NA SOLIDÃO DO DESEJO (1968)

John Flynn é desses diretores subestimados que de vez em quando se faz necessário lembrar a existência, até porque foi dos maiores diretores americanos, especialmente no cinema de gênero, e embora tenha havido um esforço ao longo dos últimos quinze anos de um revisionismo da sua obra, infelizmente nunca terá o mesmo prestígio que um, digamos, Sam Peckinpah, apesar de estarem praticamente no mesmo nível.

Flynn morreu em 2007, mas deixou uma filmografia cheia de obras fascinantes como A QUADRILHA (The Outfit, 73), com Robert Duvall, inspirado na mesma fonte que gerou À QUEIMA ROUPA (66), de John Booman, e O TROCO (99), com o Mel Gibson; a obra-prima A OUTRA FACE DA VIOLÊNCIA (Rolling Thunder, 77), drama psicológico e criminal, desconcertante, com dois atores magníficos: William Devane e Tommy Lee Jones; e A MARCA DA CORRUPÇÃO (Best Seller, 87) uma pequena e inesperada joia do cinema policial de ação oitentista com outra dupla espetacular: James Woods e Brian Dennehy. Sem contar CONDENAÇÃO BRUTAL, com Sylvester Stallone, FÚRIA MORTAL, disparado o melhor filme de Steven Seagal, entre outras coisas…

E temos esta belezinha aqui, NA SOLIDÃO DO DESEJO (The Sergeant), seu primeiro trabalho, que revi esta semana, um drama austero, barra-pesada e doloroso sobre um oficial do exército, gay reprimido, com um Rod Steiger em plena forma.

Até aquele momento, no entanto, Flynn havia sido assistente do diretor Robert Wise, mas seu talento em filmar ação de alta qualidade, que é algo realmente fantástico na sua obra, deve ter surgido atuando como assistente de John Sturges no clássico FUGINDO DO INFERNO. Quando Wise montou uma pequena produtora para realizar filmes de baixo orçamento e que daria a oportunidade para que outros pudessem dirigir, Flynn foi convidado a tomar à frente no primeiro projeto, a adaptação de um romance de Dennis Murphy chamado The Sergeant (cujo roteiro foi escrito pelo próprio Murphy). Portanto, os filmes de ação teriam que esperar e calhou do primeiro filme do homem ser esse dramalhão.

Conhecemos então o personagem de Steiger em NA SOLIDÃO DO DESEJO, o sargento Callan, um veterano de guerra um bocado arrogante, mas dedicado e condecorado, que assume um posto numa base americana de fornecimento de combustível na França em 1952. No local, o sujeito se depara com a falta de disciplina dos homens sob às ordens do capitão Loring (Frank Latimore), que tem uma queda por uma bebidinha, e percebe a barca furada que se meteu. Callan faz o tipo sargento linha-dura e resolve transformar a base num modelo de eficiência e disciplina – embora a tropa preguiçosa se ressinta do sujeito por seus esforços.

Mas é na figura de um dos seus comandados, o jovem e bonito soldado Tom Swanson (John Phillip Law), que Callan vê um alento e, aos poucos, sua aproximação e atração física pelo rapaz abala-lhe as estruturas, desperta-lhe a possibilidade de algo aprazível e afável, mas intocável, e por isso confuso e melancólico, até chegar num ponto que o torna incapaz de resistir ao desejo. O que acaba por ser sua ruína. O filme, que abre mostrando Callan enfrentando com firmeza e heroísmo os maus bocados de uma guerra, agora revela o que ele não conseguiria encarar: um amor não retribuído.

Apesar do talento de Flynn na condução das coisas por aqui – e o sujeito REALMENTE demonstra habilidade, numa mise en scène magistral, na forma como filma cada plano e o mais importante, como filma as trocas de olhares, acho que poucos diretores filmam os olhos tão bem quanto Flynn – talvez seja mesmo Rod Steiger o grande responsável pela força que emana de NA SOLIDÃO DO DESEJO. O filme foi laçado um ano depois de NO CALOR DA NOITE, de Norman Jewison, no qual Steiger tinha recebido o Oscar de melhor ator, mas é curioso perceber que ele consegue aqui uma performance ainda mais absurda, poderosa e corajosa. O sujeito está simplesmente arrebatador.

É quase um trabalho co-autoral de Steiger na parada, já que tudo no filme nasce dele: seu corpo, sua voz, seus gestos… Seu olhar. Quando perguntado numa entrevista como havia convencido Steiger em trabalhar num filme desses, vivendo um personagem homossexual, Flynn diz que foi o próprio ator que procurou fazer o papel. Já John Phillip Law parece se sair melhor em obras menos sérias e mais físicas, como DANGER: DIABOLIK, de Mario Bava, e A MORTE ANDA À CAVALO, de Giulio Petroni, mas não tenho do que reclamar dele por aqui, tem uma atuação bem digna. Da mesma forma o seu par romântico na trama – e que se torna uma das pedras no sapato de Callan – a bela francesa Ludmila Mikael. Todo o elenco de apoio é muito bom, mas o problema de falar de elenco nesse filme é que TODOS são ofuscados pelo desempenho de Steiger. Aí fica difícil…

Mas enfim, NA SOLIDÃO DO DESEJO é uma das maiores histórias de amor não correspondido do cinema, um filme amargo, mas também tão intenso e devastador e um grande filme de estreia para um diretor tão talentoso como John Flynn. E de certa forma vai de encontro à essência do cinema que o sujeito desenvolveu a partir dalí. Uma obra com temas delicados filmada por um dos mais casca-grossas dentre os diretores enxergados na tradição fiel do “cinema físico” de Hawks, Fuller, Ray, Botticher, Ulmer, e talvez o mais fundamental de todos, Don Siegel, mas que revela também um olhar sensível, na qual a poesia que versa sobre a solidão, que Flynn viria a abordar depois em outros filmes, já era um conceito que estava intrinsecamente ligado à raiz romântica da sua maneira de filmar.

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