SANDOKAN, O GRANDE (1963)

Coprodução italiana/francesa/espanhola, dirigida por Umberto Lenzi, SANDOKAN, O GRANDE (Sandokan, la tigre di Mompracem) foi baseada no primeiro dos romances do famoso personagem da literatura italiana, Sandokan, Os Tigres de Mompracem, do escritor italiano do século XIX Emilio Salgari. Na literatura, Sandokan é um pirata heróico que combate o tirânico Império Britânico e a Companhia das Índias nos mares do Sul asiático. Suas aventuras são contadas numa série de onze histórias, tendo aparecido pela primeira vez em 1883.

Nesta versão cinematográfica, Steve Reeves é quem dá vida ao corajoso e ousado pirata malaio Sandokan. E para quem conhece o sujeito, famoso por interpretar os fortões heróis do cinema de “sandália e espada” italiano, gênero conhecido por lá como PEPLUM, pode até estranhar vê-lo como como um pirata do século XIX em SANDOKAN, O GRANDE… Mas até que a coisa não muda tanto de figura não. Muda-se cenários e vestimentas, mas o senso de aventura dessas produções italianas permanecem.

Aparentemente o enredo do filme é apenas vagamente baseado no romance, mas captura o espírito de maneira bastante eficaz. Na trama, o pai de Sandokan é o rajá de um pequeno principado em Bornéu, que acabou deposto pelos britânicos e capturado. Agora pretendem executá-lo. Sandokan, que começa o filme já com certa notoriedade pelos seus feitos como líder de um grupo pirata, não tem intenção de permitir que isso aconteça, e resolve intervir tocando o terror pra cima do poderoso Império Britânico.

O primeiro passo de Sandokan e sua turma é um ataque à casa fortificada do comandante britânico Lord Guillonk (Leo Anchóriz), e no meio da confusão acaba sequestrando Mary Ann (Geneviève Grad), sobrinha de Guillonk. Ela obviamente fica indignada com a ideia de ser sequestrada por piratas, mas por outro lado aprendemos em SANDOKAN, O GRANDE que se você é uma jovem moça e acaba sequestrada pelo Steve Reeves fantasiado de pirata, arrojado, bonitão e másculo, talvez não seja tão ruim quanto parece…

Especialmente quando o sujeito salva-lhe a vida encarando um tigre no meio do mato…

Em determinado momento, o braço direito de Sandokan, o aventureiro português Yanez (Andrea Bosic), também ajuda a colocar na cabeça da moça algum exclarecimento sobre a autoritária política colonial britânica, e como os seus compatriotas – homens do seu tio inclusive – mataram membros da família de Sandokan. Ela começa a entender porque Sandokan não é lá grande fã dos britânicos. Yanez também aponta que os seguidores de Sandokan foram forçados a se tornarem piratas por conta das potências coloniais européias e o seu modo de agir na região.

A aventura progride, agora com Sandokan sendo caçado pelos homens de Lord Guillonk e se vê tendo que atravessar a ilha onde a trama transcorre, enfrentando os mais diversos e perigosos cenários para não ser pego. Isso significa enfrentar pântanos e selvas inexploradas, um feito bastante desafiador, mas ainda mais difícil com Mary Ann de reboque e com alguns companheiros feridos e, pior, tendo um traidor no grupo que ninguém sabe ainda quem é…

Aparentemente, o Sandokan da literatura é um líder inspirador e carismático, mas também impulsivo e inclinado a erros de julgamento. Um pouco diferente da sua versão para cinema. Steve Reeves decidiu, em vez disso, buscar dignidade e autoridade silenciosa. O que acaba sendo uma abordagem válida, tendo em vista que o ator não tinha lá muita desenvoltura para se expressar verbalmente diante das câmeras. O desempenho físico do sujeito foi mais que adequado.

Claro, há algum excesso de confiança de Sandokan que soa exagerado – seu plano de atravessar a ilha sobre pântanos intransitáveis ​​e entrando em terrítórios de tribos caçadores de cabeças não era lá uma ótima idéia, por exemplo. Mas os homens de Sandokan têm absoluta confiança nele, apesar disso não significar necessariamente que o sujeito saiba o que está fazendo. Mas aí é que entra umas das coisas mais legais em SANDOKAN, O GRANDE, que é como o protagonista é sortudo pra cacete. Não há nada racional ou calculista nele, é um homem que está sempre preparado para colocar sua fé no destino (ser salvo por um chimpanzé, por exemplo). Se Deus quiser, ele sobreviverá e continuará lutando. Seu fatalismo faz dele um herói fascinante.

Embora seja um filme de piratas, não há cenas de batalhas no mar. Provável que o orçamento não tenha sido suficiente para contemplar algo tão ambicioso. Mas quando se tem um diretor como Umberto Lenzi sabemos que estamos em boas mãos. Claro, é evidente que Lenzi ainda estava em início de carreira aqui, mas já tinha no currículo sete filmes, todos aventuras do gênero Peplum, então já tinha experiência de sobra pra comandar uma produção como esta.

Mesmo que o ritmo de SANDOKAN, O GRANDE tenha uma caída no meio, e comece a se arrastar um pouco, não demora muito pras coisas esquentarem. E quando a ação começa a aumentar no final, vale a pena a espera. A batalha final, por exemplo, é um bom espetáculo de ação. E Lenzi faz um trabalho sólido, nada muito inspirado, mas bem seguro na maior parte do tempo. A localização das filmagens no Sri Lanka também ajuda. São visualmente impressionantes e Lenzi sabe como aproveitar e dar uma sensação de autenticidade exótica.

Há sempre o perigo desse tipo de filme abusar da mensagem anticolonialista (que existe no romance de Salgari) e sucumbir à pregação excessiva. É algo que pode estragar um pouco a diversão, concordando ou não com a mensagem. Mas não acho que seja um problema em SANDOKAN, O GRANDE, até porque os britânicos são retratados como vilões quase cartunescos e maniqueístas.

No geral, SANDOKAN, O GRANDE é um filme de aventura agradável, sem grandes pretensões, e que tem algumas coisas divertidas a seu favor, como o cenário incomum e o seu herói exótico, Sandokan. São exemplos que, juntamente com a sequência final de batalha e outros momentos de ação, são suficientes para compensar alguns pequenos problemas de ritmo e coerência.

Steve Reeves retornaria ao papel de Sandokan no ano seguinte, em I PIRATI DELLA MALESIA, novamente dirido por Umberto Lenzi. Mas ao longo do tempo, o personagem ganhou novos filmes e novos intérpretes. É um universo vasto o de Sandokan, que eu ainda preciso explorar…

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CINE POEIRA – EPISÓDIO 08

CLÁSSICO dos bons e velhos tempos do VHS, PASSAGEIRO 57 (1992), de Kevin Hooks, continua divertidíssimo.

No programa desta semana, o trio de comentaristas fala sobre esse grande exemplar do cinema de ação noventista que transformou Wesley Snipes em um astro do gênero.

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OPERAÇÃO FRANÇA II (1975)

Recentemente revi e postei sobre OPERAÇÃO FRANÇA (1971), de William Friedkin, e aproveitei pra revisitar também a sua continuação, dirigida por John Frankenheimer, lançada quatro anos depois. Do primeiro, como disse naquele post, ressalto se tratar de uma obra-prima. OPERAÇÃO FRANÇA II (The French Connection II), apesar de muito criticado quando do seu lançamento e até hoje não ter a mesma notoriedade, também é muito bom, com aquela atmosfera sensacional do cinema policial setentista e que tem muito da essência do próprio Frankenheimer na condução, cujo estilo é bem diferente do de Friedkin, mas do qual sou grande admirador.

O preconceito com OPERAÇÃO FRANÇA II talvez tenha a ver com a questão inevitável de que o filme “não precisava existir“, para início de conversa. A conclusão totalmente aberta do anterior é uma das coisa que mais me fascina. E provavelmente “continuar” essa história é preencher uma lacuna que às vezes nem precisava ser preenchida. Mas, bom, sou da opinião de que, se estão mesmo dispostos a filmar alguma coisa, que façam algo decente, da melhor maneira possível… Mesmo que esse algo seja desnecessário.

E é exatamente o que Frankenheimer faz aqui. Então valeu a pena rever OPERAÇÃO FRANÇA II, redescobrir seus encantos e relembrar aqui no blog sua existência, porque pode haver pessoas por aí que nem sabem que existe essa sequência do clássico de Friedkin. E podem até se surpreender com o quão genuinamente eficaz é este trabalho do mestre Frankenheimer.

A trama se passa algum tempo depois dos eventos de OPERAÇÃO FRANÇA, Popeye Doyle, novamente interpretado por Gene Hackman, chega à Marselha tentando rastrear o traficante de drogas Charnier (Fernando Rey), que escapuliu das mãos do detetive no final do primeiro filme. O que Doyle não sabe é que a polícia de Nova York e de Marselha estão atuando juntas, usando-o como isca, na tentativa de trazer Charnier à público para capturá-lo. O policial local Barthélémy (Bernard Fresson) tenta manter Doyle constantemente sob vigilância, mas a coisa não corre como planejado quando Charnier, consciente de que seu inimigo está no local, consegue sequestrá-lo.

Quando Doyle se recusa a responder qualquer uma de suas perguntas, Charnier inicia um processo para viciá-lo em heroína. O detetive estrangeiro é mantido em cativeiro enquanto a droga é injetada nas suas veias repetidamente por um looooongo período… Quando Charnier finalmente percebe que Doyle não tem utilidade alguma, ele é jogado na frente da delegacia onde, já completamente viciado, passa agora por um outro loooongo processo, uma agonizante desintoxicação…

Uma das coisas que mais gosto em OPERAÇÃO FRANÇA II é como o filme faz pouca tentativa de superar, ou até mesmo imitar, o filme original. É quase como se estivéssemos diante de um filme policial setentista completamente independente, com um cenário totalmente oposto à Nova York do filme de 71, e que, por acaso, Hackman interpreta um personagem que já havia feito antes… O filme ensaia até mesmo um estudo sobre o choque existente entre duas culturas que é bem interessante. O fato de não oferecer, por exemplo, sua própria perseguição de carros (na verdade o filme tem pouquíssimas sequências de ação) não é apenas corajoso, mas demonstra o domínio narrativo de Frankenheimer em segurar a tensão antes que ela se dissipe, especialmente no miolo do filme, no longo trecho que consiste no vício forçado de Doyle e a sua desintoxicação subsequente.

E meio aí que mora o perigo de OPERAÇÃO FRANÇA II. Esse miolo talvez seja o momento mais frágil do filme. Porque se por um lado funciona como um angustiante ato cênico conduzido com maestria pelo diretor e com um desempenho fantástico de Hackman, por outro a coisa realmente demora MUITO a se definir. Fica no limite entre um processo de tensão extremamente bem realizado e uma situação verdadeiramente chata e enfadonha.

Pessoalmente, curto bastante esse miolo, mesmo reconhecendo que passe um pouco do ponto… Mas o mais importante é que essas cenas funcionam como palco para uma performance espetacular de Hackman, algo que nem no primeiro filme – no qual ele havia recebido o Oscar de melhor ator – o sujeito teve oportunidades para explorar.

Passado o tal miolo, o filme retoma às investigações de Doyle pelas ruas de Marselha, mas agora com um tempero de vingança a mais para dar uma apimentada no sabor. E a coisa segue num ritmo mais frenético até o fim – o que significa que temos até umas sequências de ação, como Doyle retornando ao seu cativeiro e tocando o terror no local. Ou o tiroteio num porto que é um espetáculo. E que Frankenheimer era fera em realizar.

É preciso destacar também o gran finale que, pra mim, já se tornou clássico em OPERAÇÃO FRANÇA II. Popeye Doyle numa perseguição à pé seguindo Charnier pelas ruas de Marselha é uma das coisas mais memoráveis ​​do filme. O sujeito com dor, exausto, retirando forças sabe-se lá de onde para continuar se movendo, provavelmente sua própria obsessão e determinação em terminar as coisas de uma vez por todas, numa das atuações mais físicas de Hackman. Será que dessa vez ele consegue pegar Charnier? O filme segura até os últimos instantes para dar a resposta…

No elenco, não preciso falar mais nada de Hackman, né? O sujeito arregaça como sempre. Talvez uma grande desvantagem de OPERAÇÃO FRANÇA II seja a falta de Roy Scheider, que não retorna em seu papel como Buddy Russo, perceiro de Doyle no filme anterior (preferiu rabalhar em TUBARÃO talvez?). Mas considerando a premissa, acho que faz mais sentido ter Doyle sozinho nessa aventura.

Fernando Rey oferece sua elegância habitual de maneira excelente como Charnier – a cena no restaurante quando ele percebe a presença de Doyle na cidade demonstra um bocado do seu talento. Bernard Fresson também está muito bem, principalmente nas cenas em que contracena com Hackman no processo de desintoxicação de Doyle. Duelo de atuação de gente grande. E temos uma pequena participação de Ed Lauter.

OPERAÇÃO FRANÇA II pode ter suas falhas e não ser do mesmo nível do filme de Friedkin, mas ainda assim é um baita filme policial com Frankenheimer usando sua câmera para explorar Marselha num registro quase documental, contar uma história tensa e entregar algumas excelentes cenas de ação. Além de servir de vitrine para o belíssimo desempenho de Hackman encarnando Popeye Doyle pela última vez.

O personagem quase retornou no início dos anos 80 com um terceiro filme, no qual Doyle enfrentaria um terrorista europeu em Nova York. Hackman acabou pulando fora, mas o projeto continuou em frente e se transformou em outra coisa: FALCÕES DA NOITE, com Sylvester Stallone.

Popeye Doyle só voltou a ser visto em 1986, num filme produzido para a TV chamado POPEYE DOYLE, mas desta vez sendo interpretado pelo grande Ed O’Neill (o Al Bundy de UM AMOR DE FAMÍLIA). Na verdade, era um piloto para uma série de TV que acabou não acontecendo. Cheguei a ver esse filme passando na televisão em algum momento da vida, mas não lembro de nada. Não deve ser grandes coisas, mas só revendo mesmo pra descobrir…

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CPC-UMES FILMES – LANÇAMENTO DE AGOSTO

O lançamento de agosto/2020 da CPC-UMES FILMES é o drama ESTAÇÃO BIELORRÚSSIA, de 1971, dirigido por Andrei Smirnov. Em DVD.  

SINOPSE: Os heróis do filme se separam na Estação Bielorrússia no verão de 1945, quando lá chegou o primeiro trem para os soldados voltarem aos seus lares depois da vitória na 2ª Guerra Mundial. No final dos anos 60, depois de 25 anos sem se verem, os veteranos da guerra contra o fascismo se encontram no funeral de um ex-camarada de armas que permanecera no exército.

Muitas mudanças aconteceram na vida de cada um deles, mas os amigos conservaram os sentimentos de irmandade, solidariedade e humanidade que desenvolveram no front. Antes de retornarem às suas rotinas, vivem um dia repleto de recordações e situações inesperadas.

SOBRE O DIRETOR ANDREI SMIRNOV: Nascido em 1941, em Moscou, Andrei Smirnov concluiu, em 1962, o curso de Direção na Universidade Estatal de Cinematografia (VGIK). Em 1964 dirigiu seu primeiro longa-metragem, o drama bélico UM PALMO DE TERRA, ambientado durante a 2ª Guerra Mundial. Em 1971 lançou o drama ESTAÇÃO BIELORRÚSSIA. Em 1974 dirigiu outro drama, OUTONO. Em 1979 realizou EM CORPO E ALMA, e em 2011 dirigiu seu último filme até hoje, ERA UMA VEZ UMA MULHER.

Paralelamente à carreira de diretor, Smirnov teve um trabalho expressivo como ator. Em 2000 protagonizou o drama O DIÁRIO DE SUA ESPOSA, sobre a vida do escritor Ivan Bunin, dirigido por Aleksei Uchitel, e pelo qual obteria o prêmio Nika de melhor ator em 2001. Em 2011 interpretou um dos protagonistas do drama ELENA, realizado por Andrei Zvyagintsev. Entre outros reconhecimentos, foi distinguido em 2003 como Artista do Povo da Federação Russa.

A data de lançamento de ESTAÇÃO BIELORRÚSSIA está prevista para o dia 24/08/2020. O DVD de ESTAÇÃO já está em pré-venda na loja virtual da CPC-UMES FILMES e em breve estará nos sites dos revendedores também. 

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JOHN SAXON

Filme de Kung Fu com Bruce Lee, faroestes,  polizieschi, gialli e outras pérolas do cinema popular italiano, slashers canadenses, vários A HORA DO PESADELO… Enfim, JOHN SAXON era legitimamente um grande ator, mas para os admiradores de “cinema de gênero” e B movies, o cara era uma lenda! RIP.

INFERNO VERMELHO (1988)

Não tem muito como errar com a boa e velha fórmula do “filme de parceiros policiais“. Ou como ficou mais conhecido no seu próprio idioma original, os buddy cop movies. Era pegar dois sujeitos de personalidades, classes, culturas opostas, ou seja lá o que for, e colocá-los juntos para resolver crimes enquanto batem boca e defendem visões divergentes… É claro que colocar a Whoopi Goldberg fazendo parceria com um dinossauro de látex não é lá uma boa ideia… O dinossauro merecia um parceiro melhor. Mas os exemplos positivos de buddy cop movies temos aos montes. É como pizza, até quando é ruim é bom.

Um diretor que é sinônimo de buddy cop movies é Walter Hill, um dos responsáveis por definir as regras do sub-gênero ainda lá atrás no início de carreira, como roteirista, em HICKEY & BOGGS (72), dirigido pelo Robert Culp, ou no piloto DOG AND CAT (77), antes mesmo de realizar seu próprio exemplar nos anos 80, o clássico 48 HORAS (1982). E tão familiar com o tema, Hill sempre encontra um jeitinho de dar uma boa variada na fórmula.

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Em INFERNO VERMELHO (Red Heat) essa variação vem num trabalho de “choque cultural”. Tá certo que o resultado acaba sendo tão ingenuo e cartunesco quanto o de ROCKY 4, mas reflete a visão estereotipada coletiva da Rússia pelos americanos do período. Além de funcionar bem como pano de fundo de um filme de ação policial que se propõe a ser uma sátira de diferenças de costumes. Mas o verdadeiro desafio de Hill não era tão simples e poderia colocar todo o projeto a perder. Consistia em trocar as peças um pouco de lugar e convencer o público americano dos anos 80 a aceitar um soviético comunista como herói da história.

Uma grande sacada para resolver essa questão pode ter sido usada já na escolha do ator que faria esse herói, já que naquele período qualquer produção que Arnold Schwarzenegger se envolvesse seria quase automaticamente levada à aceitação pública. O cara era um astro, o “tough guy” do momento ao lado de Sylvester Stallone, e não seria o fato de encarnar um russo que mancharia sua imagem.

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Aliás, a gênese de INFERNO VERMELHO nasceu do desejo de Hill em dirigir Schwarzenegger, o que trazia ao mesmo tempo algumas questões que incomodavam o diretor, como o sotaque do austríaco, por exemplo, que não encaixava em nenhum personagem previamente pensado. Então, Hill veio com a ideia do sujeito ser soviético e a partir disso, com o ator em mente, é que ele, Harry Kleiner e Troy Kennedy-Martin escreveram o roteiro.

Schwarza se encaixou perfeitamente e Hill soube aproveitar a sua iconografia de modo fundamental. Basta reparar na entrada do ator em cena, na sequência inicial na sauna russa, com a câmera passeando pelo corpo de Schwarza imponente como se estivesse estabelecendo um componente dramático-visual relacionado ao físico. Schwarza desempenha seus papéis com presença física em qualquer filme do período, na maneira como seu bíceps aparece na tela, como os músculos do pescoço se comportam no enquadramento, como as veias sobressaltam na pele somando valor estético, é o que torna filmes como INFERNO VERMELHO, CONAN – O BÁRBARO e PREDADOR tão físicos.

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A trama de INFERNO VERMELHO a grande maioria dos fãs do gênero já conhece, mas vamos lá: Schwarza é o capitão Ivan Danko, um policial de Moscou altamente badass que vai parar em Chicago na cola de um perigoso criminoso russo (Ed O’Ross) que matou seu parceiro. Na América, após o estranhamento inicial, ele acaba ganhando a camaradagem, depois de muita resistência, de um controverso e espertinho policial de Chicago, vivido por James Belushi, que lhe ajuda a seguir os rastros do bandido.

O que se desenrola a partir dessa premissa não é exatamente importante, serve apenas de base para algumas questões que interessam a Hill e, obviamente, ao público ávido por este tipo de produto, como a ação física, a sátira escrachada e o relacionamento entre as duas figuras que vamos acompanhar nessa aventura.

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Uma das razões pela qual INFERNO VERMELHO funciona lindamente pra mim, e que eu já ressaltei, é que se assume logo de cara como uma sátira de “choque cultural” cheia de contornos cômicos que envolvem a jornada desse russo na América. É praticamente uma comédia de costumes e é difícil segurar o riso das situações que Danko, o policial russo comunista, passa na meca do capitalismo. A própria maneira como Hill trabalha a imagem para enfatizar certas coisas é muito forte aqui, como a forma que filma Moscou – clean, sóbria e contemplativa – se contrapondo a Chicago, o caos, a poluição sonora e visual, local sujo repleto de bandidos e putas. Danko liga a TV no quarto de hotel em que está instalado e rola um pornozão de boa. A reação dele é hilária: “Capitalistas“.

Em outras ocasiões já acho que o humor nem era intencional, mas não dá pra não rir com Danko, depois de encontrar um pacote de droga na perna de madeira de um sujeito, soltando um “cocainum!“. A química entre Schwarzenegger e Belushi também é um ponto forte nesse lado cômico do filme. Belushi nunca vai chegar aos pés de seu irmão, John Belushi, um ícone da comédia americana, mas até que ao seu modo conseguiu sair da sombra do irmão. Em INFERNO VERMELHO, o sujeito consegue pagar de badass ao mesmo tempo em que arranca boas risadas do público.

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Grande parte do diálogo entre Belushi e Schwarza consiste no primeiro soltando algo do tipo: “Do I look like a fucking cab to you?“, seguido por um “yes” monossilábico de Arnie… E basta para me deixar com um sorriso na cara.

Já a sequência que os dois discutem sobre o fato de Danko ter um periquito de estimação é simplesmente de rachar o bico… Além de Schwarza e Belushi, o elenco merece atenção com vários nomes interessantes que surgem na tela. Ed O’Ross encarna com desenvoltura o papel do vilão russo, temos Peter Boyle como chefe de polícia, Laurence Fishburne, Gina Gershon e uma impagável participação de Brion James.

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Outro principal motivo para qualquer fã de cinema de ação ter a obrigatoriedade de conferir INFERNO VERMELHO é justamente pelas sequências de ação. Hill foi um dos grandes nesse departamento, herdeiro direto de Sam Peckinpah, não economizava em virtuosismo ao filmar tiroteios e perseguições, mesmo que as sequências não sejam nada extravagantes.

Seus tiroteios são crus, filmados com classe, mas que rendem uma boa dose de brutalidade. Os dez primeiros minutos de INFERNO VERMELHO são de arregaçar! Temos Schwarza trocando socos com russos bombados numa sauna, que prossegue num campo aberto coberto de neve e, logo em seguida, um tiroteio classudo num bar que culmina na morte do parceiro do protagonista.

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Outro destaque é o tiroteio na espelunca em que Danko está hospedado. A edição simples, o trabalho com o movimento dos corpos e espaços, a violência dos tiros – causa e efeito bem definidos, filmados com clareza – e até uma prostituta peladona enchendo um bandido de chumbo, proporcionam uma boa dose de truculência.

A exceção da ausência de “espetáculo” na ação de Hill fica na sequência final, em que bandido e mocinho usam um ônibus cada um numa perseguição frenética em meio ao trânsito da cidade, dando um toque do exagero oitentista à obra, mas sem perder a elegância.

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INFERNO VERMELHO é daqueles filmes que eu posso rever e rever quantas vezes forem necessário e ainda vou estar longe de enjoar. Até a sua reflexão ingênua da dialética comunismo x capitalismo funciona bem numa trama que não tenta fazer nada de diferente em termos de estrutura dos buddy cop movies, mas tem a personalidade de seu diretor e entrega exatamente o que promete: ação de primeira qualidade, humor zoeiro e ainda cria um dos personagens russos mais casca-grossa do cinema americano.

Não é o melhor filme que Hill dirigiu, nem o melhor veículo que Arnold Schwarzengger estrelou, mas sem dúvida alguma é um dos produtos mais divertidos que ambos fizeram.

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Texto originalmente escrito para o Action News em maio de 2018.

THE MATRIX REVOLUTIONS (2003)

Minhas impressões da revisão de THE MATRIX REVOLUTIONS são meio malucas. Se por um lado eu consigo identificar tudo que desagradou os fãs na época (eu incluso), por outro já não me importei com nada e simplesmente embarquei nessa tragédia shakespeareana misturada com uma viagem pseudo-cyber-filosófica-espiritual cheia de ação épica… Achei um filme fascinante.

O grande problema pra mim desta vez foi bem diferente do que senti quando vi THE MATRIX REVOLUTIONS no cinema há quase duas décadas. Eu só queria que aquela bobagem toda acabasse o mais rápido possível…

Nesta revisão, não sei explicar porquê, acontece justamente o contrário. Eu queria mais e mais, eu queria uma série pra TV com vinte temporadas explorando a riqueza visual/espiritual/filosófica de THE MATRIX, eu simplesmente fiquei maravilhado e queria mais!

E, bom, as Wachowski se arriscaram pra caramba pra concluir essa bagaça. THE MATRIX tava no coração da moçada, quase todo mundo tinha curtido, tinha sua importância dentro dos blockbusters hollywoodianos, então este terceiro filme era muito aguardado. E elas vão lá e, PIMBA! não entregam nada daquilo que o público queria! Hahaha!

Convenhamos que o encerramento de uma série dessa magnitude nunca vai agradar todo mundo mesmo que tivessem feito “o básico”.

Mas THE MATRIX REVOLUTIONS acabou sendo uma aula de como subverter as expectativas do público e até mesmo de narrativa: por exemplo, colocando a tão aguardada batalha de Zion, dos homens contra as máquinas, no meio do filme, sem sequer contar com a presença do protagonista. Forçando toda a solução das suas questões filosóficas entregues numa única luta de tirar o fôlego entre Neo (Keanu Reeves) e o Agente Smith (Hugo Weaving).

A batalha de Zion é um esplendor que mal tenho palavras para descrever. Não lembro muito o que senti há quase vinte anos quando vi pela primeira vez, na tela grande, mas como não curti na época, é bem capaz de não ter achado grandes coisas.

Hoje foi bem diferente. São praticamente 30 minutos de espetáculo sensorial de ação de tirar o fôlego, que tem um peso poderosíssimo e uma sensação insuportável de ameaça, realmente convence – mesmo que por um momento – de que tudo está realmente fodido e que a humanidade vai ser extinta.

As irmãs Wachowski têm uma excelente percepção de onde colocar a câmera na ação. Os enquadramento nunca são óbvios, as figuras são milimetricamente posicionadas no quadro, um pouco distorcidas para ganhar movimento, apenas o suficiente para proporcionar um prazer visual que não é comum. A edição também é sólida: em nenhum momento a geografia é confusa ou incoerente.

E as cenas de artes marciais são compreensíveis. O que nos leva à luta entre Neo e Smith, toda belíssimamente construída, com quadros que remetem a um duelo de faroeste. Começa com os dois sujeitos em extremos opostos de uma longa rua, enquanto gotas de chuva os encharcam, entre duas filas de cópias do Agente Smith. É sublime.

Neo e Smith trocam algumas palavras antes de dar tudo de si numa briga de proporções épicas que carrega aquele aroma de inevitabilidade, como diria o Agente Smith.

Há uma outra sequência de ação que é menos lembrada do que esses dois mastodontes que citei aí em cima, mas que ainda impressionam: a que Morpheus (Laurence Fishburne), Trinity (Carrie-Ann Moss) e Seraph (Collin Chow) trocam tiros com uns caras que literalmente andam no teto do cenário… É uma dessas pequenas joias dentro do filme que também provam a maestria das Wachowski na condução da ação.

Mas uma das coisas mais importantes pra mim por aqui é como a coisa se resolve dentro de sua própria lógica filosófica de boteco e religiosidade de fundo de quintal (é quase uma versão sci-fi de passagens bíblicas), deixando um monte de ponta solta, um bocado de perguntas sem resposta, tudo tão aberto, pra desespero dos fãs.

Mas que ao mesmo tempo toca no fundamental: o nível de sacrifício exigido de seus personagens em algo reconhecidamente humano, fazendo-nos sentir o custo mortal por trás das figuras e feitos que se tornam lendas. Se THE MATRIX RELOADED rejeita os mitos que alimentamos, THE MATRIX REVOLUTIONS nos mostra como novos mitos são criados.

Enfim, depois dessa revisão, agradeço às Wachowski por não terem realizado algo pra agradar os fãs (não é mesmo, Disney?).

Passei tempo demais sem revisitar esse universo, deveria ter feito antes e mais vezes e redescoberto essa maravilha que é toda a saga THE MATRIX, especialmente se olharmos agora e percebermos que não tivemos nada remotamente parecido no gênero como essa trilogia desde então em Hollywood.

Que me perdoem os fãs da Marvel Cinematic Universe, mas todos os seus trocentos filmes juntos não dão nem pro cheiro que é a trilogia THE MATRIX.

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Quero saber as impressões de vocês. O que meus cinco leitores acham da trilogia THE MATRIX? Não deixem de comentar na caixa de comentários aqui do blog, ou no facebook, Twitter, Instagram… Bora papear.

CINE POEIRA – EPISÓDIO 07

No episódio desta semana do podcast CINE POEIRA , conversamos sobre PERIGO: DIABOLIK!, de Mario Bava.

O longa, adaptado dos quadrinhos de Angela e Luciana Giussani,  passou a ter um lugar de carinho entre os admiradores do cinema ‘pop‘ e ‘cult‘ europeu dos anos 60, assim como o elenco e seu diretor, que estava em um momento bem inspirado.

Homenageamos também o compositor Ennio Morricone (1928-2020), que entregou para o filme mais uma de suas várias trilhas sublimes e inesquecíveis.

O episódio pode ser ouvido aqui mesmo no blog:

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THE MATRIX RELOADED (2003)

Pois, inspirado pelo último post, resolvi rever os outros dois exemplares da trilogia THE MATRIX de uma vez. Eu já esperava gostar de THE MATRIX RELOADED, novamente dirigido pelas irmãs Wachowski, até porque tinha lembranças vívidas de algumas sequências de ação e que confirmaram o nível de qualidade nessa revisão (uma em específico é uma obra-prima).

Então, acabou que não foi nenhuma surpresa me deparar com um filme tão maneiro. E obviamente a ação é importate… Crucial, eu diria – como verão à seguir – mas me interessou bastante tudo aquilo que o filme se propõe como continuação.

Na verdade, THE MATRIX RELOADED é bem funcional como capítulo intermediário e só faz sentido acompanhado dos outros dois. É quase impossível entender alguma coisa sem ver o seu antecessor e conferir logo em seguida o encerramento da bagaça, THE MATRIX REVOLUTIONS (que foi lançado no mesmo ano, alguns meses só de diferença, em 2003).

Não que a trama seja tão complexa ou difícil de acompanhar, mas toda a gama filosófica de mesa de bar do primeiro filme precisa estar na mente para perceber os seus desdobramentos por aqui. Nada muito complicado, mas que torna-se incompreensível se falta a parte inicial e fica incompleta sem o desfecho.

Então, pra que que serve MATRIX RELOADED?

Olha, eu poderia até dar uma resposta mais detalhada, explicar que serve pra expandir o universo do primeiro filme, explorar os personagens e até mesmo se aprofundar nos seus conceitos que agora transcendem as questões cyber filosóficas para se tornar algo mais energia-espiritual-budista e blá blá blá… Mas não.

A única coisa que eu consigo pensar como razão deste filme existir é pelo espetáculo sensorial do segmento de ação “da rodovia”. Sabem qual é? Sabem do que tô falando?

Tudo que rodeia esses momentos frenéticos, tudo que vem antes ou depois dessa pancadria, perseguições, tiros e explosões que são a matéria prima dessa sequência, só serve de pretexto para esse segmento em específico acontecer diante dos nossos olhos. Não tenho dúvida alguma de que é uma das melhores sequências de ação do século.

Então minha resposta é essa. Pra que serve MATRIX RELOADED? Pra isso:

Toda essa construção, essa sucessão de acontecimentos, é simplesmente do caralho! Eu perdi a noção do tempo, mas devem ser uns quinze minutos de ação frenética ininterrupta.

Começa com um kung fu de Neo (Keanu Reeves) contra uns sujeitos numa espécie de chateau, desce pra uma garagem com os Gêmeos que viram fumaça, dando um trabalho do cão pra Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie-Ann Moss) e o barraco acaba indo parar numa perseguição alucinante de carros, caminhões, viaturas de polícia, moto na contra-mão, com gêmeos-fumaça e os agentes da Matrix (aqueles caras fodões de terno e gravata do primeiro filme) perseguindo Morpheus, Trinity e um tal chaveiro numa rodovia de alta velocidade lotada de veículos.

A coisa termina quase num orgasmo com uma luta entre Morpheus e um dos agentes (vivido por ninguém menos que o grande Daniel Bernhardt, o sub-Van Damme dos anos 90, protagonista das continuações de O GRANDE DRAGÃO BRANCO e o petardo bad movie O GRANDE DRAGÃO DO FUTURO) em cima de um caminhão em movimento… Ufa! É o fino da grosseria!

Tudo lindamente bem filmado e coreografado pelas Wachowski. E os efeitos especiais até hoje impressionam… Honestamente, é essa sequência que faz valer o filme. Eu não queria mais saber das armações políticas em Zion, do ataque das máquinas no “mundo real”, do romance entre Neo e Trinity, se o Oráculo tava certa ou errada, ou pra que caralho serve o tal chaveiro. Eu queria simplesmente viver naquela sequência de ação por, sei lá, mais duas horas… Um clássico.

Sobre o restante de THE MATRIX RELOADED, é tudo o que se pode esperar de uma continuação para uma obra tão pop e cultuada do cinema da virada do milênio. Uma aventura de ficção-científica à altura de seu antecessor – apesar do fator novidade não existir mais aqui – mas que exige atenção do espectador e entretém com categoria.

Na trama, finalmente vemos Zion, a tal cidade do mundo real – e que rola umas raves hippies muito loucas sem qualquer motivo, a não ser mostrar corpos suados e com pouca roupa em movimento, ao som do batidão, o que pra mim tá bom…

Ficamos sabendo que as máquinas estão avançando em direção à cidade, cada vez mais perto de aniquilar os últimos 250 mil homens, mulheres e crianças da Terra, e é praticamente inevitável o confronto homem vs máquina.

A turminha Morpheus, Neo, Trinity e Link (Harold Perrineau) chegam na cidade. Personagens vão se apresentando, se reencontrando… O ritmo do filme é bem lento nesse início, com todas essas informações sendo lapidadas, com direito até a “reuniões de conselho” onde discute-se alguma coisa que parece importante (estilo Guerra Nas Estrelas). Rola até um Neo & Trinity fazendo saliências

Não sabemos ainda como Neo vai salvar a humanidade. Nem ele, na verdade, mas continua sua jornada de descobertas com o apoio de Morpheus e Trinity. Talvez a grande revelação do filme aconteça na sequência que Neo encontra o Arquiteto (Helmut Bakaitis) e descobre-se a existência de outros “Neo’s” e que ele na real não tem escolha alguma, a não ser seguir o que lhe foi determinado desde o princípio pelas máquinas.

Seu destino é jogar um jogo dentro dos termos já estabelecidos, o que é uma baita quebra de expectativa do que a rapaziada almejava pras continuações considerando o final do primeiro filme. Motivo pra ter deixado muita gente puta na época, o que já prova que foi a escolha certa das Wachowski.

Temos uns outros personagens novos, Jada Pinkett-Smith, Monica Belucci e Lambert Wilson, como Merovingian, importante pra trama. O Chaveiro também é crucial – mas que no fim das contas só serve mesmo para ser jogado de um lado para o outro na tal épica sequencia de ação.

Mas dessa nova galeria de figuras, os melhores pra mim são os tais Gêmeos, capangas do Merovingian, que tem por trás tem aquele conceito incrível de se transformarem em fumaça, em fantasmas, sei lá… Só sei que é massa!

Outro ponto a destacar é a presença de Hugo Weaving, o agente Smith, que ressurge com novos propósitos após sua “libertação” no final do primeiro filme (à princípio imagina-se que ele foi destruído por Neo). No entanto, só vamos entender totalmente seu arco em THE MATRIX REVOLUTION. Aqui em RELOADED sua participação ficou marcada pela sequência de pancadaria entre Neo e múltiplos Agentes Smith.

É outro momento de ação bem legal que até nessa revisão me surpreendeu, especialmente enquanto vemos atores e dublês, de carne e osso, atuando e encenando as coreografias. Quando entram em cena os bonecos de CGI rodopiando a coisa fica fake demais, parece jogo de Playstation 2, envelheceu mal pra caralho… Mas ainda gosto bastante, acho que faz parte do charme que essa cena possui.

É tudo muito divertido, barulhento e muito bem feito, até para os padrões atuais de cinema espetáculo de sci-fi/ação. Muito melhor e mais autoral, por exemplo, que qualquer filme da Marvel feito nos últimos quinze anos.

Foi realmente uma revisão proveitosa. Algum momento mais lento aqui, outro mais chato ali, especialmente no primeiro terço do filme. As cenas em Zion se demorassem mais um pouquinho iam me perder… Mas uma vez que a intensidade do ritmo aumenta e a ação entra pra valer, THE MATRIX REALOADED cresce muito. Um filmaço.

Em breve comento o que achei de THE MATRIX REVOLUTION. Vou deixar no suspense…

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E vocês? Há quanto tempo não assistem à trilogia? E o quais as suas impressões sobre a série da primeira vez que viram e nas revisões? Deixem aí uns comentários pra eu saber.

THE MATRIX (1999)

Escrevi esse textinho no início do ano passado, em 2019, exatamente vinte anos após o lançamento de THE MATRIX, para o extinto Action News. A minha intenção era rever toda a trilogia, como podem perceber no final do post… Como na época acabei revendo apenas este primeiro, vou republicar aqui no blog pra ver se animo finalmente revisitar os outros dois. Até porque um quarto filme vem aí…

Primeiro, é preciso ter consciência de que já se passaram vinte anos que THE MATRIX foi lançado e se tornou um fenômeno pop cultural, celebrado como um filme inovador em vários aspectos – revolucionário em termos de efeitos especiais e ação, e carregado de filosofia pós-moderna cibernética e blá, blá, blá. Mas e hoje? Como é ver THE MATRIX hoje? Muita coisa mudou de lá pra cá. O mundo vivia às vésperas da virada do milênio, a era da informática se iniciava, tudo o que apresentava em termos de comunicação e internet parecia tão distante da realidade; eu era um adolescente que peguei o VHS numa locadora e assisti, no mínimo, nove vezes antes de devolver rebobinado… Até as diretoras do filme, as irmãs Wachowski, ainda eram chamadas de irmãos Wachowski naquela altura… Sim, muita coisa mudou.

Resolvi encarar o filme de novo. Hoje. E se tem algo que NÃO muda é o fato de THE MATRIX ainda manter sua força em certos quesitos: alguns conceitos premonitórios, o visual cyberpunk que parece uma novela de William Gibson ganhando vida, e o fato de ser um cânone do cinema de ação na virada do século. Não dá pra conversar sobre cinema de ação do período sem que alguém cite Neo (Keanu Reeves) desviando de balas, com a câmera girando em slow motion, que ficou conhecido como “bullet time”, um tipo de cena que foi abusada à exaustão nos anos seguintes, mas que aqui ainda impressionava, era novidade; ou Neo encarando o agente Smith (Hugo Weaving) num metrô abandonado; Salvando Trinity (Carrie-Ann Moss) de um helicóptero em queda; ou enfrentando Morpheus (Laurence Fishburne) num treinamento de Kung Fu (cujo coreografo das cenas de luta foi o lendário Yuen Woo-ping)…

Lembro que na época era um filme considerado difícil de entender entre a molecada que tentava encarar a jornada do hacker Neo com mais prudência, prestando atenção no seu conceito filosófico. E toda a trama que envolve um mundo real e outro virtual, questões de livre arbítrio e identidade do indivíduo, e até um elemento religioso, com a concepção do “escolhido”, que volta para salvar o mundo, bagunçava mesmo a cabeça de um mancebo no final dos anos noventa que mal tinha entrado na internet na vida e só queria ver uns tiros, porrada e bomba. A trama nem era tão original assim, e depois foram se revelando vários filmes anteriores que tinham premissas similares.

É aquilo, THE MATRIX é a definição perfeita do que Hollywood costuma promover como algo “novo”, mas que acaba sempre sendo mais do mesmo… só que diferente.  Quem já tinha assistido na época filmes como EXISTENZ, do Cronenberg, DARK CITY, do Proyas, e O 13º ANDAR não deve ter visto nenhuma novidade por aqui, exceto a ação eletrizante, numa intensidade de encher os olhos, e que realmente tinha uma proposta inventiva. Mas era o tipo de filme que, de certa forma, nos levava a refletir, a fazer as perguntas sobre questões da vida sem conseguir obter respostas muito concretas.

Mas o que realmente encantava e, curiosamente, ainda encanta nessa revisão, é como THE MATRIX é divertido pra cacete! Quero dizer, se tu não tá a fim de ficar esquentando os miolos com os elementos filosóficos, ao menos temos aqui uma história cheia de momentos que te prendem na cadeira sem tirar os olhos da tela. Ou, basicamente, temos Keanu Reeves lutando, correndo, pulando, atirando, etc, por duas horas. “Eu sei kung-fu.” Esse tipo de coisa nunca envelhece. E obviamente é sempre importante destacar os efeitos especiais seminais, que realmente surpreendiam na época. Mesmo que em alguns momentos tenham ficado datados, mas faz parte. Tudo somado, THE MATRIX é um filme de ação sci-fi inteligente, com uma filosofia de boteco que tem seu charme. É frenético, bem dirigido, com momentos e personagens icônicos que ainda fascinam, um visual interessante, enfim, continua incrível.

Depois de THE MATRIX, as Wachowski criaram muito barulho com a expansão do universo do filme. Vieram as animações compiladas em ANIMATRIX e terminou numa das trilogias mais célebres da primeira metade dos anos 2000’s. Para alguns. Extremamente decepcionante para outros… Eu incluso. Até tenho boas memórias de RELOAD. No entanto, REVOLUTIONS era simplesmente intragável. O legal é que quase tudo desse período revelou-se bons filmes em revisões recentes. E é gratificante quando isso acontece, adoro mudar de opinião e descobrir maravilhas de coisas que eu detestava. Por isso vou rever o restante da trilogia. Volto pra falar se melhoraram com o tempo ou se ainda são as porcarias que tenho na memória…

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E termino esse post com essa imagem maravilhosa das filmagens de THE MATRIX 4, que poderiamos ver mais cedo, mas graças à pandemia só será lançado em 2022. A Lana Wachowski parece feliz em dirigir mais um capítulo dessa saga…

NA SOLIDÃO DO DESEJO (1968)

John Flynn é desses diretores subestimados que de vez em quando se faz necessário lembrar a existência, até porque foi dos maiores diretores americanos, especialmente no cinema de gênero, e embora tenha havido um esforço ao longo dos últimos quinze anos de um revisionismo da sua obra, infelizmente nunca terá o mesmo prestígio que um, digamos, Sam Peckinpah, apesar de estarem praticamente no mesmo nível.

Flynn morreu em 2007, mas deixou uma filmografia cheia de obras fascinantes como A QUADRILHA (The Outfit, 73), com Robert Duvall, inspirado na mesma fonte que gerou À QUEIMA ROUPA (66), de John Booman, e O TROCO (99), com o Mel Gibson; a obra-prima A OUTRA FACE DA VIOLÊNCIA (Rolling Thunder, 77), drama psicológico e criminal, desconcertante, com dois atores magníficos: William Devane e Tommy Lee Jones; e A MARCA DA CORRUPÇÃO (Best Seller, 87) uma pequena e inesperada joia do cinema policial de ação oitentista com outra dupla espetacular: James Woods e Brian Dennehy. Sem contar CONDENAÇÃO BRUTAL, com Sylvester Stallone, FÚRIA MORTAL, disparado o melhor filme de Steven Seagal, entre outras coisas…

E temos esta belezinha aqui, NA SOLIDÃO DO DESEJO (The Sergeant), seu primeiro trabalho, que revi esta semana, um drama austero, barra-pesada e doloroso sobre um oficial do exército, gay reprimido, com um Rod Steiger em plena forma.

Até aquele momento, no entanto, Flynn havia sido assistente do diretor Robert Wise, mas seu talento em filmar ação de alta qualidade, que é algo realmente fantástico na sua obra, deve ter surgido atuando como assistente de John Sturges no clássico FUGINDO DO INFERNO. Quando Wise montou uma pequena produtora para realizar filmes de baixo orçamento e que daria a oportunidade para que outros pudessem dirigir, Flynn foi convidado a tomar à frente no primeiro projeto, a adaptação de um romance de Dennis Murphy chamado The Sergeant (cujo roteiro foi escrito pelo próprio Murphy). Portanto, os filmes de ação teriam que esperar e calhou do primeiro filme do homem ser esse dramalhão.

Conhecemos então o personagem de Steiger em NA SOLIDÃO DO DESEJO, o sargento Callan, um veterano de guerra um bocado arrogante, mas dedicado e condecorado, que assume um posto numa base americana de fornecimento de combustível na França em 1952. No local, o sujeito se depara com a falta de disciplina dos homens sob às ordens do capitão Loring (Frank Latimore), que tem uma queda por uma bebidinha, e percebe a barca furada que se meteu. Callan faz o tipo sargento linha-dura e resolve transformar a base num modelo de eficiência e disciplina – embora a tropa preguiçosa se ressinta do sujeito por seus esforços.

Mas é na figura de um dos seus comandados, o jovem e bonito soldado Tom Swanson (John Phillip Law), que Callan vê um alento e, aos poucos, sua aproximação e atração física pelo rapaz abala-lhe as estruturas, desperta-lhe a possibilidade de algo aprazível e afável, mas intocável, e por isso confuso e melancólico, até chegar num ponto que o torna incapaz de resistir ao desejo. O que acaba por ser sua ruína. O filme, que abre mostrando Callan enfrentando com firmeza e heroísmo os maus bocados de uma guerra, agora revela o que ele não conseguiria encarar: um amor não retribuído.

Apesar do talento de Flynn na condução das coisas por aqui – e o sujeito REALMENTE demonstra habilidade, numa mise en scène magistral, na forma como filma cada plano e o mais importante, como filma as trocas de olhares, acho que poucos diretores filmam os olhos tão bem quanto Flynn – talvez seja mesmo Rod Steiger o grande responsável pela força que emana de NA SOLIDÃO DO DESEJO. O filme foi laçado um ano depois de NO CALOR DA NOITE, de Norman Jewison, no qual Steiger tinha recebido o Oscar de melhor ator, mas é curioso perceber que ele consegue aqui uma performance ainda mais absurda, poderosa e corajosa. O sujeito está simplesmente arrebatador.

É quase um trabalho co-autoral de Steiger na parada, já que tudo no filme nasce dele: seu corpo, sua voz, seus gestos… Seu olhar. Quando perguntado numa entrevista como havia convencido Steiger em trabalhar num filme desses, vivendo um personagem homossexual, Flynn diz que foi o próprio ator que procurou fazer o papel. Já John Phillip Law parece se sair melhor em obras menos sérias e mais físicas, como DANGER: DIABOLIK, de Mario Bava, e A MORTE ANDA À CAVALO, de Giulio Petroni, mas não tenho do que reclamar dele por aqui, tem uma atuação bem digna. Da mesma forma o seu par romântico na trama – e que se torna uma das pedras no sapato de Callan – a bela francesa Ludmila Mikael. Todo o elenco de apoio é muito bom, mas o problema de falar de elenco nesse filme é que TODOS são ofuscados pelo desempenho de Steiger. Aí fica difícil…

Mas enfim, NA SOLIDÃO DO DESEJO é uma das maiores histórias de amor não correspondido do cinema, um filme amargo, mas também tão intenso e devastador e um grande filme de estreia para um diretor tão talentoso como John Flynn. E de certa forma vai de encontro à essência do cinema que o sujeito desenvolveu a partir dalí. Uma obra com temas delicados filmada por um dos mais casca-grossas dentre os diretores enxergados na tradição fiel do “cinema físico” de Hawks, Fuller, Ray, Botticher, Ulmer, e talvez o mais fundamental de todos, Don Siegel, mas que revela também um olhar sensível, na qual a poesia que versa sobre a solidão, que Flynn viria a abordar depois em outros filmes, já era um conceito que estava intrinsecamente ligado à raiz romântica da sua maneira de filmar.

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PODCAST CINE POEIRA – EPISÓDIO 06

No episódio desta semana do podcast CINE POEIRA, homenageamos o diretor Joel Schumacher ao falar de OS GAROTOS PERDIDOS, um pequeno clássico oitentista estrelado por Jason Patric, Kiefer Sutherland, os dois Coreys (Haim/Feldman) e Dianne Wiest. Deu o que falar!

Já comentei sobre OS GAROTOS PERDIDOS aqui no blog. Para ler, clique aqui.

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OPERAÇÃO FRANÇA (1971)

Vamos começar pelo básico do básico, aquilo que todo mundo já deve estar careca de sabe sobre OPERAÇÃO FRANÇA (The French Connection), que é um dos grandes clássicos policiais da década de 70, que é um dos melhores filmes de William Friedkin, que tinha apenas 32 anos na época e se tornou o mais jovem a ganhar o Oscar de direção (o filme também abocanhou melhor roteiro adaptado, ator para Gene Hackman, edição e melhor filme). E que o roteiro foi baseado no best-seller de Robin Moore sobre as desventuras reais dos detetives do esquadrão especial de narcóticos do Harlem, Eddie Egan e Sonny Grosso.

Na trama, acompanhamos Gene Hackman como “Popeye” Doyle e seu parceiro, Buddy Russo, vivido pelo grande Roy Scheider, dois detetives da cidade de Nova York que acreditam ter tropeçado sem querer em uma operação potencialmente descomunal de contrabando de drogas vindo direto da França para Nova York.

E aí começa o trabalho funcional dos dois detetives em desbaratar a atividade dos bandidos: longas e frias noites de tocaia vigiando pessoas suspeitas, seguindo seus passos, mesmo quando fazem um pequeno passeio pelas ruas de NY, nada muito emocionante… Mas é a essência de OPERAÇÃO FRANÇA, essa triste e monótona vida cotidiana dos policiais, a anos-luz de distância dos heróis do cinema de ação de Hollywood. Os dias desses policiais são longos, e suas noites não costumam ser outra coisa senão os assentos imundos de seus velhos e desconfortáveis ​​carros… Não devia ser muito divertido ser policial em Nova York nos anos 70.

Mas são figuras fascinantes, não apenas porque Hackman e Scheider habitam completamente seus personagens, mas porque Friedkin faz um trabalho maravilhoso em criar uma atmosfera de realismo absurdo. Tanto Eddie Egan quanto Sonny Grosso, os dois homems que vivenciaram essa história na realidade, têm pequenos papéis no filme e atuaram como consultores técnicos em OPERAÇÃO FRANÇA, o que pode ser a melhor indicação do sentimento autêntico que Friedkin tentou evocar na tela, com uma forte estilização documental. Praticamente vérité, bicho!

As ruas de Nova York nunca estiveram tão vivas, fruto de uma completa imersão de realidade dos principais envolvidos. Friedkin passou dois meses com os dois detetives estudando suas personalidades e sobre o caso em questão. Hackman e Scheider passaram semanas em prisões e operações secretas, também com Grosso e Egan. E o estilo de câmera documental do filme, belíssimamente realizado pelo diretor de fotografia Owen Roeizman, promove esse sentimento de que “estamos dentro do filme“, o que realmente aumenta a tensão. Mesmo em sequências como o duelo silencioso entre Doyle e o traficante francês Alain Charnier (Fernando Rey) pelas ruas de NY e que culmina num entra e sai dentro de um vagão de metrô, uma sequência que não seria nada, torna-se uma aula de tensão nas mãos de Friedkin.

Quando os traficantes percebem que Doyle pode realmente atrapalhar as operações dos contrabandistas, eles tentam matá-lo. Sem sucesso, Doyle persegue o sujeito que falhou, numa das perseguições de carro das mais insanas da história do cinema. Que me desculpem quem desconfia de hipérboles do tipo “o maior/melhor da história do cinema“, mas no caso de OPERAÇÃO FRANÇA eu apenas trago fatos em relação e esta sequência específica.

Aqui temos Gene Hackman em alta velocidade perseguindo um vagão de metrô nas ruas de Nova York, filmada em condições mínimas de segurança (Friedkin queria aproveitar os caprichos do tráfego para reforçar o aspecto realista), e que poderia ter terminado em tragédia. Hoje ignora-se a irresponsabilidade e saudamos a incrível tensão insuperável que essa sequência provoca. Vivemos esses momentos como se estivéssemos no banco de passageiro de Hackman, com o desejo de pressionar o pedal do freio e o reflexo para se segurar no “puta que pariu“… Uma perseguição que realmente consegue comunicar tão bem a sensação de velocidade e perigo. Algo que Friedkin se tornou especialista e repetiu a dose com a mesma maestria em filmes como VIVER E MORRER EM LA e JADE.

Essa sequência também é marcada pelo sadismo e crueldade do bandido – encarnado pelo francês Marcel Bozzuffi – que tenta escapar de Doyle e acaba encurralado, mas não sem antes deixar algumas vítimas pelo caminho. Cansado dessa longa perseguição, Doyle mal consegue se manter em pé, mas retira força não sei de onde para apontar o revolver, mirar e acertar o sujeito, numa das cenas mais memoráveis do filme (e que foi a escolha para ilustrar o post lá em cima, obviamente).

Enfim, toda essa perseguição é realmente foda! Mas esses momentos de bravura são parênteses em um filme que não faz questão nenhuma de espetacularizar a ação, fica evidente que Friedkin não tenta fazer de OPERAÇÃO FRANÇA um filme divertido. Bem diferente dessa perseguição frenética temos, por exemplo, o final, a caçada de Doyle pra cima de Charnier no hangar abandonado que fecha o filme, filmado de forma lenta e anti-climática, cujo cenário e trabalho de câmera remete mais a um filme do Tarkovsky, e termina com o tiro offscreen, mas que ressoa muito depois dos créditos finais, símbolo da cruzada entre a determinação do herói e uma espécie de loucura obsessiva de Doyle… O próprio contrabando de drogas foi desmantelado graças a um grande golpe de sorte e muita paciência, e é exatamente assim que Friedkin narra a história, usando pequenos detalhes e muitas cenas sem diálogos, nunca se inclinando para explicações fáceis e exposições amigáveis ​​ao público.

E assim fica à cargo do espectador se decidir sobre os métodos empregados pela polícia, especialmente “Popeye” Doyle, que carrega uma integridade policial tão louvável quanto repugnante pelo seu racismo e xenofobia. E Gene Hackman torna essa performance tão real e direta que todo o filme é legitimado por suas ações. O sujeito realmente está explosivo e sem dúvida é um desses desempenhos dignos de antologia no cinema americano. Já Roy Scheider é um companheiro perfeito, um bom contraponto à Hackman, e as cenas de vigilância que ele compartilha com seu parceiro são maravilhas do cinema, com olhares e pequenos gestos entre eles, transmitindo mundos de significado.

Fernando Rey como Charnier é de uma frieza e elegância que bota Doyle nos nervos, como na cena do “tchauzinho” que recebe do traficante depois de ser enganado no metrô. Mas é sempre curioso lembrar que sua contratação para o filme foi polêmica. Friedkin disse ao diretor de casting que, para o personagem de Charnier, ele queria um ator que lembrava estar em A BELA DA TARDE, de Luis Buñuel. Mas ele se referia a Francisco Rabal. Quando chegou no aeroporto, Friedkin deu de cara com Fernando Rey, que nem francês era… Até cogitaram a possibilidade de demiti-lo, mas depois descobriram que Rabal nem falava inglês e decidiram manter Rey com o papel. Uma boa escolha. Rey está perfeito. E Friedkin teve sua oportunidade de trabalhar com Rabal alguns anos mais tarde em COMBOIO DO MEDO.

Outro ator que gosto bastante é Tony Lo Bianco, que não tem lá uma participação muito expressiva por aqui. Mas dois anos depois ganhou mais destaque em THE SEVEN-UPS, outro filmaço policial dos anos 70, dirigido pelo produtor de OPERAÇÃO FRANÇA, Phillip D’Antony, com Roy Scheider encabeçando o elenco e com mais uma grande sequência de perseguição de carros de tirar o fôlego. Mas se quiserem algo mais consistente de Lo Bianco, recomendo o clássico de Larry Cohen FOI DEUS QUE MANDOU, que comentei aqui no blog não faz muito tempo…

Enfim, bom rever de tempos em tempos OPERAÇÃO FRANÇA e perceber como continua uma belezinha. Friedkin realmente conseguiu algo por aqui. E estabeleceu um novo modelo para qualquer filme de ação policial que surgiu a partir de então. Não só nos EUA mas também na Europa, com os poliziotteschi italianos, que são assumidamente influenciados por obras como o filme de Friedkin (mas também DIRTY HARRY, de Don Siegel, e DESEJO DE MATAR, de Michael Winner, entre outras coisas). Quatro anos depois, John Frankenheimer assinou a sequência (sem Roy Scheider) não tão bem-sucedida, mas bem longe de ser ruim.

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COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES (1967)

Depois do espião James Bond alcançar um tremendo sucesso com os quatro filmes anteriores, COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES (You Only Live Twice) pretendia marcar o fim da relação entre a franquia e Sean Connery, o ator que deu vida ao personagem até então. Cansado da atenção intrusiva que recebeu e o medo de ficar para sempre marcado como James Bond, Connery decidiu se desligar de vez da carreira de espião e seguir em frente com novos desafios… Ou talvez não. Apesar de todas as suas reclamações, Connery retornaria ao papel poucos anos depois, em OS DIAMANTES SÃO ETERNOS, de 1971. E renovaria sua licença para matar com o lançamento “não oficial” de 007 – NUNCA MAIS OUTRA VEZ já nos anos 80.

De qualquer forma, SÓ SE VIVE DUAS VEZES conclui a fase “clássica” de Connery como Bond.

Produzido durante a corrida espacial, COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES exibe uma atmosfera oportuna da política da guerra fria. O roteiro foi escrito pelo amigo de Ian Fleming (criador do personagem), Roald Dahl, e sua imaginação fértil serve muito bem ao filme, na maioria das vezes. Na trama, a União Soviética e os Estados Unidos se culpam pelo misterioso sumiço de suas cápsulas espaciais fora de órbita e a guerra nuclear entre as duas superpotências parece iminente.

O Serviço Secreto da coroa britânica descobre pistas que levam a crer que os foguetes estejam sendo mantidos no mar do Japão e designa Bond para a missão. Portanto, 007 vai para o Japão rastrear as cápsulas espaciais roubadas, correndo contra o relógio, e descobre que o maníaco Ernst Stavro Blofeld (Donald Pleasence) e sua organização terrorista SPECTRE planeja incitar uma guerra global em larga escala. Com a ajuda de agentes japoneses e um exército de ninjas liderados por Tiger Tanaka (Tetsuro Tamba), Bond mais uma vez se arrisca para salvar o mundo da destruição.

Com um enredo desses é até difícil apontar problemas em COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES, até porque talvez não tenha nada de errado mesmo, talvez uma certa falta de substância para se igualar aos exemplares que vieram antes, como se este aqui já assumisse uma veia escapista e de pura diversão. O próprio Connery aparenta cansaço ao longo do filme e, embora ainda possua a aura cool e de frescor que funciona tão bem, o sujeito já não tem tanto aqui a faísca necessária (não ajuda o fato de colocarem o sujeito numas situações bem constrangedoras, como a cerimômia de seu casamento de fachada com uma japonesa, entre outras coisas…)

Mas o filme ainda apresenta uma boa coleção de momentos memoráveis ao longo de suas quase duas horas. Naves espaciais que engolem outras naves, Donald Pleasance como Blofeld, piranhas que devoram pessoas, Bond se tornando um ninja… Lewis Gilbert faz sua estreia na série (retornaria dez anos depois com OS ESPIÃO QUE ME AMAVA) e trouxe um olhar mais moderno, fornecendo um bom ritmo e algumas das melhores sequências de ação da série até esse ponto.

Uma coisa que sinto falta é a presença de vilões mais marcantes em COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES. Como disse, temos Pleasence como Blofeld, o que já torna o filme essencial. Mas embora saibamos que o pior inimigo de Bond é quem está por trás dos planos diabólicos que afligem o nosso herói, Blofeld é quase uma entidade no decorrer da trama, sempre mostrado com seu gato no colo, sem revelar o rosto, da mesma forma que havia aparecido em CHANTAGEM ATÔMICA.

Quando seu rosto é revelado ao público e finalmente vemos o grande Pleasence encarnando o personagem, já é tarde de mais, já estamos no final do filme e não temos Pleasence o suficiente na tela… Ainda assim, o sujeito está sensacional, com um visual incrível e impecável na atuação.

O que realmente vale destacar em COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES são as sequências de aventura e ação. Há uma maravilhosa perseguição de carros pelas ruas de Tóquio, temos um combate no ar envolvendo vários helicópteros que é uma belezura, e o longo clímax, uma batalha épica e deflagradora num cenário colossal (mas com excelente uso de miniaturas e bonequinhos como figurantes) entre os capangas da SPECTRE e o grupo ninja de Tiger Tanaka, com muitas explosões e alta contagem de corpos. Mesmo cenas de ação menores são muito bem realizadas: a fuga de Bond no porto encarando dezenas de capangas com tiros e pontapés possui um moderno trabalho de câmera. Há uma pancadaria entre o nosso herói e um japonês brutamontes quebrando tudo num escritório que é massa. E ainda temos Bond encarando o braço direito de Blofeld, Hans, vivido pelo meu xará Ronald Rich, aos arredores de uma piscina repleta de piranhas. Emoção pura!

No elenco, algumas figurinhas que sempre estiveram presentes até aquele momento na série, como Bernard Lee vivendo ‘M’mais uma vez, assim como Louis Maxwell e Desmond Lewelyn retornam, respectivamente, como Moneypenny e ‘Q’. E há uma participação rápida e curiosa de Charles Gray, como um contato de Bond no Japão que não demora muito para ser eliminado. Só que o ator retornaria à série em OS DIAMANTES SÃO ETERNOS como Blofeld (o personagem faria uma radical mudança facial).  

No geral, COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES é uma brincadeira divertida, com ótimos cenários (de Ken Adam), cenas de ação espetaculares, efeitos especiais que impressionam ainda hoje, um vilão maravilhoso (que infelizmente aparece muito pouco, EU QUERIA MAIS PLEASENCE!!!) e uma das melhores trilhas de John Barry (o tema cantado por Nancy Sinatra é muito bom), o que torna sempre um prazer revisitar…

E se GOLDFINGER iniciou a tendência de aventura pitoresca nos filmes de Bond e CHANTAGEM ATÔMICA levou esse conceito a um nível muito maior e mais complexo, COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES continua a idéia e a torna ainda mais exagerada. Mas a progressão continua, a ação galhofeira que temos aqui nem é tão absurda assim em comparação com o que ainda estava por vir na série…

CINE POEIRA – EPISÓDIO 05

No programa desta semana do CINE POEIRA, a equipe se diverte ainda mais do que o de costume ao conversar sobre OLHO POR OLHO (An Eye for an Eye, 1981)! Dirigido por Steve Carver (de MCQUADE – O LOBO SOLITÁRIO), o filme é uma pérola do período pré-Cannon na filmografia do nosso querido Chuck Norris.

O podcast CINE POEIRA está disponível aqui mesmo no blog:

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DESEJO DE MATAR (1974)

É preciso ter um certo cuidado ao falar de DESEJO DE MATAR hoje em dia. A clássica história do sujeito que perde a família num violento ataque criminoso e resolve agir por conta própria, com uma arma em punho, exterminando meliantes na calada da noite, pode gerar ideias imbecis na cabeça dos proto fascistas que se transvestem de bons cidadãos. Baseado num livro de Brian Garfield, o que temos aqui é um dos conceitos mais controversos colocados em película na década de 1970, lançou o subgênero “Vigilant Movie” e capturou uma certa psique coletiva a procura de respostas fáceis para escapar do trauma infligido pelo crime desenfreado do período.

E como esse problema social perdura até hoje, ao longo dos anos vários exemplares, rip-offs, spin-offs e inspirações de DESEJO DE MATAR foram surgindo até esgotar suas possibilidades. Tivemos até recentemente um remake oficial, dirigido por Eli Roth (O ALBERGUE) e estrelado por Bruce Willis, que quase ninguém gostou, embora eu ache um filme bem ok. No entanto, é sempre bom revisitar a fonte: esta obra-prima casca-grossa e classuda de Michael Winner que transformou Charles Bronson num ícone e gerou nada menos que quatro sequências.

Bronson, aos 53 anos à época, imortalizou a figura de Paul Kersey, o símbolo máximo do cidadão comum que resolve fazer justiça com as próprias mãos, realizando aqui um de seus trabalhos mais fortes, com seu rosto de pedra impassivo, mas que esconde um indivíduo que chegou no limite entre o seu tormento pessoal, que o despe dos códigos de ética, e a psicopatia que faz agir com violência pra cima de criminosos. Kersey é um arquiteto que trabalha para uma grande empresa em Nova York e numa tarde qualquer, sua esposa e filha são atacadas por uma gangue (que tem como um dos membros um jovem Jeff Goldblum). Sua esposa, Joanna (Hope Lange), é morta e sua filha, Carol, é brutalmente estuprada e nunca se recupera psicologicamente do ataque.

A empresa de Kersey decide que seria uma boa ideia se ele saísse de Nova York por um tempo, e acaba enviado à Tucson para verificar um projeto que estão pensando em financiar. No local, Kersey conhece Ames Jainchill (Stuart Margolin), um empreendedor imobiliário excêntrico, e surge uma amizade entre eles enquanto elaboram os detalhes do desenvolvimento proposto. Ames é um entusiasta de armas e convida o protagonista para o clube de tiro local. Kersey confessa que serviu o país na Guerra da Coréia, reforçando seu surpreendente talento com uma pistola. Quando é hora de voltar a Nova York, Ames dá a Kersey um presente de despedida – um revólver calibre .32 com cabo de pérola.

Ainda traumatizado e um pouco nervoso em andar pelas ruas de Nova York, Kersey carrega o revólver consigo. E quando é confrontado por um assaltante armado, ele acaba usando o berro em sua em defesa. E a beleza de DESEJO DE MATAR é que nunca há um alvo específico na mira de Kersey, já que não demora muito para ficar óbvio que existe pouca chance dos criminosos que trouxeram desgraça a Kersey serem levados à justiça. Há até uma certa ambiguidade que não deixa claro, a princípio, se Kersey simplesmente decidiu dar suas voltas noturnas com um trabuco no bolso ou se ele realmente estava esperando encontrar assaltantes para mandar para a vala. Este ponto é deixado deliberadamente vago, presume-se que o próprio Kersey não poderia responder caso fosse perguntado…

Há uma cena mais cedo, antes de ir à Tucson, em que Kersey é abordado por um assaltante, e sua reação, meio que no desespero, é acertar uma meia cheia de moedas na cara do sujeito, que foge correndo. Mas nada que indicasse que se tornaria um vigilante psicopata. No entanto, depois de matar o primeiro meliante, Paul Kersey dá início a uma temporada de caça à bandidagem de um modo geral. Ele nunca vai atrás de vingança contra os assassinos da sua mulher. Sua vingança é mais ideológica.

Quando Kersey começa a reduzir a população de meliantes, a polícia (representada na figura de Vincent Gardenia) e a prefeitura estão em uma espécie de dilema. Eles não querem um vigilante vagando pelas ruas, mas também não querem prender alguém que está contribuindo com a diminuição da criminalidade – e sabem que o misterioso vigilante está se tornando um herói popular e, se preso fosse, se tornaria um mártir. Mas ao julgar DESEJO DE MATAR é importante colocá-lo em seu contexto histórico. O filme é um produto de sua época. Em 1974, o crime nos EUA realmente parecia estar fora de controle e as pessoas comuns tinham sérias dúvidas quanto à capacidade e disposição da polícia e dos tribunais para protegê-los de crimes violentos. Essa situação havia surgido em um período relativamente curto, não muito mais que uma década, e parecia estar se acelerando. Nova York, em 1974, era um lugar muito mais violento do que é hoje.

O filme tenta ser fiel a essa realidade. Logo no início, após chegar de suas férias numa praia paradisíaca, um colega de Kersey o atualiza dos números absurdos da criminalidade em NY no período em que esteve fora. E é de assustar até quem mora no Rio de Janeiro hoje em dia… Em outro momento, no hospital em que sua mulher e filha foram atendidas, Kersey observa um sujeito com a cabeça toda ensaguentada e comenta que ninguém vai atendê-lo…

Neste quadro específico, o filme acaba sendo de alguma maneira simpático às atividades de vigilante de Kersey, o coloca como uma espécie de “herói”, mais como uma personificação da análise social, aberto às reflexões de todo um contexto, e menos um action hero justiceiro que muitos pintam por aí.  Portanto, a coisa não é tão simplista como algumas das análises mais histéricas que surgiram na época.

Previsivelmente, grande parte da crítica odiou o filme aos gritos de reacionário e de incentivar a violência. Já o público amou, mesmo não captando a profundidade da sua análise, até porque como filme de crime, DESEJO DE MATAR é uma obra impecável. Foi um grande sucesso de bilheteria, enfurecendo ainda mais os indivíduos que só enxergam as coisas de modo literal e após o seu lançamento era até difícil encontrar um crítico dizendo uma única palavra positiva sobre o diretor Michael Winner.

Na verdade, Winner sempre fora muito bom em dirigir filmes de ação com uma dose a mais de brutalidade. Só com o Bronson chegou a realizar seis filmes em parceria e a maioria retratando o que há de mais violento no ser humano.

A sequência em que a gangue invade o apartamento de Kersey, por exemplo, é brutal, uma aula de subversão, de como criar imagens chocantes, um trabalho incrível que contrasta um primor de encenação com selvageria desenfreada. Até acho que é perfeitamente legítimo não gostar de filmes violentos, cada um tem sua sensibilidade, mas é preciso admitir que Winner é um baita diretor neste quesito, sabe construir tensão e filmar sequências que exigem estômago do espectador com muita classe, e DESEJO DE MATAR é um de seus melhores trabalhos nesse sentido.

Uma pena, portanto, que seu talento tenha sido apagado pelo teor reacionário que os críticos vêem na obra. Tá certo que Kersey mata seus adversários sem qualquer remorso, estando eles armados ou não, pela frente, pelas costas, etc… Na segunda noite em “ação”, por exemplo, Kersey adentra um beco em que um velhote está sendo espancado por três mal encarados. Eles avistam Kersey, começam a rodeá-lo, nenhum deles com arma de fogo, mas Kersey não quer nem saber, começa a disparar contra os meliantes sem pensar duas vezes, inclusive pelas costas, quando um tenta escapar e já não apresenta perigo algum. Mas faz parte do reflexo lógico de análise de Winner, de desafiar o espectador, é algo que com um olhar mais cuidadoso revelaria um filme bem mais complexo.

Quanto a Bronson, DESEJO DE MATAR certamente o estereotipou, mas trouxe-lhe o estrelato nos EUA após uma longa espera (ele já tinha um público entusiasmado na Europa). Como é habitual, Bronson tem poucas falas por aqui, o que faz parte da persona do ator, mas funciona bem em seu personagem. Se Paul Kersey fosse um homem que pudesse articular seus sentimentos verbalmente com facilidade, ele provavelmente não teria se tornado um vigilante. Embora seja bom salientar que ser uma pessoa articulada não ajuda muito quando você é confrontado por um bandido empunhando uma faca na sua direção…

DESEJO DE MATAR não é bem um filme de ação no sentido “empolgante” do gênero. As cenas de assassinato são rápidas, simples e cruas, sem nada de espetacular. Mas servem ao propósito de provocar. Uma das sequências mais marcantes, para citar mais um exemplo, é a do vagão de metrô, em que Kersey engana o meliante atirando por trás do jornal. Em seguida, atira em outro bandido e logo depois atira de novo, com os malandros já estendidos no chão, para garantir que ambos não voltem a respirar. Tudo isso para enfatizar a psicopatia do “herói”. São várias sequências assim, que fazem a rotina noturna de vigilantismo de Kersey e constrói um dos personagens mais fascinantes do cinema de gênero dos anos setenta.

Por trás de um crime movie classudo, com excelente performance de Bronson, bela trilha sonora de Herbie Hancock, DESEJO DE MATAR é um filme perturbador e confrontante. Te coloca numa posição incômoda como espectador e aborda o assunto da violência de uma maneira muito direta. E por mais que possua esse revestimento de filme de gênero, é sempre bom lembrar aos desatentos a densidade da coisa, que se trata de uma obra de ficção e os atos de seu protagonista não são um discurso fechado à favor da “justiça com as próprias mãos“. O filme é uma hipótese, levanta questões, é uma reflexão dramática de um tema cabeludo.

Seria uma estupidez achar que se trata de uma bandeira levantada convocando a população a pegar em armas para se defender. Obviamente não compactuo com a ideia de “bandido bom é bandido morto“. Não é porque sou fãs de DESEJO DE MATAR e filmes de ação da era Reagan que quero que existam policiais como Cobra e Dirty Harry ou vigilantes como Paul Kersey na vida real. Deixemos essas figuras atuarem apenas na ficção…

Texto originalmente escrito para o Action News em Agosto de 2018.

THE TAX COLLECTOR [trailer]

Saiu o trailer oficial de THE TAX COLLECTOR, estrelado por Shia LaBeouf e Bobby Soto, o mais novo thriller policial sujo e desagradável do diretor DAVID AYER.

Sinopse: David Cuevas é um homem de família que trabalha como cobrador de impostos para membros de gangues de alto escalão de Los Angeles. Faz cobrança em toda a cidade com seu parceiro, o violento e psicopata Creeper, garantindo que as pessoas paguem ou tenham a devida retaliação. Só que uma velha ameaça retorna a Los Angeles, o que coloca tudo o que David ama em perigo…

David Ayer também escreveu o roteiro do filme – e que foi realizado/filmado há mais de dois anos e, finalmente, está programado para ver a luz do dia. É um dos diretores mais interessantes da atualidade na minha opinião (mesmo tendo feito ESQUADRÃO SUICIDA…), mas que já nos deu alguns filmes bastante intensos, como o épico da Segunda Guerra, CORAÇÕES DE FERRO, e outras coisas legais do gênero crime movie contemporâneo, como END OF WATCH, SABOTAGEM e indo mais longe TEMPOS DE VIOLÊNCIA, além do roteiro de DIA DE TREINAMENTO. E esse novo, THE TAX COLLECTOR, parece continuar a tradição pela qual o cineasta é conhecido.

Agora saca só esse trailer: