O CHEFÃO DE NOVA YORK (1973)

Revi O CHEFÃO DE NOVA YORK (Black Caesar), blaxploitation fundamental dirigido pelo grande Larry Cohen, para gravar mais um episódio supimpa do podcast Cine Poeira. Mas resolvi escrever algumas coisinhas também porque tava com saudade de postar algo sobre blaxploitation aqui no blog. E retomo ao tema em grande estilo porque é um dos meus filmes favoritos do subgênero. Tem uma boa história e direção cheia de energia de Cohen, uma trilha sonora fodida de James Brown (uma das raras que fez pra cinema) e atuação magistral de Fred Williamson, que interpreta um filho da puta cruel, uma espécie de atualização black motherfucker do anti-herói do cinema de gangster dos anos 30.

Obviamente que muitos relacionam O CHEFÃO DE NOVA YORK como o PODEROSO CHEFÃO do blaxploitation e até entendo a comparação. O filme do Coppola tinha ganhado a notoriedade que todos sabemos no ano anterior e qualquer filme de máfia que viesse em seguida ficaria à sua sombra. Mesmo um produto de baixo orçamento e mais apelativo como este aqui. O protagonista chega até a passar por um cinema onde o título do filme de Coppola pode ser lido na marquise. Mas tirando um detalhe ou outro, a influência maior de Cohen era realmente o cinema de gangster da Warner Bros. da década de 30. O próprio título original, BLACK CAESAR faz analogia a LITTLE CAESAR, de Mervyn LeRoy, estrelado pelo Edward G. Robinson, e baseado num dos grandes cássicos da literatura policial, escrito por William R. Burnett.

Então o que temos aqui é clássica trama de ascensão e queda. Seguimos Tommy Gibbs (Williamson), desde o tempo em que ele era engraxate no Harlem, executando tarefas para criminosos brancos em 1953 (que mais parece 1973, mas isso pouco importa), até atingir os degraus mais altos do mundo do crime em 1972. Cohen não se atenta aos detalhamentos dessa escalada de Tommy ao poder. Ele decide matar um sujeito que tava com a cabeça à prêmio, arranca a orelha da vítima e joga no prato de spaghetti do chefão local, pra ganhar respeito. E logo em seguida já estamos ouvindo a voz de James Brown entoando Paid The Cost To Be A Boss enquanto Fred Williamson imponente caminha pelas ruas do Harlen como o fodão dos fodões.

Cohen estrutura todo O CHEFÃO DE NOVA YORK com cenas chaves e elipses temporais sem qualquer concessão. Dias, meses e anos se passam num simples corte. E não demora muito já estamos ouvindo novamente James Brown com Ain’t It Cool to Be a Boss, enquanto Tommy assume o controle de todo o sindicato do crime, à base de balas e muito sangue derramado. Há uma sequência espetacular dos homens de Tommy invadindo um almoço italiano à beira da piscina com a nata da máfia, em LA, sendo sumariamente executada, com corpos ensanguentados boiando, e um plano detalhe genial de um frango assado sendo estourado à tiros. Desses momentos mágicos do cinema de exploração.

Como toda tragédia narrada sobre a conquista do poder, algo tem que dar merda. A arrogância de Tommy, sua ganância e sede de controle acaba por decretar sua queda. Perde a mulher, é corneado pelo amigo de infância – e parceiro de negócios – ele logo é percebido como um “negro branco”, seguindo os mesmos passos dos mafiosos italianos que estavam ali antes dele, sem ajudar os pobres e necessitados. Seus homens começam a ser abatidos, seu território fica ameaçado. A única coisa que o mantém são determinados cadernos de registros, uma folha de pagamento contendo nomes de altas figuras corruptas da política e polícia. O CHEFÃO DE NOVA YORK chama a atenção em manter as emoções em estado de ebulição. A dor do homem negro de não poder pertencer ao establishment sem se sentir um estranho. Mas as ideias peculiares de Cohen sobre justiça e moralidade são a de que criminosos são caras violentos, que destroem tudo ao seu redor, sejam lá de onde vieram, sejam negros ou brancos. Ainda assim, o filme atende aos medos e fantasias do público alvo e dá uma voz sobre a indignação dos negros e sua rixa contra a sociedade americana de uma forma bem convincente.

Rodado em apenas algumas semanas e com a câmera grosseira e marginal no estilo de guerrilha de Larry Cohen, o John Cassavates do cinema grindhouse, O CHEFÃO DE NOVA YORK tem vários momentos impressionantes. Dos encontros singelos do protagonista com seu pai, às cenas estilizadas com espaços com fundos negros para mascarar com maestria o baixo orçamento. Ou filmando nas ruas lotadas de Nova York sem autorização, com os transeuntes olhando pra câmera ou assistindo a performance genial de Fred Williamson. Sobretudo no terceiro ato, quando Tommy é gravemente ferido pelos pistoleiros de seu maior inimigo, o policial corrupto e racista McKinney (Art Lund), e anda vários quarteirões cambaleando com o bucho cheio de sangue.

O encontro final com McKinney é outro desses momentos impagáveis que prova a maestria dramatúrgica de Cohen. McKinney aponta uma arma para Tommy e não consegue resistir de provocá-lo exigindo um engraxate para rebaixá-lo ao máximo, para mostrar ao protagonista quem ele é, de onde veio, antes de matá-lo. Mas Tommy consegue se desvencilhar e esmurra McKinney repetidamente com a caixa de engraxate. O anti-herói negro esmagando a cabeça do vilão branco com uma caixa de engraxate não poderia ser simbolismo mais antológico para um clássico do blaxploitation.

Atordoado, Tommy retorna ao Harlem de sua infância, nos escombros dos prédios onde viveu, e acaba atacado num beco vazio por uma gangue de adolescentes que o espanca até a morte. Claro, com o sucesso do filme Cohen tratou de decidir que Tommy não morreu, e no mesmo ano lançaram a continuação, INFERNO NO HARLEN (Hell Up in Harlem).

No elenco, algumas figuras a se destacar. Gloria Hendry é um espetáculo, embora sua personagem, esposa de Tommy, careça de um desenvolvimento mais interessante. Ela só vai ganhar mais força lá pro final do filme. Art Lund é realmente ameaçador como McKinney. E a pequena participação de James Dixon, um habitual de Larry Cohen, é bacana como pistoleiro do policial corrupto.

Com bom ritmo, boa dose de ação, muito tiro e sangue, e um personagem principal realmente cool, O CHEFÃO DE NOVA YORK é um dos grandes da safra blaxploitation, ocupando um lugar próximo a clássicos como COFFY, SUPERFLY, SHAFT e outros exemplares que tornam o subgênero essencial aos interessados em exploitation. Quem se depara com esse petardo, nunca vai esquecer o poder, a força da natureza, o monumento que é Fred Williamson (curioso que o personagem foi pensado originalmente para Sammy Davis Jr…). Nem da genialidade de Larry Cohen como diretor, roteirista e produtor. E esse aqui tá longe de ser um de seus melhores trabalhos. De qualquer forma, altamente recomendado. Para quem está iniciando pelas plagas do blaxploitation, O CHEFÃO DE NOVA YORK é definitivamente um dos mais importantes a conferir.

E assim que o episódio do Cine Poeira estiver disponível, compartilho por aqui.

Um pensamento sobre “O CHEFÃO DE NOVA YORK (1973)

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