THE STREETFIGHTER (1974)

Morreu Sonny Chiba, um dos maiores astros do cinema de gênero. Aproveito para republicar esse textinho que escrevi na época para o finado Action News sobre o clássico cult japonês THE STREETFIGHTER, de Shigehiro Ozawa, um dos meus filmes de artes marciais de cabeceira. Na ocasião, tinha acabado de rever na tela grande, numa mostra de cinema de Kung Fu que rolou em São Paulo, em 2017. Me senti como Christian Slater levando Patricia Arquette ao cinema em TRUE ROMANCE, de Tony Scott. Mas sem a Patricia Arquette…

Quando o filme começa, somos apresentados a Takuma Tsurugi (Chiba) se passando de monge budista dentro de uma prisão, para fazer um agrado a um prisioneiro condenado no corredor da morte, chamado Tateki Shikenbaru (Masashi Ishibashi). Tsurugi é um dos anti-heróis mais infames e desprezíveis da história dos filmes de luta! E Shikenbaru sente o cheiro de sujeira, percebe que Tsurugi é qualquer coisa, menos um monge, e já parte para a porrada. Mas o famigerado Tsuguri revela que, na verdade, está do lado do seu oponente… Mesmo depois de lhe aplicar uns bons golpes.

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Tsurugi dá a Shikenbaru um soco secreto de karatê que o coloca em um breve coma. O sujeito, na real, foi contratado para impedir que Shikenbaru seja executado. E os efeitos de seu soco especial só dão resultado instantes antes do condenado ter a corda colocado no pescoço pelo carrasco. Segundo a lei, mesmo prestes a ser enforcado, o prisioneiro tem direito a atendimento médico caso seja necessário. E Shikenbaru aparentemente está muito mal… Chamam uma ambulância e ele é levado para um hospital. No caminho, acaba interceptado pelo companheiro fiel de Tsurugi, Rakuda Zhang (Goishi Yamada), que desce o porrete nos motoristas da ambulância e foge de lá no veículo com Shikenbaru ainda em coma.

Foi o casal de irmãos de Shikenbaru que pagou Tsurugi para tirá-lo da prisão. No entanto, quando os irmãos aparecem no apartamento de Tsurugi procurando Shikenbaru, ele informa que enviou o sujeito para algum lugar seguro em Hong Kong. E na hora de realizar o pagamento, o casal explica que não tem o restante do dinheiro do resgate. Tsurugi fica furioso e inicia uma peleja com os dois e os resultados são trágicos. O irmão mais novo de Shikenbaru acidentalmente cai da janela e morre. E para melhorar ainda mais a situação, Tsurugi, um sujeito muito prático para resolver as coisas, vende a irmã de Shikenbaru para o mercado de prostituição como escrava sexual para compensar seu insulto. Agora, vocês têm uma noção porque Tsurugi é considerado um patife escroto filho da puta… E mesmo assim torcemos por ele durante todo o filme.

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É preciso dar certa ênfase no arco do personagem de Shikenbaru, como veremos a seguir, mas o fio condutor de THE STREETFIGHTER é outro, completamente diferente. É legal notar como o filme não é apenas pancadaria e que por trás de tudo há uma trama bem contada e elaborada que torna o filme muito mais interessante. O que rola, na verdade, é que um tal de Mataguchi (Fumio Watanabe) deseja contratar Tsurugi para um trabalho. Um barão do petróleo chamado Hammett faleceu e toda sua fortuna foi herdada por sua adorável filha, Sarai (Yutaka Nakajima). Os empregadores de Mataguchi são um braço da Yakuza em Hong Kong e querem sequestrar a moça e forçá-la a assinar a papelada para transferir a bolada para o bolso deles. Mas Tsurugi decide não aceitar o trabalho, porque simplesmente não confia nos chineses.

Além do insulto contra os mafiosos, o problema é que agora Tsurugi sabe demais. Precisa ser eliminado e vira alvo da organização mafiosa. Um grupo de meliantes é enviado para cuidar do sujeito, irrompendo seu apartamento forçando o nosso anti-herói a demonstrar toda a sua técnica em aplicar os mais violentos golpes possíveis em seus desafetos. A cena é um espetáculo e é a síntese do que podemos esperar em termos de ação em THE STREETFIGHTER.

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Pancadarias brutais e grosseiras, grande parte da ação acontecendo em ambientes minúsculos e fechados, como corredores, escadas ou quartos apertados cheio de móveis; a câmera nervosa do diretor Shigehiro Ozawa, com ângulos e movimentos inusitados; ao invés de prezar por coreografias elaboradas, aposta mais nas habilidades de Chiba, nas suas expressões corporais e faciais (leia-se caretas!) e, obviamente, na técnica de respiração do sujeito, que é cem vezes mais exagerada do que os gritos que são a marca registrada de Bruce Lee; e, claro, uma boa dose de violência gratuita.

Não é a toa que THE STREETFIGHTER foi o primeiro filme a obter uma classificação X nos Estados Unidos POR VIOLÊNCIA! Como vocês sabem, geralmente a classificação X é usualmente colocada para filmes de sexo explícito. Na época, os anúncios de jornais americanos que anunciavam o filme continham a citação “AVISO: A MPAA classificou este filme como inadequado para espectadores menores de 17 anos por causa de suas extraordinárias sequências de luta“. Obviamente, com o passar dos anos, o impacto da violência estilizada de THE STREETFIGHTER é bem menor. Mas até hoje fico realmente impressionado com algumas cenas… Não faltam por aqui ossos quebrados, dedos nos olhos, crânios esmagados (um deles numa visão de Raio X), gargantas arrancadas, dentes estourados com um soco e até mesmo as bolas de um sujeito são arrancadas com as mãos!!! Isso mesmo! Tsurugi castra um sujeito sem anestesia com as próprias mãos. Tudo extremamente visceral! São litros e litros de um sangue vermelhão precisamente derramado, quase artisticamente colocado nas cenas…

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Depois de sobreviver ao ataque da Yakuza, Tsurugi resolve mudar de lado e se vingar de Mataguchi. Candidata-se ao posto de guarda-costas de Sarai. Mas antes, precisa encarar o tio da moça, Masaoka, o diretor de uma escola japonesa de Karatê. Mais uma sequência de luta magistral, com Chiba posudo, inspirando, fungando e rosnando. No decorrer da luta, Tsurugi descobre que Masaoka conhecia seu pai. O velho se sente mal por fazer Tsurugi se lembrar de como seu velho foi morto, taxado de traidor e fuzilado na frente do filho, e lhe dá o trabalho de proteger Sarai.

Mas como já disse, Tsurugi é um filho da puta. E um filho da puta sempre será um bastardo cruel desprezível. A ideia de “trocar de lado” e proteger Sarai, na verdade, consiste em tentar ele mesmo colocar as mãos no dinheiro da moça. E mesmo sabendo disso, continuamos torcendo por Tsurugi. Mas para isso, o sujeito vai ter uma jornada de violência, enfrentando vários capangas na porrada e uma variedade de lutadores exóticos, como um brutamontes chinês, um cego que esconde uma espada na sua bengalinha, ao estilo Zatoichi, e até o nosso velho amigo Shikenbaru, que retorna ao Japão com sede de vingança por conta do que fez com sua irmã e pela morte do irmão.

A vingança de Shikenbaru acaba tendo vida própria dentro do filme. Possui um peso tão forte na trama de THE STREETFIGHTER que a batalha dos dois personagens ao final, a bordo do navio de petróleo, numa noite chuvosa, só poderia ganhar ares épicos e um desfecho dramático típico de uma tragédia japonesa.

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O sucesso de THE STREETFIGHTER e do personagem de Sonny Chiba gerou ainda duas continuações, THE RETURN OF STREETFIGHTER e THE STREETFIGHTER LAST REVENGE, que expandem o universo de Tsurugi, apesar de inferiores. São divertidos e violentos, mas não aproveitam a figura de Tsurugi como neste primeiro. Takuma Tsurugi é uma figura fascinante, por mais politicamente incorreta que seja, e o desempenho de Sonny Chiba é uma força selvagem da natureza, especialmente ao realizar suas performances nas cenas de luta, na maneira quase primitiva de se impor diante dos adversários. Acaba sendo cômico em alguns momentos, mas percebe-se o talento expressivo de um ator criando uma assinatura. E Tsurugi é a assinatura de Sonny Chiba, ícone do cinema de artes marciais. Ganhou até uma bela homenagem de Quentin Tarantino em KILL BILL, no papel de Hatori Hanzo.

R.I.P. Sonny Chiba.

NOTAS SOBRE FILMES RECENTES

JUNGLE CRUISER (2021)

Dir: Jaume Collet-Serra

Inchado até o talo e bem irregular. Até gosto do toque feminista, tem algumas ceninhas bacanas de ação, o conceito visual dos exploradores espanhois amaldiçoados é bem feito, criativo, e o Jesse Plemons parece se divertir como vilão alemão. Mas é um filme que me deixa com sono a maior parte do tempo. E não convence de maneira alguma com a química entre The Rock e Emily Blunt, que tá mais pra uma versão forçada da Bela e a Fera. Mas também ninguém estava esperando um filme mais “Collet-Serra” do que um “Disney Movie”, não é mesmo? Não precisava de um diretor autoral pra fazer isso aqui. Podiam chamar um Gary Ross ou Francis Lawrence que dava na mesma. 

Torcendo pro Collet-Serra voltar a fazer filmes com o Liam Neeson.

O ESQUADRÃO SUICIDA (2021)

Dir: James Gunn

Nem sou tão detrator do primeiro ESQUADRÃO SUICIDA (apesar de ser mesmo fraquinho) e acho o David Ayer um diretor bem interessante. Mas ele realmente se fodeu quando se meteu com a Warner/DC. James Gunn parece transitar melhor pelos corredores dos grandes estúdios e leva muito jeito pra trabalhar nesses tipos de projetos, com esses orçamentos volumosos (de um cara que surgiu ali no underground, da TROMA, é algo a ser estudado). E, sobretudo, consegue impor sua visão pessoal. O nível é MUITO superior aqui, o tipo de espetáculo divertido, engraçado, subversivo e violento que se espera desse material e de um filme do James Gunn.

DUPLA EXPLOSIVA 2 – E A PRIMERA-DAMA DO CRIME (2021)

Dir: Patrick Hughes

O australiano Patrick Hughes mantém as coisas num bom ritmo, em constante movimento durante toda a duração, que é mais longa que deveria, quase duas horas pra um filme desse é praticamente auto sabotagem. Mas entrei na onda e deu pra se divertir… Gosto bastante do primeiro filme, que postei aqui há um tempinho, acho até um bocado subestimado. Achei esse aqui ainda melhor, trabalha uns temas interessantes, de forma boba, mas que não prejudica o que interessa. A coisa tem potencial pra ser uma franquia, se não no mesmo nível que um MISSÃO IMPOSSÍVEL, VELOZES E FURIOSOS ou JOHN WICK, pelo menos agradável, com um universo muito próprio e personagens engraçadíssimos (Salma Hayek em especial…). E apesar de ter OS MERCENÁRIOS 3 no currículo, Hughes filma bem ação. Evidente que o tom cartunesco do filme permite certos exageros e humor abobalhado na ação, o que pode não agradar a todos. Mas é inegável o talento do sujeito em filmar perseguições, pancadria e tiroteios com bastante energia. Que venham mais filmes da série.

NEM UM PASSO EM FALSO (2021)

Dir: Steven Soderbergh

Cai numas armadilhas bestas que poderiam ser evitadas: excesso de personagens, reviravoltas e subtramas que deixa a coisa inchada bem mais que deveria, em especial na segunda metade. Mas o filme é tão consistente naquilo que propõe, em tecer uma teia curiosa de crime, roubos, assassinatos, traições, com um humor ácido peculiar e uma atmosfera noir interessante, que acaba tendo sua graça no fim das contas… Óbvio que o elenco acaba sendo um destaque, sobretudo Ray Liotta, um Brendan Fraser incrivelmente obeso e Bill Duke genial como sempre.

VAL (2021)

Dir: Leo Scott e Ting Poo

Obviamente que eu queria ver o Val Kilmer falando sobre as produções de ação e terror vagabundos direct to video dos anos 2000, mas aí já seria pedir demais… De todo modo, é um belo documentário, um retrato interessante e sensível de uma figura fascinante, bizarra e problemática do cinema americano que foi do ápice do estrelato ao fundo do poço e resolveu filmar tudo em vídeo. Uma vida inteira toda registrada. Vale a pena. Produção da Amazon, então tá disponível no streaming deles.

Cagesploitation: PIG (2021)

PIG não é nada daquilo que eu esperava. Não sei se mais interessante, melhor ou pior, mas com certeza algo de fascinante e emocional que quebrou minhas espectativas. E não, o filme não é um “John Wick com uma porca”.

Na trama temos Nic Cage como Robin Feld, um ermitão que vive na floresta com sua única companheira, uma porquinha, caçadora de trufas. Uma noite qualquer, um grupo de pessoas invade sua cabana e sequestra o animal. Agora, Robin deve se aventurar de volta ao mundo civilizado da grande cidade para rastrear a porca. No papel, PIG soa estranho e até cômico. Na prática, o que vemos é um exercício quase espiritual sobre como as pessoas escolhem canalizar suas emoções. Robin deixou de funcionar no mundo exterior depois de um acontecimento trágico, optando por uma vida de isolamento. Antes, um chef de cozinha celebrado. Agora, evita o contato humano, encontrando consolo na reconexão com a natureza.

O único elo com a humanidade vem na forma de Amir (Alex Wolff), que compra as trufas de Robin para venda na cidade. Após o ataque noturno, voltar a encarar o resto do mundo é inevitável. E a partir daqui, o diretor e roteirista estreante Michael Sarnoski vai contra todos os clichês de gênero imagináveis, optando por não desencadear o que se espera de um CAGESPLOITATION. Não há perseguições, lutas, tiroteios, nem mesmo um suspense… Em vez disso, Robin inicia uma jornada existencial, uma reconciliação com seu passado. E realiza visitas discretas feitas a pessoas na indústria de restaurantes de Portland em busca de respostas: onde raios foi parar a porca?, mas sem a intenção de partir pra violência. A exceção talvez seja uma sequência num submundo dos restaurantes onde os funcionários parecem participar de uma espécie de “Clube da Luta”, o que justifica a cara de Robin toda arrebentada nas imagens que circulam. Mas até nisso o filme tenta fugir dos padrões.

A direção é minimalista, com foco nesses personagens (o rapaz, Amir, também possui um arco interessante pra ser resolvido), tratando de temas com certa sensibilidade. É evidente que alguns poderão sair frustrados com o ritmo lento. Enquanto para outros, PIG é um bom registro do porquê Nicolas Cage permanece único. Num grau de comprometimento absurdo com o projeto, Cage é uma potência aqui, numa performance que traduz o trauma e a tristeza de uma forma muito física. Não canso de repetir que Nic Cage é, pra mim, o melhor ator que temos hoje em atividade, o único que consegue me deixar num estado de suspensão em qualquer merda que faça.

O DIA DO CHACAL (1973)

Há alguns anos eu devorei todos os livros que consegui encontrar do Frederick Forsyth, um dos maiores escritores de thrillers políticos, na minha opinião. Usando sua experiência como jornalista e correspondente diplomático, o sujeito é muito preciso e detalhista nas tramas que escreve ao mesmo tempo em que consegue criar uma atmosfera tensa que coloca o leitor imerso na história. Lembro que quase perdia os pontos de ônibus que eu precisava descer de tão mergulhado que eu estava quando li O Dossiê Odessa, por exemplo. Enfim, eu não sei analisar literatura, isso eu deixo para outros, então paro por aqui…

Vamos falar de filme. Depois de ler O Dia do Chacal, primeiro romance ficcional de Forsyth, lançado em 1971, fiquei tentado a rever O DIA DO CHACAL (The Day of the Jackal), do diretor Fred Zinnemann e estrelado por Edward Fox e Michel Lansdale. Não com intuito de fazer uma comparação entre livro e filme, mas vislumbrar como Zinnemann transformou esse belo thriller em imagens.

Filme revisto (só tinha assistido uma única vez em VHS há trocentos anos) e, embora não seja lá uma obra espetacular, O DIA DO CHACAL consegue ser, em sua essência, um interessante e mortal, jogo de gato e rato. A trama é basicamente a mesma do livro, com pouquíssimas interferências: No início dos anos 60, com a Argélia recebendo a independência do presidente Charles de Gaulle, a aliança clandestina militante conhecida como Organisation Armée Secrète falha em uma tentativa de assassiná-lo. Em poucos meses, muitos dos conspiradores foram capturados e executados.

Os demais líderes da OAS, sem recursos financeiros, refugiam-se na Áustria e decidem contratar um assassino profissional para fazer o trabalho. E o escolhido é o “famoso” matador conhecido apenas como Chacal (Fox). Famoso entre aspas mesmo, porque a trama é totalmente ficcional e não tem nada a ver com Ilich Ramírez Sánchez, mais conhecido como “Carlos, o Chacal”, esse sim, um famoso mercenário revolucionário. E que curiosamente a alcunha de Chacal foi-lhe dada pela imprensa depois que foi encontrada no seu quarto de Hotel uma cópia de O Dia do Chacal, de Forsyth.

Como disse, a rapaziada da OAS tava sem grana pra bancar um profissional tão caro. Então orquestrou vários assaltos a banco para cobrir a taxa de meio milhão de dólares para que Chacal cumprisse sua missão de matar De Gaulle. Depois de capturar e interrogar um membro da OAS, as autoridades francesas descobrem a existência do assassino e, suspeitando que outro atentado à vida de De Gaulle possa ser iminente, colocam o comissário Claude Lebel (Lonsdale) em seu encalço. E a trama de O DIA DO CHACAL torna-se uma verdadeira caçada humana, com o Chacal se movendo pela Europa, arquitetando seu plano, usando disfarces e falsas identidades, enquanto Lebel tenta seguir os seus passos.

É o tipo de filme que persuade seu público a ficar em cima do muro em relação a essas figuras. Por mais que queiramos ver o Chacal frustrado por Lebel, é impossível deixar de admirar o assassino enquanto seu plano meticuloso e aparentemente infalível se concretiza. Deve-se, em grande parte, às atuações de ambos atores principais. Edward Fox, em seu primeiro grande papel, tem muita presença em cena, com semblante de um cavalheiro inglês imperturbável, com um sorriso cativante, sedutor, mas frio o suficiente para matar qualquer um que se coloque em seu caminho. O contraponto é Lonsdale como o policial corpulento e astuto, que mantém sua aura serena intacta, mesmo com a pressão que vem dos superiores.

Fred Zinnemann é um diretor competente, mas nunca me despertou muito entusiasmo. Mesmo seus filmes mais conhecidos e premiados costumam ficar na média do padrão, sem grandes inspirações. A exceção talvez seja MATAR OU MORRER, dentre os que vi, e mesmo assim tá longe de ser dos meus faroestes favoritos. Mas aqui Zinnemann abraçou o projeto e fez escolhas acertadas em benefício do seu filme, como vetar a escolha de Sir Roger Moore (e outros nomes) como Chacal e escolher Fox, que não era tão famoso. Ou a decisão de não utilizar trilha sonora durante praticamente todo o filme, o que privilegia a fotografia de Jean Tournier com uma atmosfera que carrega um senso de realismo semi-documental nas jornadas de Chacal e Lebel. Além disso, Zinnemann manda bem em manter a tensão em boa parte da projeção: o simples ato de acompanhar Chacal em atividade, com seus procedimentos detalhistas, na sua determinação em cumprir sua missão de forma meticulosa, e o rastro de morte que deixa pelo caminho, torna-se um prazer ao espectador.

Não há grandes momentos espetaculares em O DIA DO CHACAL. Mas temos um final bem orquestrado, dentro das limitações de Zinnemann como diretor, no meio do desfile do Dia da Libertação, na Champs-Élysées. Há um tom anti climático, mas que é eficiente, com Lebel tentando inutilmente localizar o assassino enquanto o Chacal se posiciona para dar o tiro mortal com seu rifle customizado. A propósito, essas cenas foram filmadas durante um desfile real e várias pessoas na multidão podem ser notados olhando diretamente para a câmera enquanto Lonsdale se move entre elas.

O DIA DO CHACAL é realmente um bom filme, sobretudo à quem interessa por thrillers policiais classudos dos anos 70. Claro que, pensando nos diretores já veteranos do período, fico imaginando esse material nas mãos de um Richard Fleischer, John Huston, Robert Aldrich, até de um John Frankenheimer (que chegou a demonstrar interesse pelo projeto)… Provável que teríamos uma obra-prima. Infelizmente não temos, mas é um belo thriller. Já o livro do Forsyth é sensacional. Fica a recomendação.

Em 1997, saiu O CHACAL, adaptação atualizada do livro de Forsyth, que não quis ter seu nome associado à produção. Foi dirigido por Michael Caton-Jones, que também não é lá nenhum mestre, mas não faz feio. E tem um bom duelo entre Richard Gere e um Bruce Willis atípico na época, numa ousada atuação encarnando o Chacal. O elenco ainda tem boas performances de Sidney Poitier e Diane Venora. Não é um grande filme, muita gente caiu matando, mas tenho simpatia. Desses produtos estranhos dos anos 90 que me divertem. Qualquer hora dessas eu revejo e comento por aqui também.

PRISONERS OF THE GHOSTLAND [trailer]

Essa semana saiu o trailer de um dos filmes mais aguardados do ano pela casa. Novo trabalho do diretor japonês doidão Sion Sono em parceria com ninguém mais, ninguém menos, que ele, o próprio, NIC CAGE. Ele vive um criminoso que foi libertado da prisão por um ricaço vivido pelo Bill Moseley e oferece sua liberdade em troca de resgatar sua neta (Sofia Boutella) que está sendo mantida em cativeiro em um lugar misterioso conhecido como Ghostland;

PRISONERS OF THE GHOSTLAND é o título dessa bizarrice cujas imagens vocês podem ver agora:

Como podem ver a coisa vai ser, no mínimo, interessante. O lançamento tá programado pra setembro.

R.I.P. TARCÍSIO MEIRA

Último filme do homem que assisti foi REPÚBLICA DOS ASSASSINOS (1979), de Miguel Faria Jr. Ele faz o policial líder de um Esquadrão da Morte, na época da ditadura no Brasil. Classudo. De uma crueza impressionante. Filmaço.

R.I.P. Tarcisão.

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APOIA-SE O VÍCIO FRENÉTICO

Recado para os amigos que curtem e acompanham o blog. Há uma forma disso aqui ficar ainda melhor. É o seguinte: manter um blog é um trabalho árduo, que exige tempo, desgaste físico e mental para pesquisas, para escrever, buscar novidades e trazer coisas boas pra vocês. E um possível apoio de vocês poderia me ajudar a concentrar no que acredito ser minha verdadeira missão na vida. Eu sempre vou manter o blog e escrever sobre filmes, aconteça o que acontecer. É o que eu faço, seja com um post por mês ou cinco vezes na semana (o que é impossível hoje). Porém, quanto menos tempo eu preciso gastar para pagar as contas com meu emprego “normal”, mais posso me dedicar a esse trabalho que, espero, traga um pouco de alegria para as pessoas. 

Eu preciso de tempo para escrever. Se eu puder fazer desse trabalho de escrever sobre filmes minha fonte regular de renda, terei horas e horas para investir neste importante volume de estudos que ninguém mais vai fazer: análises e textos de pesquisa sobre Jean-Claude Van Damme, Chuck Norris, Charles Bronson, ou Don “The Dragon” Wilson. Matérias sobre filmes de kickboxer ou exploitation filipino não vão se escrever sozinhos, não é mesmo?

Então, se você aprecia o que eu faço e por acaso tenha condições de contribuir, você pode me ajudar a criar mais para você. Se você está deprimido e sente que falta esse tipo de conteúdo para alegrar seu dia, junte-se a mim em minha missão de buscar a excelência e me tornar o blogueiro mais legal do Brasil. É só utilizar o botão abaixo e vamos construir isso juntos.
​ 
obrigado,
Ronald Perrone

TERRITÓRIO INIMIGO no CINE POEIRA

Episódio inédito do CINE POEIRA desta semana vai tirar, literalmente, a Poeira de um verdadeiro clássico dos bons tempos do VHS: TERRITÓRIO INIMIGO (Enemy Territory, 1987). Produção de Charles Band, o longa de Peter Manoogian é um envolvente thriller de ação ambientado em um prédio de uma vizinhança barra pesada de Nova York, dominado por uma gangue auto-intitulada VAMPIROS, liderada pelo ‘O Conde’ (Tony Todd pós-PLATOON e antes da fama com CANDYMAN). O filme também é estrelado por Ray Parker Jr., Gary Frank e Stacey Dash e ainda conta com uma participação mais do que especial de Jan-Michael Vincent.

Para escutar o nosso papo, é só apertar o play na sua plataforma de podcast de preferência. Ou é só usar o tocador abaixo e ouvir aqui no blog mesmo. E siga-nos no instagram

ZERO TOLERANCE (1994)

De vez em quando a produtora PM Entertainment, especializada em filmes de ação de baixo orçamento, que fez a alegria da moçada nos anos 90, conseguia atrair um ator relativamente mais renomado para um papel principal em uma de suas fitas. Em ZERO TOLERANCE, de Joseph Merhi, eles conseguiram o grande Robert Patrick. O sujeito nunca chegou a se tornar um astro, mas sempre teve um certo respeito pelos admiradores de cinema de gênero, sobretudo naquele momento, em meados dos anos 90. Obviamente que ser o vilão de um dos melhores filmes de ação de todos os tempos, dando vida ao T-1000 de O EXTERMINADOR DO FUTURO 2 (91), de James Cameron, contribuiu bastante pra isso. Mas mesmo em outros trabalhos, Patrick sempre demonstrou talento, carisma e aquele “olhar” peculiar que se precisa ter para ser um verdadeiro herói de filme de ação… ou o vilão, como na maioria dos casos de Patrick. hehe!

Em ZERO TOLERANCE Patrick interpreta o agente do FBI Jeff Douglas, que tem a tarefa de escoltar o traficante Ray Manta (Titus Welliver) de uma prisão mexicana de volta aos Estados Unidos. Manta, tendo à sua disposição as vantagens de ser membro de um sindicato de traficantes poderosos, consegue atrapalhar um bocado o trabalho dos agentes do FBI, preparando uma emboscada no trajeto de escolta e fazer com que a família de Jeff seja sequestrada para coagir sua libertação. O problema é que após conseguir o que queria, a mulher e os filhos do protagonista são mortos sem piedade. Agora, sem nada a perder, Jeff parte em uma boa e velha caçada humana para derrubar as cabeças do cartel, uma por uma.

A partir daí, ZERO TOLERANCE se torna uma típica jornada de vingança com os desenvolvimentos habituais que esse tipo de trama exige. Nada fora do comum, apesar do diferencial em ter um ator acima da média como Robert Patrick encarnando esse homem em fúria. O filme acaba tendo uma carga de emoção dramática mais intensa para o tipo de filme que temos aqui. Quem já se enveredou pelo universo dos filmes de ação da PM tá acostumado a sentar para assistir a um bagulho sem esperar os melhores exemplos de atuações ou tramas intrincadas, ninguém vai ver um filme da PM esperando ver algo do nível de um Orson Welles ou Ingmar Bergman. O que geralmente temos é uma trama direta, que justfique tiroteios e explosões, uma direção competente pra sequências de ação e um ator brucutu que possa chutar habilmente todos os meliantes que encontrar pela frente.

Neste caso, um ator sólido como Robert Patrick é o que torna ZERO TOLERANCE especial. Patrick é um ator que consegue colocar sentimento na tela, podemos vê-lo perdendo as esperanças com a vida e sendo despojado de tudo o que possui. Com suas emoções inundando, descarregando sua dor, bem como o ódio, em seus desafetos. Patrick sabe como se comportar em um filme como este e realmente eleva o filme, trazendo algo para o roteiro padronizado e um toque de personalidade onde poderia não haver nenhum.

Outra escolha de elenco interessante foi Mick Fleetwood como um dos vilões da parada. Parece que os realizadores queriam ter Donald Pleasance, mas na ausência do grande ícone que foi Pleasence, o baterista do Fleetwood Mac foi uma escolha acertada. Ainda no elenco, Titus Welliver acaba tendo bom destaque como o sinistro Manta, o principal alvo do herói. Miles O’Keeffe, que também contribuiu bastante como action hero de filme de ação vagabundo em outras oportunidades também desempenha um bom vilão, com uma certa carga moral. E o filme ainda conta com a presença de Jeffrey Anderson-Gunter, mais uma figura reconhecível do cinema de ação B.

Mas o ponto principal é que ZERO TOLERANCE entrega o que promete. Em termos de ação, como esperado do grande Joseph Merhi na direção, ele faz tudo ao seu alcance para que seu filme pareça um blockbuster de 100 milhões de dólares, repleto daquelas explosões amareladas caracteríticas dos filmes da PM, tiroteios minimamente elaborados e frenéticos, nos mais variados cenárrios e ambientações, e com um belíssimo trabalho dos dublês. Ou seja, diversão garantida.

Veredito: ZERO TOLERANCE tem um enredo legal, um filme de vingança com um bom peso dramático; um herói convincente vivido por um ator que adiciona um toque de classe, capaz de quase levá-lo a acreditar que o filme poderia ter estreado num cinema em 1994, ao invés de ir parar direto nas prateleiras de locadoras; temos vilões odiosos e ação em abundância. O que mais você poderia querer? Ok, o filme é um pouco lento às vezes, mas quando a ação começa, é uma paulada, dá conta de alegrar o coração dos que vibram com pequenos filmes de ação.

E lembrem-se, quando virem esse logo antes de um filme, a chance de os próximos 90 minutos serem de pura diversão é praticamente uma certeza:

O CHEFÃO DE NOVA YORK (1973)

Revi O CHEFÃO DE NOVA YORK (Black Caesar), blaxploitation fundamental dirigido pelo grande Larry Cohen, para gravar mais um episódio supimpa do podcast Cine Poeira. Mas resolvi escrever algumas coisinhas também porque tava com saudade de postar algo sobre blaxploitation aqui no blog. E retomo ao tema em grande estilo porque é um dos meus filmes favoritos do subgênero. Tem uma boa história e direção cheia de energia de Cohen, uma trilha sonora fodida de James Brown (uma das raras que fez pra cinema) e atuação magistral de Fred Williamson, que interpreta um filho da puta cruel, uma espécie de atualização black motherfucker do anti-herói do cinema de gangster dos anos 30.

Obviamente que muitos relacionam O CHEFÃO DE NOVA YORK como o PODEROSO CHEFÃO do blaxploitation e até entendo a comparação. O filme do Coppola tinha ganhado a notoriedade que todos sabemos no ano anterior e qualquer filme de máfia que viesse em seguida ficaria à sua sombra. Mesmo um produto de baixo orçamento e mais apelativo como este aqui. O protagonista chega até a passar por um cinema onde o título do filme de Coppola pode ser lido na marquise. Mas tirando um detalhe ou outro, a influência maior de Cohen era realmente o cinema de gangster da Warner Bros. da década de 30. O próprio título original, BLACK CAESAR faz analogia a LITTLE CAESAR, de Mervyn LeRoy, estrelado pelo Edward G. Robinson, e baseado num dos grandes cássicos da literatura policial, escrito por William R. Burnett.

Então o que temos aqui é clássica trama de ascensão e queda. Seguimos Tommy Gibbs (Williamson), desde o tempo em que ele era engraxate no Harlem, executando tarefas para criminosos brancos em 1953 (que mais parece 1973, mas isso pouco importa), até atingir os degraus mais altos do mundo do crime em 1972. Cohen não se atenta aos detalhamentos dessa escalada de Tommy ao poder. Ele decide matar um sujeito que tava com a cabeça à prêmio, arranca a orelha da vítima e joga no prato de spaghetti do chefão local, pra ganhar respeito. E logo em seguida já estamos ouvindo a voz de James Brown entoando Paid The Cost To Be A Boss enquanto Fred Williamson imponente caminha pelas ruas do Harlen como o fodão dos fodões.

Cohen estrutura todo O CHEFÃO DE NOVA YORK com cenas chaves e elipses temporais sem qualquer concessão. Dias, meses e anos se passam num simples corte. E não demora muito já estamos ouvindo novamente James Brown com Ain’t It Cool to Be a Boss, enquanto Tommy assume o controle de todo o sindicato do crime, à base de balas e muito sangue derramado. Há uma sequência espetacular dos homens de Tommy invadindo um almoço italiano à beira da piscina com a nata da máfia, em LA, sendo sumariamente executada, com corpos ensanguentados boiando, e um plano detalhe genial de um frango assado sendo estourado à tiros. Desses momentos mágicos do cinema de exploração.

Como toda tragédia narrada sobre a conquista do poder, algo tem que dar merda. A arrogância de Tommy, sua ganância e sede de controle acaba por decretar sua queda. Perde a mulher, é corneado pelo amigo de infância – e parceiro de negócios – ele logo é percebido como um “negro branco”, seguindo os mesmos passos dos mafiosos italianos que estavam ali antes dele, sem ajudar os pobres e necessitados. Seus homens começam a ser abatidos, seu território fica ameaçado. A única coisa que o mantém são determinados cadernos de registros, uma folha de pagamento contendo nomes de altas figuras corruptas da política e polícia. O CHEFÃO DE NOVA YORK chama a atenção em manter as emoções em estado de ebulição. A dor do homem negro de não poder pertencer ao establishment sem se sentir um estranho. Mas as ideias peculiares de Cohen sobre justiça e moralidade são a de que criminosos são caras violentos, que destroem tudo ao seu redor, sejam lá de onde vieram, sejam negros ou brancos. Ainda assim, o filme atende aos medos e fantasias do público alvo e dá uma voz sobre a indignação dos negros e sua rixa contra a sociedade americana de uma forma bem convincente.

Rodado em apenas algumas semanas e com a câmera grosseira e marginal no estilo de guerrilha de Larry Cohen, o John Cassavates do cinema grindhouse, O CHEFÃO DE NOVA YORK tem vários momentos impressionantes. Dos encontros singelos do protagonista com seu pai, às cenas estilizadas com espaços com fundos negros para mascarar com maestria o baixo orçamento. Ou filmando nas ruas lotadas de Nova York sem autorização, com os transeuntes olhando pra câmera ou assistindo a performance genial de Fred Williamson. Sobretudo no terceiro ato, quando Tommy é gravemente ferido pelos pistoleiros de seu maior inimigo, o policial corrupto e racista McKinney (Art Lund), e anda vários quarteirões cambaleando com o bucho cheio de sangue.

O encontro final com McKinney é outro desses momentos impagáveis que prova a maestria dramatúrgica de Cohen. McKinney aponta uma arma para Tommy e não consegue resistir de provocá-lo exigindo um engraxate para rebaixá-lo ao máximo, para mostrar ao protagonista quem ele é, de onde veio, antes de matá-lo. Mas Tommy consegue se desvencilhar e esmurra McKinney repetidamente com a caixa de engraxate. O anti-herói negro esmagando a cabeça do vilão branco com uma caixa de engraxate não poderia ser simbolismo mais antológico para um clássico do blaxploitation.

Atordoado, Tommy retorna ao Harlem de sua infância, nos escombros dos prédios onde viveu, e acaba atacado num beco vazio por uma gangue de adolescentes que o espanca até a morte. Claro, com o sucesso do filme Cohen tratou de decidir que Tommy não morreu, e no mesmo ano lançaram a continuação, INFERNO NO HARLEN (Hell Up in Harlem).

No elenco, algumas figuras a se destacar. Gloria Hendry é um espetáculo, embora sua personagem, esposa de Tommy, careça de um desenvolvimento mais interessante. Ela só vai ganhar mais força lá pro final do filme. Art Lund é realmente ameaçador como McKinney. E a pequena participação de James Dixon, um habitual de Larry Cohen, é bacana como pistoleiro do policial corrupto.

Com bom ritmo, boa dose de ação, muito tiro e sangue, e um personagem principal realmente cool, O CHEFÃO DE NOVA YORK é um dos grandes da safra blaxploitation, ocupando um lugar próximo a clássicos como COFFY, SUPERFLY, SHAFT e outros exemplares que tornam o subgênero essencial aos interessados em exploitation. Quem se depara com esse petardo, nunca vai esquecer o poder, a força da natureza, o monumento que é Fred Williamson (curioso que o personagem foi pensado originalmente para Sammy Davis Jr…). Nem da genialidade de Larry Cohen como diretor, roteirista e produtor. E esse aqui tá longe de ser um de seus melhores trabalhos. De qualquer forma, altamente recomendado. Para quem está iniciando pelas plagas do blaxploitation, O CHEFÃO DE NOVA YORK é definitivamente um dos mais importantes a conferir.

E assim que o episódio do Cine Poeira estiver disponível, compartilho por aqui.

MORTAL KOMBAT no Cine Poeira

O episódio desta semana do CINE POEIRA é sobre esse clássico absoluto da infância de muitos que acompanham o podcast e o blog. Dos amantes de filmes de artes marciais aos fãs de video games que perdiam um bom tempo (e dinheiro da padaria) nos fliperamas da cidade ou nos Super Nintendos e Mega Drives de suas casas. Estamos falando da adaptação cinematográfica de MORTAL KOMBAT (1995), um dos jogos fundamentais da rapaziada nos anos 90 e um dos filmes de ação/fantasia/pancadaria dos mais legais que surgiram no período. Discutimos todos os detalhes do filme e também da divisão de opiniões que se tem sobre o seu diretor, Paul W. S. Anderson (RESIDENT EVIL).

Para ouvir, é só procurar o CINE POEIRA no seu tocador de podcast favorito ou basta dar o play abaixo:

AMERICAN SAMURAI (1992)

A franquia AMERICAN NINJA era um sucesso no fim dos anos 80 e início dos 90, já estava no seu quarto filme em 1992 e o diretor Sam Firstenberg, que realizou os dois primeiros (e também dois filmes da trilogia iniciada por ENTER THE NINJA: REVENGE OF THE NINJA e NINJA III – THE DOMINATION), concentrou-se em americanizar outra figura icônica da cultura japonesa: os samurais. Obviamente o filme recebeu o título de AMERICAN SAMURAI. O resultado não é do mesmo nível dos melhores trabalhos do Firstenberg, mas até que não é mau, dá para o gasto.

David Bradley, que também deu sua contribuição na franquia ninja (estrelou o terceiro, o quinto e participou do 4 ao lado de Michael Dudikoff), é Drew Collins, um americano que perde os pais num acidente de avião no Japão e é adotado por Tatsuya (John Fujioka), um mestre das artes marciais local, que lhe passa os ensinamentos dos samurais em pleno século XX. Curioso que Fujioka interpreta praticamente o mesmo personagem em AMERICAN NINJA, quando ensina ao órfão Joe Armstrong (Dudikoff) alguns movimentos de ninjitsu.

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A principal distinção entre AMERICAN SAMURAI e AMERICAN NINJA, no entanto, é a presença de Kenjiro (Mark Dacascos, num de seus primeiros papeis no cinema), o filho biológico do mestre Tatsuya, que também teve seu aprendizado samurai, mas sofre insanamente de ciumes pelo seu irmão adotivo.

E a coisa vai de mal a pior com o pobre Kenjiro, como podemos ver na cena em que Tatsuya escolhe Drew, apesar do seu seu sangue ocidental, como o guardião que irá manter a honra da família possuindo uma famosa espada sagrada para os samurais. Kenjiro até tem um bom argumento de que, como o filho biológico, com sangue japonês correndo nas veias, deveria ter sido o escolhido. Só que seu argumento perde um pouco de ímpeto quando ele revela uma grande tatuagem nas costas e anuncia que ele é agora um membro da Yakuza, a famigerada máfia japonesa, que todo mundo conhece…

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Passam-se os anos, Drew está morando na América e tem a espada sagrada exibida com bom gosto em uma caixa de vidro na parede de seu apartamento. Pelo menos até que um grupo de assassinos da Yakuza invada o seu recinto, atire nele e roube a espada… E enquanto Drew está deitado morrendo, ele começa a ter visões psicodélicas dele enfrentando seu irmão, que está usando algum tipo de máscara demoníaca, num combate de espadas mortal. Mas aí o diretor Firstenberg sai de seu transe achando que é um diretor de cinema arthouse experimental e se lembra que é um cineasta de fitas vagabundas de luta… Volta ao filme com Drew utilizando as misteriosas técnicas orientais aprendidas com seu mestre para arrancar a bala do bucho! Quem precisa de seguro de saúde quando você é um mestre samurai?

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Meses depois, Drew viaja como repórter – sua profissão, quando não é samurai nas horas vagas – para Turquia, em companhia de uma fotógrafa (Valarie Trapp) para investigar algumas mortes envolvendo um estilo muito específico de corte de lâmina, que ele suspeita que seja Kenjiro com a tal espada roubada. Chegando ao local, não demora muito para o nosso herói samurai cair nas armadilhas de seu irmão e se vê forçado a lutar em um torneio de artes marciais.

Entra em cena aquele estilo batido de “filmes de torneio” que infestavam as locadoras no início dos anos 90, reunindo lutadores com todos os tipos de estereótipos e variações de luta em combates sangrentos. Aqui a coisa é meio bizarra, meio medieval… Os caras parecem selvagens de outras épocas que resolveram desenterrar para este torneio, como vikings, piratas, bárbaros do oriente… E, obviamente, um americano do Texas, com chapéu de cowboy.

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Até que em termos de confrontos, temos algumas sequências bem legais e violentas, nisso o Firstenberg manda bem. As cenas de luta definitivamente compensam um pouco certa estupidez do roteiro e uma falta de ritmo, que é um autêntico convite ao sono até chegar até a este ponto da trama. Mas um dos principais problemas de AMERICAN SAMURAI começa já na escolha do ator central. David Bradley até possui alguns filmes bacanas no currículo, como os filmes da série CYBORG COP e HARD JUSTICE. No entanto, em alguns veículos ele se comporta como uma mosca morta no piloto automático. É o que acontece um bocado por aqui, que até possui um material que outros atores da sua categoria teriam aproveitado mais, como um Loren Avendon ou Billy Blanks. Mesmo nas suas sequências de luta o sujeito demonstra uma certa preguiça e parece não se interessar muito em balançar uma espada samurai em torno de uns oponentes a cada 5 ou 10 minutos…

Quem acaba se destacando é Dacascos, embora não tenha muito tempo de tela. Podiam ter utilizado bem mais seu personagem, já que no começo, por exemplo, ele se revela como um Yakuza. Por que não explorar esse núcleo dele em algum tipo de negócio de drogas na Turquia? Alguma cena em que um grupo de policiais tenta prendê-lo e ele demonstra seu poder sádico pra cima dos policiais? Bom, o que resta ainda vale. Mesmo o Dacascos se resumindo a fazer caretas consegue mais interessante que Bradley no filme inteiro.

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Mas talvez a maior sacada de AMERICAN SAMURAI é a ideia do confronto entre irmãos. Afinal de contas, é sempre melhor ver o herói ressentido com a perspectiva de ter que matar um próprio membro da família do que apenas vê-lo fatiar um homem de negócios malvado de óculos escuros e fora de forma. Mas não me entendam mal, Drew ainda vai em frente e perfura o bucho de seu irmão na sequência final, apesar de ser uma das lutas de espada mais estranhas que já vi… É anti-climática, tem um diálogo sobre “ser o melhor” que aquela altura pouco importa, e quando o confronto começa, acontece muito rápido, são pouquíssimos os planos que vemos os dois atores no mesmo quadro. Claro, fica evidente também, pela montagem, que costuraram trechos e cenas de outras lutas pra dar a ilusão de terem Dacascos e Bradley lutando, quando é perceptível que algo deu errado e nem filmaram a sequência com os dois…hehe!

AMERICAN SAMURAI não encontrou o esperado sucesso para merecer uma sequência, diferente da franquia AMERICAN NINJA, que teve quatro continuações. Mas realmente nem os mais alucinados fãs do gênero vão lamentar por isso. É provável que numa sessão, com um grupo de amigos e algumas latas de cerveja, tirando sarro do filme, ele funcione. Há algumas coisas bizarras e involuntariamente engraçadas acontecendo aqui e ali, mas não tenho certeza se posso recomendá-lo por esses méritos. Como filme de ação e artes marciais não é grandes coisas, mas diverte e pelo menos é melhor que AMERICAN NINJA 5.

TRANS-EUROP-EXPRESS (1966)

Segundo longa de Alain Robbe-Grillet como diretor, depois de L’IMMORTELLE (1963), embora já fosse famoso no período como o roteirista de O ANO PASSADO EM MARIENBAD (1961). E assim como no filme de Resnais, TRANS-EUROP-EXPRESS é um desses experimentos com a narrativa e com nossas percepções. O que temos aqui é um filme de Alain Robbe-Grillet chamado TRANS-EUROP-EXPRESS sobre um roteirista/diretor interpretado por Alain Robbe-Grillet que está planejando um filme chamado TRANS-EUROP-EXPRESS.

Calma, explico: Três pessoas embarcaram na linha Trans-Europ-Express em Bruxelas, são figuras ligadas a cinema (um produtor, um roteirista/diretor e uma roteirista), e começam a trabalhar em ideias para seu próximo projeto. Será um filme chamado “Trans-Europ-Express”, um thriller, com premissa ambientada no trem. Quando eles notam o astro de cinema francês Jean-Louis Trintignant no mesmo vagão, decidem que ele fará o papel principal, de um traficante de drogas chamado Elias. E a partir daí somos colocados numa posição na qual realidade e “fantasia” vão se cruzando. É o ator Jean-Louis Trintignant que estamos acompanhando ou Elias, o traficante de drogas?

Dos três indivíduos ali imaginando o filme – que de forma instantânea assistimos – o produtor é interpretado por um dos produtores reais de TRANS-EUROP-EXPRESS, o roteirista/diretor é o próprio Alain Robbe-Grillet e a roteirista é encarnada por sua esposa, Catherine Robbe-Grillet. De vez em quando decidem que uma determinada cena não funciona, então a cena que acabamos de assistir é descartada. As cenas também são revisadas. A história muda conforme assistimos.

É uma ideia interessante, uma trama de pistas falsas, não há certeza de quem está jogando e quem está sendo manipulado. Elias precisa comprar uma mala vazia e depois trocá-la por outra, contendo drogas. Mas ele acaba pegando uma mala sem a mercadoria… A gangue para a qual ele trabalha está testando-o. Ele recebe uma arma, mas não pode usá-la. Recebe uma série de instruções enigmáticas que o levam a percorrer toda a cidade da Antuerpia. Mais malas aparecem e desaparecem. Senhas misteriosas são trocadas.

Uma das malas contém os pertences pessoais de Elias, coisas que ele leva consigo quando viaja. Uma escova de dentes, navalha, seu pijama e… Uma corda e corrente. Estamos num filme de Alain Robbe-Grillet, então é óbvio que Elias carrega uma corda e uma corrente. Elementos sadomasoquistas são encontrados em todos os filmes e livros escritos por Robbe-Grillet e refletem seus próprios gostos e os de sua esposa (que era dominatrix e foi a autora de alguns dos mais famosos romances S&M). Em TRANS-EUROP-EXPRESS isso não é diferente e não surpreende quando temos situações e diálogos como, por exemplo, quando Elias conhece uma jovem prostituta chamada Eva (Marie-France Pisier). Ela o convida a ir para sua casa e ele diz que não está interessado em sexo, só está interessado em estupro. Ela garante que não haverá problema, mas terá um custo extra. Sorte que ele tinha as correntes e a corda com ele.

Durante a trama de TRANS-EUROP-EXPRESS, Elias não sabe em quem confiar ou para quem exatamente está trabalhando. O espectador também não sabe. E nem mesmo os três cineastas que estão criando a história, já que estão escrevendo no decorrer do processo. Um personagem pode ser um membro de uma gangue, mas eles podem mais tarde decidir que ele é na verdade um policial. Os desempenhos não são muito convencionais, se alternam entre o teatral, ou bastante monótonos, ou são exagerados… Porque, afinal, os roteiristas ainda não decidiram sobre as personalidades. Trintignant desempenha seu papel como uma marionete, fazendo a si mesmo, que interpreta um traficante de drogas numa trama que está sendo desenvolvida em tempo real…

Como a maioria dos filmes de Robbe-Grillet, TRANS-EUROP-EXPRESS contém uma porção generosa de excentricidade. Há algumas ceninhas de nudez, alguns elementos de submissão feminina, imagens que têm apelo e ajudam nas bilheterias (e que conseguiu fazer com que o filme fosse banido no Reino Unido). A sequência da dançarina nua no palco giratório (filmada no lendário cabaré Crazy Horse em Paris) é particularmente curiosa e, para os padrões de 1966, deve-se dizer que ela revela uma quantidade boa de pele nua. O tipo de coisa que tornou os filmes e a literatura de Robbe-Grillet polêmicos. Só pra ter uma noção, o livro mais perturbador que já li na vida foi escrito por Robbe-Grillet: Um Romance Sentimental, lançado em 2007. Depois de ler esse livro, nada mais te choca. No caso de TRANS-EUROP-EXPRESS a coisa ainda é branda e funciona, adicionando um toque extra de estranheza e surrealismo. Um filme em que todas as obsessões de Robbe-Grillet se juntam com sucesso sem chocar. Pelo menos para o público atual…

Embora TRANS-EUROP-EXPRESS compartilhe um pouco de alguns temas com L’IMMORTELLE, que eu preciso rever, ele também marca uma mudança de direção no tom – é um filme muito mais divertido, mais bem humorado e exuberante em comparação com seu filme de estreia. Robbe-Grillet está se divertindo e parece querer que o espectador também aproveite o filme e os procedimentos desse “projeto em andamento”. Vale uma conferida.

BIGFOOT (1970)

A minha queda por filmes ruins me faz chegar aos níveis mais sombrios da incompetência cinematográfica. Acabo vendo cada coisa que é difícil de acreditar… Mas no caso de BIGFOOT quem resiste a um poster como esse?

Obviamente que nada de tão espetacular assim acontece no filme, não vamos esperar um pé-grande levantando uma motocicleta pro alto. Esse tipo de arte é realizada antes mesmo das filmagens começarem, como material pra conseguir investimento para a produção. E apesar da bela imagem acima, os realizadores não conseguiram convencer muito não… O orçamento que conseguiram, pelo visto, é ridículo! Mas mesmo assim seguiram em frente e hoje temos esse filme chamado BIGFOOT para assistir… Só não sei se isso é bom ou ruim.

Agora, “O maior filme de monstros desde King Kong!‘”? “O filme mais realista e horripilante de todos os tempos.“? Não tenho ideia de que tipo de droga que essas pessoas usam pra fazer esses elogios, mas seja lá o que for, eu quero um pouco! Para assistir BIGFOOT e gostar no nível desses caras só se tiver com muito tóxico na cabeça…

O filme começa com uma loura voluptuosa (Joi Lansing, em seu último papel no cinema antes de sua morte prematura de câncer) embarcando em um pequeno avião monomotor e decolando para… não faço ideia. Mas também não importa, porque numa reviravolta brilhante do roteiro escrito pelo próprio diretor, Robert F. Slatzer, e James Gordon White, algo dá errado no meio do vôo e ela é forçada a saltar do avião de paraquedas. Já no chão, no meio de uma floresta, acaba sendo atacada e capturada por um grande monstro peludo!

Enquanto isso, os vendedores ambulantes Jasper (a lenda do cinema de horror John Carradine) e Elmer (John Mitchum, irmão do ator Robert Mitchum) estão dirigindo pela floresta até chegarem numa pequena loja de conveniência à beira de estrada. Enquanto tentam vender seus produtos, Jasper e Elmer pedem cerveja ao dono do local, mas a loja acaba de ser limpa por um grupo de motoqueiros que está passando pela área para fazer o que quase todos os motoqueiros fazem nos filmes no início dos anos 1970: beber cerveja e dançar na floresta.

Um dos motoqueiros, vivido por Christopher Mitchum, filho de Robert Mitchum (sim, existem dois membros do clã Mitchum neste filme), se separa do grupo por algum tempo pra ficar mais à vontade com sua namorada. Depois de tropeçar em um inusitado cemitério de pés-grandes, acaba nocauteado por uma das criaturas. Acorda e descobre que sua garota foi sequestrada. Agora são duas belezinhas sequestradas pelos monstros. O motoqueiro volta ao armazém para telefonar às autoridades e, ao ouvir sua história sobre a existência de tal criatura, um autêntico Pé-grande, o velho Jasper vê cifrões em seus olhos e sai com Elmer para capturar a criatura e faturar uma grana.

Se serão capazes de resgatar as mulheres também, pouco importa… Aliás, e isso é uma das coisas mais bizarras de BIGFOOT, ficamos sabendo que as duas moças são mantidas prisioneiras numa caverna onde vive uma “comunidade” de Pés-grandes, cujos integrantes pretendem acasalar com as capturadas para preservar a espécie… Hahaha!

Pois é, BIGFOOT aparentemente possui todos os elementos para ser um filme da categoria “tão ruim que chega a ser bom“, mas em vez disso é apenas “tão ruim que é só ruim mesmo“. A trama, a partir desses acontecimentos, vira um grande NADA. Entra num estágio de monotonia que mesmo os fãs mais dedicados de cinema exploitation não vão conseguir encontrar muitos atrativos por aqui.

A premissa de monstros querendo acasalar com mulheres sequestradas e sendo perseguidos por uma gangue de motoqueiros realmente poderia render algo bem mais interesante, mas o resultado é pobre de forma lamentável em todos os sentidos. E até o nível de violência e nudez é zero. Existem poucas coisas mais tristes neste mundo do que um filme de exploração que não tem coragem de explorar nada daquilo que realmente enche os olhos dos fãs do gênero.

Como ponto positivo de BIGFOOT, temos John Carradine em cena numa boa participação, embora claramente trabalhando no modo “quero receber meu pagamento no fim do dia“, mas ainda assim à léguas acima da maioria dos outros atores. Christopher Mitchum é outro destaque nas atuações, mas num sentido oposto ao de Carradine, entoando suas falas com todo o entusiasmo de um paciente em coma. Consigo me divertir com isso… Já os Pés-grandes, apesar de serem ridículos, não são assim tão precários quanto se espera para o nível da produção. Obviamente que ainda dá pra perceber que são pessoas em fantasias peludas de loja de dez centavos, que é algo que eu adoro. Mas não tem jeito, BIGFOOT é chatíssimo, demora muito para as coisas acontecerem. E quando finalmente acontecem, não vale o tempo de espera… Assista por sua conta e risco.

MANIAC COP no Cine Poeira

Esta semana, no podcast CINE POEIRA, a gente bateu um papo sobre o clássico cult oitentista MANIAC COP, de 1988. Dirigido por William Lustig e escrito por Larry Cohen, o filme é sobre um policial, que também é um maníaco assassino, vivido pelo lendário Robert Z’Dar, que vai transformar as ruas de Nova York num verdadeiro caos urbano! E vai ter que encarar pelo caminho umas figuras como Tom Atkins, Bruce Campbell, William Smith, Richard Roundtree e Laurene Landon. Um festival de violência, assassinatos e perseguições num filme imperdível.

O podcast pode ser ouvido na plataforma de sua preferência (Spotify, Anchor, Castbox, iTunes e diversos outros), basta buscar pelo Cine Poeira. Ou, se quiserem, é só dar o play no tocador abaixo. Espero que gostem.

O retorno de JCVD… De novo?

Sempre que se anuncia um trabalho mais “ousado” com o envolvimento de Jean-Claude Van Damme, inicia-se também a velha expectativa em torno de um possível “retorno” do belga aos holofotes do cinema de ação. E para quem não sabe, isso aconteceu diversas vezes ao longo das últimas duas décadas. No final deste mês, Van Damme vai estrear na NetFlix, com toda pompa do streaming mais famoso da atualidade, com O ÚLTIMO MERCENÁRIO, de David Charhon, e de novo o tema vem à baila…

Acho que o assunto “o grande retorno de Van Damme” apareceu com força pela primeira vez foi em 2008. O sujeito já estava há alguns anos fazendo seus filmes direto para o mercado de home video, e o interesse do mainstream tinha chegado ao fim, deixando apenas os aficcionados por cinema de ação e fãs do ator acompanhando sua carreira. O saldo não era negativo, tivemos vários exemplares de boa qualidade, alguns mais outros menos (alguns horríveis, obviamente), embora um Van Damme grisalho e calejado tivesse assumido um registro mais maduro de seus personagens. Foram-se os chutes rodados e filmes mais focads em combates corporais, a idade lhe obrigou a mudar o estilo de ação que fazia. O otimismo dominante acabou substituído por papéis mais sombrios. Van Damme interpretou de gângster violento à policial de moral duvidosa demonstrando excelentes atuações, e conseguia, de vez em quando, trabalhar com bons diretores: Ringo Lam, Isaac Florentine, e um pouco mais tarde, numa boa colaboração com John Hyams.

Mas foi com JCVD que Van Damme realmente surpreendeu as pessoas. Ele se viu em um filme com sensibilidade, fazendo uma versão ficcional de si mesmo, num pathos sincero e autêntico. Um filme honestíssimo, em que por duas ocasiões, Van Damme quebra a quarta parede para se dirigir ao público e falar do fundo do coração sobre seus demônios interiores, em monólogos intensos. E para além desses momentos, Van Damme se entrega num ótimo desempenho fruto da sua evolução como ator e deposita tudo nesse veículo que não era o típico filme de ação que estávamos habituados a vê-lo.

Lembro como as pessoas começaram a se perguntar se teríamos um renascimento da carreira de Van Damme. Não apenas como um homem de ação, mas como um ator legítimo. Ele poderia fazer papéis dramáticos, ser cômico, poderia fazer coisas interessante que muitos de seus contemporâneos de ação não foram capazes de fazer, exceto, talvez, Sylvester Stallone – o maior ator, no sentido dramático, entre os brucutus do cinema de ação. Van Damme poderia seguir os passos de um Liam Neeson, ou surfar na onda, mais tarde, de um JOHN WICK. Por que não?

No entanto, bom, essa revolução nunca aconteceu. O mais próximo disso foram os trabalhos com o Hyams na série SOLDADO UNIVERSAL, que apesar de serem obras-primas modernas do cinema de ação, continuaram sendo produtos de nichos, para fãs do ator ou de obcecados por ação. Nenhum grande estúdio se interessou em trazer Van Damme de volta, como era discutido na época.

Em 2010, Van Damme acabou se envolvendo num projeto pessoal, THE EAGLE PATH, ou FULL LOVE, ou seja lá o título que você tenha ouvido falar. Filme que há mais de uma década espera para ver a luz do dia. Escrito, dirigido e estrelado pelo próprio Van Damme e nunca lançado. Acho que o sujeito quer ter o seu próprio THE OTHER SIDE OF THE WIND

Como nada disso vingou em termos de “retorno aos holofotes do cinema de ação”, a carreira do sujeito se resumiu em voltar a fazer filmes de ação de baixo orçamento. O que não tenho muito do que reclamar, tivemos bons filmes dessa safra, mas havia uma sensação muito clara de que Van Damme estava sendo desperdiçado, que poderia fazer mais e não fazia. Personagens pelos quais o drama não era forte o suficiente para mostrar o quão bom Van Damme poderia ser.

Mais algumas falsas auroras aconteceram. Estamos em 2012 e OS MERCENÁRIOS 2 trouxe Van Damme de volta à relevância cultural pop. Ele rouba a cena num filme recheado de ícones do cinema de ação, como o vilão Jean Vilain, mas que no fim das contas acabou não fazendo muita diferença em seus trabalhos subsequentes. Filmes como 6 BULLETS e SWELTER definitivamente não são o tipo de veículos renascentistas que Van Damme merecia.

Tivemos a série JEAN-CLAUDE VAN JOHNSON em 2016, que eu acabei não vendo, mas sei que era outro estudo auto-referente que dialogava com JCVD. A série não passou da primeira temporada, foi cancelada e logo depois, mais filmes de ação de baixo orçamento acumulando na filmografia do homem, como os péssimos KILL ‘EM ALL e BLACK WATER

2018 teve LUKAS, também conhecido como THE BOUNCER, um retorno de Van Damme à sua querida Bélgica, num filme que mesclava boas sequências de ação, certo valor artísitico, com uma entrega dramática mais pesada. Um belo filme que, infelizmente, foi pouco visto, mas que poderia representar alguma mudança na carreira do homem. Seu filme seguinte, WE DIE YOUNG, eu ainda não vi, mas parece ser outro filmeco de ação de baixo orçamento. Então, voltamos à estaca zero.

Enfim, chegamos no momento atual. Ser produzido por streamings é uma via na qual muitas figuras em declínio tem se redescoberto, onde muitos heróis de ação do passado podem ser melhor servidos, onde um público mais amplo os aguarda. E agora Van Damme vai aproveitar disso com O ÚLTIMO MERCENÁRIO. A julgar pelo trailer, tem o tipo de valor de produção que ele não obteria no padrão DTV atual. Filmado em sua língua nativa, o filme parece ter o equilíbrio certo entre ação, comédia, nostalgia e auto-referência. Exatamente o tipo de filme que Van Damme deveria ter feito depois de JCVD. Antes tarde do que nunca.

Mas O ÚLTIMO MERCENÁRIO vai ser o ressurgimento de Van Damme? Se a audiência comparecer e o filme for sucesso, talvez ele faça mais alguns filmes com a Netflix, talvez até com mais oportunidades de mostrar que se tornou o ator talentoso que é. Mas, querem saber? Acho que a essa altura da careira dele, pouco importa. Eu mesmo não me importo. Claro, seria bom vê-lo tendo destaque novamente em filmes de ação de grandes estúdios, mas a gente sabe que daqui a pouco ele volta a fazer pequenos filmes de ação. Ou talvez se arrisque em mais uma produção ousada com esperança de renascimento. Mas o resultado é sempre o mesmo: o que temos é uma das figuras mais interessantes da história do cinema de ação, com uma das filmografias mais malucas, cheias de altos e baixos e tentativas frustradas em busca de algo melhor. Mas que renderam por si só grandes obras.

O que importa mesmo é que O ULTIMO MERCENÁRIO vem aí e eu vou ser o “primeiro da fila” a conferir.