PATRULHA DA MADRUGADA (1930)

Se querem mais Hawks, teremos mais Hawks. PATRULHA DA MADRUGADA (The Dawn Patrol) foi o segundo filme sonoro do diretor (o primeiro, THE AIR CIRCUS, se perdeu). É também uma amostra fascinante do estágio de sua carreira em que não havia ainda chegado no ápice, tava aperfeiçoando seu estilo, mas já tava chegando bem perto disso. Os temas que seriam sua obsessão já começam a cristalizar melhor aqui e podemos ver em embrião as maneiras pelas quais ele abordaria esses temas repetidas vezes.

No final de 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, o 59º Esquadrão do Royal Flying Corps passa por maus bocados. Seu comandante, Major Brand (Neil Hamilton, o comissário Gordon da série do Batman dos anos 60), se vê tendo que enviar jovens pilotos inexperientes direto para o meio da batalha e, inevitavelmente, muitos não sobrevivem nem mesmo à primeira missão. O estresse piora para o sujeito, já que ele próprio, como comandante, não pode voar em missões de combate e o resultado é o sentimento de um carrasco enviando homens para seu destino final.

Major Brand entra em conflito sobretudo com seu subordinado Capitão Courtney (Richard Barthelmess). Supostamente tem havido rixa entre eles desde um incidente envolvendo uma mulher em Paris, mas como o gentil ajudante do esquadrão aponta para um dos pilotos, a realidade é que eles são amigos muito próximos. Eles simplesmente acham mais fácil lidar com uma situação difícil desabafando um com o outro. A guerra avança e Major Brand é promovido. O capitão Courtney, que sempre zombou dos oficiais de escritório que enviam homens para o combate, agora se vê desempenhando exatamente esse papel.

Uma interpretação simplista seria que o filme é um comentário sobre a futilidade da guerra, mas isso não seria característico de Hawks e, de qualquer forma, o próprio filme deixa bastante claro que essa não é a intenção. Na verdade, o filme enfatiza que o perigo e a morte são sempre os inimigos e estão enraizados na vida desses homens. O filme simpatiza com os alemães que são retratados como adversários honrados e heróicos e isso é mais uma indicação de que o inimigo não é o soldado do lado oposto. O inimigo é a própria morte. Em uma cena, um aviador alemão capturado é trazido à base. Logo lhe oferecem uma bebida e não demora para estar farreando alegremente com os aviadores britânicos. Ele não é um inimigo; ele é um homem que enfrenta os mesmos perigos que os pilotos britânicos enfrentam.

De certa forma há um equilíbrio entre o sentimento anti-guerra com uma aceitação existencial mais estóica do dever e amor pelo trabalho, pela missão, ação, destruição, mesmo quando não existe muita esperança, conscientes do sacrifício. Hawks sempre foi fascinado pelo comportamento de homens confrontados com o perigo iminente e a morte. Fascinado pela maneira como grupos de homens lidavam com a morte.

Além disso, PATRULHA DA MADRUGADA nos oferece o tipo de configuração que ele usaria repetidamente, como em sua obra-prima posterior, PARAÍSO INFERNAL (Only Angel Have Wings), na forma como os homens do 59º Esquadrão parecem estranhamente isolados. Nunca vemos os oficiais superiores que dão as ordens ao comandante do esquadrão, temos poucas cenas e eventos em outros locais, praticamente todo o filme se passa no escritório do comandante, na sala de recreação do esquadrão e no ar onde acontecem as violentas batalhas. Ao isolar esse grupo de homens do mundo exterior, Hawks é capaz de se concentrar nos próprios homens e na maneira de se relacionar uns com os outros.

E os homens do 59º Esquadrão aprenderam, no clássico estilo hawksiano, que a única forma de enfrentar a morte é rindo na cara dela.

As cenas de batalhas aéreas são um destaque à parte, tão boas que foram até reutilizadas no remake de 1938, com Errol Flynn e David Niven. A assinatura de Hawks também é aparente aqui. O que importa para o diretor não é a ação, mas a maneira como os homens reagem a ela e, em várias ocasiões, Hawks mostra as aeronaves decolando e corta imediatamente para o comandante do esquadrão esperando ansiosamente pelo som das aeronaves retornando. Não precisamos ver a luta; é o custo emocional que importa. No entanto, quando as cenas de luta aérea são mostradas, o resultado é um espetáculo de ação que impressionam até hoje.

Richard Barthelmess tem uma performance taciturna e discreta que captura perfeitamente o espírito do obstinado herói Hawksiano. Douglas Fairbanks Jr é um tanto expansivo, mas se dá bem. Agora, Neil Hamilton, esse é um caso perdido. Seu desempenho destoa completamente do restante com folgas, hum mau sentido, exagerado ao estilo do cinema mudo, que Hawks evitava.

O roteiro de PATRULHA DA MADRUGADA ganhou o Oscar, creditado a John Monk Saunders, que havia escrito outro clássico de guerra e aviação, ASAS (27), também conhecido como o primeiro filme a ganhar o Oscar de Melhor Filme. Mas dá pra perceber que Hawks teve peso sobre a história e dá até pra dizer o que realmente tem o dedo dele – sequências dos pilotos em bebedeira, a farra, a cantoria, a cena com o aviador alemão capturado… Coisas que se tornariam constantes no cinema de Hawks. E que vale a pena conhecer aqui em seu estágio inicial.

5 pensamentos sobre “PATRULHA DA MADRUGADA (1930)

  1. Pingback: MAIS HOWARD HAWKS | vício frenético

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  3. Preciso ver esse logo, só que é difícil achar uma cópia legendada, meu inglês é pior do que o do Joel Santana, sendo que o remake já tem em DVD, provavelmente devido ao elenco mais famoso. O Hawks e o Bogdanovich falaram bem demais e com entusiasmo desse filme naquela entrevista que tá no livro Afinal, Quem Faz os Filmes, que consideram o consolidador das bases Hawksianas. Agora com esse seu texto me empolguei ainda mais por querer vê-lo. Valeu!👍🏼

  4. Excelente texto ! Que venham mais filmes de Howard Hawks resenhados por voce .. cuidado para não para na metade como nas maratona anteriores ,hein!
    Um abraço de Anselmo Luiz.

    • Farei o possível hehe! Mesmo que acabe não virando post, vou tentar escrever sobre os principais filmes do homem. Abraço!

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