CPC-UMES FILMES – LANÇAMENTO DE SETEMBRO

Em comemoração ao centenário do diretor Serguei Bondarchuk, o lançamento da CPC-UMES FILMES em setembro está mais do que especial. Será GUERRA E PAZ, que Bondarchuk dirigiu em 1966, considerada a mais fiel adaptação cinematográfica do clássico de Liev Tolstoi.

E a coisa só melhora: a edição terá dois discos de blu-ray (ambos de 50Gb, dupla camada), a partir da matriz cuidadosamente restaurada pelo Estúdio Mosfilm em 2017, com traduções e legendas direto do russo, Embalado em luva com acabamento especial, quatro cards, um pôster e todas as quatro partes que formam este épico do cinema soviético (lançados entre 66 e 67), num total de mais de 7 horas de pura maravilha cinematográfica.

DISCO I
Guerra e Paz I – Andrei Bolkonsky (146 min.)
Em 1805, o príncipe Andrei Bolkonsky alista-se no Exército Russo. Gravemente ferido na Batalha de Austerlitz, onde os seus são esmagados, o príncipe é erroneamente dado como morto. Pierre Bezukhov, filho bastardo de um dos homens mais ricos do país, é apresentado à alta sociedade.

Guerra e Paz II – Natasha Rostova (97 min.)
A segunda parte da adaptação do romance de Liev Tolstoi ocorre no ano de 1809. Andrei Bolkonsky se apaixona por Natasha Rostova, e a pede em casamento. Seu pai, o Conde Rostov, pede, porém, que aguardem o retorno do príncipe de uma viagem. Nesse interim, Natasha conhece Anatol Kuraguin, e os dois acabam se envolvendo. Bolkonsky descobre o romance e anuncia o fim do noivado. Bezukhov declara seu amor por Rostova enquanto tenta consolá-la.

DISCO II
Guerra e Paz III – O Ano de 1812 (81 min.)

O exército de Napoleão invade a Rússia em 1812. Pierre Bezukhov acompanha a preparação para o iminente confronto. Ele se voluntaria para a artilharia na Batalha de Borodino, maior cena de guerra já filmada, que contou com 300 atores, 120 mil figurantes e o uso de 200 canhões e 100 mil fuzis. A unidade de Bolkonsky espera na reserva durante o conflito, e o príncipe é atingido por estilhaços de um tiro de canhão. À medida que presenciamos a guerra em toda a sua crueza, ressalta-se o repúdio de Tolstoi ao que o próprio escritor descreve como “o contrário da lógica da razão e da natureza humanas”.

Guerra e Paz IV – Pierre Bezukhov (96 min.)
O Exército de Napoleão avança pelo território russo. Mas a evolução se mostra infrutífera pela efetividade da tática de “terra arrasada” do Exército Russo, sob o comando do marechal Mikhail Kutuzov, que não poupa Moscou, incendiando a cidade para que os invasores não encontrem “nem abrigo, nem suprimentos”. Enquanto Moscou arde, os Rostovs se retiram e no caminho levam vários soldados feridos, entre eles Bolkonsky. Pierre Bezukhov permanece na cidade. Os franceses são derrotados na Batalha de Krasny, e iniciam o longo percurso de volta, acossados pelas tropas russas.

SOBRE O DIRETOR SERGUEI BONDARCHUK
Nasceu na Ucrânia. Depois de combater na Segunda Guerra com o Exército Soviético, concluiu seus estudos na Universidade Estatal Russa de Cinematografia (VGIK), na oficina de Serguei Gerasimov e Tamara Makarova, em 1948. A partir de então trabalhou como ator no Estúdio Mosfilm, debutando em um papel secundário no filme A JOVEM GUARDA, dirigido pelo próprio Serguei Gerasimov. Em 1951 protagonizou o drama CAVALEIRO DA ESTRELA DE OURO dirigido por Yuly Raizman. Em 1955 interpretou o papel principal em uma adaptação de OTELO, de Shakespeare, dirigida por Serguei Yutkevich. Em 1959 estreou na direção em O DESTINO DE UM HOMEM. Do seu trabalho como diretor destacam-se ainda GUERRA E PAZ (1966-67), ELES LUTARAM PELA PÁTRIA (1975), sobre a Batalha de Stalingrado; e a adaptação da obra de Aleksandr Pushkin, BORIS GODUNOV, que protagonizou e dirigiu em 1987. Seu último trabalho foi O DON TRANQUILO (1992), série de TV que realizou com seu filho, Fyodor. Foi distinguido com o título de Artista Popular da URSS em 1952, com o Prêmio Stalin também em 1952, e como Herói do Trabalho Socialista em 1980.


O lançamento de GUERRA E PAZ será em 25/09/20, mas a edição já está em pré-venda no site da CPC-UMES FILMES (clique aqui para acessar) e em breve estará também nos sites das lojas parceiras da distribuidora. Não deixe de seguir a CPC-UMES FILMES nas redes, Facebook e Instagram, para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos em DVD e Blu-Ray.

CINE POEIRA – EPISÓDIO 12

Steve McQueen e Sam Peckinpah não imaginavam que um singelo filme de assalto, feito unicamente para servir de veículo ao astro McQueen, seria tão influente quando uniram forças para fazer OS IMPLACÁVEIS (The Getaway, 1972). No programa desta semana, comentamos sobre esse clássico do cinema policial lançado nos anos 70, a década que abalou as estruturas do gênero.

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O FILHO DE DRÁCULA (1943)

O FILHO DE DRÁCULA (Son of Dracula), é o terceiro filme da Universal que carrega o nome “Drácula” no título. E sabiamente afasta-se tanto quanto possível dos cenários e enredo do romance original de Stoker. Da mesma forma que o segundo, que comentei aqui recentemente, A FILHA DE DRÁCULA. Havia essa preocupação dos realizadores em não “recauchutar” os filmes originais, que tinham sido sucessos, e se arriscavam em fazer algo diferente.

Uma das principais mudanças deste aqui é o cenário, que foge do visual gótico e sombrio europeu e transcorre na região pantanosa do sul dos EUA num período “contemporâneo”.

Kay Caldwell (Louise Allbritton) é a herdeira excêntrica de um rico coronel, cujo entusiasmo pelo ocultismo chama a atenção de todos à sua volta. Sua família a considera estranha, mas isso não impede que seu jovem vizinho, Frank (Robert Paige), se apaixone perdidamente por ela. Sua extravagância atual é a telepatia, pois acredita que está em contato com um misterioso aristocrata do Leste Europeu e que o está chamando. E, de fato, é exatamente isso que está acontecendo.

A bagagem de seu misterioso nobre, um húngaro chamado Conde Alucard (Lon Chaney Jr), chega de trem. Inclui várias caixas grandes, mas não há sinal de seu dono. Rola até uma festa de boas-vindas na mansão Caldwell sem o hóspede, mas Kay está convencida de que ele chegará naquela noite. Só que coisas estranhas e trágicas começam a acontecer… A noite cai e um incêndio inexplicável irrompe no quarto do patriarca da família, cujo cadáver é então descoberto. Parece que foi vítima de um ataque cardíaco, embora alguém diga que parece que morreu de susto. Pouco depois, o conde húngaro chega à porta da mansão.

O médico de família, Dr. Brewster (Frank Craven), desconfia do recém-chegado desde o início, e suas suspeitas aumentam quando ele conversa com o professor Lazlo na embaixada da Hungria em Washington, que nunca ouviu falar de conde Alucard, mas ambos notam que Alucard escrito ao contrário é Drácula. E a partir daí o filme vira uma sucessão de situações de horror, uma corrida contra o tempo para se livrar do mal que paira sobre a região ao melhor estilo do Ciclo de Monstros da Universal.

E uma das coisas mais legais de O FILHO DE DRÁCULA é que os personagens não levam muito tempo pra descobrir que algo sobrenatural está acontecendo, todos parecem muito familiarizados com o mito de Drácula e rapidamente percebem o tipo de ameaça que estão lidando.

O grande Lon Chaney, o homem das mil faces, não teve a oportunidade de viver o Conde Drácula, embora fosse a primeira escolha da Universal ainda para o primeiro filme, mas morreu antes das filmagens iniciarem e acabou substituido por Bela Lugosi. Então é legal ver que seu filho, Lon Chaney Jr, teve a chance em O FILHO DO DRÁCULA, num papel não tão icônico quanto o Drácula original de Lugosi, mas com uma atuação bem digna e nada convencional que dá ao personagem um tom de ameaça bem expressiva.

Parece que dividiu as opiniões em relação à sua interpretação por aqui. Eu achei ótimo, um de seus melhores desempenhos no Ciclo de Monstros. Lembrando que o sujeito também já foi o Monstro de Frankenstein em O FANTASMA DE FRANKENSTEIN, mas seu papel mais famoso foi em O LOBISOMEM, onde faz o personagem título e que continuou fazendo numa série de outros filmes. Por aqui, como Drácula, tem muita presença física e seu olhar penetrante realmente está assustador, transmite uma crueldade e um desprezo pela humanidade que possivelmente nem mesmo o Lugosi expressava.

Louise Allbritton como Kay está fantástica, refletindo perfeitamente suas preocupações “mórbidas”. Sua imagem não fica tão marcada pelo erotismo perturbador que Gloria Holden em A FILHA DE DRÁCULA, mas Kay é uma das personagens mais fascinantes da série, que se revela uma figura ainda mais perversa e perturbadora do que o vilão ostensivo de Drácula. Você quase sente pena do pobre Alucard por se envolver com ela… E mais pena ainda pelo pobre Frank, que vive o drama mais interessante do filme. O fato de O FILHO DE DRÁCULA ser focado em uma personagem feminina tão forte, o torna quase um filme noir, com Kay numa espécie de femme fatale da parada.

Por falar em film noir, a direção é do grande Robert Siodmak, justamente conhecido pelos belos exemplares do gênero que tem em sua filmografia, como a primeira versão de OS ASSASSINOS, com Burt Lancaster. Siodmak dá a’O FILHO DE DRÁCULA algumas das imagens mais impressionantes de qualquer filme de terror daquela época – cenas como o conde surgindo no pântano, o uso da névoa como efeito das variadas metamorfoses do vampiro e o morcego na cela em que Frank está preso são bons exemplos de composições de arrepiar.

Siodmak faz uma mistura interessante de estilos, com sequências centradas nos dois doutores “caçadores de vampiros”, Dr. Brewster e Lazlo, sendo filmadas principalmente à luz do dia, enquanto as cenas centradas em Kay, o Conde, e especialmente Frank, são noturnas, filmadas num estilo expressionista. Enfatiza o contraste entre a realidade cotidiana e o mundo de pesadelo dos vampiros. Para um filme que coloca um vampiro no mundo dos anos 1940, é uma boa sacada.

Pena que foi o único filme do gênero, horror puro, que Siodmak realizou. O FILHO DE DRÁCULA foi uma bela descoberta, talvez eu tenha gostado ainda mais que o anterior, A FILHA DE DRÁCULA, embora o primeiro continue imbatível.

A partir daqui, o personagem começaria a aparecer no Ciclo de Monstros em produções que faziam crossover entre as figuras que habitam os universos desses monstros clássicos, especialmente com Lobisomem e o Monstro de Frankenstein, como em A CASA DE FRANKENSTEIN e A CASA DE DRÁCULA, que já foram assuntos aqui no blog. Falta comentar alguma coisa ainda sobre ABBOTT & COSTELLO CONTRA FRANKENSTEIN, mais uma dessas misturas malucas, agora numa comédia, mas que marcou como a última aparição de Bela Lugosi como Drácula.

★ ★ ★

CINE POEIRA – EPISÓDIO 11

No CINE POEIRA desta semana, comentamos sobre O HOMEM SEM SOMBRA (Hollow Man), subestimado título na filmografia do famoso diretor holandês, Paul Verhoeven. Até o presente momento, foi seu último projeto bancado por um grande estúdio de Hollywood. Estrelado por Elizabeth Shue e Kevin Bacon, este thriller sci-fi conta com um trabalho de efeitos especiais que continua a impressionar mesmo após os seus 20 anos de lançamento.

Ouça o novo episódio por aqui mesmo:

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CINE POEIRA – EPISÓDIO 10

Antes que eu me esqueça, o episódio dessa semana no Cine Poeira foi o resgate de nada mais, nada menos que o clássico badass noventista CON AIR: A ROTA DA FUGA (1997), longa de estreia do diretor Simon West. Uma pequena joia do cinema de ação estrelada pelas feras Nicolas Cage, John Malkovich e John Cusack!

Ouça o episódio apertando o play aqui mesmo:

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A FILHA DE DRÁCULA (1936)

Demorou cinco anos para a Universal lançar uma sequência para o seu sucesso de 1931, DRÁCULA, que comentei por aqui outro dia. A produção tem seu lado conturbado e aconteceu num período delicado para a produtora, cujos problemas financeiros chegaram no auge e a família Laemmle – incluindo o patriarca Carl Laemmle, que fundou o estúdio – foi chutada sem cerimônia.

Enquanto isso, A FILHA DE DRÁCULA (Dracula’s Daughter) teve o roteiro reescrito trocentas vezes ao longo dos anos, Bela Lugosi fora dispensado depois de exigir um salário melhor, a produção teve o orçamento estourado por conta dos atrasos e de más decisões, acabou caríssimo para os padrões da Universal… Tudo contribuiu para que essa continuação demorasse tanto para ver a luz do dia.

Apesar disso, A FILHA DE DRÁCULA é uma sequência intrigante. Percebe-se claramente que não se trata de um caça níquel mequetrefe que repete a fórmula do primeiro filme para enganar o espectador, mas, ao contrário, toma caminhos diferentes, subverte as expectativas e desenvolve ideias muito originais, realmente provocativas, tão interessantes quanto as do seu antecessor.

O filme começa exatamente onde DRÁCULA termina, com o vampirão tendo acabado de ter o coração perfurado com uma estaca pelo professor Von Helsing (por alguma razão o “Van” foi trocada por “Von” para esta sequência, sabe-se lá porquê). Então, Von Helsing, novamente vivido por Edward Van Sloan, ainda está no mesmo local que fecha o filme de 1931, quando a polícia chega e o sujeito acaba acusado do assassinato do Conde Drácula – e que, novamente, por alguma misteriosa razão, sumiram todos os outros personagens do filme anterior que poderiam testemunhar a seu favor. Vai entender…

Sir Basil Humphrey (Gilbert Emery), da Scotland Yard, até preferiria não prosseguir com as acusações contra o professor, mas não tem escolha. Aconselhado a buscar por um bom advogado, Von Helsing, em vez disso, pede para ser defendido por seu ex-aluno, um psiquiatra chamado Jeffrey Garth (Otto Kruger). Mas tudo complica ainda mais quando o corpo do Conde Drácula – um boneco de cera que imita a aparência de Lugosi – desaparece da estação de polícia.

O corpo, na verdade, fora roubado pela Condessa Marya Zaleska (Gloria Holden), a qual se refere ao longo do filme como a filha de Drácula… Filha biológica? Aí as coisas já não ficam muito clara, tendo em vista que o Conde tinha essa capacidade de transformar algumas de suas vítimas em “filhos da noite“, o que pode ser o caso da Condessa…

Filha real ou não, o que é interessante é o fato da condessa ser uma vampira relutante, à princípio, esperando que a morte de Drácula a libertasse da maldição do vampirismo. Mas, aparentemente, a coisa não deu certo… Agora, ela espera que talvez a psiquiatria possa ajudá-la.

E é curioso que A FILHA DE DRÁCULA talvez seja o primeiro filme a abordar a ideia do vampirismo como uma forma de transtorno psiquiátrico, ou de hipinoze ou até de domínio mental do que realmente necessidade de sangue e outras características dos vampiros. Ideias que já foram exploradas inúmeras vezes ao longo das décadas, mas que aqui talvez mereça o crédito por ser o primeiro a fazê-lo.

Jeffrey Garth, o tal psiquiatra amigo de Von Helsing, acaba justamente sendo o disponível para lhe atender. A Condessa, desesperada para escapar de seu destino vampírico, fica cada vez mais convencida de que apenas Garth pode ajudá-la. Se ele não fizer de bom grado, bom, o bicho vai pegar… Porque aí toda relutância acaba e a vampira resolve assumir o lado malvado do papai. Enquanto isso, mais corpos com o sangue drenado e furos no pescoço vão surgindo pelas ruas de Londres.

Uma das coisas mais fascinantes de A FILHA DE DRÁCULA é a personificação de Gloria Holden como a personagem do título. Com uma beleza exótica, parece exatamente como se imagina uma vampira. Seu desempenho é crucial e funciona lindamente. Ainda no elenco, Irving Pichel, que faz o fiel criado da Condessa, está agradavelmente assustador, perfeito para esse tipo de papel.

Agora, não sei se Otto Kruger foi a escolha ideal para Garth. Não vi muita graça no sujeito e ele não parece muito à vontade como “herói” da parada. Já Marguerite Churchill se diverte como sua assistente, Janet. E Edward Van Sloan tem uma participação bem menos expressiva que a do primeiro filme. Gostava mais quanto ele era “VAN” Helsing ao invés de “Von“…

O visual do filme, assim como o do primeiro, é impressionante. Mas o diretor Lambert Hillyer e o diretor de fotografia George Robinson não exageram muito no gótico, estilo que utilizam para fazer uma combinação eficaz entre, digamos, o gótico dos vampiros e o universo moderno da ciência e tecnologia. A sequência em que a Condessa Zaleska e Sandor realizam um ritual com o corpo do Conde Drácula tem umas composições bem bonitas.

No geral, o filme não possui o talento de um Tod Browning (ou James Whale, que chegou a ser escalado para dirigir A FILHA DE DRÁCULA), mas Hillyer era um diretor competente. Embora não tivesse tanta experiência com horror, teve no currículo mais de 160 filmes (a grande maioria Westerns).

Novamente temos aqui a ideia do vampirismo ligado à sexualidade, ou mais especificamente à sexualidade doentia ou perigosa que sempre existiu, sendo uma característica central da maioria das histórias que lidam com vampiras. O que, claro, nos leva à cena mais notória de A FILHA DE DRÁCULA, em que uma jovem é atraída ao estúdio da Condessa para posar para uma pintura e acaba se tornando mais uma vítima. A cena certamente dá a sensação de sedução e lesbianismo, reforçada pelo fato de que a garota se desnuda parcialmente para posar para a condessa, que a devora com os olhos.

Então, A FILHA DE DRÁCULA também é o primeiro exemplar de vampiras lésbicas? Muito provável. E essa cena certamente pode ser interpretada dessa forma, sem precisar refletir muito. No entanto, existe outra ideia possível. Já que a condessa deseja escapar de sua existência vampírica e viver como uma mulher normal, ela sente ciúmes e ódio ​​por outras mulheres que podem viver uma vida normal e experimentar o amor e etc… Sua atitude com Janet, que acaba sequestrada ao final (o que rende mais cenas bem ambíguas de lesbianismo) tende a apoiar a ideia de que ela pode ser motivada pelo ódio às mulheres, e não por outros sentimentos…

Enfim, A FILHA DE DRÁCULA me deixou com esses pensamentos, que não precisam exatamente de definições e respostas. É um filme de horror inteligente que não se fecha e por isso mesmo tão bom. Talvez realmente faltasse a maestria de um Tod Browning na direção, que é o que torna o primeiro DRÁCULA imbatível. Mas dentre os filmes do ciclo de monstros da Universal, A FILHA DE DRÁCULA é um dos mais fascinantes.

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12 ANOS NA TELA

Aos trancos e barrancos, seguimos em frente, cada vez com menos tempo pra postar, cada vez com menos leitores lendo o que a gente escreve… Mas tudo bem, continua sendo o cantinho ideal pra demonstrar a minha paixão pelo cinema. Obrigado aos que continuam visitando o recinto! 😀

SCOTT ADKINS + ISAAC FLORENTINE: SEIZED [TRAILER]

SCOTT ADKINS RETOMA PARCERIA COM O DIRETOR ISAAC FLORENTINE NUM FILME DE AÇÃO EXPLOSIVO

Acabei de ver o trailer de SEIZED, que é um dos filmes que tô mais ansioso para conferir este ano. Produção que reúne novamente o diretor Isaac Florentine, um dos maiores especialistas em ação da atualidade (há uns quinze anos que venho falando isso, na verdade) com o maior astro de ação que temos em atividade no cinema ocidental, Scott Adkins.

E SEIZED tá com uma cara muito boa! Aparentemente vai ser mais um petardo de ação e pancadaria. Saca só o trailer abaixo e aproveita pra conferir o grande Mario Van Peebles marcando presença como chefe de um cartel que sequestra o filho de Adkins para colocá-lo de volta em ação (não é a toa que o filme vem sendo chamado de encontro entre JOHN WICK e BUSCA IMPLACÁVEL).

Agora que já assistiram a essas imagens espetaculares, vamos à sinopse oficial: “Escondido com seu filho Taylor na costa mexicana, Nero (Scott Adkins) espera deixar sua violenta carreira nas Forças Especiais para trás. Mas depois que sua casa é atacada e Taylor sequestrado, o misterioso Mzamo (Mario Van Peebles) ordena que Nero elimine os membros de três sindicatos rivais do crime. Se ele falhar, Taylor morrerá. Agora, com balas voando e corpos caindo enquanto Nero completa sua missão, ele corre para encontrar o esconderijo de Mzamo e buscar vingança.

Atualmente, Adkins tem realizado uma boa parceria com o diretor Jesse V. Johnson em filmaços como AVENGEMENT e THE DEBT COLLECTOR, mas foi Isaac foi Florentine que colocou Adkins no radar dos fãs de ação com FORÇA ESPECIAL, de 2003, e a criação de uma das figuras mais fascinantes do cinema de artes marciais recentes, o icônico Yuri Boyka, da série de filmes UNDISPUTED.

Contando com SEIZED, a dupla já possui oito produções em parceria. Enquanto Jesse V. Johnson tem até o momento seis filmes em conjunto com Adkins. A maioria desses filmes, de ambas parcerias, forma a nata do cinema de ação de baixo orçamento da atualidade.

E SEIZED, ao que tudo indica, chega pra fazer parte dessa leva. E dá pra sentir que a coisa vai ser legal, realmente uma mistura maluca de vibes de BUSCA IMPALCÁVEL e JOHN WICK, que são bons materiais para se inspirar. E não há como negar a sensação de filme de ação que assistíamos em VHS pegando em locadoras nos anos 90.

Junto com o trailer, a rapaziada também divulgou uma data de lançamento para SEIZED, que será 13 de outubro, em DVD e nos streamings da vida… Não faço ideia se chega tão rápido no Brasil, mas se não acontecer, temos meios alternativos para poder aproveitar Scott Adkins esmurrando bandidos.

DRACULA (1931)

Revi o DRACULA do Tod Browning, estrelado pelo grande Bela Lugosi. Nunca fui grande fã desta versão e cheguei a comentar no início do texto que fiz sobre FRANKENSTEIN, de James Whale, há alguns meses, que “FRANKENSTEIN sempre me pareceu bem mais avançado e moderno, resistindo mais ao teste do tempo. Posso ver e rever que não me canso. Já o filme de Browning… Não que eu não goste de DRACULA, que também tem sua inegável importância para o gênero, mas não me encanta tanto quanto outros exemplares de horror do período.

Bom, eu era jovem e não sabia de nada quando vi DRACULA nas primeiras vezes. E ainda não sei muita coisa. Mas revi agora em blu-ray e, pronto, foi dessas revisões que muda tudo. Daí que sempre ressalto a importância de rever determinados filmes. Estes não mudam, mas a nossa sensibilidade sim. E ao longo do tempo obras que achamos menores acabam se revelando maravilhas do cinema. Como é o caso de DRACULA.

Pode-se dizer que trata-se da primeira versão oficial levada para as telas do romance de Bram Stoker, considerando que NOSFERATU (22), de Murnau, seja a versão pirata do romance. Essa história todo mundo conhece, os caras não compram os direitos de adaptação do livro, e mesmo assim seguiram em frente achando que ninguém ia se importar. O filme é maravilhoso, mas a rapaziada se ferrou. Mesmo com todas as diferenças em relação ao material original, não teve jeito… A viúva de Stoker chegou a processar e ganhar uma ação contra o estúdio alemão, mas acabou não recebendo nada, porque a produtora faliu…

Enfim, quem acabou adquirindo os direitor foi a Universal. Mas depois de tanto escreve e reescreve de quase uma década, o roteiro de DRACULA acabou tomando como ponto de partida uma peça de teatro da Broadway, que havia sido um enorme sucesso. E essa decisão talvez tenha sido a mais importante. A estrutura complexa do romance de Bram Stoker nunca foi muito propícia à adaptações e praticamente todas as versões pra cinema do livro suprimem vastos trechos da bagagem detalhada que Stoker usa na sua narrativa.

Por outro lado rolou um custo criativo nesta decisão que fez com que o filme ganhasse tantos detratores. O lance é que o roteiro herdou estratégias narrativas que vinham das origens teatrais do material. Isso é evidente na natureza desequilibrada do filme. Os primeiros vinte minutos de DRACULA, que transcorrem na Transilvania progridem num ritmo legal, é bem mais dinâmico, que vai sempre se renovando esteticamente, explorando cenários, praticamente tudo aqui é clássico, icônico. Mas no momento em que a ação muda para Londres, o filme dá uma desascelerada e imputa seus princípios teatrais… Mas, olha, confesso que não tive problema algum com isso nessa revisão.

Até porque a direção de Browning e o trabalho de câmera atmosférico de Karl Freund (com sua bagagem vinda do expressionismo alemão) mantém sua força. Gosto bastante também dos diálogos e os atores estão ótimos. É bom lembrar que apesar desse material ter sido readaptado, imitado e parodiado tantas vezes ao longo dos anos, aqui temos a origem de tudo. É curioso ver os perosnagens discutindo as coisas pela primeira vez antes de se tornarem clichês. E temos algumas sequências bem legais, como os duelos travados entre Van Helsing (Edward Van Sloan) e o Conde Drácula. Uma das melhores é quando o famoso caçador de vampiros percebe que o conde não está refletindo sua imagem num pequeno espelho de um porta-charutos.

E obviamente algo que se destaca e ainda nos fascina acima de tudo é termos a presença deste ator magnífico em cena que é BELA LUGOSI. Muitos atores ao longo da história viveram o personagem, mas nenhum como Lugosi, com seu forte sotaque e um magnetismo bizarro, o sujeito realmente capturou o poder do personagem e acabou sendo um pioneiro em filmes de terror, deu o tom para a maneira como os vampiros foram percebidos pelo público nos anos seguintes. E foi uma diferença gritante entre o vampiro de NOSFERATU, o Conde Orlok, vivido por Max Schreck, uma criatura repulsiva de se olhar, do Dracula de Lugosi, um esbelto e educado aristocrata que tem a possibilidade de transitar livremente pela sociedade, pelo mundo dos mortais, para satisfazer seu desejo de sangue.

O vampiro de Lugosi dependia de sua própria personalidade e estilo de atuação imaginativa para criar um retrato tão distinto na personificação da criatura. O “monstro” que vemos na tela e o vampiro saído das páginas escritas por Stoker fizeram uma combinação perfeita, tornando Lugosi, o ator, e o personagem, Drácula, autênticos sinônimos. Curioso que Lugosi só conseguiu o papel depois que a escolha preferida da Universal havia morrido – Lon Channey, que já havia trabalhado com Browning em diversos filmes anteriores. Lugosi acabou escolhido, mas tinha a vantagem de já ter vivido o personagem na tal peça na Broadway alguns anos antes.

Outra coisa que me chama a atenção e deixa essa segunda metade do filme mais interessante é como em 1931, o diretor Tod Browning já era bastante direto sobre o ato de “chupar sangue” como um eufemismo para o sexo. Browning realizou DRACULA um ano depois que o Código Hays começou a censurar as produções, numa tentativa de “limpar” os filmes. Mas Browning foi capaz de eoncontrar maneiras de driblar os censores em vários momentos, como nas cenas em que Drácula adentra o quarto de Mina à noite e inclina-se sedutoramente sobre sua figura adormecida ou, ainda quando Dracula envolve-a possessivamente em sua capa numa dos gestos mais eróticos do filme.

E há as três esposas de Drácula (e até hoje me surpreende que Browning tenha escapado dessa também), em seus longos vestidos brancos espectrais, pairando sobre Renfield (Dwight Frye, que é outro destaque) no castelo, preparando-se para um banquete… Aliás, como são incríveis todos os planos que envolvem essas três esposas, a forma como Browning realiza composições com esses corpos dentro dos quadros é um trabalho de mise en scène assustadoramente bonito.

Esta versão de Browning continua não sendo a minha favorita sobre o lendário vampiro. Ao longo dos anos tivemos vários exemplares que aprecio mais: o da Hammer, O VAMPIRO DA NOITE (1958), com o Christopher Lee encarnando o personagem; a do Coppola, já nos anos 90, é provavelmente a minha favorita; a do John Badham, DRACULA, de 1979, também é maravilhosa; e até a do Paul Morrissey, BLOOD FOR DRACULA, com Udo Kier fazendo o vampirão é um bom concorrente nessa disputa… No entanto, DRACULA, de Todd Browning, depois dessa revisão, já entra na lista de favoritos, sem dúvidas.

E foi o seu sucesso que encorajou a Universal a produzir e lançar um segundo filme de horror no mesmo ano de 1931, FRANKENSTEIN, dando início em definitivo ao famoso ciclo de filmes de monstro da Universal (depois ainda viria A MÚMIA, O HOMEM INVISÍVEL, O LOBISOMEM e várias continuações de todos esses).

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CINE POEIRA – EPISÓDIO 09

O programa desta semana do Cine Poeira celebra o diretor que nos entregou alguns dos melhores filmes dos anos 80: JOHN LANDIS. O trio de comentaristas se debruça sobre UM ROMANCE MUITO PERIGOSO (Into the Night, 1985) com Jeff Goldblum, Michelle Pfeiffer e um elenco repleto de figuras conhecidas e vários outros diretores de cinema.

Ouça o episódio aqui no blog:

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VAN DAMME na Netflix

Jean-Claude Van Damme está preparando seu primeiro projeto com a Netflix, uma comédia de ação chamada THE LAST MERCENARY. Na trama, Van Damme interpreta um misterioso ex-agente do serviço secreto que deve retornar urgentemente à França quando seu filho é falsamente acusado de tráfico de armas e drogas.

THE LAST MERCENARY será dirigido pelo cineasta francês David Charhon, que talvez não seja muito conhecido do público, mas tem um filme que recomendo, chamado OS OPOSTOS SE ATRAEM (2012), uma comédia policial muito boa lançada em DVD no Brasil pela A2 FILMES.

THE LAST MERCENARY agora é um dos filmes mais aguardados por mim, a chance de termos um dos nossos ícones de ação envolvido em algo realmente bom é bem grande, tendo em vista que a cada, sei lá, quatro filmes que o sujeito lança atualmente, apenas um tem prestado… Van Damme também andou brincando recentemente que tem desejo de lançar um “último grade épico de artes marciais”, o que acho bem difícil se concretizar… Apostaria que essa ideia vai ficar engavetada.

Van Damme deveria mesmo é focar em finalizar e finalmente lançar o filme que dirigiu e protagonizou, o inédito FULL LOVE, que também já teve o título EAGLE PATH, cujas filmagens foram concluídas há mais de dez anos, chegou a sair um trailer disso, e até hoje nada… Será que é tão ruim assim, do cara não lançar essa merda nunca mais? Enfim, enquanto esperamos mais de JCVD, a produção de THE LAST MERCENARY já está atualmente em andamento na França. Aguardamos mais informações.

ALAN PARKER

Não era um diretor que eu consideraria genial, mas ALAN PARKER deixa uma obra com algumas preciosidades. Filmes especiais pra mim, que marcaram o início da minha cinefilia, como MISSISSIPI EM CHAMAS (1988), ASAS DA LIBERDADE (1984), O EXPRESSO DA MEIA NOITE (1978) e vários outros. E ainda teve uma obra-prima que revi há alguns meses e continua uma belezura: CORAÇÃO SATÂNICO (1987). Tinha 76 anos. RIP.

SANDOKAN, O GRANDE (1963)

Coprodução italiana/francesa/espanhola, dirigida por Umberto Lenzi, SANDOKAN, O GRANDE (Sandokan, la tigre di Mompracem) foi baseada no primeiro dos romances do famoso personagem da literatura italiana, Sandokan, Os Tigres de Mompracem, do escritor italiano do século XIX Emilio Salgari. Na literatura, Sandokan é um pirata heróico que combate o tirânico Império Britânico e a Companhia das Índias nos mares do Sul asiático. Suas aventuras são contadas numa série de onze histórias, tendo aparecido pela primeira vez em 1883.

Nesta versão cinematográfica, Steve Reeves é quem dá vida ao corajoso e ousado pirata malaio Sandokan. E para quem conhece o sujeito, famoso por interpretar os fortões heróis do cinema de “sandália e espada” italiano, gênero conhecido por lá como PEPLUM, pode até estranhar vê-lo como como um pirata do século XIX em SANDOKAN, O GRANDE… Mas até que a coisa não muda tanto de figura não. Muda-se cenários e vestimentas, mas o senso de aventura dessas produções italianas permanecem.

Aparentemente o enredo do filme é apenas vagamente baseado no romance, mas captura o espírito de maneira bastante eficaz. Na trama, o pai de Sandokan é o rajá de um pequeno principado em Bornéu, que acabou deposto pelos britânicos e capturado. Agora pretendem executá-lo. Sandokan, que começa o filme já com certa notoriedade pelos seus feitos como líder de um grupo pirata, não tem intenção de permitir que isso aconteça, e resolve intervir tocando o terror pra cima do poderoso Império Britânico.

O primeiro passo de Sandokan e sua turma é um ataque à casa fortificada do comandante britânico Lord Guillonk (Leo Anchóriz), e no meio da confusão acaba sequestrando Mary Ann (Geneviève Grad), sobrinha de Guillonk. Ela obviamente fica indignada com a ideia de ser sequestrada por piratas, mas por outro lado aprendemos em SANDOKAN, O GRANDE que se você é uma jovem moça e acaba sequestrada pelo Steve Reeves fantasiado de pirata, arrojado, bonitão e másculo, talvez não seja tão ruim quanto parece…

Especialmente quando o sujeito salva-lhe a vida encarando um tigre no meio do mato…

Em determinado momento, o braço direito de Sandokan, o aventureiro português Yanez (Andrea Bosic), também ajuda a colocar na cabeça da moça algum exclarecimento sobre a autoritária política colonial britânica, e como os seus compatriotas – homens do seu tio inclusive – mataram membros da família de Sandokan. Ela começa a entender porque Sandokan não é lá grande fã dos britânicos. Yanez também aponta que os seguidores de Sandokan foram forçados a se tornarem piratas por conta das potências coloniais européias e o seu modo de agir na região.

A aventura progride, agora com Sandokan sendo caçado pelos homens de Lord Guillonk e se vê tendo que atravessar a ilha onde a trama transcorre, enfrentando os mais diversos e perigosos cenários para não ser pego. Isso significa enfrentar pântanos e selvas inexploradas, um feito bastante desafiador, mas ainda mais difícil com Mary Ann de reboque e com alguns companheiros feridos e, pior, tendo um traidor no grupo que ninguém sabe ainda quem é…

Aparentemente, o Sandokan da literatura é um líder inspirador e carismático, mas também impulsivo e inclinado a erros de julgamento. Um pouco diferente da sua versão para cinema. Steve Reeves decidiu, em vez disso, buscar dignidade e autoridade silenciosa. O que acaba sendo uma abordagem válida, tendo em vista que o ator não tinha lá muita desenvoltura para se expressar verbalmente diante das câmeras. O desempenho físico do sujeito foi mais que adequado.

Claro, há algum excesso de confiança de Sandokan que soa exagerado – seu plano de atravessar a ilha sobre pântanos intransitáveis ​​e entrando em terrítórios de tribos caçadores de cabeças não era lá uma ótima idéia, por exemplo. Mas os homens de Sandokan têm absoluta confiança nele, apesar disso não significar necessariamente que o sujeito saiba o que está fazendo. Mas aí é que entra umas das coisas mais legais em SANDOKAN, O GRANDE, que é como o protagonista é sortudo pra cacete. Não há nada racional ou calculista nele, é um homem que está sempre preparado para colocar sua fé no destino (ser salvo por um chimpanzé, por exemplo). Se Deus quiser, ele sobreviverá e continuará lutando. Seu fatalismo faz dele um herói fascinante.

Embora seja um filme de piratas, não há cenas de batalhas no mar. Provável que o orçamento não tenha sido suficiente para contemplar algo tão ambicioso. Mas quando se tem um diretor como Umberto Lenzi sabemos que estamos em boas mãos. Claro, é evidente que Lenzi ainda estava em início de carreira aqui, mas já tinha no currículo sete filmes, todos aventuras do gênero Peplum, então já tinha experiência de sobra pra comandar uma produção como esta.

Mesmo que o ritmo de SANDOKAN, O GRANDE tenha uma caída no meio, e comece a se arrastar um pouco, não demora muito pras coisas esquentarem. E quando a ação começa a aumentar no final, vale a pena a espera. A batalha final, por exemplo, é um bom espetáculo de ação. E Lenzi faz um trabalho sólido, nada muito inspirado, mas bem seguro na maior parte do tempo. A localização das filmagens no Sri Lanka também ajuda. São visualmente impressionantes e Lenzi sabe como aproveitar e dar uma sensação de autenticidade exótica.

Há sempre o perigo desse tipo de filme abusar da mensagem anticolonialista (que existe no romance de Salgari) e sucumbir à pregação excessiva. É algo que pode estragar um pouco a diversão, concordando ou não com a mensagem. Mas não acho que seja um problema em SANDOKAN, O GRANDE, até porque os britânicos são retratados como vilões quase cartunescos e maniqueístas.

No geral, SANDOKAN, O GRANDE é um filme de aventura agradável, sem grandes pretensões, e que tem algumas coisas divertidas a seu favor, como o cenário incomum e o seu herói exótico, Sandokan. São exemplos que, juntamente com a sequência final de batalha e outros momentos de ação, são suficientes para compensar alguns pequenos problemas de ritmo e coerência.

Steve Reeves retornaria ao papel de Sandokan no ano seguinte, em I PIRATI DELLA MALESIA, novamente dirido por Umberto Lenzi. Mas ao longo do tempo, o personagem ganhou novos filmes e novos intérpretes. É um universo vasto o de Sandokan, que eu ainda preciso explorar…

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CINE POEIRA – EPISÓDIO 08

CLÁSSICO dos bons e velhos tempos do VHS, PASSAGEIRO 57 (1992), de Kevin Hooks, continua divertidíssimo.

No programa desta semana, o trio de comentaristas fala sobre esse grande exemplar do cinema de ação noventista que transformou Wesley Snipes em um astro do gênero.

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OPERAÇÃO FRANÇA II (1975)

Recentemente revi e postei sobre OPERAÇÃO FRANÇA (1971), de William Friedkin, e aproveitei pra revisitar também a sua continuação, dirigida por John Frankenheimer, lançada quatro anos depois. Do primeiro, como disse naquele post, ressalto se tratar de uma obra-prima. OPERAÇÃO FRANÇA II (The French Connection II), apesar de muito criticado quando do seu lançamento e até hoje não ter a mesma notoriedade, também é muito bom, com aquela atmosfera sensacional do cinema policial setentista e que tem muito da essência do próprio Frankenheimer na condução, cujo estilo é bem diferente do de Friedkin, mas do qual sou grande admirador.

O preconceito com OPERAÇÃO FRANÇA II talvez tenha a ver com a questão inevitável de que o filme “não precisava existir“, para início de conversa. A conclusão totalmente aberta do anterior é uma das coisa que mais me fascina. E provavelmente “continuar” essa história é preencher uma lacuna que às vezes nem precisava ser preenchida. Mas, bom, sou da opinião de que, se estão mesmo dispostos a filmar alguma coisa, que façam algo decente, da melhor maneira possível… Mesmo que esse algo seja desnecessário.

E é exatamente o que Frankenheimer faz aqui. Então valeu a pena rever OPERAÇÃO FRANÇA II, redescobrir seus encantos e relembrar aqui no blog sua existência, porque pode haver pessoas por aí que nem sabem que existe essa sequência do clássico de Friedkin. E podem até se surpreender com o quão genuinamente eficaz é este trabalho do mestre Frankenheimer.

A trama se passa algum tempo depois dos eventos de OPERAÇÃO FRANÇA, Popeye Doyle, novamente interpretado por Gene Hackman, chega à Marselha tentando rastrear o traficante de drogas Charnier (Fernando Rey), que escapuliu das mãos do detetive no final do primeiro filme. O que Doyle não sabe é que a polícia de Nova York e de Marselha estão atuando juntas, usando-o como isca, na tentativa de trazer Charnier à público para capturá-lo. O policial local Barthélémy (Bernard Fresson) tenta manter Doyle constantemente sob vigilância, mas a coisa não corre como planejado quando Charnier, consciente de que seu inimigo está no local, consegue sequestrá-lo.

Quando Doyle se recusa a responder qualquer uma de suas perguntas, Charnier inicia um processo para viciá-lo em heroína. O detetive estrangeiro é mantido em cativeiro enquanto a droga é injetada nas suas veias repetidamente por um looooongo período… Quando Charnier finalmente percebe que Doyle não tem utilidade alguma, ele é jogado na frente da delegacia onde, já completamente viciado, passa agora por um outro loooongo processo, uma agonizante desintoxicação…

Uma das coisas que mais gosto em OPERAÇÃO FRANÇA II é como o filme faz pouca tentativa de superar, ou até mesmo imitar, o filme original. É quase como se estivéssemos diante de um filme policial setentista completamente independente, com um cenário totalmente oposto à Nova York do filme de 71, e que, por acaso, Hackman interpreta um personagem que já havia feito antes… O filme ensaia até mesmo um estudo sobre o choque existente entre duas culturas que é bem interessante. O fato de não oferecer, por exemplo, sua própria perseguição de carros (na verdade o filme tem pouquíssimas sequências de ação) não é apenas corajoso, mas demonstra o domínio narrativo de Frankenheimer em segurar a tensão antes que ela se dissipe, especialmente no miolo do filme, no longo trecho que consiste no vício forçado de Doyle e a sua desintoxicação subsequente.

E meio aí que mora o perigo de OPERAÇÃO FRANÇA II. Esse miolo talvez seja o momento mais frágil do filme. Porque se por um lado funciona como um angustiante ato cênico conduzido com maestria pelo diretor e com um desempenho fantástico de Hackman, por outro a coisa realmente demora MUITO a se definir. Fica no limite entre um processo de tensão extremamente bem realizado e uma situação verdadeiramente chata e enfadonha.

Pessoalmente, curto bastante esse miolo, mesmo reconhecendo que passe um pouco do ponto… Mas o mais importante é que essas cenas funcionam como palco para uma performance espetacular de Hackman, algo que nem no primeiro filme – no qual ele havia recebido o Oscar de melhor ator – o sujeito teve oportunidades para explorar.

Passado o tal miolo, o filme retoma às investigações de Doyle pelas ruas de Marselha, mas agora com um tempero de vingança a mais para dar uma apimentada no sabor. E a coisa segue num ritmo mais frenético até o fim – o que significa que temos até umas sequências de ação, como Doyle retornando ao seu cativeiro e tocando o terror no local. Ou o tiroteio num porto que é um espetáculo. E que Frankenheimer era fera em realizar.

É preciso destacar também o gran finale que, pra mim, já se tornou clássico em OPERAÇÃO FRANÇA II. Popeye Doyle numa perseguição à pé seguindo Charnier pelas ruas de Marselha é uma das coisas mais memoráveis ​​do filme. O sujeito com dor, exausto, retirando forças sabe-se lá de onde para continuar se movendo, provavelmente sua própria obsessão e determinação em terminar as coisas de uma vez por todas, numa das atuações mais físicas de Hackman. Será que dessa vez ele consegue pegar Charnier? O filme segura até os últimos instantes para dar a resposta…

No elenco, não preciso falar mais nada de Hackman, né? O sujeito arregaça como sempre. Talvez uma grande desvantagem de OPERAÇÃO FRANÇA II seja a falta de Roy Scheider, que não retorna em seu papel como Buddy Russo, perceiro de Doyle no filme anterior (preferiu rabalhar em TUBARÃO talvez?). Mas considerando a premissa, acho que faz mais sentido ter Doyle sozinho nessa aventura.

Fernando Rey oferece sua elegância habitual de maneira excelente como Charnier – a cena no restaurante quando ele percebe a presença de Doyle na cidade demonstra um bocado do seu talento. Bernard Fresson também está muito bem, principalmente nas cenas em que contracena com Hackman no processo de desintoxicação de Doyle. Duelo de atuação de gente grande. E temos uma pequena participação de Ed Lauter.

OPERAÇÃO FRANÇA II pode ter suas falhas e não ser do mesmo nível do filme de Friedkin, mas ainda assim é um baita filme policial com Frankenheimer usando sua câmera para explorar Marselha num registro quase documental, contar uma história tensa e entregar algumas excelentes cenas de ação. Além de servir de vitrine para o belíssimo desempenho de Hackman encarnando Popeye Doyle pela última vez.

O personagem quase retornou no início dos anos 80 com um terceiro filme, no qual Doyle enfrentaria um terrorista europeu em Nova York. Hackman acabou pulando fora, mas o projeto continuou em frente e se transformou em outra coisa: FALCÕES DA NOITE, com Sylvester Stallone.

Popeye Doyle só voltou a ser visto em 1986, num filme produzido para a TV chamado POPEYE DOYLE, mas desta vez sendo interpretado pelo grande Ed O’Neill (o Al Bundy de UM AMOR DE FAMÍLIA). Na verdade, era um piloto para uma série de TV que acabou não acontecendo. Cheguei a ver esse filme passando na televisão em algum momento da vida, mas não lembro de nada. Não deve ser grandes coisas, mas só revendo mesmo pra descobrir…

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CPC-UMES FILMES – LANÇAMENTO DE AGOSTO

O lançamento de agosto/2020 da CPC-UMES FILMES é o drama ESTAÇÃO BIELORRÚSSIA, de 1971, dirigido por Andrei Smirnov. Em DVD.  

SINOPSE: Os heróis do filme se separam na Estação Bielorrússia no verão de 1945, quando lá chegou o primeiro trem para os soldados voltarem aos seus lares depois da vitória na 2ª Guerra Mundial. No final dos anos 60, depois de 25 anos sem se verem, os veteranos da guerra contra o fascismo se encontram no funeral de um ex-camarada de armas que permanecera no exército.

Muitas mudanças aconteceram na vida de cada um deles, mas os amigos conservaram os sentimentos de irmandade, solidariedade e humanidade que desenvolveram no front. Antes de retornarem às suas rotinas, vivem um dia repleto de recordações e situações inesperadas.

SOBRE O DIRETOR ANDREI SMIRNOV: Nascido em 1941, em Moscou, Andrei Smirnov concluiu, em 1962, o curso de Direção na Universidade Estatal de Cinematografia (VGIK). Em 1964 dirigiu seu primeiro longa-metragem, o drama bélico UM PALMO DE TERRA, ambientado durante a 2ª Guerra Mundial. Em 1971 lançou o drama ESTAÇÃO BIELORRÚSSIA. Em 1974 dirigiu outro drama, OUTONO. Em 1979 realizou EM CORPO E ALMA, e em 2011 dirigiu seu último filme até hoje, ERA UMA VEZ UMA MULHER.

Paralelamente à carreira de diretor, Smirnov teve um trabalho expressivo como ator. Em 2000 protagonizou o drama O DIÁRIO DE SUA ESPOSA, sobre a vida do escritor Ivan Bunin, dirigido por Aleksei Uchitel, e pelo qual obteria o prêmio Nika de melhor ator em 2001. Em 2011 interpretou um dos protagonistas do drama ELENA, realizado por Andrei Zvyagintsev. Entre outros reconhecimentos, foi distinguido em 2003 como Artista do Povo da Federação Russa.

A data de lançamento de ESTAÇÃO BIELORRÚSSIA está prevista para o dia 24/08/2020. O DVD de ESTAÇÃO já está em pré-venda na loja virtual da CPC-UMES FILMES e em breve estará nos sites dos revendedores também. 

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JOHN SAXON

Filme de Kung Fu com Bruce Lee, faroestes,  polizieschi, gialli e outras pérolas do cinema popular italiano, slashers canadenses, vários A HORA DO PESADELO… Enfim, JOHN SAXON era legitimamente um grande ator, mas para os admiradores de “cinema de gênero” e B movies, o cara era uma lenda! RIP.

INFERNO VERMELHO (1988)

Não tem muito como errar com a boa e velha fórmula do “filme de parceiros policiais“. Ou como ficou mais conhecido no seu próprio idioma original, os buddy cop movies. Era pegar dois sujeitos de personalidades, classes, culturas opostas, ou seja lá o que for, e colocá-los juntos para resolver crimes enquanto batem boca e defendem visões divergentes… É claro que colocar a Whoopi Goldberg fazendo parceria com um dinossauro de látex não é lá uma boa ideia… O dinossauro merecia um parceiro melhor. Mas os exemplos positivos de buddy cop movies temos aos montes. É como pizza, até quando é ruim é bom.

Um diretor que é sinônimo de buddy cop movies é Walter Hill, um dos responsáveis por definir as regras do sub-gênero ainda lá atrás no início de carreira, como roteirista, em HICKEY & BOGGS (72), dirigido pelo Robert Culp, ou no piloto DOG AND CAT (77), antes mesmo de realizar seu próprio exemplar nos anos 80, o clássico 48 HORAS (1982). E tão familiar com o tema, Hill sempre encontra um jeitinho de dar uma boa variada na fórmula.

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Em INFERNO VERMELHO (Red Heat) essa variação vem num trabalho de “choque cultural”. Tá certo que o resultado acaba sendo tão ingenuo e cartunesco quanto o de ROCKY 4, mas reflete a visão estereotipada coletiva da Rússia pelos americanos do período. Além de funcionar bem como pano de fundo de um filme de ação policial que se propõe a ser uma sátira de diferenças de costumes. Mas o verdadeiro desafio de Hill não era tão simples e poderia colocar todo o projeto a perder. Consistia em trocar as peças um pouco de lugar e convencer o público americano dos anos 80 a aceitar um soviético comunista como herói da história.

Uma grande sacada para resolver essa questão pode ter sido usada já na escolha do ator que faria esse herói, já que naquele período qualquer produção que Arnold Schwarzenegger se envolvesse seria quase automaticamente levada à aceitação pública. O cara era um astro, o “tough guy” do momento ao lado de Sylvester Stallone, e não seria o fato de encarnar um russo que mancharia sua imagem.

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Aliás, a gênese de INFERNO VERMELHO nasceu do desejo de Hill em dirigir Schwarzenegger, o que trazia ao mesmo tempo algumas questões que incomodavam o diretor, como o sotaque do austríaco, por exemplo, que não encaixava em nenhum personagem previamente pensado. Então, Hill veio com a ideia do sujeito ser soviético e a partir disso, com o ator em mente, é que ele, Harry Kleiner e Troy Kennedy-Martin escreveram o roteiro.

Schwarza se encaixou perfeitamente e Hill soube aproveitar a sua iconografia de modo fundamental. Basta reparar na entrada do ator em cena, na sequência inicial na sauna russa, com a câmera passeando pelo corpo de Schwarza imponente como se estivesse estabelecendo um componente dramático-visual relacionado ao físico. Schwarza desempenha seus papéis com presença física em qualquer filme do período, na maneira como seu bíceps aparece na tela, como os músculos do pescoço se comportam no enquadramento, como as veias sobressaltam na pele somando valor estético, é o que torna filmes como INFERNO VERMELHO, CONAN – O BÁRBARO e PREDADOR tão físicos.

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A trama de INFERNO VERMELHO a grande maioria dos fãs do gênero já conhece, mas vamos lá: Schwarza é o capitão Ivan Danko, um policial de Moscou altamente badass que vai parar em Chicago na cola de um perigoso criminoso russo (Ed O’Ross) que matou seu parceiro. Na América, após o estranhamento inicial, ele acaba ganhando a camaradagem, depois de muita resistência, de um controverso e espertinho policial de Chicago, vivido por James Belushi, que lhe ajuda a seguir os rastros do bandido.

O que se desenrola a partir dessa premissa não é exatamente importante, serve apenas de base para algumas questões que interessam a Hill e, obviamente, ao público ávido por este tipo de produto, como a ação física, a sátira escrachada e o relacionamento entre as duas figuras que vamos acompanhar nessa aventura.

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Uma das razões pela qual INFERNO VERMELHO funciona lindamente pra mim, e que eu já ressaltei, é que se assume logo de cara como uma sátira de “choque cultural” cheia de contornos cômicos que envolvem a jornada desse russo na América. É praticamente uma comédia de costumes e é difícil segurar o riso das situações que Danko, o policial russo comunista, passa na meca do capitalismo. A própria maneira como Hill trabalha a imagem para enfatizar certas coisas é muito forte aqui, como a forma que filma Moscou – clean, sóbria e contemplativa – se contrapondo a Chicago, o caos, a poluição sonora e visual, local sujo repleto de bandidos e putas. Danko liga a TV no quarto de hotel em que está instalado e rola um pornozão de boa. A reação dele é hilária: “Capitalistas“.

Em outras ocasiões já acho que o humor nem era intencional, mas não dá pra não rir com Danko, depois de encontrar um pacote de droga na perna de madeira de um sujeito, soltando um “cocainum!“. A química entre Schwarzenegger e Belushi também é um ponto forte nesse lado cômico do filme. Belushi nunca vai chegar aos pés de seu irmão, John Belushi, um ícone da comédia americana, mas até que ao seu modo conseguiu sair da sombra do irmão. Em INFERNO VERMELHO, o sujeito consegue pagar de badass ao mesmo tempo em que arranca boas risadas do público.

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Grande parte do diálogo entre Belushi e Schwarza consiste no primeiro soltando algo do tipo: “Do I look like a fucking cab to you?“, seguido por um “yes” monossilábico de Arnie… E basta para me deixar com um sorriso na cara.

Já a sequência que os dois discutem sobre o fato de Danko ter um periquito de estimação é simplesmente de rachar o bico… Além de Schwarza e Belushi, o elenco merece atenção com vários nomes interessantes que surgem na tela. Ed O’Ross encarna com desenvoltura o papel do vilão russo, temos Peter Boyle como chefe de polícia, Laurence Fishburne, Gina Gershon e uma impagável participação de Brion James.

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Outro principal motivo para qualquer fã de cinema de ação ter a obrigatoriedade de conferir INFERNO VERMELHO é justamente pelas sequências de ação. Hill foi um dos grandes nesse departamento, herdeiro direto de Sam Peckinpah, não economizava em virtuosismo ao filmar tiroteios e perseguições, mesmo que as sequências não sejam nada extravagantes.

Seus tiroteios são crus, filmados com classe, mas que rendem uma boa dose de brutalidade. Os dez primeiros minutos de INFERNO VERMELHO são de arregaçar! Temos Schwarza trocando socos com russos bombados numa sauna, que prossegue num campo aberto coberto de neve e, logo em seguida, um tiroteio classudo num bar que culmina na morte do parceiro do protagonista.

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Outro destaque é o tiroteio na espelunca em que Danko está hospedado. A edição simples, o trabalho com o movimento dos corpos e espaços, a violência dos tiros – causa e efeito bem definidos, filmados com clareza – e até uma prostituta peladona enchendo um bandido de chumbo, proporcionam uma boa dose de truculência.

A exceção da ausência de “espetáculo” na ação de Hill fica na sequência final, em que bandido e mocinho usam um ônibus cada um numa perseguição frenética em meio ao trânsito da cidade, dando um toque do exagero oitentista à obra, mas sem perder a elegância.

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INFERNO VERMELHO é daqueles filmes que eu posso rever e rever quantas vezes forem necessário e ainda vou estar longe de enjoar. Até a sua reflexão ingênua da dialética comunismo x capitalismo funciona bem numa trama que não tenta fazer nada de diferente em termos de estrutura dos buddy cop movies, mas tem a personalidade de seu diretor e entrega exatamente o que promete: ação de primeira qualidade, humor zoeiro e ainda cria um dos personagens russos mais casca-grossa do cinema americano.

Não é o melhor filme que Hill dirigiu, nem o melhor veículo que Arnold Schwarzengger estrelou, mas sem dúvida alguma é um dos produtos mais divertidos que ambos fizeram.

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Texto originalmente escrito para o Action News em maio de 2018.

THE MATRIX REVOLUTIONS (2003)

Minhas impressões da revisão de THE MATRIX REVOLUTIONS são meio malucas. Se por um lado eu consigo identificar tudo que desagradou os fãs na época (eu incluso), por outro já não me importei com nada e simplesmente embarquei nessa tragédia shakespeareana misturada com uma viagem pseudo-cyber-filosófica-espiritual cheia de ação épica… Achei um filme fascinante.

O grande problema pra mim desta vez foi bem diferente do que senti quando vi THE MATRIX REVOLUTIONS no cinema há quase duas décadas. Eu só queria que aquela bobagem toda acabasse o mais rápido possível…

Nesta revisão, não sei explicar porquê, acontece justamente o contrário. Eu queria mais e mais, eu queria uma série pra TV com vinte temporadas explorando a riqueza visual/espiritual/filosófica de THE MATRIX, eu simplesmente fiquei maravilhado e queria mais!

E, bom, as Wachowski se arriscaram pra caramba pra concluir essa bagaça. THE MATRIX tava no coração da moçada, quase todo mundo tinha curtido, tinha sua importância dentro dos blockbusters hollywoodianos, então este terceiro filme era muito aguardado. E elas vão lá e, PIMBA! não entregam nada daquilo que o público queria! Hahaha!

Convenhamos que o encerramento de uma série dessa magnitude nunca vai agradar todo mundo mesmo que tivessem feito “o básico”.

Mas THE MATRIX REVOLUTIONS acabou sendo uma aula de como subverter as expectativas do público e até mesmo de narrativa: por exemplo, colocando a tão aguardada batalha de Zion, dos homens contra as máquinas, no meio do filme, sem sequer contar com a presença do protagonista. Forçando toda a solução das suas questões filosóficas entregues numa única luta de tirar o fôlego entre Neo (Keanu Reeves) e o Agente Smith (Hugo Weaving).

A batalha de Zion é um esplendor que mal tenho palavras para descrever. Não lembro muito o que senti há quase vinte anos quando vi pela primeira vez, na tela grande, mas como não curti na época, é bem capaz de não ter achado grandes coisas.

Hoje foi bem diferente. São praticamente 30 minutos de espetáculo sensorial de ação de tirar o fôlego, que tem um peso poderosíssimo e uma sensação insuportável de ameaça, realmente convence – mesmo que por um momento – de que tudo está realmente fodido e que a humanidade vai ser extinta.

As irmãs Wachowski têm uma excelente percepção de onde colocar a câmera na ação. Os enquadramento nunca são óbvios, as figuras são milimetricamente posicionadas no quadro, um pouco distorcidas para ganhar movimento, apenas o suficiente para proporcionar um prazer visual que não é comum. A edição também é sólida: em nenhum momento a geografia é confusa ou incoerente.

E as cenas de artes marciais são compreensíveis. O que nos leva à luta entre Neo e Smith, toda belíssimamente construída, com quadros que remetem a um duelo de faroeste. Começa com os dois sujeitos em extremos opostos de uma longa rua, enquanto gotas de chuva os encharcam, entre duas filas de cópias do Agente Smith. É sublime.

Neo e Smith trocam algumas palavras antes de dar tudo de si numa briga de proporções épicas que carrega aquele aroma de inevitabilidade, como diria o Agente Smith.

Há uma outra sequência de ação que é menos lembrada do que esses dois mastodontes que citei aí em cima, mas que ainda impressionam: a que Morpheus (Laurence Fishburne), Trinity (Carrie-Ann Moss) e Seraph (Collin Chow) trocam tiros com uns caras que literalmente andam no teto do cenário… É uma dessas pequenas joias dentro do filme que também provam a maestria das Wachowski na condução da ação.

Mas uma das coisas mais importantes pra mim por aqui é como a coisa se resolve dentro de sua própria lógica filosófica de boteco e religiosidade de fundo de quintal (é quase uma versão sci-fi de passagens bíblicas), deixando um monte de ponta solta, um bocado de perguntas sem resposta, tudo tão aberto, pra desespero dos fãs.

Mas que ao mesmo tempo toca no fundamental: o nível de sacrifício exigido de seus personagens em algo reconhecidamente humano, fazendo-nos sentir o custo mortal por trás das figuras e feitos que se tornam lendas. Se THE MATRIX RELOADED rejeita os mitos que alimentamos, THE MATRIX REVOLUTIONS nos mostra como novos mitos são criados.

Enfim, depois dessa revisão, agradeço às Wachowski por não terem realizado algo pra agradar os fãs (não é mesmo, Disney?).

Passei tempo demais sem revisitar esse universo, deveria ter feito antes e mais vezes e redescoberto essa maravilha que é toda a saga THE MATRIX, especialmente se olharmos agora e percebermos que não tivemos nada remotamente parecido no gênero como essa trilogia desde então em Hollywood.

Que me perdoem os fãs da Marvel Cinematic Universe, mas todos os seus trocentos filmes juntos não dão nem pro cheiro que é a trilogia THE MATRIX.

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Quero saber as impressões de vocês. O que meus cinco leitores acham da trilogia THE MATRIX? Não deixem de comentar na caixa de comentários aqui do blog, ou no facebook, Twitter, Instagram… Bora papear.