DVD REVIEW: A ASCENSÃO (1977); CPC UMES FILMES

ascent shepitkoPDVD_002

Dos lançamentos recentes da CPC UMES Filmes, um dos que mais me impressionou foi sem dúvida alguma este A ASCENSÃO. Um filme de guerra poderosíssimo e transcendental, dirigido por Larisa Shepitko, cheio de referências bíblicas e filosóficas que o coloca num outro patamar e acabou levando o Urso de Ouro no Festival de Berlim, em 1977.

Adaptado do romance ‘Sotnikov’, do escritor bielorrusso Vassil Bykov, A ASCENSÃO se passa no inverno gelado que assola a URSS durante a Segunda Guerra Mundial. Dois soldados russos partem numa missão em busca de comida para permitir que um grupo composto por soldados, mas também crianças e mulheres em fuga, tenha chance de sobreviver. Ameaçados pelas tropas alemãs que cruzam a região e enfrentam o frio e a neve, eles tentam avançar pelos campos para encontrar alguma aldeia vizinha que possa fornecer algo.

a_img534_theascent1977720pwebdla

Um deles, Sotnikov (Boris Plotnikov), é baleado por um atirador alemão e prefere se matar do que ser capturado, mas é salvo por seu companheiro, Rybak (Vladimir Gostyukhin) às custas de um esforço sobre-humano, se rastejando pela neve; acabam encontrando abrigo na cabana de uma mulher com seus três filhos. Mas são descobertos pelos soldados nazistas e levados para serem interrogados por uma autoridade alemã (Anatoliy Solonitsyn, de STALKER). Se Sotnikov está pronto para morrer, mesmo sob tortura, Rybak parece disposto a qualquer coisa para salvar sua pele.

Depois de uma primeira parte mais tensa, praticamente um filme de sobrevivência, no qual quase acabamos sentindo a neve grudando nas nossas roupas, a segunda metade de A ASCENSÃO é uma parábola bíblica óbvia: Sotnikov se torna uma espécie de figura de Cristo, pronto para se sacrificar em nome de suas crenças, sempre discursando falas espirituais, enquanto Rybak, um verdadeiro Judas, está pronto para trair os seus para escapar ileso.

ol481p

Mas apesar de todo o conteúdo filosófico do filme, é impossível não destacar a força das imagens de Shepitko. Filma com o mesmo vigor tanto a busca pela sobrevivência dos personagens nas paisagens desoladas de neve quanto a jornada de exaustão física e tensão psicológica que Sotnikov precisa percorrer depois de capturado.

Escolhas morais (em vários níveis), senso de sacrifício, resistência e covardia (as diferentes sequências em que Rybak imagina sua fuga suicida), e um domínio visual absurdo fazem de A ASCENSÃO uma obra-prima escondida no cinema soviético. E Shepitko é definitivamente uma cineasta digna do panteão da cinematografia russa, que deixou para trás algumas pepitas para se redescobrir com urgência. Uma pena que morreu tão jovem, aos 41 anos, num acidente de automóvel em 1979. Era esposa do diretor Elem Klimov, que realizou alguns anos mais tarde outra obra-prima sobre os horrores da guerra na URSS: VÁ E VEJA, que curiosamente será lançado em Blu-Ray pela CPC UMES filmes ainda este ano.

A_Ascensao_Flatten

A ASCENSÃO já se encontra disponível em DVD nas melhores lojas do ramo, livrarias e na loja virtual da distribuidora. Versão produzida a partir de matriz restaurada em 2018, com altíssima qualidade de som e imagem. Então tá valendo muito a pena. E como sempre, com tradução e legendas direto do russo. Não deixe de curtir a página da CPC UMES FILMES no Facebook para ficar por dentro das novidades, especialmente do cinema soviético, e os seus próximos lançamentos em DVD e Blu-Ray.

Cinefilia como criação de cinema

O texto a seguir foi escrito pelo saudoso Carlos Reichenbach e publicado em algum de seus blogs por volta de 2010. Uma apaixonada “carta de amor” aos seus cineastas favoritos e as peculiaridades que influenciaram na construção de seu próprio cinema:

CARTA DE PRINCÍPIOS DE UM CINEASTA CINÉFILO
(por inspiração de Bazin, Valcroze, Godard, Sganzerla e Jairo Ferreira)

O presente texto foi pensado e escrito especialmente para o Seminário de Cinefilia, organizado pelo Espaço Unibanco de Cinema, a Associação Cultural Babushka, o cineasta e ensaísta Carlos Adriano, Patrícia Durães e Adhemar Oliveira, em homenagem ao saudoso amigo, programador e agitador cultural Bernardo Vorobow – (Carlos Reichenbach)

other-side-of-the-wind-the-2018-001-orson-welles

Com Orson Welles aprendi a amar o teatro e a não separar a política do crime
Com Eisenstein, aprendi a entender a fé em Lenin
Com Vigo, a alegria inocente da anarquia
Com Cocteau, a poesia dos sonhos
Com Renoir, as estradas de ferro
Com Mizogushi, os rios e os barcos à deriva
Com Fuller e Nicholas Ray, o cinema do corpo
Com Dreyer, o cinema da alma
Com Zurlini, o cinema dos sentimentos triviais
Com Mankiewicz, a direção de atores
Com Anthony Mann, os planos gerais e os grandes espaços
Com Delmer Daves, a caligrafia do campo e contra-campo
Com Howard Hawks, a exuberância da aventura e a lente sempre na altura do olho do diretor
Com Shohei Imamura, o mundo enxergado pela “casta do umbigo” e a dramaturgia insurreta
Com Don Siegel, o cinema físico
Com Martin Scorsese, o amor irrestrito à sintaxe do cinema
Com Brian de Palma, a dilatação do tempo, os travellings circulares e a ousadia
Com Cronenberg, as metamorfoses, o estranhamento e a “operar a síntese da loucura” (proposta por Murilo Mendes)
Com Edward Ludwig, a violência dos closes à altura do pescoço
Com Claude Chabrol, a dissimulação das pequenas vilanias
Com Kaneto Shindo e Kon Ichikawa, a decrepitude do sexo sem prazer
Com William Friedkin, o “batimento” da câmera ágil e a energia do “close-quarter”
Com Fritz Lang, o inexorável e as curvas sinuosas do destino
Com Paul Schrader, a face irresistível e áspera do pecado
Com Hitchcock, a ênfase na cumplicidade do espectador e a genealogia da emoção genuína
Com Ray Nazarro, Norman Foster, Riccardo Freda e Roger Corman, a filmar na escola do BBB: Bom, Bonito e Barato
Com Godard, a exercitar permanentemente a reinvenção do cinema.

Saudades do Carlão…

O FUGITIVO DE SANTA MARTA (1950)

117685877_o

O FUGITIVO DE SANTA MARTA (The Lawless), segundo filme de Joseph Losey, é um estudo interessante sobre discriminação racial em uma pequena cidade dividida entre uma comunidade branca e um bairro pobre de mexicanos-americanos que trabalham nas fazendas locais. É um filme de mensagem óbvia sobre a ânsia da América branca em desprezar o imigrante pobre. Uma América disposta a se colocar superior e acreditar que “o outro lado” é a encarnação de todo o mal e violência desse mundo. Ou seja, entra década, sai década e, como podemos ver na situação atual dos EUA e seu presidente xenófobo e racista, O FUGITIVO DE SANTA MARTA, um filme de quase setenta anos, continua refletindo uma atualidade impressionante.

bscap0008bscap0009

As tensões entre os jovens brancos e os latinos estão sempre à ponto de explodir por aqui. É o que acontece num festejo no bairro mexicano, quando alguns jovens brancos resolvem estragar a diversão. No tumulto generalizado que se forma, o jovem mexicano Paul Rodriguez (Lalo Rios) acerta em cheio um direto num policial. Com medo do que acontecerá a seguir, sai correndo, rouba um carro e se mete numa série de contratempos improváveis que o faz parecer cada vez mais culpado, como um psicopata à solta numa onda de crimes.

Atrelado a esse drama, está o jornalista Larry Wilder (Macdonald Carey), que já fora um ousado repórter em cruzadas por causas controversas e grandes histórias, mas agora tenta viver uma vida mais tranquila como dono de um jornal na pequena cidade. No entanto, quando se desenrola esses acontecimentos, Wilder luta contra sua consciência, tentando ficar de fora, mas não resiste muito ao observar a discriminação inflamada por repórteres inescrupulosos e cidadãos sedentos por sangue. No meio disso tudo, ainda rola tempo para o sujeito se apaixonar por uma moça mexicana que trabalha num outro jornal local, interpretada por Gail Russell, que o beija toda vez que faz uma boa ação.

img404_7366_vlcsnap2012062612h36m40

Mas o que de fato impressiona em O FUGITIVO DE SANTA MARTA é o domínio de Losey na direção. Um trabalho aparentemente simples, “invisível”, mas que segue uma ideia de eficácia naturalista, de absorver somente o necessário, sem firulas e excessos. É um cinema de essência, a coisa de captar o mundo de forma direta e imediata com a câmera, que o crítico Michel Mourlet defendia nos anos 50. Losey renuncia até a trilha sonora em grande parte da narrativa, como numa das melhores sequências do filme, a que Rodriguez é rastreado pela polícia até um local ribeirinho, com o sujeito se esgueirando no terreno pedregoso, enquanto hordas de policiais avançam em sua direção. Escutamos apenas o sons dos passos sobre as pedras, o que deixa a atmosfera ainda mais tensa. Os planos de Losey intercalam o campo aberto – contemplando a paisagem desolada com os homens com espingardas se espalhando – e composições do rosto aterrorizado do rapaz em primeiro plano.

_the_lawless_dvd__6117685880_o

Em alguns momentos, parece que estamos diante de um filme neo-realista italiano, como na cena que Wilder tenta convencer a polícia a deixar os pais de Rodriguez a verem o garoto. Enquanto Wilder entra na sala, Losey opta por permanecer com os pais, que esperam. Tudo permanece em silêncio, e a câmera simplesmente fica parada a observar, até que o pai, sem qualquer exagero melodramático, abaixa a cabeça nas mãos, dominado pela emoção do momento. Quando Wilder volta e diz que eles podem ver o filho, a câmera do diretor permanece no corredor, observando à distância, através da moldura da porta, enquanto Rodriguez abraça seus pais, deixando um espaço respeitoso, entre personagens e espectador, para esse momento íntimo. São cenas simples como essa, quase imperceptíveis, mas que existem aos montes em O FUGITIVO DE SANTA MARTA, que mostram o poder da mise en scène de Losey.

O filme faz parte de um subgênero do film noir, o film gris, formado por exemplares que possuíam elementos do cinema noir, mas que ofereciam uma forte crítica às classes altas da sociedade e ao capitalismo em particular. E O FUGITIVO DE SANTA MARTA não deixa de ter também esse viés marxista e progressista, que ideologicamente não tem receio de se colocar do lado das minorias. No clímax, todos os preconceitos deflagram na multidão de linchadores, também conhecidos como “homens de bem”. No entanto, o final destrutivo é temperado por uma pitada de esperança, uma sugestão de que a vontade de se manifestar contra a injustiça é o primeiro passo para o que com certeza será um processo longo e difícil de mudança.

y6Lz3c

O FUGITIVO DE SANTA MARTA é áspero e às vezes desajeitado (nas cenas de luta e confusão, por exemplo, ninguém consegue encenar um soco direito) e a maior parte do elenco é amadora. Mas Losey tem muito talento e consciência para utilizar os valores de uma produção B e transformá-la num “pequeno grande” filme. E que já sugere os interesses políticos do diretor… Não é a toa que o filme foi um dos responsáveis por Losey ser perseguido na caça às bruxas do Macartismo, o que obrigou o sujeito a se mudar para a Inglaterra e continuar seu trabalho por lá…

ZULAWSKI e ROHMER em curtas

Assisti a dois curtas que foram trabalhos inaugurais de grandes diretores. O polônes PAVONCELO, de Andrzej Zulawski, e o francês BÉRÉNICE, de Eric Rohmer.

image-w1280

PAVONCELO (1967, 27min), é sobre um violinista que se apaixona por uma moça da alta classe, mas acaba desiludido ao adentrar no universo dela e perceber que é apenas um peão em joguinhos sórdidos. Obviamente o curta acaba ofuscado em comparação com a intensidade surtada que Zulawski desenvolveria ao longo de sua carreira, mas demonstra desde o início que o sujeito levava jeito pra coisa. O filme começa num cinema, com o violinista fazendo acompanhamento musical durante uma exibição de um filme mudo e já nesta cena de abertura, Zulawski estabelece um trabalho de câmera com travellings que levaria a cabo toda em seus longas. Mais tarde, ao ser demitido de seu emprego, o dono do cinema diz ao protagonista: “Você pode ser adequado para a Opera, mas não pertence ao cinema!” Certamente uma observação irônica de algo que o próprio diretor deveria ouvir na época, então com 27 anos. Mas para quem conhece seu trabalho é impossível pensar Zulawski fazendo outra coisa… E o estilo visual próprio que povoa toda a sua obra já são sugeridos aqui em PAVONCELO (como o rápido plano da câmera, com ângulo oblíquo da moça a dançar e chorar).

berenice_rohmer

Já o curta BÉRÉNICE (1954, 23 min) é o primeiro que Rohmer, então crítico da Cahier du Cinema, conseguiu finalizar. Filmado em 16 mm, foi baseado em uma história de Edgar Allan Poe sobre um homem (o próprio Rohmer) que fica obcecado com os dentes de sua noiva. O filme combina uma espécie de romantismo macabro com o rigor da encenação do diretor, que ainda testava os recursos da arte, mas com consciência, buscando o estilo ideal para contar sua história. Numa das sequências mais interessantes, o filme adquire uma aura tipicamente gótica, quando o protagonista observa na escuridão a presença fantasmagórica da mulher que ama. Belo trabalho de sombras e edição. BÉRÉNICE foi filmado na casa de Andre Bazin, lendário crítico de cinema, e Jacques Rivette, outro crítico do período e futuro grande diretor, conduziu a câmera, além de ter editado o filme.

CORINGA (Joker, 2019)

MV5BZWNjMTA1ZmMtMGVlNy00MDA0LWJmYmMtYmZmZDhmMDA5ZTlhXkEyXkFqcGdeQXVyMTkxNjUyNQ@@._V1_SY1000_SX1500_AL_

Não esperava grande coisa do diretor de SE BEBER NÃO CASE num projeto como este. Não que eu não goste dessa série de comédia, acho bem ok, mas CORINGA me parecia exigir um olhar mais… “sério” e sombrio. E tinha minhas dúvidas se o sujeito seria capaz de algo assim. Mas depois que o filme recebeu o prêmio principal no Festival de Veneza, me deixei levar pelo hype. E preciso dar o braço à torcer, fui surpreendido pelo resultado. Todd Phillips conseguiu desenvolver uma atmosfera interessante, trágica e de grande intensidade dramática ao narrar a origem do principal inimigo do Batman.

E isso precisa ficar bem claro. Por mais que muita gente não queira aceitar, CORINGA é sim um filme de “super-herói”. Não é por causa da abordagem anti-convencional – se comparado ao estilo Marvel – que vai deixa de ser. O filme é sobre a origem do Coringa, personagem saído direto dos quadrinhos da DC, e mostra como ele se transformou no vilão que conhecemos, com todas as questões psicológicas e analíticas que isso envolve. Psicologia de boteco, claro… Bem superficial. Mas que não deixa de ter sua graça.

MV5BZGUzMWI4ZDktNTEzYi00ZmNiLThhNzItZDkwZDk2NTg5ZGNiXkEyXkFqcGdeQXVyMTkxNjUyNQ@@._V1_SY960_SX1776_AL_

Temos aqui Arthur Fleck (Joaquim Phoenix), um sujeito obcecado em fazer as pessoas rirem, com a pretensão de se tornar um comediante. Apesar dele mesmo não ser muito engraçado. Às vezes provoca incômodo e constrangimento alheio com seu riso insano e incontrolável que surge em momentos incongruentes… Por cultivar um mundo de frustrações e dominado pela insanidade, gradativamente Fleck passa a entender que a violência e o mal são os únicos caminhos a percorrer. Nos minutos finais, depois uma participação ao vivo num programa de TV, o sujeito se torna uma espécie de líder e sua figura de palhaço um símbolo de uma rebelião violenta contra os poderosos.

MV5BZDA4MTNmZjAtMWM1NS00NTNmLWFiODQtM2U0OWU5MjVlY2NhXkEyXkFqcGdeQXVyOTk4MDE5NDg@._V1_SX1777_CR0,0,1777,841_AL_

Não vou entrar na ideia (polêmica?) de que o Coringa seja uma “vítima da sociedade”, até porque não vejo as coisas dessa maneira. Embora o meio social não deixe de servir como gatilho em algumas situações. Acima de tudo, Fleck é um maluco, principal razão para se tornar o que se tornou. Mas vamos ao que realmente interessa: Phoenix está impressionante em todos os sentidos. Quase todos os planos do filme são dedicados a ele, que justifica ser o centro das atenções com uma presença descomunal em cena, uma construção monstruosa que ofusca todo o resto. Aqui está o exemplo perfeito de um filme de ator, com tudo o que envolve sua magnitude. E Phoenix compreendeu perfeitamente o calvário da loucura de seu personagem mostrando com extrema minúcia a ascensão da violência de seu Coringa.

De vez em quando o filme remete a O REI DA COMÉDIA, de Martin Scorsese, não apenas pela presença de Robert De Niro, mas pelo tema do sujeito que busca sucesso, mas que tanto aqui quanto lá, falha em sua carreira cômica. E acaba se tornando sua própria antítese. Pra mim, na lógica da revolta das pessoas comuns contra a sociedade, me lembra mais TAXI DRIVER, que é uma influência óbvia também. O filme chega a copiar planos e cenas inteiras do filme de Scorsese. Mas acaba funcionando. É orgânico. Phillips consegue ressignificar um mundo de influência temática e formal de uma maneira muito própria.

MV5BZjg0OWJmZmMtNjJlMy00OTkxLTkwMWQtNjYxZmRjNTNjN2UyXkEyXkFqcGdeQXVyMTkxNjUyNQ@@._V1_SY1000_SX1500_AL_

Em suma, CORINGA é um filme scorsesiano, nos mais variados aspectos. O que ajuda bastante. Mas é graças especialmente ao talento de Phoenix (o melhor Coringa das telas até hoje?) que o filme surpreende bastante. E nenhuma reclamação a fazer sobre Todd Phillips. Talvez um diretor mais talentoso não desse tanto espaço ao seu ator e, portanto, perderíamos um trabalho deslumbrante. E finalmente a DC conseguiu emplacar um grande filme…

ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD (2019)

once-upon-a-time-in-hollywood-cliff-and-rick-love

Fui cobrado para falar desse filme há algum tempo. Não ia escrever nada, não tenho muito a acrescentar sobre tudo o que já foi dito, mas isso ficou na minha cabeça. Até porque ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD, nono trabalho de Quentin Tarantino (se considerarmos os KILL BILL’s como um único filme) é uma das experiências mais ricas e gratificantes que tive dentro de um cinema nos últimos anos. Quase três horas de puro prazer cinematográfico, feito por quem realmente sente tesão por cinema, ou por fazer cinema, pela mágica, pela fábula do cinema, a ficção, esse baluarte contra a realidade… Enfim, é Tarantino no seu melhor.

E o filme trabalha muito bem com essa ideia de fábula (Não é a toa que o título começa com “ERA UMA VEZ”). Mistura personagens típicos do imaginário “tarantinesco”, mas num contexto mais palpável (a Hollywood dos anos 60, o período de transição da indústria do cinema, a contracultura fervilhando), no qual o sujeito faz questão de subverter. A partir disso, temos Leonardo DiCaprio e Brad Pitt perambulando por Hollywood: O primeiro é Rick Dalton, ator que teve um passado de glória como cowboy numa antiga série de TV, mas agora está confinado, de uma produção à outra, aos pequenos papéis de vilão em participações especiais; O segundo, Cliff Booth, é a sua sombra, seu dublê, seu faz-tudo e, acima de tudo, seu amigo.

EGNWDrrWsAMiI3g

São várias camadas, vários temas, para explorar em ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD e não tenho capacidade nem tempo de ficar enrolando aqui com isso… Mas a relação entre esses dois sujeitos é um dos mais fortes tratado sobre amizade do cinema recente. Bem bonito mesmo. Outra coisa que gosto é a ideia de mostrar os esforços que um ator faz para existir em seu tempo. E DiCaprio está simplesmente genial nessa representação. Só a sequência dele no trailer soltando os cachorros por ter esquecido umas falas já é melhor que a performance inteira que lhe rendeu o Oscar há alguns anos. E depois da gravação da cena, quando a menina lhe diz que foi a maior atuação que ela já viu na vida, fiquei tão emocionado quanto o próprio Rick Dalton…

EHNb4pHWwAAuZaq

MV5BMjQwZGMyNmItYTc4Yy00YjBlLThkYmItZWYxZTA5ZGQ0NDM0XkEyXkFqcGdeQXVyNjUwNzk3NDc@._V1_

MV5BYmVjM2E5YjItNzkyYi00OTliLWI3YjItZjlhOGE1MDhlZDg2XkEyXkFqcGdeQXVyNjQ4ODE4MzQ@._V1_

Mas o que realmente me fascina em ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD é um outro viés, bem mais sutil, mas tão importante quanto qualquer outro tema do filme. Reflete bastante pela presença de Sharon Tate (Margot Robbie), mas acaba dominando boa parte da atmosfera do filme, que é essa rememoração do fantasma de Charles Manson (que mal aparece no filme, quebrando várias expectativas), no que o filme pode ter de macabro e fatalista levando consigo os últimos fragmentos da utopia hippie. O que gera sequências como Brad Pitt no acampamento da seita de Mason, por exemplo, que é das melhores coisas que Tarantino já filmou na carreira.

Só que por outro lado, como já disse, Tarantino tem a crença total no cinema, em seu poder de fábula. Então, ele reescreve a história, como havia feito em BASTARDOS INGLÓRIOS. É por isso que temos coisas lindas como a cena da luta entre Booth e Bruce Lee – que gerou e uma polêmica danada – ou um final que transforma uma tragédia histórica numa farsa sangrenta. Um modo de usar o “Era uma vez” para dar sentido à vida. O cinema é mais bonito que a vida e substitui aos nossos olhos um mundo que concorda com nossos desejos.

MV5BM2I5MDVjOGItZDVlYS00NzY2LTliZGEtNDFjMWM1NDkzMDUxXkEyXkFqcGdeQXVyNjUwNzk3NDc@._V1_

O elenco que Tarantino reuniu, como sempre, é especial: Al Pacino, Bruce Dern (que substituiu o Burt Fucking Reynolds, RIP), Kurt Russell, Luke Perry (RIP também), Michael Madsen, Martin Kove, Clu Gulager, James Remar, entre outros… Todos atuam com brilho e fazem suas participações, por menores que sejam, com dignidade. Se rolar uma versão estendida, é bem capaz de aparecer ainda o Tim Roth, que teve suas cenas cortadas.

Se querem saber, pra mim ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD é, certamente, o melhor filme de Tarantino desde os KILL BILL’s, e o melhor que assisti este ano até o momento. E como já estamos no final de outubro, acho bem difícil algum outro tomar este posto. Talvez THE IRISHMAN, de Martin Scorsese, que estreia mês que vem na Netflix e eu já estou babando de ansiedade. Veremos… De qualquer modo, 2019 está sendo um belo ano para o cinema.

DVD REVIEW: A PRISIONEIRA DO CÁUCASO (1966); CPC UMES FILMES

Kavkazskaya.plennitsa.04

Acabo de ver A PRISIONEIRA DO CÁUCASO, que a CPC UMES Filmes lançou recentemente no mercado em DVD. Já previa que ia gostar logo de cara quando vi o nome do diretor, o russo Leonid Gayday, que já citei por aqui quando comentei sobre BRAÇO DE DIAMANTE, também lançado pela distribuidora na sua série de filmes soviéticos. E não deu outra. Trata-se de mais uma comédia deliciosa e irreverente do diretor, fazendo jus ao grande sucesso na época de seu lançamento, ultrapassando a marca de setenta milhões de ingressos vendidos.

Mesmo repleto de um humor que se escora em elementos regionais, A PRISIONEIRA DO CÁUCASO é um filme fácil e acessível no melhor sentido das palavras, mesmo para um olhar ocidental. Inspirado num conto de Leo Tolstoi para os tempos soviéticos modernos (década de 60), a trama gira em torno de Shurik (Aleksandr Demyanenko), um ingênuo estudante russo que viaja de burro pelas aldeias rurais à procura de velhos contos e tradições folclóricas. A história se passa na região do Cáucaso, onde o rapaz se mete em várias situações absurdas e cômicas – humor nonsense, leve e bobo, mas que me deixou com um sorriso no rosto durante toda a projeção – ao interagir com os estereótipos e a cultura local. Numa dessas, Shurik acaba entrando numa enrascada ao se envolver por engano no plano de sequestrar Nina, uma jovem atleta que está passando férias na casa de seu tio, a fim de forçá-la a se casar com um poderoso político local.

img407_8164_308e4h

Pensando estar seguindo as tradições da região, o nosso ingênuo herói percebe o embaraço por ter ajudado no crime e resolve consertar o estrago. E A PRISIONEIRA DO CÁUCASO vai ficando cada vez melhor e absurdamente hilário, com personagens e situações de fazer o cinema vir abaixo de tanta risada (a perseguição de carro pelas estradas no final é digna de antologia das melhores comédias dos anos 60). Um dos destaques do filme é o elenco. Demyanenko está ótimo, mas é ofuscado por Nina, interpretada por Natalya Varley, que é uma fofura, tem muito carisma em cena. Mas o melhor de tudo é uma uma versão russa de Os Três Patetas, os capangas encarregados de sequestrar a moça (um deles interpretado por Yuiy Nikulin, protagonista de BRAÇO DE DIAMANTE), típicos sujeitos que usam a cabeça de um deles como aríete, para arrebentar uma porta trancada…

img138_8748_o863px

Bom demais! Agora preciso ver um outro exemplar já lançado pela CPC UMES Filmes em DVD há alguns anos, 12 CADEIRAS, também do Gayday. Tenho a impressão que vou me divertir tanto quanto este aqui e BRAÇO DE DIAMANTE.

O DVD de A PRISIONEIRA DO CÁUCASO lançado pela CPC UMES Filmes no mês passado está valendo muito a pena. Imagem restaurada, som excelente, tem informações sobre o diretor, argumento e trilha sonora, e o filme em si é uma belezura. Pode ser encontrado nas melhores lojas do ramo ou no site da distribuidora. E não deixe de curtir a página da CPC UMES Filmes no Facebook para ficar sabendo das novidades e os seus próximos lançamentos em DVD e Blu-Ray.

CIDADE DAS ILUSÕES (Fat City, 1972)

large_fat_city_16_blu-ray_

A Versátil vai lançar um box do John Huston em dezembro e, dentre os títulos, o destaque é sem dúvida CIDADE DAS ILUSÕES, um dos melhores filmes do homem. Como sabem, Huston é diretor da era clássica de Hollywood, tinha mais trinta anos de carreira àquela altura. Mas aí veio a Nova Hollywood e suas liberdades, os velhos diretores acoados, e o sujeito me vem com essa PEDRADA que é CIDADE DAS ILUSÕES.

Foi uma espécie de filme redenção para Huston, cujos dois ou três trabalhos anteriores não foram muito bem. Baseado num romance de Leonard Gardner (que também escreveu o roteiro), o filme segue Stacy Keach como Billy Tully, um lutador de boxe que nunca viu o sucesso e vive na miséria. Quando Billy faz uma rara visita à academia, ele conhece Ernie (Jeff Bridges), a quem Billy vê algum potencial no boxe e sugere que vá ver seu antigo treinador, Ruben (Nicholas Colasanto). Ernie acaba indo e logo se vê trinando sob a batuta de Ruben, enquanto a vida de Billy se deteriora ainda mais. Especialmente quando começa um caso com uma alcoólatra chamada Oma (Susan Tyrell, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por este filme).

title_fat_city_blu-ray

Ao mesmo tempo em que Ernie começa sua carreira de lutador, ele também enfrenta problemas quando engravida sua namorada e logo deixa para trás o mundo do boxe. Quando Ernie e Billy se reencontram numa jornada de trabalho pesado no campo, ambos se inspiram para voltar ao ringue. No entanto, para quem supõe que os personagens de Bridges e Keach conseguem superar as dificuldades e enxergam alguma esperança no horizonte através do esporte, num tipo de clímax vitorioso nos ringues de boxe, bom, a coisa não vai muito por esse caminho. Isso porque CIDADE DAS ILUSÕES não é lá um “filme de boxe” (apesar do próprio Huston ter sido boxeador na juventude). É um filme sobre pessoas fodidas na vida. É um retrato amargo sobre perdedores, que por mais que tenham sonhos e ambição, são fodidos demais para alcançar seja lá quais forem seus objetivos… Ao invés do sucesso, a frustração inevitável de indivíduos que povoam quartos sujos de hotéis baratos, bares decadentes e academias de ginásticas de periferia.

large_fat_city_17_blu-ray_.jpg

As coisas até parecem começar a dar certo para Billy no terceiro ato do filme, quando finalmente se livra da amante e vence sua luta de “retorno”. Mas logo depois se autodestrói, rastejando de volta à primeira garrafa que vê pela frente. Não há redenção em CIDADE DAS ILUSÕES. Billy termina o filme exatamente como havia iniciado e, embora não conheçamos o seu futuro, parece ser totalmente insignificante… Mas o filme também não fica fazendo julgamentos moralistas pra cima dos personagens. Huston os trata como seres humanos enquanto sua câmera documenta os destroços que são suas almas nessa vida de desolação.

large_fat_city_10_blu-ray_.jpg

Huston era um mestre de marca maior, um contador de histórias fenomenal. E aqui está no auge, mesmo num trabalho aparentemente mais discreto, “menor”, que estuda os pequenos detalhes, mas que é ao mesmo tempo uma obra poderosa e sensível, iluminada pela condução de Huston e pelas performances maravilhosas de Keach e Bridges. A fotografia magistral de Conrad Hall também é outro destaque. Prova que ele podia filmar bares e academias com tanta habilidade que quase dá para sentir o cheiro de cigarro, cerveja e suor.

Para John Huston, CIDADE DAS ILUSÕES foi um retorno bem-sucedido, um sucesso de crítica e financeiro. E o velho ainda tinha talento de sobra para gastar mesmo depois de todas as transformações que o cinema americano sofreu no período. Enfim, aqueles que esperam um filme esportivo inspirador podem ficar desapontados, mas pra quem curte estudos de personagens, CIDADE DAS ILUSÕES é uma pequena obra-prima. E só por esse título já tá valendo a caixa que a Versátil vai lançar.

HARDGORE (1974)

2PQ9N

Uma jovem ninfomaníaca que sofre de alucinações é colocada em um centro de reabilitação. O que ela não sabe é que o proprietário do local é o líder de um culto satânico que usa seus pacientes neuróticos para povoar orgias bizarras com direito a sacrifícios humanos… Bom, não dá pra negar, ao menos, que HARDGORE é um filme único!

Com apenas uma horinha de duração, trata-se de um híbrido de terror/pornô, típico do cinema de exploração americano dos anos 70, do tipo ‘porn chic‘ daquela época, mas jogando satanismo e gore na mistura. E resulta num filme pornô que, pelo menos, tenta algo diferente, o que é sempre bem-vindo, é claro. Mas acho bem difícil alguém ficar excitado hoje em dia com esse tipo de material… Nenhuma atriz (ou ator) é muito atraente, as cenas de sexo explícito não tem lá muita graça, e a trilha sonora tem a mania irritante de reciclar a mesma música repetidas vezes durante o filme. As sequências de horror são pouquíssimas e esporádicas, e, quando acontece, a falta de orçamento não ajuda muito. As tais “orgias satânicas” são quase completamente estáticas e com pouca coisa interessante acontecendo, apesar de algumas torturas. A cena em que uma mulher é guilhotinada no momento em que seu parceiro atinge o orgasmo definitivamente é um dos destaque de HARDGORE (aliás, que título mais cretino, pqp). Outra ceninha boa é a do cara que tem o pênis cortado, o que resulta na protagonista recebendo um tipo diferente de fluido no rosto, diferente do que ela originalmente esperava… Sim, um filme para toda a Família! As sequências de alucinações da protagonista também são bem bobinhas. Na maioria das vezes, bastante ridículas (vibradores voando com cordinhas, jorrando porra?). Eu sei, não deixa de ser bizarro ao mesmo tempo. 

Depois de passar maus bocados, a protagonista se vinga no final sob a forma de um tumulto generalizado, mas mesmo isso é bastante tedioso e o filme acaba de repente. Recomendo.

ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.14: THIRD FROM THE SUN (1960)

bscap0005

O cientista William Sturka (Fritz Weaver), certo de que uma guerra nuclear capaz de destruir todo o planeta é iminente, conspira com o piloto de teste Jerry Riden (Joe Maross) para roubar uma nave espacial experimental e fugir com suas famílias para um outro planeta. Após alguns contratempos, conseguem embarcar na nave e partem rumo ao desconhecido. No espaço, perguntam como será a nova casa. Das transmissões de rádio, sabem que é habitado por pessoas como eles mesmos, e que o nome do planeta é… Bom, não vou revelar para não estragar o prazer de quem ainda não viu THIRD FROM THE SUN. Um dos meus episódios favoritos da primeira temporada de ALÉM DA IMAGINAÇÃO.

Embora a revelação seja um bocado óbvia… Como o título já diz, é o terceiro planeta a partir do sol…

bscap0006

O capítulo foi adaptado por Rod Serling a partir de um conto de mesmo nome escrito por Richard Matheson (que já estava trabalhando como roteirista na série). Ao contrário de AND WHEN THE SKY WAS OPEN, uma adaptação mais livre de Serling da história “Disappearing Act” de Matheson, este aqui é mais fiel ao seu material de origem. Serling simplesmente aprimorou um pouco a trama, adicionando um vilão (Edward Andrews) e mudando alguns detalhes para criar suspense. A história de Matheson é boa, mas muito sintética, não há o suficiente para transformá-la em um episódio de meia hora de uma série como ALÉM DA IMAGINAÇÃO sem adicionar outros elementos.

O episódio marca a estreia de Richard L. Bare como diretor da série. Faria um total de sete episódios ao longo dos anos. E uma das coisas que chama a atenção em THIRD FROM THE SUN é justamente o seu inventivo trabalho de direção. Basicamente, o episódio inteiro é filmado com a câmera em ângulos tortos e desconfortáveis e outros truques elaborados para brincar com a percepção do espectador, jogando visualmente evidências de que a trama transcorre num planeta estranho. E Bare consegue isso brilhantemente, empregando o uso de lentes grande angular que encobrem esse mundo em uma atmosfera de desorientação.

bscap0003

Os atores também merecem destaque. Especialmente Fritz Weaver, que está fantástico aqui, carregando a culpa de ter contribuído para criar esse mundo horrível prestes a virar pó. Mas Edward Andrews é quem rouba a cena nos poucos momentos em que aparece. Seu personagem é o típico vilão que na superfície não há muito o que notar. Seus atributos maquiavélicos são encontrados não tanto no que ele diz, mas na maneira como diz e no clima desconfortável que parece se apegar a ele onde quer que vá. Um bom exemplo disso é durante a cena da mesa de pôquer (da imagem acima), quando Andrews entra na casa de Sturka enquanto ele e Riden estão traçando sua rota de fuga. O sujeito não diz nada de ameaçador durante a cena, mas a ameaça está lá, irradiando dele. Em um movimento, Andrews pega as pontuações de pôquer dos dois sujeitos, que coincidentemente tem o plano de fuga do outro lado da folha. Uma aula de gestos, olhares e suspense…

Mesmo com a grande revelação final de THIRD FROM THE SUN sendo totalmente óbvia e previsível, a história que a antecede apresenta uma reflexão interessantes sobre uma das maiores paranóias do período, a ameaça de uma guerra nuclear entre EUA e URSS durante a Guerra Fria. Além disso, temos personagens atraentes e uma trama tensa suficiente para o episódio merecer o carimbo de “diversão garantida”.