ESCOLA NOTURNA, aka OLHOS DO TERROR (Night School, 1981)

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ESCOLA NOTURNA não é lá dos melhores slashers que eu já vi. É um exemplar bem comum de um modo geral, com algumas ideias decentes que acabam prejudicadas pela previsibilidade do roteiro, que não consegue segurar por muito tempo a identidade do assassino ou suas motivações… Mas tem algumas peculiaridades redentoras que fazem valer a pena uma conferida. Ei, é um filme que tem um assassino de capacete de motociclista com uma faca decapitando moças! Então momentos de diversão é o que não falta.

É curioso que ESCOLA NOTURNA teve o “privilégio” de constar na famigerada lista dos “Video Nasties“, filmes que foram censurados, mutilados ou proibidos, especialmente em território britânico no período; este aqui acabou tendo lançamento por lá só em 1987. Vendo hoje, me surpreende essa decisão porque ESCOLA NOTURNA está longe de ser dos mais sangrentos ou subversivos filmes de horror em comparação com vários outros exemplares da época. A quantidade de elementos sexuais e nudez é pouca e em termos de violência, a maioria dos assassinatos acontecem fora de campo… O que se vê são as consequências dos crimes. Uma cabeça que acaba em um vaso sanitário ou outra que desce lentamente entre os peixes de um aquário público, sob os olhos horrorizados dos visitantes, e por aí vai… Porque nosso assassino não apenas decepa-lhes a cabeça, mas também as mergulha na água, uma particularidade que intrigará o investigador da polícia, interpretado pelo italiano Leonard Mann.

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E essas execuções absurdas e misóginas (as vítimas são todas mulheres) são mais como rituais, e a suspeita então volta-se para um professor de antropologia libertino que não hesita em praticar “aulas particulares intensivas” com suas alunas, se é que me entendem… Além disso, ele é o único professor do sexo masculino numa faculdade para moças (na qual as vítimas eram estudantes). Descobrimos também que ele não é o único garanhão da escola. A diretora do colégio parece, er… gostar das mesmas coisas que ele, e não pretende ter competição. Mas a verdade por trás dos assassinatos será bem diferente no fim das contas…

Quem dirige ESCOLA NOTURNA é o veterano Ken Hughes, bom artesão que brinca com todos os clichês do slasher: assassino neurótico emergindo dos mais variados lugares, vítimas jovens, câmera subjetiva, enquadramentos peculiares… Para ser justo, eu curti o filme porque tem mais a cara de um Giallo do que slasher. Lembra muito os filmes italianos feito na mesma época. Desde a trilha sonora de Brad Fiedel até a presença de Leonard Mann, mais conhecido pelos papeis em Spaghetti Western, tudo contribui para dar a impressão de que estamos diante de um suspense policial italiano.

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Algumas sequências são bem interessantes e vale destacar, como a do restaurante, onde o diretor literalmente brinca de esconde-esconde com o espectador e a cabeça de uma das vítimas; na parte erótica, temos uma excêntrica cena de sexo num chuveiro em que o professor de antropologia esfrega um tolete de tinta vermelha em sua aluna/amante (Rachel Ward). No final, sobra tempo até para uma frenética perseguição de carro e moto pelas ruas apertadas da cidade… No entanto, ESCOLA NOTURNA também pode desapontar pelo fato de ter esse motociclista armado com um facão decapitando as moças, algo muito promissor, mas, como já disse, quase nunca vemos as tais decapitações de fato.

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Mas é um filme de detetive/assassino honesto, com boa atmosfera de horror em alguns momentos e alguns toques de humor negro (voluntários ou não). Cabeças rolando, mistério (embora fácil de resolver), lesbianismo, excentricidades antropológias… Os entusiastas do slasher vão se divertir.

DESAFIANDO O PERIGO (Game 6, 2005)

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Comprei o DVD de DESAFIANDO O PERIGO outro dia num sebo (sim, ainda coleciono mídias físicas). Não fazia muita ideia do que se tratava, mas como tinha o Michael Keaton na capa e essa aparência de filme de ação genérico dos anos 2000, não resisti. Depois descobri que a coisa era bem diferente e resolvi conferir. É um ótimo filme! Foi o primeiro roteiro do Don DeLillo, célebre autor americano de obras como Underworld e Cosmópolis… É uma pena, portanto, que DESAFIANDO O PERIGO tenha passado meio batido por aqui, nunca vi ninguém falar algo sobre, parece que foi meio ignorado. Talvez esse título nacional e a capa do DVD, que realmente parece um filme de ação genérico, tenha espantado possíveis apreciadores. Mesmo nos EUA, este trabalho do diretor Michael Hoffman andou circulando pelas cenas do cinema independente, recebeu boas críticas e tal, mas logo depois ficou esquecido.

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DESAFIANDO O PERIGO é uma fábula novaiorquina que transcorre durante um dia na vida do dramaturgo de meia-idade Nicky Rogan (Michael Keaton), cuja nova peça terá estreia na mesma noite que o lendário jogo seis da World Series de 1986. Torcedor fanático do Red Sox, o nervosismo de Nicky é incitado quando a crise de meia-idade que ele tenta ignorar começa a florescer diante de vários acontecimentos: sua filha diz que sua esposa (Catherine O’Hara) contratou uma “advogada de divórcio proeminente”, seu ator principal tem um parasita em sua cabeça que faz com que ele esqueça suas falas, enquanto o pai de Nicky começa a se afastar dele… Mas, acima de tudo, está o crítico de teatro da Broadway Steven Schwimmer, um homem tão odiado por suas críticas arrasadoras que precisa ir aos teatros armado e disfarçado.

Quem já está familiarizado com a obra de Delillo vai se sentir em casa (personagens estranhos que entram e saem, como numa peça de teatro, diálogos rápidos, filosóficos e afiados) e perceber algumas obsessões do sujeito na tela. Tem muito de Cosmópolis em DESAFIANDO O PERIGO. A ideia da relação dos personagens com os espaços e a violência das ruas que se estabelece das janelas – das cafeterias, bares e dos carros presos nos trânsitos novaiorquinos – com o personagem de Keaton atrelado ao mesmo cenário do protagonista de Cosmópolis, trocando apenas sua luxuosa limusine pelos táxis dirigidos por figuras estrangeiras. Ambos desejam cortar o cabelo e nesse processo adentram numa jornada de auto-destruição enquanto a cidade assume um ar cada vez mais sinistro e agourento.

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Mas Nicky é um personagem mais simpático e fascinante que o garoto milionário de Cosmópolis. Um pouco misantrópico, fatalista, às vezes de moral ambígua, mas com alguma doçura trágica – e Keaton tem aqui uma de suas melhores performances da carreira. DESAFIANDO O PERIGO também oferece bons papéis coadjuvantes para Griffin Dunne (de DEPOIS DE HORAS, fazendo o melhor amigo do protagonista, um dramaturgo derrotado por conta de uma crítica negativa) e Robert Downey Jr., como o crítico teatral ninja budista, temido e odiado por todos os dramaturgos de Nova York. No elenco, ainda temos o grande Harris Yulin no papel do ator que já não consegue memorizar as falas…

Talvez o espectador que não se importa muito com beisebol, como é o meu caso, simplesmente perca o interesse pelos dramas internos de Nicky no terço final do filme, quando o sujeito decide não ir mais à estreia de sua peça para assistir o sexto jogo num bar lotado de torcedores dos Mets. Mas mesmo que não saibamos muito bem o que aconteceu naquele jogo específico entre o Red Sox e o New York Mets, DeLillo e Hoffman fazem com que pareça algo épico, dramático, importante e metafórico. Nicky se propõe de alguma forma a fazer a maior aposta de sua vida – se o seu time que sempre o decepcionou ao longo dos anos puder finalmente superar sua série de derrotas, talvez ele também possa encarar sua espiral descendente.

É um filme intenso, que merecia ser mais lembrado, especialmente pela atuação de Keaton, que está sempre numa espécie de limite , seja lá do que for… O final talvez não seja o melhor possível, mas gostei, quebra um bocado as expectativas, o que é sempre bom. Vale a pena ir atrás de DESAFIANDO O PERIGO, não deve ser difícil de encontrar o DVD por aí. Por exemplo, neste link: https://www.videoperola.com.br/dvd-desafiando-o-perigo-html/p

O ESTRANHO SEM NOME (1973)

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O estranho do título nacional pode ser apenas um homem, um cowboy em busca de vingança, mas pode ser também um fantasma ou um ser demoníaco enviado para decretar a condenação de uma cidade. Como tal, O ESTRANHO SEM NOME (High Plains Drifter), segundo trabalho de Clint Eastwood como diretor, reflete a obscuridade e a paranóia da corrupção e complacência da América dos anos 70. O filme tem um tom niilista comparável a OS IMPERDOÁVEIS, que Clint ainda viria a fazer, mas mesmo neste havia muito mais homens decentes do que em O ESTRANHO SEM NOME.

A trama parece se passar em um plano totalmente diferente da realidade, como um purgatório, numa pequena cidade onde a maioria das pessoas perdeu a alma há muito tempo. O forasteiro chega para mudar algumas coisas, não sabemos de onde vem, para onde vai, porque apareceu por ali. Acaba contratado para proteger a cidade de três bandidos que acabaram de sair da prisão e que provavelmente retornarão ao local para se vingar daqueles que os colocaram no xadrez. O estranho aceita a missão e, em determinado momento, literalmente muda o nome da cidade para Hell (inferno), o que é bem mais apropriado.

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Difícil classificar o personagem de Clint, um herói ultra-antipático que em menos de dez minutos de filme limpa a cidade dos mal encarados à base de chumbo grosso para logo em seguida estuprar a primeira mulher que aparece em seu caminho. Obra grandiosa como quase todos os trabalhos de Eastwood, mas talvez seja um dos mais desagradáveis. Até porque demora um pouco para juntar todas as peças do quebra-cabeça e entender as motivações do personagem. Até então, impera uma moralidade ambígua. Quando revelado, faz desse “estranho” um dos personagens mais fortes e míticos das planícies do Western americano.

Enquanto isso, em sua jornada de vingança o estranho faz os cidadãos sofrerem vários tipos de humilhação, culpados pelo massacre de um homem que era apenas um grão de areia nos interesses econômicos dos poderosos da cidade. Sobretudo, é pela covardia de todos que se vêem condenados: como é possível deixar um homem morrer diante de seus olhos apenas porque os poderosos assim decidiram? É um filme altamente político, que aponta para a responsabilidade de cada cidadão em suas escolhas e, acima de tudo – mais forte – em sua não-escolha, em sua inação.

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Visualmente, O ESTRANHO SEM NOME também está repleto de ideias expressivas, como a cidade renomeada Inferno inteiramente pintada de vermelho… E no climax, a visão de Eastwood em uma noite iluminada pelo o fogo do inferno chicoteando seus adversários permanece gravado na memória. No fim das contas, o filme oferece tudo aquilo que esperamos de um Western de Clint Eastwood, apesar dele não estar tão interessado em emoções convencionais. Mostra também que Clint aprendeu direitinho os truques de um de seus mentores, Sergio Leone. Só que os subverte de maneira diabólica e alegórica.

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No elenco temos Verna Bloom, Billy Curtis como o simpático anão Mordecai, Geoffrey Lewis e Mitchell Ryan entre os destaques.

ATOS DE VIOLÊNCIA (2018)

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A trama de ATOS DE VIOLÊNCIA é sobre três irmãos, um deles é Roman (Ashton Holmes), que está prestes a se casar com sua namorada, Mia (Melissa Bolona). Quando ela é sequestrada por traficantes de escravas durante sua festa de despedida de solteira, Roman pede a ajuda aos outros dois irmãos, militares veteranos (Cole Hauser e Shawn Ashmore), para recuperá-la.

Bruce Willis aparece em cena como um detetive especializado neste tipo de caso, tentando derrubar esses traficantes, mas obrigado a fazer tudo debaixo da lei, embora saiba que está de mãos atadas por conta do sistema corrompido. A capa do DVD até dá aquela destacada para Willis, vocês sabem, é o único famoso do elenco, então já colocam a cara dele na capa para atrair público. Mas uma coisa que gostei em ATOS DE VIOLÊNCIA é como o roteiro encontra uma maneira orgânica de trabalhar com o velho Bruce na história. Seu papel pode ser pequeno, mas pelo menos ele tem um personagem digno e com alguns momentos para relembrar seus dias de action hero. Apesar disso, Willis esteve no set por apenas um dia para gravar suas cenas, a maioria delas sentado atrás de uma mesa, embora nem dê pra sentir muito isso… hehe!

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Não pode faltar o famoso biquinho…

Já a história central, que envolve os três irmãos, até que me prendeu. Algumas atuações são horríveis e exageraram na dose de situações dramáticas piegas, mas curti a ideia dos irmãos badasses, com treinamento militar, tendo que utilizar suas habilidades num ambiente urbano. Destaque para Cole Hauser, figura já conhecida para quem aprecia filmes de ação DTV (recomendo especialmente THE HIT LIST, com Cuba Gooding Jr.), fazendo um personagem mais complexo, veterano de guerra sofrendo de estresse pós-traumático. Também é legal ver Mike Epps, mais conhecido por fazer comédias, encarnando o sádico e perigoso chefão da operação de tráfico de escravas.

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Alguns problemas de roteiro aqui e ali, fórmulas batidas e clichezentas suficientes para espantar o “cinéfilo brioche”, mas o filme até consegue entregar o que promete para os admiradores de um decente thriller de ação de baixo orçamento. As sequências de ação, por exemplo, se não são expressivas, ao menos são filmadas com certa competência e clareza. A direção é de um tal Brett Donowho… Nunca ouvi falar, mas o cara já tem algumas coisinhas no currículo. Alguém mais corajoso pode desbravar se tiver interesse.

ATOS DE VIOLÊNCIA é daquele jeito: não tem pretensão alguma de ganhar prêmio, mas é uma maneira divertida que um fã de ação sem grandes expectativas pode encontrar para passar 86 minutos de sua vida. Foi lançado em DVD no Brasil pela A2 Filmes, pelo selo Flashstar.

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PREMONIÇÃO (2005)

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PREMONIÇÃO até que é um suspense bem decente levando em conta o orçamento risível que teve, uma premissa preguiçosa e recheado de clichês, o elenco medíocre e os efeitos especiais toscos… Mas se as expectativas não forem muito altas e o espectador conseguir ignorar esses detalhes negativos e quiser assistir apenas um thriller vagabundo sem grandes pretensões, dá pra se divertir um bocado com essa tralha num sabadão…

A trama é basicamente uma variação de A HORA DA ZONA MORTA, aquela maravilha de David Cronenberg, com o Christopher Walken, baseado em Stephen King. Mas aqui temos Casper Van Dien como protagonista – um desses atores promissores dos anos 90 (pra mim sempre será o eterno Johnny Rico de TROPAS ESTELARES) que acabou relegado ao universo dos filmes de ação/terror lançados diretamente no mercado de vídeo. O sujeito interpreta Jack Barnes, um detetive que acaba tendo uma experiência de quase-morte no cumprimento do dever, durante uma perseguição de carro que acaba de forma trágica… E que a produção faz uso de stock footage, ou seja, utilizam imagens de uma perseguição de outro filme mais abastado – que eu não consegui identificar qual era – porque fica bem mais barato que filmar a própria sequência… É esse o nível da produção que temos aqui. hehehe!

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Bom, o fato é que Barnes volta à vida e agora passa a ter premonições de desastres que estão prestes a acontecer na cidade. Um vagão do metrô que descarrilha, o subsolo de um edifício que explode por causa de um vazamento de gás… E por aí vai. E à medida em que precisa lidar com esse dom, ou maldição, Barnes corre contra o tempo para tentar evitar as catástrofes que prevê, ao mesmo tempo em que investiga uma possível conexão desses desastres com um grupo terrorista (que no início do filme invade uma fábrica usando máscaras de George W. Bush… What a fuck?).

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Em momento algum o filme faz questão de dar algum sentido ou explicação sobre o fato do protagonista começar a ter essas visões, exceto pela experiência de quase-morte. Em determinado momento, o personagem conhece outro sujeito que teve a mesma experiência e, pimba, passou a ter visões. Então, ao que parece, uma experiência de quase-morte é suficiente para virar o próximo Nostradamus. Enfim, Barnes apenas passa a ter essas visões e pronto. Por mim, tudo bem, a última coisa que quero num filme desse tipo é ficar pensando em explicações lógicas.

A maior parte do filme seguimos os passos de Barnes nessa confusão, o que ajuda a manter o interesse, porque Van Dien até que apresenta um bom desempenho, consegue sergurar o tipo de obra que é PREMONIÇÃO. O restante do elenco é ruim de doer e alguns diálogos são terríveis. As cenas de ação são bem filmadas, com exceção da tal perseguição de carro com imagens de outro filme, que é uma bagunça (poucos sabem fazer esse tipo de “colagem” como um Jim Wynorski), mas a maioria das sequências mais excitantes são tiroteios que, se não chegam ao nível de um Michael Mann, ao menos são simples, secos e sem frescuras. O diretor é um tal Jonas Quastel, um canadense que já tem vários pequenos filmes de gênero lançados em “vídeo”.

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Não é um Michael Mann, mas tá tudo bem…

Mas o grande barato de PREMONIÇÃO são os efeitos especiais toscos e baratos. Capazes de revirar o estômago do espectador mais exigente, vulgo “cinéfilo brioche”, mas pra mim são as melhores partes do filme, renderam boas risadas. Especialmente a sequência final envolvendo um helicóptero em CGI ridículo e a cena do desastre no metrô, que é impressionante de tão mal feita.

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PREMONIÇÃO não merece um texto maior que este. Ficamos por aqui. Pode parecer um completo desastre, como nas visões do protagonista, mas definitivamente não é um filme ruim se você assistir com poucas expectativas. Tem disponível no Brasil em DVD.

BLACK DEMONS (1991)

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Há alguns anos eu comentei por aqui os dois filmes da série DEMONS, dirigidos pelo Lamberto Bava e produzidos pelo Dario Argento. Quem nunca leu, pode conferir clicando aqui e aqui. Mas o que isso tem a ver com BLACK DEMONS, de Umberto Lenzi? A princípio, nada. No entanto, como a picaretagem italiana não tem fim, resolveram lançar o filme na Itália com o título DEMONI 3, mesmo não tendo absolutamente nenhuma relação com os filmes anteriores… Só que os caras foram ainda mais longe e a série DEMONS acabou ganhando outras “continuações” sem qualquer sentido… Mas isso é assunto pra outros posts.

Hoje vamos de DEMONI 3, ou melhor, BLACK DEMONS, que é como prefiro chamar… Não é dos filmes mais lembrados do Umberto Lenzi, talvez porque não seja mesmo lá grandes coisas em comparação com a fase de ouro do horror italiano e com a própria obra do diretor, mas não deixa de ser uma dessas tralhas divertidas do gênero que foram esquecidas ao longo dos anos. A história é simples, mas eficaz: três estudantes estrangeiros vem parar aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, para pesquisar sobre religiões africanas, vodu e coisas do tipo. Dick (Joe Balogh), ao se afastar dos outros, acaba se envolvendo em um ritual de macumba e, de alguma forma, é possuído pelo misterioso poder da magia negra.

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Do Rio, o trio parte para Belo Horizonte… Só que numa estradinha de chão rodeado de matagal, porque é exatamente assim as rodovias que vão do Rio à BH, né? Mas tudo bem, a gente entende que Lenzi quer fazer o público de fora pensar que o Brasil é só mato, animais selvagens e voodoo, ao mesmo tempo em que todos os brasileiros falam inglês. Durante a viagem, o veículo do trio quebra e acabam sendo ajudados por um casal que mora nas proximidades e que lhes oferece repouso enquanto resolvem o problema do carro.

A casa é uma dessas antigas mansões de algum barão do café do século IXX que usava escravos como mão de obra. Não muito longe dalí, há justamente um cemitério com os túmulos de seis escravos que, segundo uma lenda, foram mortos por seus senhores um século antes e que em algum momento retornariam em busca de vingança. Quando Dick, possuído por seja lá o que for, é levado quase em transe a este cemitério e começa a tocar a música que gravou durante o ritual de magia negra, ele acaba tornando a lenda em realidade. Os escravos saem das tumbas e começam a realizar sua sangrenta vingança…

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Mas para chegar a até aqui não é das tarefas das mais fáceis… BLACK DEMONS tem um ritmo lento, a produção é barata e acaba não tendo tantos atrativos como outros exemplares do horror italiano. No entanto, consegui entrar na onda do filme, até porque Lenzi tem bom domínio narrativo, mesmo trabalhando com tão pouco e com roteiro e atores tão ruins. O uso que o sujeito faz das locações, das paisagens do Rio de Janeiro, das favelas e do interior são muito bons. Sem contar que a iconografia dos rituais e do universo de magia negra tornam a história genérica um pouco mais interessante.

E quando a violência finalmente acontece, Lenzi não hesita em mostrar tudo graficamente nos mínimos detalhes. Há pelo menos três mortes mais explícitas, com direito a olhos arrancados e gargantas cortadas com muito sangue. Os próprios zumbis são muito bem feitos, com feridas nojentas e a deterioração mostrada em detalhes.

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Um dos maiores problemas de BLACK DEMONS acaba sendo os atores. Joe Balogh é quem se destaca, mas o restante do elenco, principalmente os “talentos” brasileiros locais, são terríveis. A exceção é a mulher que interpreta a criada da casa, tem carisma, mesmo falando um inglês péssimo. O próprio Lenzi afirma em entrevista que os problemas de atuação foram um dos motivos de tornar o filme mais fraco do que previa que fosse. Também é divertido que o filme tenha um toque levemente político, a ideia de escravos negros, agora zumbis de pele escura, atacando pessoas brancas, é uma peculiaridade curiosa. Lenzi fala um pouco sobre isso no extras do DVD, mas ainda sente que é apenas um filme de terror sem significados mais profundos.

Mesmo com seus problemas, não achei tão ruim BLACK DEMONS. A violência é das boas, os zumbis são brutais e matam sem piedade e a direção de Lenzi é inspirada, apesar da precariedade da produção. E é só isso o que eu poderia querer de um filme como esse…

★ ★ ★

PLAY MISTY FOR ME (1971)

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Em 1971 Clint Eastwood era uma das principais figuras do cinema comercial americano, tendo construído seu nome em filmes de faroeste e ação. PLAY MISTY FOR ME, no Brasil lançado como PERVERSA PAIXÃO, foi sua primeira investida como diretor e a surpresa inicial é o fato do filme ser um crazy bitch thriller ao estilo de ATRAÇÃO FATAL, sobre um DJ de rádio que se torna o objeto de obsessão mórbida de uma fã obcecada. Um filme de romance às avessas que se torna um autêntico pesadelo. E, convenhamos, é algo que está bem longe dos filmes de ação pelos quais Clint era então conhecido.

Mas olhando hoje, quase 50 anos depois, percebe-se claramente que PLAY MISTY FOR ME trata-se de um trabalho muito pessoal de Clint, cheio de interesses e obsessões que de certa forma o acompanharam durante toda a sua carreira. Uma das principais características é o fato dele mesmo incorporar o protagonista, um apresentador de rádio responsável por um programa de jazz. O filme é, portanto, literalmente invadido pela música, onipresente, dos mais populares ritmos aos mais elegantes (Errol Garner, com a música Misty, citada no título do filme) e para quem não sabe o homem é um aficcionado por jazz e blues… Muita gente reclama do prolongamento da sequência do festival, mas acho que é a melhor exemplificação dessa lógica, esses minutos “ao vivo” do festival de Monterey, onde Eastwood filma os músicos e o público em transe, etc… Uma magnífica declaração de amor de Clint à música.

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A trama de PLAY MISTY FOR ME é sobre David Garver, este disc-jockey de fala mansa que Clint interpreta. Depois de uma noite caliente com sua fã número um, Evelyn (Jessica Walter), ele dá a ela a velha desculpa “Eu te ligo depois“. Só que ela realmente acredita nas palavras do sujeito. Logo, ela está surgindo na casa dele com compras, ligando em horários estranhos e aparecendo completamente nua em sua porta. À princípio David tolera o comportamento dela, mas quando ele resolve volta para Tobie (Donna Mills), um antigo romance, Evelyn entra no modo full-crazy bitch stalker. Invade a casa dele histérica, destrói seus móveis, estraga uma importante entrevista de emprego, até esfaqueia sua empregada antes de ir atrás da namorada de David. Ao final, por ser Clint Eastwood, ele não tem nenhum problema (SPOILER) em dar um soco na cara dela e vê-la cair com tudo e se espatifar nas pedras de uma ribanceira à beira-mar…

O legal é que PLAY MISTY FOR ME não gasta muito tempo enrolando. É bem direto no tema do “perseguidor obcecado” e alguns dos melhores momentos ilustram a facilidade com que David cai nas armadilhas de Evelyn e o quão impossível é para ele se livrar. Chega a ser angustiante… E David acaba sendo cúmplice em sua própria crise. O filme prenuncia cuidadosamente o lado sombrio de Evelyn, de um modo até exagerado no maniqueísmo, sem sutilezas, e o filme enfatiza que a única coisa que impede David de sentir o perigo é sua própria arrogância. E a luxúria, claro, já que David é um mulherengo cujo relacionamento com Tobie está sendo testado por conta de suas conquistas extracurriculares. E como o colega de David, Al (James McEachin), diz com uma piscadela: “Quem vive à espada, morre pela espada“.

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A última hora de filme compensa bem a premissa, com várias cenas tensas de suspense e violência. E Jessica Walter devora o seu papel, criando um monstro memorável, baseado em emoções críveis e perversas. Talvez falte a tal sutileza à personagem, mas dentro da proposta tão direta na qual o filme lida com o assunto, ela convence fácil com uma atuação expressiva e perturbadora. Clint também faz um bom trabalho na frente da câmera, desempenhando basicamente o mesmo que em todos os seus filmes, exceto que ele quase não mata ninguém por aqui. E transa mais (prefere usar a outra arma, se você me entende)…

Na direção, Clint se deixa guiar pelos ensinamentos de seus mestres, Sergio Leone (com vários planos detalhes dos olhos de seus personagens) e Don Siegel (e é até comovente que Clint tenha colocado Siegel para fazer um pequeno papel como o barman favorito de David). Mas muito do estilo autoral da direção de Eastwood se manifesta nesse seu primeiro trabalho, especialmente o uso da iluminação escura, no cuidado com as composições e no ritmo lânguido… Não deixa de ter falhas (pesa a mão alguns momentos melosos demais entre David e Tobie) e uma certa hesitação entre ser classicista ou Nova Hollywood… Mas o resultado não deixa de funcionar. PLAY MISTY FOR ME é uma sólida estreia, um thriller angustiante muito bem executado para o primeiro esforço de um diretor que se tornaria um dos melhores do ramo.

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FAVORITOS DE 2019

Meu tradicional TOP 20 com os filmes que pessoalmente e por diversos aspectos mais me agradaram durante 2019. Como sempre, o critério principal são as produções recentes conferidas neste ano, mas com margem até de um ano. Ou seja, filmes de 2018 que acabei conferindo só em 2019 estão elegíveis.

E para provar como sou extremamente inconstante, algumas posições dessa relação já não possuem coerência alguma com a lista de melhores da década… Mas, foda-se, né?

Segue a lista:

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EARNZayUIAEc4Gc19. MIDSUMMER (Ari Aster, 2019)

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MV5BOWFlMWM2ZTUtMGM1NC00ZDBjLTg2MWUtNDYzNzFhMTZmNzI5XkEyXkFqcGdeQXVyMTkzODUwNzk@._V1_16. BACURAU (Juliano Dornellas e Kleber M. Filho, 2019)

MV5BNDhiZmQ5NjAtZDVhZC00YzkxLThmN2UtMmEwMDZlODBmODllXkEyXkFqcGdeQXVyODUxNjcxNjE@._V1_15. HIGH LIFE (Claire Denis, 2018)

MV5BMDBlN2U5MGItNDdkOC00YjMwLTgwNDQtZGNjZmMxZjk5MzllXkEyXkFqcGdeQXVyNzI2NzgzMzc@._V1_SX1777_CR0,0,1777,999_AL_14. O BAR DA LUVA DOURADA (Fatih Akin, 2019)

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EItgqtzWsAE2xNd12. PARASITE (Bong-Joon Ho, 2019)

EEwcb6qXYAAdgzF11. AVENGEMENT (Jesse V. Johnson, 2019)

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the_traitor-publicity_still-h_201909. IL TRADITORE (Marco Bellocchio, 2019)

every-m-night-shyamalan-movie-ranked-from-worst-to-best08. GLASS (M. Night Shyamalan, 2019)

D0Dm9TmUUAAorV407. DRAGGED ACROSS CONCRETE (S. Craig Zahler, 2018)

MV5BNmE5YWIwNGYtNDFkOS00OWY4LThhYzUtMWVlZTFjMzA3YWVjXkEyXkFqcGdeQXVyMTAzMDg4NzU0._V1_SX1777_CR0,0,1777,744_AL_06. UNCUT GEMS (Josh e Benny Safdie, 2019)

MV5BNDQzMWU5ODgtMTBiYy00NDQwLWFiYTEtYTMyYmMwMTQ4MTY2XkEyXkFqcGdeQXVyNjgzMjQ0MTA@._V1_05. VITALINA VARELA (Pedro Costa, 2019)

MV5BMmZlZmYzMTktZjdjZi00NjEyLTllMjMtYWVlMjhhNDQ0MTBjXkEyXkFqcGdeQXVyNjUwNzk3NDc@._V1_04. AD ASTRA (James Gray, 2019)

MV5BODEzODUwYWMtYjdlMC00ODY5LTlmMTgtMGM1MDAyMWNmZDEzXkEyXkFqcGdeQXVyNjUwNzk3NDc@._V1_03. THE MULE (Clint Eastwood, 2018)

EGNWDrrWsAMiI3g02. ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD (Quentin Tarantino, 2019)

EFKSgyWWkAUQ_FY01. O IRLANDÊS (Martin Scorsese, 2019)

UM ÓTIMO 2020 PARA TODOS

MELHORES DA DÉCADA (2010 – 2019)

Mais uma listinha. Por aqui, vai uma versão resumida, um ranking com os meus dez filmes favoritos desta década que termina. No meu Instagram e no Letterboxd postei uma relação mais avantajada, com 100 filmes.

tumblr_d2a78a86fb05b75fb07d3768cd712491_46432d52_128010. SHUTTER ISLAND (2010), de Martin Scorsese

tumblr_pkv7gg64JH1x5knrko1_128009. ONLY GOD FORGIVES (2013), de Nicolas Winding Refn

mv5bmtq3nju2mzgwov5bml5banbnxkftztcwmdiwmta0nw4040._v1_sx1777_cr001777999_al_.jpg08. 4:44 (2011), de Abel Ferrara

MV5BZTQ4MTFiZDctOTRhMC00M2ZmLTkyYWEtOTVlNDJmZGMyN2Q0XkEyXkFqcGdeQXVyOTA2MzQwMg@@._V1_07. FIRST REFORMED (2016), de Paul Shrader

enb9-l8xyaatcui.jpeg06. HOLY MOTORS (2012) de Leos Carax

ELtSB-RUUAECsAr05. MAD MAX: FURY ROAD (2015), de George Miller

ENI9EwjXYAAbXTw04. THE LOST CITY OF Z (2016), de James Gray

EFKSgyWWkAUQ_FY03. O IRLANDÊS (2019) de Martin Scorsese

EDCM-grXUAA1QZx02. HARD TO BE A GOD (2013), de Aleksey German

MV5BMDFlMmFiMzktZWJkMy00NDEwLThhYTEtNWI3OTU5NWUzMjI3XkEyXkFqcGdeQXVyOTc5MDI5NjE@._V1_01. O CAVALO DE TURIM (2011), de Béla Tarr