PERFORMANCE (1970)

Antes de adentrar em PERFORMANCE, filme que finalmente assisti esta semana, deixem-me  falar um pouquinho dos dois grandes responsáveis por esta maluca e psicodélica obra existir. PERFORMANCE foi o primeiro filme dirigido por dois sujeitos que viriam se tornar grandes diretores, e que aqui acabaram dividindo os créditos na função: Nicolas Roeg & Donald Cammell.

O primeiro vocês já devem conhecer, fez alguns filmes cultuados, especialmente nos anos 70, como WALKABOUT, INVERNO DE SANGUE EM VENEZA e O HOMEM QUE CAIU NA TERRA. A partir dos anos 80 seu trabalho começa a ficar meio ignorado e não tão celebrado, embora ainda tenha grandes filmes. Na altura em que realizou PERFORMANCE, Roeg já era um respeitável diretor de fotografia, tendo no currículo umas coisas bonitas como ORGIA DA MORTE, de Roger Corman, FAHRENHEIT 451, de François Truffaut, e DOUTOR JIVAGO, de David Lean. E foi para essa função, de diretor de fotografia, que Roeg fora contratado, inicialmente, em PERFORMANCE.

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Mick Jagger com Nicolas Roeg

Agora, talvez você nunca tenha ouvido falar do outro sujeito. Donald Cammell não possui o mesmo prestígio de Roeg, mais por “ignorância” da cinefilia, que nunca lhe deu a devida atenção, do que por seu talento. Quem pega para ver seus filmes nota logo de cara que o sujeito era especial. Infelizmente se suicidou em abril de 1996 deixando apenas quatro filmes finalizados (e vários clipes do U2), após uma luta inglória de décadas tentando conseguir realizar obras autorais e inovadoras, tendo seus filmes mutilados pelas produtoras… Além de PERFORMANCE, fez DEMON SEED, WHITE OF THE EYE e WIDE SIDE.

Na época, Cammell era roteirista, foi ele quem escreveu PERFORMANCE e à princípio ele seria o único diretor. Tinha em mente Marlon Brando como protagonista, um gangster americano vivendo em Londres chamado Chas que acaba se envolvendo com um astro do Rock, interpretado pelo vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger. Brando acabou não pegando o papel e sobrou para James Fox.

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Anita Pallenberg com Donald Cammell

Apesar de ser essencialmente um filme britânico, PERFORMANCE foi produzido pela Warner Bros., cujo interesse no projeto era oportunidade de lançar uma comédia ao estilo de OS REIS DO IÊ IÊ IÊ e HELP, ambos dirigidos por Richard Lester e estrelados pelos Beatles, algo que o próprio Cammell havia sugerido ao vender a ideia para a produtora. O problema é que enquanto Cammell trabalhava no roteiro, o sujeito ficou meio obcecado com temas menos tradicionais, como identidade de gênero, sexualidade, drogas e violência, o que levava o projeto para um lado bem mais sombrio.

A coisa chegou num ponto que, quando as filmagens começaram, Cammell tomou consciência de que não tinha ideia do que estava fazendo atrás das câmeras e precisava de mais alguém para ser os olhos, que cuidasse do visual, enquanto ele focava em criar a atmosfera que queria e a tensão entre os atores… Foi aí que Roeg assumiu a parceria e dividiu a responsabilidade na direção.

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As filmagens rolaram em 1968. E quando o pessoal da Warner viu o produto final, ficaram horrorizados… O filme não tinha nada a ver com o que eles esperavam  e arquivaram PERFORMANCE indefinidamente. Dois anos depois, quando a Warner mudou algumas cabeças, na renovação que foi o cinema da Nova Hollywood, o filme finalmente viu a luz do dia, no final de 1970 (após uma dramática remontagem).

E tudo isso revela alguns indícios que as histórias sobre a conturbada produção de PERFORMANCE são quase tão malucas e interessantes quanto o próprio filme. Alguns mitos surgiram, alguns nem são verdadeiros, outros são:

  1. Dizem que James Fox ficou tão imerso no seu personagem, que acabou indo longe demais, se envolveu com bandidos de verdade para estudar o seu papel. Ficou tão transtornado que terminou o filme como um cristão “nascido de novo”. Ficou um bom  tempo longe do cinema depois dessa experiência. Seu filme seguinte data de 1976.
  2. Uma das histórias que mais gosto é a que Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, teria ficado incomodado com as cenas de sexo que a namorada, Anita Pallenberg, filmou com Jagger, que eram, digamos, muito realistas… E há relatos que os dois realmente não estavam “atuando” e chegaram às vias de fato. Richards teve que ser banido dos sets de tanto que enchia o saco da equipe, bebendo e se drogando sem parar…
  3. Aliás, o consumo de grandes quantidades de drogas eram incentivadas pelo próprio Cammell aos atores durante as filmagens para que vivessem os personagens de forma mais autêntica, com direito à uma cena em que Pallenberg é filmada injetando heroína à vera…
  4. Algumas dessas filmagens do coito de Jagger com Pallenberg deram um problemão danado quando os negativos foram enviados pra reveleção e o laboratório se recusou a processar as imagens. Foram consideradas pornográficas. Há relatos que muito desse material foi destruído. Mas o que sobreviveu aparentemente foi editado (supostamente pelo próprio Cammell) em um pequeno filme pornô que ganhou um prêmio em algum festival pornô underground de Amsterdã…

Enfim, mesmo todos os contos mais excessivos envolvendo sexo, drogas e, bom, você sabe, rock ‘n’ roll, durante a produção, nunca eclipsou o poder visceral do próprio filme, tornando-se uma peça chave do famigerado momento final dos anos 60, tanto em forma quanto em conteúdo.

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PERFORMANCE começa como uma historinha de gângster, mas embebedada com algumas excentricidades visuais, com uma experimental, totalmente confusa e estranha montagem (algo que se repetiria no cinema de Roeg) que alterna imagens numa edição caótica com sobreposição, justaposição e cortes rápidos entre as cenas, mais especificamente de duas pessoas fazendo sexo, um Rolls Royce se deslocando pelas ruas, o discurso de um advogado num tribunal, entre outras coisas. E eu não tava entendo um caralho!

Aos poucos a narrativa vai entrando nos eixos, embora nunca fique, digamos, normal. A trama, na superfície, é até simples: Chas (Fox) é um jovem gângster do tipo durão utilizado quando a situação necessita de força bruta e violência, que trabalha para um mafioso chamado Harry Flowers (Johnny Shannon). Harry adverte Chas para não se envolver num determinado caso: uma sala de apostas administrada por um dos antigos associados de Chas. Mas o rapaz ignora e acaba fazendo merda, causando um problemão danado para Harry. Agora, Chas se vê com a cabeça à prêmio, foge e se refugia em uma casa cujos habitantes vivem o último suspiro da ideologia hippie, entre eles, Turner (Jagger), um astro de rock recluso. Turner e suas duas amiguinhas (Pallenberg e Michele Breton) permitem que Chas fique no local e logo o fluxo constante de alucinógenos e sexualidade andrógina afetam a realidade de Chas.

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Mas os jogos constantes entre Turner e Chas vão muito além de um encontro de dois mundos. Claro, PERFORMANCE reúne dois universos insulares e incompatíveis, o submundo criminal britânico e a contracultura dos anos 60, mas uma vez que os dois mundos colidem, Roeg/Cammell dão o próximo passo para mesclar os envolvidos criando um retrato vívido da natureza mutável da identidade e dualidade, da transferência de personas, de uma estranha simbiose entre o violento mafioso e o roqueiro hippie. Chas se torna Turner e Turner se torna Chas. Tudo conduzido num estado de desordem, cuja realidade não possui mais limites.

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Enfim, PERFORMANCE é desses filmes que faz questão de deixar o público confuso e instável até finalmente chegar num ponto de se acostumar com a estranheza narrativa, com a estranheza das situações, especialmente quando a Chas finalmente se conecta com Turner. É como se Roeg e Cammell dissessem já nas primeiras imagens: “Não fique muito confortável, porque o bagulho é louco!“. Mas o filme também é dessas experiências fascinantes e hipnotizantes que o cinema desse período conseguia proporcionar, desde a edição estilisada, o visual psicodélico, aos excelentes desempenhos de Fox e Jagger. Quem estiver a fim de algo que foge completamente dos padrões, vale a pena conhecer PERFORMANCE.

CINE POEIRA – EPISÓDIO 04

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VOCÊÊÊÊ! VOCÊÊÊÊ! VOCÊÊÊÊ… e todos vocês que escutam o CINE POEIRA! No episódio desta semaana a equipe comenta sobre EXORCISMO NEGRO, filme de 1974 dirigido e estrelado por José Mojica Marins, o indiscutível rei do cinema de horror brasileiro. O quarto episódio de nossa primeira temporada já está disponível em várias plataformas.

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FRANKENHOOKER (1990)

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FRANKENHOOKER é um dos filmes mais dementes do Frank Henenlotter, o mesmo gênio do cinema de horror/comédia de baixo orçamento que realizou a trilogia BASKET CASE e BRAIN DAMAGE, só pra ter uma noção do nível de insanidade que é isso aqui. Só fui assistir agora, era o único filme de “ficção” do Henenlotter que não tinha visto ainda (agora tenho que ver os documentários, que parecem muito bons),  mas trata-se de uma obra que ganhou, desde seu lançamento em 1990, um status cult, graças à ideia maluca de ressignificar o mito de Frankenstein às avessas, cujo “monstro” trazido à vida é formado por membros de prostitutas que explodiram ao fumar um super crack, tudo embalado no humor escrachado títpico do diretor!

Quando o filme começa, Elizabeth Shelley (Patty Mullen) está animada para dar ao pai o seu presente de aniversário, um cortador de grama poderoso, turbinado e com controle remoto construído pelo seu noivo, Jeffrey Franken (James Lorinz), um jovem gênio eletricista – que curte realizar experiências medicinais como hobbie. Elizabeth aperta o botão no controle para fazer uma demonstração aos convidados na festinha de aniversário do querido pai e antes que você perceba, ela é triturada como uma salada de repolho pela máquina…

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O tempo passa e, lidando com sua própria dor, Jeffrey começa a formular um plano para trazer de volta sua amada noiva. Usando seus conhecimentos de eletricidade e medicina, o sujeito desenha, durante os créditos de abertura, o que é a gênese do renascimento de Elizabeth. Uma das poucas coisas que sobrou da moça no acidente foi sua cabeça, que o rapaz mantém num líquido rosa na garagem de sua casa, que serve também de laboratório. O que Jeffrey precisa agora é de um corpo…

E a bizarrice se intensifica. Para dar uma estimulada no cérebro e fluir seus sucos criativos, Jeffrey cutuca seu crânio com uma furadeira elétrica e quando as sinapses inspiradoras começam a disparar, ele descobre que a melhor maneira de reconstruir sua namorada é, obviamente, contratar prostitutas e escolher as melhores partes de cada e remontar sua amada. Então ele vai até Nova York e inicia o processo de seleção no típico cenário que Henelotter adora filmar: as ruas sujas e escuras de uma NY decrépita e de atmosfera decadente como vimos no primeiro BASKET CASE.

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Depois de conhecer algumas amáveis ​​damas da noite e tentar convencê-las a ajudá-lo, Jeffrey acaba apresentado ao cafetão delas, um sujeito parrudo chamado Zorro (Joseph Gonzalez), que negocia todo o esquema dentro de um banheiro de boate lotado de crackudos. No fim,  Zorro permite que Jeffrey faça uma reuniãozinha com algumas de suas melhores mulheres numa espelunca de hotel…

É quando rola a sequência mais inacreditável de FRANKENHOOKER. Várias garotas semi nuas, com o pobre Jeffrey fantasiado de médico, analisando a massa corpórea das moças, medindo a espessura das coxas, o formato dos mamilos, os moldes das bundas, o comprimento das pernas e braços, enfim, cada centimetro que possa encaixar no quebra-cabeça que vai ser montar o corpo perfeito para sua Elizabeth. E as prostitutas sem entender direito o que está acontecendo…

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Até que elas encontram uma sacola gigante de crack que Jeffrey havia manipulado para deixá-las mais à vontade, mas que acabou resultando numa droga tão podersa que os efeitos colaterais são bem graves… Basicamente faz o usuário explodir, simples assim. A pessoa fuma a pedra e BUM! Explode. E é o que acontece, um espetáculo de corpos de prostitutas explodindo, ao som do que Jeffrey se refere à “música do demônio”, com direito ao Zorro arrombando a porta e sendo nocauteado por uma perna que voa na sua cara… Um grande momento de garbo e elegâncio do cinema de Frank Henelotter.

No fim, depois de todos os corpos explodidos, e membros femininos espalhados pra tudo quanté lado, Jeffrey reúne todas as partes que ele precisa usar e as leva para casa onde finalmente constrói um novo corpo para Elizabeth, anexado à sua cabeça decepada. Uma esperada tempestade chega bem à tempo e o corpo reconstruído recebe a voltagem necessária para reviver. Mas o resultado não sai exatamente como Jeffrey esperava…

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Grotesco e engraçado, FRANKENHOOKER é, assim como os outros filmes do diretor, um paradoxo, ao mesmo tempo inteligente e completamente idiota. Mas no fim das contas, Henelotter faz aqui algumas interessantes reflexões, um conto moral sobre a desilusão na idealização romantica que as pessoas comumente fazem da pessoa amada. E Jeffrey sabe que ao ressuscitar Elizabeth nada seria como era antes, mas ao menos ele idealiza uma alma gêmea que possa amar como no passado… Mas não é exatamente isso o que acontece à princípio. E o filme vai mais além, porque o sujeito ainda fica obcecado com uma construção detalhadamente perfeita do corpo, o que não deixa de ser uma análise curiosa sobre a ditadura da beleza. No desfecho, Jeffrey acaba provando do seu próprio remédio e definitivamente “ganhando” um corpo perfeito.

Henenlotter, um verdadeiro fã do universo do B-Movie dilui essas ideias no tom desinibido do filme e nas muitas homenagens que ele faz (FRANKENSTEIN, é claro, mas também para O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER e coisas do tipo) e nas suas próprias compulsões estéticas. No entanto, a restrição orçamentária acaba sendo um obstáculo à sua liberdade de ação e os efeitos especiais são os primeiros a sofrer.

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Mas aí que tá a graça da coisa. Até porque FRANKENHOOKER é o tipo de filme que o próprio realizador não faz questão que levemos tudo à sério. Portanto, esse aspecto dos “defeitos” especiais não é exatamente uma falha, pelo contrário, acaba fornecendo um charme a mais, especialmente na tal cena com as prostitutas explodindo, que é o tipo de sequência que exige muita trucagem e pirotecnia, onde o resultado tosco fica mais evidente… E mesmo assim, Henenlotter consegue deixar tudo lindo, com muito mais alma do que qualquer esforço gerado por computador.

No que diz respeito às atuações, a coisa deve ser encarada com o mesmo espírito. Ninguém aqui vai ganhar nenhum prêmio importante, nenhum mérito artístico por suas performances, e os atores sabem disso, mas até que funcionam bem para o que é exigido. Vale destacar, por exemplo, o desempenho adorável de Patty Mullen, em especial depois de ser ressuscitada, com toda expressão facial e corporal que a personagem requer.

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Aparentemente, Bill Murray é um grande fã de FRANKENHOOKER, que foi citado na capa do DVD do filme, lançado em 2006, dizendo “Se você for assistir só a um filme este ano, que seja FRANKENHOOKER”. Não seria uma escolha ruim… E, bom, para quem já está familiarizado com o trabalho de Frank Henenlotter, já sabe exatamente o que esperar disso aqui. Mas se você não essa familiaridade acho que este post deve dar conta. Recomendo também aos fãs do universo de Frankenstein para apreciarem a mais uma possibilidade de expansão desse universo tão vasto criado por Mary Shelley e que aqui é acrescentado alguns ingredientes que nunca decepcionam: muito sangue, nudez e motivos para boas risadas.

CINE POEIRA – EPISÓDIO 03

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Daniel Bernhardt vs. Ciborgues e dinossauros!

No terceiro episódio do CINE POEIRA, a gente comenta sobre uma tranqueira inacreditável, vinda do cenário “direto para o vídeo” dos anos 90: O GRANDE DRAGÃO DO FUTURO, filme estrelado por Bernhardt e ninguém menos que Robert Z’Dar!
Escute o podcast e assista ao filme… Se você for capaz!

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Espero que divirtam-se.
Semana que vem tem mais.

JOEL SCHUMACHER

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Ficou marcado por ser o diretor dos filmes do “Batman de mamilos”. Não era nenhum gênio, mas acho que Joel Schumacher teve mais acertos que erros na carreira. Fez bastante coisa legal que eu não coloquei na lista de poster abaixo, como O PRIMEIRO ANO DO RESTO DE NOSSAS VIDAS, POR UM FIO, TIGERLAND e vários outros que preciso rever, mas pelas lembranças são bons (TEMPO DE MATAR). Tem coisa que nunca vi também, confesso (O CLIENTE, THE NUMBER 23 e vários dos mais recentes)…

Dirgiu duas vezes o Nicolas Cage. Já merece meu respeito. E, que me perdoem os fanboys de plantão, prefiro BEM MAIS os “Batman de mamilo” do Schumacher do que a trilogia inteira dos Batman do Nolan…

Acho que o único texto que escrevi sobre um filme dele foi este de LOST BOYS.

Tinha 80 anos. RIP

TARKOVSKY PELA CPC-UMES FILMES

A CPC-UMES FILMES dedica seus próximos dois lançamentos, em DVD e Blu-Ray, ao diretor Andrei Tarkovsky. O lançamento de JULHO será ANDREI RUBLEV (1966), drama que conta a trajetória do maior pintor de ícones da escola medieval russa. O filme é bastante aguardado pelos colecionadores, assim como o era STALKER, também do diretor, que foi lançado em fevereiro deste ano.

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SINOPSE
“No verão de 1400, Andrei Rublev (1360-1430) deixa o monastério onde foi criado e vai a Moscou com o objetivo de pintar os afrescos de uma catedral do Kremlin. Lá é confrontado com a violência e as dificuldades a que o povo russo era submetido – na época, a pobreza e as invasões tártaras. Durante a missão, ao tentar salvar uma jovem, Rublev termina matando seu agressor e é preso, passando anos recluso e recolhido ao silêncio. O filme é dividido em histórias curtas que desenham uma visão dos caminhos que levaram o monge, canonizado em 1988, a se tornar um artista, formando a sua personalidade e fornecendo as motivações para que ele se tornasse o maior pintor de ícones da escola medieval russa.”

ANDREI RUBLEV será lançado em 08/07/2020, em DVD e Blu-Ray, e já está em pré-venda no site da CPC-UMES Filmes.

Mais informações no link https://bit.ly/2XHR4V2

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Já em AGOSTO, a CPC-UMES Filmes em parceria com a Versátil, vai relançar SOLARIS (1972) em Blu-Ray, numa EDIÇÃO ESPECIAL, o monumental épico de ficção científica de Tarkovsky, em versão restaurada em alta definição, trazendo mais de duas horas de vídeos extras, incluindo cenas excluídas e depoimentos.

SINOPSE
Cientista enviado para investigar estranhos fenômenos ocorridos na estação espacial que orbita o planeta Solaris, reencontra ali a esposa que se matara há 10 anos. Depois de ser bombardeado com raios-x, o enigmático oceano que cobre o planeta parece dotado de alguma forma de razão com poderes para penetrar no íntimo dos seres humanos e materializar suas memórias, tornando-as reais através da criação dos “visitantes”. O filme recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes em 1972.

EXTRAS
Extras: Cenas excluídas e alternativas (25 min.), Depoimentos de Natalya Bondarchuk (33 min.), Vadim Yusov (34 min.), Mikhail Romadin (17 min.), Eduard Artemyev (22 min.), Trecho de documentário sobre o escritor Stanislaw Lem (5 min.)

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A pré-venda antecipada de SOLARIS, que vai até 05 DE JULHO, tem um desconto especial de 10 REAIS! De: R$ 69,90 POR R$ 59,90!

O produto está disponível nos links abaixo:

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DA 5 BLOODS (2020)

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Quando comecei a assistir DA 5 BLOOD, novo petardo de Spike Lee, me veio logo à mente seu filme anterior, aquela maravilha chamada BLACKKKLANSMAN, que termina mostrando imagens reais das cenas lamentáveis em Charlottesville, com aquele bando de lixo humano, também conhecidos como supremacistas brancos, fazendo passeatas, carregando tochas, causando repugnância só de olhar. Spike fez questão de mostrar a tragédia que ocorreu naqueles dias quando um desses nazistas avançou de carro pra cima de um grupo manifestante anti-racista, deixando 28 pessoas feridas e tirando a vida de uma jovem que lutava por igualdade racial…

DA 5 BLOODS meio que começa onde BLACKKKLANSMAN termina, fazendo um apanhado histórico com outra colagem de imagens de arquivo, de ativistas reais em luta anti-racismo, mostrando figuras importantes deste contexto, soldados negros na guerra do Vietnã e, pronto, já pensei comigo “a pedrada vai ser da pesada!”.

São trabalhos bem diferentes como obras estéticas e filmes de gênero, mas ambos possuem a mesma energia, a mesma raiva do racismo sistêmico. É tanta raiva que dá a impressão de que poderia ter sido filmado nas últimas semanas, pós assassinato de George Floyd e tudo o que rolou como consequência, de tanta sintonia com a realidade. É claro que esse racismo sistêmico sempre existiu, e por isso Spike Lee realiza filmes tão diretos, que tocam na ferida. Ainda assim, ele não poderia prever que seu filme seria lançado num momento tão preciso, tão pontual…

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Pra quem não sabe, Spike Lee e o roteirista Kevin Willmott (que havia trabalhado também em BLACKKKLANSMAN), reformularam um roteiro já existente que provavelmente não tinha muito a ver com a carga temática que resultou em DA 5 BLOODS. O roteiro era intitulado THE LAST TOUR e havia sido escrito em 2013 pela dupla Danny Bilson e Paul DeMeo.

Esses caras começaram nos anos 80 com filmecos B cult de ficção científica, como o clássico TRANCERS, de Charles Band, antes de partirem pra coisas mais mainstream, como THE ROCKETEER, de Joe Johnston, para a Disney, e o seriado de TV baseado no personagem de HQ, THE FLASH. Bilson e DeMeo tinham afinidade com cenários de guerra, fizeram ZONE TROOPERS de 1986, que mistura ataque alienígena com combatentes da Segunda Guerra (com Tim Thomerson no elenco), e o spin-off do jogo de video game THE COMPANY OF HEROES, de 2013, um direct to video de guerra com Tom Sizemore e Vinnie Jones.

Ou seja, tudo indica que o roteiro que fornece a base de DA 5 BLOODS era mais voltado para a ação/guerra escapista. A trama, de forma superficial, até deve ter se mantido intacta: Quatro veteranos da guerra do Vietnã retornam ao local nos dias atuais alegando que precisam recuperar os restos mortais de um amigo morto em combate que fora enterrado no campo de batalha. No entanto, há uma segunda razão: recuperar um tesouro, uma caixa de ouro da CIA que eles encontraram de um acidente de avião em 1971 e que também se encontra enterrado no local.

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Este “roteiro base” acabou sendo o último trabalho de DeMeo, falecido em 2018, mas que recebeu um reconhecimento especial nos créditos finais de DA 5 BLOODS. E é bacana essa homenagem porque mesmo com todas as alterações, os realizadores não negam as raízes do filme, essa premissa de filme B da Cannon dos anos 80, e mantém as impressões digitais de Bilson e DeMeo por toda parte. Mas aí entra Spike Lee, com seus personagens, texturas, temas particulares e inquietação política estridente, explorando a experiência do soldado negro no Vietnã, rastreando a fúria do ativismo negro dos anos 60 até o advento da Black Lives Matter e a Era Trump, cuja presença é sentida aqui. Então, obviamente a coisa muda de figura. E esse “a mais” de Spike casa perfeitamente com a urgência que a história transmite.

Então temos aqui quatro veteranos negros, que são Otis (Clarke Peters), Melvin (Isiah Whitlock Jr), Eddie (Norm Lewis) e Paul (Delroy Lindo) os habitantes principais dessa jornada. Mas embora não tenha um protagonista definido, é Paul quem se torna o centro emocional do filme, especialmente pelo desempenho soberbo de Delroy Lindo, que se destaca sobre os demais. E, claro, em se tratando de Spike Lee o personagem acaba tendo nuances bem mais profundas. Paul é uma das figuras mais complexas do cinema de Lee: negro, conservador, apoiador de Trump, paranóico, procurando confrontos em todos os lugares, uma bomba-relógio prestes a explodir antes mesmo de começar a vomitar sobre imigrantes, fake news e “construção do muro”, além de outros termos depreciativos ao povo vietnamita.

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Todos os quatro sujeitos são assombrados pela morte do amigo e líder da unidade, “Stormin ‘Norman” (Chadwick Boseman, que também está perfeito), o tal morto em ação, logo após recuperar e enterrar o ouro. Mas Paul é o único que não conseguiu seguir em frente durante todos esses anos. Isso se estende a seu relacionamento fraturado com seu filho David (Jonathan Majors), que nunca ganhou nada além de escárnio desdenhoso do pai. Apesar de não haver muito afeto entre eles, David aparece inesperadamente em Saigon, preocupado com o pai, e insiste em acompanhar os quatro velhos na jornada.

Através de Tien (Y Lan), uma ex-prostituta que Otis conheceu durante sua primeira passagem no local, eles se encontram com Desroche (Jean Reno), um lavador de dinheiro francês que concorda em converter o ouro pra eles. Com um mapa fornecido pelo guia Vinh (o astro de cinema de ação oriental Johnny Tri Nguyen), os quatro veteranos voltam para as selvas do Vietnã com Paul ostentando um chapéu vermelho “Make America Great Again” para o desdém de todos.

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A jornada começa com um lento passeio de barco acompanhado pela “Cavalgada das Valquírias“, de Wagner, que não é a primeira referência de APOCALYPSE NOW ao longo da narrativa. Um banner gigante do poster do filme de Coppola aparece em destaque na tela em uma boate em Saigon, onde as placas de neon do McDonalds, Pizza Hut e KFC ilustram como as coisas mudaram nos quase 50 anos desde a última vez que lá estiveram. Ao longo da trama há também uma óbvia referência ao O TESOURO DE SIERRA MADRE com o clássico tema da ganância que corrompe a alma diante do Ouro e no final ainda evoca um cenário que remete a Samuel Fuller em CAPACETE DE AÇO. Nos diálogos, os personagens aproveitam para zombar dos filmes de guerra dos anos 80 como RAMBO II e BRADDOCK, com aquele “Walker, Texas Ranger”, como se refere uma das figuras.

E sobre a ação, acho que Spike Lee nunca filmou sequências de batalhas, tiroteios, explosões, de forma tão bem orquestrada… Não assisti ao MILAGRE EM STA. ANNA, filme de guerra que Spike lançou em 2008, então não sei como são as sequências de ação por lá. Mas o único outro filme que pode ser classificado do gênero que o sujeito realizou foi a refilmagem de OLDBOY, que é uma lástima, muito ruim mesmo. Então, por enquanto bato o martelo que em DA 5 BLOODS estão as melhores sequências de ação que o homem já fez.

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Lee também corre alguns riscos com algumas escolhas, como as alternancias do formato das janelas ou como ter os atores Lindo, Peters, Lewis e Whitlock interpretando seus personagens nos flashbacks, sem rejuvenecê-los ou usar outros atores mais jovens. O que causa uma certa confusão no início, mas logo depois me parece funcionar perfeitamente. Já vi muita gente reclamando dessa opção, mas achei interessante como são apresentados em uma espécie de fluxo de consciência, é como rememorar o passado e ver a si mesmo do jeito que é agora, envelhecido, mesmo pensando em eventos que ocorreram há 40, 50 anos… Mas também porque acaba colocando os quatro velhos nas sombras para dar destaque em Boseman, o único personagem que não teve a oportunidade de envelhecer…

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Em alguns momentos DA 5 BLOODS não consegue equilibrar muito bem o material de Bilson/DeMeo com o que foi escrito por Lee e Willmott. E acaba propenso a alguns artifícios difíceis de engolir, como a sequência da descoberta do ouro. E o trio de ativistas que entram em zonas de guerra para encontrar e desarmar minas terrestres poderia ter sido limado do roteiro sem prejudicar praticamente nada na trama (mesmo um dos atores sendo o grande Paul Walter Hauser)… Mas depois de um certo “ponto de virada”, o filme fica mais pesado, mais carregado de ação, violência, o personagem de Lindo vai ficando mais “possuído” e o discurso de Spike cada vez mais ácido. A impressão no fim das contas é a de um filme poderosíssimo, com uma ressonância surpreendente das coisas que estão acontecendo agora. Então qualquer eventual falha fica fácil de ignorar. Ajuda muito também uma trilha sonora só com clássicos de Marvin Gaye…

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Para finalizar, é preciso detacar mais uma vez Lindo, que apresenta o melhor desempenho de sua carreira, absolutamente fascinante (num dos momentos mais intensos do filme, o sujeito faz um monólogo olhando direto pra câmera que é uma cacetada!). Como disse, é um personagem muito complexo. Li em algum lugar que aparentemente Lindo havia pedido a Spike para que seu personagem não fosse trumpista… Eu entendo o ator fazer um pedido desses, “estar na pele” de uma pessoa que apoia o Trump deve ser algo asqueroso, repugnante… Seria o mesmo que pedir pra qualquer ator brasileiro com o mínimo de caráter interpretar um apoiador do Bolsonaro. O cara deve se sentir nojento… Mas é o seu trabalho. Se tem que ser feito, que faça bem feito. E Lindo o faz com perfeição. É justamente o fato de apoiar Trump um dos detalhes que torna o personagem dele tão forte, desprezível mas ao mesmo tempo comovente. A fonte de sua agonia começa no Vietnã e retornar e encarar de perto os seus demônios não é fácil. Mas não esperem uma redenção romântica ao estilo de Hollywood. Ao mesmo tempo que Spike Lee é direto no discurso, ele subverte todas as expectativas. Por isso DA 5 BLOOD é mais uma “pedrada”. O impacto é forte mesmo que o discurso de Spike esgote-se na sua própria militância. Mas no momento em que vivemos, é preciso militar e esgotar esse tipo de discurso, nem que seja à marretada!

O filme tem distribuição da Netflix e desde o dia 12 deste mês tá disponível na grade de lá. Não deixem de ver. E vejam mais Spike Lee. O cara tem MUITO filme foda pra ser visto e revisto.

CINE POEIRA – EPISÓDIO 02

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Antes que eu me esqueça, o segundo episódio do podcast CINE POEIRA já está no ar. Esta semana, eu, Osvaldo Neto e Luiz Campos falamos sobre LOW BLOW. Um petardo produzido e estrelado pelo super badass motherfucker Leo Fong. O filme é o tipo de coisa que só poderia ter sido lançada durante os saudosos e amalucados anos 80.

Vocês podem ouvir o papo aqui mesmo no blog:

Ou em qualquer um dos links abaixo:

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Espero que divirtam-se.
Semana que vem tem mais.

A CONVERSAÇÃO (1974)

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Fazia uns vinte anos que assisti A CONVERSAÇÃO (The Conversation), de Francis F. Coppola. A única assistida, aliás, num VHS de locadora… Não sei porque nunca mais revi, mas é desses filmes que eu senti que não precisaria de uma revisão tão cedo, tamanho foi o impacto. Mas vinte anos já é demais, então hoje resolvi revisitar e continua uma belezura…

A CONVERSAÇÃO de vez em quando é lembrado como o filme que o Coppola dirigiu entre os dois primeiros PODEROSO CHEFÃO. E talvez até tenha sido prejudicado ao sair espremido no meio desses dois mastodontes cinematográficos (saiu inclusive no mesmo ano de CHEFÃO II e ambos foram indicados a melhor filme no Oscar)… Mas não consigo ver outro momento tão ideal para o filme ser lançado. Um filme tão enraizado dentro do seu contexto, praticamente um emblema do cinema político paranóico dos anos 70, num cenário que o escândalo de Watergate estava deflagrando… E é aí que testemunhamos o trabalho diário de Harry Caul (Gene Hackman), um especialista em escutas, que atua como freelancer para espionar quem quer que seja. E o cara é realmente bom naquilo que faz. Consegue captar uma conversa particular a 200 metros e obter uma representação perfeita dos diálogos. Na sua missão atual, ele ouve uma conversa meio perturbadora.

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A CONVERSAÇÃO, assim como todo o “movimento” do cinema da Nova Hollywood, é fortemente influenciado por cineastas europeus, e neste caso específico, Michelangelo Antonioni e seu BLOW UP, de 1966 – que trata de um fotógrafo que acredita ter capturado um assassinato no fundo de uma de suas fotos. Em A CONVERSAÇÃO, Harry acredita que a conversa que ele gravou – aparentemente um caso habitual de traição – pode ser evidência de um próximo assassinato, e fica obcecado com o que ouve na fita, analisando cada inflexão vocal para tentar descobrir quais os significados por trás das palavras.

À medida que as correções de Harry são feitas no som, a imagem do casal é mostrada para nós, remontada, com ângulos ligeiramente diferentes, cada vez destacando um pequeno detalhe que nos escapou e que vai se resignificando. Lembra também John Travolta em UM TIRO NA NOITE, de Brian De Palma, que por sempre “assistirem a mesma cena”, constantemente ouvirem os mesmos sons, eles acabam contaminando completamente esse universo, e daí em diante surge a fantasia, o que culmina, em A CONVERSAÇÃO, num final magnífico, cuja obsessão paranóica de Caul se transforma em tortura íntima e moral. Em questionamento ético.

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A visão da sociedade, quase kafkaniana é terrível, visionária e completamente atual, no qual a sociedade está sob vigilância, que a esfera privada foi pulverizada pela obsessão pela segurança. E Coppola sabe como fazer tudo isso minar numa impressionante estrutura formal e narrativa de suspense. E isso talvez seja uma das coisas mais legais em A CONVERSAÇÃO, uma obra que trata sobre esses assuntos relevantes sem deixar de lado os aspectos do suspense. É um baita thriller atmosférico e psicológico, que não dá muitas alternativas para o seu protagonista, que acaba trancado em sua própria armadilha, afundado na paranóia que ele próprio ajudou a criar.

Acho que vale ainda destacar a construção de Harry Caul, um desses personagens que acaba se tornando o seu ofício. Mas uma das grandes sacadas de A CONVERSAÇÃO é permitir que o personagem expresse dilemas e dúvidas morais durante cenas de intimidade, no confessionário de uma igreja ou diante de uma mulher compassiva. Caul se ressente de várias coisas, sem admitir completamente, e vai-se desenhando um personagem atormentado, que tem dificuldade em assumir moralmente as consequências de seu trabalho. Especialmente para quem possui uma fé religiosa, como é o caso de Harry, que tem consciência de que tomar o lugar de um Deus onisciente é um pecado grave, e ele sente todos os espinhos.

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Gene Hackman oferece um desempenho sutil e vigorosamente internalizado, mais silencioso do que estamos acostumados. Mas com grande força nos pequenos detalhes, uma das melhores atuações do sujeito. Gosto de brincar que INIMIGO DO ESTADO, de Tony Scott, lançado vinte e poucos anos depois, seja uma espécie de continuação de A CONVERSAÇÃO e que o personagem de Hackman, um paranóico gênio de vigilância tecnológica, talvez seja uma versão envelhecida de Harry Caul… John Cazale, Robert Duvall, Frederic Forest, Harrison Ford e Teri Garr também estão por aqui, nomes que já haviam trabalhado com Coppola e outros que ainda viriam a repetir a parceria.

Coppola dirigiu nos anos 70 mais três filmes. Os dois CHEFÕES que citei e APOCALYPSE NOW. Por vários motivos A CONVERSAÇÃO acabou não sendo tão celebrado quanto esses outros. Mas merecia. É um puta filme, um dos thrillers setentistas dos mais tensos, e uma dos melhores trabalhos de direção do homem. Enfim, não pretendo mesmo ficar vinte anos de novo sem revisitar essa maravilha.

Podcast CINE POEIRA

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Me juntei nessa quarentena a um novo projeto bem bacana. É o CINE POEIRA, um podcast onde semanalmente estarei batendo um papo com os comparsas Luiz Campos e Osvaldo Neto sobre o bom, o mau e o feio do cinema de gênero (especialmente ação, terror e sci-fi).

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E já no episódio de estreia, falamos sobre Charles Bronson em O VINGADOR (Murphy’s Law, 1986), produção da gloriosa Cannon dirigida por J. Lee Thompson.

Vocês podem ouvir o programa aqui no blog:

O programa também já está disponível para ser ouvido agora mesmo em qualquer uma dessas plataformas abaixo (aos poucos, outras serão acrescentadas):

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E não deixem de seguir o CINE POEIRA no FACEBOOK e INSTAGRAM.

 

OS PROFISSIONAIS (1966)

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O diretor Richard Brooks vinha de um fracasso com sua adaptação de Joseph Conrad, LORD JIM, de 1965, e resolveu não correr muitos riscos no seu projeto seguinte. Embora o western na sua forma clássica estivesse em relativo declínio, estava na moda em meados dos anos 60 reunir astros de grande calibre para dividirem às telas em épicas aventuras. Dos filmes de guerra, como FUGA DO INFERNO, passando pelos “Men in a Mission“, como OS CANHÕES DE NAVARONE, até os faroestes, especialmente com SETE HOMENS E UM DESTINO, a ideia de aglomerar atores de peso poderia garantir o sucesso de uma produção. E foi exatamente isso que Brooks resolveu fazer por aqui, em OS PROFISSIONAIS (The Profissionals), um western de aventura que reuniu Lee Marvin, Burt Lancaster, Robert Ryan e Woody Strode na missão de resgatar Claudia Cardinale de um revolucinário mexicano vivido por Jack Palance e seu exército.

Sim, é como se fosse uma versão dos anos 60 de OS MERCENÁRIOS. E se você olhar para este elenco e não sentir a mínima vontade de ver OS PROFISSIONAIS, você deve ter sérios problemas… Melhor ir assistir um Wong Kar Wai ou Apichatpong Weerasethakul…

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Enfim, revi OS PROFISSIONAIS esta semana e continua um dos meus westerns favoritos dessa época, ficando ali meio intermediário entre a aventura divertida na tradição de SETE HOMENS E UM DESTINO ao mesmo tempo que possui uma densidade revisionista pré-MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, que foi quando Sam Peckinpah redefiniu de vez o gênero nos EUA (algo que já vinha acontecendo gradualmente, em especial com os faroestes de Monte Hellman com Jack Nicholson, DISPARO PARA MATAR e A VINGANÇA DE UM PISTOLEIRO).

A premissa de OS PROFISSIONAIS é estruturada de maneira clássica e bastante simples. Um magnata do Texas contrata quatro experientes mercenários, cada um com uma característica especializada específica, para resgatar sua esposa sequestrada por um revolucionário mexicano, que a mantém do outro lado da fronteira. Lee Marvin vai interpretar o líder do grupo, o estrategista e especialista em armas. Burt Lancaster é experiente no manuseio de explosivos. E aqui estamos falando tanto de dinamites quanto de uma mulher fogosa (a cena que apresenta o personagem é impagável nesse sentido). Woody Strode é um atirador virtuoso com seu arco e flechas e um ótimo rastreador. E Robert Ryan é o especialista em cavalos e a consciência moral da equipe.

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Apresentados os personagens e a missão, os quatro sujeitos partem para o México numa jornada cheia de perigos num cenário de desertos e os estreitos montanhosos da região. Brooks mantém o ritmo e a ação firme para deixar as coisas mais animadas. A sequência do resgate da moça, especificamente, é um espetáculo à parte, com Woody Strode atirando flechas explosivas. Enfim, a sequência é um prodígio de pirotecnia. Depois vem a peregrinação de volta para os EUA em meio a uma reviravolta que coloca uma grande interrogação na cabeça dos nossos heróis… Considerando o contexto e o período no qual OS PROFISSIONAIS foi feito, fica óbvio o subtexto sobre a guerra do Vietnã: uma unidade de combate selecionada enviada para outro país por razões problemáticas questionando seus motivos.

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Embora seja evidente que os protagonistas da trama sejam Marvin e Lancaster, os únicos que possuem um pano de fundo, um histórico que envolve outras lutas armadas durante a revolução mexicana, é preciso destacar como Woody Strode recebe igual importância no grupo, o que já é notável para um ator negro da época no meio do elenco formado por brancos em uma produção de grande estúdio. O mesmo não dá pra dizer sobre a equipe de marketing da Columbia, que não colocou seu nome nas artes de divulgação do filme…

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O restante do elenco é fenomenal. Jack Palance, como já mencionei, surge em cena como um mexicano, queimado de sol e bigodudo. E está incrível como sempre. Eleva o seu personagem imbuindo-o de dignidade, evitando qualquer clichê maniqueista óbvio. O dramático reencontro entre Lancaster e Palance, depois de um longo tiroteio para atrasar o bando do mexicano, um jogo de gato e rato entre as rochas que é um dos grandes momentos do filme, demonstra porque Palance (e Lancaster, numa performance física impressionante) foi um dos maiores de todos os tempos. Cardinale é outro caso interessante. Sua beleza descomunal chama a atenção, mas Brooks não a utiliza como mero colírio sexual (embora haja umas ceninhas bem calientes pra época). Sua personagem é provavelmente a mais forte do filme, lutando pelo homem que ama e pela causa em que acredita. E o rico rancheiro que financia a missão é retratado perversamente por Ralph Bellamy.

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A direção de Brooks não chega nem a ser um primor, mas é de uma competencia, de uma secura, coerente com o material que filma e com a jornada desses indivíduos. Com bom senso de tensão e aventura. Não é a toa que o sujeito foi indicado ao Oscar de melhor diretor naquele ano (e também de roteiro). Adiciona-se ainda a luxuosa fotografia de Conrad Hall (que também foi indicado por seu trabalho), a trilha sonora de Maurice Jarre, uma tonelada de diálogos incríveis e OS PROFISSIONAIS se torna um filme que eu admiro cada vez mais sempre que revejo.

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Uma curiosidade: na época do lançamento, o sucesso do filme levou o estúdio a considerar uma sequência, mas com a condição de que todos os quatro atores principais estivessem envolvidos. Não queria correr riscos por causa do fiasco em torno da sequência de SETE HOMENS E UM DESTINO, no qual apenas Yul Brynner havia retornado. No entanto, durante muito tempo a agenda dos atores nunca batia para que a coisa acontecesse… Quando finalmente as agendas casaram, a saúde de Robert Ryan (devido ao câncer de pulmão) tornou impossível pra ele realizar o trabalho físico necessário para o filme. Após sua morte em 1973, qualquer plano para uma sequência de OS PROFISSIONAIS foi descartado.