ANDREI RUBLEV (1966)

Segundo longa-metragem de Andrei Tarkovsky, depois de A INFÂNCIA DE IVAN (que aliás ainda não vi), mas já com um alcance épico impressionante, uma beleza onírica de encher os olhos. Tinha assistido a ANDREI RUBLEV há uns quinze anos num daqueles DVDs toscos lançados pela Continental, então imaginem o que foi a experiência de rever agora no blu-ray lançado recentemente pela CPC-UMES Filmes. Obrigado, CPC-UMES Filmes, tá uma coisa linda de se ver, três horas de pura contemplação. É só o que preciso de vez em quando…

Para quem não conhece ainda, a história de ANDREI RUBLEV foca em trechos da vida do pintor de ícones do século XV, o sujeito do título, Andrei Rublev (Anatoliy Solonitsyn, que voltaria a trabalhar com o Tarkovsky em SOLARIS, O ESPELHO, STALKER…), através de uma série de capítulos elípticos, que formam uma espécie de meditação sobre arte, religião, misticismo, poder e o que mais você sentir no caminho…

ANDREI RUBLEV começa com um prólogo enigmático que mostra um homem escalando uma torre de igreja e escapando do local em um balão de ar quente. À medida que a câmera adota seu ponto de vista, voamos com ele sobre a terra, cidades e rios antes que a coisa toda despenque. As imagens da região deserta e aquosa vista de um ponto de vista muito alto e o movimento virtuoso e fluido da câmera são guias perfeitos para o universo poético do filme que vamos assistir nas três horas seguintes.

O artista Andrei Rublev é desenhado como um homem atormentado por seu talento e pela forma como é usado pelos poderosos. Chamado para decorar uma igreja, ele não consegue iniciar os trabalhos porque se recusa a assustar as pessoas pintando o tema O Juízo Final, encomendado pelo Príncipe local. Em vez disso, decide representar A Festa, título de um capítulo anterior do filme, no qual Rublev se depara com foliões pagãos nus; Rublev sente repulsa e fascinação pelos rituais, cujos eventos e encontros (especialmente com uma pagã) desafiam repetidamente a concepção de fé do sujeito, e parece que, neste caso, ele aprende algo, decidindo que a arte religiosa deve ser uma celebração alegre e não uma ameaça de punição.

O filme acaba sendo uma jornada espiritual do personagem e há impulsos religiosos por toda parte, como na cena em que Rublev discute com Teófanes, o Grego (outro pintor do período e que foi mentor de Rublev), enquanto acontece uma representação da crucificação ambientada em uma Rússia coberta de neve. O tema da traição de Judas também percorre todo o filme. Fica muito evidente nessa discussão com Teófanes, mas principalmente no contraste de Rublev com um de seus companheiros monges, Kyrill (Ivan Lapikov), que embora sábio, tem ciúmes do talento de Rublev.

O tema da traição também aparece na rivalidade do Príncipe com seu irmão. Ao saber que os homens que trabalharam em seu palácio estão agora a caminho da casa de seu irmão para fazer uma decoração ainda mais bonita, o Príncipe os deixa ir apenas para serem emboscados traiçoeiramente numa floresta e terem seus olhos perfurados. A imagem dos homens sem com sangue escorrendo de suas órbitas, tateando pela floresta, é uma das mais memoráveis ​​do filme. Mais tarde, o irmão do príncipe se alia aos tártaros contra seu próprio povo no saque da cidade de Vladimir, numa sequência de ataque e terror medieval de tirar o fôlego.

E Rublev participa passivamente de todos os eventos, sem qualquer tipo de atitude; Não é um herói, não tem voz, é apenas um homem angustiado, às vezes indeciso, que, em grande parte do filme, nada faz a respeito da violência e das injustiças que testemunha. Isto é, até que ele reage para proteger uma garota com deficiência mental a quem ele se apegou durante o ataque infernal à Vladimir. Por ter matado um soldado inimigo, posteriormente Rublev expiará seu violento ato por meio de um voto de silêncio e uma recusa em pintar.

Só o espetáculo da extraordinária determinação de um garoto, filho de um falecido fabricante de sinos, o fará mudar de ideia. A luta épica do garoto para engendrar o sino, o içamento do enorme artefato até a torre e o primeiro som de seu toque são conduzidos de forma quase documental, um filme à parte, mas totalmente hipnotizante, realizado com a maestria descomunal de Tarkovsky.

Aqui vem a ideia do papel do artista e do propósito da arte: tendo visto a alegria que o sino do menino deu às pessoas, Rublev decide voltar a pintar.

Embora ANDREI RUBLEV seja sobre um pintor de ícones, quase nunca o vemos realmente pintando ou o seu trabalho. Até o final, quando Tarkovsky resolve mostrar uma série de imagens dos ícones reais de Andrei Rublev, com suas cores contrastando com o preto e branco enevoado do resto do filme (Tarkosvky usaria o contraste entre monocromático e colorido novamente em SOLARIS e STALKER).

ANDREI RUBLEV foi lançado em DVD e blu-ray pela CPC-UMES Filmes há poucos meses. Recomendo dar uma checada lá no site deles pra quem ainda mantém esse prazer de colecionar mídia física. A qualidade da imagem e som do filme tá impecável. Não deixe também de curtir a página da CPC-UMES FILMES no Facebook e instagram para ficar por dentro das novidades e os seus próximos lançamentos em DVD e Blu-Ray.

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