STALKER (1979); CPC UMES FILMES

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STALKER, de Andrei Tarkovsky, foi o lançamento de fevereiro em DVD e Blu-Ray da CPC UMES Filmes. Por problemas técnicos, só pude rever o filme em DVD, o que não deixa de ser uma uma dessas experiências transcedentais que o cinema de Tarkovsky proporciona a cada contato com seus trabalhos seja lá em qual formato for. Em especial STALKER, que pra mim é a obra-prima do homem. Produzido pelo Mosfilm e vagamente baseado no romance de ficção científica Roadside Picnic, de 1972, escrito pelos irmãos Arkady e Boris Strugatsky (que também ficaram responsáveis pelo roteiro), STALKER é um labirinto metafórico entre uma jornada do imaginário sci-fi e uma parábola espiritual sobre medos, impulsos paradoxais, esperança e crença – em Deus? em si mesmo?

Filmado em grande parte em torno de duas usinas hidrelétricas abandonadas e de uma antiga fábrica de produtos químicos nos terrenos pós-industriais de Tallinn, na Estônia (e que ao que se supõe foi onde o diretor “pegou” o câncer que o matou menos de uma década depois), STALKER descreve uma expedição pelas profundezas da ZONA, uma região proibida em torno de uma cidade sem nome, onde tempo, espaço e realidade mudam constantemente. Onde o menor desvio do caminho pode ser fatal. E onde, em seu coração, há uma sala misteriosa supostamente capaz de tornar realidade os desejos mais profundos do homem. Pensa-se que é o subproduto de uma civilização alienígena ou de um asteroide que caiu no local algumas décadas antes. A ZONA foi selada pelo governo temeroso, e o conhecimento de seus poderes suprimidos das massas. E os únicos indivíduos que sabem se guiar por entre os segredos e os perigos ocultos da ZONA são conhecidos como Stalker.

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Os mais recentes clientes do Stalker (Alexander Kaidanovsky) que vamos acompanhar por essa jornada são um Escritor (Anatoli Solonitsyn) e um Professor (Nikolai Grinko), que têm razões diferentes, mas igualmente obsessivas, para arriscar suas vidas em busca pela iluminação na tal sala dos desejos. Mas a jornada física através da ZONA reflete a viagem psicológica interna desse Escritor, que é um sonhador trágico, do Professor, cético e racional, e até do Stalker, enquanto lutam com seus tormentos pessoais, angústias existenciais, visões de mundo divergentes um do outro e na possiblidade de tudo não se passar de uma balela…

Nas mãos de Tarkovsky, o enredo linear de STALKER se transforma numa estrutura complexa de imagens carregadas de simbolismos, paisagens atmosféricas assustadoras e diálogos filosóficos, culturais, sociais e políticos provocadores. O visual onírico e a qualidade sobrenatural que permeiam o filme são realizadas através de uma integração completa de um trabalho de câmera, som, cores… É interesante como o mundo fora da ZONA é filmado em um tom sépia que, mesmo representando um tempo futuro, remete a gravuras, fotografias de épocas ou xilogravuras, evocando assim a idéia de uma sociedade enraizada no passado.

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Em contraste, a ZONA é mostrada em cores saturadas, simbolizando a emergência dos três viajantes em um espaço desconhecido, potencialmente libertador e diametralmente oposto àquele de onde saíram. De vez em quando, Tarkovsky brinca com os dois ambientes distintos, de acordo com a ambiguidade geral da narrativa, alternando as tonalidades durante uma sequência de sonho dentro da ZONA e, posteriormente, quando o Stalker se reúne com sua esposa e filha, já no final do filme, num dos desfechos mais poderosos que eu já vi.

Para quem já está familiarizado com o trabalho do diretor, aqui não vai ter nenhuma surpresa: loooongas e leeeentas tomadas e movimentos sutis de câmera, rejeitando totalmente a ideia de uma montagem mais dinâmica. E é curioso como o estilo do diretor acaba se tornando elemento essencial de STALKER, prendendo o olhar do espectador a cada detalhe, três horas de trabalho de imersão quase sobrenatural para dentro dos mistérios da ZONA.

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Curiosa também como foi a recepção do filme na época em relação a lentidão característica do diretor. Acho que por se tratar de um sci-fi, esperavam que Tarkovsky fizesse algo parecido com STAR WARS, sei lá… E Tarkovsky cagando pra isso. Após o lançamento de STALKER, funcionários do Goskino, um grupo governamental também conhecido como Comitê Estadual de Cinematografia, criticaram o filme pelo seu ritmo. E ao ser informado de que STALKER deveria ser mais rápido e dinâmico, Tarkovsky ironizou: “O filme precisa ser mais lento e sem graça no início, para que os espectadores que entraram no cinema errado tenham tempo de sair antes de começar a ação principal”.

O representante do Goskino explicou que estava tentando dar o ponto de vista do público… E Tarkovsky supostamente respondeu: “Estou interessado apenas na opinião de duas pessoas: uma se chama Bresson e a outra se chama Bergman”. Touché.

O DVD (e o Blu-Ray) da CPC-UMES Filmes traz STALKER totalmente remasterizado, com formato de tela original, boas legendas e som e imagem de cair o queixo. Para colecionadores, que como eu só tinha aquela versão ridícula da Cocôntinental, é um item obrigatório para ter no acervo. O disco traz como extras algumas informações sobre o diretor, roteiristas, trilha sonora e trailers de outros lançamentos da CPC UMES Filmes. Já dá para encontrar STALKER nas melhores lojas do ramo, livrarias e na loja virtual da distribuidora. Não deixe também de curtir a página da CPC UMES FILMES no Facebook e instagram para ficar por dentro das novidades e os seus próximos lançamentos em DVD e Blu-Ray.

O NÃO-RETORNO DO DIA DA FÚRIA

Os últimos textos publicados no projeto DIA DA FÚRIA (um site coletivo criado em 2009 que eu editava) foi em 2018, com o especial Walter Hill. Ficou incompleto e, enfim, pouca gente se importou de fato em manter as publicações. Um tempo depois, conversando com um ou dois membros, resolvemos fazer uma última tentativa e escolhemos o diretor Mike Hodges para ser o homenageado. Só iríamos publicar alguma coisa depois que todos os textos estivessem prontos. Daí não teria a chance de mais um projeto ficar incompleto no site… A coisa não foi pra frente mais uma vez e acabou sendo o último suspiro do DIA DA FÚRIA, que realmente não tem a mínima possibilidade de retorno.

No entanto, essa última tentativa gerou dois textos inéditos, um do Marcelo Valletta e outro meu. Como o DIA DA FÚRIA não vai ver mais a luz do dia, publico aqui no blog mesmo. Primeiro, o texto do Marcelo e em breve coloco o meu por aqui também.

CARTER, O VINGADOR (Get Carter, 1971)

por Marcelo Valletta

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Após alguns anos trabalhando na TV, Mike Hodges estreou no cinema com CARTER, O VINGADOR, graças a um convite do produtor Michael Klinger. Dispostos a revitalizar o filme de criminosos ingleses, gênero que nas décadas anteriores teve exemplares excelentes, como THEY MADE ME A FUGITIVE (dirigido pelo influente brasileiro Alberto Cavalcanti) e BRIGHTON ROCK, Klinger, Hodges e o coprodutor e estrela Michael Caine aproveitaram o relaxamento da censura, uma das consequências dos Swinging Sixties, para entregar uma obra especialmente brutal.

Essa brutalidade vem de sua maior qualidade: o naturalismo, em especial pelas escolhas de não glamourizar o crime nem espetacularizar a violência. Para interpretar o protagonista do romance “Jack’s Return Home“, recém-lançado por Ted Lewis, Caine, filho de faxineiros que abandonou a escola aos 15 anos, diz ter se baseado em bandidos que conheceu na juventude. Além disso, Hodges e sua equipe pesquisaram a atividade criminal em Newcastle upon Tyne, onde a história se passa.

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Isso resultou em um personagem principal obstinado, taciturno e amoral, sem características redentoras nem apelação para momentâneos alívios cômicos. Em busca dos assassinos de seu irmão, Jack Carter não demonstra nenhum tipo de remorso, mesmo quando seus eventuais aliados se machucam. Diante dos diretamente envolvidos com o crime, deixa escapar uma raiva contida, nos momentos mais intensos. É uma das interpretações mais marcantes de Caine.

O ritmo da obra, cujo enredo se passa em apenas um fim de semana, também causa bastante impacto. São poucas sequências, nas quais os muitos personagens são apresentados a conta-gotas. Os acertos de contas que formam o clímax começam a menos de meia hora do final, quando se inicia uma cadeia de assassinatos, sem grande sofisticação. Não à toa, o primeiro deles é o mais chocante: Carter esfaqueia duas vezes um informante, aos gritos de “Eu sei que você não matou meu irmão!“.

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CARTER, O VINGADOR também acerta ao deixar de lado alguns clichês do cinema noir, como a voz over que desnuda os pensamentos do protagonista e o uso de flaskbacks (estes existem no livro e mostram as relações de Carter com o irmão e outros personagens).

Outro ponto de destaque é o modo como o filme retrata o sexo. Além de exibir nudez ou seminudez de algumas das atrizes principais, a primeira cena mostra uma curiosa reunião em uma residência luxuosa, na qual Carter, seus chefes e outros convidados assistem a uma sessão de slides pornográficos. Prostituição e aliciamento de menores de idade para atuar em filmes caseiros também são abordados, o que ajuda a explicar a inicial classificação X (apenas para adultos), depois rebaixada para R. Mas, apesar de duas das personagens que Carter encontra em Newcastle passarem pela sua cama (a segunda sequência desse tipo faz uso de montagem paralela, alternando entre o casal no carro e na cama), a cena mais erótica, cortada pela censura em vários países, é um telefonema sensual que o protagonista faz à sua amante (interpretada pela linda Britt Ekland, o principal nome feminino nos créditos, apesar de aparecer muito pouco), diante de sua inquilina.

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Entre outros destaques do elenco estão Geraldine Moffat, ótima como a interessante Glenda, que tem um destino irônico, e Dorothy White como a prostituta Margaret. Dos homens, chama especial atenção o celebrado dramaturgo John Osborne, autor de “Look Back in Anger“, que interpreta o chefe dos bandidos de Newcastle como um homem de fala suave, mas implacável nas suas decisões – no livro, o personagem é bem mais grosseiro.

A marcante sequência final, numa praia com céu encoberto onde carvão é naturalmente depositado, carrega bastante na ironia ao mostrar o destino dos principais antagonistas. Um projeto mais comercial concluiria de forma distinta.

CARTER, O VINGADOR foi recebido pela crítica com ambivalência: em geral a qualidade da produção, da direção e das atuações foi elogiada, mas o conteúdo revirou os estômagos mais sensíveis. O sucesso de público também foi moderado, numa época em que o campeão de audiência era o drama LOVE STORY. Ainda assim, foi suficiente para que as edições futuras do romance de Lewis fossem rebatizadas como o filme e que os dois livros seguintes, com histórias ocorridas em períodos anteriores, trouxessem o nome do protagonista nos títulos.

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A MGM, que estava em crise, fechando suas subsidiárias na Europa, resolveu refazer o filme para as plateias ianques, em vez de divulgar o original britânico. Curiosamente, o remake de George Armitage se tornou um blaxpoitation, estrelado pelo jogador de futebol americano Bernie Casey e a futura musa Pam Grier (cuja personagem tem o curioso nome de Gozelda).

No fim das contas, o original de Hodges não alcançou a qualidade de POINT BLANK, com o qual costuma ser comparado, mas ainda assim é o que meu tio que me levava para alugar VHS na infância chamava de “filmão“. Esta porrada cinematográfica ficou esquecida por quase três décadas, até ganhar status de clássico ao ser citada como influência por diretores como Quentin Tarantino e Guy Ritchie – o que acabou desaguando no segundo remake, estrelado por Sylvester Stallone. Mas isso é uma outra história.

DETOUR

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Acabei de ouvir as mais de duas horas do episódio piloto do DETOUR, um podcast capitaneado pelo grande Guilherme Martins. Recomendo muitíssimo, especialmente para quem curte cinema de gênero. Os caras entendem do que tão falando e, neste episódio de estreia, fazem um papo bem bacana sobre FUGA NE NOVA YORK, do John Carpenter, TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA, de Sam Peckinpah, e ainda traçam um possível paralelo (ou oposições) entre as duas obras… Realmente uma delícia de ouvir. Participaram desta primeira conversa, junto com Guilherme, os críticos Filipe Furtado e Francis Vogner dos Reis.

A proposta do DETOUR vai ser essa mesmo de sempre debater sobre dois ou três filmes, fazendo cruzamentos e observações dessas obras. Já virei fã.

O site oficial do Detour é: https://detourpod.com/

E para ouvir o episódio piloto, seguem uns links. Escolha o seu preferido e divirta-se:
Spotify – https://spoti.fi/2SJuZmp
Deezer – http://bit.ly/38LOdO6
Soundcloud – http://bit.ly/37GWamd
Apple Podcasts – https://apple.co/39P0EZn
Castbox – https://castbox.fm/x/1wpOP

CPC-UMES Filmes – Lançamento de março

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O lançamento de março da CPC-UMES Filmes é o DVD de AMIGOS VERDADEIROS (1954), história emocionante e divertida de uma amizade que resistiu ao tempo. A direção é de Mikhail Kalatozov, que dirigiu algumas obras-primas do cinema russo, como SOU CUBA e o premiado QUANDO VOAM AS CEGONHAS, que foi lançado pela distribuidora no ano passado.

SINOPSE: “Era uma vez três garotos que moravam em um subúrbio de Moscou. 30 anos se passaram e Bora tornou-se o famoso cirurgião Tchizhov; Sashka, o professor de pecuária Lapin; e Vaska, o doutor em arquitetura Nestratov. Lembrando-se da promessa dada um ao outro quando crianças, eles partem em uma jangada pelo rio Volga e passam por muitas aventuras.”

O lançamento de AMIGOS VERDADEIROS será no dia 13 de março e já está em pré-venda no site da CPC-UMES Filmes. Em breve também estará nas lojas parceiras. Reserve o seu neste link: https://bit.ly/2V2GdnV

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007 CONTRA GOLDFINGER (1964)

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Se existe um filme da série 007 que se qualifica como um clássico imortal, este filme é 007 CONTRA GOLDFINGER (Goldfinger), de Guy Hamilton. Terceirto capítulo da série sobre o espião à serviço secreto da coroa britânica, James Bond, ganhou importância para a franquia porque, de certa maneira, foi o exemplar que estabeleceu uma ideia, para a maioria das pessoas, sobre o que de fato é um filme de James Bond.

007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO, o primeiro, que apresentou o personagem e sua famosa música tema, e MOSCOU CONTRA 007, o segundo, eram basicamente thrillers de espionagem ao espírito dos livros escritos por Ian Fleming, enraizado mais em intrigas palpáveis e de contextos reais, como a Guerra Fria. GOLDFINGER pegou elementos essenciais desses dois e deu um toque especial. Construiu um ícone maior que a vida, apresentou várias marcas registradas e tudo o que torna o personagem tão reconhecível e memorável.

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É aqui que começam também a explorar os limites entre a realidade e os excessos da fantasia do cinema de ação, uma das principais características da série. Um exemplo temos logo no início, quando Bond enxerga, através do reflexo da íris de uma moça, um bandido espreitando por trás prestes a atacá-lo. PELO REFLEXO DA ÍRIS!!! É pra isso que o cinema foi inventado… Temos também o famoso capanga que arranca a cabeça de estátuas arremessando seu chapéu-côco forrado de aço… Praticamente uma história em quadrinhos.

Depois disso, os filmes de Bond não se levaram muito a sério e, pessoalmente, fico feliz que isso tenha acontecido. Parte do que torna a série 007 tão fascinante pra mim é exatamente o tom exagerado, uma fórmula que começaram a desenvolver por aqui em GOLDFINGER. Uma fórmula que não vemos em DR. NO ou MOSCOU CONTRA 007

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Na trama, a preocupação com a estabilidade dos preços do ouro ao redor do globo coloca James Bond (mais uma vez interpretado por Sean Connery) na trilha de um contrabandista internacional de ouro, o excêntrico Auric Goldfinger (Gert Fröbe). Tendo encontrado o sujeito pela primeira vez em um hotel em Miami, Bond está ciente de que o homem é um adversário peculiar e muito perigoso. Goldfinger revela ser obcecado por duas coisas: ouro e levar vantagem a qualquer custo, seja numa partida de golfe ou até mesmo num amigável jogo de cartas à beira da piscina de um hotel.

Em relação ao “perigoso”, Bond descobre do pior jeito: Goldfinger não demonstra muito remorso em matar sua acompanhante quando ela o trai com o espião. Acaba assassinada de maneira única, asfixiada com seu corpo completamente coberto com tinta dourada. Uma das imagens clássicas da franquia.

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Bond visita Q, interpretado por Desmond Llewelyn, que ficou famoso entre os fãs da série por fazer esse personagem durante décadas. Suas engenhocas tecnológicas acabaram se tornando elemento essencial da franquia. E é aqui que Bond é apresentado pela primeira vez ao Aston Martin, seu veículo oficial e que utiliza logo em seguida para ficar na cola de Goldfinger. Ao se infiltrar em um complexo do vilão, Bond descobre o método engenhoso que seu adversário contrabandeia grandes remessas de ouro. Também descobre que Goldfinger tem algo maior planejado, uma operação com o codinome Grand Slam. Mas antes que ele possa sair do local, 007 é capturado. Só mais tarde ele realmente descobrirá quão grandioso é o Grand Slam

Mais momentos clássicos: Bond capturado, é amarrado a uma mesa com um cortador a laser em direção à sua “arma mais preciosa”. Como a cena do corpo coberto de tinta dourada, essa é outra das mais icônicas de toda a franquia. A paródia/homenagem dos Simpsons, no episódio You Only Move Twice, é evidência de seu poder na cultura pop.

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Tudo parece funcionar em GOLDFINGER – os personagens; o roteiro com um equilíbrio quase perfeito de humor irônico e convenções do thriller de espionagem, carregados de diálogos incríveis; o ritmo; a música tema de Shirley Bassey e John Barry… Continua sendo uma aventura atemporal, com o espião cínico, malandrão e mulherengo que adoramos. Claro, Bond dos anos 60 é um dinossauro sexista e misógino para os padrões chatos de hoje, mas Sean Connery é cool o suficiente para se safar. Falando nisso, não dá pra esquecer a bela Pussy Galore. Basta esse nome para garantir que seu papel seja lembrado entre a maiores Bond Girls. Mesmo com tão pouco tempo em cena…

Temos Goldfinger, um dos melhores vilões de toda a série, e seu capanga, o brutamontes Oddjob, o tal com o chapéu letal, que dá uma canseira ao nosso herói. A sequência de luta entre ele e Bond nas entranhas do depósito de ouro em Fort Knox é um dos grandes momentos do filme.

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Aliás, as cenas de ação de GOLDFINGER são de alto nível. O diretor Guy Hamilton era desses que sabia criar um bom espetáculo no gênero, com destaque para a perseguição de carros pelos bosques e no complexo de Goldfinger, no qual Bond utiliza vários acessórios que Q preparou em seu Aston Martin. E obviamente o deflagrador final, um tiroteio explosivo de grandes proporções e alta contagem de corpos. Hamilton voltaria a dirigir mais três exemplares do espião: 007 – OS DIAMANTES SÃO ETERNOS, COM 007 VIVA E DEIXE MORRER e 007 CONTRA O HOMEM COM A PISTOLA DE OURO. Esses dois últimos com Roger Moore no papel de Bond.

Todos esses elementos se combinam para tornar GOLDFINGER um clássico do cinema de ação e dos melhores e mais influentes filmes da série 007. Mesmo não sendo o meu favorito… Que aliás, não sei ainda exatamente qual é. Talvez A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE, ou O ESPIÃO QUE ME AMAVA, ou A CHANTAGEM ATÔMICA, que mal lembro, mas que me marcou muito quando era moleque… Enfim, comecei a rever novamente a série depois de uns vinte anos e até o final dessa “retrospectiva” eu descubro qual é o que mais gosto. Se calhar, acaba sendo mesmo GOLDFINGER. Sem dúvida vai estar entre os primeiros.

Os outros filmes do espião já comentados aqui no blog:

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MOSCOU CONTRA 007

BREEZY (1973)

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Não costumo postar sobre filmes românticos, mas não resisti a este terceiro filme dirigido pelo Clint Eastwood (já que comentei recentemente sobre os dois primeiros, nada mais justo que continuar). Era um dos poucos filmes dele que ainda me faltava…

Em BREEZY o sujeito volta a deixar de lado o cinema de gêneros mais truculentos, como foi o anterior, e oferece um dos seus trabalhos mais delicados. Habitualmente lê-se por aí que o reconhecimento artístico e crítico de Clint como diretor veio a partir de HONKYTONK MAN, ou até mais tarde, com BIRD. Onde estavam esses críticos quando BREEZY apareceu?

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Desta vez, Clint resolve ficar atrás das câmeras para nos oferecer uma história de amor inusitada e de rara ternura. William Holden é Frank, cinquentão solitário que tenta manter o amor à distância para evitar certos transtornos e sofrimento, acaba conhecendo a jovem de espírito livre, Breezy (Kay Lenz, que se apropria da personagem título de corpo e alma) e, de um jeito ou de outro, vão construindo uma relação.

E por se tratar da paixão de um homem “bem vivido” por uma garota de 18 anos, acaba sendo um assunto mais desafiador que Eastwood aborda. Dúvidas, felicidade, amargura, perguntas sobre si mesmo, o olhar dos outros, sabemos até de antemão quais etapas terão que passar para o assunto ser abordado; e Clint realmente passa por todas. Bom, não é na originalidade que o sujeito quer nos tocar. Mas na maneira como trata tudo com franqueza, explorando o tema com plenitude, observando os pequenos detalhes sem muita extravagância, até porque o filme não apresenta taaantos conflitos dramáticos assim. É apenas um olhar preciso dos sentimentos humanos. E Clint é muito verdadeiro com esses personagens.

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A dupla central, obviamente, destrói em nas atuações: Holden alcança uma veracidade incrível. Um exemplo de rigor e sensibilidade; e Kay Lenz brilha até chegar ao sublime.

A direção de Eastwood é discreta, mas sempre com o olhar no lugar certo. A cena que Holden senta na cama pensando que Breezy havia deixado o local e das sombras surgem as mãos dela acariciando seu corpo é um dos momentos mais antológicos da carreira de Clint como diretor:

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Já as duas cenas introdutórias dos personagens centrais são verdadeiras aulas de direção de atores. Em poucos segundos, em uma ou duas linhas de diálogo simples, entendemos TUDO do caráter de Breezy, sua leveza, sua sede de vida e ingenuidade. Logo em seguida, o personagem de Frank é escovado em uma única situação: dispensando uma mulher com quem passou a noite, revelando o sujeito amargo, solitário e duro… Clint mantém todas as sequências de BREEZY nesse tom e é incrível como consegue criar tanta emoção de coisas tão simples. Ao final, quando os personagens se reencontram (“Olá, meu amor / Olá, minha vida”) eu já estava completamente devastado. A canção tema de Michel Legrand, ao mesmo tempo melancólica e serena, traz um último toque a esta bela história.

O título de BREEZY no Brasil é INTERLÚDIO DE AMOR.

[CAGESPLOITATION] 211 (2018)

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211 começa com uma longa sequência no Afeganistão, mostrando um fraudador emboscado por um grupo de mercenários que exige um pagamento de alguns milhões de dólares. Daí inicia um monte de lenga-lenga envolvendo uma investigação da Interpol para pegar os mercenários… E há ainda uma subtrama já nos EUA com o policial vivido por Nicolas Cage, sua filha grávida e o seu genro, também policial, se preparando para a paternidade.

Demora uns bons vinte minutos antes que tudo isso se conecte e a história oficial de 211 comece a tomar forma: Um adolescente entra em uma briga na escola e, como punição, é enviado para fazer uma ronda junto com uma dupla policial, Cage e seu parceiro, que é justamente seu genro. Andam de um lado para o outro dentro da viatura até que os mercenários tentam assaltar um banco onde o fraudador do início do filme escondeu a grana. E os primeiros a chegarem ao local é jutamente o trio.

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Um monte de personagens e subtramas vão surgindo e se amontoando a partir daí e nada de Nicolas Cage realmente demonstrar seus talentos… Na verdade, leva un dez minutos para ele aparecer na tela pela primeira vez e quando diz sua primeira linha de diálogo, o filme já está bem adiantado. Quando finalmente rola o assalto e pega Cage, seu genro e o garoto no fogo cruzado, a coisa melhora um bocado, a ação é intensa e temos muito Cage trocando tiros com os mercenários. Mas o filme nunca consegue ajustar o foco e 211 acaba parecendo mais um piloto para uma série de TV abarrotado de personagens cujo interesse por parte do público é zero. Talvez se tivéssesmo um enredo mais centrado em Cage, o resultado fosse melhor…

Para quem estiver só interessado num filmeco de ação de baixo orçamento sem grandes pretensões, 211 até que diverte, tem bastante tiro e explosões filmadas com uma competência que me surpreendeu. Sequências como a da explosão da cafeteria e vários momentos das trocas de tiro entre a policia e os mercenários dão a impressão de uma produção bem mais abastada. A direção é de um tal York Shackleton… nunca ouvi falar. Já os admiradores de um Cagesploitation podem acabar saindo da sessão desapontados. Só para não perder viagem, há um breve momento que o sujeito entra no modo Crazy Cage, soltando uns berros surtados, que vai fazer qualquer fã do homem abrir um sorriso. Não é muito, mas já é alguma coisa…

NARC (2002)

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Para quem descobriu o diretor Joe Carnahan lá em 2002 com essa porrada chamada NARC, é até bizarro notar as escolhas que o sujeito fez ao longo da carreira. Não acho ruim os seus trabalhos seguintes (pelo menos os que cheguei a assistir – inclusive adoro THE GREY, com Liam Neeson) mas NARC me fez pensar na época que Carnahan seria um diretor ao estilo do que um David Ayer e James Gray foram por um tempo e Craig S. Zahler vem sendo hoje. Ou seja, um realizador de obras mais sombrias e pesadas do universo policial, adaptando autores como James Ellroy… Carnahan acabou deixando uma espécie de lacuna. E NARC se tornou, ao longo dos anos, um pequeno cult movie para os amantes de um bom e velho filme policial.

NARC segue a tradição dos grandes filmes de tiras corruptos e investigadores infiltrados dos anos 80 e 90, com a mesma crueza e o realismo duro de filmes como e COP, de James B. Harris, O PRÍNCIPE DA CIDADE, de Sidney Lumet, VÍCIO FRENÉTICO, do Ferrara, DONNIE BRASCO, de Mike Newell, COPLAND, de James Mangold, JUSTIÇA CEGA, de Mike Figgs… Em resumo, Carnahan nos oferece um mergulho na vida cotidiana de policiais incapazes de lidar com uma vida “normal”, que vivem apenas para o seu trabalho, e acabam afetados de todas as formas possíveis pela imersão em universos dos quais não fazem parte.

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Quando o filme começa, Nick Tellis, o policial interpretado (com intensidade inesperada) por Jason Patric, tenta se reconstruir com sua esposa e filho, alguns meses após uma investigação que deu errado e durante o qual ele acabou causando a morte de um inocente. Portanto, nada o levaria a aceitar a nova missão que lhe é oferecida: investigar o assassinato de um policial acompanhado do ex-parceiro da vítima. Nada o obriga a sair de volta às ruas, à violência das ruas… Mas ele tem isso encravado na alma: ser policial é mais que um trabalho, é a sua vida.

Aos poucos Nick vai voltando às atividades e quando se dá conta, já está completamente absorvido pela investigação. Obviamente, a descida ao inferno é total. Mais profunda do que podemos imaginar, especialmente depois da sequência devastadora dos primeiros minutos de filme. Aliás, que puta começo! A sequência de abertura de NARC é antológica, tensa pra cacete. O espectador é simplesmente arremessado na situação em que Nick, ainda sob disfarce, persegue um criminoso a pé, sem nenhum contexto, com uma câmera chacoalhando freneticamente que faria os caras do Dogma 95 se morderem de inveja, mas que se justifica de tão bem utilizada. E a coisa toda termina de um jeito trágico e violento. Uma violência que prenuncia o resto do filme.

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O outro policial de NARC é Henry Oak, encarnado por um Ray Liotta assombroso. Oak é um sujeito dedicado da velha escola que usa força bruta pra cima dos criminosos e acredita que o departamento de policia deseja enterrar as investigações sobre o seu parceiro assassinado e por isso precisa agir por fora do livro de regras para solucionar o caso. De vez em quando Liotta encontra papeis dignos de seu imenso talento, como é o exemplo de NARC. Com o rosto todo esculpido, os olhos alucinados e uma raiva incandescente, Liotta devora o filme evocando, com a mesma determinação inabalável, uma espécie de Popeye Doyle de OPERAÇÃO FRANÇA.

O próprio Friedkin elogiou pra caramba NARC, chegando a dizer que era melhor do que seu próprio filme. Uma modéstia, claro, não chega a tanto, mas o filme de Carnahan não tem nada do que se vergonhar da comparação.