CAGED HEAT (1974)

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Já estava planejando postar sobre esse filme qualquer hora dessas, mas como hoje é aniversário do diretor Jonathan Demme, resolvi escrever qualquer coisa de uma vez. Há pouco tempo falei sobre os dois trabalhos de estreia do sujeito, na produção e roteiro de ANGELS HARD AS THEY COME e THE HOT BOX, ambos dirigidos por Joe Viola e com Roger Corman também na produção, mas CAGED HEAT entra de fato na filmografia de Demme como seu primeiro trabalho como diretor meeesmo.

Não custa repetir que estamos falando do Jonathan Demme que quase duas décadas mais tarde ganhou o Oscar de melhor diretor por O SILÊNCIO DOS INOCENTES, produção que também abocanhou o prêmio de melhor filme. Mas o cara começou mesmo fazendo filme na zona, exploitations violentos e cheio de mulheres com peitos de fora. E nada melhor que um WIP (Women in Prison) para explorar todas essas possibilidades filosóficas… É por isso que CAGED HEAT começa num assalto que termina muito mal, com dois bandidos cravados de balas pela polícia e a única mulher do grupo, Jaqueline (Erica Gavin) é presa e enviada para uma prisão feminina. E não demora muito para um médico da prisão confessar: “Girls, this isn’t something I enjoy either but I need you to get undressed…” Oh! Yeah!

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E os fãs de cinema grindhouse vão surtar com o material humano que temos aqui. Jaqueline aos poucos vai conhecendo outras garotas na prisão, formando um elenco dos mais interessantes do gênero, incluindo Roberta Collins, Juanita Brown e Cheryl Smith – que é apresentada numa sequência de sonho, sendo bolinada por um misterioso estranho entre as grades de sua cela. A diretora da prisão é ninguém menos que a musa do horror gótico dos anos 60, Barbara Steele. Apesar de sádica, sua personagem, a superintendente McQueen, é confinada à uma cadeira de rodas e, retraída sexualmente, fica ofendida a qualquer insinuação erótica de suas prisioneiras, como na cena da apresentação teatral. Não pensa duas vezes antes punir qualquer garota que lhe cause desconforto por conta de sua condição, trancando quem quer que seja na solitária, mas sem antes, obviamente, lhes arrancar as roupas para que o espectador mantenha a atenção no filme…

Jaqueline entra em apuros com Maggie (Brown), que é a durona do pedaço, e as duas “puxam o cabelo” uma da outra… Ao invés de irem para solitária, McQueen as colocam num tratamento de choque com o taradão Dr. Randolph, o mesmo da frase do início do filme, que se aproveita das pobres moças sedadas para, basicamente, tirar as roupas das meninas, colocar a mão onde não deve, tirar umas fotos de polaroide, coisas dessa natureza… Mas durante um dia de trabalho agrícola forçado nos pomares aos arredores da prisão, Jaqueline e Maggie, agora amiguinhas, conseguem escapulir, roubando um caminhão da prisão. As duas decidem esquecer suas diferenças, unem forças, arrumam armamento pesado e voltam para prisão para acabar, à base de tiro, com a tirania de McQueen e com a situação ultraje e imprópria com a qual as prisioneiras são tratadas.

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Jonathan Demme pode ter deixado sua essência exploitation de lado ao longo da carreira, mas aqui no seu debut como diretor não faz a mínima questão de inventar algo novo ao gênero. CAGED HEAT é praticamente um filme padrão do WIP, com todos os ingredientes que o estilo pede: cenas de chuveiro, briga de garotas, guardas sádicas e reprimidas sexualmente e um final mais explosivo, cheio de ação. Em alguns pequenos e singelos detalhes vê-se um esforço, uma tentativa de dar alguma personalidade, lançar algum olhar pessoal e artístico por parte de Demme. Mas não adianta, aqui é exploitation até o talo. Longe até de ser dos melhores filmes do gênero, mas divertido, sexy e bem humorado como tem que ser.

Assim como os primeiros trabalhos de Demme, CAGED HEAT também foi produzido pelo Corman e chegou a ter algumas continuações vagabundas nos anos 90, como CAGED HEAT II – STRIPPED OF FREEDOM, que não servem pra muita coisa a não ser para ver mais peitos de fora… Ou seja, sempre vale umas conferidas.Cjuve

THE HOT BOX, aka HELL CATS (1972)

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Há poucos dias postei sobre ANGELS HARD AS THEY COME (1971), primeira investida do diretor Jonathan Demme no cinema, ainda sob a batuta do Roger Corman e tendo seu parceiro de produção publicitária, Joe Viola, na direção. Aqui em THE HOT BOX a coisa se repete. Neste período, Corman entrava numa de enviar seus pupilos às Filipinas onde várias produções exploitation estava aparecendo – Jack Hill, por exemplo, filmou no local THE BIG DOLL HOUSE e THE BIG BIRD CAGE, dois belos exemplares de WIP (Women in Prison) na selva – e a dupla Demme e Viola não perderia a oportunidade. Meteram-se nas Filipinas para fazer também um WIP.

A trama, no entanto, se passa em algum país da América Latina, onde um grupo de enfermeiras americanas fazem um trabalho de socorro no local que vive em guerra, dominado por um tirano qualquer e com revolucionários querendo derrubar o poder. O problema começa quando os tais revolucionários sequestram essas enfermeiras e as obriga a ensinarem técnicas de primeiro socorros aos guerrilheiros. Apesar disso, as moças conseguem simpatizar pelos ideais de seus captores e até mesmo acabam lutando com armas em punho pela causa…

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Não, THE HOT BOX não é um bom filme como aparenta. Mas eu gosto. Gosto de tralha cinematográfica de mau gosto, portanto gosto de THE HOT BOX. Principalmente porque ele possui todos os elementos que não podem faltar num bom WIP. Tá certo que o plot é um bocado diferente dos tradicionais filmes do gênero, mas toda vez que alguma das moças sai da linha, acaba enviada a uma cela para sofrer as consequências, o que inclui alguns itens básicos do gênero, como o excesso gratuito de humilhação feminina* e grande dose de peitos de fora.

O que realmente atrapalha um pouco THE HOT BOX é que apesar da pouca duração, o filme consegue ser lento e chato em alguns momentos e nunca conseguimos criar identificação suficiente com alguns personagens para acompanhá-los com a devida animação, nem entre as enfermeiras, que esperamos apenas que tirem a roupa, e muito menos com os revolucionários. O filme termina com uma bela sequência de batalha, o que deixa as coisas mais interessantes. Destaque para a presença de Charles Dierkop, que já havia me chamado a atenção em ANGELS HARD AS THEY COME, e aqui novamente surpreende na pele de um comandante do exército local que faz jogo duplo para acabar com guerrilheiros.

* Antes que eu seja acusado de misógino, quero deixar claro que apoio causas feministas e sou totalmente contra a qualquer tipo de violência contra a mulher.

ANGELS HARD AS THEY COME (1971)

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Jonathan Demme é mais lembrado por algumas obras de peso em Hollywood no início dos anos 90. No entanto, sua estreia no cinema foi mesmo com exploitations vagabundos de baixo orçamento. E o responsável por colocá-lo nessa posição não poderia ser ninguém exceto o mestre Roger Corman. Demme trabalhava com produção de filmes publicitários e acabou se encontrando com o Rei dos B Movies, que não quis perder muito tempo e lhe perguntou:

Ei, garoto, gostas de filmes de motocicleta?
Sim, Roger. Particularmente, gosto muito do seu THE WILD ANGELS (66) – respondeu Demme.
Ok, ótimo! Por que você não escreve um roteiro para um filme de motocicleta pra mim?

Bem, talvez não tenha sido com essas palavras exatas, mas segundo depoimentos do próprio Demme a coisa funcionou mais ou menos desse modo. O futuro diretor tinha então vinte e quatro anos e um parceiro, Joe Viola, que dirigia os filmes publicitários que produzia. Demme e Viola se reuniram e escreveram uma ideia que a princípio seria uma versão motorizada de RASHOMON, mas com muitas cenas de sexo e violência, algo que agradou bastante o Corman. Depois de escrito, a dupla sentou num café em Londres com o velho produtor e este leu cada uma das oitenta páginas do roteiro enquanto Demme e Viola esperavam em sua frente. Quando acabou, disse apenas “Humm… Isso aqui é muito bom! Acho que podemos fazer. Joe, você já é diretor de comerciais, e Jonathan, você é quem os produz. Por que vocês não vão à L.A. daqui a dois meses e realizam o filme?”. E foi assim que tudo começou para Demme. Vinte anos depois, o sujeito ganharia o Oscar de melhor diretor por O SILÊNCIO DOS INOCENTES.

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E o resultado é este ANGELS HARD AS THEY COME, que foi realmente dirigido pelo Viola enquanto Demme ocupou da produção. E no fim das contas, tem pouco, muito pouco a ver com o filme do Kurosawa que teoricamente fora inspirado. Mas cumpre o que promete, trata-se de um filme de gangues motocicletas com bastante sangue, muita pancadaria e vários peitinhos de fora… E embora eu ainda tenha uma porrada de exemplares para conferir, sempre tive uma queda por Biker Movies desse período. Até os filmes ruins acabam sendo divertidos. Não sei, são muitos atrativos juntos pra se ver… Personagens sujos e bêbados em festas, mijando uns nos outros, apostando corridas, arrastando pessoas amarradas em suas motos, mulheres desavergonhadas, enfim, todas essas coisas boas. E ANGELS HARD AS THEY COME acaba por ter tudo isso ao nosso dispor. Continuar lendo

MAD DOCTOR OF BLOOD ISLAND (1968)

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Como suspeitei no post anterior, MAD DOCTOR OF BLOOD ISLAND, o segundo exemplar da série Blood Island, não possui qualquer ligação com BRIDES OF BLOOD. Mas também não faz qualquer esforço para alterar a fórmula do seu “antecessor”, utilizando dos mesmos elementos visuais e narrativos, reciclando cenários e o elenco, como é o caso do americano John Ashley, que marca presença novamente encarando os monstros absurdamente toscos e mal feitos das Filipinas.

Dirigido novamente pela dupla Eddie Romero e Gerardo De Leon, MAD DOCTOR inicia inesperadamente com uma sequência promocional, na qual incita o público a tomar um líquido verde a fim de evitar uma transformação em monstro gosmento com cara de alface e sangue verde. Na verdade, tratava-se de mais uma campanha de marketing em que eram distribuídos esse líquido aos espectadores na entrada dos cinemas e drive in para que fosse ingerido durante determinado momento do filme. Seja lá qual o fosse o sabor, a ideia é simplesmente genial. Continuar lendo

BRIDES OF BLOOD (1968)

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BRIDES OF BLOOD é o primeiro exemplar de uma trilogia bizarra realizada nas Filipinas pelo produtor e diretor de filmes B local, Eddie Romero, em parceria com Gerardo DeLeon. Pelo que entendi, os três filmes não têm qualquer ligação narrativa (ainda não assisti aos outros, MAD DOCTOR OF BLOOD ISLAND e BEAST OF BLOOD), mas como possuem essa ambientação pitoresca em comum e foram realizados praticamente num curto espaço de tempo pelos mesmos diretores, acabaram interligados e conhecidos como Blood Island Films.

Na verdade, apesar de não fazer parte “oficialmente” desses filmes, Romero já havia rodado um exemplar de horror ambientado no mesmo local, quase dez anos antes de BRIDES OF BLOOD. O filme era TERROR IS A MAN, de 1959, também conhecido como BLOOD CREATURE e que de certa forma é o precursor da série Blood Island. Pelo visto um local propício para contar histórias de horror bem antes do que se imagina. Continuar lendo

MOMENTO JESS FRANCO: VIRGIN REPORT (Jungfrauen-Report, 1972)

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A virgindade sempre foi tema de interesse na obra de Jess Franco. Vez ou outra aparece uma virgem como elemento de reflexões filosóficas e… ok, quem eu tô tentando enganar? O fato é que Franco resolveu realizar VIRGIN REPORT, o pseudo-documentário definitivo sobre o assunto, para dar vazão à uma de suas obsessões, examinar a questão da virgindade em diversas culturas diferenciadas ao logo dos séculos e em vários locais ao redor do planeta. Obviamente, tudo uma mera desculpa para filmar mulheres nuas. Continuar lendo

SHE MOB (1968)

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A Something Weird Video é uma famigerada distribuidora americana especializada em bagaceiras undergroundtrash, exploitations, responsável por lançar petardos dirigidos por Herschell Gordon Lewis, Doris Wishman e diversos outros diretores. Um bom exemplo é SHE MOB, uma tralha que só mesmo a SWV teria a cara de pau de distribuir. É um verdadeiro achado, mas tenho o dever de avisar que só vai prestar mesmo para os trashmaniacos profissionais, é o típico filme que de tão mal feito, tão horrível em diversos aspectos, acaba sendo genial. Ou como diz um sujeito no imdb: “its incompetently made, but it has that special and rare sort of ineptitude that crosses the line over into surrealism“. Continuar lendo

MOMENTO JESS FRANCO: O EXORCISTA DIABÓLICO (Exorcism, 1974)

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A primeira coisa que me chamou a atenção nesta obra do grande mestre espanhol do exploitation europeu, Jesús Franco, foi a presença e atuação do próprio diretor no papel principal. Eu já vi muitos filmes do Franco em que ele se coloca em pequenos papeis, personagens sem muita importância, para compor elenco, mas aqui em O EXORCISTA DIABÓLICO é a primeira vez que o vejo numa tentativa de criar um personagem com um maior destaque dramático e o resultado me impressionou muito. Continuar lendo

WEREWOLF IN A WOMEN’S PRISON (2006)

09Mais um filme de lobisomem do Jeff Leroy produzido com um orçamento minúsculo, da mesma maneira que EYES OF WEREWOLF (1999), do post anterior. Aliás, recomendo uma olhada no post deste último antes de ler sobre WEREWOLF IN A WOMEN’S PRISON, para ter uma noção do que é o universo microbudget e o que esperar dos filmes de um realizador do naipe de Jeff Leroy. Só não pensem que o tema principal do sujeito se resuma ao famigerado monstro que se transforma nas noites de lua cheia. Leroy já atirou para todos os tipos de gêneros e se há um denominador comum no seu cinema é a quantidade de sangue e peitos na tela.

15A trama de WEREWOLF IN A WOMEN’S PRISON é bem simples e faz uma mistura muito louca entre filmes de lobisomem com Women in Prison, gênero no qual mulheres prisioneiras são protagonistas. Sarah (Victoria de Mare, que não chega aos pés da Stephanie Beaton, mas dá pro gasto) sai para acampar com seu namorado quando ambos são atacados por um lobisomem. A moça acaba sobrevivendo, mas acorda numa estranha prisão e descobre que seu namorado foi morto pela criatura. O problema é que Sarah foi mordida pelo lobisomem e, bom, todos nós sabemos o que isso significa. Leroy abusa de todos os clichês que se espera num werewolf movie, mas também dos filmes de prisão feminina: briga de detentas, lesbianismo, guardas sádicos, nudez gratuita… O fator lobisomem entra no conjunto acrescentando um sabor a mais: doses cavalares e explícitas de gore.

17Não custa ressaltar novamente que se trata de uma produção extremamente pobre e só é recomendado para paladares finos. É preciso muita boa vontade por parte do espectador para aceitar o péssimo desempenho do elenco (se bem que com a abundância de peitos, atuação não faz muita diferença), os cenários modestos que parecem tudo, menos uma prisão, e os efeitos especiais toscos, mas eficientes e criativos, levando em conta o orçamento humilde da produção… Finalizo citando o amigo Osvaldo Neto quando diz que o charme de WEREWOLF IN A WOMEN’S PRISON “reside no roteiro cheio de referência e amor ao cinema exploitation e na mais completa cara de pau do seu realizador e equipe fazerem de tudo para o longa ser um espetáculo de sanguinolência e putaria do início ao fim.” Eu não poderia concordar mais.

O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER (The Brain that Wouldn’t Die, 1962)

snapshot20101009192829O título desse filme é daqueles que fazem qualquer amante do cinema classe B ficar mais excitado que Testemunha de Jeová na seção de portas de loja de construção. O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER… É simplesmente muita tentação para os ouvidos. Mas até que me segurei por muito tempo! Sim, meus caros, há anos que tenho por aqui e só agora resolvi encarar essa tralha, dirigida por um tal Joseph Green, que de tão ruim, tão mal feita, tanto mau gosto reunido em película, é impossível não se divertir!

Com seus 82 minutos de duração, o enredo de O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER é facilmente resumido. Jason Evers – aqui creditado como Herb Evers – é o Dr. Bill Cortner, um cirurgião com métodos nada ortodoxos na prática de sua profissão e que nas horas vagas dedica-se, juntamente com um assistente com um braço deformado – o tradicional cúmplice que não pode faltar nesse tipo de produção – à pesquisa de um soro que tornaria possível o transplante perfeito de membros humanos. A natureza deste trabalho fica ainda mais evidente quando a noiva do sujeito, Jan (Virginia Leith), é decapitada num acidente de carro e o devotado noivo e “brilhante” cientista, mantém viva a cabeça de sua amada até que possa ser enxertada em um novo corpo.

Seguindo a cartilha dos cientistas de filmes B, Cortner inicia uma árdua jornada para encontrar o corpo ideal para Jan, o que significa visitar clubes de strip e concursos de biquinis, locais perfeitos para possíveis “doadoras”. No entanto, pela cara de safado malicioso do sujeito, mostrado em vários closes acompanhado de música jazz bem animada, fica difícil entender se há uma confusão nas intenções do filme, na direção de atores, na construção do personagem ou se Cortner está mesmo pouco se lixando e só quer ver moças desfilando em trajes mínimos.

Brain8O fato é que tanto Evers quanto o diretor Joseph Green parecem mais à vontade criando esse tipo de sequência, em locais vulgares com mulheres desinibidas, do que trabalhando o material sci-fi/horror com a tal cabeça viva falante, apesar destes elementos serem o foco. Pessoalmente, acho isso sensacional… E até ousado pra sua época, tanto que o filme acabou enfrentando diversos problemas com a censura, sendo lançado em 1962, três anos após as suas filmagens. Se formos parar para pensar, no final da década de 50 a mentalidade de certas figuras “do bem” talvez não estivesse muito confortável com a temática de O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER. E, para complicar ainda mais, trazia ainda cenas que o público não estava acostumado a ver na tela grande, nem mesmo quem fosse aficcionado por filmes de terror naquela altura. E estamos falando de uma produção que, por mais ridículo que hoje possa parecer, se levava bastante a sério (o que dá ainda mais motivos para dar boas risadas). Algumas imagens deveriam ter causado fortes emoções, como as cenas com a cabeça viva, falando naturalmente; ou o monstro mutante formado por vários membros alheios, fruto de experiências do Dr. Cortner que não dera muito certo; e até mesmo a cena incrível onde o braço de um dos personagens é arrancado violentamente, com bastante sangue escorrendo para todos os lados…

Sobre a cabeça falante, é preciso destacar a trucagem, por mais óbvia e tosca que fosse, e todo o aparato visual que fazem a absurda ideia da cabeça viva funcionar sem o corpo. Não é a toa que a imagem de Jen, com sua cabeça em cima de um tabuleiro de metal e os tubos e suportes acoplados à sua volta, acabou tornando-se um ícone na cultura pop do horror ao longo dos anos. A atuação de Virginia Leith também merece ser salientada, consegue dar alguma dignidade à sua “cabeça viva”, apesar da situação ridícula que se meteu…

brain4Ao contrário do que o título nacional indica, entretanto, o desejo do cérebro (ou da cabeça) era morrer sim. Jan fica puta da vida quando descobre que apenas lhe restou do pescoço pra cima e que o noivo é um baita maluco psicopata desumano para ter feito uma barbaridade científica dessas com ela ao invés de deixá-la morrer naturalmente. “Deixe-me morrer!“, é o que grita numa determinada cena. Portanto, ela planeja vingança. Mas o que uma cabeça pode fazer? Falar no ouvido do cara até ele morrer? Morder o nariz do sujeito? Felizmente, o tal monstro mutante, trancado numa sala – e também puto pra cacete – resolve ajudar a moça quebrando tudo num final épico.

Filmado em grande parte no porão da casa de alguém, O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER é um dos grande clássicos de quinta categoria do autêntico cinema trash americano. Fruto da imaginação de seu diretor, Joseph Green, que dirige da forma mais simples e econômica possível, e do produtor Rex Carlton, ambos escreveram o roteiro, genial e edificante, desta obra-prima da tosquice… Carlton cometeu suicídio alguns anos mais tarde. Mas não por causa deste filme ou de seus outros trabalhos da mesma laia, como BLOOD OF DRACULA’S CASTLE, de Al Adamson, o que seria até um motivo aceitável, mas por supostamente estar atolado em dívidas com a máfia… O filme foi lançado no Brasil num DVD duplo de uma coleção chamada Sessão da Meia-Noite, que trazia diversos clássicos B dos anos 50 e 60. A BESTA DA CAVERNA ASSOMBRADA, primeiro filme de Monte Hellman e produzido por Roger Corman, faz dupla com este aqui.

INFERNO IN DIRETTA (aka Cut and Run, 1985)

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INFERNO IN DIRETTA fecha uma espécie de trilogia da selva do diretor Ruggero Deodato, se considerarmos ULTIMO MONDO CANNIBALE e CANNIBAL HOLOCAUST como trabalhos da mesma, digamos, natureza. Mas é curioso saber como o filme surgiu. O primeiro tratamento do roteiro foi escrito (e seria dirigido) pelo Wes Craven e carregava o título provisório MARIMBA. Quando a busca de financiamento fracassou, reza a lenda que os produtores decidiram que não devolveriam o script para o Craven. Outro detalhe é que na mesma época já tentavam convencer o Deodato de realizar uma continuação de CANNIBAL HOLOCAUSTO, mas o sujeito se interessou mesmo pelo tal roteiro engavetado, que acabou resultando neste filme aqui.

Embora CANNIBAL HOLOCAUSTO seja, merecidamente, o trabalho mais notório da carreira do diretor, INFERNO IN DIRETTA consegue ser bem mais bizarro e absurdo pela miscigenação de gêneros e estilos colocados num único filme. Deodato consegue equilibrar terror, ação, aventura com a mesma atmosfera de seus cannibal movies, e ainda encontra inspiração em APOCALYPSE NOW, do Coppola, com direito a um coronel maluco comandando nativos no meio da selva.

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Se funciona essa mistureba? Depende muito de cada espectador, mas ajuda bastante se você for fã do diretor. O negócio é que é impossível ficar indiferente com o poder das imagens concebidas por um sujeito como Ruggero Deodato atrás das câmeras. O cara não tem piedade com o público e suas aventuras na selva nunca serão experiências simples e banais. O diretor possui criatividade, talento e coragem suficiente para realizar um filme forte, singular, e que não fosse mais um rip-off de CANNIBAL HOLOCAUST como os que surgiam aos montes na época, embora utilizasse os os mesmos elementos de outrora. Ou seja, temos aqui um menu bem recheado para satisfazer os apreciadores de um bom cinema extremo, como violência explícita, decapitações, corpos abertos ao meio, torturas, crocodilos devorando cadáveres, nudez gratuita e claro, o trabalho da mídia sem escrúpulos… da mesma forma que em CANNIBAL HOLOCAUST, só que retrabalhado de diferentes maneiras, mantendo o frescor das ideias.

Após uma abertura chocante para habituar os espectadores com o nível de violência, a trama inicia com uma repórter (Lisa Blount) e seu cameraman em meio a uma investigação jornalística sobre tráfico de drogas em Miami. Em um dos locais investigados, todos os traficantes foram mortos misteriosamente e quando a dupla chega, encontra os corpos, o quarto revirado, e uma foto onde aparece Tommy, o filho do editor do programa para quem os dois repórteres trabalham e que estava desaparecido! Que puta coincidência! Na foto ele se está no meio da selva amazônica junto com o coronel Horne (Richard Lynch), sujeito dado como morto há anos. Convencendo o editor a financiar uma expedição e mais um pouco de enrolação, a dupla parte para o coração das trevas da floresta Amazônica em busca de Tommy e de uma boa matéria sobre o lance das drogas. Chegando lá, dão de cara com o terror que só mesmo um mestre do cinema extremos como Ruggero Deodato saberia proporcionar.

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Além da grande variedade de elementos que Ruggero dispõe para manter o público ligado do início ao fim, outro grande destaque é o elenco formado com alguns nomes americanos como Karen Black, o genial Richard Lynch e o grande Michael Barryman, protagonizando algumas das sequências mais brutais de INFERNO. Barryman, que já havia trabalhado com o Wes Craven em QUADRILHA DE SÁDICOS, foi um dos remanescentes do projeto inicial. Também vale mencionar a excelente trilha sonora do ítalo-brasileiro Cláudio Simonetti, que auxilia na ambientação com seus sintetizadores, além da fotografia caprichada das belezas naturais da selva venezuelana.

Mas a grande sacada dos roteiristas é a referencia a APOCALYPSE NOW, ou melhor, a O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, muito bem representado no papel do coronel Horne e magnificamente desempenhado por Richard Lynch. A cena em que o ator discursa deitado numa rede tem a mesma força que as sequências de Marlon Brando no filme de Coppola… guardando as devidas proporções, obviamente. De qualquer maneira, são grandes momentos que eleva INFERNO IN DIRETTA à outro nível.

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Deodato esteve envolvido há alguns anos com um projeto ligados a canibais, selva, etc, que não sei exatamente que fim levou, mas tudo indica que nunca vai acontecer… E não sei também se isso é bom ou ruim, tendo em vista CARIBBEAN BASTARDS, uma porcaria que o Enzo G. Castellari realizou após muitos anos sem filmar. Por enquanto, prefiro ficar com as dezenas de filmes que o sujeito realizou ao longo da carreira e que eu ainda não vi, mas já adianto que uma das experiências mais divertidas concebidas por Ruggero Deodato é, sem dúvida alguma, INFERNO IN DIRETTA!

LA BESTIA NELLO SPAZIO (1980)

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Em 1977, os cinemas do mundo assistiram a estreia de STAR WARS, o clássico de George Lucas que, para o bem e para o mal, revolucionou o gênero sci-fi e o próprio universo do chamado “filme de verão americano”, ou blockbuster. O grande sucesso do filme inevitavelmente gerou imitações menos abastadas, mas, em alguns casos, até mais divertidas que o próprio filme estrelado por Mark Hammil e Harrison Ford. STARCRASH, de Luigi Cozzi, por exemplo. Os turcos fizeram sua versão, nos Estados Unidos choveu rip-offs, e até Os Trapalhões, no Brasil, aproveitaram da fórmula. Mas um sujeito que realmente se beneficiou com a exploração do filme de Lucas foi o italiano Alfonso Brescia (que assinava sob o pseudônimo Al Bradley para o mercado internacional). Entre 1977 e 1980, o homem escreveu e dirigiu cinco exemplares que desfrutavam das ideias de STAR WARS e do seu êxito comercial naquele período.

O modelo de realização desses filmes era bem simples e contribuíam para o baixo orçamento que tinham essas produções. Os realizadores construíram alguns cenários e uma única leva de objetos cenográficos, como vestuários e elementos de efeitos especiais, de forma que tudo pudesse ser reaproveitado mais de uma vez em filmes diferentes. Em seguida, os roteiros que escreviam eram adequados de acordo com o que possuiam de antemão. Daí surgiram WAR OF THE PLANETS (aka Anno Zero: Guerra Nello Spazio, 77); WAR IN SPACE (Battaglie negli Spazi Stellari, 78); WAR OF THE ROBOTS (La Guerra dei Robot, 78)  e SPACE ODYSSEY (Sette Uomini D’Oro nello Spazio, 79). Faltou, claro, LA BESTIA NELLO SPAZIO. Mas a gente chega lá…

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Os três primeiro filmes citados eram sci-fi‘s que se esforçavam em ser produtos mais, digamos, sérios. Já o quarto exemplar, chutava o balde e parodiava esses rip-offs de STAR WARS, que haviam se tornado tão comuns naquela época. O problema é que na entrada da década de 80, esses filmes já começavam a demonstrar  sinais de cansaço criativo, embora no caso do Brescia ainda houvesse fôlego para mais. E então, o que fazer?

Bem, por que não acrescentar um estímulo erótico para apimentar as coisas? Ou seja, uma dose da boa e velha sacanagem! Vindo desses italianos picaretas, até que não era má ideia. No entanto, como a crise de criatividade parecia estar mesmo brava, até pra colocar sexo no filme precisaram buscar inspiração em outra produção. A vítima foi LA BÊTE, de Walerian Borowczyk, lançado cinco anos antes. Brescia não apenas aproveitou as ideias bizarras de LA BÊTE, o monstro peludo e pirocudo interessado nas reentrâncias de vestais desavisadas num bosque, como também pegou a atriz principal do filme do Boro, Sirpa Lane, para estrelar sua ficção científica. E foi pegando um pouco daqui, um bocado dalí, um quê de Buck Rogers, STAR TREK, O BURACO NEGRO da Disney, além de STAR WARS, obviamente, e assim surgiu LA BESTIA NELLO SPAZIO.

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Nossa história começa com o Capitão da Frota Espacial Larrry Madison (Vassili Karis). Antes de zarpar para uma nova missão, o sujeito passa num boteco, pede um leite de Urânio, e dá uma paquerada nas moças. Ao adentrar o recinto, logo avista a sexy Sondra (Lane), mas precisa trocar umas porradas com a concorrência para conquistá-la. Seu oponente é Juan (Venantino Venantini), uma espécie de Han Solo de araque e, durante a briga, Larry descobre que Juan possui Anatalium, um raro elemento mineral bastante visado.

No fim das contas, Larry leva Sondra pro coito. Durante a noite, a moça acorda após ter um pesadelo recorrente no qual ela está no filme LA BÊTE, do Boro… Quer dizer, na verdade ela está sendo perseguida num bosque por um sujeito que é metade homem, metade animal. A metade animal é da cintura pra baixo, e, por consequência, a manjuba do sujeito é de fazer inveja a qualquer homem dentro do padrão médio de medição de órgão sexual masculino. Mas Larry não dá muita bola pro sonho de Sondra.

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No dia seguinte, Larry é escalado para liderar uma missão até Lorigon, um planeta aparentemente inexplorado, em busca do tal mineral. E, vejam só, por uma coincidência daquelas, Sondra faz parte da tripulação, que é composta por quatro homens e três mulheres… Portanto, pelos meus cálculos, alguém vai ficar chupando o dedo. No trajeto, chegando perto de seu destino, a nave do capitão Larry é atacada por uma outra, comandada pelo desafeto do bar, Juan, e precisa fazer um pouso forçado em Lorigon.

Já no local, com a nave avariada, decidem explorar a região e seguir com os planos iniciais enquanto o trabalho de reparação é realizado. Não sei dizer porquê, mas o planeta parece um pouco o interior da Itália já visto em outros filmes…  Ao longo do caminho em busca do Anatalium, utilizando um detector que rastreia o mineral, o grupo avista um cavalo e uma égua acasalando e, por alguma razão, faz com que todos fiquem deslumbrados e as moças com um tesão danado, coçando a periquita. Em seguida, eles continuam o caminho sem nunca mencionar o ocorrido… Mas deu pra perceber que o planeta estava mexendo com a libido desses respeitáveis astronautas.

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A medida em que o grupo avança, Sondra atenta constantemente sobre as semelhanças que todo aquele ambiente tem com os seus sonhos. O que inclui um castelo que encontram e descobrem que o planeta não é tão inexplorado assim. Dentro do recinto, são bem recebidos por Onaph, o único humano de Lorigon. Ele explica para seus visitantes que o Anatalium é o bem mais precioso do local, que diminui o seu envelhecimento e que todo o planeta e seu recurso mineral é controlado por um super computador chamado Zocor.

Mas os astronautas já não parecem muito interessados naquilo. Aparentemente Zocor também controla as mentes das pessoas. Depois de servir um banquete, inclusive com a presença de Juan que resolveu dar o ar da graça, agora todo amigável, o filme se torna num verdadeiro bacanal. Ninguém é de ninguém e, na versão xxx que eu assisti, rola até cenas de sexo explícito inseridas na edição. São claramente filmadas com outros atores, em outro momento, com outra iluminação, mas até que ficaram convincentes em alguns takes.

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De qualquer forma, no meio da putaria, Onaph acaba se revelando o indivíduo metade homem, metade besta dos sonhos de Sondra, que termina estuprada por ele, apesar de depois do ocorrido, ela fique querendo um repeteco… vai entender. O único que não participa da festa é Juan, que sabe dos esquemas de bastidores e toma pílulas que bloqueiam o controle mental do super computador. Decidido a estragar a suruba, o sujeito espalha a pílula para a tripulação, que sai do transe erótico e entra em outro tipo de ação, agora com raios laser e sabres de luz contra um exército de robôs com perucas loiras vindo de um outro filme do Brescia, para destruir o Zocor e roubar o Anatalium.

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Enquanto um STAR WARS da vida tem lá sua narrativa bem estruturada e ritmada, LA BESTIA NELLO SPAZIO possui o padrão tipicamente europeu, com toques que poderíamos chamar de surrealistas, ou oníricos, mas que, na maioria das vezes não passa de insanidade desses realizadores italianos, como Bruno Mattei, Claudio Fragasso, Andrea Bianchi… E o Brescia vai pelo mesmo caminho por aqui, especialmente quando se trata de situações envolvendo sexo. Sempre que pode, o sujeito gasta bastante tempo da narrativa explorando detalhes ginecológicos de seu elenco. Fazer o que se foi esse o diferencial que Brescia encontrou para justificar mais uma produção de ficção científica? E só mesmo no final que há um clímax mais movimentado, com batalhas, lutas e explosões.

Até que não tenho muito do que me queixar das cenas de sexo, embora não sejam lá muito excitantes. Mas mostram nudez suficiente para manter o público alegre. A exceção é a atriz finlandesa Sirpa Lane, que além de possuir uma beleza escandinava exótica, não tem pudores de ficar sem roupa na frente das câmeras e entrega um bom desempenho, seja nos poucos momentos “dramáticos”, seja nas muitas e insaciáveis sequências de sexo. Outro que merece destaque é Vassili Karis, que apesar de não ter o tipo físico de herói, consegue convencer no papel do capitão. O resto do elenco são figurinhas carimbadas do universo eurocult e não se esforça mais do que lhe é exigido.

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Os iniciados no universo eurocult vão se esbaldar com os diálogos ruins, as atuações péssimas, os efeitos especiais que parecem de uma ficção científica da década de 30, as situações ridículas e absurdas e a maneira como Brescia encontra para filmá-las, é uma surpresa atrás da outra. O episódio do casal de equinos copulando, por exemplo, é hilário! Percebe-se claramente que as imagens foram inseridas de qualquer jeito sem qualquer tipo de preocupação: são stock footage filmados numa janela diferente do filme e acaba aparecendo esticados na tela; os cavalos estão com as rédeas e, pasmem, no fundo há um celeiro aparecendo na cara dura… E isso porque era pra ser um planeta inexplorado! A cena em que Onaph revela sua “identidade” da cintura pra baixo, e tudo que rola a partir daí, pode ser constrangedor, mas é digna de antologia do cinema eurotrash! Da mesma forma a batalha com os robôs dourados no final, conduzida de maneira tosca e desajeitada, mas com um charme e picaretagem de fazer inveja! Quando os personagens sacaram os sabres de luz eu simplesmente fui ao delírio!

E é por essas e outras que LA BESTIA NELLO SPAZIO vale uma conferida. Deixando bem claro que não quero pintá-lo como uma obra prima, ou algo de qualidade, pelo contrário, tenho plena consciência de que se trata de uma bobagem sem tamanho que não se deve levar a sério. Mas que acaba divertindo exatamente por esses detalhes toscos e pelo grau de insanidade e picaretagem que encontramos nesse tipo de produção. Acho até que para o espectador “comum”, sem muito contato com o cinema eurocultLA BESTIA NELLO SPAZIO não seria uma recomendação muito acertada. É preciso ter consciência que não é sempre que esses realizadores vão entregar um TERRORE NELLO SPAZIO (65), do maestro Mario Bava, esse sim uma obra -prima da ficção científica. Mas se querem assistir a um bom rip-off de STAR WARS pra começar, que seja STARCRASH, do Cozzi! Enfim, pra finalizar, deixo de presente essa bela imagem de Onaph, o Fauno bizarro e tarado do filme. Só espero que não tenham pesadelos como a Sondra…

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DIRTY LOVE (Amore Sporco, 1988)

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Aqueles filmes dos anos 80 que retratam a dura vida no universo da dança profissional, tipo FLASHDANCE, DIRTY DANCING e FOOTLOOSE, serviram de inspiração para Joe D’Amato em DIRTY LOVE. A trama é sobre uma moça que resolve encarar a cidade grande em busca do sonho de fazer parte de uma companhia de dança e conseguir uma acirrada vaga numa peça musical. Bem básico. Mas quem já conhece o trabalho do diretor sabe muito bem que D’Amato não está nem um pouco interessado no drama de sua protagonista em busca do seu lugar ao sol. Poucos diretores tiveram colhões quanto D’Amato, e sua obra é das mais ousadas, corajosas e picaretas e toda e qualquer idéia, por mais perturbadora, iconoclasta, sádica e imoral que tivesse, era muito bem aproveitada em seus filmes. Portanto, o interesse principal do D’Amato em DIRTY LOVE é este aqui:

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Ou seja, é bem melhor que qualquer FLASHDANCE da vida…

Dois pontos a se destacar. Primeiro, a direção do D’Amato, que me surpreendeu e é realmente boa, com um acabamento bem acima do nível de algumas bagaceiras que o sujeito tinha no currículo. Não sei o que deu no homem, mas demonstra habilidade de um Verhoeven nos movimentos de câmera, enquadramentos elaborados, ritmo. Pena que a produção do filme não devia ter dinheiro pra contratar coreógrafos mais talentosos para as cenas de dança, que são bem fraquinhas, chega a ser constragedor. Mas D’Amato consegue extrair até demais com a câmera. Se bem que isso não importa tanto…

Fiquei na dúvida por um momento se o próprio D’Amato se encarregou do trabalho de diretor de fotografia, algo comum em sua obra, sempre assinando com seu nome verdadeiro, Aristide Massaccesi. Aqui aparece um tal de Federico Slonisco. Mas, já confirmei, trata-se mesmo de D’Amato inventando mais um pseudônimo. Verdade seja dita, o homem é um baita diretor de fotografia e, além dos seus próprios filmes, realizou essa função para alguns nomes importantes do cinema popular italiano, como Demofilo Fidani, Alberto de Martino e Massimo Dallamano.

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O segundo ponto que merece atenção só poderia ser essa belezinha aí em cima. Valentine Demy não é atriz de profundo talento dramático, mas é deslumbrante, fogosa e não tem receio algum de tirar a roupa. Perfeita para o papel num filme como este, em que é explorado mais a sua avidez sexual do que o talento pra dança ou drama.  Mas não pensem que a personagem é vagabunda, pelo contrário, é uma mulher forte, liberta e de disponibilidade safa que faz questão de esnobar os boçais, machistas e provincianos que tentam lhe tirar proveito. Nascida na região da Toscana, Valentine começou a trabalhar como atriz no fim dos anos 80 com diretores do calibre de D’Amato e Tinto Brass. No anos 90 não conseguiu segurar o fogo entre as pernas e entrou no universo dos filmes hardcore. Chegou a atuar sob a direção de grandes autores do gênero no país da bota, como Silvio Bandinelli e Mario Bianchi. Curioso que nunca mais voltou a trabalhar com D’Amato, que passou a década de 90 quase toda fazendo pornografia. Ainda hoje na ativa, já não vale muito a pena vê-la em ação. Não por ser mais velha, isso não é problema, mas por ter se dedicado alguns anos como fisiculturista, seu corpo ganhou uma forma que já não me agrada tanto, além de ter enchido os seios de silicone…

No entanto, DIRTY LOVE e outros exemplares da época estão aí, para serem vistos e revistos. Em tempos púdicos como os que vivemos, sob a égide do politicamente correto, um filme como este aqui chega a ser um frescor.

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PS: É preciso apontar também a presença de Laura Gemser numa pequena participação. Musa de D’Amato, tendo estrelado vários filmes do homem, ela aparece aqui como uma massagista que resolve colocar as mãos em áreas, digamos, mais erógenas da protagonista…

LES TROTTOIRS DE BANGKOK (1984)

bscap0011Então em vez de conferir algum dos mais conhecidos filmes do francês Jean Rollin que eu ainda não vi, resolvi encarar este petardo do sujeito da fase oitentista. Mas até que foi uma boa surpresa! Nessa época o diretor se afastava um bocado dos filmes de horror que o consagrou na década anterior, com as vampiras belas e sexys que povoavam a maioria de suas narrativas, e desbravava novos temas. Além de uns pornozinhos habituais que ajudavam a bancas suas produções mais “sérias”, começou a aparecer na filmografia do Rollin alguns thrillers como LE PAUMÉES DU PETIT MATIN (81), e este LES TROTTOIRS DE BANGKOK, um thriller de ação e espionagem que lembra um bocado alguns trabalhos tardios de Joe D’Amato e Jess Franco.

Aliás, santa trindade: D’Amato, Franco e Rollin. Mas a real é que o tom da trama de BANGKOK é, antes de tudo, Hitchcockiano, com uma personagem inocente sendo perseguida pra todo lado, envolvida num mistério, além de um típico MacGuffin, um cilindro contendo uma perigosa arma química desejado por agentes secretos sem escrúpulos e quadrilhas que pretendem vender o artefato no mercado negro. Ou seja, é o mesmo enredo de quinhentos milhões de filmes de espionagem que o cinema sempre produziu, a diferença é o olhar do Rollin, repleto de toques geniais e que transformam uma história besta como esta aqui em algo bem mais apetitoso.

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BANGKOK começa com a morte do agente secreto Rick, cravado de balas pelo próprio diretor nas ruas da cidade que aparece no título (embora o filme tenha sido rodado na França e todas as cenas em que Bangkok aparece na tela são enxertos de outras produções). Rick estava na cidade com a missão de encontrar a tal arma biológica que todos querem. A última vez que ele foi visto com vida foi na companhia de Eva, uma dançarina de casa noturna que acredita-se ter recebido e escondido o objeto. E a partir daí começa a jornada da pobre moça, que acaba indo parar em Paris, sendo perseguida por todo tipo de pessoas com más intenções sem entender o porquê.

No meio disso tudo, uma galeria de personagens interessantes se apresenta em cena: um clone do Fu Manchu, dançarinas exóticas, belas agentes que não têm receio de tirar a roupa, espiões cascas-grossas e até um cão policial estilo Rin Tin Tin, versão de araque. Eva também é ótima personagem. Creditada apenas como Yoko (a oriental cuja imagem abre o post), é uma péssima atriz, mas tem certo carisma e a fragilidade necessária que o papel exige.

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Com duração que não chega aos 90 minutos, o ritmo frenético com o qual BANGKOK é narrado pode espantar os acostumados pela poética e lentidão dos filmes de horror de Rollin. A exceção são as longas cenas de danças na casa noturna, briga de mulheres na lama e massagens eróticas, todas com várias mulheres gratuitamente nuas e que – pensei que nunca diria isso na vida – quebram o bom ritmo do filme e poderiam ser mais enxutas. Até isso contribui para ser um exemplar bem fora das convenções do Rollin.

Mas nada que atrapalhe o andamento de BANGKOK de maneira tão grave… Mulheres nuas nunca são problemas. Há até alguns momentos específicos que só poderiam ter saído da mente de um diretor como ele (e como o D’Amato/Franco): Eva é amarrada e açoitada sob câmeras de vigilância para o deleite da mente criminosa por trás de sua captura, uma loura cinquentona e robusta que utiliza as imagens para se excitar e abrir as pernas para o seu capanga. Coisa de gênio!

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Vários outros momentos como este tornam BANGKOK um filme assistível  para quem curte uma boa bagaceira – a participação do cão, por exemplo, é nível de um Samuel Fuller ou Howard Hawks – e até delicioso para quem já conhece e admira o trabalho do Rollin e deseja conferir como o sujeito se sai fora da sua zona de conforto. E preparem-se que adentrei 2014 num clima de “Eurotrash” e pretendo compartilhar com vocês algumas experiências. Stay tuned!

THRILLER – A CRUEL PICTURE (1974)

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Aproveitando o post anterior, republico este texto do blog antigo, caso alguém ainda não tenha lido. THRILLER – A CRUEL PICTURE é simplesmente maravilhoso e nunca é demais relembrar e celebrar sua existência e a jornada da ingênua garota muda que se transforma numa das vingadoras mais implacáveis da história do cinema.

Se fosse há quinze anos, certamente estaria falando de uma famigerada raridade muito mais discutida do que realmente vista na sua versão integral. Mas depois de sua redescoberta e o lançamento em DVD há tempos no exterior, falar de THRILLER é chover no molhado… Mas é um filme que causa certo fascínio e eu precisava escrever sobre ele por aqui no Dementia¹³. Trata-se de um dos exploitations mais famosos dos anos setenta, bastante lembrando também por ter sido uma das principais inspirações do Tarantino ao escrever a saga da Noiva em KILL BILL, além de ser um dos pontos de partida para qualquer cinéfilo maluco que queira iniciar-se no universo do cinema extremo.

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Produção sueca, assinada pelo diretor, produtor e roteirista Bo Arne Vibenius, que foi assistente de direção de Ingmar Bergman em PERSONA, THRILLER surgiu como uma tentativa de recuperar o dinheiro gasto no primeiro filme de Vibenius, uma aventura de fantasia infantil que ninguém viu e que foi um desastre de bilheteria. Segundo ele, este aqui seria apenas um “commercial-as-hell crap-film”. Então não sei onde foi que ele “errou”, mas ao realizar este rape and revenge movie literalmente cruel, como o título adianta, uma autêntica obra de exploração abusando de doses cavalares de violência gráfica e sexo explícito, o sujeito acabou criando um clássico da subversão cultuado em todo mundo!

Todo o enredo de THRILLER é voltado para esses dois elementos básicos: violência e sexo. Logo no início, uma menina é estuprada por um velho louco e por consequência do trauma, ficou muda. Certo dia, ao perder o ônibus que a levaria de volta pra casa, a moça, agora jovem e interpretada pela musa Christina Lindberg, aceita carona de um sujeito que pela cara percebe-se que não possui as melhores intenções. Ingênua de tudo, ele a leva para jantar e depois para sua casa, onde a garota é drogada com heroína até ficar viciada e ser obrigada a se prostituir para “viver”.

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O primeiro cliente que aparece a pobrezinha o ataca ferozmente! Como castigo, uma pequena lição para não esquecer, o gigolô lhe perfura um olho com um bisturi, numa das imagens mais chocantes do cinema “grind house”. A coisa fica ainda mais repugnante quando ficamos sabendo dos bastidores dessa sequência e que o olho que assistimos ser cortado pela lâmina sem qualquer edição era de um cadáver real de uma garota que havia morrido há pouco tempo. Brrr!

Ao descobrir que seus pais cometeram suicídio por causa das cartas injustas e maldosas que o gigolô enviava à eles com a assinatura dela, a garota inicia um longo processo de vingança que consiste num aprendizado de artes marciais, tiro ao alvo e habilidades ao volante, para depois partir para o ataque brutal contra todos que lhe fizeram algum tipo de mal.

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Vibenius quis demonstrar que vingança é um “prato que se come frio” de forma literal. Além da narrativa construida sem pressa alguma, quase todas as cenas de ação foram estilizadas ao máximo, mostradas num super slow motion incômodo, beeeeeeem leeeeeeeeento, mas ao mesmo tempo surreal, violento e dramático.

Outro detalhe que faz o espectador levantar a sobrancelha são as pontuais cenas de sexo explícito inseridas na edição. Nenhuma delas foram filmadas com a Lindberg que, na trama, protagoniza as cenas em questão. Mas causam um estranhamento danado… Em determinado momento vemos a protagonista treinando karatê, praticando tiro ao alvo e logo em seguida um plano fechado “daquilo” entrando “naquilo”.

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O filme acabou banido da Suécia e por muito tempo pensou-se que fora o primeiro exemplar a cometer essa “proeza” por lá (na verdade, o primeiro filme proibido no país foi THE GARDENER, de Victor Sjostrom, em 1912). THRILLER foi tão multilado na época para poder chegar aos cinemas ao redor do mundo (e mesmo assim com muita dificuldade) que faço confusão com tantas versões existentes. A cópia lançada nos Estados Unidos, recebeu o título sensacional de THEY CALL HER ONE EYE, e existem relatos de que o filme passou no SBT com o título ELES A CHAMAM DE CAOLHA!!!

No entanto, apesar de toda essa áurea subversiva e doentia, de ser assumidamente um produto de exploração, com seu enredo repulsivo, cenas grotescas de violência escancarada e sexo explícito, um dos aspectos que sempre me impressionou muito em THRILLER é como o filme é lindo visualmente! Vibenius tinha muita noção de enquadramentos e surpreende com momentos de grande força estética, sublinhadas por composições que buscam trabalhar o fetiche semiótico, imagens que se transformaram em ícones do universo exploitation. A pequena Christina Linderg com o tapa olho (que muda de cor dependendo da ocasião, genial!), o sobretudo preto, carregando a pesada escopeta nas mãos é um exemplo claro disso

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Vibenius realizou apenas mais um filme após este aqui, BREAKING POINT (75), mais uma mistura controversa entre horror, thriller e sexo explícito. Infelizmente foi seu último trabalho e confesso que nunca vi. Pretendo corrigir este detalhe em breve. Lindberg já era musa do exploitation quando fez THRILLER no início dos anos 70 e sua beleza é incontestável. Além disso, o papel que faz aqui é exatamente o ideal para ela, pois suas características físicas naturais faz com que pareça muito mais jovem do que sua verdadeira idade. Sem contar que a atriz não precisa abrir a boca para soltar uma frase sequer, então só lhe restou utilizar de seus belos atributos físicos e se impor como um anjo da vingança. Saiu-se perfeitamente bem.

THE BIG SWITCH (1968)

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O primeiro filme dirigido pelo britânico Pete Walker começa com uma negrona biscoituda fazendo um strip tease num clube. Aliás, o que não falta em THE BIG SWITCH, nos seus quase 80 minutos, são mulheres tirando a roupa sem muita dificuldade. Walker é mais conhecido pelos exemplares de horror que realizou nos anos setenta, como FRIGHTMARE e SCHIZO, mas neste início de carreira o seu tema principal eram seios desnudos balançando na tela em thrillers policiais. No caso de THE BIG SWITCH, um playboy londrino chamado John Carter é implicado no assassinato de uma loura que ele queria comer. E por conta disso, acaba se envolvendo com o submundo do crime, sendo chantageado e etc… e a cada situação, dá-lhe mulheres com peitos de fora.

Dizem que Walker começou a escrever o roteiro de THE BIG SWITCH pela manhã e terminou na tarde do mesmo dia. Se é que podemos chamar o que temos aqui de roteiro. As filmagens demoraram menos de uma semana e tudo isso reflete no filme, que é cheio de atuações ruins (Sebastian Breaks que faz o protagonista é um tremendo canastrão), e uma direção desleixada, sem ritmo, com poucos momentos de criatividade. Então, o filme é uma porcaria? Diria que sim, mas é assistível pela quantidade de peitos, é tão curto que não dá tempo de se chatear e vale pela curiosidade de conhecer os primórdios do cinema desse diretor peculiar.

HOBO WITH A SHOTGUN (2011)

Antes que eu me esqueça e acabe não escrevendo NADA sobre o filme, assisti a HOBO WITH A SHOTGUN já faz um tempinho e gostei bastante! Como já se sabe, tudo começou com aquela história de trailers falsos no projeto GRINDHOUSE, de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, e um desses trailers acabou despertando a atenção de muita gente e acabou virando longa metragem.

E não estou falando de MACHETE, mas sim daquele cuja história, bem simples, mostrava um mendigo, uma escopeta, tiros e sangue à vontade, perfeitamente encaixado no espírito da brincadeira. E o canadense Jason Eisner, que realizou este fake trailer, conquistou também o direito de adaptá-lo para uma versão de duração maior e não desperdiçou a oportunidade. HOBO WITH A SHOTGUN oferece em todos os sentidos aquilo que a sua fonte de origem prometia. Diferente de MACHETE, que apesar de não ser ruim, decepcionou profundamente. Até hoje eu não acredito que Rodriguez e sua trupe desperdiçou um material tão genial, com um puta time de atores que tinha em mãos…

Em HOBO não temos um elenco estelar, apenas Rutger Hauer carregando o filme com sua presença sempre marcante. Com ele não há decepção! Nunca vi um filme sequer com o velho Rutger em que ele estivesse ali só pra pegar o cheque para pagar as contas. Nas mais altas produções, como BLADE RUNNER, a filmecos de baixo orçamento dirigido pelo Pyun, Rutger Hauer consegue manter a dignidade e demonstrar talento como poucos.

A história de HOBO continua de uma simplicidade exemplar, mesmo depois de adaptado (aprende Rodriguez!), com Hauer encarnando o mendigo que chega a uma cidade onde a corrupção e violência nas ruas imperam de uma maneira pertubadora, absurdamente exagerada e estilizada, e depois do desenrolar de vários acontecimentos nosso protagonista se vê obrigado a tomar certas atitudes, pega todo o seu dinheirinho e investe numa escopeta para fazer justiça por conta própria estourando a carcaça dos meliantes com calibre 12, como forma de contribuir para que o crime seja varrido das ruas.

O espectador é então trasportado para uma espécie de cinema transgressor e politicamente incorreto que se não atinge perfeitamente seu objetivo nesse sentido, ao menos chega bem perto de um resultado muito eficiente que lembra os exploitations setentistas mesclados aos filmes da Troma, em uma constante de situações de pura violência gráfica, explícita e visceral e um humor que incomoda os moralistas de plantão.

Algumas sequências realmente vieram pra ficar na memória este ano, demonstrando a criatividade e inteligência de seus realizadores, especialmente Jason Eisner que possui um baita potencial e mão firme pra conduzir toda essa sandice! A cena em que um dos personagens tem uma certa “visão” antes de morrer é sensacional, assim como a sequência dos dois cyborgs em ação no hospital (eram ciborgues ou pessoas vestidas de armadura? Já faz um tempo mesmo que vi e realmente não me lembro… mas tanto faz!). E claro, as moças de topless se divertindo e rindo a valer enquanto espancam um sujeito pendurado de cabeça pra baixo… já vale o filme inteiro!

E dentro deste espetáculo grotesco e de humor negro, encontramos um Rutger Hauer extremamente expressivo, cujo carisma atinge o público do início ao fim. Não tem como não gostar…

Desde que iniciou essa onda revival do cinema exploitation, são poucos os exemplares que realmente conseguem sair do lugar comum. Os próprios filmes do projeto GRINDHOUSE acabaram falhando nesse sentido (embora eu adore tanto PLANETA TERROR quanto DEATH PROOF). Calhou de alguns filminhos de pouco orçamento, despretensiosos, como BLACK DINAMYTE e este aqui a missão de representar esse cinema de outrora. HOBO WITH A SHOTGUN já é um dos mais divertidos de 2011.

PERVERT! (2005)

Foi mais por negligência minha mesmo, mas finalmente eu parei para assistir a essa sandice anárquica e sem vergonha dirigida por Jonathan Yudis, o cara responsável por Ren & Stimpy, um dos meus desenhos favoritos de todos os tempos!

PERVERT! Conta a história de um rapaz que vai passar uns tempos no rancho de seu pai (Darrell Sandeen, que é a cara do Charlton Heston) durante as férias na faculdade, para tentar uma reaproximação com o velho que há muito tempo não via. A propriedade fica no meio de um deserto do oeste americano, isolado de tudo, e assim que chega ao local, percebe que seu pai está bem até demais, casado com uma gatinha robusta bem mais nova, interpretada pela pornstar Mary Carey.

A moça, sentindo cheiro de carne nova no pedaço, fica toda ouriçada. Ainda mais que o mancebo é desses com carinha de mané inocente, meio nerd, característica que toda atriz pornô adora! Não demora muito, os dois estão se atracando em cada canto da casa e ao ar livre na propriedade, sem que o velho tenha noção de que isso esteja acontecendo debaixo do seu nariz.

Até aí, o filme segue a linha da comédia sexy, com excelentes doses de nudez. Mas quando o velho finalmente descobre que seu filho está traçando sua mulher, o filme acrescenta outros elementos, um mais bizarro que o outro, para deixar a coisa ainda provocativa, iconoclasta, perturbadora, politicamente incorreta e pervertida, claro, como assassinatos misteriosos, uma escultura de carne humana, magia negra e maldições, muito gore e um pênis assassino! Yeah! PERVERT! é o tipo de filme que com 5 minutos você sabe se vai gostar ou não do que vai ver nos próximos 80 ou 90 minutos. A combinação disso tudo é perfeita pra mim, então eu adorei definitivamente!

Para aumentar ainda mais o deslumbre, o filme é uma carta de amor ao cinema de Russ Meyer, um dos diretores mais radicais do cinema americano, um pioneiro ao explorar volumosas mamárias das atrizes em seus filmes, além de dar ao universo feminino um valor libertário magnífico. As mulheres são sempre personagens fortes e decididas e os homens, geralmente machistas bestas ou inocentes presas dessas feras sexuais! Jonathan Yudis captou com perfeição o espírito de Meyer, que teria aplaudido de pé o resultado (morreu um ano antes do lançamento deste aqui)!

Há de se destacar o desempenho de Mary Carey. É provável que não conseguisse sobreviver no mundo do cinema como uma “atriz comum”, mas percebe-se claramente que ela se diverte com sua personagem, está bem à vontade, muito à vontade mesmo, nua durante quase todas suas cenas, fazendo um bem danado ao filme. Em determinado momento, ela precisa sair de cena, e é substituídas por outras moças de seios volumosos e naturais (atrizes do cinema adulto também), mas a saudade de Carey é a que permanece…

Mas isso não chega a ser um problema, PERVERT! é frenético, bem dirigido, divertido, muitas mulheres rechonchudas peladas desfilando na tela (nada dessas magrelas que parecem meninos de 15 anos e que parece ser o padrão de beleza atual), litros de sangue e violência explícita, temos a participação do próprio diretor como um mecânico nazista, redneck e homossexual que é impagável… enfim, um verdadeiro desfile de situações porra-louca que se você estiver no clima é impossível não gostar, principalmente se você for fã do mestre Russ Meyer.

SINGAPORE SLING (1990)

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Alguém aí conhece esta belezura vindo da Grécia? Eu não fazia ideia da existência de SINGAPORE SLING até ontem a noite quando me deparei por acaso. Trata-se de uma das experiências mais bizarras e perturbadoras que eu já tive com cinema, uma coisa linda, encontro de cinema noir dos anos 40 com David Lynch, surrealismo, filmado em preto e branco, alto grau de erotismo e imagens extremas de revirar o estômago.

Na trama, um detetive procura Laura, que está desaparecida, mas acaba sequestrado por duas mulheres em uma mansão – uma delas é sósia da tal Laura (ou será que ela é mesmo a desaparecida?) – que adoram explorar os limites do prazer, seja cometendo assassinatos, comendo carne humana como se fosse um manjar da alta classe e praticando o coito em suas mais variadas formas, utilizando dos mais variados estímulos, como tortura, choques elétricos, vômito e urina enquanto praticam o ato sexual.

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Tudo isso é lançado na tela de forma quase explícita pelas cameras do diretor Nikos Nikolaidis, que também é o autor do roteiro e que morreu em 2007. Gostei bastante da direção, muito seguro no que faz aqui, uma bela obra de arte. Sabe brincar com sua narrativa nada convencional e utiliza de elementos, enquadramentos, narração em off retiradas dos filmes noir, que parece ser a principal fonte de inspiração. Alguns detalhes são bem evidentes: Laura, por exemplo é o título de um belo noir de Otto Preminger e uma das personagens usa o mesmo vestuário de Glória Swanson em CREPÚSCULO DOS DEUSES.

SINGAPORE SLING é bem aberto e confuso na medida exata de um bom surrealismo e deixa várias imagens poderosas de impacto para serem sentidas, vislumbradas pelos espectadores que sabem desfrutar uma bizarrice extrema. Vale destacar também os três atores, os únicos que aparecem em cena, três insanos em um notável desempenho. Corro o risco de ser o último a tomar conhecimento desta obra, mas confesso que nunca tinha ouvido falar. De qualquer forma, vale a pena deixar essa dica para quem ainda não viu. A pergunta do início do texto ainda vale…

THE KLANSMAN (1974), de Terrence Young

Para começar bem o ano, revi essa preciosidade dos anos 70, estrelado pelo meu ator favorito, Lee Marvin, o qual vive um xerife casca grossa de uma pequena cidade americana que precisa tomar certas atitudes quando um grupo da Ku Klux Klan resolve botar pra quebrar em cima dos negros.
THE KLANSMAN é um filme interessante, desses que ninguém teria coragem de realizar hoje dentro de um estúdio americano, uma fábula cruel e violenta sobre racismo.

Naquele período o politicamente incorreto não era visto com o rabo de olho como é hoje (na verdade, era, só que os produtores ainda tinham audácia para financiar certas coisas). Brancos estuprando negras, castrando e assassinando negros à sangue frio, são pequenos detalhes presentes aqui, entre outras coisas, inimagináveis na Hollywood atual.

A primeira versão do roteiro, baseado num romance de William Bradford Huie, foi escrita pelo mestre Samuel Fuller – ele também seria o diretor do projeto – mas muito pouco do que fora filmado estava realmente nos manuscritos do diretor de CÃO BRANCO. O personagem de Marvin, por exemplo, não era um xerife, mas um membro da KKK cujo ponto de vista sobre o racismo se transformaria durante a trama. Havia também outros detalhes que provocaram os executivos da Paramount e fizeram com que fossem impostas as modificações, o que deixou Fuller puto da vida ao ponto de chutar o balde e pular fora. Mesmo assim, ele recebeu crédito pelo roteiro. Marvin pensou em fazer a mesma coisa, mas como já havia assinado o contrato acabou ficando.

Para o lugar de Fuller na direção, contrataram o veterano Terence Young, um nome raramente lembrado, mas possui no currículo alguns bons filmes de ação dos anos 60 e 70 realizados em sua maioria na Europa. Era um artesão de fato, mas sabia posicionar e movimentar muito bem a câmera com segurança, sabia contar uma boa estória. Foi ele quem dirigiu os dois primeiros filmes da série estrelada pelo espião 007, com Sean Connery.

Além de Lee Marvin, que está sempre perfeito em tudo que faz, temos também o britânico Richard Burton encabeçando o elenco. Dizem as colunas de fofocas que os dois bebiam todo tempo enquanto filmavam. Burton teve que parar em uma clínica para tratar do alcoolismo assim que as filmagens terminaram. O elenco se completa com o grande Cameron Mitchell, outro ator subestimado, e O.J. Simpson, aquele ex-jogador de futebol americano acusado de ter assassinado sua ex-mulher. Mas muitos se lembram dele como o policial Nordberg de CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ.

O tema de THE KLANSMAN é tratado de maneira muito clara durante a trama e não possui muitas pretensões reflexivas, algo com o qual o roteiro de Fuller provavelmente proporcionaria. Tampouco é um filme de muita ação. Temos o final quando o grupo de KKK, fantasiados à caráter, encurrala o Xerife e seus amigos – estes respondem com chumbo grosso sem piedade, e só.

Mas é um bom filme que valoriza seus personagens e suas excelentes atuações, como os grandes momentos de Marvin contracenando com Burton, além da brutalidade habitual do cinema americano dos anos setenta. Um charme cultuado hoje, mas o filme pagou um preço sendo colocado no mesmo patamar das produções do cinema de exploração e, como acontece com quase todo esse tipo de filme, acabou encalhado e esquecido.