DESEJO DE MATAR (1974)

É preciso ter um certo cuidado ao falar de DESEJO DE MATAR hoje em dia. A clássica história do sujeito que perde a família num violento ataque criminoso e resolve agir por conta própria, com uma arma em punho, exterminando meliantes na calada da noite, pode gerar ideias imbecis na cabeça dos proto fascistas que se transvestem de bons cidadãos. Baseado num livro de Brian Garfield, o que temos aqui é um dos conceitos mais controversos colocados em película na década de 1970, lançou o subgênero “Vigilant Movie” e capturou uma certa psique coletiva a procura de respostas fáceis para escapar do trauma infligido pelo crime desenfreado do período.

E como esse problema social perdura até hoje, ao longo dos anos vários exemplares, rip-offs, spin-offs e inspirações de DESEJO DE MATAR foram surgindo até esgotar suas possibilidades. Tivemos até recentemente um remake oficial, dirigido por Eli Roth (O ALBERGUE) e estrelado por Bruce Willis, que quase ninguém gostou, embora eu ache um filme bem ok. No entanto, é sempre bom revisitar a fonte: esta obra-prima casca-grossa e classuda de Michael Winner que transformou Charles Bronson num ícone e gerou nada menos que quatro sequências.

Bronson, aos 53 anos à época, imortalizou a figura de Paul Kersey, o símbolo máximo do cidadão comum que resolve fazer justiça com as próprias mãos, realizando aqui um de seus trabalhos mais fortes, com seu rosto de pedra impassivo, mas que esconde um indivíduo que chegou no limite entre o seu tormento pessoal, que o despe dos códigos de ética, e a psicopatia que faz agir com violência pra cima de criminosos. Kersey é um arquiteto que trabalha para uma grande empresa em Nova York e numa tarde qualquer, sua esposa e filha são atacadas por uma gangue (que tem como um dos membros um jovem Jeff Goldblum). Sua esposa, Joanna (Hope Lange), é morta e sua filha, Carol, é brutalmente estuprada e nunca se recupera psicologicamente do ataque.

A empresa de Kersey decide que seria uma boa ideia se ele saísse de Nova York por um tempo, e acaba enviado à Tucson para verificar um projeto que estão pensando em financiar. No local, Kersey conhece Ames Jainchill (Stuart Margolin), um empreendedor imobiliário excêntrico, e surge uma amizade entre eles enquanto elaboram os detalhes do desenvolvimento proposto. Ames é um entusiasta de armas e convida o protagonista para o clube de tiro local. Kersey confessa que serviu o país na Guerra da Coréia, reforçando seu surpreendente talento com uma pistola. Quando é hora de voltar a Nova York, Ames dá a Kersey um presente de despedida – um revólver calibre .32 com cabo de pérola.

Ainda traumatizado e um pouco nervoso em andar pelas ruas de Nova York, Kersey carrega o revólver consigo. E quando é confrontado por um assaltante armado, ele acaba usando o berro em sua em defesa. E a beleza de DESEJO DE MATAR é que nunca há um alvo específico na mira de Kersey, já que não demora muito para ficar óbvio que existe pouca chance dos criminosos que trouxeram desgraça a Kersey serem levados à justiça. Há até uma certa ambiguidade que não deixa claro, a princípio, se Kersey simplesmente decidiu dar suas voltas noturnas com um trabuco no bolso ou se ele realmente estava esperando encontrar assaltantes para mandar para a vala. Este ponto é deixado deliberadamente vago, presume-se que o próprio Kersey não poderia responder caso fosse perguntado…

Há uma cena mais cedo, antes de ir à Tucson, em que Kersey é abordado por um assaltante, e sua reação, meio que no desespero, é acertar uma meia cheia de moedas na cara do sujeito, que foge correndo. Mas nada que indicasse que se tornaria um vigilante psicopata. No entanto, depois de matar o primeiro meliante, Paul Kersey dá início a uma temporada de caça à bandidagem de um modo geral. Ele nunca vai atrás de vingança contra os assassinos da sua mulher. Sua vingança é mais ideológica.

Quando Kersey começa a reduzir a população de meliantes, a polícia (representada na figura de Vincent Gardenia) e a prefeitura estão em uma espécie de dilema. Eles não querem um vigilante vagando pelas ruas, mas também não querem prender alguém que está contribuindo com a diminuição da criminalidade – e sabem que o misterioso vigilante está se tornando um herói popular e, se preso fosse, se tornaria um mártir. Mas ao julgar DESEJO DE MATAR é importante colocá-lo em seu contexto histórico. O filme é um produto de sua época. Em 1974, o crime nos EUA realmente parecia estar fora de controle e as pessoas comuns tinham sérias dúvidas quanto à capacidade e disposição da polícia e dos tribunais para protegê-los de crimes violentos. Essa situação havia surgido em um período relativamente curto, não muito mais que uma década, e parecia estar se acelerando. Nova York, em 1974, era um lugar muito mais violento do que é hoje.

O filme tenta ser fiel a essa realidade. Logo no início, após chegar de suas férias numa praia paradisíaca, um colega de Kersey o atualiza dos números absurdos da criminalidade em NY no período em que esteve fora. E é de assustar até quem mora no Rio de Janeiro hoje em dia… Em outro momento, no hospital em que sua mulher e filha foram atendidas, Kersey observa um sujeito com a cabeça toda ensaguentada e comenta que ninguém vai atendê-lo…

Neste quadro específico, o filme acaba sendo de alguma maneira simpático às atividades de vigilante de Kersey, o coloca como uma espécie de “herói”, mais como uma personificação da análise social, aberto às reflexões de todo um contexto, e menos um action hero justiceiro que muitos pintam por aí.  Portanto, a coisa não é tão simplista como algumas das análises mais histéricas que surgiram na época.

Previsivelmente, grande parte da crítica odiou o filme aos gritos de reacionário e de incentivar a violência. Já o público amou, mesmo não captando a profundidade da sua análise, até porque como filme de crime, DESEJO DE MATAR é uma obra impecável. Foi um grande sucesso de bilheteria, enfurecendo ainda mais os indivíduos que só enxergam as coisas de modo literal e após o seu lançamento era até difícil encontrar um crítico dizendo uma única palavra positiva sobre o diretor Michael Winner.

Na verdade, Winner sempre fora muito bom em dirigir filmes de ação com uma dose a mais de brutalidade. Só com o Bronson chegou a realizar seis filmes em parceria e a maioria retratando o que há de mais violento no ser humano.

A sequência em que a gangue invade o apartamento de Kersey, por exemplo, é brutal, uma aula de subversão, de como criar imagens chocantes, um trabalho incrível que contrasta um primor de encenação com selvageria desenfreada. Até acho que é perfeitamente legítimo não gostar de filmes violentos, cada um tem sua sensibilidade, mas é preciso admitir que Winner é um baita diretor neste quesito, sabe construir tensão e filmar sequências que exigem estômago do espectador com muita classe, e DESEJO DE MATAR é um de seus melhores trabalhos nesse sentido.

Uma pena, portanto, que seu talento tenha sido apagado pelo teor reacionário que os críticos vêem na obra. Tá certo que Kersey mata seus adversários sem qualquer remorso, estando eles armados ou não, pela frente, pelas costas, etc… Na segunda noite em “ação”, por exemplo, Kersey adentra um beco em que um velhote está sendo espancado por três mal encarados. Eles avistam Kersey, começam a rodeá-lo, nenhum deles com arma de fogo, mas Kersey não quer nem saber, começa a disparar contra os meliantes sem pensar duas vezes, inclusive pelas costas, quando um tenta escapar e já não apresenta perigo algum. Mas faz parte do reflexo lógico de análise de Winner, de desafiar o espectador, é algo que com um olhar mais cuidadoso revelaria um filme bem mais complexo.

Quanto a Bronson, DESEJO DE MATAR certamente o estereotipou, mas trouxe-lhe o estrelato nos EUA após uma longa espera (ele já tinha um público entusiasmado na Europa). Como é habitual, Bronson tem poucas falas por aqui, o que faz parte da persona do ator, mas funciona bem em seu personagem. Se Paul Kersey fosse um homem que pudesse articular seus sentimentos verbalmente com facilidade, ele provavelmente não teria se tornado um vigilante. Embora seja bom salientar que ser uma pessoa articulada não ajuda muito quando você é confrontado por um bandido empunhando uma faca na sua direção…

DESEJO DE MATAR não é bem um filme de ação no sentido “empolgante” do gênero. As cenas de assassinato são rápidas, simples e cruas, sem nada de espetacular. Mas servem ao propósito de provocar. Uma das sequências mais marcantes, para citar mais um exemplo, é a do vagão de metrô, em que Kersey engana o meliante atirando por trás do jornal. Em seguida, atira em outro bandido e logo depois atira de novo, com os malandros já estendidos no chão, para garantir que ambos não voltem a respirar. Tudo isso para enfatizar a psicopatia do “herói”. São várias sequências assim, que fazem a rotina noturna de vigilantismo de Kersey e constrói um dos personagens mais fascinantes do cinema de gênero dos anos setenta.

Por trás de um crime movie classudo, com excelente performance de Bronson, bela trilha sonora de Herbie Hancock, DESEJO DE MATAR é um filme perturbador e confrontante. Te coloca numa posição incômoda como espectador e aborda o assunto da violência de uma maneira muito direta. E por mais que possua esse revestimento de filme de gênero, é sempre bom lembrar aos desatentos a densidade da coisa, que se trata de uma obra de ficção e os atos de seu protagonista não são um discurso fechado à favor da “justiça com as próprias mãos“. O filme é uma hipótese, levanta questões, é uma reflexão dramática de um tema cabeludo.

Seria uma estupidez achar que se trata de uma bandeira levantada convocando a população a pegar em armas para se defender. Obviamente não compactuo com a ideia de “bandido bom é bandido morto“. Não é porque sou fãs de DESEJO DE MATAR e filmes de ação da era Reagan que quero que existam policiais como Cobra e Dirty Harry ou vigilantes como Paul Kersey na vida real. Deixemos essas figuras atuarem apenas na ficção…

Texto originalmente escrito para o Action News em Agosto de 2018.

6 pensamentos sobre “DESEJO DE MATAR (1974)

  1. Pingback: OPERAÇÃO FRANÇA (1971) | vício frenético

  2. Aqueles que gostam de data de filmes da TV de suas primeiras exibições ,vou colocar as datas ,sessão de filmes e emissoras que passou o filme da serie “DESEJO DE MATAR ”

    Filme Data Sessão de Filme Emissora de TV

    — DESEJO DE MATAR —- 12/05/1984 — Semana de Ouro ———– REDE MANCHETE .
    –DESEJO DE MATAR 2 —- 07/09/1986 —- Semana da Primavera —— REDE GLOBO .
    –DESEJO DE MATAR 3 —– 19/07/1989 — Primeira Exibição ——— REDE GLOBO .
    –DESEJO DE MATAR 4 —- 13/04/1992 —- Tela Quente —————– REDE GLOBO.
    — DESEJO DE MATAR 5 —– 08/05/1995 ——- Tela Quente —————– REDE GLOBO.

  3. Não sei você Perrone, mas lá pelo final dos anos 80 e meados dos 90, quando os filmes da série era reprisados constatemente na TV aberta, principalmente o 2, 3 (com certeza o campeão das reprises) e 4, o último que assisti foi este primeiro, achava até estranho que as suas continuações fossem tão reexibidas, principalmente, no Domingo Maior, e nada de reprisarem o que deu origem a tudo. Quando finalmente num domingo anunciaram o filme e compreendi o motivo quando assisti, este primeiro DESEJO DE MATAR está para o restante da série assim como RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR está para sua, ou seja, são na verdade DRAMAS críticos com elementos de ação que suas sequências somente reaproveitaram o que mais era exploratório e apelativo dessas primeiras obras, descartando ou dissolvendo o caráter crítico. Por isso que ao assistir pela primeira vez esse filme me peguei surpreso pelo ritmo lento e psicologicamente construtivo da trama e até realista, pois o Kersey nunca mais encontra os marginais que prejudicaram sua família e nunca fica inventando artimanhas e disfarces mirabolantes para pegar os meliantes, para ele, em seu psicológico traumatizado, o importante é matar marginais. Os demais filmes da série são puros exploitations, que eram a “cara” da CANNON e que também não os tornam depreciados.

    Ah, ótimo texto sobre OS PROFISSIONAIS, inclusive pela curiosidade, que eu não sabia, que uma continuação era planejada, só que não se faz uma análise desse faroestaço sem ao menos citar a maravilhosa tenente Chiquita (Marie Gomez), a “que nunca diz não”.😁
    Também é impressionante, de tão atualíssimo, principalmente nestes tempos de “cidadãos de bem”, a definição do Lee Marvin do que é realmente um filho-da-puta.

    • Verdade, haha! falha minha não citar a Tenente Chiquita, cuja atriz chegou até a receber ou ser indicada a prêmios relvantes por este papel…hehe

      Agora, sobre os DESEJO DE MATAR, é isso mesmo. Por mais que eu adore as continuações (especialmente o 2 e o 3, porque o 4 e 5 eu já não guardo muita lembrança), são bem mais vazios em termos de senso crítico. Valeu!

  4. A Violência imposta no mundo de hoje da um vontade de comprar uma arma e sair atirando em todo mundo que é mal educado ,chato ,egoista e idiota que trafegam as ruas por aí .. eu já estou cheio de lugar que moro ,pois é um buraco horrível da periferia de São Paulo ,nem gosto de falar o bairro em que moro ,detesto esse lugar, por mim ,todo o bandido ,marginal ,estuprador e dentre outros elementos criminosos deveriam morrer na cadeira elétrica .
    Tem muitas pessoas que não assistem os filmes de Charles Bronson ,por causa daquela entrevista que Amaury Jr. entrevistou-o e perguntado se ele tem alguma mensagem para o povo do Brasil e ele respondeu Brasil ,o que é isso ? .. ele não estava errado em não saber o que era o Brasil,pois os brasileiros tambem não sabem nada desse pais de quinta categoria.
    Eu continuo sendo fã de seus filmes mesmo apos á sua morte e nem me importo se ele (Bronson) sabia ou não onde fica esse pais , o importante foi o legado que deixou para nós amantes de filmes de ação e dentre outros filmes que fez em vida.
    Otima postagem desse clássico filme de ação policial .
    Abraço de Anselmo Luiz.

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