A PROFECIA (The Omen, 1976)

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Revi depois de séculos A PROFECIA. Filmaço demais… Elenco de primeira, produção impecável, a trilha sonora de Jerry Goldsmith, sequências aterrorizantes antológicas… Além de ser um filme que possui todas as características de um horror específico de classe e elegância no qual havia começado a surgir em meados dos anos 60, quando o gênero finalmente foi levado à sério pelos grandes estúdios após o sucesso de obras como O BEBÊ DE ROSEMARY e O EXORCISTA.

E foi depois de assistir ao clássico de William Friedkin que o produtor Harvey Bernhardt teve a ideia de realizar uma obra de horror com bases religiosas, mas que pudesse bater de frente com O EXORCISTA. Sim, o cara não queria apenas aproveitar o sucesso do horror de Friedkin, mas produzir uma obra que tivesse a mesma importância no gênero.

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Quando Bernhardt se aproximou do roteirista David Seltzer (A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE) com a ideia de fazer um horror religioso, o roteirista ficou relutante porque sequer havia lido a Bíblia na vida. Mas foi exatamente por aí que ele começou sua pesquisa, um material pelo qual acabou se tornando fã. Seltzer ficou fascinado especialmente pelo livro de Apocalipse, as passagens que falam do surgimento do Anticristo, o contexto pelo qual ele nasceria, que tipo de família teria, o número da besta, 666, e assim o roteiro de A PROFECIA foi tomando forma.

Demorou seis semanas para Seltzer terminar o script. Bernhardt finalmente pode andar pelos estúdios com o projeto debaixo do braço, mas era sempre recusado com o consenso de que o material era muito assustador… Acabou parando na Warner ainda em 1974, mas quando O EXORCISTA II: O HEREGE entrou no radar da produtora, acharam que A PROFECIA era muito similar e acabou sendo engavetado por um ano, período que se a produtora não começasse os trabalhos, o roteiro ficava livre novamente. E foi o que aconteceu. Curioso que a continuação d’O EXORCISTA só acabou lançado em 1977, um ano depois de A PROFECIA.

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O diretor Richard Donner papeando com o grande Gregory Peck

É que os caras agiram rápido. O próximo movimento foi enviar o roteiro à Richard Donner, que viu potencial na coisa e botou na cabeça que queria dirigir o projeto de qualquer maneira. Donner já era um veterano da televisão na época, mas em produções para cinema ainda não tinha feito nada relevante (o sujeito depois se tornaria um dos grandes artesões de Hollywood, com SUPERMAN e a série MÁQUINA MORTÍFERA no currículo), mas ele e o produtor Alan Ladd Jr. acabaram assumindo à frente da produção de A PROFECIA, sob a batuta da Fox.

Como todo bom e velho set de produção de filmes de horror demoníaco, a coisa parecia meio amaldiçoada e alguns eventos sinistros começaram a ocorrer com membros da equipe e atores durante as filmagens. Vale a pena listar como curiosidade: Gregory Peck e Seltzer, por exemplo, pegaram aviões separados para ir as filmagens na Inglaterra e ambos os aviões foram atingidos por um raio. O mesmo quase aconteceu com Bernhard, que estava em Roma, quando um raio por pouco não lhe atinge a cabeça. Os rottweilers contratados para o filme atacaram seus treinadores. Um hotel no qual Donner estava hospedado foi bombardeado pelo IRA! E o sujeito também foi atingido por um carro enquanto atravessava a rua. Depois que Peck cancelou um vôo para Israel, o avião que ele viajaria caiu, matando todos a bordo…Brrrr Dentre outras coisas do tipo.

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Bom, vamos ao filme. Na trama de A PROFECIA, o filho do embaixador americano, Robert Thorn (Gregory Peck) morre no parto. Para evitar o sofrimento da mulher (Lee Remick), ele acaba adotando ilegalmente um menino de um padre que estava no local, e lhe dá o nome de Damien (Harvey Stephens) para criar como seu próprio filho. O único problema é que o moleque, na verdade, é o filho do Demo, o Anticristo em carne e osso…

Claro que o embaixador não vai acreditar nisso de primeira. Mas então, no aniversário de Damien, sua babá se pendura pelo pescoço na frente de uma infinidade de crianças, um padre que tentava alertar a Thorn que seu filho é o Ziza acaba empalado por um pára-raios, sua esposa quase quebra o pescoço ao “cair acidentalmente”, a cabeça de um fotógrafo que ajuda Thorn é cortada por uma folha de vidro e, por fim, o protagonista encontra um 666 marcado no couro cabeludo do moleque. Aí sim, Thorn finalmente está convencido de que seu filho é o Anticristo.

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E uma ideia que gosto neste primeiro filme da série A PROFECIA é que Damien é muito novo para entender sua essência maligna, que ele é o Anticristo, o terrível mal que causa às pessoas. Ele é simplesmente controlado por uma força diabólica e inocentemente não sabe. O que faz do personagem de Peck ainda mais complexo, por carregar o peso da culpa em tentar fazer algo bom para sua esposa, mas que se torna também o seu principal pecado.

Originalmente, o roteiro de Seltzer era bem mais explícito no tom sobrenatural, com direito à criaturas demoníacas aparecendo na tela. Mas decidiram que o roteiro precisava de uma pequena “podada” e chegaram à conclusão de que o filme deveria ser o mais realista possível, que o horror deveria vir da paranoia de um pai em relação ao filho e todos os eventos aterrorizantes deveriam ter uma ambiguidade. A PROFECIA se constrói de modo a encorajar a dúvida no espectador… Será que foi um acidente, uma coincidência, ou foi mesmo obra do tinhoso? Até que se chegasse no limite… É meio que uma recusa, no bom sentido e para benefício do filme, do uso de elementos sobrenaturais para deixar o espectador decidir se o protagonista está louco ou se há realmente algo demoníaco no garoto. Todas as mortes do filme podem ser plausivelmente explicadas e nunca se escancara para o fantástico. As continuações não tiveram a mesma sensibilidade e eliminam qualquer vestígio de ambiguidade.

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Mas nada impede de termos alguns momentos aterrorizantes, como o ataque dos babuínos no carro da senhora Thorn; a sequência que Thorn e o fotógrafo vão num cemitério e acabam rodeados de rottweilers; ou toda a sequência final em que Thorn precisa tirar Damien de casa e sacrificá-lo numa igreja, mas não sem antes encarar a babá (Billie Whitelaw), uma adoradora do Diabo que morreria antes de deixar que Thorn faça qualquer mal à criança…São alguns exemplos de gelar a espinha.

No elenco, depois que Charlton Heston, William Holden (que ironicamente estrelou a continuação em 1978, DAMIEN: THE OMEN II) e Roy Scheider recusaram o papel, Gregory Peck achou que seria uma boa aceitar fazer um pequeno filme de terror e tentar se libertar de um trauma pessoal que estava vivendo depois do suicídio de seu filho. E Peck é absolutamente vital para o impacto de A PROFECIA. É um astro de longa data mais conhecido por sua interpretação de figuras de autoridade reconfortantes, como o advogado em O SOL É PARA TODOS e agora o vemos aqui, precisando empunhar uma adaga mística para matar o Anticristo, que por um acaso é um moleque que ele criou… À medida que seu personagem passa por uma transformação gradual de sólida integridade à crescente paranoia e medo, o filme se aprofunda num arrepio palpável. É impossível imaginar o mesmo impacto com outro ator.

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Todo o elenco merece destaque. A adorável Lee Remick (ANATOMIA DE UM CRIME) é a escolha perfeita como a esposa de Peck, e embora seu papel não permita tanto tempo de tela, ela interpreta a desintegração mental gradual da personagem muito bem. David Warner (STRAW DOGS) tem uma boa participação como um fotógrafo que se depara com um fenômeno estranho e resolve ajudar o protagonista. Acrescenta muito a um personagem que certamente não teria muito peso na trama, mas acaba tendo uma química forte com Peck. Billie Whitelaw está absurdamente sinistra como a babá do Inferno, enquanto Patrick Troughton chama a atenção como o padre perturbado que avisa Thorn sobre o perigo iminente. Leo McKern e Martin Benson também brilham em pequenos papéis.

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Um dos mais memoráveis, no entanto, é o pequeno Harvey Stephens como Damien. É um belo retrato da inocência e da malevolência num rosto angelical, e ele se mostra muito hábil em lidar com as diferentes facetas de seu personagem.

A longa experiência de Richard Donner na televisão deu a ele as condições que ele precisava para trazer substância para o projeto, mas também mostra um tremendo talento para o artesanato visual, fazendo uso inspirado da tela larga. Sua abordagem sensata à história, mais focada no clima e na tensão atmosférica impede também que o filme se torne grosseiro ou descambe para o exploitation, e até mesmo as célebres cenas das mortes, como o empalamento do padre e a decapitação do fotógrafo em câmera lenta ao estilo Peckinpah, são tratadas com bom gosto e moderação.

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Donner também demonstra muita noção de ritmo e conduz o filme num compasso lento mas sem excessos, sem tirar o ânimo do espectador em momento algum ou perder o foco da tensão da trama. E não dá pra terminar este texto sem mencionar a maravilhosa trilha sonora de Jerry Goldsmith, que acabou levando o Oscar daquele ano, desbancando Bernard Herrmann com sua trilha para Taxi Driver. Um canto coral apocalíptico arrepiante e poderoso que se encaixa perfeitamente no tom do filme. E Donner soube como fazer tudo funcionar lindamente.

O filme teve três continuações, as duas primeiras, DAMIEN: A PROFECIA 2 e A PROFECIA III: CONFLITO FINAL foram parar no cinema, e uma última, mais obscura, OMEN IV: THE AWAKENING foi feita para a TV já nos anos 90. Preciso rever a parte II e III para emitir qualquer opinião, mas essa quarta parte nunca encontrei para ver e me parece um produto bem picareta tentando resgatar a série… Mas só vendo mesmo pra saber.

Recentemente, A PROFECIA passou na tela grande, nesses clássicos que a rede Cinemark exibe mensalmente. Eu acabei perdendo, vê-lo no cinema provavelmente teria um impacto ainda maior. Mas fica a recomendação de um grande filme de horror dramático e apocalíptico que merece sempre ser visto e revisto.

2 pensamentos sobre “A PROFECIA (The Omen, 1976)

  1. Faltou citar que o sucesso de bilheteria do filme ajudou a FOX a reequilibrar as contas e como disse Donner, George Lucas pode finalmente terminar seu “filminho”.

  2. Ei ,Perrone ! Esqueceu de escrever que esse filme ” A Profecia ” possue um remake estrelado pela Mia Farrow feito em 2006 ,mais para mim o primeiro é o mais impactante dentre suas continuações ,eu assisti todos esse filmes na Rede Record ( já nas mãos da Igreja Universal ) e depois esses filmes inclusive o quarto da serie e seu remake passaram na Rede Globo.

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