambiguidade. Afinal, é o que o público da Universal esperaria. Os filmes de Lewton/Tourneur adotaram uma abordagem diferente de se fazer horror, mas ambas aproximações são válidas à sua maneira.

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Em O LOBISOMEM, Lon Chaney Jr. tem a sua melhor performance. Ele faz de Larry Talbot um personagem dramático e complexo que talvez seja a chave para o grande sucesso do filme. Ele é o mais trágico de todos os monstros da Universal, um homem que não fez nada para merecer seu destino. E Chaney consegue transmitir tudo isso sem recorrer a um sentimentalismo barato. Outro ator que vale destacar é Claude Rains como Talbot pai, excelente como sempre. Bela Lugosi brilha no seu breve tempo na tela, mas é  vergonhosamente subutilizado. Merecia muito mais…

O diretor George Waggner pode não ter sido o realizador mais inspirado do mundo, mas é bom o suficiente para trabalhar os elementos de horror com competência, consegue criar uma atmosfera densa e ainda dá uma boa atenção ao estado psicológico do protagonista. A fotografia e direção de arte se combinam para tornar O LOBISOMEM visualmente aterrorizante, especialmente nas cenas noturnas, nas florestas e pântanos envoltos de névoa, todos cenários construídos em estúdio. Acabam parecendo artificiais, mas num bom sentido, dando ao filme a sensação de um conto de fadas sombrio. E ainda temos a maquiagem de lobisomem criada por Jack P. Pierce (o mesmo da série de FRANKENSTEIN), que mais uma vez torna icônico o visual de um monstro clássico.

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Posso dizer com toda certeza que O LOBISOMEM é um dos grandes filmes de monstro do período e sua estrutura de tragédia grega é fascinante, que funciona maravilhosamente bem como um filme de horror, mas com um impacto emocional maior do que a maioria dos filmes do gênero que a Universal produzia.

FANTASMA DE FRANKENSTEIN (1942)

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FANTASMA DE FRANKENSTEIN (Ghost of Frankenstein) é o quarto filme da série do monstro de Frankenstein que a Universal produziu e, não surpreende em nada, é o mais fraco até então. Mas ainda é divertido por vários motivos.

E uma das coisas que mais me alegra nesses filmes é como os realizadores forçavam a barra na cara dura para continuar a história. Personagens mortos voltam sem qualquer explicação, conveniências caem no colo do espectador, que simplesmente tem que aceitar e se divertir com tanta bobagem. Mas que no fim das contas tem seu charme. FANTASMA DE FRANKENSTEIN, por exemplo, começa quase imediatamente após os eventos de O FILHO DE FRANKENSTEIN, que comentei recentemente. Descobrimos que mesmo cravado de balas, Ygor (Bela Lugosi) sobreviveu. Os moradores da região decidem que queimar o Castelo Frankenstein e matar de vez Ygor é o único jeito de levar paz ao local. Infelizmente, para eles, não apenas falham em matar Ygor, como também ao usarem explosivos no castelo trazem o monstro (agora encarnado por Lon Chaney Jr.), que havia caído num poço de enxofre fervente, de volta à vida.

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Agora, numa dessas demonstrações de que a Universal estava espremendo as ideias forçadas até a última gota, Ygor e o monstro partem para uma cidade vizinha em busca de OUTRO filho do Dr. Frankenstein, o também doutor Ludwig Frankenstein (Cedric Hardwicke), que convenientemente é um especialista em doenças da mente…

Mal chegam ao local e imediatamente começa a confusão. O monstro tenta ajudar uma menina, mas acaba matando duas pessoas da cidade no processo. Acaba preso, mas é claro que a polícia não pode segurá-lo por muito tempo. Depois de escapar, Ygor e o monstro se abrigam na casa de Ludwig, que é chantageado para ajudá-los a tornar o monstro mais forte. Ludwig propõe um plano: substituir o cérebro da criatura por um saudável (lembrando que lá no primeiro filme, o monstro recebe o cérebro de um psicopata). Felizmente, Ludwig tem em mãos o cérebro de seu jovem assistente, convenientemente morto pelo monstro. Só que Ygor tem seu próprio plano, que é utilizar o seu cérebro, e assim ele e a criatura se tornariam um só.

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Bela Lugosi em FANTASMA DE FRANKENSTEIN mais uma vez rouba a cena interpretando Ygor. O desempenho um bocado sem vida de Cedric Hardwicke como Ludwig Frankenstein e o monstro inexpressivo de Lon Chaney Jr, que não consegue substituir Boris Karloff à altura, facilita para que Lugosi se destaque. O sujeito estava ainda em plena forma e o roteiro faz seu personagem dominante, da mesma maneira que em O FILHO DE FRANKENSTEIN. Lionel Atwill – que fez outro papel no filme anterior – retorna agora como assistente-chefe de Ludwig Frankenstein, Dr. Bohmer, que é um personagem muito mais interessante e complexo do que o próprio Ludwig. Bohmer foi o mentor científico de Ludwig até que um erro infeliz destruiu sua carreira. Suas ambições de restaurar sua reputação estão associadas às maquinações de Ygor.

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Ainda sobre o elenco, A ausência de Karloff obviamente é uma grande perda. O ator não se interessou muito em reviver o monstro e usar a pesada maquiagem de Jack P. Pierce. E é também lamentável que Basil Rathbone, que tinha feito o excelente Wolf Frankenstein no filme anterior, não estivesse disponível.

Como era habitual nos filmes de monstros da Universal, o roteiro de FANTASMA DE FRANKENSTEIN passou por várias reescritas, mas o diretor Erle C. Kenton era, na melhor das hipóteses, um artesão habilidoso que conseguiu pelo menos manter o ritmo e não deixar a coisa se transformar num tédio. E o filme tem pouco mai de uma hora, passa voando. O FILHO DE FRANKENSTEIN, em 1939, havia sido a última tentativa da Universal de continuar sua tradição de filmes de terror com uma produção abastada. Fizeram obviamente bons filmes de terror depois disso, mas eram B movies, com orçamentos mais discretos, como é o caso de FANTASMA DE FRANKENSTEIN. O filme não possui cenários suntuosos e imaginativo em comparação aos filmes anteriores, mas até que não são ruins. E a fotografia é excelente, como em todos os filmes de monstros da Universal. Sombria e recheada de elementos góticos.

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FANTASMA DE FRANKENSTEIN marcou uma desaceleração significativa no ciclo de filmes com o universo Frankenstein pela Universal. Foi a última produção, por exemplo, a ter o Monstro de Frankenstein numa “aventura” solo. Todos os filmes seguintes o personagem dividiu a tela com outros monstros da produtora, como DRACULA e WOLF MAN… De qualquer maneira, FANTASMA DE FRANKENSTEIN vale uma conferida. Os roteiristas já estavam tirando leite de pedra para trazer um novo parente de Frankenstein e poder continuar a história, mas não significa que seja um filme ruim. É legal para quem já está acostumado com esse tipo de produção e ainda tem o Lugosi mais uma vez demonstrando porque é um dos maiores ícones do horror clássico.

O FILHO DE FRANKENSTEIN (1939)

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Em 1938, a Universal relançou nos cinemas as suas duas primeiras produções do ciclo de filmes de Monstros: DRÁCULA, de Tod Browning, e FRANKENSTEIN, de James Whale, que comentei aqui no blog recentemente. Foi um sucesso. Parecia que o apetite do público por filmes de terror estava mais forte do que nunca. Então, a Universal tomou a sábia decisão de fazer um terceiro exemplar com o monstro de Frankenstein – sem a direção de James Whale, mas com um sujeito talentoso no comando, Rowland V. Lee, e uma escala generosa de cenários e direção de arte. O resultado veio no ano seguinte, o excelente O FILHO DE FRANKENSTEIN (Son of Frankenstein).

O estúdio decidiu ainda que o elenco seria encabeçado por seus dois maiores astros do gênero. Boris Karloff voltaria a encarnar o seu icônico monstro e Bela Lugosi, mais conhecido com seu papel em DRÁCULA, contracenaria com seu “rival”. Peter Lorre faria o filho do infame Dr. Frankenstein, mas recusou, então foram atrás de Basil Rathbone, uma decisão acertadíssima.

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Rathbone é o Dr. Wolf Frankenstein, que não é o típico cientista louco como seu pai. É um educado professor universitário que passou sua carreira nos EUA vivendo a reputação infame de seu pai, o Dr. Frankenstein, que deu vida ao notório monstro feito de pedaços de cadáveres. Como herdou o Castelo de seu pai, do outro lado do Atlântico, achou que seria uma boa ideia morar lá com a esposa e o filho pequeno. Porque achou que seria uma boa, permanece um mistério… Obviamente, depois do que vimos nos dois filmes anteriores, os moradores da região ficaram ressabiados com a ideia de um novo Dr. Frankenstein vivendo novamente no local. Até porque tem havido uma série misteriosa de assassinatos por aquelas plagas.

Wolf Frankenstein, já no local, aproveita para investigar o laboratório de seu pai, que vimos que fora quase todo destruído no segundo filme. Lá ele encontra Ygor (Lugosi), ferreiro que costumava ganhar dinheiro extra roubando túmulos para o antigo Dr. Frankenstein. Ele foi enforcado por seus crimes, mas sobreviveu. Seu pescoço quebrou mas a medula espinhal ficou intacta e ele agora tem um osso saliente no pescoço, dando-lhe a aparência bizarra e curvada típica dos personagens clássicos filmes de horror. Legalmente o sujeito está morto, portanto, mesmo vagando normalmente pela região, Ygor está fora do alcance da lei. Só que ele não esqueceu os oito homens do júri que o condenaram.

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E Ygor não é o único indivíduo que “retornou” dos mortos. O monstro ainda vive, aparentemente em uma espécie de coma. Ygor implora ao novo Dr. Frankenstein para trazê-lo de volta à vida. A curiosidade científica de Wolf é despertada com a ideia de que ele poderia recuperar a reputação de seu falecido pai continuando seu trabalho. E bota a mão na massa, sem muito sucesso. Alguns dias depois, no entanto, seu filho menciona um gigante perambulando e Wolf percebe que o Monstro caminha novamente.

Só que seus problemas se acumulam. Mais assassinatos vão acontecendo e o chefe da polícia, o inspetor Krogh (Lionel Atwill, genial), está começando a ficar cada vez mais desconfiado que um mal do passado pode ter retornado ao local. Krogh perdeu um braço para o monstro na infância, então ele tem um interesse pessoal nos trabalhos científicos da família Frankenstein.

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Boris Karloff novamente interpreta o Monstro com bastante força, mas com Bela Lugosi se destacando no papel de Ygor, um personagem bem mais interessante e substancial do que o do Monstro em O FILHO DE FRANKENSTEIN. Lugosi ganha muito tempo de tela e, de fato, domina o filme. É uma das raras ocasiões de sua carreira, depois de interpretar o personagem título em DRACULA, que Lugosi tirou o melhor proveito da Universal. E aproveita a oportunidade apresentando uma performance poderosa que é um dos destaques de sua carreira.

O Wolf Frankenstein de Rathbone é um homem que, desde o início, se encontra numa situação pela qual está irremediavelmente mal preparado e começa a perder o controle. O desempenho de Rathbone se aproxima cada vez mais da histeria e lá pelas tantas, o sujeito dá um espetáculo de atuação. Mas quem realmente rouba a cena é Lionel Atwill, excelente como um sujeito cumprindo seu dever conjuntamente tentando não deixar seus sentimentos pessoais atrapalharem. E Atwill se diverte bastante com o seu braço mecânico, que adiciona um toque engraçado, ao mesmo tempo grotesco.

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O roteiro de O FILHO DE FRANKENSTEIN foi escrito duas vezes. E o produtor-diretor Rowland V. Lee não gostou de nenhuma das duas versões e começou ele mesmo a reescrever. Ainda estava reescrevendo-o quando as filmagens começaram e nunca houve realmente um roteiro final. Ainda assim, Lee manda bem na direção, o filme tem bom ritmo e alguns momentos atmosféricos. E mesmo assim continuou reescrevendo o roteiro enquanto prosseguia com as filmagens. Surpreendentemente, as coisas acabam se encaixando bem, mesmo com a longa duração de quase 100 minutos, o que é um exagero em comparação aos outros filmes de monstro do período. A direção de arte também contribuiu enormemente para o sucesso do filme, com alguns dos melhores cenários que eu já vi nesses filmes de horror da Universal.

O filme foi um triunfo retumbante nas bilheterias e gerou um bom lucro para a produtora. Seja lá por quais motivos, os filmes de horror seguintes da Universal não tiveram o mesmo orçamento, sempre menor, mesmo O FILHO DE FRANKENSTEIN provando que um filme de terror bem feito, bem produzido, é ouro nas bilheterias. Visualmente, fica no mesmo nível dos filmes de Whale, FRANKENSTEIN e A NOIVA DE FRANKENSTEIN. Possui uma história sólida, cenários incríveis, personagens complexos e ótimas performances (especialmente de Lugosi e Atwill). E eu não poderia pedir mais que isso. Altamente recomendado para quem gosta dos filmes anteriores e do ciclo de filmes de monstro da Universal.

A NOIVA DE FRANKENSTEIN (1935)

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Aproveitando o embalo, resolvi rever também A NOIVA DE FRANKENSTEIN, a célebre continuação do filme que comentei no post anterior, FRANKENSTEIN, novamente dirigido pelo James Whale, um dos diretores mais visionários do ciclo de horror da Universal. E com Boris Karloff mais uma vez reprisando o papel de monstro de forma sublime.

O filme começa com um prólogo curioso, mas que faz alusão ao real processo criativo de Mary Shelley quando concebeu seu clássico. O prólogo apresenta os poetas Lord Byron e Percy B. Shelley, numa noite chuvosa, ouvindo a esposa deste último, Mary, continuando sua história onde o romance parou. E aí começa A NOIVA DE FRANKENSTEIN, que retoma a história no ponto exato em que FRANKENSTEIN de 1931 terminou. O monstro supostamente incinerado no moinho em chamas e o corpo do infeliz Henry Frankenstein (Colin Clive), depois de uma violenta queda mostrada no clímax do filme anterior, é devolvido ao castelo de seu pai e à sua noiva em luto, Elizabeth (Valerie Hobson).

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Só que o Dr. Frankenstein milagrosamente não morreu. O tempo passa e ele consegue se recuperar, mas está determinado a esquecer seus terríveis experimentos. A chegada de um famigerado professor, Dr. Pretorius (Ernest Thesiger, genial), muda tudo isso. Pretorius tem trabalhado (de uma maneira particularmente bizarra) também na criação de vida artificial, e ele quer a ajuda de Frankenstein. Nem que tenha que recorrer a métodos extremos para convencer o jovem cientista.

De longe o personagem mais memorável do filme (e digo isso num filme que inclui dois monstros), o Dr. Pretorius é duas vezes mais maluco do que Henry Frankenstein. E também adora criar monstros profanos. Numa das minhas sequências favoritas, Pretorius mostra a Frankenstein suas últimas criações: seres humanos em miniatura que ele guarda em jarros. Um rei e uma rainha; um papa, um homem a quem Pretorius se refere como “um diabo”; uma bailarina e uma sereia que vive em uma garrafa de água… A sequência não acrescenta muito à narrativa, mas é impressionante tecnicamente, um espetáculo de efeitos especiais e imaginação que é difícil não ficar encantado.

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A ideia de Pretorius agora é criar uma versão feminina do mostro original de Frankenstein. Ficamos sabendo que o monstro, assim como seu criador, sobreviveu ao moinho ardente e agora percorre as florestas locais causando o caos e tentando fazer amigos, o que por sua vez cria mais caos… As andanças do monstro acabarão por levá-lo de volta ao laboratório de Frankenstein, onde Pretorius o usará para forçar o cientista a voltar ao trabalho. E finalmente, depois de muitas sub-tramas, Frankenstein e Pretorius dão vida à NOIVA DE FRANKENSTEIN… quero dizer, à companheira do monstro (interpretada por Elsa Lanchester, que também faz Mary Shelley no prólogo), só que os resultados são catastróficos!

É interessante notar uma certa falta de interesse de Whale em construir um filme de horror tradicional em A NOIVA DE FRANKENSTEIN. Na verdade, o diretor não parecia interessado no gênero de forma alguma, e acaba criando algo bem diferente do que se espera. Alguns momentos são cômicos (especialmente quando a atriz Una Connnor está em cena), outros mais melodramáticos. E Whale ainda consegue encaixar um toque muito pessoal à obra, um subtexto homossexual representado na parte em que o monstro faz amizade com um ermitão cego (O.P. Heggie) que vive numa cabana no meio da floresta. E agradece aos deuses por terem finalmente atendido suas preces e lhe abençoado com um “amigo”.

Eu cuidarei de você e você me confortará“, diz o eremita ao monstro.

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É a única relação frutífera e emocional dentro do filme, uma sátira dos valores familiares heterossexuais. Por outro lado, os relacionamentos “normais” do filme estão todos condenados. Henry Frankenstein e Elizabeth são frequentemente afetados pelas consequências das práticas do cientista. O próprio monstro e a noiva dele também são um fracasso – assim que a noiva o vê, grita, recua e prova que o amor não pode ser fabricado.

Assim, a história das duas almas solitárias excluídas pela sociedade é o único relacionamento que persevera de alguma forma. Um relacionamento que existe harmoniosamente até ser descoberto por membros regulares da sociedade. A desvantagem de ambos os personagens – um monstro, um eremita cego – pode ser vista como representações de homossexuais aos olhos hostis da sociedade.

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E o resto todos já sabem, só delícias. A NOIVA DE FRANKENSTEIN é considerado por muitos o melhor dos filmes de monstros da Universal. Ou de todos os tempos. E assim como o primeiro, é recheado de momentos clássicos e marcantes. Como a sequência que o monstro é capturado e pregado a um poste que remete a uma espécie de crucificação bíblica, ou o final, a criação da noiva do monstro e sua primeira aparição, um espetáculo de montagem e closes expressivos. A sua presença não deve durar nem cinco minutos no filme, mas é suficiente para tornar a figura de Elsa Lanchester um ícone da cultura pop.

Os cenários são maravilhosos, assim como a maquiagem e a fotografia expressionista de John J. Mescall. James Whale novamente demonstra porque foi um dos diretores com mais personalidade do período. Enfim, A NOIVA DE FRANKENSTEIN é desses monumentos do horror clássico que merece toda a celebração que o precede.

FRANKENSTEIN (1931)

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FRANKENSTEIN, de James Whale, foi realizado imediatamente após o sucesso de DRACULA, de Tod Browning, com Bela Lugosi, que deu início ao ciclo de horror da Universal nos anos 30. Mas FRANKENSTEIN sempre me pareceu bem mais avançado e moderno, resistindo mais ao teste do tempo. Posso ver e rever que não me canso. Já o filme de Browning… Não que eu não goste de DRACULA, que também tem sua inegável importância para o gênero, mas não me encanta tanto quanto outros exemplares de horror do período. O impacto do filme de Whale, por exemplo, me parece mais evidente, mais forte numa seminal tradição entre os filmes de terror, definindo e consolidando o gênero. E sua influência continuou a reverberar durante muito tempo.

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A trama, que todos conhecem, é um conto moral, reflete uma punição que cai sobre o homem que se atreve a emular Deus. No caso, temos Henry Frankenstein, um jovem cientista que abandonou os estudos, família, noiva, para se enfurnar numa torre isolada e continuar realizando seus obscuros experimentos. Que consiste também em vagar à noite pelo cemitério procurando membros de diversos cadáveres para costurá-los e criar um novo ser. Um ser criado pelas mãos de um homem. Frankenstein deseja criar vida, não apenas para o benefício da ciência, mas para saber como é ser Deus.

Mas para dar vida a esta criatura, um cérebro é necessário. Após uma confusão de seu assistente corcunda, Fritz, ele acaba colocando o cérebro de um criminoso na sua criação. Mesmo com sua família e amigos tentando fazê-lo desistir desta ideia maluca, Henry infunde vida na criatura, que escapa para o vilarejo e começa a causar estragos.

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O filme é uma sucessão de cenas clássicas, desde Frankenstein pondo-se a gritar “IT’S ALIIIIIIVE”, passando pela sequência em que a criatura joga uma menina num lago, até o confronto final no moinho. A primeira aparição da criatura também é um dos pontos altos, com Boris Karloff magistral em sua composição gestual e com a maquiagem icônica, que definiu os parâmetros visuais do personagem por pelo menos meio século. O gênio da maquiagem da Universal Jack P. Pierce concebeu a aparência única do monstro, com seu penteado eletrificado de ponta chata, cavilhas no pescoço, pálpebras pesadas, mãos cicatrizadas alongadas… Conseguiu fazê-lo parecer assustador, mas também dá um certo tom de ingenuidade e inocência à criatura.

O monstro do romance Frankenstein, de Mary Shelly, é um personagem complexo em várias camadas, digno de uma tragédia shakespeariana. Ele é vítima e vitimizador, insensível e sensível, uma criança inocente e um vilão completamente formado. Já para a versão cinematográfica, essas nuances do personagem talvez fossem pouco atraentes para o público da época. Na tentativa de diluir o personagem para as massas, o diretor James Whale e sua equipe acabaram criando algo pelo qual o público, além de temer, também pudesse ter empatia: o monstro totalmente inocente, muito estúpido para entender seus atos. Portanto, apesar de FRANKENSTEIN, de um modo geral, não ter a complexidade do original de Shelley, o filme possui uma poderosa simplicidade que lhe permitiu sobreviver até hoje.

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Não fosse também o trabalho de Whale na direção, talvez o filme não tivesse tanta força. Whale era um visionário criativo, bastante influenciado pelo expressionismo alemão da década de 20. O uso da iluminação de Whale marcou todo o ciclo de horror da Universal. O trabalho de câmera móvel, que permitia que o instrumento pudesse passear livremente pelos cenários, é digno dos grandes mestres da mise en scène. O plano do pai carregando a menina afogada nos braços em meio à multidão que reage aterrorizada, num longo travelling contínuo, é dessas imagens dignas de antologia.

O resultado é um filme de considerável força estilística, com a cinematografia assombrosa e cenários que mistura estilizados detalhes expressionistas e a solidez da arquitetura gótica e teutônica, que contribuem muito para a atmosfera sombria da produção. Whale também mostra uma compreensão sofisticada do som. Ao contrário de DRACULA e os filmes de terror do período, FRANKENSTEIN evita ao máximo usar uma trilha sonora. Whale usa sons do ambientes para ajudar a sustentar a atmosfera – o que é bem evidente na cena inicial do cemitério, por exemplo, onde um sino de igreja e o barulho de terra batendo na tampa de um caixão ressoam com uma precisão assustadora.

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Karloff estrelou as próximas duas sequências, A NOIVA DE FRANKENSTEIN (1935), também dirigido por Whale e SON OF FRANKENSTEIN (1939). Mas a série com o personagem sob a batuta da Universal continuou ao longo dos anos: THE GHOST OF FRANKENSTEIN (1942), FRANKENSTEIN MEETS THE WOLF MAN (1943), HOUSE OF FRANKENSTEIN (1944) e até a comédia ABBOT AND COSTELLO MEET FRANKENSTEIN (1948). Ao longo dos anos, várias outras franquias, filmes isolados e releituras foram surgindo, desde comédias como YOUNG FRANKENSTEIN, de Mel Brooks (1974) até a versão de Kenneth Branagh, em 1994, com Robert De Niro estrelando o monstro. Dizem que é uma das adaptações mais fieis do livro de Shelley. Ainda não assisti.

Embora FRANKENSTEIN esteja longe de ser impecável – o remorso de Henry Frankenstein é particularmente pouco convincente, diminuindo-o à mesquinha moralização – este clássico do horror é filmado com uma sensibilidade mítica que o coloca entre um dos mais icônicos exemplares do gênero na história do cinema.

Hammer Time: AS NOIVAS DO VAMPIRO (The Brides of Dracula, 1960)

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O sucesso das primeiras incursões da Hammer Film no terror gótico, nas releituras dos clássicos monstros como Frankenstein, Drácula, a Múmia e Lobisomem, fez com que as suas continuações fossem, obviamente, inevitáveis. No caso da sequência de O VAMPIRO DA NOITE (que comentei por aqui há alguns anos), primeiro exemplar da Hammer sobre o famigerado personagem Conde Drácula, a produtora se deparou com um pequeno problema: a ausência de seu astro, Christopher Lee. Existem relatos variados sobre o motivo pelo qual Lee não quis reprisar seu icônico papel (o principal seria para não ficar marcado pelo personagem, o que acabou acontecendo de qualquer maneira, já que o sujeito voltou a encarnar o vampirão diversas vezes nas duas décadas seguintes), mas seja lá qual for a verdadeira razão, a Hammer teve que se virar e encontrar um novo vampiro.

Encontraram David Peel, que não chega nem no calcanhar de Christopher Lee, mas faz um bom vilão vampírico. Felizmente, eles ainda tinham também o diretor Terence Fisher, bons roteiristas, como Jimmy Sangster, o ator Peter Cushing e praticamente a mesma equipe técnica que realizou O VAMPIRO DA NOITE. O resultado foi AS NOIVAS DO VAMPIRO, que se não possui a mesma força que o anterior, não deixa de ser também um filme de vampiro agradável, que possui todos os mesmos elementos visuais que adoramos nos filmes da Hammer.

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No final do século XIX, uma jovem professora, Marianne (Yvonne Monlaur), está à caminho para ocupar uma posição numa academia de jovens moças na Transilvânia. Meio perdida durante o trajeto, uma mulher mais velha, a baronesa Meinster (Martita Hunt), oferece à moça estadia em seu castelo. Os aldeões parecem aterrorizados com a baronesa, mas Marianne, que é uma jovem inocente, fica feliz em aceitar sua oferta. Ela logo descobre que a baronesa não mora sozinha. Em outra ala do castelo ela vê um jovem jeitoso, filho da baronesa, mas que se encontra acorrentado. Diante dessa situação, o rapaz a convence de libertá-lo.

E é claro que o jovem barão Meinster (Peel) é um vampiro. Apesar do título original aparecer o nome “Drácula”, isso nunca é mencionado no filme. O que leva o título nacional a ter uma maior coerência, mas de fato temos aqui as noivas vampiras. Marianne parece destinada a se juntar a elas, mas felizmente o Dr. Van Helsing (Cushing) está passando pela aldeia fazendo algumas pesquisas sobre vampirismo e novamente terá que entrar em ação.

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Aliás, ação é o que não falta por aqui. AS NOIVAS DO VAMPIRO é bem mais agitado que o seu antecessor. O roteiro aparentemente passou por várias reescritas e nota-se uma certa bagunça na história e na quantidade de personagens. Como resultado, certas sub-tramas foram deixadas penduradas enquanto a trama principal é cheia de buracos. O diretor Terence Fisher, mestre do gênero, ignora sabiamente esses detalhes e se concentra na atmosfera, no visual e em manter a ação em movimento, consciente de que o filme tem força suficiente para compensar suas fraquezas.

No elenco, vale destacar Peel (como já disse, consegue fazer um bom vilão se não for comparado a Lee) e Cushing, que está em boa forma, como na maioria das vezes nessas produções da Hammer. Yvonne Monlaur faz pouco além de parecer assustada e inocente, mas Martita Hunt está bem expressiva como baronesa, que se revela mais vítima do que vilã. Freda Jackson dá uma exagerada como a velha enfermeira do jovem barão, mas funciona. E Miles Malleson oferece um bom alívio cômico como um médico de moral duvidosa.

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Os cenários estão entre os melhores das produções de horror gótico do Hammer. O Castelo Meinster é particularmente impressionante. Bernard Robinson foi responsável pelo design de produção e é um dos seus melhores trabalhos. A maravilhosa fotografia em cores Technicolor de Jack Asher é outro grande trunfo.

Sem qualquer desrespeito a Christopher Lee, de certa forma dá para refletir em como AS NOIVAS DO VAMPIRO se beneficia de sua ausência, uma vez que libera os roteiristas dos grilhões da história de Drácula e permite que eles se desviem em uma direção diferente. É óbvio que um monumento como Christopher Lee faz falta, mas o esforço de fazer algo original e fora dos padrões é o que torna AS NOIVAS DO VAMPIRO num dos melhores exemplares do gênero produzidos pela Hammer.

Hammer Time: O MONSTRO DO HIMALAIA (1957)

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O MONSTRO DO HIMALAIA (The Abominable Snowman), é o terceiro filme da colaboração entre o diretor Val Guest e o escritor Nigel Kneale sob a batuta da Hammer Film. Apesar de não estar no mesmo nível de TERROR QUE MATA (The Quatermass Xperiment, 1955) e QUATERMASS 2 (1957), não fica muito atrás. Peter Cushing é um montanhista/cientista que lidera uma expedição no Himalaia em busca do lendário Yeti, mais conhecido como o abominável homem das neves. O sujeito quer capturar um espécime para fins científicos, ao contrário de seu parceiro, Tom Friend (Forest Tucker), que encara a expedição como uma maneira de fazer fortuna.

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Muito antes de TUBARÃO, de Steven Spielberg, Val Guest já estava determinado a usar a velha tática de mostrar o mínimo possível do monstro, o que não só aumenta a tensão nas sequências de suspense, especialmente para o público da época, mas também coloca o foco nos personagens e suas motivações. Enquanto buscam encontrar um Yeti  ao escalar os colossais montes do Himalaia, acabam, na verdade, se deparando com seus próprios medos.

A produção de O MONSTRO DO HIMALAIA é caprichada, e percebe-se que fizeram um bom trabalho de filmagens em locação, imagens aéreas, que dão uma autenticidade visual especial ao filme. A fotografia em preto e branco (de Arthur Grant, responsável pelo visual extraordinário de vários clássicos da Hammer) é de encher os olhos. O roteiro de Nigel Kneale é inteligente, levanta questões interessantes sobre as origens e o destino final de nossa própria espécie, e sobre as relações entre ciência e entretenimento. No elenco, destaca-se obviamente Cushing, que mesmo em um modo mais discreto consegue sobressair-se. E Forest Tucker, que nunca chamou muito a atenção, mas faz um trabalho louvável aqui, sem deixar seu personagem se transformar numa mera caricatura.

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Um dos filmes mais subestimados da Hammer, pouco visto ultimamente, mas é altamente recomendado. Muito mais do que apenas um simples monster movie.

CEMITÉRIO MALDITO 2 (1992)

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Mesmo não tendo o mesmo nível de qualidade do seu antecessor, CEMITÉRIO MALDITO 2 é bem legal, tem muita coisa boa acontecendo para nos entreter. Edward Furlong, o eterno moleque de O EXTERMINADOR DO FUTURO 2, interpreta Jeff, o filho de uma atriz famosa que morre num acidente durante as filmagens de seu mais recente filme de terror. Para recomeçar uma vida nova, Jeff e seu pai, um veterinário vivido por Anthony Edwards, se mudam para a pequena cidade de Ludlow, no Maine, obviamente a mesma do primeiro filme. Não demora muito, Jeff já está interagindo com os habitantes da cidade, levando porrada dos bullies e se torna amigo de Drew, o enteado do xerife local, Gus Gilbert (Clancy Brown). Numa noite, Gus mata o cachorro de Drew e, claro, ele e Jeff vão para o cemitério de animais para enterrá-lo… E o inferno está de volta à cidade.

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Uma coisa que gosto em CEMITÉRIO MALDITO 2 é que não faz questão alguma de ser uma cópia do primeiro filme, que era mais reflexivo, atmosférico e tinha um cuidado a mais com os personagens. A construção de certos indivíduos aqui é unilateral, como o xerife malvado e completamente surtado de Clancy Brown. E as coisas vão acontecendo de forma atropelada, como a transformação do personagem de Furlong, que de uma hora pra outra fica obcecado pela sua mãe morta, sem muito desenvolvimento. Mas ao mesmo tempo, tudo aqui é mais exagerado e sangrento, bem ao estilo do horror noventista, o que garante uma certa dose de diversão ao mesmo tempo que expande de maneira imaginativa e direta a mitologia criada por Stephen King no livro que deu origem ao filme de 89.

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A violência é quase cartunesca, com uma boa dose de sangue sendo jorrada, com algumas perfurações, uma cabeça explodindo, e uma cena sensacional em que Clancy Brown usa o pneu de uma moto contra o rosto de um adolescente. Não dá pra ver muita coisa, mas a ideia e a forma como fazem é muito boa. A maioria das cenas mais sangrentas é de violência animal. Desde o ciclo de filmes canibais italianos que não vejo tanto animal morto na tela… Tudo falso, claro, efeitos especiais de primeira qualidade, mas ainda assim causa uma certa impressão.

A direção é da mesma Mary Lambert que realizou o primeiro filme. Em uma entrevista, ela comenta que resolveu voltar ao universo de CEMITÉRIO MALDITO para entender o que se passa na cabeça de um adolescente, porque eles fazem coisas estúpidas… Louis Creed, no filme anterior, enterra seu filho por causa de um desejo intenso, um sentimento de culpa pela morte do filho, mas e os adolescentes estúpidos de CEMITÉRIO MALDITO 2? O que levam a enterrar uma pessoa no cemitério amaldiçoado sabendo que ela vai voltar à vida?

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Gosto bastante do trabalho de Lambert no primeiro filme, mas não sei se ela conseguiu desenvolver bem suas ideias aqui e a coisa ficou mais puxado no “estilo” do que no “conteúdo”. Mas como disse, é o tipo de filme exagerado que acaba bem sucedido em propiciar uma experiência de terror sem se preocupar com a psicologia das coisas. E que compreende com inteligência o que torna o horror desse universo de Stephen King tão inquietante. Ou, pelo menos é o tipo de produto que não me deixa entediado em momento algum. E temos um elenco muito sólido, Furlong está fazendo o que ele faz de melhor, Jason McGuire é excelente como Drew e Clancy Brown como vilão é definitivamente a melhor coisa do filme… Enfim, é uma continuação sem grandes pretensões mas que de alguma forma consegue me divertir facilmente.

CEMITÉRIO MALDITO (1989)

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Acho que a força de CEMITÉRIO MALDITO, uma certa grandeza que o coloca acima de boa parte dos filmes de horror nos anos oitenta, reside na maneira como o filme lida com a morte. Vidas são tiradas a todo instante no cinema de horror e o público, obviamente, torce para que isso aconteça. A morte é banalizada e se torna uma diversão, ninguém quer assistir a uma continuação de SEXTA-FEIRA 13 e ver o Jason saindo de mãos vazias, certo? Mas aqui a morte, a perda, tem um peso dramático muito forte e coloca o espectador em confronto com a situação trágica da morte de um filho de forma extrema e direta.

A própria ideia básica do filme, notória adaptação de Stephen King, é muito perturbadora. A trama gira em torno de uma família que se muda para uma nova casa em Ludlow, no Maine. É uma típica família feliz, recomeçando a vida, até que um caminhão em alta velocidade muda tudo isso. E a existência de um cemitério de animais de estimação amaldiçoado que reanima os mortos piora ainda mais a situação…

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É evidente que há muitas coisas boas típicas do horror, elementos fundamentais, em CEMITÉRIO MALDITO para acalentar o coração dos fãs do gênero. É um filme muito sombrio com uma atmosfera densa em alguns momentos, especialmente nas sequências das visitas ao tal cemitério; temos algumas mortes criativas, uma boa dose de sangue, um gato zumbi, sonhos bizarros, aparições de uma figura fantasmagórica, entre outras coisas… No entanto, acima de tudo, CEMITÉRIO MALDITO funciona por causa do drama central que se desenrola a partir da perda trágica de um ente querido.

A sequência do caminhão é um primor. Mesmo quem percebe na hora o que está prestes a acontecer, acaba chocado pela coragem do filme em realmente chegar nos finalmentes e fazer o que tinha que fazer… Até porque sempre existiu o tabu de se matar crianças nos filmes dessa maneira. Mas só é mostrado o essencial: o moleque indo para a rodovia, o caminhão desatento se aproximando, um sapatinho vazio que rola no asfalto. O suficiente para nos deixar sem chão e passarmos a sentir a dor do protagonista (interpretado por um Dale Midkiff). Algo que no universo de King acaba sendo bem mais aterrorizante que o horror tradicional.

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Por muito tempo, quem esteve à frente do projeto e meio que possibilitou sua existência foi o pai dos zombie movies, George A. Romero, que já era naquela altura grande amigo de Stephen King, já haviam trabalhado juntos em CREEPSHOW, e acabou comprando os direitos do livro. No contrato, duas condições: a primeira é que o filme deveria ser rodado no Maine. Depois, o próprio King deveria escrever o roteiro. E foi o que aconteceu. A dupla preparou o filme por bom tempo até que surgiram algumas atribulações entre o diretor e o estúdio, que convocou Romero no meio desse processo insistindo em refilmagens de algumas sequências de INSTINTO FATAL (Monkey Shines), que Romero havia dirigido pouco tempo antes. Para não deixar a produção parada, Romero acabou pulando fora de CEMITÉRIO MALDITO, sendo rapidamente substituído por Mary Lambert, uma diretora de video clipes que só havia feito um longa até então, SIESTA, de 87, mas que já era vista como um talento promissor.

E Lambert deu conta, conseguiu dar vida ao roteiro de King, ao universo sempre tão particular de seu criador, com muita precisão e criatividade visual. Claro, seria ótimo ver como CEMITÉRIO MALDITO seria sob a batuta de Romero, mas não aconteceu. E eu simplesmente não tenho do que reclamar desta versão, que se tornou um dos meus clássicos favoritos do horror oitentista.

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No elenco, vale destacar Brad Greenquist, a figura fantasmagórica que mostra ao protagonista o limite que não se deve ultrapassar no “semitério”; Fred Gwynne, o eterno Herman Munster, da série dos anos 60 OS MONSTROS (ou A FAMÍLIA MONSTRO); e Miko Hughes, o garotinho zumbi demoníaco com um bisturi afiado nas mãos empenhado a matar.

Aparentemente, CEMITÉRIO MALDITO é a adaptação da obra de King mais apreciada pelo próprio autor; Óbvio, considerando que ele mesmo escreveu o roteiro e que detesta, por exemplo, a adaptação de O ILUMINADO, do Kubrick, não é muito difícil o cara ter preferência por este aqui. King até faz uma breve participação como um reverendo. O filme teve uma continuação nos anos 90, dirigido pela mesma Mary Lambert, e que preciso rever, não lembro de quase nada. E aí sim, estarei devidamente preparado para encarar a nova versão que ainda não parei pra ver.

TÚMULO SINISTRO (1964)

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TÚMULO SINISTRO (Tomb of Ligeia) foi a última colaboração de Roger Corman com o ator Vincent Price, depois de uma série de adaptações da obra de Edgar Allan Poe (e um único que era baseado em Lovecraft, O CASTELO ASSOMBRADO) na primeira metade dos anos 1960, resultando numa parceria de sete filmes fundamentais na carreira de ambos e que qualquer interessado em horror deveria dar uma atenção.

O filme é sobre um cavalheiro inglês, Verden Fell, interpretado pelo Price, cuja morte de sua esposa, Lady Ligeia, lhe deixa um bocado transtornado, vivendo uma vida solitária em sua propriedade (exceto por seu mordomo e um misterioso gato preto), torturado, lamentando a morte de sua amada. Então ele conhece Lady Rowena, uma linda mulher que se parece com sua falecida esposa (ambas são interpretadas por Elizabeth Shepherd) e apesar do jeitão sinistro e melancólico ela é atraída por Verden, que se apaixona e acabam se casando.

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No início, a vida a dois entre Verden e Rowena é só alegria, com o casal viajando Europa à fora, conhecendo lugares distintos e sempre apaixonados. O problema é quando retornam à propriedade e a “presença” metafísica de Ligeia coloca tudo a perder. Verden passa a maior parte do tempo isolado em seus experimentos ou no cemitério nas ruínas de uma grande igreja onde está a tumba de sua primeira esposa, um tipo de obsessão mórbida sempre explorado neste ciclo Edgar Allan Poe.

Enquanto isso, Rowena passa a ter sonhos terríveis (que sãos algumas das melhores cenas do filme) e é perseguida pelo tal gato preto, que parece possuído. Aos poucos, Verden tem certeza de que está enlouquecendo – ou acredita que sua nova esposa está sendo dominada pelo espírito maligno e imortal de Ligeia. O que acontece a seguir é um típico final ao estilo Roger Corman nas suas adaptações de Poe: o mundo desaba, é consumido pelo fogo, pelo horror extremo e Vincent Price desempenhando sua dança da morte, num espetáculo de enquadramentos, efeitos especiais arcaicos e cores.

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Em TÚMULO SINISTRO, Corman faz um esforço consciente para se afastar da aparência estética de seus filmes anteriores do ciclo Poe. Em vez de filmar quase inteiramente em estúdio (como havia sido seu habitual até então), o sujeito optou por muitas externas, confiando menos em nevoeiros pesados e cores vibrantes, e mais nas paisagens naturais as quais explora com uma câmera exuberante: as ruínas, o campo, a cena em que o casal visita Stonehenge, enfim, muitas das cenas acontecem sob a luz do sol. Provavelmente o filme menos dark do ciclo, embora o tom e a construção da obra ainda sejam de um terror clássico, apenas menos estilizado e atmosférico em relação ao que Corman havia feito antes.

Mas ainda assim é um filme que enche os olhos. O visual não deixa de ser deslumbrante, de qualquer forma, especialmente com o trabalho cromático. O uso do vermelho como elemento dramático, por exemplo, cria sensações bem interessantes no decorrer do filme.

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Price sempre inspirado, oferece aqui mais uma performance expressiva, digna de antologia nessas adaptações de Edgar Allan Poe, fazendo um personagem muito no seu habitual, mas ao mesmo tempo sutilmente destoa de outros que interpretou: assustador e imponente, mas frágil, torturado e com toques bem, digamos, perturbadores… Há uma situação que pode passar despercebido e ficar muito à imaginação do espectador, mas nada tira da minha cabeça que claramente seu personagem pratica necrofilia, algo que obviamente não poderia ser explorado às claras no período, mas que Corman dá um jeitinho de insinuar e subverter.

O roteiro de TÚMULO SINISTRO foi escrito por Robert Towne, um dos pupilos de Corman no período – seu primeiro script foi escrito para o diretor, LAST WOMAN ON EARTH (60). Dez anos depois, o sujeito ganharia o Oscar com seu roteiro para CHINATOWN, de Roman Polanski.

Outros filmes do ciclo Edgar Allan Poe que já comentei por aqui:
O SOLAR MALDITO
O POÇO E O PÊNDULO
OBSESSÃO MACABRA

[CAGESPLOITATION] MANDY (2018)

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Da primeira vez que assisti a MANDY, de Panos Cosmatos, foi impossível não pensar numa lógica estético-narrativa que torna visual o mundo interior de um homem destroçado pela perda. Só que ao mesmo tempo, o filme nunca entra no campo de “Ah! era tudo uma alucinação, era uma bad trip do protagonista” o que tornaria tudo muito óbvio.

Resolvi ver MANDY de novo, já que é um dos meus favoritos do ano passado, e desta vez ficou mais forte, já sabendo de antemão o que o filme tem para oferecer, a impressão de estar diante de uma daquelas revistas em quadrinhos Heavy Metal que a gente lia nos anos 90, com um tipo de fantasia sci-fi bizarra muito peculiar que essas publicações forneciam. Então, bad trip porra nenhuma, isso aqui é um puta universo alternativo pra lá de surtado que o Cosmatos criou para desembocar sua fábula macabra e, como cereja do bolo, com um Nicolas Cage maravilhosamente insano nos guiando nessa viagem pirada de imagens carregadas de cores, simbolismos e violência.

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O negócio é que MANDY é um filme para ser contemplado, Cosmatos utiliza-se de elementos muito básicos para causar a imersão do espectador num projeto cuja estética e seus significados simbólicos importam mais do que uma trama convencional. Na verdade, a narrativa segue uma linha reta muito bem traçada, mas com um fiapo de roteiro, que Cosmatos usa para deixar o espectador hipnotizado na sua à abordagem visual e atmosférica.

Temos uma primeira metade que apresenta o casal, Red (Cage) e Mandy (Andrea Riseborough), que leva uma existência tranquila, amorosa e pacífica numa versão alternativa do ano de 1983 e este lugar perfeito e seguro é selvagemente invadido e destruído. Depois, a segunda metade de MANDY: Red se lança numa jornada de vingança sangrenta contra os mais diversos habitantes desse universo insólito.

Seguir essa trama é um convite à uma experiência sensorial fascinante.

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Dizem que o filme anterior de Cosmatos, filho do grande George P. Cosmatos (diretor de RAMBO II, COBRA e TOMBSTONE), segue essa mesma tendência de cinema contemplativo e sensorial. Chama-se BEYOND THE BLACK RAINBOW, mas eu acabei não vendo. Devo assistir agora que conheço MANDY. O sujeito manda bem dentro da proposta de uma espécie de slow “exploitation” cinema, que constrói um mundo tão peculiar e onírico, povoado por criaturas que parecem uma mistura dos cenobitas, de HELLRAISER, com os motoqueiros pós-apocalípticos saídos de MAD MAX 2, com atmosfera carregada em tons que parece uma névoa envolvendo os personagens… É o que dá à paisagem uma sensação sobrenatural, uma versão da realidade como conhecemos, mas encharcada em neons roxos e avermelhados.

Cosmatos também não deixa a peteca cair nem quando a coisa toda explode em violência, fazendo homenagens à clássicos como EVIL DEAD 2, NIGHTBREED, O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2… É o tipo de filme no qual veremos Nicolas Cage cortando a garganta de uma criatura que tem uma faca no lugar do pênis e logo depois põe-se a rir histericamente enquanto o sangue encharca seu rosto. Temos Cage decapitando um sujeito com um enorme machado de batalha forjado e depois acendendo um cigarro da cabeça decepada em chamas. Ou no eletrizante e sangrento duelo de motosserras… Enfim, MANDY é brutal, debochado, insano… Pura poesia.

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Obviamente, um dos grandes prazeres de MANDY é poder ver Nicolas Cage em estado de graça sendo bem dirigido e muito bem aproveitado. Há uma cena que é um verdadeiro milagre de encenação e dramaturgia, um tour de force ininterrupto e sem cortes, quando Cage vai ao banheiro, de cuecas, enxugando uma garrafa de Vodka inteira, tentando se aliviar do choque depois de vivenciar um verdadeiro inferno, numa aula de expressão corporal e presença de ocupação física de um espaço, um daqueles momentos que dá vontade de aplaudir e agradecer aos deuses do cinema a existência de um ator tão sublime quanto… NICOLAS CAGE. Aliás, muita gente acha que eu brinco quando falo que, atualmente, em atividade, o maior ator do mundo é Nicolas Cage. Podem apostar, eu falo sério.

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A única coisa que não se justifica em MANDY são suas duas horas de duração. Poderia ser bem mais enxuto… Mas não tenho do que reclamar, porque toda hora Cosmatos traz algo bonito/bizarro para nossa contemplação: os inter-títulos com fontes de capa de disco de Black Metal; Cage forjando no fogo seu instrumento de vingança; o anúncio do “Cheddar Gobling”; os enquadramentos milimetricamente simétricos do templo, o filme inteiro é recheado de imagens que parecem as páginas das revistas Heavy Metal que ganharam vida, numa atmosfera única que é encontrada em todos os quadros do filme, em cada gesto de um personagem, a cada mudança narrativa…

Vale destacar também alguns nomes do elenco, como a pequena aparição do grande Bill Duke, mas especialmente Linus Roach, como líder da seita que desgraça a vida do protagonista, numa performance espetacular.

MANDY é um filme especial. Se não viu ainda, veja. De preferência numa tela bem grande.

SUSPIRIA (1977)

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Vocês sabem, SUSPIRIA, o clássico absoluto do horror italiano do mestre Dario Argento, será lançado num remake dirigido por Luca Guadagnino, de ME CHAME PELO SEU NOME. Pra mim, remakes nem fedem nem cheiram, mas acabo assistindo. Se forem bons, elogio, se forem ruins, lamento a perda de tempo… Poderia ter visto coisa melhor. Mas mantenho sempre a ideia de que o original estará lá para ser visto e revisto independente de quantas refilmagens fizerem. No caso de SUSPIRIA, até acho que pode sair algo interessante. O cinema de horror atual anda num bom momento e acho o Guadagnino um sujeito com talento. É só não esperar nada no mesmo nível que é a maravilha do Argento que vou encarar de boa…

Sobre o filme do Argento, revi há poucos dias em DVD em casa mesmo. Uma belezura. Mas a melhor experiência que tive com o filme, foi mais ou menos há um ano quando SUSPIRIA passou remasterizado no Instituto Moreira Sales, da Paulista, onde tive a oportunidade de sentir o poder sensorial dessa obra-prima do horror em todo o seu esplendor. Quero dizer, aquela telona explodindo a exuberância de cores e o volume até o talo, ficou simplesmente impossível sair da sessão sem estar, no mínimo, atordoado.

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Nem é o meu filme favorito do Argento, fico com INFERNO (1980) ou PROFONDO ROSSO (1975), mas SUSPIRIA tem um cantinho reservado no coração e revê-lo é uma experiência visual transcendental, seja numa tela de cinema, seja na TV em DVD. Sempre fico de queixo caído com sua narrativa onírica, a trilha sonora experimental do Goblin, o design de produção estilizado e as composições visuais meticulosamente trabalhadas em benefício do horror, de um universo de horror muito próprio, um mundo de beleza, mistério, oculto e violência… É um festival sensorial único, a síntese do filme de horror como arte.

A sinopse é bem simples: uma estudante americana de balé, Suzy Banyon (Jessica Harper), chega numa noite tempestuosa em Freiburg, na Alemanha, para estudar numa prestigiosa academia de dança. Quando um táxi a deixa na entrada do local, ela vê uma jovem na porta agindo de modo estranho antes de sair para a noite, correndo pela floresta encharcada e escura. No dia seguinte, quando Suzy se estabelece na escola, descobre que a garota que viu na noite anterior foi brutalmente assassinada. A partir daí, Suzy começa a perceber que há algo nitidamente bizarro, ocorrências estranhas vão rolando na escola e com seu corpo docente, e ela resolve meter o nariz para descobrir…

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Qualquer coisa além disso já não tem tanta importância. Quero dizer, para ser sincero, a trama e seus dispositivos narrativos, construção de personagens e etc, não são exatamente o que mais interessam ao Argento, ainda que integrem o universo formal do diretor como contador de história de terror. O fato é que Argento chega a um ponto da carreira no qual o enredo e personagens se tornam completamente subservientes ao visual, à atmosfera, à música. O que realmente importa em SUSPIRIA, portanto, é a lógica de pesadelo que motiva os personagens a agirem de forma absurda em cenários barrocos onde a violência é bela. São exatamente os momentos em que o trabalho visual se destaca que SUSPIRIA se revela tão magistral e original. A sequência do primeiro assassinato é uma das minhas favoritas, digna de antologia: a violência, o sangue, a faca entrando no coração exposto e os últimos e trágicos enquadramentos (alguns dos mais icônicos do horror italiano)… O que se vê na tela é pura poesia.

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Dizem que Daria Nicolodi, atriz e roteirista italiana que era casada com Argento e que escreveu o roteiro de SUSPIRIA, baseou-se nas experiências de sua avó, que frequentou uma escola de atores onde os professores também ensinavam magia negra aos alunos… Vai saber se isso é verdade. Em outras declarações, ela diz que a ideia de SUSPIRIA teria surgido de um sonho que teve. O que faz mais sentido. A sensação parece ser mesmo a de um pesadelo estruturado num conto de fadas macabro, com os personagens falando coisas sem sentido e percorrendo os corredores sinistros e ricamente decorados da Academia de Dança. É como se Suzie entrasse numa espécie de buraco do coelho, como em Alice no País das Maravilhas, só que o mundo paralelo aqui é mais peculiar ao pesadelo, ao horror. SUSPIRIA me mostrou o quão aterrador, poético e sofisticado o cinema de horror italiano pode ser (e não só o Argento, mas também Fulci, Bava, Soavi, Freda, etc).

Então, que venha o remake, mesmo tendo consciência de que vai ser praticamente impossível superar este aqui. Mas se for bom, já tá valendo.

Ah, e só pra lembrar, SUSPIRIA é o primeiro exemplar de uma trilogia unida a partir da ideia das “Três Mães”, um triunvirato de bruxas ancestrais e maléficas cuja magia poderosa lhes permite manipular eventos mundiais em escala global. Os outros filmes são o já citado INFERNO e THE MOTHER OF TEARS.